“Entre Nós” – “Você tem fome de Quê? Transtornos alimentares e Psicologia Analítica

Na manha de 13 de maio tivemos um excelente encontro do “Entre Nós” na Livraria Paulus de Vitória. Foi um excelente encontro com a apresentação do tema por Kelly Tristão. Vejam as fotos abaixo, mês que vem temos mais.

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 “A Bela e a Fera”, “O Barba Azul” e a violência contra a mulher – algumas reflexões

Por Fabrício Moraes 

Os mitos e contos de fadas são uma rica fonte de conhecimento, inspiração e de trabalho para os psicólogos junguianos. Podemos compreendê-los como metáforas de nossa realidade, de nossa condição humana, pois eles espelham os arquétipos e, assim, falam justamente do aspecto universal que nos constituem como espécie.

Assim, os contos de fadas falam de nós, de quem somos tanto em nossa individualidade quanto em nossas relações sociais. Joseph Campbell nos chamava a atenção que os mitos e contos de fadas possuem funções, dentre as quais, está a função pedagógica, ou seja, os mitos e contos de fadas nos ensinam algo fundamental sobre nós mesmos, tão fundamental que foram fixados na cultura na forma de narrativas.

Frequentemente, no meio junguiano, pensamos os contos de fadas a partir de nossos objetos internos, nossas imagens internas como a anima, persona, sombra etc…  Contudo, essa não é a única forma de compreender a relação dos contos de fadas em nosso cotidiano. Pois, os contos fornecem metáforas para compreender de nossas relações sociais, nossa prática clínica, permitindo uma leitura da realidade.

Nesse sentido, gostaria de fazer uma provocação, ampliando a nossa percepção dos, pois, vejo nos contos “A Bela e a Fera” e “O Barba Azul” uma clara narrativa de violência contra a mulher, e gostaria de fazer algumas reflexões sob essa perspectiva. Caso algum leitor não que não se recorde dos contos eu indico a leitura dos contos nos links a seguir: da bela a fera(clicando aqui) e do barba azul (clicando aqui).

A violência contra a mulher não é fenômeno contemporâneo, muito pelo contrário, ao longo de toda história temos incontáveis registros desse tipo de violência.  No Brasil a violência contra a mulher atinge índices ainda mais alarmantes, em 2015 nosso país foi apontado como o quinto país do mundo em violência contra a mulher. O que os contos de fadas poderiam dizer sobre essa realidade?

Primeiro, devemos considerar que esses dois contos possuem similaridades falam de duas jovens que se casaram com homens abusivos, falam da colaboração da família nesse abuso, falam de homens escondem segredos, que usam do poder (um as riquezas e outro força, ameaças) para conseguir o que querem. E, em ambos tem um final feliz, ou pela morte (do barba azul) ou pela transformação da fera.

Devemos notar o modus operandi, onde no conto do Barba Azul a jovem foi enganada, aspirando por um relacionamento seguro, uma vida próspera ela aceita casar com o Barba Azul. No conto da Bela e a Fera, a Bela se vê na necessidade de salvar seu pai e, para tanto, se entrega nas garras da fera.

Acredito ser bem fácil notar a similaridade com nossa realidade. Em nosso dia a dia, é muito comum ouvirmos “mas, ele não era assim” ou “ ele sempre foi atencioso” (tal qual o Barba Azul) e as mentiras utilizadas por esses homens abusivos/agressores tem como efeito principal a culpa e o sentimento de fizeram algo errado, minando a autoestima e aprisionando-as cada vez mais nessa relação perversa. Da mesma forma, é comum vermos como a necessidade (seja ela afetiva ou material) é usada por homens agressores para produzir a dependência material ou emocional como forma de prender as mulheres.

Os contos nos mostram que um dos fatores predominantes nessas agressões é a cumplicidade social. Em ambos os contos, vemos uma complacência da família com os homens abusivos(o Barba Azul e a Fera). Temos em nossa cultura uma conivência com a violência, que se manifestam muito cedo no machismo e sexismo na infância. Ou fator é religião que contribui com a violência, temos igrejas negligenciam saúde e a vida de muitas mulheres em nome de um casamento indissolúvel, onde essas mulheres só podem orar pela “conversão” ou “mudança” de seus maridos.

Assim, esses contos falam de elementos que se repetem no dia a dia com quais nos deparamos cotidianamente seja no consultório, nas igrejas ou nos noticiários. Apesar desses contos apontarem para a possibilidade do “final feliz”, eles não negam os inúmeros “finais infelizes”, que vemos retratados no Barba Azul, na cena onde a jovem esposa abre o quarto proibido,

“Não conseguia enxergar nada, as janelas estavam fechadas. Aos poucos seus olhos foram se acostumando à escuridão e começou a perceber que o assoalho estava todo recoberto por sangue coagulado, e que naquele sangue se refletiam os cadáveres de muitas mulheres mortas, as antigas esposas do Barba Azul, dependuradas ao longo das paredes, degoladas e enfileiradas num espetáculo macabro e aterrador”

Os cadáveres das antigas esposas refletem os inúmeros finais infelizes. Os finais infelizes refletem nossa realidade, refletem nossa cultura que não só cria novos “barbas azuis” e novas “feras”, mas também impõe às muitas mulheres a responsabilidade pelos “finais felizes” suportando os abusos e sofrimentos esperando a transformação desses homens. Essa concepção, presente na Bela e a Fera, reside no ideal romântico de que o “amor tudo vence”, onde a Bela seria recompensada pelo seu sofrimento. Pessoalmente, vejo nisso uma armadilha perversa (digna de um Barba Azul), pois, no geral só tende a produzir culpa nas mulheres e prendê-las ainda mais nesses relacionamentos abusivos.

Voltando aos contos, acredito que precisamos olhar com mais atenção aos modelos de masculinidade apresentada, pois, há uma cumplicidade com a violência seja pelo consentimento claro (como o pai e os irmãos da Bela), ou no Barba Azul, onde temos omissão das figuras masculinas dos irmãos, que só aparecem no último instante, não representam o eros masculino – que cuida, protege, potencializa- mas, o poder da lei o do estado (são soldados, dragões e mosqueteiros).

O desfecho dos contos nos da falam a necessidade de mudança desses modelos de masculinidade que colaboram com a violência, sejam eles ativos engando, matando e ameaçando (barba azul e a Fera) e os passivos (pai, irmãos) que são agentes indiretos da violência. A necessidade de mudança é expressa na morte do barba azul e na transformação da fera em príncipe. Acho perturbador que numa visão clássica essa transformação condicionada à analise pessoal, pois, é insuficiente. Deveríamos voltar nossos olhos para a educação, para os movimentos sociais, para todas as formas que a psique se manifesta buscando a individuação.

Como disse anteriormente, minha proposta é fazer uma provocação. Muitas vezes nos vemos tão envolvidos no mundo dos contos de fadas, mitos e sonhos e não percebemos que eles apontam para nossa realidade social. Acredito que a psicologia junguiana tem muito a contribuir com as questões sociais, com o conhecimento e uso dos contos de fadas para uma educação que valorize a vida, privilegiando o desenvolvimento coletivo.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Revista Hermes – um grande presente de Natal para os junguianos

Com muita alegria recebemos a noticia que a Revista Hermes, que é a publicação do Curso de Calatonia: Integração Corpo e Mente do Instituto Sedes Sapientiae, agora está em formato digital, on-line, e gratuitamente disponivel na internet.

Este foi um grande presente de natal para os junguianos. Com todo o conteúdo de 20 anos de publicações on-line, o acervo da Hermes contribuirá com os estudos junguianos em todo o Brasil.

Esperamos sinceramente ao que as outras revistas a “Junguiana” da SBPA e o “Cadernos Junguianos” AJB possam seguir o exemplo e contribuir com o desenvolvimento da psicologia analítica divulgando o seu conteúdo.

Basta visitar o site http://www.revistahermes.org/ 

Certamente ficamos gratos ao Instituto Sedes Sapientiae e aos Responsáveis pela revista Hermes.

“As Mulheres de Chifres”: alteridade e individuação

Há muito tempo eu não comento filmes ou contos de fadas no site. Acredito que seja importante retomar essa prática, assim, escolhi um conto de fadas celta que, recentemente, foi discutido no grupo Aion,

As Mulheres de Chifres

Uma rica mulher estava sentada, tarde da noite, cardando e preparando a lã, enquanto toda a família e os criados dormiam. Subitamente ouviu uma batida na porta, e voz chamou:

“Abra! Abra!” “Quem está aí?”, disse a dona da casa.

“Eu sou a Feiticeira de um Chifre”, foi a resposta.

A mulher, supondo tratar-se de alguma vizinha pedindo ajuda, abriu a porta e uma mulher entrou, levando nas mãos um par de cardadores, e tendo na testa um chifre, como que nascido ali. Sentou-se em siléncio junto ao fogo e começou a cardar a lã com violenta pressa. Subitamente ela parou, e disse em voz alta: “Onde estão as mulheres? Estão demorando muito.”

Então se ouviu uma segunda batida na porta, e uma voz chamou, como antes: ”Abra! Abra!”

A dona da casa sentiu-se obrigada a se levantar e abrir a porta. Imediatamente outra feiticeira entrou, com dois chifres na testa e uma roca de fiar lã nas mãos.

“Dê-me um lugar para sentar”, disse ela, “eu sou a feiticeira dos dois chifres”, e começou a fiar veloz como um raio. E assim as batidas na porta prosseguiram, as chamadas eram ouvidas, e as feiticeiras iam entrando, até que finalmente havia doze mulheres sentadas ao redor do fogo, a primeira com um chifre e a última com doze.

E elas cardaram o fio, e giraram suas rocas de fiar, e tricotaram e teceram, todas cantando juntas uma antiga canção, mas não dirigiram uma única palavra a dona da casa. Era estranho de se ouvir e assustador de se ver essas doze mulheres, com seus chifres e suas rocas; e a dona da casa quase desmaiou; tentou levantar-se para chamar ajuda, mas não conseguiu mover-se nem pronunciar uma palavra, nem mesmo gritar, pois as feiticeiras haviam-na enfeitiçado.

Então uma delas a chamou em irlandês e disse: “Levante-se mulher, e faça um bolo para nós. ”

A dona da casa foi pegar uma vasilha para trazer agua do poço e mistura-la a farinha, para fazer o bolo, mas não conseguiu encontrar nenhuma.

Então elas disseram a ela: “Pegue uma peneira e traga a água dentro dela.”

Ela pegou a peneira e foi até o poço, mas a agua passava pelos furos da peneira e assim a mulher não conseguiu pegar nem um pouco para fazer o bolo então sentou-se junto ao poço e chorou. Subitamente ouviu uma voz perto dela que disse: “Pegue argila ocre e musgo, misture-os e forre a peneira com a pasta, assim ela vai segurar a agua dentro dela. ”

Foi o que a mulher fez, e a peneira segurou a agua para o bolo, e a voz disse novamente:

“Volta para casa, e quando chegar ao canto norte, grite alto três vezes dizendo: “A Montanha das Mulheres Fenianas e o céu sobre elas estão Pegando fogo! “

Foi o que ela fez. Quando as feiticeiras lá dentro ouviram o chamado, um grito enorme e terrível irrompeu de seus lábios e elas correram para fora soltando gritos estridentes e lamentos, e fugiram para Slievenamon, sua morada primordial. Mas o Espírito do Poço pediu a dona da casa que entrasse e preparasse a casa contra os feitiços das bruxas, caso elas voltassem.

Primeiro, para romper os encantamentos, ela borrifou a agua na qual lavara os pés de seu filho, a “água do lava-pés”, do lado de fora da porta, na soleira; depois, pegou o bolo que as feiticeiras haviam feito em sua ausência, de farinha misturada ao sangue sugado da família adormecida, cortou-o em pedaços, colocou um pedaço na boca de cada um dos adormecidos, e eles recuperaram a saúde. Então pegou o pano que haviam tecido e colocou metade fora e metade dentro do baú fechado com cadeado, e finalmente travou a porta com uma grande tramela presa aos batentes, para que as bruxas não pudessem entrar, e, ao terminar de fazer essas coisas todas, ficou aguardando.

Não demorou muito para que as feiticeiras voltassem, com muita raiva e clamando por vingança.

“Abra! Abra! ”, gritaram, “abra, água do lava-pés!” “Não posso”, disse a agua de lava-pés, “estou toda esparramada pelo chão, e minha trajetória vai até o lago. ”

“Abram, abram, madeira, árvores e tramela”, gritaram elas para a porta.

“Não posso”, disse a porta, ‘a tramela esta pregada nos batentes e não tenho força para movê-la”

“Abra, abra, bolo que fizemos e que misturamos com sangue“, gritaram elas de novo.

“Não posso”, disse o bolo, “estou quebrado e macerado‘ e meu sangue está nos lábios das crianças adormecidas.”

Então as feiticeiras voaram pelos ares dando gritos estridentes, e fugiram para Slievenamon, lançando estranhas maldições ao Espírito do Poço que desejara a sua destruição. A mulher e a casa foram deixadas em paz, e um xale perdido por uma das feiticeiras em sua fuga foi guardado pela dona da casa como lembrança daquela noite; esse xale permaneceu na mesma família, passando de geração em geração, durante mais de quinhentos anos. (Jacobs, 2003, 43-6)

Este é um belo e intrigante conto sobre o feminino.  Um conto que difere do que estamos acostumados a ler em Cinderela, branca de neve, bicho peludo dentre outros, onde a heroína ou protagonista é uma jovem maltrada, órfã e abandonada que precisa ser salva, redimida e cujo final frequentemente é o casamento (coniunticio).

Neste conto, a protagonista é uma mulher rica, mãe, supostamente casada (não é relatado no conto) e com criados – ou seja, uma mulher numa situação confortável na vida. Contudo algo estava errado. Ela cardava até tarde da noite,

Fig. 1 -Carda

quando todos dormiam.

Devemos considerar que a insônia é um sinal de que algo está errado. Ela não estava no mesmo compasso da família e dos empregados, enquanto todos dormiam ela ficava desperta e a sós.  O trabalho de cardar era o processo de desemaranhar as fibras da lã (vide Figura 1), como se penteasse, organizando a lã para iniciar o processo da tecelagem.

Não muito diferente do que fazemos quando na calada da noite, na insônia, quando tentamos desembaraçar e desemaranhar nossos pensamentos.

Voltando ao conto, nossa protagonista estava desperta tarde da noite, e esta última, a noite, como a escuridão ou floresta sempre nos remetem ao desconhecido, isto é, ao inconsciente. Estando a personagem sozinha a noite, em sua “noite escura da alma” recebeu a visita das estranhas mulheres com chifres.

Não sabemos o que acontecia com aquela mulher, o que lhe tirava sono, mas, nos chama a atenção que as feiticeiras que ao chegarem tomam parte do processo que a protagonista iniciara, fazendo melhor e mais rápido. E a cada uma que chegava. Cada vez que a uma feiticeira chegava ela tomava seu assento e parte do processo de produção. E, sutilmente tomavam o lugar da protagonista de suas funções na casa. Cardavam, fiavam e teciam, esse trabalho é muito especial e simbólico. Entre gregos antigos, por exemplo, as Moiras que fiavam de teciam o destino dos mortais, os nórdicos do mesmo modo possuíam nas Nornas à sombra de Yggdrasil que executavam a mesma função.

Como poderíamos pensar as feiticeiras a partir do referencial junguiano? Num olhar rápido, afirmaríamos sem dúvidas que representam a “sombra”. De fato, as feiticeiras representam o inconsciente se opondo a nossa protagonista. Contudo, tudo que está no inconsciente está no espectro da sombra. Podemos algumas outras ideias quando percebemos que feiticeiras conduzem nossa protagonista em direção à uma realidade mais profunda ao espirito do poço e, assim, a si mesma.

As feiticeiras possuíam atributos de poder como os chifres, a velocidade e os encantamentos. No texto, vemos falar da “montanha das mulheres fenianas” o termo feniano remonta aos antigos guerreiros irlandeses. Enfim, as feiticeiras representam um outro potencial do feminino não desenvolvido ou alcançado pela nossa protagonista, tanto que ela fica “encantada”, paralisada diante dessas mulheres.

A oposição entre a realidade da protagonista e as feiticeiras e a função desempenhadas por essas últimas, nos fazem pensar no dinamismo da alteridade. Jung descreveu a dinâmica do arquétipo da alteridade a partir das imagens representacionais da Anima (o feminino nos homens) e o Animus (o masculino nas mulheres).

Animus e anima são maneiras de comunicar a alteridade, a diferença, aquilo que momentaneamente está indisponível devido ‘a inconsciência. Animus e anima falam, então, do inesperado, daquilo está “fora de ordem”, que ofende à ordem dominante. (SAMUELS, 1989, p.254)

Restringir o masculino ao inconsciente da mulher e o feminino ao inconsciente do homem é ignorar que “mulheres e homens têm, respectivamente, uma feminilidade e uma masculinidade inconscientes” (Samuels, 1989, p. 255).Nesse aspecto, as feiticeiras representam a alteridade  (ou a anima) de nossa protagonista, um princípio oposto ao ego, forte e ativo que precisa ser integrado.

Voltando ao conto, as feiticeiras ordenam que a protagonista prepare um bolo, mas, como ela não encontra nenhum recipiente para buscar água, as feiticeiras mandam que ela utilize uma peneira. E assim, ela faz, utiliza uma peneira para buscar a água, mas, obviamente, não a conseguia retê-la.

É interessante pensarmos nessa cena, ela tentando pegar água com a peneira. Nós temos um ditado popular que vai ao encontro desta cena, que é o “tampar o sol com a peneira”, que nos fala das atitudes repetitivas e inúteis que fazemos que na verdade apenas mascaram os problemas, sem nem chegar perto de resolvê-los. Depois, de não ter sucesso em pegar a água com a peneira. Ela senta e chora.

Sentar e chorar é uma forma de reconhecer as próprias limitações. Reconhecer que precisamos de ajuda. O processo de individuação é, muitas vezes, experimentado como uma crise, pois, para o ego reconhecer o seu real tamanho e perceber que é parte de uma totalidade maior que ele mesmo, e isso é experimentado como uma derrota.  Nossa protagonista, reconhecendo suas limitações, ao sentar e chorar, permitiu-se ouvir o espirito do poço.

O espirito do poço a orienta não só como pegar a água usando argila ocre e musgo, mas, como se livrar (ou enfrentar) as feiticeiras.  É importante considerarmos que o poço, a fonte de água e vida sempre esteve à disposição da casa e da família, talvez por possuir criados é possível nossa protagonista não tivesse o habito de ir até o poço.

Além de mostrar como afastar as feiticeiras, o poço instrui sobre como desfazer os feitiços das bruxas, que estavam com 4 elementos: na água de lava-pés, no bolo feito com sangue, o pano tecido pelas bruxas e a porta/tramela.

A agua de lava-pés ou o lava-pés nos fala de hospitalidade. Era comum no mundo antigo, quando um visitante chegava que tivesse os pés lavados como sinal de honra e reconhecimento. Esse ritual foi incorporado na cultura cristã, através da Cerimônia do Lava-pés, onde é revivido o momento onde Cristo lavou os pés dos discípulos, em sinal de humildade.  Quando o espirito do poço diz a protagonista para jogar a água do lava-pés, fora jogar fora a água da receptividade, da passividade, trazendo a mesma a uma postura ativa e corajosa.

O bolo nos fala da nutrição e de vida. Quando as feiticeiras mandam a protagonista fazer o bolo, elas destituem ela do lugar de dona casa e a colocam no lugar criada. Quando ela retorna do poço, já havia um bolo, que fora feito com o sangue de sua família. Ao dividir e macerar o bolo e colocar o bolo na boca de seus filhos, ela assume seu lugar materno, nutrindo e restituindo a saúde a seus filhos.

A porta é o limite, é onde o mundo interior e exterior se encontram. Pregar a tramela  é fixar o limite, impedindo a entrada ou invasão de sua casa, nossa protagonista se torna de fato senhora de si e de seu lar. Muitas vezes fixar o limite é um grande desafio em nossas vidas, dizer não, colocar pessoas para fora de nossas vidas se apresenta como um momento decisivo em nossas.

Devemos notar que as feiticeiras não chamaram o pano que teceram, que ficou em parte oculto, preso no interior do baú e parte fora do mesmo. Na verdade, esse pano já não pertencia as feiticeiras, era uma nova tessitura da personalidade da protagonista. O que no início do conto do encontro eram fibras emaranhadas e embaraçadas marcando o momento da insônia, se torna um tecido novo, indicando a força e potência.

 Da mesma forma, o xale perdido a uma das feiticeiras, é adotado pela protagonista, como símbolo daquela noite, onde ela enfrentou e venceu as feiticeiras, de certa forma, ela mesma se tornando “feniana”. O xale passa pertencer a protagonista e que passado através das gerações como símbolo daquela noite, onde a mulher rica se tornou de fato senhora de sua casa e sua vida.

Referências Bibliográficas

JACOBS, Joseph. Contos de fadas celtas. São Paulo: Landy, 2003.

 SAMUELS, Andrew, Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Ocupação das Escolas no Brasil : Heroísmo e Individuação

Nos últimos dias temos visto crescer o número de escolas e universidades ocupadas por estudantes em nosso país. Essas ocupações são uma expressão de vida e resistência contra o total descaso do governo com a educação, com a saúde e com o futuro de nosso país. A reforma do ensino médio, a proposta de “escola sem partido” e a PEC 241 que impõe o teto aos gastos públicos, explicitam não só que a crise econômica que vivemos mas, uma grave crise moral que ainda precisamos a enfrentar: da naturalização das desigualdades, da corrupção e da culpabilização dos oprimidos.

Diante desta realidade, temos a ocupação das escolas e, tivemos o indescritível discurso da adolescente Ana Julia Pires Ribeiro (PR) na Assembleia Legislativa do Paraná(ALEP) (vide vídeo abaixo). Devemos ter clareza que, quando na psicologia junguiana falamos de individuação, de arquétipos e mitos (em especial do herói), falamos da realidade em que vivemos no aqui e no agora! E por isso mesmo não podemos deixar de reconhecer e viver um momento arquetípico que vivemos. Nada expressa tão bem o impulso heroico que a busca pela transformação, enfretamento de injustiças sociais, a defesa da cidadania e a luta pelo bem comum.

Jung afirmava que “O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro” (Jung, 1999, p. 101). Precisamos ter clareza que a nossa individuação está sempre em relação com a individuação do outro, com o processo individuação de nossa época.  Individuação implica em contato, experiência e abertura.

Dessa forma, não basta tentar “compreender intelectualmente” o fenômeno das ocupações nas escolas; é necessário nos permitir viver, participar, ser afetado e tomar parte. O impulso de individuação, o impulso heroico sempre se confronta com as forças do “status quo”, com a resistência à transformação que muitas vezes se manifesta pela desqualificação dos agentes de mudança ou com a imposição do medo. Isso ocorre tanto no indivíduo (na neurose pessoal) quanto na esfera coletiva – por meio, do jogo de desinformação, as acusações e tudo que promova a imobilidade e a estagnação.

O dinamismo arquetípico do herói se faz no enfrentamento, no movimento, na esperança, na aposta da mudança. Essa é energia necessária ao processo de individuação, e individuação exige responsabilidade – consigo mesmo e com o outro, com o particular e com o coletivo. Assumir essa responsabilidade diante da vida é compreender a individuação.

O discurso da estudante Ana Julia Pires Ribeiro teve repercussão internacional mobilizando inúmeras pessoas tanto a favor quanto contra. O mais importante é que nos chama a responsabilidade pela educação, pela juventude e pelo futuro. A juventude sempre foi a anunciadora da mudança, da possibilidade e transformação. Em nossa realidade, creio que devemos nos mobilizar, nos afetar diante da força e entusiasmo dos jovens de nosso país. Para assim, apoia-los, contribuindo com suas necessidades no processo de ocupação e, assim podermos vivenciar juntos o processo de transformação social que precisamos.

“Toda referência ao arquétipo, seja experimentada ou apenas dita, é “perturbadora”, isto é, ela atua, pois ela solta em nós uma voz muito mais poderosa do que a nossa. Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na espera do contínuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade. E com isso solta em nós aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram a humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver à mais longa noite.” (JUNG, 1999b, p. 70).

 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Ab-reação Analise de Sonhos, Transferência, Petropolis:Vozes, 1999.

JUNG, C.G. O espirito na arte e na ciência, Petropolis: Vozes, 1999b

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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28a Edição do Moitará – Dos filhos deste solo és mãe gentil?

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Informações disponiveis no site: http://sbpa.org.br/portal/28o-moitara-dos-filhos-deste-solo-es-mae-gentil/ 
PALESTRANTES CONFIRMADOS

  • Augusto Capelo, médico psiquiatra pela UNIFESP e membro analista da SBPA/IAAP;
  • Ana Letícia de Fiori, mestre em antropologia social e roteirista do game “Huni Kuin: os caminhos da jiboia”;
  • Iraci Galiás, médica psiquiatra pela UNIFESP e membro analista da SBPA/IAAP. É cofundadora da SBPA;
  • Larissa Leite, advogada, doutora em direitos humanos pela USP. É coordenadora de proteção do Centro de Referência para Refugiados, na Caritas Arquidiocesana de São Paulo;
  • Marco Heleno Barreto, psicólogo pela UFMG, especialista em psicologia clínica e professor doutor em filosofia pela UFMG;
  • Marcia Tiburi, doutora em filosofia pela UFRGS e escritora.
  • Carlos Amadeu B. Byington, médico psiquiatra pela UNIFESP e membro analista da SBPA/IAAP. É cofundador da SBPA;
  • Sylvia Gouvêa, educadora e cofundadora da Escola Lourenço Castanho;
  • José Guilherme C. Magnani, professor titular do departamento de antropologia da USP;
  • Maria Rita Kehl, psicanalista, jornalista e escritora;
  • Rodney Galan Taboada, médico psiquiatra pela UNIFESP e membro analista da SBPA/IAAP;
  • Sérgio B. Andreoli, médico psiquiatra pela UNIFESP e professor adjunto da UNIFESP.


INSCRIÇÕES

Investimento:
Estudantes de graduação têm 20% de desconto no preço do evento, isto é, o desconto não abrange o preço de hospedagem. É necessário solicitar orçamento por e-mail: sbpa@sbpa.org.br.

Atenção: não há mais disponibilidade de acomodações no hotel Orotur, onde o evento será realizado. A SBPA poderá ajudar-lhe sugerindo uma alternativa.

Preço por pessoa sem hospedagem nem pensão completa: R$ 715,00.

Atenção: nesta modalidade, as refeições realizadas no Orotur serão cobradas à parte da pessoa participante. Preços acordados: R$ 55,00/almoço ou jantar (bebidas não incluídas); R$ 28,00/café da manhã; R$ 16,00/coffee-break.

Formas de pagamento:

  • até dia 30 de agosto de 2016: à vista ou em 3 parcelas iguais e mensais;
  • entre 1º e 30 de setembro de 2016: à vista ou em 2 parcelas iguais e mensais;
  • a partir de 1º de outubro de 2016: somente pagamento à vista.

Atenção: as inscrições serão efetivadas somente mediante a confirmação do pagamento.

Entre em contato com a SBPA-SP:
sbpa@sbpa.org.br;
Secretaria de cursos: R. Dr. Fláquer, 63, Paraíso, São Paulo, SP.

Vagas limitadas.
Leia nossas políticas de inscrições e cancelamentos.


Comissão Moitará:

Elaine Franzini Soria

Elza Maria Lopes

Fernanda Moreira

Letícia Taboada

Luciana Bagatella

Priscilla Wacker

Tito Cavalcanti