Algumas palavras sobre o Curador-Ferido

(19 de outubro de 2012)

(Este foi o texto base para da  apresentação realizada no II Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, 19 de outubro de 2012)

É com muito prazer que  participo desta mesa, juntamente com a profa. Isabele Santos Eleotério, para pensarmos e contribuirmos com a psicologia junguiana no ES. Neste congresso já tivemos o prazer de ouvir o Prof. Maddi, Profa. Kathy e a Profa. Elizabeth, aliás é sempre um prazer ouvi-los. A minha contribuição é uma breve reflexão acerca da representação arquetípica que denominamos curador-ferido.

O “arquétipo do curador-ferido” é facilmente reconhecido e intuitivamente compreendido em suas representações. Para ilustrar, vou citar três representações que nos tocam diretamente.

A primeira é também a mais conhecida e “reverenciada”, vem da mitologia grega, que é o Chiron, o centauro meio-irmão de Zeus. Digo que nos toca, pois, nossa herança intelectual nos liga ao pensamento grego. Assim, Chiron e a mitologia grega nos possibilitam acompreensão de forma tão clara dos arquétipos. No caso, Chiron que era detentor das artes de cura, sendo inclusive mestre de Asclépio, o deus da medicina. Num dado momento, Herácles, que passava pelo Monte Pelion, entrou numa confusão com centauros, nesse conflito acidentalmente Héracles alvejou Chiron, com uma flecha embebida pelo sangue da hidra de Lerna, causando uma ferida mortal. Contudo, por ser imortal, Chiron passou a sofrer dores monstruosas, pois, toda sua habilidade de cura não era suficiente contra o sangue da hidra.

A segunda representação nos toca diretamente, pois, somos atravessados pela tradição judaico-cristã, quer professemos ou não a fé cristã. Assim, temos Jesus Cristo como representante do curador ferido. Suas feridas já faziam parte das profecias do antigo testamento. “Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados.” (Isaias 53:3- NVI). No novo testamento temos outras referências a seu caráter curador “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados”.( I Pedro 2:24 – NVI).

O terceiro também é presente na nossa cultura, vindo da tradição afrobrasileira, que nos toca sutilmente e compõe nossa forma de ser.  Na tradição do candomblé e da Umbanda temos o orixá Xapanã, também chamado de Omulu ou Obaluae.    Em seus mitos, verificamos que quando esse orixá era criança, teve seu corpo tomado pela varíola, motivo pelo qual foi abandonado por sua mãe Nãnã. Ele foi encontrado e tratado por Yemanjá, mas, ficou com o corpo com as terríveis marcas da varíola. Conta-se também, que quando Olodumaré foi dividir seus bens, essa divisão ocorreu quando Xapanã estava ausente, os orixás pegaram os “bens”, restando para ele somente a peste. Posteriormente, ele se tornou um orixá muito temido e respeitado justamente por ser o senhor das doenças e da cura das mesmas.

(eu poderia até citar um outro curador-ferido, que expressa a crença e a fé na ciência. Que é o personagem Gregory House, que representa bem o curador ferido).

O arquétipo do curador-ferido nos é especialmente atraente por se referir à dinâmica do processo de cura e, por conseqüência, por nos permitir pensar a dinâmica que envolve a relação terapêutica. Especialmente pela perspectiva de Guggenbuhl-Craig(1978) que amplia a compreensão desse arquétipo, que afirma que se a consciência se identifica com um pólo do arquétipo, o contrario é constelado no inconsciente. Isto é, numa situação de doença, se constela na consciência a dinâmica da doença e o pólo de “curador”  se constela no inconsciente.  O fato de ser inconsciente, propicia que o polo curador possa projetado seja na figura do médico ou do terapeuta. Guggenbühl-Criag aponta a necessidade de integrar o pólo de cura, justamente para  mobilizar todo potencial de cura do individuo.

Mas, eu gostaria de pensar o arquétipo sob outra perspectiva, pois, quando vemos essa imagem arquetípica temos dois aspectos:  “cura” ou “curador” que se opõe à “ferida”. As imagens citadas (Quiron, Cristo, e Obaluae) distinguem-se justamente por possuírem um limite, o qual denominamos “ferida”, que se torna tão próxima ou mesmo, necessária aos seres humanos. Assim, poderíamos associar ao curador os seguintes elementos:

Curador

Ferida

Saúde

Doença

Possibilidade

Limite

Total

Parcial

Imortal

Mortal

Divino

Humano

Se pensarmos que o pólo curador, expressa a “possibilidade de possibilidades”, o potencial de vir-a-ser, o impulso heroico de expansão. A ferida é um limite. Assim como doença, a velhice também constituem limites ao homem. A Possibilidade-Saúde-Cura e o Limite-Doença-Ferida são opostos refletem o aspecto autorregulatório da psique. De fato, os mitos sempre apontam para a necessidade integrarmos os limites, para não incorrermos na “desmensura” ou na hybris, o erro muitas vezes fatal dos heróis gregos.

É interessante que notarmos que vivemos numa cultura que ainda tem dificuldades de lidar com os limites, isto é, mais propriamente feridas. Não estou advogando em prol da doença, mas, chamo atenção ao Guggenbuhl-Craig nos alerta acerca dos perigos da fantasia da saúde como força, totalidade (como pleno funcionamento fisiológico e mental) que pode ocultar na verdade a ideia de perfeição, que nos leva a uma busca por algo inatingível. Essa busca se manifesta por diferentes vias. Seja excesso de cuidados, ou pela negação dos limites. Lidar ou aceitar com os limites não significa resignação, mas, uma consideração adequada da realidade e do que é a saúde para o indivíduo nesse momento.

Eu já ouvi de pessoas/pacientes religiosos dizerem que não podem ter essa ou aquela doença/limitação por serem tementes a Deus, ao eu respondo, “olha, vc já ouviu falar no apóstolo Paulo que tinha um “espinho na carne” que Deus se recusou a tirar, ou mesmo se conhece o profeta Elias que nos dias de hoje seria diagnosticado estando com depressão”.

Por outro lado, nós que trabalhamos com as “artes de cura”, devemos considerar as feridas do curador como um limite a cura, ou melhor, um limite ao desejo de curar. Pois, “o desejo de curar” muitas vezes expressa esse “ideal de saúde ou perfeição”, onde o terapeuta impõe uma realidade estranha a realidade ou a verdade do paciente. A busca incessante pelo ideal de saúde pode ser mais opressivo que a limitação e a doença. Jung aponta que o que terapeuta nao suporta o paciente também não vai suportar.

Por isso mesmo, integrar as feridas-limites significa aceitar nossa humanidade, como uma forma de possibilitar a quem atendemos integrar tanto o pólo “curador” quando o pólo “ferida”. É, como o prof. Maddi disse ontem, aceitar que a vida gera vida, tanto pela possibilidade quanto pelo limite. Pois, é através da integração dos dois que podemos experimentar “quem somos”.

O arquétipo do curador-ferido expressa o processo de individuação. Acredito que em outras oportunidades poderemos falar mais sobre o processo saúde-doença que é expresso por essa imagem.

Textos utilizados:

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf. O Arquétipo do Inválido e os limittes da Cura ,in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bílbica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BRANDÃO. J. DICIONÁRIO MÍTICO-ETIMOLÓGICO, Vol. I, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

GROESBECK, C.J. A IMAGEM ARQUETÍPICA DO MÉDICO FERIDO,inJUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

Cf. JUNG, C.G. Ab-Reação, Análise dos Sonhos, Transferência, Petrópolis, RJ : Vozes, 1999.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Pensando Alguns aspectos do “curador ferido”

 

20 de novembro 2010

(Pequenas correções e ampliações em 09/12/2011)

Falar em relação terapêutica na abordagem junguiana implica, antes de tudo, em reconhecer o aspecto arquetípico que envolve o processo de psicoterapia ou relação terapêutica. Para fazer esse reconhecimento, em primeiro lugar, devemos lembrar que psicoterapia em sua origem etimológica significa “cuidado ou atenção com alma”. Tanto psicologia(especialmente, a clinica psicológica/psicoterapia) quanto a psiquiatria nasceram da necessidade nossa cultura em lidar com psique por uma via propriamente científica, pois esta era uma necessidade de nossa cultura. Entretanto, bem antes de Pinel, Wundt, Charcot, Freud e Jung o homem sofria do males da alma.

Antes de nossa concepção científica, o homem há milênios lidava com os “males ou sofrimentos da alma” por meio das religiões ou mais especificamente das práticas mágico-religiosas, praticas essas que em nosso meio “científico” desprezamos. Contudo, foi a partir dessas práticas mágico-religiosas que podemos ter uma perspectiva dos meios que a psique utilizava para se reorganizar e se curar através dos tempos. Entendam, não estou dizendo que a psicoterapia e a religião são iguais. Estou afirmando que ambas emergem da mesma necessidade humana de lidar com as adversidades da alma.

Por isso, Jung costumava dizer que as religiões eram sistemas psicoterapêuticos, justamente por lidar com os mesmos fenômenos que lidamos no consultório, os males da alma. Não é a toa que muitos clientes recorrem primeiramente a religião, antes de procurar psicoterapia. Entretanto, que não devemos compreender isso uma ineficácia da religião ou como se ela tivesse perdido sua “validade terapêutica”. Uma das formas, para compreendermos porque a psicoterapia ocupa o lugar que outrora foi da religião, nós é dado por Levi-Strauss, que no seu livro “antropologia esturural”, no capitulo “O Feiticeiro e sua magia”, afirma que :

Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a eficácia da magia implica na crença da magia, e que esta se apresenta sob três aspectos complementares: existe, inicialmente, a crença do feiticeiro. na eficácia de suas técnicas; em seguida, a crença do doente que ele cura, ou da vítima que ele persegue, no poder do. próprio feiticeiro; finalmente, a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam à cada instante uma espécie de campo de gravitação no seio do qual se definem e se situam ás relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça. (Levi-Strauss, 1975, p. 194-5)

Os três aspectos citados por Levi-Strauss são a) confiança do feiticeiro em suas técnicas; b) confiança do doente no feiticeiro; c) confiança do grupo nesse processo de cura. Esses aspectos podem ser transportados para a psicoterapia contemporânea, reconhecendo que há a necessidade 1 ) o psicoterapeuta confiar e dominar a sua técnica, 2) a confiança do cliente (que pode ser traduzida como rapport, vinculo ou transferência); 3) Reconhecimento social, crença em sua eficácia científica.

A eficácia psicoterapêutica e a eficácia da cura mágico-religiosa estão relacionadas por emergirem da mesma realidade psíquica. A principal diferença está a psicoterapia contemporânea é uma forma de a consciência estabelecer um ponte para o dinamismo inconsciente, buscando reestabelecer a saúde psíquica. Por sua vez, a religião surge como uma expressão simbólica do próprio inconsciente na tentativa de uma reordenação psíquica. Assim, os mitos e os rituais são metáforas de dinâmicas coletivas que estão presentes no interior de cada um.

Por outro lado, poderíamos inclusive ampliar essas relações, se observarmos alguns resquícios da amplitude da função religiosa para o homem na linguagem. Por exemplo, o termo saúde e salvação derivam da mesma palavra latina Salus. Já em língua germânica, o termo hailag está na raiz de heilig (sagrado) e de Heil (inteiro, são, curado).

Essa correlação de salvação e saúde não é estranha quando pensamentos, que na concepção religiosa Deus ou deuses são os responsáveis pelas tanto pelas curas quanto pelas doenças. Ou seja, se urma doença foi um castigo de uma divindade, a pessoa que sofre deveria rever seus atos para ver onde que ofendeu a divindade, e fazer as expiações necessárias. Essa noção de causalidade divina pode ter perdido força em nossa cultura em face a ciência, apesar em vários grupos e camadas sociais essa concepção continua viva e atuante, no meio científico que, no geral, menosprezamos ou mesmo abandonamos a importância e efeito da religião no cotidiano. Segundo, Jung, em nossa cultura regida pela ciência,

Abandonamos, no entanto, apenas os espectros verbais, não os fatos psíquicos responsáveis pelo nascimento dos deuses. Ainda estamos tão possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos, como se estes fossem deuses. Atualmente eles são chamados: fobias, obsessões, e assim por diante; numa palavra, sintomas neuróticos. Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico; também perturba os miolos dos políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo verdadeiras epidemias psíquicas. (JUNG, O Segredo da Flor de Ouro,xx)

As experiências humanas o fenômeno doença-cura imprimiram na psique um padrão de mobilização psíquica, que cuja imagem representacional é o mitema curador-ferido.

Antes de falarmos sobre o essa dinâmica arquetípica de saúde-doença, que fundamenta a relação terapêutica, devemos rever os mitos relacionados ao a dinâmica do curador ferido/saúde-doença.

Algumas pessoas podem achar estranho o fato dos junguianos sempre buscarem os “mitos” ou “referências mitológicas”. Acredito que seja importante frisar que, segundo Cambpell, os mitos são metáforas. Isto é, metáforas de nossa realidade interior. Essas metáforas nos servem como modelos para um nível de apreensão da realidade, nos dando orientação e direcionamento, e, por outro lado, nos possibilitam a compreensão de processos inconscientes projetados e elaborados nos mitos.

O curador-Ferido

Para falarmos do arquétipo do curador ferido eu gostaria de contrapor três variações desse arquétipo que nos narram acerca dessa dinâmica.

A primeira tradição que nos ensina bastante é a tradição afro-brasileira, do Candomblé, pessoalmente, eu acredito que das três que vou me referir esta é a que melhor explicita a dimensão arquetípica das polaridades saúde e doença. No candomblé, orixá que rege a saúde e a doença é Xapanã, mas, por respeito e temor, ele é mais conhecido por Obaluaê(Senhor da Terra) ou Omulu (Filho do Senhor) . Um dos mitos sobre Xapanã, diz o seguinte,

Xapanã ganha o segredo das peste na partilha dos poderes

Olodumare, um dia, decidiu distribuir seus bens.

Disse aos seus filhos que se reunissem

e que eles mesmos repartissem entre si as riquezas do mundo.

Ogum, Exu, Orixá Oco, Xangô, Xapanã

e os outros orixás deveriam dividir

os poderes e mistérios sobre as coisas da Terra.

Num dia em que Xapanã estava ausente,

os demais se reuniram e fizeram a partilha,

dividindo todos os poderes entre eles,

não deixando nada de valor para Xapanã.

Um ficou com o trovão, o outro recebeu as matas,

Outro quis os metais, outro ganhou o mar.

Escolheram o ouro, o raio, o arco-íris;

Levaram a chuva, os campos cultivados, os rios.

Tudo foi distribuído entre eles,

cada coisa com seus segredos,

cada riqueza com seus mistério.

A única coisa que sobrou sem dono, desprezada, foi a peste.

Ao voltar, nada encontrou Xapanã para si,

A não ser a peste que ninguém quisera.

Xapanã guardou a peste para si,

mas, não se conformou com o golpe dos irmãos.

Foi procurar Orunmilá, que lhe ensinou a fazer sacrifícios,

para que seu enjeitado poder fosse maior que os dos outros.

Xapanã fez sacrifícios e aguardou.

Um dia, uma doença muito contagiosa

Começou a se espalhar-se pelo mundo.

Era a varíola.

O povo desesperado, fazia sacrifícios para todos os orixás.

mas nenhum deles podia ajudar.

A varíola não poupava ninguém, era uma mortandade.

Cidades, vilas e povoados ficavam vaizos,

já não havia espaços nos cemitérios para tantos mortos.

O povo foi consultar Orunmilá para saber o que fazer.

Ele explicou que a epidemia acontecia

Porque Xapanã estava revoltado,

por ter sido passado para trás pelos irmãos.

Orunmilá mandou fazer oferendas para Xapanã.

Só Xapanã poderia ajudá-los a conter a varíola,

pois só ele tinha o poder sobre as pestes,

só ele sabia o segredo das doenças.

Tinha sido essa a sua única herança.

Todos pediram proteção a Xapanã

E sacrifícios foram realizados em sua homenagem.

A epidemia foi vencida.

Xapanã era então respeitado por todos.

Seu poder era infinito, o maior de todos os poderes” (PRANDI, 2007, p.210-1)

Em outras narrativas acerca de Xapanã é dito que ele, quando nasceu doente e foi abandonado pela mãe (Nãnã) e criado por Iemanjá, outros falam que quando criança que foi punido com varíola por desobediência, e mesmo ele superando a doença ele continuou com as marcas e deformações da doença. O que fazia com que ele usasse palha para esconder as marcas da doença. Mesmo sendo ele senhor das doenças e das curas, ele próprio era marcado pela doença. Xapanã, Obaluaê-Omulu, é um curador que carrega suas próprias feridas, escondendo-as por debaixo de sua roupagem de palha, tanto pro vergonha de sua aparência e para evitar as reações que causa nas pessoas.

Indo para outra época, uma outra mitologia, podemos reconhecer a mesma dinâmica, no mitema grego de Quiron, o centauro. Na mitologia grega, Quiron é um personagem que não possui um mito próprio, mas, participa da história de deuses e heróis. Ele nasceu da união de Cronos e a ninfa Filira, ele foi criado por Apolo, e se tornou o mais sábio (e civilizado) dos centauros, foi o mestre de heróis como Ajax, teseus Jasão, Perseu, Enéas, Télamon, Aquiles Peleu, Aristeu, Hercules e Asclépio. No toca a nosso estudo, Quíron foi mestre de Asclépio(ou Esculápio), a quem ensinou as artes da cura, por sua vez, Asclépio se tornou o deus da medicina. Mas, todo conhecimento nas artes da cura não  foram suficientes para curá-lo, quando ele foi atingindo pela flecha de Hercules que havia sido embebida no sangue da hidra de Lerna, que era mortal, mas, como Quiron era imortal, o ferimento causado jamais curaria, causando dores intermináveis. O sofrimento de Quiron só terminou quando ele trocou sua imortalidade pela liberdade de Prometeu, feita esta troca, Zeus eternizou sua história nas estrelas criando a constelação de Sagitário.

O terceiro representante dessa categoria de curadores feridos é bem conhecido d e nossa cultura, justamente por estar no centro da mitologia vigente que é Jesus Cristo. Devemos tomar alguns textos como referência:

Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Isaias 53:3 (NVI).

Os profetas do antigo já previam o sofrimento do messias, que o sofrimento dele seria necessário para o perdão e a purificação de todos.

Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados. I Pedro 2:24 (NVI)

As feridas de Cristo são ressaltadas na passagem onde Cristo encontra com Tomé, após a ressurreição.

Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu.

Os outros discípulos lhe disseram: “Vimos o Senhor! ” Mas ele lhes disse: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”.

Uma semana mais tarde, os seus discípulos estavam outra vez ali, e Tomé com eles. Apesar de estarem trancadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês! ”

E Jesus disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia”.

Disse-lhe Tomé: “Senhor meu e Deus meu! ”

Então Jesus lhe disse: “Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram” Jo. 24-29. (NVI)

Quando estudamos atenciosamente esses três mitemas, podemos perceber que em culturas diferentes produziram estruturas muito semelhantes como o nascimento divino ( Obaluae e Quíron foram abandonados no nascimento; Cristo foi perseguido e teve de ir para o Egito) os três passaram pelo sofrimento, tinham as marcas do sofrimento, mas, eles mesmos não curaram essas marcas/feridas.

A identidade entre essas representações evidenciam um arquétipo que denominamos “curador-ferido”. Entretanto, eu gostaria de ressaltar que essa estrutura arquetípica deveria ser compreendida de modo mais amplo, pois, os curadores feridos indicam que saúde e a doença estão associadas numa mesma dinâmica, são polaridades do mesmo arquétipo. Dos três exemplos, Obaluae representa melhor essa dinâmica, pois, ele é tanto o curador quanto o causador das doenças (um paralelo que poderíamos traçar, seria com Jeová, que tanto enviava as doenças quanto curava o povo).

Dessa forma, poderíamos compreender esse arquétipo por essas duas vias:

a) Curador-ferido: que dá indicações para pensarmos a temática do terapeuta;

b) Saúde-doença: que nos permite compreender o potencial de saúde inconsciente, isto é, há sempre o potencial de vida mesmo na doença. Assim, como o símbolo do Tai Chi, o germe da saúde encontra-se na doença, e germe da doença está presente na saúde.

É importante frisar que como arquétipo, essa dinâmica é comum a todos os seres humanos, não restrita a “terapeutas”.

Indo pela primeira via, entramos num domínio que é a percepção do “curador-ferido”, que nos permite refletir acerca das pessoas que se propõe a posição de curadores ou cuidadores (que não se restringem a psicólogos, mas, também, ministros religiosos, assistentes sociais, professores, médicos dentre outros).

O aspecto fundamental dessa representação é a ferida do curador. Esta ferida pode ser compreendida simbolicamente em dois aspectos :

1 – É uma ferida aberta na pele : Em primeiro lugar devemos focalizar a pele, que é o órgão de nosso corpo responsável pela proteção de nosso organismo, e que intermedia a nossa relação com o meio. Essa ferida aberta na pele nos fala de uma “abertura sensível” ao mundo exterior. É uma abertura

2 – É incurável : Ser incurável significa que ela requer cuidados contínuos.

Assim,  essa ferida, essa disposição a compreender e ajudar aos outros, produz “uma ponte simbólica” inconsciente, que não deve ser vista como “negativa”, mas que deve ser cuidada atentamente para não causar “infecções” (seja por meio de relações contratransferenciais arrasadoras ou de outras ordens), como história do movimento psicanalítico nos ensina (sugiro a leitura do livro “Luz e Trevas” de Isaias Paim).

Em outros, termos, essa ferida simbólica do terapeuta, por ser inconsciente, está associada com sua sombra. Essa é uma questão importante, segundo Guggenbhul-Craig,

Sombra no analista constela sombra no paciente. Nossa própria honestidade ajuda-o a confrontar seus fenômenos sombrios. Cada um de nós deve trabalhar em ambas áreas (GUGGENBHUL-CRAIG,1978, p.86)

Quando falamos de sombra devemos lembrar que esta corresponde a todos os pontos cegos (ou míopes) que temos em nossa consciência. É importante compreendermos que a sombra não é um processo apenas histórico, mas é um fator dinâmico, fazer analise não significa que você vai “exaurir” ou “dominar” a sombra, mas, apenas que você estar atento aos seus “tendões de Aquiles”, de nossa história pessoal. Quando nós, terapeutas,  não permitimos a entrada desses conteúdos em nossa consciência ou não permitimos sua expressão simbólica, eles encontram outro meio, seja pela formação do sintoma neurótico ou a somatização. Por outro lado, essa sombra também vai estar associada a dinâmica arquetípica do curador ferido.

(…)Quando uma pessoa fica doente o arquétipo de terapeuta-paciente se constela. O enfermo procura um terapeuta exterior, mas, ao mesmo tempo se constela o terapeuta intrapsíquico. Costumamos nos referir a este, no paciente, como “fator de cura”. É o médico dentro do próprio paciente – e sua ação terapêutica é tão importante quanto a do profissional que entra em cena externamente. As feridas não se fecham nem as doenças se vão sem a ação curativa do terapeuta interior. (…) O médico pode fechar o corte – mas, algo no corpo e na psique do paciente deve cooperar para que a enfermidade seja vencida. (GUGGENBHÜL-CRAIG, 1978, p. 98)

Os dois pólos do arquétipo são atuantes em nós. Quando reconhecemos o pólo que até aqui já chamamos de “ferida/doença/doente/paciente” estamos reconhecendo também a nossa limitação, esse pólo conduz o terapeuta a humildade não se achar melhor ou superior ao atendido. Por outro lado, quando não reconhecemos as feridas, corremos o risco da hybris do analista, na identificação com a polaridade curadora. Essa identificação gera cisão na dinâmica do arquétipo, onde a consciência identifica com o pólo curador e a tendência é projetar o pólo oposto na relação terapêutica, isto é, no cliente. Quando isso ocorre, o terapeuta se torna o dono da verdade, não reconhece ou valoriza os desenvolvimentos do cliente, isto é, não desperta o potencial de cura do cliente, tornando-o cada vez mais dependente de si.

É fundamental compreendermos que as feridas do curador lhe lembram que ele é humano, que deve buscar viver e desenvolver sua vida. A ferida lhe impõe o cuidado de sua vida in lato sensu (pessoal, familiar, social). As feridas do terapeuta somente serão problemáticas quando dissociadas, isto é, quando sua relação consigo mesmo for precária.

(Voltaremos a essa discussão, no que tange ao curador ferido na psicoterapia, num post futuro quando falaremos da relação transferência-contratransferência. Este texto foi baseado numa aula dada na UFES em 2010. Corresponde a primeira parte da aula, a segunda parte foi aprofudado o tema da transferência-contratransferência. Este post guarda algumas ligações com o texto  Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista).

Referencias Bibliograficas

LEVI-STRAUSS, Claude. 1970. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

JUNG, C. G.; WILHEIM, R. O segredo da flor de ouro: um livro de vida Chinesa. 11 Edição. Petrópolis: Vozes, 2001.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas palavras sobre símbolos e função transcendente

 

11 de setembro de 2010

O símbolo é o conceito que melhor representa a compreensão da psicologia junguiana acerca da psique. Etimologicamente, símbolo vem da palavra grega symbolon, do verbo symballein que seria lançar com, arremessar ao mesmo tempo, também sendo usado para exprimir um acordo ou uma senha que possibilitaria o reconhecimento de iguais que se separaram.

A função psíquica do símbolo é semelhante à expressa historicamente na cultura: reconhecer e unir. Os símbolos “[…] são tentativas naturais de lançar uma ponte sobre o abismo muitas vezes profundo entre os opostos, e de equilibrar as diferenças que manifestam” (JUNG, 2000, p. 259). Assim o símbolo é como uma ponte que aproxima o inconsciente e a consciência. E, como uma ponte, o símbolo possui uma face que é apreendida pela consciência e outra que é inconsciente, dessa forma o símbolo nunca é totalmente apreendido pela razão, isto é, pela consciência.

Assim, por possuírem um aspecto inconsciente os símbolos possibilitam o trânsito da energia psíquica entre a consciência e o inconsciente, além de possibilitar a transformação da energia de uma forma de manifestação para a outra, disponibilizando energia para a atuação da vontade consciente.

Os símbolos expressam uma totalidade psíquica que é simultaneamente pessoal, cultural e arquetípica. Isso confere ao símbolo uma riqueza de significados que não permitem sua delimitação. Quando se tenta demarcar o sentido do símbolo, este torna-se um sinal.

Um sinal sempre aponta para uma idéia consciente […] Um sinal é sempre menos do que a coisa que quer significar, e um símbolo é sempre mais do que podemos entender a primeira vista. Por isso não nos detemos diante de um sinal, mas vamos até o objetivo para o qual aponta; no caso do símbolo, porém, nós paramos porque ele promete sempre mais do que revela (JUNG, 2000, p.215).

Os símbolos coletivos são expressos por meio da cultura unindo a consciência coletiva ao inconsciente coletivo. Esses símbolos expressam o espírito da época (zeitgeist), nos possibilitando compreender a dinâmica das massas e das nações. Por outro lado, os símbolos pessoais nos falam da dinâmica do indivíduo, mesmo que esse símbolo tenha uma moldura marcadamente cultural.

Quando um símbolo se manifesta à consciência, abre a possibilidade de uma mudança da atitude desta, por exemplo, um indivíduo que sonha que sofreu acidente de carro e ao acordar repensa a forma como conduz sua vida, ou minimamente, passa a dirigir com mais cautela, por ter a imagem do acidente em sua mente. O conteúdo simbólico do sonho possibilitou uma mudança nesse indivíduo.

Os símbolos, como os sonhos, são produtos da natureza, mas eles não aparecem só nos sonhos; podem s urgir em qualquer forma de manifestação psíquica: existem pensamentos, sentimentos, ações e situações simbólicos, e muitas vezes parece que não só o inconsciente mas também objetos inanimados se arranjam de acordo com os modelos simbólicos (JUNG, 2000 , p. 214).

Os símbolos podem surgir no contexto de um conflito neurótico, se opondo à atitude da consciência. Não que o símbolo seja patológico ou mesmo patogênico, mas sim a atitude da consciência. Para haver mudança é necessário que haja um símbolo constelado. Dessa forma, a psicoterapia só é eficaz se possibilitar a relação simbólica do indivíduo com consigo mesmo. Em outras palavras, é necessário que a psicoterapia seja simbólica para o cliente, de modo que favoreça seu processo de individuação.

Neste contexto, é que podemos falar da função transcendente.

Jung define a função transcendente, assim, como a “união de conteúdos conscientes e inconscientes”, “a reconciliação” dos pares de opostos e a partir desta reconciliação uma nova coisa é sempre criada , uma nova coisa é realizada. Este processo não lida somente com “conteúdos” mas como se depreende é a interação e integração em um todo, múltiplo e dinâmico, do inconsciente com o consciente. Isto é a função transcendente, que “nasce da união dos opostos”.

O símbolo como se verá desfaz a dicotomia entre externo e interno, pois este passa a ser uma “incarnação”(sic) do psiquismo como uma totalidade não fragmentada, ou seja, o símbolo reúne em sua constituição todas as possibilidades de compreensão e reúne os opostos em uma unidade não fragmentada. (DAMIÃO, 2003, p.42)

Dessa forma, falar em símbolo é necessariamente falar em função transcendente, pois símbolo e função transcendente exprimem a mesma dinâmica, em proporções diferentes. O símbolo está diretamente relacionado a uma dinâmica energética basal – necessária para a manutenção do psiquismo, já a função transcendente está relacionada ao processo de desenvolvimento do psiquismo, que exige uma ação da consciência.

(…)A “confrontação do eu com o inconsciente” é um processo de estabelecimento de uma atitude e não apenas de entendimento, pois o Ego torna-se a partir de então fruto deste “confronto”.

Quando se consegue formular o conteúdo inconsciente e entender o sentido da formulação, surge a questão de saber como o Ego se comporta diante desta situação. Tem, assim, início a confrontação entre o Ego e o inconsciente. Esta é a segunda e a mais importante etapa do procedimento, isto é, a aproximação dos opostos, da qual resulta o aparecimento de um terceiro elemento que é a “… a função transcendente que é o resultado da união dos opostos”, ou seja, o próprio símbolo. (DAMIÃO, 2003, p. 52)

A função transcendente é um símbolo que marca o confronto e a união de opostos, seu objetivo não é a transformação de energia, mas a unidade psíquica, ou seja, a função transcendente é um símbolo unificador, que intimamente relacionado com o processo de individuação.

Referencias

JUNG, Carl Gustav, A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

DAMIÃO, Maddi, Jr. A Psicologia da Matemática e a Matemática da Psicologia. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 2003.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Sobre a terapia e os arquétipos. Via de regra podem ser percebidos pelos sonhos ou há outra “manifestação” clínica?” Resposta a Martônio Sales

 

(4 de junho de 2010)

Há algum tempo recebi um e-mail de um estudante de psicologia do Ceará(UFC) – Martônio Sales – dentre outras perguntas ele me questionou “sobre a terapia e os arquétipos. Via de regra podem ser percebidos pelos sonhos ou há outra “manifestação” clínica?”. Acho que será interessante discutir essa questão, de forma ampla. Antes, porém, gostaria de agradecer ao Martônio Sales pelo e-mail e espero estar esclarecendo um pouco mais essa questão.

Em outro post sobre os arquétipos e representações arquetípicas eu comentei um pouco sobre minha compreensão acerca dos arquétipos. Para começarmos a pensar essa relação de terapia e arquétipos, podemos, retornar um pouco a compreensão acerca dos arquétipos .

a) Arquétipos

Os arquétipos são padrões basais de organização psíquica, assim, antes de adjetiva-los com suas funções seja como “materno”,  “paterno”, “puer”, “poder” etc..,  devemos compreender que eles são os padrões  que possibilitam que o psiquismo se organize de modo semelhante a todos os seres humanos. Jung relacionou os arquétipos ao processo de evolução filogenética(lembrando que os arquétipos são instintos diferenciados), deste modo são anteriores a linguagem e a cultura, na verdade os eles são a possibilidade de apreensão de sinais e a elaboração desses em símbolos, necessários a organização da consciência(da linguagem e cultura).

Ao longo de nossa história coletiva esses padrões de organização se constelaram em referências culturais especialmente nas mitologias(ou religiões) que organizavam os seres humanos em relação a sua realidade(relação com o meio ambiente), em seu grupo (dando leis e normas de ação) e consigo mesmo (identidade e  papel social).  Os mitos são narrativas que expressam esses padrões arquetípicos. Por isso, podemos dizer, que os mitos (e a cultura) são parte da psique, correspondem a um campo impessoal, o conceito que nos permite nos aproximarmos mais dessa idéia é a de “consciência coletiva” de Durkheim.

Na esfera pessoal, os arquétipos atraem e as representações das  experiências individuais, que se organizam em torno de cada arquétipo correspondente, p. ex., as experiências de nutrição e cuidado – próprias da relação materna – vão ser organizadas em torno desse padrão arquetípico, dando origem ao complexo materno. Todo complexo se constitui a partir de um arquétipo.

b)  Representações Arquetípicas individuais(ou naturais)

As representações arquetípicas individuais  são símbolos que emergem do inconsciente. Esses símbolos podem se manifestar através dos sonhos, da sincronicidade, intuição, sintomas neuróticos ou de somatizações. Todas essas formas de manifestação visam a integração entre a consciência e o inconsciente, superando uma possível atitude neurótica da consciência. (estando o individuo ou não em terapia/análise)

c) Arquétipos na clínica

Antes de pensarmos os arquétipos na clínica, devemos lembrar que um dos maiores riscos que o psicólogo junguiano corre é de cair no “reducionismo arquetípico”, isto é, querer ver arquétipos em tudo ou querer “mitificar tudo” associando todas as produções do cliente com a mitologia. Não podemos perder de vista que o cliente e sua individualidade é o da psicoterapia/analise, os arquétipos são instâncias fundamentais da psique e nos ajudam a compreender a dinâmica que está ativa no individuo, Isto é, a a história pessoal.

Quando falamos de “arquétipos na clínica” estamos pressupondo que um dado individuo está envolvido por uma dada dinâmica arquetípica,isto é, tende a perceber e reagir à realidade de uma forma típica, determinada pelo arquétipo. Por exemplo, um individuo com complexo materno negativo, (preso a dinâmica do arquétipo da grande mãe) tende a se portar como filho frente as situações gerais – o que pode significar insegurança, medo e dependência de alguém que cuide e nutra. Em outras palavras, o Ego passa a se organizar a partir da representação individual desse arquétipo, que é o complexo. 

Como a atitude do ego (engolfada pelo complexo) se torna inadequada/unilateral, o inconsciente, que atua de modo complementar à consciência, produz formações quem tentaram corrigir essa identificação do Ego com esse complexo. Assim, os sonhos, sintomas, pensamentos, somatizações visam corrigir essa relação inadequada do Ego com o complexo, tendem a se manifestar em sua forma impessoal que nós podemos reconhecer através das analogias com as mitologias, que fornecerem ao terapeuta possíveis direções para que ele possa verificar melhor a história pessoal do cliente. A manifestação impessoal (arquetípica) é necessária para evitar que os mecanismos de defesa do Ego sejam ativados, que poderia significar a repressão e o aumento da separação entre a consciência e o inconsciente.

Assim sendo, toda manifestação do inconsciente envolve os arquétipos de forma mais ou menos clara (ou típica). O fundamental é não nos atermos a uma “busca cega” por arquétipos e perdermos o foco que deve ser nosso cliente.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Arquétipo e Representações Arquetípicas

 

16 de abril de 2010

Arquétipo é um dos principais conceitos junguianos. Entretanto, frequentemente vemos grandes confusões feitas com esse conceito. Assim, vou tentar apresentar a forma como pessoalmente compreendo a idéia de arquétipo, discutindo um pouco da teoria para torna-lo mais claro.

Arquétipo : O termo

O termo arquétipo foi utilizado por Jung pela primeira vez em 1919, em Londres, num simpósio intitulado “Instinto e Inconsciente”. O termo arquétipo já era conhecido da filosofia e, suas origens, poderiam remontar até Platão. Essa relação histórica com o Platonismo gerou um preconceito em relação a concepção de Jung. Em sua etimologia, o termo arquétipo é formado pelo termo arkhé, oriundo do grego, que significaria primeiro, antigo, regente, dominante, original; e typos, também oriundo do grego, que significaria marca, impressão, molde ou modelo. Desde modo, o termo arquétipo exprimiria a idéia de um molde, marca ou modelo original.

Arquétipo na Psicologia Analítica

Apesar do termo só ter sido introduzido em 1919, a idéia de arquétipo já estava presente nas publicações de 1912, onde Jung relatava seus estudos acerca das “imagens primordiais”, imagens que se manifestam na psique e que poderíamos observar uma relação com a mitologia. Por volta, de 1917, Jung começa a se referir dominantes do inconsciente coletivo.

Num primeiro momento, Jung relaciona ou mesmo justifica a teoria dos arquétipos considerando a teoria da evolução. Deve-se notar quem em 1912, por ocasião de palestras no EUA, Jung visitou manicômios destinados aos negros, para pode estudar os sonhos e delírios desses pacientes, o que ele pode notar era que os conteúdos eram semelhantes aos de seus pacientes na Suiça e, alguns delírios e percebeu claro paralelo com a mitologia grega.

Para Jung,  a universalidade dessas representações psiquicas estavam relacionadas com a história do homem. Segundo ele,

Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)

Isso implica em dizer que os arquétipos não estão relacionados a nada metafísico, mas, sim são expressões do processo evolutivo, quem imprimiram padrões de basais de organização do psiquismo.  Esses padrões basais podemos reconhecer nos animais como instintos. Os arquétipos, seriam

(…) instintos centralmente representados, ou seja, que se manifestam como imagens. Os arquétipos só tomam a forma de imagens onde a consciência está presente; noutros termos, o autorretrato configurado dos instintos é um processo psíquico de ordem superior. Pressupõe um órgão capaz de perceber essas imagens primordiais. (NEUMANN, 1995, p.215).

A referência a imagens, num primeiro momento, podemos pensar nas imagens dos sonhos, as imagens em alucinações de pacientes psicóticos. Entretanto, devemos compreender que essas imagens (sonhos e alucinações) são representações visuais que atingem a consciência. É fundamental que compreendamos para Jung,  IMAGENS são REPRESENTAÇÕES, não apenas visualizações. As imagens arquetípicas, que prefiro chamar de representações arquetípicas, pode ser cinestésicas, assim sentidas no corpo, a analise bioenergética nos propicia uma percepção clara disso, pois, p.ex., através um dado exercício, é possível acessar o mesmo conteúdo emocional em indivíduos de diferentes culturas ou diferentes lugares do mundo. Ou seja, através de um movimento compatível com a dinâmica própria do arquétipo é possível ativa-lo ou ativar sua representação na esfera pessoal, essa pode se manifestar como imagens (sonhos, visões), sensações cinestésicas ou emoções/lembranças.

De forma geral, quando o arquétipo isto é, um padrão de organização psíquica basal, uma vez ativado ele vai mobilizar  o individuo por inteiro, modificando a forma do individuo perceber ou reagir à realidade, isso porque sua força ou energia tende a engolfar o ego.

Compreendo que o arquétipo é um padrão basal de organização psíquica, assim, o psiquismo se organiza em torno desses padrões, fazendo com que todos os indivíduos em toda parte tenham uma organização psíquica semelhante. Deste modo, falar em arquétipo significa reconhecer que temos uma predisposição a determinados comportamentos, assim como a predisposição a aprendizagem. Deve-se notar que essas predisposições são comuns a toda humanidade. Esses padrões vão assumir a forma da cultura em que o individuo se encontra(mas, sua essência permanece a mesma em toda cultura). Como por exemplo, a maternagem, ela se manifesta em todas as culturas e se caracteriza essencialmente pelo cuidado e nutrição da prole, contudo, o tempo e a forma como a mãe vai cuidar e nutrir de seus filhos, depende da cultura onde está inserida.

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo percepção e ação. Quando ocorre na vida algo que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda razão e vontade, ou produz um conflito de dimensões eventualmente patológicas. Isto é, uma neurose. (JUNG, 2000b, p.58).

Representações arquetípicas

Segundo Jung, seria

provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação (JUNG, 2000c, p150)

Como podemos ver, o arquétipo não pode se tornar consciente por ser psicóide (isto é, quase psíquico, o arquétipo esta na zona limítrofe entre o físico e psíquico, por isso transcendente). Conforme disse acima, as chamadas “imagens arquetípicas” são “representações” do arquétipo. Para evitar confusões, prefiro me referir às manifestações do arquétipo apenas como “Representações arquetípicas”. Compreendo como as principais formações arquetípicas:

1 – Complexos : Os complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos são agrupamentos de ideias, pensamentos, imagens em torno de um núcleo arquetípico. Os complexos são como atualizações dos arquétipos na vida pessoal. Como dissemos, os arquétipos são padrões de organização psíquica, assim, as experiências individuais que possuem afinidade com um padrão arquetípico são atraídas e formam um conglomerado, que organizam e orientam nossas memórias de lembranças vividas, assim como orientam a percepção das experiências. Através dos complexos podemos apreender as dinâmicas arquetípicas e como elas organizam e orientam nossa vida.

2 – Símbolos culturais: Chamo de símbolos culturais todos os elementos que se mantém como referencia da cultura. Como os contos de fadas, mitos, provérbios, imagens, monumentos que expressam a dinâmica arquetípica. Segundo Jung,”o arquétipo é sempre uma espécie de drama sintetizado”(EVENS, 1973, p. 55), por isso, muitas das narrativas mítico-religiosas nos afeta, assim como as obras de arte que expressam um cena ou situação que similar a padrão arquetípico. Os símbolos culturais são importantes pois, servem de referencia para a constelação dos arquétipos em nossa vivência pessoal.

3 – Símbolos pessoais:  Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. Esses símbolos podem ser situações, pessoas, locais, lembranças, musicas, enfim, qualquer coisa que tenha uma similaridade arquetípica ou que sobre ao qual o arquétipo inconsciente tenha se projetado. O símbolo pessoal tem o objetivo de  possibilitar a passagem de energia do inconsciente para a consciência, com a finalidade de organizar e/ou dar um direcionamento ao Ego.

Referências bibliográficas

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.

NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000b.

JUNG, C.G.Natureza da Psique, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000c

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

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