Algumas palavras sobre o Curador-Ferido

(19 de outubro de 2012)

(Este foi o texto base para da  apresentação realizada no II Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, 19 de outubro de 2012)

É com muito prazer que  participo desta mesa, juntamente com a profa. Isabele Santos Eleotério, para pensarmos e contribuirmos com a psicologia junguiana no ES. Neste congresso já tivemos o prazer de ouvir o Prof. Maddi, Profa. Kathy e a Profa. Elizabeth, aliás é sempre um prazer ouvi-los. A minha contribuição é uma breve reflexão acerca da representação arquetípica que denominamos curador-ferido.

O “arquétipo do curador-ferido” é facilmente reconhecido e intuitivamente compreendido em suas representações. Para ilustrar, vou citar três representações que nos tocam diretamente.

A primeira é também a mais conhecida e “reverenciada”, vem da mitologia grega, que é o Chiron, o centauro meio-irmão de Zeus. Digo que nos toca, pois, nossa herança intelectual nos liga ao pensamento grego. Assim, Chiron e a mitologia grega nos possibilitam acompreensão de forma tão clara dos arquétipos. No caso, Chiron que era detentor das artes de cura, sendo inclusive mestre de Asclépio, o deus da medicina. Num dado momento, Herácles, que passava pelo Monte Pelion, entrou numa confusão com centauros, nesse conflito acidentalmente Héracles alvejou Chiron, com uma flecha embebida pelo sangue da hidra de Lerna, causando uma ferida mortal. Contudo, por ser imortal, Chiron passou a sofrer dores monstruosas, pois, toda sua habilidade de cura não era suficiente contra o sangue da hidra.

A segunda representação nos toca diretamente, pois, somos atravessados pela tradição judaico-cristã, quer professemos ou não a fé cristã. Assim, temos Jesus Cristo como representante do curador ferido. Suas feridas já faziam parte das profecias do antigo testamento. “Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados.” (Isaias 53:3- NVI). No novo testamento temos outras referências a seu caráter curador “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados”.( I Pedro 2:24 – NVI).

O terceiro também é presente na nossa cultura, vindo da tradição afrobrasileira, que nos toca sutilmente e compõe nossa forma de ser.  Na tradição do candomblé e da Umbanda temos o orixá Xapanã, também chamado de Omulu ou Obaluae.    Em seus mitos, verificamos que quando esse orixá era criança, teve seu corpo tomado pela varíola, motivo pelo qual foi abandonado por sua mãe Nãnã. Ele foi encontrado e tratado por Yemanjá, mas, ficou com o corpo com as terríveis marcas da varíola. Conta-se também, que quando Olodumaré foi dividir seus bens, essa divisão ocorreu quando Xapanã estava ausente, os orixás pegaram os “bens”, restando para ele somente a peste. Posteriormente, ele se tornou um orixá muito temido e respeitado justamente por ser o senhor das doenças e da cura das mesmas.

(eu poderia até citar um outro curador-ferido, que expressa a crença e a fé na ciência. Que é o personagem Gregory House, que representa bem o curador ferido).

O arquétipo do curador-ferido nos é especialmente atraente por se referir à dinâmica do processo de cura e, por conseqüência, por nos permitir pensar a dinâmica que envolve a relação terapêutica. Especialmente pela perspectiva de Guggenbuhl-Craig(1978) que amplia a compreensão desse arquétipo, que afirma que se a consciência se identifica com um pólo do arquétipo, o contrario é constelado no inconsciente. Isto é, numa situação de doença, se constela na consciência a dinâmica da doença e o pólo de “curador”  se constela no inconsciente.  O fato de ser inconsciente, propicia que o polo curador possa projetado seja na figura do médico ou do terapeuta. Guggenbühl-Criag aponta a necessidade de integrar o pólo de cura, justamente para  mobilizar todo potencial de cura do individuo.

Mas, eu gostaria de pensar o arquétipo sob outra perspectiva, pois, quando vemos essa imagem arquetípica temos dois aspectos:  “cura” ou “curador” que se opõe à “ferida”. As imagens citadas (Quiron, Cristo, e Obaluae) distinguem-se justamente por possuírem um limite, o qual denominamos “ferida”, que se torna tão próxima ou mesmo, necessária aos seres humanos. Assim, poderíamos associar ao curador os seguintes elementos:

Curador

Ferida

Saúde

Doença

Possibilidade

Limite

Total

Parcial

Imortal

Mortal

Divino

Humano

Se pensarmos que o pólo curador, expressa a “possibilidade de possibilidades”, o potencial de vir-a-ser, o impulso heroico de expansão. A ferida é um limite. Assim como doença, a velhice também constituem limites ao homem. A Possibilidade-Saúde-Cura e o Limite-Doença-Ferida são opostos refletem o aspecto autorregulatório da psique. De fato, os mitos sempre apontam para a necessidade integrarmos os limites, para não incorrermos na “desmensura” ou na hybris, o erro muitas vezes fatal dos heróis gregos.

É interessante que notarmos que vivemos numa cultura que ainda tem dificuldades de lidar com os limites, isto é, mais propriamente feridas. Não estou advogando em prol da doença, mas, chamo atenção ao Guggenbuhl-Craig nos alerta acerca dos perigos da fantasia da saúde como força, totalidade (como pleno funcionamento fisiológico e mental) que pode ocultar na verdade a ideia de perfeição, que nos leva a uma busca por algo inatingível. Essa busca se manifesta por diferentes vias. Seja excesso de cuidados, ou pela negação dos limites. Lidar ou aceitar com os limites não significa resignação, mas, uma consideração adequada da realidade e do que é a saúde para o indivíduo nesse momento.

Eu já ouvi de pessoas/pacientes religiosos dizerem que não podem ter essa ou aquela doença/limitação por serem tementes a Deus, ao eu respondo, “olha, vc já ouviu falar no apóstolo Paulo que tinha um “espinho na carne” que Deus se recusou a tirar, ou mesmo se conhece o profeta Elias que nos dias de hoje seria diagnosticado estando com depressão”.

Por outro lado, nós que trabalhamos com as “artes de cura”, devemos considerar as feridas do curador como um limite a cura, ou melhor, um limite ao desejo de curar. Pois, “o desejo de curar” muitas vezes expressa esse “ideal de saúde ou perfeição”, onde o terapeuta impõe uma realidade estranha a realidade ou a verdade do paciente. A busca incessante pelo ideal de saúde pode ser mais opressivo que a limitação e a doença. Jung aponta que o que terapeuta nao suporta o paciente também não vai suportar.

Por isso mesmo, integrar as feridas-limites significa aceitar nossa humanidade, como uma forma de possibilitar a quem atendemos integrar tanto o pólo “curador” quando o pólo “ferida”. É, como o prof. Maddi disse ontem, aceitar que a vida gera vida, tanto pela possibilidade quanto pelo limite. Pois, é através da integração dos dois que podemos experimentar “quem somos”.

O arquétipo do curador-ferido expressa o processo de individuação. Acredito que em outras oportunidades poderemos falar mais sobre o processo saúde-doença que é expresso por essa imagem.

Textos utilizados:

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf. O Arquétipo do Inválido e os limittes da Cura ,in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bílbica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BRANDÃO. J. DICIONÁRIO MÍTICO-ETIMOLÓGICO, Vol. I, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

GROESBECK, C.J. A IMAGEM ARQUETÍPICA DO MÉDICO FERIDO,inJUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

Cf. JUNG, C.G. Ab-Reação, Análise dos Sonhos, Transferência, Petrópolis, RJ : Vozes, 1999.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Como é mesmo que descubro o que sou?” Uma breve reflexão a partir de comentários no Facebook

 

(9 de janeiro de 2012)

Há pouco tempo atrás, eu postei no meu mural do facebook uma frase de Jung que considero muito significativa:

“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.”

Ao que uma querida amiga, Fabiane Barbosa, comentou:

Que legal, mas como é mesmo que descubro o que sou??????

Achei essa pergunta muito pertinente e interessante, pois, muitas vezes apenas afirmamos impulsivamente “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”, ao que respondi:

Fabi, através da relações que você estabelece com “você mesma”( de atenção, cuidado, respeito) e com o mundo(relações afetivas, ideológicas e sociais). Se vc analisar essas relações e perceber vc está sendo “integra” ou está “por inteiro” em tudo que você faz, sem se violentar, você está no “seu” caminho certo. O adoecimento se estabelece quando a gente se perde desse caminho ou a gente se perde… estabelecendo relações danosas tanto pra gente quanto pro mundo. o adoecimento psíquico, nesse sentido, é uma tentativa do inconsciente de redimensionar ou corrigir essas relações internas ou externas.

ps.: pq eu falei de relações? pq nessas relações vc vai se perceber… tendo atenção, cuidado e respeito com “vc mesma” vai vai ver o que é “negociável” ou “inegociável” para vc… ai vc vai poder ver e ser no mundo de uma forma mais adequada e respeitosa, tanto a vc mesma quanto ao mundo.

Após escrever essa resposta eu fiquei pensativo. Considerei que seria interessante refletir um pouco mais acerca da noção “do que sou”.

Acredito ser importante compreendermos, em primeiro lugar, que para a psicologia analítica o “ser eu mesmo” ou “o que sou” não é algo estático ou rígido, mas, sim um processo que está em constante desenvolvimento. 

Pode parecer estranho, pois, estamos acostumados a pensar em “eu sou” em termos de “ego” e “consciência”. Contudo, o ego é apenas uma parte da totalidade da psique que nos constitui. O que chamamos de ego é justamente o nosso centro consciente de referência, é comumente o que chamamos de “eu”, sendo o sujeito de nossas ações conscientes, escolhas, que está intrinsecamente ligado a nossa base somática. Através do “eu” vivemos e nos adaptamos conscientemente ao momento presente, e, muitas vezes, acreditamos que o “eu” é “tudo o que sou”, isto é, acabamos por reduzir nossa vida psíquica ao centro da consciência. O que nos expõe aos ventos do inconsciente e a uma possível submissão das exigências do mundo exterior.

O “eu” possui duas funções fundamentais na vida psíquica, a primeira é intermediar os processos adaptativos do organismo com o mundo interior e exterior, a segunda é propiciar os meios para a realização do si-mesmo, este segundo aspecto pertinente ao processo de individuação, discutiremos em outro momento.

Sobre o primeiro aspecto, Jung afirma que

O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior — família, profissão, sociedade — quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas ne­cessidades, poderá surgir a doença. (JUNG, 2006, 143)

Nesse processo adaptativo deve haver sempre o equilíbrio entre adaptação ao exterior e ao interior.  A adaptação ao mundo interior passa pelo reconhecimento de nossa própria história vivida, que se encontra presente e atuante em nossa vida através de nossos complexos. Acho que é importante frisar: nossa história vivida ou passada, não se encontra perdida num passado distante, mas, ela é viva e está no presente e relativamente disponível ao ego, por meio dos complexos.

Os complexos não são entidades patológicas, mas, sim estruturas básicas dos psiquismo individual em torno do qual nossas experiências são ordenadas assim como sua carga emocional. Os complexos são estruturas autônomas no inconsciente pessoal que,  em função de sua autonomia, podem invadir a consciência. O poder do complexo está diretamente relacionado com a capacidade do Ego em lidar com o mesmo, isto é, se o Ego evita ou é incapaz de lidar com os conteúdos complexo, este terá um potencial maior de invadir ou perturbar a consciência, geralmente causando sofrimento.

Por isso, é importante termos clareza que os complexos são estruturas de nossa psique, que se relacionam com o Ego. Para termos uma relação e consideração adequada com os complexos devemos considera-los como conteúdos distintos do Ego.  Eles são fatores que também nos constituem, devemos aceitar e respeitar aqueles elementos fundamentais de nossa história ou enfrentar os elementos de nossa história que nos limitam, impedindo nosso desenvolvimento. É muito perigoso assumirmos a postura Gabriela “Eu nasci assim, eu cresci assim, Eu sou mesmo assim, Vou ser sempre assim”, pois, vai de encontro a natureza da psique que visa o desenvolvimento.

Integrar nossa história significa confrontar e integrar a sombra,  que é o passo fundamental no processo de auto conhecimento. Segundo Jung,

(…) nesta tomada da de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com consideravel resistência. (JUNG, 2000, p. 6)

Concomitante aos fatores de nossa história devemos considerar os fatores individuais relacionados com a dinâmica coletiva externa, neste caso nos referimos a persona.  Segundo Jung,

Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva;em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. (JUNG, 2001, p. 32)

A persona pode ser compreendida como os papeis sociais que um individuo possui. De forma geral, a persona está vinculada a dinâmica do Ego e da Consciência, por fornecer elementos de identidade ao individuo. Contudo, quando nos tornamos inconscientes da persona, isto é, não temos clareza dos papéis sociais e seu alcance, podemos nos identificar com ela, isto é, agindo e percebendo o mundo como se seus atributos fossem atributos do ego.  Um exemplo, seria a pessoa que não consegue se desligar de sua função social, como um juiz que age sempre impondo sua autoridade, ou um médico que exige ser chamado sempre de “doutor”.

Isso significa que todos os demais aspectos de sua vida tendem a ser negligenciados, como o pai, marido, amigo, filho, pois, ele estará sempre sintonizado com esse aspecto de sua vida. Juntamente com os complexos e o Ego, a persona compõe “o que sou”. Mas, ela por si só, não corresponde “ao que sou”.

Assim, para considerar “o que sou” devemos obrigatóriamente considerar o “momento em que estou”. E, ainda mais, é fundamental considerarmos que “o que sou” não é uma definição ou algo determinado e imutável, mas, sim um ponto de partida. Por isso, eu assinalei a importância de compreender “o que sou”  através das relações que estabeleço sobretudo comigo mesmo e com o mundo que me cerca.

É importante compreendermos que é o fato de consideramos toda a complexidade de ser quem somos, não significa que faremos as “escolhas certas” ou as “escolhas boas”, significa que teremos a maior propensão a estarmos por inteiro em nossas escolhas, o que implica não em fazer o “certo”, mas, sim em fazer o que é necessário.

Falta ainda comentarmos sobre o mundo exterior, o mundo exterior é importante justamente por fazer inúmeras exigências ao individuo, p.ex., como ele deve agir, como se portar, expor opiniões, tomar decisões. Enfim, o processo adaptativo com o mundo exterior exige que o ego se posicione, decida e aja. Entretanto, se o ego se posicionar sempre levando em consideração o mundo exterior, negligenciando seus fatores individuais, pode gerar uma reação compensatória do inconsciente – que pode gerar sofrimento. O mundo exterior é fundamental por nos colocar em movimento, através dessas relações e com as dificuldades apresentadas poderemos nos desenvolver.

O confronto com a sombra e o redimensionamento da persona são fundamentais na compreensão de quem eu sou. Vale lembrar, que quando Jung afirma que “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” (JUNG, 2001, p.43), ele não se refere a um conhecimento racional ou puramente consciente, mas, sim a vivência desse ser real.

A integração da persona e da sombra constituem, muitas vezes, uma dificil tarefa. Mas, é o primeiro passo para o desenvolvimento maior da personalidade. Jung afirma

“Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima.(…)Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. (JUNG, 2002, p.39)

Integrar o a dimensão arquetípica da anima é um processo que vai além do autoconhecimento. Pois, implica em integrar a dimensão da alteridade, uma tarefa da segunda metade da vida, própria ao processo de individuação, mas, que vermos em um outro post no futuro.

Referências Bibliográficas

JUNG, C.G O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE,Petrópolis: Vozes, 2006

JUNG,C.G AION – ESTUDOS DO SIMBOLISMO DO SI-MESMO , Petrópolis: Vozes, 2000

JUNG,C.G O EU E O INCONSCIENTE,Petrópolis: Vozes, 2001

JUNG,C.G OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE COLETIVO , Petrópolis: Vozes, 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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“Então é Natal, e o que você tem feito?” – algumas reflexões

 

21 de dezembro 2010

Em 1975 , Jonh Lennon gravou “Happy Christmass (War is over)” que se tornou uma das músicas mais importantes de Natal, com versões em todo o mundo. Ele começa sua musica com um questionamento interessante,

“Então é natal,

e o que você tem feito?”

Essa uma questão muito pertinente que atravessa os vários natais vivemos. Pode parecer estranho falar em natais, mas, de fato, temos diferentes realidades que nos remetem ao dia 25 de dezembro. Apesar de serem distintos, a linha que os separa é muito tênue, afinal, são todos natais.  E quais são eles?

O primeiro é o Natal Cristão –  que seria, em nossa cultura, o “Natal” original, lembrando que natal vem do latim natalis que é derivado do verbo nascor, que é nascer. Assim, é bem claro e difundido que o Natal é uma clara referencia ao nascimento de Jesus Cristo. No natal cristão celebra-se, com o nascimento de Cristo, o nascimento da esperança de salvação. Para a cristandade, o natal marca a mudança na relação do homem com Deus, como diz do texto bíblico “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.”Jo.  1:14 (NVI). Deus se fez carne e estabeleceu uma relação uma com os homens, relação esta que culminou com no sacrifício de Cristo para selar essa relação, marcando assim pela “salvação dos homens”. Independente das relações e questionamentos feitos do natal com mitraísmo, para o cristão o  Natal é um dos mais importantes “mistérios cristãos” que simboliza o nascimento da esperança e da possibilidade de transformação, pois é seguido de um novo ano.

O Segundo é o Natal da confraternizaçãoApesar de ser inspirado no que chamei de “Natal Cristão”, o natal da confraternização não tem um caráter religioso, mas, um caráter afetivo e social, onde paramos para estar com as pessoas que amamos. Essas confraternizações se desenrolam ao longo do mês de dezembro e culminam com a reunião familiar de natal. Muitas vezes, não guarda tanta relação com a religião.Esse natal é importante por possibilitar um momento onde as pessoas podem, em nome de um “espirito natalino”, apaziguar qualquer questão ou problema surgido ao longo do ano.

O Terceiro é o Natal das Compras – Esse é o natal do “papai Noel”. Onde há o imperativo de compras, de consumo. É interessante, que esse natal está relacionado com os dois anteriores pois, há uma esperança de fartura e de um futuro melhor (do natal cristão) somado com a possibilidade de expressar afeto pelas pessoas pessoas queridas com presentes. É interessante, que não podemos apenas criticar essa forma de natal, pois, é o período do ano, com as promoções, muitas famílias encontram condições para melhorar a qualidade de vida.

Essas três formas de natal caminham juntas. Não dá para dizer qual é a correta, como disse, elas se interpenetram. Contudo,  a questão de Jonh Lennon continua

“Então é natal,

e o que você tem feito?”

Independente do natal que vivamos predominantemente, devemos nos atentar para as outras formas. Devemos, refletir que vida que vivemos, ou “ o que temos feito”, justamente para pensarmos a “vida que queremos’” e “o que devemos fazer”.

As vezes, nos vemos tão pressionados com os “eventos natalinos”, com a “angustiante alegria” de natal, com a necessidade de se estar com pessoas amadas e nos esquecemos que o Natal é apenas o inicio. É a vida nasce, é a esperança que nasce. Muitos questionam a validade do dia “25 de dezembro” alegando que não é uma data originalmente cristã e que Jesus não nasceu nessa data, mas, eu acredito que o 25 de dezembro foi um escolha mais que feliz para a celebração do nascimento de Cristo. Isso porque, para os povos pré-cristãos da Europa, o dia 25 de dezembro estava associado ao Solstício de Inverno do hemisfério norte, e era a noite do dia 24 mais longa do ano e, assim, havia festejos com nascer do sol, isto é, o sol que vence as trevas, o nascer do dia era o nascer da esperança.  Quando a cristandade adota o dia 25 de dezembro como Natal de Cristo, há também a conotação de esperança, pois, assim como o Sol vence as trevas da noite,  Cristo também atravessa e vence os três dias de trevas da morte e ressuscita. É o nascimento da esperança.

O nascimento e a ressurreição de Cristo são faces do mesmo mistério, que nos fala de esperança e recomeço.

Mas, então é natal. O que você precisa fazer? Precisa se reencontrar com Deus? Precisa se acertar com sua família? Precisa expressar seu amor por meio de um presente? E o que você tem feito?

Às vezes, pensamos demais e agimos de menos. Às vezes achamos que fazemos tudo errado. Mas, agora isso não importa, porque é Natal. E a alegria do Natal é a esperança do recomeço, de que tudo vai dar certo! O nascimento de Cristo, para a cristandade, traz a certeza que Deus caminhou/caminha ao lado do homem. E tudo é possível. Assim, mesmo que estejamos imersos numa longa noite da vida, o natal é um símbolo vivo que o amanhecer vem. Basta ter esperança.

Feliz Natal!

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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“Por que estudar Mitologia?”

 

9 de dezembro de 2010

Essa pergunta com a qual inicio esse post, já me fizeram várias vezes. Eu gostaria de começar a responder essa pergunta relembrando um encontro de Nise da Silveira com Jung, onde a própria Nise nos relata que,

sentada diante do mestre no seu gabinete de trabalho, junto á larga janela com vista sobre o lago, falei-lhe do desejo de aprofundar meu trabalho no hospital psiquiátrico, de minhas dificuldades de autodidata.
Ele me ouvia muito atento. Perguntou-me de repente:

– Você estuda mitologia? 

Não, eu não estudava mitologia.

– Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem. Os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique.Por isso seu estudo deveria ser matéria fundamental para a prática psiquiátrica. (Silveira apud MOTTA, 2005, p. 73).

Nesse encontro Jung indicou que a Mitologia seria uma chave importante para se compreender a dinâmica da psique.

Mitos e Mitologias

Pessoalmente, eu não conheço uma definição de mito que seja “suficiente”.  Talvez seja, porque mito não seja um conceito, mas, uma noção, uma aproximação a uma dinâmica que não se curva a nossa linguagem denotativa. Por isso, Jospeh Campbell (2004) afirma que os mitos são metáforas.  Com essa afirmação, Campbell nos oferece a primeira chave para compreendermos o por que estudar a Mitologia.

Quando falamos em metáfora, devemos compreender que metáfora é uma figura de linguagem onde há uma relação entre dois termos, sem o uso de um conectivo, isto é, é uma comparação baseada na equivalência dos dois termos, por exemplo :

João é um touro

Nessa afirmação, podemos perceber que a metáfora é como uma zona intermediaria entre “João” e “touro”, onde o segundo termo qualifica, explica e atribui sentido o primeiro termo.

A metáfora a qual Campbell se refere, nos remete a um passado distante, no passado onde a psique humana estava ainda identificada com a natureza. Não havia uma consciência clara que distinguisse os processos internos e externos.Essa unidade original, onde a natureza(ou mesmo o grupo) é extensão do individuo. É nesse passado que os mitos nascem. É interessante considerarmos que os mitos surgem dessa união  ou identidade entre o individuo com o mundo exterior, dessa forma, é um equivoco achar que os mitos são uma forma de “explicar” a natureza, mas, sim um processo de compreensão mútua, pois, o homem se compreendia na medida em que compreendia a natureza, atribuindo significado não só ao mundo exterior, mas, também a si mesmo na relação com este mundo.

Ainda hoje, podemos perceber esses aspectos claramente nas criança pequenas e nos processos de projeção, onde o inconsciente pode “lançar” imagens interiores sobre o mundo exterior, atribuindo um novo significado os objetos. Por outro lado, podemos perceber essa relação por meio da introjeção de imagens, nos são reapresentadas nos sonhos, sintomas e fantasias.

O inconsciente em suas profundezas arquetípicas mantém até hoje essa dinâmica de identidade com o mundo exterior, ao que Campbell denominou como metáforas, dado o estilo lingüístico de equivalência, a psicologia analítica chama símbolos. Outras abordagens, como a Hipnose Ericksoniana tem como seu elemento básico de trabalho o uso da linguagem metafórica como forma de promover uma comunicação com o inconsciente. As metáforas terapêuticas de Erickson são correspondentes aos símbolos na terminologia junguiana.

Outra importante chave para compreender os mitos nos é oferecida por Mircea Eliade, segundo ele

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que  teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são  deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o  homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou  in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo.(…)

A função mais importante do mito é, pois,  “fixar” os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas: alimentação, sexualidade, trabalho, educação etc. Comportando se como ser humano plenamente responsável, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repete as ações deles,  quer se trate de uma simples função fisiológica, como a alimentação, quer de uma atividade social, econômica, cultural, militar etc. (ELIADE, 1992, 50-2)

Segundo Mircea Eliade, os mitos são modelos exemplares, isto é, os mitos são narrativas que oferecem modelos testados ao longo da história da cultura, que permite que o individuo tenha um referencial de ação. Em alguns casos, o mito pode estar imbuído de um conteúdo prática (como por exemplo, como que os deuses ou o herói fundador criou o arco e a flecha, e como devemos fazer) ou um conteúdo moral que orienta as atividades e a divisão do trabalho e da sociedade, dando coesão ao grupo.

A narrativa mítica é composta por um história com inicio meio e fim, isto é, com causas e consequências. que instruem os indivíduos. Em outro post, sobre a “A função psicologia da religião”  eu fiz alguns comentários importantes para se pensar a mitologia/religião.

Joseph Campbell(2002) nos dá uma boa perspectiva da amplitude da função da religião quando ao discutir a função dos mitos (lembrando que segundo Campbell, “mitologia é como chamamos a religião dos outros”), segundo ele, são quatro as funções básicas da mitologia/religião:

1 – Função Mística ou Metafísica

2 – Função Cosmológica

3 – Função Social

4- Função Pedagógica

A função mística ou metafísica corresponde a abertura ao desconhecido, ao mistério da vida e da morte. Através da religiões o homem amplia sua percepção do mundo, integrando a sua vivência uma realidade que está para além dos percepção sensorial – um mundo eterno, espiritual; libertando a psique humana do condicionamento do tempo e espaço.  Isso é importante, pois, essa função também se reflete como uma  abertura ao inconsciente, a criatividade e imaginação. Que são elementos importantes para o equilíbrio dinâmico da psique.

A segunda, a função cosmológica da religião oferece ao homem uma perspectiva sobre o universo e situa o no mesmo. Essa função geralmente foi mal compreendida afirmando que as mitologias e religiões eram uma proto-ciência, uma tentativa de explicar o mundo. As narrativas sobre a origem do universo, dos deuses, dos homens, de como surgiram os instrumentos, etc…não tinham o objetivo de uma explicação “científica”, mas, sim atribuir sentido e significado ao universo que circunda o homem, colocando-o nessa teia da vida. :Se na primeira função indica que há algo para além da percepção, nessa segunda função o homem toma parte desse mundo sobrenatural, percebendo qual é o seu lugar na existência.

A função social da religião se relaciona com o grupo social. Toda religião vai indicar certas regras de convívio social, geralmente, justificando e reforçando os conceitos morais e organizacionais de um grupo, visando a sobrevivência do mesmo, a religião se constitui um elemento de identidade, dando coesão ao grupo

A quarta, é função pedagógica. A religião se apresenta como pedagógica na medida que orienta as ações e comportamentos dos indivíduos em cada etapa da vida. As narrativas religiosas oferecem ao individuo referencias para se organizar frente ao mundo e as dificuldades, para fazer suas escolhas e tomar suas decisões. Em cada etapa da vida, o individuo é cercado por referências (narrativas/mitos) que o prepara para a vida e para morte. As quatro funções são interligadas, pois, uma leva a outra, oferecendo um solo relativamente firme sobre o qual o individuo pode se organizar e viver. Essas quatro funções nos auxiliam a perceber como a  religião pode atuar psique. (MORAES, 2010)

Mitologia e Psicologia Analítica

Em sua prática clínica, Jung observou que tanto os delírios dos pacientes psicóticos quanto os sonhos de pacientes neuróticos podiam se encontrar um aspecto mítico, isto é, alguns aspectos dos sonhos eram similares as imagens e narrativas constantes em diferentes mitologias. A partir desses estudos, Jung pode, posteriormente, formular sua teoria acerca dos arquétipos.

Jung compreendeu que esses sonhos e delírios com aspecto mitológico teriam origem na mesma camada (mais profunda da psique) que deu origem também aos mitos, esta camada seria o inconsciente coletivo.

O Inconsciente coletivo é formado pelos arquétipos, que são padrões de organização psíquica, que podem se manifestar tanto como ações quanto imagens. Os arquétipos correspondem a estrutura básica do psiquismo e, teoricamente, esses padrões não mudaram nos últimos milhares de anos. A vida humana passou por várias transformações em seu aspecto formal, mas, em sua essência continuamos com as mesmas necessidades comuns a vida humana.

Poderíamos compreender os mitos como uma projeção das experiências humanas mais fundamentais(arquetípicas) na consciência coletiva e que foram elaboradas ao longo dos séculos. Os mitos expressam os arquétipos na cultura, através dos mitos podemos ter acesso ao “mundo dos arquétipos” de forma natural, sem ser permeado pela doença ou pela psicopatologia.

O conhecimento dos mitos, nos permite compreender a dinâmica do arquétipo, isto é, nos possibilita compreender as possibilidades e variações das representações arquetípicas, o que significa que através dessas repesentações (que são coletivas) podemos identificar esses padrões em sua manifestação pessoal, isto é, nos complexos, o que nos permite perceber quais complexos estão mais ativos.

Os mitos nos oferecem uma visão global da psique humana, assim, partimos do que seria mais coletivo para o que é individual e único.

E como estudar mitologia?

É fundamental entender que estudar mitologia não significa apenas “conhecer e contar histórias”.  Quando falamos em estudar mitos, nos referimos ao estudo aprofundado das diferentes narrativas acerca do mesmo tema buscando compreender a estrutura do mito, compreender a dinâmica do mito comparando-o com mitos de outras culturas que participam do mesmo tema, por exemplo, no ultimo post sobre o tema do  curador ferido, citamos três mitos diferentes (Obaluae, Quiron e Cristo)que possuem a mesma estrutura.

Um tema mítico não possui uma possibilidade de compreensão, mas, inúmeras já que eles indicam variações possíveis desse tema na vida humana, por exemplo, se tomarmos a maternidade teremos aspectos positivos e negativos – como toda mãe possui esses dois lados : um nutritivo, acolhedor, por outro lado, podem ser dominadoras, devoradas, que impedem o crescimento, severas que punem ou abandonam os filhos.

Tiamat (mitologia sumérica) : os filhos não foram nomeados, e ela tentou devorar os netos.

Gaia : Os filhos com Uranos, eram gerados em mantidos em seu próprio ventre, somente quando a incomodou que articulou com o filho mais novo, para afastar(castrando) o pai. Posteriormente, gerou com Tártaro, Tífão que quase destruiu seus filhos.

Afrodite : deusa do amor, mas, que não permitia que seu filho crescesse.

Nãnã : Orixá das águas paradas, é a mais antiga e respeitada das orixás. É uma mãe severa, há duas  narrativas que envolvem os aspectos da maternidade negativa de Nãnã, segundo uma narrativa dela pune o próprio filho Obaluae com a Varíola, e, em outra, ela abandona o filho devido sua doença, (este foi criado por Yemanjá)

Baba Yaga : Da mitologia européia, especialmente nos mitos/contos de fada Russos, é retratada como uma bruxa que atrapalha o caminho dos homens.

Esses exemplos, mostram que não basta um mito para compreender o mitema ou o arquétipo envolvido.

Assim, conhecer as narrativas e estabelecer comparações entre as narrativas é o primeiro passo para compreender a estrutura dos mitos, por outro lado, é importante compreender ampliar e focalizar os povos que produziram essas mitologias, compreendendo aspectos da história, geografia, cultura(ritos), estrutura social desses povos.

Alguns autores são importantes para começar esse estudo, como por exemplo, Mircea Eliade, Karl Kerényi, Joseph Campbell, Claude Levi-Strauss.

Referencias Bibliográficas

CAMPBELL, Joseph Isto é Tu, Landy: São Paulo,SP, 2004

Eliade, Mircea . O sagrado e o profano  –  A essência das religiões. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

MORAES, Fabricio , A função psicológica da religião, 2010, Jung no Espirito Santo. Acessado em 08/12/2010. no site:http://psicologiaanalitica.wordpress.com/2010/07/11/funo-psicolgica-da-religio/

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Função Psicológica da Religião

(11 de julho de 2010)

Este post é uma complementação dos posts “Psicologia Analítica e Religião” e “Psicologia Analítica Cristã?”. No primeiro apresentei alguns aspectos acerca de como a psicologia analítica se compreende a religião – fazendo algumas diferenciações entre função religiosa, religião e confissão religiosa. No post “Psicologia Analítica Cristã? ” discuti a relação entre a psicologia(de forma geral) e cristianismo(o que podemos expandir para religião de forma geral), pensando no cuidado que devemos ter para não fazermos misturas que podem prejudicar tanto uma quanto a outra. Contudo, não foi discutido de forma específica a compreensão junguiana da função psicológica da religião.

Quando perguntamos “qual a função psicológica da religião?” a resposta mais correta (sob o prisma junguiano)seria: “Para quem?” ou “ Em que contexto?”, isso porque a religião é um fenômeno de complexo, e não há uma resposta simples que valha para todos os contextos.  Assim,devemos separar o aspecto arquetípico da religião do aspecto pessoal(subjetivo) da religião.

Ao qualificar a religião como arquetípica estamos afirmando que há na psique uma tendência natural a produzir símbolos e a atribuir/reconhecer neles um sentido numinoso. A religião e a arte surgem do mesmo “solo arquetípico”, a diferença esta no fato da arte emergir do espanto do homem frente a natureza e possibilidade transforma-la, imprimindo-lhe significado, dando sentido a vida. A religião, por outro lado, emerge do espanto do homem frente frente as forças incompreensíveis da natureza e frente a morte. a religião é a possibilidade do homem lidar com essas potências invisíveis, atribuindo significado/sentido, especialmente no que diz respeito a morte, se configurando como a possibilidade do homem se afirmar frente o desconhecido, superando o mistério da morte. Através da religião o homem encontra um sentido que o torna capaz de viver e enfrentar a morte Toda religião prepara o individuo para a vida, na medida em que o prepara para morte.

Na vida do “homo religiosus” a religião atravessa os vários campos de sua psique, assim, como o poeta Khalil Gibran, fala em seu belíssimo livro “O Profeta” nos diz,

Então UM VELHO sacerdote disse: “Fala-nos da Religião.” E ele disse:
“Tenho eu falado de outra coisa hoje?
Não é a religião todas as nossas ações e reflexões?
E tudo o que não é ação nem reflexão, mas aquele espanto e aquela surpresa sempre brotando na alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou manejam o tear?
Quem pode separar sua fé de suas ações, ou sua crença de seus afazeres?
Quem pode espalhar suas horas perante si, dizendo: “Esta é para Deus, e essa é para mim; esta é para minha alma, e essa é para meu corpo?

(…)

Vossa vida cotidiana é vosso templo e vossa religião.

Todas as vezes que penetrais nela, levai convosco todo vosso ser” (GIBRAN, 1976, p. 75-6)

Joseph Campbell(2002) nos dá uma boa perspectiva da amplitude da função da religião quando ao discutir a função dos mitos (lembrando que segundo Campbell, “mitologia é como chamamos a religião dos outros”), segundo ele, são quatro as funções básicas da mitologia/religião:

1 – Função Mística ou Metafísica

2 – Função Cosmológica

3 – Função Social

4- Função Pedagógica

A função mística ou metafísica corresponde a abertura ao desconhecido, ao mistério da vida e da morte. Através da religiões o homem amplia sua percepção do mundo, integrando a sua vivência uma realidade que está para além dos percepção sensorial – um mundo eterno, espiritual; libertando a psique humana do condicionamento do tempo e espaço.  Isso é importante, pois, essa função também se reflete como uma  abertura ao inconsciente, a criatividade e imaginação. Que são elementos importantes para o equilíbrio dinâmico da psique.

A segunda, a função cosmológica da religião oferece ao homem uma perspectiva sobre o universo e situa o no mesmo. Essa função geralmente foi mal compreendida afirmando que as mitologias e religiões eram uma proto-ciência, uma tentativa de explicar o mundo. As narrativas sobre a origem do universo, dos deuses, dos homens, de como surgiram os instrumentos, etc…não tinham o objetivo de uma explicação “científica”, mas, sim atribuir sentido e significado ao universo que circunda o homem, colocando-o nessa teia da vida. :Se na primeira função indica que há algo para além da percepção, nessa segunda função o homem toma parte desse mundo sobrenatural, percebendo qual é o seu lugar na existência.

A função social da religião se relaciona com o grupo social. Toda religião vai indicar certas regras de convívio social, geralmente, justificando e reforçando os conceitos morais e organizacionais de um grupo, visando a sobrevivência do mesmo, a religião se constitui um elemento de identidade, dando coesão ao grupo

A quarta, é função pedagógica. A religião se apresenta como pedagógica na medida que orienta as ações e comportamentos dos indivíduos em cada etapa da vida. As narrativas religiosas oferecem ao individuo referencias para se organizar frente ao mundo e as dificuldades, para fazer suas escolhas e tomar suas decisões. Em cada etapa da vida, o individuo é cercado por referências (narrativas/mitos) que o prepara para a vida e para morte. As quatro funções são interligadas, pois, uma leva a outra, oferecendo um solo relativamente firme sobre o qual o individuo pode se organizar e viver.Essas quatro funções nos auxiliam a perceber como a  religião pode atuar psique.

A religião é uma importante fonte de símbolos que possibilita que o homem tenha um contato diferenciado com sua realidade interior. Os símbolos religiosos foram elaborados/refinados pela consciência coletiva/cultura, de modo a possibilitar que a consciência tenha contato com a esfera dos arquétipos  sem que isso ofereça risco à integridade da consciência. Através dos símbolos, a energia psíquica inconsciente contribuem para a estruturação do Ego, dando energia e condições para enfrentar as dificuldades do dia a dia.

Por meio do símbolo, o mundo dos arquétipos penetra, através do homem criador, na esfera da cultura e da consciência. O mundo das profundezas fecunda, transforma e amplia, dando à vida do coletivo e do individuo o fundo único que torna a existência plena de sentido. O significado da religião e da arte é positivo e sintético, não penas para as culturas primitivas, também para nossa cultura e para nossa consciência superacentuadas, justamente porque elas oferecem um canal de saída para conteúdos e componentes emocionais cuja supressão foi demasiado rigorosa. Tanto em relação ao detalhe, como também em relação ao todo, o mundo patriarcal da cultura, com a sua primazia da consciência, forma apenas um segmento. As forças positivas do inconsciente coletivo que foram excluídas lutam, no homem criador, por se manifestarem e, através dele fluem para a comunidade. São em parte forças “antigas”, excluídas pela ultradiferenciação do mundo cultural e, em parte, forças novas, nunca presentes antes, destinadas a dar forma à face do futuro.(NEUMANN, 1995,p.269)

Apesar da concepção junguiana compreender que função psíquica da religião é naturalmente positiva, não se nega ou se ignora o fato de que a religião possa ser utilizada por grupos ou lideres religiosos de forma “inadequada”, em alguns casos corroborando com o pensamento de Marx, de que a religião seria o opio do povo. Ou mesmo, o individuo pode ser esmagado pelos dogmas da instituição religiosa (não tendo a vivência saudável da religião), se vendo mergulhado num oceano de culpa, assim, vivendo a religião como uma busca incansável por expiação, se constituído como uma neurose obsessiva, como Freud  sugeria.

Por esse motivo eu apontei acima, que para pensar a função da religião devemos conhecer o primeiro contexto para visualizarmos sua função. A religião não é positiva ou negativa, ela pode funcionar ou atuar de modo positivo ou negativo, dependendo de como for vivida ou manipulada. A religião pode ser veiculo de saúde (como vemos pessoas que realmente superam doenças, drogas, luto etc,), mas, por outro lado,  também pode veiculo de manutenção dos mais diversos preconceitos e estimulando muitas vezes o ódio e a violência. Como disse, tudo depende o uso que é feito da religião.

Nós falamos da religião num prisma coletivo,no campo individual, devemos ter atenção para observar como o individuo se relaciona com a religião. Apesar dessas funções citadas acima atuarem sobre o individuo, o individuo pode se valer da religião de forma patológica – perpetuando culpas ou preconceitos. Acredito que o psicólogo deva condenar e combater abertamente todo e qualquer preconceito ou injustiças cometidas contra qualquer ser humano promovidos por religiões, grupos, seitas ou instituições. Entretanto, quando se trata do individuo, devemos ter cuidado para não atacarmos o individuo perdendo de vista a os fatores que o levaram a essa atitude patológica ( seja o preconceito ou o fanatismo), como diz o ditado “não devemos jogar o bebê fora junto com água do banho”. Se a religião for um fator constitucional fundamental para aquele individuo, devemos leva-lo a questionar aquela atitude ou sua crença patológica, não julgando todo o sistema religioso, para  não promover uma “amputação psíquica”. Mas, isso necessitaria que o psicólogo possuísse um certo conhecimento do sistema religioso do cliente. Jung tinha uma opinião interessante(e controversa) a esse respeito, segundo o mesmo,

Minha posição neste assunto é a seguinte: Enquanto um paciente é deveras membro de uma Igreja, deve levar isto a sério. Deveria ser real e sinceramente um membro daquela Igreja e não ir ao médico para resolver seus conflitos quando acredita poder fazer isso com Deus. Quando, por exemplo, um membro do Grupo Oxford me procura para tratamento, eu lhe digo: “Você pertence ao Grupo Oxford; enquanto for membro dele, resolva seus assuntos com o Grupo. Não posso fazer nada melhor do que Jesus”.

Gostaria de contar-lhes um caso desses. Um alcoólico histérico fora curado pelo movimento desse Grupo, e este o usou como uma espécie de caso-modelo. Mandaram-no viajar por toda a Europa, onde dava seu testemunho e dizia ter procedido mal, mas ter sido curado por esse movimento. Depois de haver contado vinte ou cinqüenta vezes sua história, ficou cheio e recomeçou a beber. A sensação espiritual simplesmente desapareceu. O que fazer com ele? Agora dizem que se trata de um caso patológico e que ele precisa de um médico. No primeiro estágio foi curado por Jesus, no segundo, só por um médico! Tive que recusar o tratamento desse caso. Mandei-o de volta a essas pessoas e lhes disse: “Se vocês acreditam que Jesus curou este homem da primeira vez, ele o fará pela segunda vez. E se ele não o puder, vocês não estão supondo que eu possa fazê-lo melhor do que Jesus, não é?” Mas é exatamente o que pensam: quando uma pessoa é patológica, então Jesus não ajuda, só o médico pode ajudar.

Enquanto alguém acredita no movimento do Grupo Oxford, deve permanecer ali; e enquanto uma pessoa é da Igreja Católica, deve estar na Igreja Católica para o melhor e para o pior, e deveria ser curada através dos meios dela. E saibam os senhores que eu vi que as pessoas podem ser curadas por esses meios – é um fato. A absolvição e a sagrada comunhão podem curá-los, mesmo em casos bem sérios. Se a experiência da sagrada comunhão for real, se o rito e o dogma expressarem plenamente a situação psicológica do indivíduo, ele pode ser curado. Mas se o rito e o dogma não expressarem plenamente a situação psicológica do indivíduo, ele não pode ser curado. (Jung, 1997, p.271-2)

Jung defendia que a religião não só era uma expressão da psique, como parte do mecanismo de autoregulação psíquica. No caso citado acima, a recusa de Jung foi justamente para evitar uma “amputação” da crença daquela pessoa. A recaída ocorreu em função da política que foi feita utilizando a experiência daquele individuo. Podemos acreditar que o atendimento foi negado pelo fato da busca por atendimento ter partido do grupo, o que poderia ferir e enfraquecer a experiência simbólica daquele individuo, que poderia ser terapêutica para ele.

Isso não quer dizer não devamos atender um paciente religioso, mas, que devemos estudar e conhecer as várias dinâmicas religiosas, Jung considerava fundamental o estudo de mitologia e religião comparadas no preparo de novos analistas. O estudo das idéias religiosas é importante para compreender o cliente em seu próprio contexto simbólico, de modo a compreender o individuo em sua totalidade, respeitando suas crenças e, quando necessário, fazer apontamentos para promover uma reflexão acerca de suas crenças, sem que isso signifique uma violência contra o individuo e suas crenças. Nesse contexto, o ideal seria que quando o paciente estivesse com uma crise de cunho religioso/espiritual (com dúvidas próprias a sua relação com o divino) que o profissional conhecesse dos sistemas religiosos e denominações possuísse contato com bons ministros religiosos (como bons padres ou pastores) que pudessem tirar as dúvidas campo espiritual. Afinal, não é função do psicólogo dizer o que é ou que não é pecado; ou tirar dúvidas acerca de questões “fé”.  Muitas vezes, nós psicólogos, questionamos os ministros religiosos por tratar tudo como “espiritual”, mas, muitas vezes, não percebemos que fazemos o reducionismo oposto, tratando tudo como psicológico.

Por outro lado, para tanto,  o psicoterapeuta deve ter clareza de suas próprias crenças para não se deixar levar por elas, pois, todo e qualquer proselitismo ou tentativa de conversão/evangelismo/catequese durante o processo terapêutico é SEMPRE prejudicial ao mesmo. Isso não só fere o código de ética profissional do psicólogo, como é uma clara violência contra o individuo. E não se trataria de uma conversão autêntica, mas, de um convencimento, uma sedução baixa feita por meio do abuso da relação terapêutica.

Concluindo, a religião tem como função psicológica básica, fornecer símbolos (imagens, narrativas e ritos) que intermediem a relação da consciência com o inconsciente, oferecendo um sistema de referência que promove a segurança e estabilidade do Ego. Essa função já oferece um aspecto terapêutico natural à religião, que pode servir como coadjuvante no processo terapêutico, desde que o terapeuta seja responsável e ético, para respeitar a matriz religiosa de seu cliente.

Referências bibliográficas

GIBRAN, G.K. O Profeta, ACIGI:Rio de Janeiro, 1976

CAMPBELL, Isto é Tu, Landy: São Paulo,SP, 2004

NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, SP, Cultrix, 1995

JUNG, C.G. A Vida Simbólica – Vol I, 2 ed Petrópolis, RJ: Vozes, 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Psicologia Analítica Cristã?

(08 de junho de 2010)

(foi realizada uma breve revisão em 09/12/2011)

Recentemente, eu estava vendo o mecanismo de estatística do WordPress e ao ver a lista de termos procurados (e que trouxeram visitantes ao Blog) um dos termos me chamou a atenção, e era este “Psicologia Analítica Cristã”.

Eu estudo psicologia analítica de Jung há pouco mais de 10 anos, mas, antes de conhecer Jung, eu já me interessava por tópicos relacionados à psicologia e religião (ou da religião), em especial leituras de Mircea Eliade, importante historiador das religiões, esses estudos favoreceram minha aproximação ao pensamento junguiano, que era frequentemente citado, algum tempo depois, estudando “Psicologia da Personalidade III”, com a Prof. Dra. Kathy Marcondes, pude enfim começar a conhecer a Psicologia Analítica. A interface com a religião sempre me chamou atenção. Apesar de ter me afastado da temática durante alguns anos, a prática clínica sempre nos leva a nos confrontar com fenômenos associados à função religiosa e religiosidade/religião de nossos clientes.

Como interessado pelo estudo da religião, a ideia de uma “psicologia analítica cristã” me causou certa preocupação. Antes de falar de forma específica de religião, devemos considerar alguns pontos…: Em primeiro lugar, quando falamos de uma “psicologia cristã” (ampliando para toda e qualquer abordagem)  estamos também abrindo a possibilidade para pensarmos uma “psicologia neo-pagã”, uma “psicologia budista” ou “psicologia muçulmana” gerando toda sorte misturas entre religião e psicologia que tem como principal consequência  a descaracterização de ambas.

Pessoalmente, acredito que considerar a psicologia e a religião como opostas, inimigas ou mesmo “concorrentes” não só é um erro como é uma concepção ultrapassada.

O fundamental é percebermos que a psicologia lida com fenômenos de ordem natural, a religião com o que é sobrenatural, com o divino. Isso pode parecer óbvio, mas, mas, quando unimos psicologia e religião não nos apercebemos disso. Ao pensarmos uma “psicologia religiosa” não estamos ampliando a percepção para ao divino, mas, estamos submetendo a psicologia à teologia, isto é, a uma dada compreensão doutrinária acerca do divino. O que implicaria não em pensar uma “psicologia cristã”, mas, “psicologia cristã batista”, “psicologia cristã adventista”, “psicologia cristã católica”, psicologia cristã presbiteriana” etc.… Perde-se de vista, que o fundamento ultimo da cristandade é a experiência individual com Cristo, isto é, Deus.

Por outro lado, pensar uma “religião psicologizada” isto é, trazendo elementos da psicologia as práticas religiosas, ou mesmo, que utiliza dos argumentos psicológicos para fundamentar algumas de suas doutrinas. É de causar espanto quantos lideres religioso buscam na ciência (em especial na psicologia e psicanálise) elementos para  melhorar sua “prática”, como se a religião em si não fosse suficiente dentro de seu próprio contexto.

A tentativa de muitos em fazer ou buscar uma psicologia cristã ou uma ciência cristã, me chama atenção, pois, a “teoria (teologia) cristã” muitas vezes se torna mais importante (se sobrepondo) a vivência ou experiência espiritual cristã.

Eu me recordo de Tertuliano, um dos grandes apologistas dos primeiros séculos da cristandade, que utilizava amplamente sua formação filosófica  e jurídica na defesa do cristianismo, não obstante, propunha o questionamento aos cristãos “Quid ergo Athenis et Hierosolymis? Quid academiæ et ecclesiæ?” (“Que têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?”), como uma preocupação com a invasão da filosofia na cristandade. Esse questionamento, serve de base para se compreender o célebre “Credo Quia Absurdum Est”(Creio porque é absurdo),  na verdade  Tertuliano nunca pronunciou essa sentença, mas, em seu De Carne Christi, lançou fundamentos para essa frase, segundo ele “O Filho de Deus nasceu: não há vergonha, porque é vergonhoso.E o Filho de Deus morreu: é totalmente credível, porque não é sólido. E, enterrado, ressuscitou: é certo, porque impossível.” Essas afirmações implicam na independência da religião no que tange as lógica e a racionalidade. A essência da religião não está em seu aspecto racional, mas, no irracional, que Rudolf Otto denominou de numinoso – que poderíamos também chamar de “aspecto sobrenatural” – ou mais precisamente, da experiência numinosa que não se dobra a argumentação científica.

Por isso, é necessário tomar cuidado com essas misturas. Seria como misturar água com o vinho. Eles se misturam, mas, nunca num ponto de mantermos as qualidades de ambos, sempre perderemos as melhores características. O “vinho aguado” perderá seu sabor, a “água com vinho” será turva, perderá a clareza. Assim, eu vejo uma “psicologia religiosa”(ou psicologia cristã) perde sua efetividade e amplitude de ação, restringida pelo olhar teológico, a “religião psicologizada” se atém ao humano, se afastando do divino.

Desde o momento em que eu li no wordpress “psicologia analítica cristã” me veio à mente as palavras de Ernst Gombrich, em sua História da Arte, ele começa seu livro dizendo: “UMA COISA QUE realmente não existe é aquilo a que se dá o nome de Arte. Existem somente artistas.”  Em minha opinião, “UMA COISA QUE realmente não existe é aquilo que se dá o nome “Psicologia Cristã”. Existem somente ‘psicólogos que são cristãos’”. Isso significa dizer, que a na experiência pessoal de cada um pode conciliar a profissão de psicólogo com a sua fé.  A questão é como equilibra-las, como “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, para que não haja perdas nem de um lado nem de outro.

Psicologia Analítica e o Cristianismo

Não se pode negar que o Cristianismo desempenhou um papel determinante para a C.G.Jung, filho, sobrinho e neto de pastores, ele cresceu respirando discussões bíblicas e teológicas. Em suas memórias, ele relata como essa vivência era delicada para ele e para sua família – basta lembrar que seu pai, o advertiu que ele poderia seguir qualquer profissão menos a de teólogo (pastor).

Mas, não devemos reduzir as influencias do cristianismo à experiência pessoal de Jung, o cristianismo faz parte da construção de quem somos ocidente. James Hillman, em entrevista a Laura Pozzo, nos oferece um ponto de reflexão interessante:

J.H. (…)Veja, por que foi necessário para Jung – ou Nietzsche ou Kierkegaard – passar toda uma vida trabalhando com o cristianismo, ou para Freud inventar novos mitos como hordas primordiais ou aquela criança gorducha e polimorfa da sexualidade e as três Pessoas Invisíveis da psique: Ego, Id e Superego? eles estavam tentando encontrar saídas para a sobrecarga cristã. Vai nos tomar pelo menos dez horas de papo só pra começar a falar dessa grande questão que é o efeito de dois mil anos de cristianismo nos casos individuais que encontramos em psicologia. Nem você nem eu podemos fazer nada, somos cristãos.

L.P. Nós não somos cristãos praticantes…

J.H. Sim, somos, porque somos cristãos comportamentais, nós nos comportamos como cristãos – sofremos de modo cristão, julgamos de modo cristão, nos encaramos de uma maneira cristã. Temos que enxergar isto, ou permaneceremos inconscientes, e isto significa que nossa inconsciência é fundamentalmente o cristianismo. A psicoterapia não pode modificar nada, ninguém em lugar algum até que ela encare esta inconsciência cristã, e foi por isso que Freud teve de atacar a religião e Jung teve de tentar modificar o cristianismo. Até Lacan disse que se a religião triunfar, e ele acredita que triunfará, será o fim da psicanálise. (HILLMAN, 1989, p.85-86)

Na fala de Hillman, só faltou ele comentar que não só agimos de modo cristão, mas, também criticamos o cristianismo de modo tipicamente cristão, se olharmos a forma como das várias denominações se criticam mutuamente em discussões doutrinárias e teológicas. Hillman toca no ponto fundamental :  o problema da inconsciência do cristianismo.

Um dos grandes problemas que a psicologia analítica traz é a necessidade como conciliar ou integrar os opostos. Na medida que somos inconscientes do cristianismo em nós, nos tornamos indiferenciados, vivemos apenas o peso da cristandade (da culpa, do pecado, angustia do afastamento de Deus) sem a possibilidade de redenção. Não vivemos o mito que nos constitui. No meio acadêmico e científico a inconsciência do cristianismo (ou da religião) produz em alguns uma sombra “fanática”, dogmática cuja crença na efetividade das teorias (isso me refiro especialmente na psicologia)  produz uma atitude que só posso chamar de “religiosa”.

A psicologia analítica surgiu no contexto marcado pelo cristianismo (não podemos esquecer que a Suíça, em especial, Zurique, foi por muito tempo uma cidadela da reforma protestante), o dialogo com a religião (não só a cristã) é uma forma de não cair na armadilha da negação, da inconsciência e unilateralidade (que são três elementos que frequentemente constituem uma atitude neurótica). A psicologia analítica não defende o cristianismo ou qualquer religião, justamente porque não se ocupa do “sobrenatural” ou de “verdades divinas”, mas, apenas dos fenômenos compreendidos na esfera natural e relacionados com a psique humana. Deus e a Religião são compreendidos pela teoria como realidade psíquica, isso não significa um posicionamento teísta ou ateísta, mas, que até aonde a psicologia pode chegar, ideia de Deus e as ideias religiosas produzem efeitos sobre a psique do individuo. As discussões sobre Deus e sua existência e afins ficam a cargo da teologia.

Se a psicologia analítica não está compromissada com o cristianismo, o mesmo não podemos dizer dos profissionais junguianos em sua individualidade. Cada um vivencia sua religiosidade da forma lhe for mais adequada. Frente ao cliente, ele deve ter plena consciência de sua relação com sua própria matriz religiosa, para ter clareza de seus limites e, assim, respeitar o cliente em sua vivência religiosa, sem impor sua própria perspectiva religiosa ao cliente.

Assim, insisto, a Psicologia Analítica em si é religiosamente neutra. Ela estuda e compreende a religião como sendo algo positivo no desenvolvimento humano. Não nega a religião, permitindo que cada profissional tenha a perspectiva que lhe for própria. Isto é, a psicologia analítica não “induz” ninguém a religião, mas, respeita vivência religiosa do profissional, assim como do cliente.

Referencias Bibliográficas

Hillman, J. Pozzo, L. Entre  Vistas: Sumus Editorial: São Paulo, 1999

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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