Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

 

Nota:Revisão do texto de 05/04/2010 Em 05 abril de 2010, escrevi um texto que ainda se encontra no site – chamado “Anima e Animus”, este texto destoa dos demais textos posteriores, justamente, por pertencer a um “primeiro ciclo de textos” caracterizado por uma escrita livre, sem preocupação com a formalização do texto, priorizando uma visão pessoal e particular do pensamento junguiano. Essa ideia original foi abandonada pouco depois. Esse texto sobre a “anima e animus” (como o da Persona) não foi devidamente elaborado, sendo muito informal e com muitas ideias pouco desenvolvidas que merecem ser revistas e ampliadas. Para mim, vejo nesse texto de 2010 um importante valor histórico(da minha história pessoal e do site, por ter sido um dos primeiros), desta forma, opto por escrever um novo texto e não apenas em revisa-lo e substuí-lo.

Um mesmo arquétipo

Quando nos referimos a Anima e Animus é importante termos clareza que estamos falando de uma mesma configuração arquetípica. Ambos os termos (Anima e Animus) correspondem a forma latina de alma. Jung, optou pela utilização do termo latino Anima (forma latina feminina de alma) para a configuração feminina deste arquétipo na psique do homem e a animus(forma latina masculina de alma) para a configuração masculina na psique da mulher. Apesar de possuírem características diferentes, ambos os arquétipos se referem ao mesmo princípio arquetípico. Para compreendermos essa função, acredito que devemos trilhar por caminhos distintos. Um caminho clássico e um contemporâneo.

A via Clássica

O que que se passa com a masculinidade? Sabes quanta feminilidade falta ao homem para seu aperfeiçoamento? Sabes quanta masculinidade falta à mulher para seu aperfeiçoamento? Vós procurais o feminino na mulher e o masculino no homem. E assim há sempre apenas homens e mulheres. Mas onde estão as pessoas? Tu, homem, não deves procurar o feminino na mulher, mas, deves procurá-lo e reconhecê-lo em ti, pois tu [o] possuis desde o começo. Mas gostas de desempenhar o papel da masculinidade, porque isto flui pelo caminho desimpedido do tradicional. Tu, mulher, não deves procurar o masculino no homem, mas deves aceitar em ti o masculino, pois tu o possuis desde o começo. Mas isto te diverte e é fácil fazer o papel de mulherzinha, por isso o homem te despreza, pois ele despreza o feminino. Mas a pessoa é masculina e feminina, não é só homem ou mulher. De tua alma não sabes dizer de que gênero ela é. Mas se prestares bem atenção, verás que o homem mais masculino tem alma feminina e que a mulher mais feminina tem alma masculina. (JUNG, 2013, p.203)

Nesse fragmento do Livro Vermelho temos a ideia central acerca desse arquétipo, na concepção clássica. No homem a Anima se configura a partir pelo do coletivo feminino no inconsciente do homem. E o Animus se configura a partir do coletivo masculino no inconsciente da mulher, de tal forma, que em ambos os casos é necessária a integração desses pólos para o processo de individuação (ou como está no texto, para o aperfeiçoamento).

A configuração da Anima e do Animus ocorre simultaneamente ao desenvolvimento do Ego e da Persona. No processo de desenvolvimento, no caso do menino, os atributos coletivos vinculados ao gênero são reforçados para serem identificados com o Ego e a Persona, de modo que o indivíduo constitua uma identidade de gênero de acordo com os ditames coletivos. Os atributos contrários, isto é, no caso do menino, femininos são reprimidos fornecendo, assim, o aspecto fundamental para a configuração da Anima. Segundo Neumann,

Enquanto a disposição natural de todo indivíduo o inclina a uma bissexualidade física e psíquica, o desenvolvimento diferencial da nossa cultura força-o a deslocar o elemento contra-sexual para o inconsciente. como resultado, a consciência só aceita o tipo de caráter que a valoração coletiva considera correspondente às características sexuais externas. Assim é que as características “femininas” e “relativas à alma” são consideradas indesejáveis num garoto, pelo menos na nossa cultura. Tal acentuação unilateral da sexualidade específica de cada pessoa termina por constelar o elemento contra-sexual no inconsciente, na forma da anima, nos homens, e do animus, nas mulheres; a anima e o animus, sendo figuras parciais que permanecem inconscientes, dominam a relação do inconsciente com a consciência. Esse processo é apoiado pelo coletivo e, como a repressão do lado contra-sexual é frequentemente difícil, a diferenciação sexual é de início acompanhadas pelos modos típicos de antipatia com relação ao sexo oposto. Também esse desenvolvimento obedece ao princípio geral da diferenciação, que pressupõe o sacrifício da totalidade, aqui representada pela figura do hermafrodita.(NEUMANN, 1995, 386)

No processo de desenvolvimento, a necessidade de diferenciação da consciência exige a ruptura da totalidade, separando os sistemas Consciente e Inconsciente. A separação da sizígia Masculino-Feminino é necessária para o desenvolvimento, contudo, essa própria separação já pressupõe um processo de integração posterior, que vai ser justamente a função deste arquétipo viabilizar o diálogo entre os opostos. Nesse sentido Neumann utiliza a imagem do Hermafrodita, que poderíamos ampliar no Andrógino de Platão e as pessoas de dois-espiritos, dos nativos norte-americanos, todas essas imagens arquetípicas remetem a união de opostos, ou opostos coabitando.

Na experiência pessoal, a anima/us possuem uma função diferenciada dos demais arquétipos. Segundo Emma Jung,

Dentre os arquétipos há sobretudo dois investidos de grande significado, pois, pertencendo por um lado à personalidade, e por outro estando enraizados no inconsciente coletivo, eles constroem uma espécie de elo de ligação ou ponto entre o pessoal e o impessoal, bem como entre o consciente e o inconsciente. Essas figuras – uma é masculina e outra feminina – foram denominadas de animus e anima por Jung. Ele entende aí um complexo funcional que se comporta de forma compensatória em relação à personalidade externa, de certo modo uma personalidade interna que apresenta aquelas propriedades que faltam à personalidade externa, consciente e manifesta. São características femininas no homem e masculinas na mulher que normalmente estão sempre presentes em determinada medida, mas que são incomodas para a adaptação externa ou para o ideal existente, não encontrando espaço algum no ser voltado para o exterior.

O caráter dessas duas figuras não é, entretanto, determinado apenas pela respectiva estruturação no sexo oposto, sendo condicionado ainda pelas experiências que cada um traz em si do trato com indivíduos do sexo oposto no decurso de sua vida e através da imagem coletiva que o homem tem da mulher e a mulher do homem. Estes três fatores condensam-se numa grandeza que não é apenas a imagem nem somente experiência, e sim muito mais uma espécie de essência cuja ação se dirige não às demais funções anímicas, mas que se comporta ativamente e que intervém na vida, individual mais ou menos como um estranho, às vezes prestativo, mas às vezes também incômodo e até mesmo destrutivo.(JUNG, 2005, p 15-16)

Estando no limiar entre o pessoal e o coletivo, a anima/us, nos lança sempre para além de nós mesmos, pois, devemos não só compreender o que passa pelo pessoal, mas, na dinâmica na qual o indivíduo se desenvolveu. Por isso mesmo Jung dizia que não deveríamos chamar “minha anima” ou “meu animus”, mas, a Anima ou o Animus, de forma impessoal. Na primeira metade da vida, essas configurações se manifestam normalmente projetado no meio exterior, em figuras do sexo oposto. Essas projeções podem gerar vinculações inadequadas, paixões arrebatadoras, casamentos entre pessoas extremamente diferentes, situações que frequentemente são exploradas pelo cinema a literatura.

Nesses casos onde anima/us atua de modo desorganizador, incomodo ou mesmo nocivo referimos a uma situação onde esse complexo funcional está inconsciente, de modo que se manifesta pela projeção ou mesmo por momentos em que possui ou engolfa o ego. Vamos explicar melhor, a projeção é a forma preferencial da manifestação do inconsciente, no caso da projeção da anima, inicialmente se dá na figura materna, posteriormente, na professora na escola, posteriormente numa namorada/esposa essa projeção se caracteriza por um vínculo intenso e inconsciente com a pessoa que recebe a projeção. Em alguns casos, essa projeção é funcional, isto é, quando ocorrer uma projeção mutua num casal, e se estende ao longo da vida, dando a relação uma dimensão de completude e de equilíbrio, nesses casos, não é incomum que por ocasião da morte de um dos cônjuges, o outro morra algum tempo depois.

Uma outra situação, como citamos acima, é a “possessão” pela anima ou pelo animus, neste caso,

A possessão pela anima ou pelo animus transforma a personalidade de modo a dar proeminência àqueles traços que são considerados psicologicamente característicos do sexo oposto. Em um ou outro caso, uma pessoa perde a individualidade, antes de tudo, e, conseqüentemente, tanto o encanto como os valores. Em um homem, ele fica dominado pela anima e pelo princípio de EROS com conotações de inquietação, promiscuidade, mau humor, sentimentalidade – o que quer se possa definir como uma emocionalidade irreprimida. Uma mulher sujeita à autoridade do animus e do LOGOS é controladora, obstinada, cruel, dominadora. Ambos tornam-se unilaterais. Ele é seduzido por pessoas inferiores e forma ligações pouco significativas; ela, sendo absorvida por um pensamento de segunda classe, marcha à frente sob a égide de convicções que não levam em conta os relacionamentos.(SAMUELS, et al,p. 36)

É importante termos clareza que independente forma de expressão da anima/us seja ela projeção ou possessão, a dinâmica visa a integração da psique pela consideração adequada dele “não-eu” psíquico, o que de fato é vital para o o desenvolvimento psíquico. Pois, age como uma ponte, possibilitando o dialogo objetivo entre o inconsciente e o consciente. Isto é possível, pois, o inconsciente tende a se manifestar através da anima e o animus. O confronto e assimilação da anima/animus/inconsciente é o passo fundamental para o processo de individuação e configuração do self.

Nas últimas décadas, surgiram críticas pertinentes a teorização da anima e animus se seriam ainda condizentes com a realidade em que vivemos. Antes de discutir as críticas, gostaria de passar por outras possibilidades de desenvolvimentos na teoria junguiana possibilitaram uma compreensão mais ampla desse arquétipo na atualidade. Nesse sentido, gostaria de começar passando pela contribuição do Dr. Carlos Byington.

Um olhar contemporâneo: Arquétipo da Alteridade

A compreensão da Anima/animus pela via da alteridade não é uma prerrogativa do Dr. Carlos Amadeus Botelho Byington, contudo, vou começar essa discussão me pautando em se’u trabalho, pelo fato do mesmo ser inquestionavelmente um dos mais importantes pensadores junguianos do Brasil, que em neste anto 2015 completa 50 anos desde sua formação como analista junguiano no Instituto C.G.Jung de Zurique, Byington desenvolveu uma forma particular de pensar a teoria junguiana a qual denominou “Psicologia Simbólica Junguiana”.

Em sua obra, Byington compreendeu que a presença dos elementos masculinos e femininos não seriam uma prerrogativa da Anima e Animus, mas, já estariam presentes e constituiriam o indivíduo (independente se homem ou mulher) através dos arquétipos Matriarcal (ampliação do arquétipo da Grande Mãe) e Patriarcal (ampliação do arquétipo do Grande Pai). Assim, Byington englobou a dinâmicas de Anima e Animus na dinâmica que denominou de Arquétipo da Alteridade, centrando a principal característica da Anima e Animus, que seria de mediar a relação entre os opostos (no caso, da concepção clássica, a anima/animus seria mediariam a relação entre a consciência e o inconsciente).

O Arquétipo da Alteridade inclui a fenomenologia dos arquétipos Anima(no homem) e do Animus(na mulher), descritos por Jung e aqui concebidos como bipolares (Byington, 1986a). Jung percebeu estas características dos arquétipos da Anima e do Animus, quando os descreveu como os arquétipos mediadores da polaridade consciente-inconsciente (Jung 19941/1944/1951/1955) O arquétipo da alteridade é o arquétipo que propicia à Consciência o encontro dialético com os opostos, através do qual a elaboração simbólica pode alcançar sua capacidade plena. Dialética aqui significa que os pólos de todas as polaridades podem se relacionar em oposição, mas também em harmonia, dependendo do contexto. Trata-se da relação de um encontro pleno entre o Ego e o Outro, no qual os símbolos podem ser elaborados até o máximo de seu potencial metafórico, e portanto necessitam a extensão plena da elaboração simbólica permitida pelo princípio de sincronicidade. (BYINGTON, 2002, p. 26)

Essa compreensão de Byington é de grande valor, pois, nos ajuda a pensar melhor a função primordial da Anima e Animus, mediação de opostos, psicompompo, e não apenas na polaridade masculino-feminino, que é uma das regências desse arquétipo. Assim, a dinâmica da alteridade possibilita ao ego não só considerar a posição do Outro, o “não-Eu”, mas, assimilar todas as polaridades, integrando os opostos. Essa compreensão é fundamental, de modo que não devemos fixar a compreensão superficial dos arquétipos da Anima/us como função contrassexual, mesmo que esta última seja muito importante e presente em sua fenomenologia.

Acredito que a ampliação da compreensão da Anima e Animus oferecida por Byington, nosajuda a pensar melhor a dinâmica desse arquétipo, assim como refletir algumas críticas ou insuficiências relacionadas a teoria original da anima/animus. As críticas se relacionam ao fato da visão clássica atribuir ou fixar determinas características de gênero, isto é, o que são caraterísticas próprias a homens e próprias a mulheres. Características plenamente possíveis e viáveis numa sociedade machista, sexista e patriarcal (como era de Jung). Não que a nossa não seja, contudo, é inegável que houve uma diferenciação daquele modelo do ínicio do século XX. Isso significa considerar que a compreensão do a Anima/animus deva ser relativizada. Samuels, comenta que

(…) Anima e animus provocam imagens que representam um aspecto inato de homens e mulheres – aquele aspecto deles que é, de certa forma, diferente do modo como funcionam conscientemente; um outro, estranho, talvez misterioso, porém certamente cheio de possibilidades e potencialidades. Mas, porque a ênfase no “sexo oposto”? Por que o homem irá, muito mais naturalmente, imaginar o que é seu “outro”, para ele, sob a forma simbólica de uma mulher – um ser com outra anatomia. A mulher irá simbolizar o que é estranho, ou misterioso para ela, em termos do tipo de corpo que ela mesma não tem. Na verdade a sexualidade do oposto implica na psicologia do oposto; a sexualidade é uma metáfora para isso” (SAMUELS, 1985, p. 252

E, continua,

Também podemos observar que uma interpretação moderna do animus e da anima tem silenciado bem mais seus opositores. Animus e anima são maneiras de comunicar a alteridade, a diferença, aquilo que momentaneamente está indisponível devido ‘a inconsciência. Animus e anima falam, então, do inesperado, daquilo está “fora de ordem”, que ofende à ordem dominante. (SAMUELS, 1989, p.254)

É necessário compreendermos que para além da função de psicopompo, isto é, a intermediação da relação com o inconsciente, é uma muito importante, mas, a alteridade não se reduz a esta função. Alteridade desloca o indivíduo em direção ao outro, isto é, possibilita uma experiência profunda da relação com o Outro, a integração da realidade interior com a exterior, de tal forma que a experiência com o outro pode se tornar uma experiência de desenvolvimento(individuação) para o indivíduo. A integração dos opostos é um dos maiores desafios da individuação – por isso mesmo, a projeção desse arquétipo faz com que o indivíduo seja absorvido pela relação com o Outro.

Reconhecer o Outro e integrar sua diferença em nossa realidade psíquica é uma atividade heroica. Nos coloca entre Caríbdis e Cila, por um lado temos Sombra, que sempre nos aponta para nós mesmos, para nossa história e individualidade, por outro temos a Anima/Animus/Alteridade que nos coloca diante da integração do “Não-eu”, do mundo e do “Outro”. O ato heroico de individuação é passar por esse estreito sem sucumbir a qualquer um dos, mas, integrando-os funcionalmente. Através do dinamismo arquetípico da alteridade podemos elaborar criativamente dos opostos, possibilitando integrar e desenvolver os elementos que até então estavam inconscientes.

Acho importante frisar que a compreensão contemporânea da Anima e Animus como Alteridade deve ser compreendida no contexto da obra de Jung. É um desenvolvimento posterior cujas raízes estão fixadas nos trabalhos de Jung sobre a Anima e Animus

Referências bibliográficas

BYINGTON, C.A.B. O arquétipo da Vida e da Morte – Um Estudo da Psicologia Simbólica, São Paulo: 2002.

NEUMANN, Erich História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995.

JUNG, C.G, O Livro Vermelho, Petropolis: Vozes, 2013.

JUNG, E. Animas e Animus, São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2005

SAMUELS, Andrew; SHORTER, Bani; PLAUT, Fred. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. RJ: Imago, 1988.

SAMUELS, Andrew, Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.

Algumas palavras sobre o Curador-Ferido

(19 de outubro de 2012)

(Este foi o texto base para da  apresentação realizada no II Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, 19 de outubro de 2012)

É com muito prazer que  participo desta mesa, juntamente com a profa. Isabele Santos Eleotério, para pensarmos e contribuirmos com a psicologia junguiana no ES. Neste congresso já tivemos o prazer de ouvir o Prof. Maddi, Profa. Kathy e a Profa. Elizabeth, aliás é sempre um prazer ouvi-los. A minha contribuição é uma breve reflexão acerca da representação arquetípica que denominamos curador-ferido.

O “arquétipo do curador-ferido” é facilmente reconhecido e intuitivamente compreendido em suas representações. Para ilustrar, vou citar três representações que nos tocam diretamente.

A primeira é também a mais conhecida e “reverenciada”, vem da mitologia grega, que é o Chiron, o centauro meio-irmão de Zeus. Digo que nos toca, pois, nossa herança intelectual nos liga ao pensamento grego. Assim, Chiron e a mitologia grega nos possibilitam acompreensão de forma tão clara dos arquétipos. No caso, Chiron que era detentor das artes de cura, sendo inclusive mestre de Asclépio, o deus da medicina. Num dado momento, Herácles, que passava pelo Monte Pelion, entrou numa confusão com centauros, nesse conflito acidentalmente Héracles alvejou Chiron, com uma flecha embebida pelo sangue da hidra de Lerna, causando uma ferida mortal. Contudo, por ser imortal, Chiron passou a sofrer dores monstruosas, pois, toda sua habilidade de cura não era suficiente contra o sangue da hidra.

A segunda representação nos toca diretamente, pois, somos atravessados pela tradição judaico-cristã, quer professemos ou não a fé cristã. Assim, temos Jesus Cristo como representante do curador ferido. Suas feridas já faziam parte das profecias do antigo testamento. “Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados.” (Isaias 53:3- NVI). No novo testamento temos outras referências a seu caráter curador “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados”.( I Pedro 2:24 – NVI).

O terceiro também é presente na nossa cultura, vindo da tradição afrobrasileira, que nos toca sutilmente e compõe nossa forma de ser.  Na tradição do candomblé e da Umbanda temos o orixá Xapanã, também chamado de Omulu ou Obaluae.    Em seus mitos, verificamos que quando esse orixá era criança, teve seu corpo tomado pela varíola, motivo pelo qual foi abandonado por sua mãe Nãnã. Ele foi encontrado e tratado por Yemanjá, mas, ficou com o corpo com as terríveis marcas da varíola. Conta-se também, que quando Olodumaré foi dividir seus bens, essa divisão ocorreu quando Xapanã estava ausente, os orixás pegaram os “bens”, restando para ele somente a peste. Posteriormente, ele se tornou um orixá muito temido e respeitado justamente por ser o senhor das doenças e da cura das mesmas.

(eu poderia até citar um outro curador-ferido, que expressa a crença e a fé na ciência. Que é o personagem Gregory House, que representa bem o curador ferido).

O arquétipo do curador-ferido nos é especialmente atraente por se referir à dinâmica do processo de cura e, por conseqüência, por nos permitir pensar a dinâmica que envolve a relação terapêutica. Especialmente pela perspectiva de Guggenbuhl-Craig(1978) que amplia a compreensão desse arquétipo, que afirma que se a consciência se identifica com um pólo do arquétipo, o contrario é constelado no inconsciente. Isto é, numa situação de doença, se constela na consciência a dinâmica da doença e o pólo de “curador”  se constela no inconsciente.  O fato de ser inconsciente, propicia que o polo curador possa projetado seja na figura do médico ou do terapeuta. Guggenbühl-Criag aponta a necessidade de integrar o pólo de cura, justamente para  mobilizar todo potencial de cura do individuo.

Mas, eu gostaria de pensar o arquétipo sob outra perspectiva, pois, quando vemos essa imagem arquetípica temos dois aspectos:  “cura” ou “curador” que se opõe à “ferida”. As imagens citadas (Quiron, Cristo, e Obaluae) distinguem-se justamente por possuírem um limite, o qual denominamos “ferida”, que se torna tão próxima ou mesmo, necessária aos seres humanos. Assim, poderíamos associar ao curador os seguintes elementos:

Curador

Ferida

Saúde

Doença

Possibilidade

Limite

Total

Parcial

Imortal

Mortal

Divino

Humano

Se pensarmos que o pólo curador, expressa a “possibilidade de possibilidades”, o potencial de vir-a-ser, o impulso heroico de expansão. A ferida é um limite. Assim como doença, a velhice também constituem limites ao homem. A Possibilidade-Saúde-Cura e o Limite-Doença-Ferida são opostos refletem o aspecto autorregulatório da psique. De fato, os mitos sempre apontam para a necessidade integrarmos os limites, para não incorrermos na “desmensura” ou na hybris, o erro muitas vezes fatal dos heróis gregos.

É interessante que notarmos que vivemos numa cultura que ainda tem dificuldades de lidar com os limites, isto é, mais propriamente feridas. Não estou advogando em prol da doença, mas, chamo atenção ao Guggenbuhl-Craig nos alerta acerca dos perigos da fantasia da saúde como força, totalidade (como pleno funcionamento fisiológico e mental) que pode ocultar na verdade a ideia de perfeição, que nos leva a uma busca por algo inatingível. Essa busca se manifesta por diferentes vias. Seja excesso de cuidados, ou pela negação dos limites. Lidar ou aceitar com os limites não significa resignação, mas, uma consideração adequada da realidade e do que é a saúde para o indivíduo nesse momento.

Eu já ouvi de pessoas/pacientes religiosos dizerem que não podem ter essa ou aquela doença/limitação por serem tementes a Deus, ao eu respondo, “olha, vc já ouviu falar no apóstolo Paulo que tinha um “espinho na carne” que Deus se recusou a tirar, ou mesmo se conhece o profeta Elias que nos dias de hoje seria diagnosticado estando com depressão”.

Por outro lado, nós que trabalhamos com as “artes de cura”, devemos considerar as feridas do curador como um limite a cura, ou melhor, um limite ao desejo de curar. Pois, “o desejo de curar” muitas vezes expressa esse “ideal de saúde ou perfeição”, onde o terapeuta impõe uma realidade estranha a realidade ou a verdade do paciente. A busca incessante pelo ideal de saúde pode ser mais opressivo que a limitação e a doença. Jung aponta que o que terapeuta nao suporta o paciente também não vai suportar.

Por isso mesmo, integrar as feridas-limites significa aceitar nossa humanidade, como uma forma de possibilitar a quem atendemos integrar tanto o pólo “curador” quando o pólo “ferida”. É, como o prof. Maddi disse ontem, aceitar que a vida gera vida, tanto pela possibilidade quanto pelo limite. Pois, é através da integração dos dois que podemos experimentar “quem somos”.

O arquétipo do curador-ferido expressa o processo de individuação. Acredito que em outras oportunidades poderemos falar mais sobre o processo saúde-doença que é expresso por essa imagem.

Textos utilizados:

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf. O Arquétipo do Inválido e os limittes da Cura ,in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bílbica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BRANDÃO. J. DICIONÁRIO MÍTICO-ETIMOLÓGICO, Vol. I, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

GROESBECK, C.J. A IMAGEM ARQUETÍPICA DO MÉDICO FERIDO,inJUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

Cf. JUNG, C.G. Ab-Reação, Análise dos Sonhos, Transferência, Petrópolis, RJ : Vozes, 1999.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Como é mesmo que descubro o que sou?” Uma breve reflexão a partir de comentários no Facebook

 

(9 de janeiro de 2012)

Há pouco tempo atrás, eu postei no meu mural do facebook uma frase de Jung que considero muito significativa:

“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.”

Ao que uma querida amiga, Fabiane Barbosa, comentou:

Que legal, mas como é mesmo que descubro o que sou??????

Achei essa pergunta muito pertinente e interessante, pois, muitas vezes apenas afirmamos impulsivamente “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”, ao que respondi:

Fabi, através da relações que você estabelece com “você mesma”( de atenção, cuidado, respeito) e com o mundo(relações afetivas, ideológicas e sociais). Se vc analisar essas relações e perceber vc está sendo “integra” ou está “por inteiro” em tudo que você faz, sem se violentar, você está no “seu” caminho certo. O adoecimento se estabelece quando a gente se perde desse caminho ou a gente se perde… estabelecendo relações danosas tanto pra gente quanto pro mundo. o adoecimento psíquico, nesse sentido, é uma tentativa do inconsciente de redimensionar ou corrigir essas relações internas ou externas.

ps.: pq eu falei de relações? pq nessas relações vc vai se perceber… tendo atenção, cuidado e respeito com “vc mesma” vai vai ver o que é “negociável” ou “inegociável” para vc… ai vc vai poder ver e ser no mundo de uma forma mais adequada e respeitosa, tanto a vc mesma quanto ao mundo.

Após escrever essa resposta eu fiquei pensativo. Considerei que seria interessante refletir um pouco mais acerca da noção “do que sou”.

Acredito ser importante compreendermos, em primeiro lugar, que para a psicologia analítica o “ser eu mesmo” ou “o que sou” não é algo estático ou rígido, mas, sim um processo que está em constante desenvolvimento. 

Pode parecer estranho, pois, estamos acostumados a pensar em “eu sou” em termos de “ego” e “consciência”. Contudo, o ego é apenas uma parte da totalidade da psique que nos constitui. O que chamamos de ego é justamente o nosso centro consciente de referência, é comumente o que chamamos de “eu”, sendo o sujeito de nossas ações conscientes, escolhas, que está intrinsecamente ligado a nossa base somática. Através do “eu” vivemos e nos adaptamos conscientemente ao momento presente, e, muitas vezes, acreditamos que o “eu” é “tudo o que sou”, isto é, acabamos por reduzir nossa vida psíquica ao centro da consciência. O que nos expõe aos ventos do inconsciente e a uma possível submissão das exigências do mundo exterior.

O “eu” possui duas funções fundamentais na vida psíquica, a primeira é intermediar os processos adaptativos do organismo com o mundo interior e exterior, a segunda é propiciar os meios para a realização do si-mesmo, este segundo aspecto pertinente ao processo de individuação, discutiremos em outro momento.

Sobre o primeiro aspecto, Jung afirma que

O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior — família, profissão, sociedade — quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas ne­cessidades, poderá surgir a doença. (JUNG, 2006, 143)

Nesse processo adaptativo deve haver sempre o equilíbrio entre adaptação ao exterior e ao interior.  A adaptação ao mundo interior passa pelo reconhecimento de nossa própria história vivida, que se encontra presente e atuante em nossa vida através de nossos complexos. Acho que é importante frisar: nossa história vivida ou passada, não se encontra perdida num passado distante, mas, ela é viva e está no presente e relativamente disponível ao ego, por meio dos complexos.

Os complexos não são entidades patológicas, mas, sim estruturas básicas dos psiquismo individual em torno do qual nossas experiências são ordenadas assim como sua carga emocional. Os complexos são estruturas autônomas no inconsciente pessoal que,  em função de sua autonomia, podem invadir a consciência. O poder do complexo está diretamente relacionado com a capacidade do Ego em lidar com o mesmo, isto é, se o Ego evita ou é incapaz de lidar com os conteúdos complexo, este terá um potencial maior de invadir ou perturbar a consciência, geralmente causando sofrimento.

Por isso, é importante termos clareza que os complexos são estruturas de nossa psique, que se relacionam com o Ego. Para termos uma relação e consideração adequada com os complexos devemos considera-los como conteúdos distintos do Ego.  Eles são fatores que também nos constituem, devemos aceitar e respeitar aqueles elementos fundamentais de nossa história ou enfrentar os elementos de nossa história que nos limitam, impedindo nosso desenvolvimento. É muito perigoso assumirmos a postura Gabriela “Eu nasci assim, eu cresci assim, Eu sou mesmo assim, Vou ser sempre assim”, pois, vai de encontro a natureza da psique que visa o desenvolvimento.

Integrar nossa história significa confrontar e integrar a sombra,  que é o passo fundamental no processo de auto conhecimento. Segundo Jung,

(…) nesta tomada da de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com consideravel resistência. (JUNG, 2000, p. 6)

Concomitante aos fatores de nossa história devemos considerar os fatores individuais relacionados com a dinâmica coletiva externa, neste caso nos referimos a persona.  Segundo Jung,

Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva;em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. (JUNG, 2001, p. 32)

A persona pode ser compreendida como os papeis sociais que um individuo possui. De forma geral, a persona está vinculada a dinâmica do Ego e da Consciência, por fornecer elementos de identidade ao individuo. Contudo, quando nos tornamos inconscientes da persona, isto é, não temos clareza dos papéis sociais e seu alcance, podemos nos identificar com ela, isto é, agindo e percebendo o mundo como se seus atributos fossem atributos do ego.  Um exemplo, seria a pessoa que não consegue se desligar de sua função social, como um juiz que age sempre impondo sua autoridade, ou um médico que exige ser chamado sempre de “doutor”.

Isso significa que todos os demais aspectos de sua vida tendem a ser negligenciados, como o pai, marido, amigo, filho, pois, ele estará sempre sintonizado com esse aspecto de sua vida. Juntamente com os complexos e o Ego, a persona compõe “o que sou”. Mas, ela por si só, não corresponde “ao que sou”.

Assim, para considerar “o que sou” devemos obrigatóriamente considerar o “momento em que estou”. E, ainda mais, é fundamental considerarmos que “o que sou” não é uma definição ou algo determinado e imutável, mas, sim um ponto de partida. Por isso, eu assinalei a importância de compreender “o que sou”  através das relações que estabeleço sobretudo comigo mesmo e com o mundo que me cerca.

É importante compreendermos que é o fato de consideramos toda a complexidade de ser quem somos, não significa que faremos as “escolhas certas” ou as “escolhas boas”, significa que teremos a maior propensão a estarmos por inteiro em nossas escolhas, o que implica não em fazer o “certo”, mas, sim em fazer o que é necessário.

Falta ainda comentarmos sobre o mundo exterior, o mundo exterior é importante justamente por fazer inúmeras exigências ao individuo, p.ex., como ele deve agir, como se portar, expor opiniões, tomar decisões. Enfim, o processo adaptativo com o mundo exterior exige que o ego se posicione, decida e aja. Entretanto, se o ego se posicionar sempre levando em consideração o mundo exterior, negligenciando seus fatores individuais, pode gerar uma reação compensatória do inconsciente – que pode gerar sofrimento. O mundo exterior é fundamental por nos colocar em movimento, através dessas relações e com as dificuldades apresentadas poderemos nos desenvolver.

O confronto com a sombra e o redimensionamento da persona são fundamentais na compreensão de quem eu sou. Vale lembrar, que quando Jung afirma que “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” (JUNG, 2001, p.43), ele não se refere a um conhecimento racional ou puramente consciente, mas, sim a vivência desse ser real.

A integração da persona e da sombra constituem, muitas vezes, uma dificil tarefa. Mas, é o primeiro passo para o desenvolvimento maior da personalidade. Jung afirma

“Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima.(…)Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. (JUNG, 2002, p.39)

Integrar o a dimensão arquetípica da anima é um processo que vai além do autoconhecimento. Pois, implica em integrar a dimensão da alteridade, uma tarefa da segunda metade da vida, própria ao processo de individuação, mas, que vermos em um outro post no futuro.

Referências Bibliográficas

JUNG, C.G O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE,Petrópolis: Vozes, 2006

JUNG,C.G AION – ESTUDOS DO SIMBOLISMO DO SI-MESMO , Petrópolis: Vozes, 2000

JUNG,C.G O EU E O INCONSCIENTE,Petrópolis: Vozes, 2001

JUNG,C.G OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE COLETIVO , Petrópolis: Vozes, 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Então é Natal, e o que você tem feito?” – algumas reflexões

 

21 de dezembro 2010

Em 1975 , Jonh Lennon gravou “Happy Christmass (War is over)” que se tornou uma das músicas mais importantes de Natal, com versões em todo o mundo. Ele começa sua musica com um questionamento interessante,

“Então é natal,

e o que você tem feito?”

Essa uma questão muito pertinente que atravessa os vários natais vivemos. Pode parecer estranho falar em natais, mas, de fato, temos diferentes realidades que nos remetem ao dia 25 de dezembro. Apesar de serem distintos, a linha que os separa é muito tênue, afinal, são todos natais.  E quais são eles?

O primeiro é o Natal Cristão –  que seria, em nossa cultura, o “Natal” original, lembrando que natal vem do latim natalis que é derivado do verbo nascor, que é nascer. Assim, é bem claro e difundido que o Natal é uma clara referencia ao nascimento de Jesus Cristo. No natal cristão celebra-se, com o nascimento de Cristo, o nascimento da esperança de salvação. Para a cristandade, o natal marca a mudança na relação do homem com Deus, como diz do texto bíblico “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.”Jo.  1:14 (NVI). Deus se fez carne e estabeleceu uma relação uma com os homens, relação esta que culminou com no sacrifício de Cristo para selar essa relação, marcando assim pela “salvação dos homens”. Independente das relações e questionamentos feitos do natal com mitraísmo, para o cristão o  Natal é um dos mais importantes “mistérios cristãos” que simboliza o nascimento da esperança e da possibilidade de transformação, pois é seguido de um novo ano.

O Segundo é o Natal da confraternizaçãoApesar de ser inspirado no que chamei de “Natal Cristão”, o natal da confraternização não tem um caráter religioso, mas, um caráter afetivo e social, onde paramos para estar com as pessoas que amamos. Essas confraternizações se desenrolam ao longo do mês de dezembro e culminam com a reunião familiar de natal. Muitas vezes, não guarda tanta relação com a religião.Esse natal é importante por possibilitar um momento onde as pessoas podem, em nome de um “espirito natalino”, apaziguar qualquer questão ou problema surgido ao longo do ano.

O Terceiro é o Natal das Compras – Esse é o natal do “papai Noel”. Onde há o imperativo de compras, de consumo. É interessante, que esse natal está relacionado com os dois anteriores pois, há uma esperança de fartura e de um futuro melhor (do natal cristão) somado com a possibilidade de expressar afeto pelas pessoas pessoas queridas com presentes. É interessante, que não podemos apenas criticar essa forma de natal, pois, é o período do ano, com as promoções, muitas famílias encontram condições para melhorar a qualidade de vida.

Essas três formas de natal caminham juntas. Não dá para dizer qual é a correta, como disse, elas se interpenetram. Contudo,  a questão de Jonh Lennon continua

“Então é natal,

e o que você tem feito?”

Independente do natal que vivamos predominantemente, devemos nos atentar para as outras formas. Devemos, refletir que vida que vivemos, ou “ o que temos feito”, justamente para pensarmos a “vida que queremos’” e “o que devemos fazer”.

As vezes, nos vemos tão pressionados com os “eventos natalinos”, com a “angustiante alegria” de natal, com a necessidade de se estar com pessoas amadas e nos esquecemos que o Natal é apenas o inicio. É a vida nasce, é a esperança que nasce. Muitos questionam a validade do dia “25 de dezembro” alegando que não é uma data originalmente cristã e que Jesus não nasceu nessa data, mas, eu acredito que o 25 de dezembro foi um escolha mais que feliz para a celebração do nascimento de Cristo. Isso porque, para os povos pré-cristãos da Europa, o dia 25 de dezembro estava associado ao Solstício de Inverno do hemisfério norte, e era a noite do dia 24 mais longa do ano e, assim, havia festejos com nascer do sol, isto é, o sol que vence as trevas, o nascer do dia era o nascer da esperança.  Quando a cristandade adota o dia 25 de dezembro como Natal de Cristo, há também a conotação de esperança, pois, assim como o Sol vence as trevas da noite,  Cristo também atravessa e vence os três dias de trevas da morte e ressuscita. É o nascimento da esperança.

O nascimento e a ressurreição de Cristo são faces do mesmo mistério, que nos fala de esperança e recomeço.

Mas, então é natal. O que você precisa fazer? Precisa se reencontrar com Deus? Precisa se acertar com sua família? Precisa expressar seu amor por meio de um presente? E o que você tem feito?

Às vezes, pensamos demais e agimos de menos. Às vezes achamos que fazemos tudo errado. Mas, agora isso não importa, porque é Natal. E a alegria do Natal é a esperança do recomeço, de que tudo vai dar certo! O nascimento de Cristo, para a cristandade, traz a certeza que Deus caminhou/caminha ao lado do homem. E tudo é possível. Assim, mesmo que estejamos imersos numa longa noite da vida, o natal é um símbolo vivo que o amanhecer vem. Basta ter esperança.

Feliz Natal!

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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“Por que estudar Mitologia?”

 

9 de dezembro de 2010

Essa pergunta com a qual inicio esse post, já me fizeram várias vezes. Eu gostaria de começar a responder essa pergunta relembrando um encontro de Nise da Silveira com Jung, onde a própria Nise nos relata que,

sentada diante do mestre no seu gabinete de trabalho, junto á larga janela com vista sobre o lago, falei-lhe do desejo de aprofundar meu trabalho no hospital psiquiátrico, de minhas dificuldades de autodidata.
Ele me ouvia muito atento. Perguntou-me de repente:

– Você estuda mitologia? 

Não, eu não estudava mitologia.

– Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem. Os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique.Por isso seu estudo deveria ser matéria fundamental para a prática psiquiátrica. (Silveira apud MOTTA, 2005, p. 73).

Nesse encontro Jung indicou que a Mitologia seria uma chave importante para se compreender a dinâmica da psique.

Mitos e Mitologias

Pessoalmente, eu não conheço uma definição de mito que seja “suficiente”.  Talvez seja, porque mito não seja um conceito, mas, uma noção, uma aproximação a uma dinâmica que não se curva a nossa linguagem denotativa. Por isso, Jospeh Campbell (2004) afirma que os mitos são metáforas.  Com essa afirmação, Campbell nos oferece a primeira chave para compreendermos o por que estudar a Mitologia.

Quando falamos em metáfora, devemos compreender que metáfora é uma figura de linguagem onde há uma relação entre dois termos, sem o uso de um conectivo, isto é, é uma comparação baseada na equivalência dos dois termos, por exemplo :

João é um touro

Nessa afirmação, podemos perceber que a metáfora é como uma zona intermediaria entre “João” e “touro”, onde o segundo termo qualifica, explica e atribui sentido o primeiro termo.

A metáfora a qual Campbell se refere, nos remete a um passado distante, no passado onde a psique humana estava ainda identificada com a natureza. Não havia uma consciência clara que distinguisse os processos internos e externos.Essa unidade original, onde a natureza(ou mesmo o grupo) é extensão do individuo. É nesse passado que os mitos nascem. É interessante considerarmos que os mitos surgem dessa união  ou identidade entre o individuo com o mundo exterior, dessa forma, é um equivoco achar que os mitos são uma forma de “explicar” a natureza, mas, sim um processo de compreensão mútua, pois, o homem se compreendia na medida em que compreendia a natureza, atribuindo significado não só ao mundo exterior, mas, também a si mesmo na relação com este mundo.

Ainda hoje, podemos perceber esses aspectos claramente nas criança pequenas e nos processos de projeção, onde o inconsciente pode “lançar” imagens interiores sobre o mundo exterior, atribuindo um novo significado os objetos. Por outro lado, podemos perceber essa relação por meio da introjeção de imagens, nos são reapresentadas nos sonhos, sintomas e fantasias.

O inconsciente em suas profundezas arquetípicas mantém até hoje essa dinâmica de identidade com o mundo exterior, ao que Campbell denominou como metáforas, dado o estilo lingüístico de equivalência, a psicologia analítica chama símbolos. Outras abordagens, como a Hipnose Ericksoniana tem como seu elemento básico de trabalho o uso da linguagem metafórica como forma de promover uma comunicação com o inconsciente. As metáforas terapêuticas de Erickson são correspondentes aos símbolos na terminologia junguiana.

Outra importante chave para compreender os mitos nos é oferecida por Mircea Eliade, segundo ele

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que  teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são  deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o  homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou  in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo.(…)

A função mais importante do mito é, pois,  “fixar” os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas: alimentação, sexualidade, trabalho, educação etc. Comportando se como ser humano plenamente responsável, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repete as ações deles,  quer se trate de uma simples função fisiológica, como a alimentação, quer de uma atividade social, econômica, cultural, militar etc. (ELIADE, 1992, 50-2)

Segundo Mircea Eliade, os mitos são modelos exemplares, isto é, os mitos são narrativas que oferecem modelos testados ao longo da história da cultura, que permite que o individuo tenha um referencial de ação. Em alguns casos, o mito pode estar imbuído de um conteúdo prática (como por exemplo, como que os deuses ou o herói fundador criou o arco e a flecha, e como devemos fazer) ou um conteúdo moral que orienta as atividades e a divisão do trabalho e da sociedade, dando coesão ao grupo.

A narrativa mítica é composta por um história com inicio meio e fim, isto é, com causas e consequências. que instruem os indivíduos. Em outro post, sobre a “A função psicologia da religião”  eu fiz alguns comentários importantes para se pensar a mitologia/religião.

Joseph Campbell(2002) nos dá uma boa perspectiva da amplitude da função da religião quando ao discutir a função dos mitos (lembrando que segundo Campbell, “mitologia é como chamamos a religião dos outros”), segundo ele, são quatro as funções básicas da mitologia/religião:

1 – Função Mística ou Metafísica

2 – Função Cosmológica

3 – Função Social

4- Função Pedagógica

A função mística ou metafísica corresponde a abertura ao desconhecido, ao mistério da vida e da morte. Através da religiões o homem amplia sua percepção do mundo, integrando a sua vivência uma realidade que está para além dos percepção sensorial – um mundo eterno, espiritual; libertando a psique humana do condicionamento do tempo e espaço.  Isso é importante, pois, essa função também se reflete como uma  abertura ao inconsciente, a criatividade e imaginação. Que são elementos importantes para o equilíbrio dinâmico da psique.

A segunda, a função cosmológica da religião oferece ao homem uma perspectiva sobre o universo e situa o no mesmo. Essa função geralmente foi mal compreendida afirmando que as mitologias e religiões eram uma proto-ciência, uma tentativa de explicar o mundo. As narrativas sobre a origem do universo, dos deuses, dos homens, de como surgiram os instrumentos, etc…não tinham o objetivo de uma explicação “científica”, mas, sim atribuir sentido e significado ao universo que circunda o homem, colocando-o nessa teia da vida. :Se na primeira função indica que há algo para além da percepção, nessa segunda função o homem toma parte desse mundo sobrenatural, percebendo qual é o seu lugar na existência.

A função social da religião se relaciona com o grupo social. Toda religião vai indicar certas regras de convívio social, geralmente, justificando e reforçando os conceitos morais e organizacionais de um grupo, visando a sobrevivência do mesmo, a religião se constitui um elemento de identidade, dando coesão ao grupo

A quarta, é função pedagógica. A religião se apresenta como pedagógica na medida que orienta as ações e comportamentos dos indivíduos em cada etapa da vida. As narrativas religiosas oferecem ao individuo referencias para se organizar frente ao mundo e as dificuldades, para fazer suas escolhas e tomar suas decisões. Em cada etapa da vida, o individuo é cercado por referências (narrativas/mitos) que o prepara para a vida e para morte. As quatro funções são interligadas, pois, uma leva a outra, oferecendo um solo relativamente firme sobre o qual o individuo pode se organizar e viver. Essas quatro funções nos auxiliam a perceber como a  religião pode atuar psique. (MORAES, 2010)

Mitologia e Psicologia Analítica

Em sua prática clínica, Jung observou que tanto os delírios dos pacientes psicóticos quanto os sonhos de pacientes neuróticos podiam se encontrar um aspecto mítico, isto é, alguns aspectos dos sonhos eram similares as imagens e narrativas constantes em diferentes mitologias. A partir desses estudos, Jung pode, posteriormente, formular sua teoria acerca dos arquétipos.

Jung compreendeu que esses sonhos e delírios com aspecto mitológico teriam origem na mesma camada (mais profunda da psique) que deu origem também aos mitos, esta camada seria o inconsciente coletivo.

O Inconsciente coletivo é formado pelos arquétipos, que são padrões de organização psíquica, que podem se manifestar tanto como ações quanto imagens. Os arquétipos correspondem a estrutura básica do psiquismo e, teoricamente, esses padrões não mudaram nos últimos milhares de anos. A vida humana passou por várias transformações em seu aspecto formal, mas, em sua essência continuamos com as mesmas necessidades comuns a vida humana.

Poderíamos compreender os mitos como uma projeção das experiências humanas mais fundamentais(arquetípicas) na consciência coletiva e que foram elaboradas ao longo dos séculos. Os mitos expressam os arquétipos na cultura, através dos mitos podemos ter acesso ao “mundo dos arquétipos” de forma natural, sem ser permeado pela doença ou pela psicopatologia.

O conhecimento dos mitos, nos permite compreender a dinâmica do arquétipo, isto é, nos possibilita compreender as possibilidades e variações das representações arquetípicas, o que significa que através dessas repesentações (que são coletivas) podemos identificar esses padrões em sua manifestação pessoal, isto é, nos complexos, o que nos permite perceber quais complexos estão mais ativos.

Os mitos nos oferecem uma visão global da psique humana, assim, partimos do que seria mais coletivo para o que é individual e único.

E como estudar mitologia?

É fundamental entender que estudar mitologia não significa apenas “conhecer e contar histórias”.  Quando falamos em estudar mitos, nos referimos ao estudo aprofundado das diferentes narrativas acerca do mesmo tema buscando compreender a estrutura do mito, compreender a dinâmica do mito comparando-o com mitos de outras culturas que participam do mesmo tema, por exemplo, no ultimo post sobre o tema do  curador ferido, citamos três mitos diferentes (Obaluae, Quiron e Cristo)que possuem a mesma estrutura.

Um tema mítico não possui uma possibilidade de compreensão, mas, inúmeras já que eles indicam variações possíveis desse tema na vida humana, por exemplo, se tomarmos a maternidade teremos aspectos positivos e negativos – como toda mãe possui esses dois lados : um nutritivo, acolhedor, por outro lado, podem ser dominadoras, devoradas, que impedem o crescimento, severas que punem ou abandonam os filhos.

Tiamat (mitologia sumérica) : os filhos não foram nomeados, e ela tentou devorar os netos.

Gaia : Os filhos com Uranos, eram gerados em mantidos em seu próprio ventre, somente quando a incomodou que articulou com o filho mais novo, para afastar(castrando) o pai. Posteriormente, gerou com Tártaro, Tífão que quase destruiu seus filhos.

Afrodite : deusa do amor, mas, que não permitia que seu filho crescesse.

Nãnã : Orixá das águas paradas, é a mais antiga e respeitada das orixás. É uma mãe severa, há duas  narrativas que envolvem os aspectos da maternidade negativa de Nãnã, segundo uma narrativa dela pune o próprio filho Obaluae com a Varíola, e, em outra, ela abandona o filho devido sua doença, (este foi criado por Yemanjá)

Baba Yaga : Da mitologia européia, especialmente nos mitos/contos de fada Russos, é retratada como uma bruxa que atrapalha o caminho dos homens.

Esses exemplos, mostram que não basta um mito para compreender o mitema ou o arquétipo envolvido.

Assim, conhecer as narrativas e estabelecer comparações entre as narrativas é o primeiro passo para compreender a estrutura dos mitos, por outro lado, é importante compreender ampliar e focalizar os povos que produziram essas mitologias, compreendendo aspectos da história, geografia, cultura(ritos), estrutura social desses povos.

Alguns autores são importantes para começar esse estudo, como por exemplo, Mircea Eliade, Karl Kerényi, Joseph Campbell, Claude Levi-Strauss.

Referencias Bibliográficas

CAMPBELL, Joseph Isto é Tu, Landy: São Paulo,SP, 2004

Eliade, Mircea . O sagrado e o profano  –  A essência das religiões. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

MORAES, Fabricio , A função psicológica da religião, 2010, Jung no Espirito Santo. Acessado em 08/12/2010. no site:http://psicologiaanalitica.wordpress.com/2010/07/11/funo-psicolgica-da-religio/

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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