Amor, traição e processo de individuação

(11 de junho de 2016)

Fabricio Fonseca Moraes

 

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo

Viva Vivida, Vinicius de Moraes (1938)

 

Nota: Este texto foi produzido como base para a palestra na I Jornada Junguiana da Multivix, com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade.

Bom dia! Gostaria de agradecer e parabenizar a faculdade Multivix, sua coordenadora Kirlla Cristhine Almeida Dornelas e ao professor Raphael do Amaral Vaz pela organização desta jornada. Foi nos proposto o desafio de falar sobre Amor, Traição e Processo de Individuação.

Começando pelo amor, é necessário dizer que o amor é mistério.  Jung afirmou em suas memórias que “Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca fui capaz de dar-lhe uma resposta válida” Jung, 1975, 305). O fato de não haver uma resposta válida, pode significar que muitas respostas são possíveis e válidas. Assim, não tentarei definir ou conceituar de forma estrita, mas, pensar no amor como um fenômeno, que se manifesta, que percebemos, mas, que não se dobra a linguagem objetiva.

Quando falamos de Amor ou Eros (como é mais comum na linguagem psicológica) somos “quase que” obrigados a visitar a Platão, em seu simpósio ou “banquete”, ele afirma pela boca de Sócrates, citando Diótima, diz que o Amor é um daimon que intermedia a relação entre mortais e imortais (deuses).

Essa compreensão de Platão é interessante pois, expressa de forma mítica uma das características mais basais e fundamentais desse fenômeno que denominamos Amor:  é uma função de integração psíquica que, não só intermedia, mas possibilita a relação Ego-Self (ou Ego-Si-mesmo) assim como a relação Ego-Outro. O amor se manifesta como uma função do self que une, integra e centraliza a dinâmica psíquica – seja ela relacionada com a realidade interior ou a realidade exterior.

Nessa mesma perspectiva, Adolf Guggehnbul-Craig, no livro “Eros on Crutches” – que posteriormente foi relançado com o titulo “The Empty Soul” –   nos chama atenção para um o fato de que Eros “humaniza os arquétipos” temperando suas qualidades absolutas ele afirma

O guerreiro sem Eros é um mercenário brutal, um absurdo assassino em massa , um exterminador demoníaco . Com Eros, o guerreiro luta para defender os valores que são importantes para ele, estando pronto para dar a sua vida pelos outros ou por ideais mais elevados . O Trisckster sem Eros é apenas um enganador e mentiroso, um impostor. Com Eros, o trisckster é surpreendente, estimulante , não preso a conveções e rotinas, mas continuamente revelando novas faces de si mesmo e abrindo possibilidades inexperadas para aqueles que o rodeiam . Ele é brincalhão e encantador.(Guggenbhul-Craig, p.27- tradução nossa) [1]

Acredito que falar do Trickster pode gerar algumas dúvidas, pois, não temos um termo adequado para Trickster, mas, duas representações bem conhecidas em nossa cultura são o gato de Cheshire e o Capitão Jack Sparrow.

Eros ou Amor humaniza os arquétipos, ele os humaniza na medida que integra e harmoniza suas dinâmicas arquetípicas às necessidades do Ego, de forma saudável e construtiva. Essa humanização torna o ujhamor muito próximo a outro arquétipo, ou dinamismo arquetípico, que é a alteridade[2] – que geralmente é percebida a partir da concepção clássica Anima e Animus, que desde os anos 70 e 80 vem sendo repensados, pois, o aspecto contrassexual expressa na verdade o “totalmente outro ou diferente” da identidade do Ego.  mas, na verdade é uma função que possibilita a compreensão integra o polo “Outro” seja ele interno (como a dinâmica do Self) ou externo (como a compreensão mais adequada da realidade do Outro).

A relação Eros e Alteridade é tão intensa que quando projetada, a experiência de lidar com o outro se torna como lidar com a própria alma. Por isso, o a projeção da “anima/animus” como vemos classicamente é revestida de um brilho especial, como se o outro fosse de fato, parte de nós mesmos.

Muitas vezes pensamos na relação amorosa como condicionada pela projeção da anima/us. E, de fato, em algumas situações é (geralmente mais exageradas e incontroláveis), mas, não é possível condicionar o amor a uma projeção. Como disse anteriormente, o Amor integra os elementos da vida psíquica, ou seja, integra tanto os objetos internos quanto os objetos externos, atribuindo um sentido afetivo próprio. Quando retiramos a projeção podemos amar o objeto e integra-lo a nossa realidade pelo que ele é. Até nesse ponto, falamos de uma perspectiva, olhando o psiquismo pela via da dinâmica psíquica, quando pensamos pela via da experiência do Ego, da vivência do amor, outros aspectos interessantes que eu gostaria de pensar um pouco com vocês.

– O amor nos coloca diante de um dilema moral, pois, elimina a fronteira do bem e do mal. Aldo Carotenuto, no livro Eros de Pathos, fala que o “amor é portanto uma centelha do divino – e com esse termo entendo uma força que encerra em si ambos os pólos da dicotomia maniqueísta bem-mal”(Carotenuto, p. 22). Não é incomum pessoas “mentirem” ou “enganarem” outras por amor. Em outras situações, é possível termos crimes mais graves como roubos e até homicídios em nome do Amor. Sob certos aspectos, poderíamos dizer que o amor infla o Ego, colocando-o para além de suas possibilidades. (Vide Anakin, que escolheu o lado negro da força por amor a padmé) Mas, devemos tomar muito cuidado em não confundir as escolhas guiadas pelo amor das escolhas feitas pelo poder. Tratar uma mulher como propriedade, posse – agredindo ou mesmo chegando a morte –  não faz parte da dinâmica do amor, mas, do poder. Nesse sentido, os relacionamentos sem amor, são mais próximos da psicopatia. Infelizmente, confundimos muito as relações de poder com amor, essa confusão se dá por nossa cultura machista, patriarcal que durante séculos subjugou a mulher colocando-a num lugar de propriedade do homem. O machismo e o sexismo são exercícios de poder, cada que somos machistas ou sexistas(ou com outros tipos de preconceitos) nos distanciamos do amor, nos desencontramos do amor e de uma relação integradora e saudável com o, e nos colocamos numa posição de domínio que tende sempre a degradar a outra parte.

– Todo discurso sobre o amor é sempre um discurso sobre si mesmo(ibid p. 27) O Amor se refere sempre a nossa interioridade, que quem somos de forma mais sincera. Esse é um dos aspectos mais interessantes, no amor e através do amor nós vemos a nós mesmos, não é o amor exatamente pelo Outro em si mesmo, mas, pelo o que o Outro suscita em nós.

Renato Russo na música La Nouva Gioventú expressa essa noção de forma interessante, ele diz “Com você por perto eu gostava mais de mim” – Infelizmente o que acontece é que estamos tão inconscientes da relação com nós mesmos que não percebemos que a relação com o outro está relacionada com a relação que temos com nós mesmos – por isso mesmo, um relacionamento patológico, abusivo, espelha uma relação inadequada do indivíduo consigo mesmo.  Nesse sentido, o mandamento de Cristo “amarás o teu próximo como a ti mesmo” se revela uma verdade psicológica válida.

– O amor altera nossa percepção da realidade – Quando estamos mobilizados pelo amor, nossa percepção do tempo, nossa percepção do objeto amado é alterada. Por isso, a percepção do amor infinito, definitivo, eterno é uma distorção possível, mas, que não se restringe a durabilidade do fenômeno, mas, também percepção da realidade dos objetos – sejam eles pessoas ou coisas – isso se dá pelo direcionamento de nossa atenção, guiada pelo fascínio gerado pelo objeto.

Sob certo aspecto a percepção do objeto de amor se torna parcial, sendo direcionada aos aspectos positivos, belos e aprazíveis – negando os aspectos negativos, produzindo sombra no objeto. A dificuldade de integrar a totalidade do objeto amado, gera o aumento de expectativas e por isso mesmo, aumenta a possibilidade erros de julgamento.

O amor nos impele a totalidade – Essa é uma característica importante porque nos faz sentir-nos incompletos, incapazes e dependentes/. Não podemos perder de vista que o Ego, como principal deintegrado do Self, guarda uma relação fundamental com Self, devemos lembrar que a dinâmica natural do Self, compreende a deintegração e a reintegração, no caso do Ego, não há uma reintegração propriamente dita, há uma relação especial que pode ser compreendida ou nomeada como “processo de individuação” ou “eixo ego-self”. Assim, através do amor o ego tem um vislumbre da totalidade, e se lança desejante desta possibilidade, por isso as palavras de Vinicius de Moraes são tão precisas quando diz que o amor é o “O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”, vislumbrando a totalidade somos impelidos nessa busca.

Vamos falar um pouco sobre a traição. Quando falamos de traição devemos ter em mente uma concepção ampla – que envolve tanto relacionamentos com outras pessoas quanto com instituições, valores. Do mesmo modo, a traição obviamente deve ser percebida sob dois aspectos fundamentais : um social e outro individual.

Quando me refiro ao social, eu me refiro a uma cultura onde trair se tornou banal. Crescemos vendo traições em novelas, quadrinhos, filmes e séries. Trair a família, amigos, valores ou pessoas amadas se tornou uma opção, a traição não tem maiores consequências sociais, em tempos passados a traição tirava a honra de uma pessoa, a trair era um estigma sério (especialmente no que diz respeitos a relação entre amigos, familiares e da mulher com o homem, no caso homem, dada a cultura machista, era permitido trair a mulher). Juntamente com essa banalização temos uma realidade onde os relacionamentos muitas vezes são vistos como temporários, sem o comprometimento real, assim, a cultura sanciona a traição. Mas, não vamos nos estender nesse aspecto.

Quando falamos de traição no contexto da psique do individuo, devemos considerar:

– Poder: Falo tanto do poder, justamente pois, Jung afirmava que psicologicamente, o oposto do amor é poder. O desejo de se afirmar, o desejo se impor, ser alguém frente aos outros. Nessa categoria temos três possibilidades a traição em relacionamentos que se dão na ordem do poder, do domínio, na primeira não há uma consideração efetiva pelo outro, a traição é mais uma conquista, na segunda a traição se dá pela incapacidade do indivíduo enfrentar o termino de um relacionamento, seja por imaturidade, o indivíduo trai por não se sentir capz de um enfrentamento saudável, do termino do relacionamento, nesse caso tomado pelo sentimento de inferioridade, o indivíduo busca um apoio. Uma terceira possibilidade, também interessante mais, é quando o poder compete com o amor. É numa relação onde no relacionamento há amor, mas, na relação do indivíduo consigo mesmo, ele trai como uma forma de lidar com o próprio sentimento de inferioridade e outros. Nesse caso a traição ou traições são acompanhadas por sentimento de culpa.

A traição de si mesmo: Talvez esse seja o aspecto mais pertinente para pensarmos a traição. Muitas vezes o indivíduo em suas escolhas e ao longo da sua vida se traiu de tal forma, se identificando com exigências externas e se desligando de si mesmo, nesse caso, essa traição interior, essa alienação de si-mesmo. Esse estado de alienação se dá muitas vezes, pela adoção de uma atitude da consciência unilateralmente rígida, onde, o indivíduo se prende num relacionamento, numa instituição, num grupo, e nesses casos pode ser que uma traição exterior se faça necessária como uma forma de libertação, a traição do outro (seja uma pessoa, instituição ou valores) seria um caminho para sanar a traição interior.

Não podemos perder de vista, o fato que trair nas situações que nos referimos, no geral, tem um aspecto de positivo, uma necessidade. Contudo, não podemos perder de vista que há sempre o traído, há sempre sofrimento envolvido na traição ou mesmo para quem trai.

Onde que entraria o processo de individuação? O processo de individuação é um processo de desenvolvimento que começa desde que nascemos e se estende até nossa morte. Jung descreve a individuação como “torna-se si mesmo”, e este processo de se tornar quem se é, é em si um processo amoroso,  um processo de integração, de honestidade e consideração profunda consigo mesmo e com a realidade circundante, isto é com os outros.

A maior parte dos efeitos, vamos dizer, “negativos” do amor, do poder e traição se relacionam a inconsciência que o indivíduo em relação a si mesmo. Ou seja, quanto mais inconsciente ou alienado de si mesmo, mais vulnerável o indivíduo se torna às dinâmicas do inconsciente ou a relações abusivas.

Poderíamos falar de individuação como um processo de amadurecimento, onde através da integração dos polos persona-anima, assim como da sombra, torna-se possível a percepção das dinâmicas inconscientes, possibilitando o indivíduo experimente o amor de forma construtiva, deixando de ser apenas levado pela intensidade desse amor que se impõe inconsciente, mas, se tornando responsável pelo amor – tanto de si mesmo quanto pelo amor em relação ao outro.

A individuação exige conhecimento, autoconhecimento e isso só se adquire vivendo, amando, sofrendo e voltando a amar. Em todas as experiências que vivemos, uma parte do quebra-cabeça que somos se revela.  Como dizia o Poeta,

Quem já passou

Por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá

Pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou

Pra quem sofreu, ai

 

Quem nunca curtiu uma paixão

Nunca vai ter nada, não.

(Vinicius de Moraes)

 

Referências

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo, Paulus Editora, 1994.
Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

 

 

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[1]The Warrior without Eros is a brutal mercenary, a senseless massmurderer, a demoniac exterminator. With Eros, the warrior fights to defend values which are important for him, ready to lay down his life for others or for higher ideals. The Trisckster with Eros is but a commom cheat and liar, an imposter, a con-artist. With Eros, the trisckster is surprising, stimulanting, not bogged down in convention ou routine, but continually revealing new sides of himself and openning unexpected vistas to those around him. He is playful and charming.

[2] Vide Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Brincar de Boneca”: Reflexões sobre o desenvolvimento da personalidade, misoginia e psicopatia

(Por Fabricio F. Moraes)

Esse último mês de outubro de 2015 foi marcado por uma ampla discussão nas redes sociais sobre assédio/abuso sexual, machismo, sexismo e misoginia. Acompanhando essas discussões, me deparei com um texto que chamou atenção com o título “’Sou homem e meu filho não brinca de boneca.’ Ou ‘Como criar um machista’” de Dr.Leonardo Sakamoto http://goo.gl/bZUqno , nesse texto ele discute a gênese do machismo e misoginia associado ao sexismo dos brinquedos e das brincadeiras das crianças.

Tal temática é fundamental, especialmente porque, na atualidade, o estado do Espirito Santo lidera as estatísticas de violência contra a mulher em nosso país. Assim, como Dr. Sakamoto muito bem apontou no texto acima citado e em outros textos, sob certo aspecto o brincar é um veículo ideológico do sexismo, do machismo e da misoginia que tanto violenta e mata mulheres em nosso país e no mundo. As expressões “de menino” ou “de menina” na boca das crianças trazem todo o peso de séculos de uma divisão social de trabalho, poder, e determinações possibilidades de futuro que desqualificam as mulheres. Essas situações não podem ser ignoradas.

Neste texto, pretendemos desenvolver um pouco da visão de desenvolvimento na psicologia junguiana, pelo viés de Fordham, do brincar e suas implicações na personalidade. Para assim, posteriormente, voltar as questões que envolvem a discussão da misoginia e o machismo.

Desenvolvimento e o Brincar

Um dos principais teóricos junguianos do desenvolvimento foi o analista inglês Michael Fordham (1905-1995), psiquiatra que, ao longo de sua carreira trabalhou com crianças, sendo responsável por um abrigo de crianças evacuadas na segunda guerra. Seus estudos com crianças, o aproximaram do middle group da sociedade britânica de psicanálise, especialmente de Winnicott, de quem foi amigo. Desta maneira, sua forma de pensar o desenvolvimento é importante por unir tanto aspectos da sua percepção clinica com crianças, a teoria de Jung e a psicanálise inglesa.

Em seu modelo de desenvolvimento, Fordham(2001) defende que a criança quando nasce já possui uma unidade psicossomática, a qual ele chamou de “Self primário” a partir da qual, toda a experiência do psiquismo (incluindo o ego) se desenvolveria. Haveria, assim, uma organização preexistente na criança que direcionaria o processo de amadurecimento. Este processo já começaria desde a vida intrauterina, onde este Self primário passaria por um processo ao qual Fordham denominou de “deintegração e reintegração”.

Como unidade psicossomática, o self primário está diretamente relacionado com o corpo e os processos psicofisiológicos que, de acordo com as relações com a mãe/ambiente (toque, cuidado, suporte, alimentação, proteção, etc.), se manifesta, ativando partes especificas (relacionadas com o estimulo) que naturalmente vão deintegrando (ou dividindo-se). Desta forma, o self primário se “dividiria” em partes menores chamadas “deintegrados”. Essa divisão espontânea não deve ser confundida como uma desintegração ou algo similar negativo, pelo contrário é um processo positivo de ativação e atualização de determinadas partes do self.

Esses “deintegrados representam a prontidão à experiência, prontidão a perceber, a prontidão para agir instintivamente, mas, não uma ação ou percepção real”[1] (Fordham, 1957, p. 127, tradução nossa). Essa “prontidão”, seja percepção, ação ou experiência é a característica mais fundamental dos arquétipos[2]. O processo de deintegração corresponde a uma ativação dos processos arquetípicos inatos necessários ao desenvolvimento naquele momento. Que será seguido pelo processo de reintegração, onde este conteúdo será reintegrado ao Self, seja por meio do sono ou outros meios de elaboração. Com o tempo, o processo continuo e rítmico de integração-deintegração compondo e atualizando o substrato que dará origem ao núcleo do Ego.

É importante compreender que o processo de integração-deintegração não termina no estabelecimento do ego. Muito pelo contrário, ao longo da vida esse processo de repete continuamente através da formação de símbolos. Especialmente na infância esse processo desempenha um papel importante no processo de constituição ou desenvolvimento da personalidade.

O Self e seus processos representam o conceito-chave para Fordham, segundo o mesmo,

Dei muita importância ao self definido como a totalidade organizada dos sistemas consciente e inconsciente. A concepção aplicada à criança trata-a como uma entidade em si mesma, da qual se podem derivar os processos maturativos. Ela não inclui a mãe nem a família. A significação deste postulado de uma unidade primária ficará evidente, mas talvez possa dizer desde já que ela é concebida como a base sobre a qual repousa a noção de identidade pessoal e da qual procede a individuação.

A partir daí, o objetivo ideal dos pais pode ser definido como o de fomentar o amadurecimento do self e, assim, facilitar a sensação de autoconfiança da criança em relação a eles, a seus irmãos e ao ambiente extrafamiliar, no qual ela se irá engajando com o passar do tempo. (Fordham, 2001, p. 22)

Desta forma, o processo de desenvolvimento ou amadurecimento é inerente a dinâmica do Self, que necessita de condições mínimas para possibilitar esse desenvolvimento – sejam elas, o toque, fala, manejo etc. – pois, “o amadurecimento só pode se dar-se em toda plenitude num ambiente bom o suficientemente” (ibid, p.120). Nos primeiros meses de vida, a unidade mãe-bebê é importante por garantir a vida e o desenvolvimento dos processos deintegrativos. O ego da criança ainda não consegue se relacionar com a integralidade da mãe (objeto total), mas, como um objeto parcial (seio, pele, olhar, etc). Com o processo de amadurecimento da criança e, naturalmente, com as ausências da mãe desenvolvem-se os fenômenos e objetos transicionais – estes são, para Winnicott, uma importante expressão do amadurecimento. Os fenômenos e objetos transicionais só podem se desenvolver a partir do espaço potencial que, segundo Avellar (2004) é uma zona intermediária que resulta do fim da relação fusionada mãe-bebê, devido ao desenvolvimento de um sentimento de “eu” que possibilita a delimitação de uma realidade interior e exterior. Essa delimitação possibilita o afastamento da mãe, “o primeiro espaço que se abre entre na separação da unidade mãe-bebê para ser mãe-e-bebê é o espaço potencial”(Avellar, 2004, p. 60). Nesse espaço intermediário, transicional o bebê pode encontrar substitutos para os objetos parciais, de modo a suportar a ansiedade de separação e lidar de forma criativa e espontânea.

O objeto transicional, como o chama Winnicott, tem sua origem nos períodos em que a mãe está por perto e o bebê se sente seguro e a vontade. Ele pega o seio, ou um pedaço de pano que entre em contato com a boca para brincar e criar ilusões (ou delírios) que se tornam carregados de sentido. (…)ele é antes uma tentativa inicial de representação do self e, assim, pode ser a primeira de todas as simbolizações. (Fordham, 2001, p. 109)

É no espaço potencial, na experiência dos objetos transicionais, que se situa o brincar. Ao longo do desenvolvimento, o brincar se configura como uma experiência fundamental para a constituição da personalidade e para a experiência da realidade.

O brincar, quer na infância ou ao longo da vida, é uma oportunidade de integração e reparação dos processos de amadurecimento que por algum motivo foram prejudicados. Assim, o brincar possibilita que as representações do self (deintegrados) sejam atualizadas, humanizadas e integradas à estrutura da personalidade. Isto é, no processo de brincar, conteúdos arquetípicos que foram eliciados (deintegrados) pelo ambiente (família, relações sociais) e que o ego ainda não tem condições de assimilar possam ser elaboradas no brincar, de forma, a introduzir de forma aceitável ao mundo das crianças esses conteúdos.

Ao brincar as crianças não só reencenam a realidade que vivem, mas, podem integrar essa realidade como participantes ativos, produzindo no brincar – que como já dito, se constrói num espaço de segurança psíquica – a possibilidade do amadurecimento. Segundo Avellar (2004, p. 62) “é no brincar que o indivíduo pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral. É com base no brincar que se constrói totalidade da existência humana”. A experiência do brincar é possibilita essa experiência de integração ao longo da vida. Winnicott em seu livro “Brincar e Realidade” afirma

Em outros termos, é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. (Winnicott 1975, p. 63)

O brincar com bonecos, isto é, brinquedos com formas humanas possibilita que a criança possa não só elaborar a realidade que ela vivencia, mas, também integrar os conteúdos relacionados com essa realidade à sua personalidade. Com essa integração, a criança pode lidar com o medo e ansiedade relacionado às figuras parentais e às situações ambientais novas que surgem para as quais ainda não está preparado. Através do brincar a criança se torna ativa e internamente resolver as situações-problema que se apresentem.

Devemos considerar que quando falamos acerca do “brincar com bonecas”, isto é, brincar com bonecos que representam o feminino, falamos da atividade que permite a integração e a assimilação de características humanas que historicamente foram associadas ou identificadas com feminino (como receptividade, flexibilidade, cuidado, delicadeza e afetividade dentre outras). O mesmo vale para as meninas que integram características que foram historicamente identificadas com o masculino (como a agressividade, objetividade, rigidez, ênfase na lógica, dentre outras) tendo a possibilidade de brincar com os mesmos brinquedos ou brincadeiras que os meninos.

Com todo sexismo histórico, a integração e assimilação desse potencial é parcial. Isso se estabelece pois, as crianças que não tem a possibilidade de integrar naturalmente os aspectos do gênero oposto através de uma relação direta e criativa, sendo estes integrados a partir das relações com figuras parentais, familiares e colegas. Todavia esse contato com outro é limitado – seja pelo desejo, interesse e limitações físicas – fazendo com que o interagir das crianças com outras pessoas não corresponda a imaginação e ao brincar criativo. Dessa forma, esses os conteúdos terão maior dificuldade para ser integrados a personalidade da criança, ficando, assim, reprimidos ou subdesenvolvidos no inconsciente. Podendo podem oferecer dificuldades ao indivíduo ao longo da vida até serem finalmente integradas.genero

Assim, podemos questionar: qual seria o brinquedo mais adequado para a criança? O brinquedo mais adequado para a criança é aquele que ela deseja e que seja seguro para sua idade.

Para além das bonecas: misoginia e psicopatia

Para as crianças, brincar com bonecos ou bonecas é apenas brincar. É para os adultos que o brincar assume uma outra dimensão. Brincar se torna instrumento ideológico, no caso, o patriarcado que atravessa nossa constituição psíquica e social. A divisão sexista dos brinquedos de “menina” e de “menino” tem por objetivo estabelecer um modelo do que viria a ser “adequado” ou “próprio” para um cada gênero, numa tentativa de estabelecer um “local” masculino ou feminino, baseado (em nossa cultura) na tradição judaico-cristã, que durante séculos subjugou as mulheres baseado no mito do “pecado original”.

Não podemos negar que essa ideologia patriarcal também influenciou a psicologia. Em outro texto (Entorno da anima e animus – algumas reflexões sobre machismo e atualidade) foi discutido acerca do machismo na psicologia analítica, tendo expressão nos conceitos de anima e animus. Os conceitos não são em si “machistas” mas, são atravessados pela cultura machista. Esse atravessamento cultural é sentido na configuração das representações arquetípicas, cuja expressão se dá na dicotomia anima-animus.

Na teoria junguiana, esse atravessamento pode ser compreendido por diferentes persepctivas. Em Neumann temos uma noção de fragmentação de arquétipos, onde “ocorre uma fragmentação no sentido de que, para a consciência, o arquétipo primordial se decompõe num amplo grupo de arquétipos e símbolos inter-relacionados” (1995, p. 232). De modo semelhante, Guggenbhül-Craig retoma a mesma temática, em “Abuso do Poder…”, falando sobre as polaridades do arquétipo e cisão do arquétipo,

Não é fácil, para a psique humana, suportar a tensão das polaridades. O ego ama a clareza e sempre tenta erradicar a ambivalência interior. Essa necessidade de situações inequívocas pode acarretar uma cisão dos polos arquetípicos. Um pólo poderá ser reprimido e continuar operando no inconsciente,(…) A parte reprimida do arquétipo poderá ser projetada sobre o mundo exterior.(Guggenbhul-craig, 1979,p.99)

A dinâmica que Neumann e Guggenbhul-Craig descrevem nos indicam de uma dificuldade do ego e da cultura para lidar com a ambivalência natural dos arquétipos. A fragmentação ou a cisão do arquétipo não se dá ao acaso, mas, é condicionada pela consciência coletiva. Nesse sentido, podemos considerar que o masculino e o feminino são pólos de uma mesma dinâmica arquetípica, representada na teoria junguiana pela sizígia “Anima-Animus”, que, em outro texto, discutimos como sendo os polos do arquétipo da alteridade (cf. Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010 ), esse arquétipo pode ser expressado pela relação “Eu-Outro” que, em aspecto de maior diferenciação ou oposição, pode ser representado como masculino e feminino.

Poderíamos nos questionar acerca dessas cisões, pois, e “se essa cisão for radical? E, se não houver a reintegração?” Por mais que a psique seja um sistema autorregulador nem sempre encontra os meios necessários para reparar as falhas no desenvolvimento. Assim, quando um elemento não é adequadamente integrado pode formar uma lacuna na psique, isto é, um vazio na alma, que faz com que o indivíduo será incapaz de lidar adequadamente com as situações relacionadas com o conteúdo “não integrado”. Guggenbhul-Craig foi um pensador junguiano que trabalhou a ideia do “vazio na alma”, ele nos ajuda a pensar essa imagem,

“Imagine, se você quiser, uma geografia da psique, um imenso continente povoado por diferentes tribos (habilidades e capacidades), cada uma vive e se desenvolve adequadamente. Seguindo um pouco mais esta analogia, aquelas áreas que não foram habitadas ou são inabitáveis, como desertos, áreas estéreis, ou lacunas(lacunae) representariam as psicopatias. Todos temos traços psicopáticos, cada um de nós tem algo faltando ou aspectos que são marcadamente subdesenvolvidos. (Guggenbhul-Craig, 1986, p.68 – tradução nossa)[3]

Na lacuna, no deserto estéril não há produção simbólica, não há vida simbólica. Esta “vida simbólica” é representada por Guggenbhul-Craig como eros, a força psíquica, criativa, que une tanto os elementos de nosso mundo interior quanto nos liga ao mundo exterior. Nesse sentido, a psicopatia compreendida por Guggenbhul-Craig como um vazio ou lacuna na alma, no psicopata há uma “ausência de eros” ou a “deficiência de eros”, que impede o desenvolvimento adequado da personalidade. Guggenbhul-Craig afirma, “a falta de crescimento e de desenvolvimento é, como a falta da moralidade, o resultado de um fraco ou deficiente sentido de Eros: sem Eros não há desenvolvimento.”[4] (ibid, p.90) As relações humanas se estagnam, assim como relações consigo.

Para além do machismo, temos a misoginia, onde o feminino e a mulher não é apenas inferiorizado, mas, desprezado e objetificado. Na misoginia vemos um deserto de eros, onde o feminino não foi integrado a personalidade. A mulher não é compreendida em sua totalidade e dignidade numa relação de igualdade, mas, como uma posse, como uma relação inadequada.

Essa falta de Eros nos psicopatas encontra expressão nas dificuldades encontradas nas relações interpessoais. Em vez de Eros, nós frequentemente encontramos manipulação. Jung disse que quando o Amor se retira, o Poder avança, o Poder sendo um sinal de importância em indivíduos com tendências psicopáticas. Onde Eros está faltando, manipulação, controle, dominação e intriga dominam. Muitos pesquisadores têm reconhecido a “diminuição do Eros” como qualidade da psicopatia. (ibid. p.80- tradução nossa)[5]

Acredito que poderíamos equiparar a misoginia a psicopatia. Mas, faço isso como uma provocação. Uma provocação ao nosso próprio traço psicopático, nossa própria deficiência de Eros, que nos incapacita na relação com alteridade. Começamos esse texto discutindo o desenvolvimento, o processo de deintegração e reintegração – e o quanto o ambiente (mães/pais/família) são importantes para o desenvolvimento e falamos do brincar de boneca como ícone do sexismo de nossa cultura. Falar do “brincar de boneca” é falar de nosso sexismo íntimo, de nosso traço psicopático que cultivamos em silêncio, racionalizando, categorizando como “politicamente correto” todo movimento que visa a igualdade – seja ele de gênero, étnico-racial ou de orientação sexual. Na aridez do politicamente correto, construímos um deserto sem Eros, sem implicação.

Jung afirmava que “a pessoa que não tem o coração mudado, não mudará o coração de ninguém”(Jung, 2000, p. 186). Por isso mesmo, chamo atenção para o cuidado com o “politicamente correto”, pois a mudança de linguagem não é uma “mudança de coração”. É importante salientar que, no texto do Sakamoto citado no início deste texto, ele usa o “brincar de boneca” para chamar atenção aos hábitos machistas e sexistas que atravessam nossa formação deste a mais tenra idade. A mudança não se dá de forma mecânica, automática ou por adesão ao “politicamente correto”, a mudança se dá pela experiência, pela ação e vivenciar a realidade do outro.[6]

Acredito que enquanto não tivermos o coração mudado – que implica em ações e afetos – não mudaremos nada. Enquanto não nos permitirmos a experiência da alteridade – que nos identifica na relação como outro, compreendendo-o como igual – continuaremos a ter uma sociedade hostil e violenta contra as mulheres. Enquanto escondermos nosso machismo e sexismo sob os “panos quentes” do politicamente correto, viveremos no deserto da alma, acalentando, silenciosamente, nossos próprios traços psicopáticos.

Referencias Bibliográficas

Avellar, Luziane, Z.. Jogando na análise de crianças: intervir-interpretar na abordagem winnicottiana. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2004

Guggenbühl-Craig, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. RJ, Achiamé, 1978

Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

Fordham, Michael. New Developments in Analytical Psychology, Londres: Routledge and Kegan Paul, 1957.

Fordham, Michael, A criança como individuo: Rio de Janeiro, 2001.

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. II, Petrópolis: Vozes, 2000.

Neumann, Erich. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix, 1995

Winnicott, D.W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago, 1975


[1] The deintegrates represent a readiness for experience, a readiness to perceive, a readiness to act instintively, but not na actual preception or action.

[2] Cf. Instinto e Inconsciente(1919). In JUNG, C.G. Natureza da Psique, Vozes, 5ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000.

[3] Imagine, if you will, a geography of the psyche, na immense continente peopled by different tribes (the abilities and capabilities) which live and develop accordingly. Following the analogy further, those áreas wich were uninhabited or uninhabitable, the deserts, barren areas, or lacunae would represent psychopathies. Everyone has psychopathic traits; each of us is missing something or has some aspect that is markedly underdeveloped.

[4] The lack of growth and of development is, like the lack of morality, the result of a weak or deficient sense of Eros: without Eros there is no

[5] This lack of Eros in psychopaths fids expression in difficulties encountered in interpersonal relationships. Rather than Eros, we frequently find manipulation. Jung said that when Love retreats, Power advences, Power being of signal importance in individuals with psychopathic tendencies. Where Eros is lacking, manipulation, control, domination, na intrigue take over. Most researchers have recongnized the Eros-less quality of psychopaths.

[6]No cinema dois filmes que eu indico que abordam essa experiência são: Inimigo Meu (1985) e Irmão Urso (2003)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Livro: Imagens do Inconsciente de Nise da Silveira

Prezados,

Depois de muitos anos de espera finalmente temos uma nova edição do livro “Imagens do Inconsciente” da Dra. Nise da Silveira. Editado pela Vozes, o livro está no valor de 99 reais. no site : http://migre.me/r72p4 

abaixo seguem as informações da Vozes:

Imagens do Inconsciente
Nise da Silveira

Imagens do Inconsciente traz dados reunidos através de muitos anos de experiência vivida no hospital psiquiátrico pela autora Nise da Silveira. Neste trabalho ela não se inspirou na psiquiatria caracterizada pela escassa atenção que concede aos fenômenos intrapsíquicos em curso durante a psicose. Ao contrário, o interesse maior foi o de penetrar, pouco que fosse, no mundo interno do esquizofrênico.

Através da observação do exercício livre de atividades diversas numa seção de terapêutica ocupacional, Nise chegou empiricamente à confirmação do conceito minoritário de que o mundo interno do esquizofrênico encerra insuspeitas riquezas e as conserva mesmo depois de muitos anos de doença. As atividades da pintura e da modelagem, especialmente, tornavam menos difícil o acesso aos conteúdos do inconsciente permitindo que o processo psicótico, por assim dizer, se tornasse visível no seu desdobramento.

O instrumento de trabalho utilizado foi principalmente à psicologia junguiana que, segundo a autora, abre rotas para distantes circunavegações pelos estratos mais profundos da psique.

Código ISBN: 9788532649850

Formato: 16,0×23,0 cm
Acabamento: Brochura

Peso: 0,461 kg
Número páginas: 336
1ª edição
Ano de lançamento: 2015

99 reais

Hipnose Ericksoniana e Clínica Junguiana (Parte II) – Símbolos e Metáforas

Veja também : Hipnose Ericksoniana e Clínica Junguiana (Parte I) – Uma aproximação

O inconsciente é sempre o mesmo, o que muda é a forma como o abordamos, isto é, a forma como tentamos compreendê-lo. Na primeira metade do século XX, destacou-se na psicologia clínica uma tendência que visava compreender a psique a partir dos fenômenos psicopatológicos e circunscrevia os fenômenos psiquicos nesse contexto – esse foi o viés defendido pela psicanálise de Freud. Jung discordava radicalmente dessa atitude, afirmava

Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde e gostaria de libertar os doentes daquela psicologia que Freud coloca em cada página de suas obras. Não consigo ver onde Freud consegue ir além de sua própria psicologia e como poderá aliviar o doente de um sofrimento do qual o próprio médico padece. (JUNG, 1989, p.325)

A escolha por valorizar a saúde e os aspectos saudáveis e positivos da psique era compartilhada por Jung e por Erickson. A valorização dos aspectos saudáveis da psique falam da experiência pessoal que cada um teve. Jung em sua autobiografia relata que após a ruptura com a psicanálise, ele passou por um período de instabilidade interior, em sua biografia ele relata

Sentia-me muitas vezes de tal forma agitado que recorri a exercícios de ioga para me desligar-me das emoções. Mas como meu intuito era fazer a experiência do que se passava em mim, só me entregava a tais exercícios para recobrar a calma, a fim de retomar o trabalho com o inconsciente. Quando readquiria o sentimento de mim mesmo, abandonava o controle e cedia a palavra as imagens interiores. (…)

Na medida em que conseguia traduzir as emoções em imagens, isto é, ao encontrar as imagens que ocultavam nas emoções, eu readquiria a paz interior. Se tivesse permanecido no plano da emoção, possivelmente eu teria sido dilacerado pelos conteúdos do inconsciente Ou,talvez, se os tivesse reprimido, seria fatalmente vítima de uma neurose e os conteúdos do inconsciente destruir-me iam do mesmo modo. Minha experiência ensinou-me o quanto é salutar, do ponto de vista terapêutico, tornar conscientes as imagens que residem por detrás das emoções. (JUNG, 1975, p.157-8)

Essa experiência de Jung possibilitou que ele compreendesse que a psique era um sistema autorregulador que sempre impelia o individuo ao desenvolvimento e a vida. Milton Erickson, por outro lado, teve em sua vida um desafio enorme, aos 17 anos teve uma crise de poliomielite que ficou com o corpo todo paralisado,

Ele não foi batido e decidiu voltar a lutar. Um dia, estava sentado perto da janela, olhando ansiosamente para fora. Como estava ali sentado, imaginando estar fora, percebeu que a cadeira começou a balançar um pouco.

Empolgado, ele tentou fazer isso acontecer de novo, desejando se mover, mas não podia, não importa o quão duro tentasse. Eventualmente, ele desistiu e afundou-se em seus devaneios, imaginando-se novamente jogando fora. Mais uma vez, a cadeira começou a balançar.

Ele percebeu que era sua imaginação vívida que estava produzindo uma resposta em seu corpo. Inspirado por essa descoberta, ele aprendeu sozinho a andar, observando sua irmãzinha. Ele começou a chamar isto de “memórias do corpo”.

Ao concentrar-se nestas memórias e usando visualização, Erickson começou a recuperar o controle de partes de seu corpo. Eventualmente, embora ainda incapaz de andar, ele decidiu treinar seu corpo ainda mais ao embarcar em uma longa viagem. Depois dela, ele já era capaz de andar com uma bengala. (ACT Institute, 2015)

Erickson em meio ao seu drama descobriu que a psique era capaz de verdadeiros milagres, como a recuperação de seus movimentos. Tanto a experiência de Jung que se recuperou de um período de profunda instabilidade psíquica (que o levou a beira do suicídio) quanto a Erickson que recobrou os movimentos falam de um mergulho restaurador no inconsciente. Para compreender essas experiências que transformam o individuo tanto física quanto psiquicamente vamos lançar mão do conceito junguiano de símbolo.

Símbolo

O conceito de símbolo atravessa toda a psicologia junguiana. O Simbolo, cuja raíz etimológica encontra-se no termo grego, symbolon, que significa “unir, fazer coincidir”, é uma estrutura psíquica formada por elementos conscientes e inconscientes. Por isso, dizemos que o símbolo é como uma ponte onde uma extremidade repousa na consciência e outra repousa no inconsciente, desta forma, o símbolo “[…] aglutina a energia psíquica e redistribui de maneira a transformar os processos inconscientes em conscientes e vice-versa […]” (BYINGTON, 1983, p. 10), possibilitando uma mudança na atitude da consciente. Um aspecto fundamental no símbolo é sua função integradora, pois, o símbolo integra o indivíduo em sua totalidade bio-psico-social. Para exemplicar essa abrangência do símbolo, podemos lembrar os estudo de Jung acerca da associação de palavras.

No inicio do século XX, Jung iniciou pesquisas com associação de palavras, com o objetivo de compreender as regras que envolviam as associações, para tanto foram escolhidas 400 palavras(isso na versão final do experimento), onde eram essas palavras eram ditas pelo experimentador ao sujeito, que deveria dizer a primeira palavra que lhe ocorresse, o experimentador anotaria o tempo de reação(ou tempo de resposta), posteriormente, seria repetido o experimento para verificar as palavras escolhidas. Nesse procedimento o que chamou atenção foram as perturbações ocorridas no experimento, isto é, as alterações no tempo de reação de determinadas palavras. Estudando essas perturbações Jung chegou ao conceito de complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos, que seriam estruturas inconscientes em torno da qual se organiza nossa história pessoal – quando em funcionamento inadequado (inflado) o complexo, que possui certa autonomia, poderia invadir a consciência interferindo na consciência.

A partir desses experimentos Jung ampliou a pesquisa utilizando pneumógrafo que permitia medir a quantidade de gás carbônico expirado, e galvanômetro que permitia medir a variação de potencial de corrente elétrica na superfície da pele. Constatando que frente a palavra estimulo ocorria uma alteração tanto psíquica quanto física. Ou seja, a palavra como símbolo socialmente constituído mobilizaria tanto a consciência (isto é, os recursos de defesa do ego), quando o complexo (que seria ativado ou eliciado pelo estimulo) e faria alterações fisiológicas (perceptíveis tanto na respiração quanto na tensão elétrica na superfície da pele).

Posteriomente, Jung compreendeu que os complexos, que agregavam a si a história pessoal dos indivíduos, se organizam de entorno de núcleos temáticos impessoais e que tinham sua origem nas experiências comuns a toda humanidade – como enfrentamento, nutrição, proteção, cooperação, etc.. – que ao longo da evolução humana se tornaram a base para a organização psíquica. Por isso mesmo, independente da cultura ou etnia todos os seres humanos possuiriam o mesmo padrão de organização psíquica, esse padrão seria como uma forma sem conteúdo, ou seja, seria o padrão/forma seria a possibilidade de organização ou conteúdo seria dado pela experiência do indivíduo na cultura. Jung denominou esses padrões basais de organização psíquica de arquétipos.

Jung observou ao analisar sonhos e delírios de pacientes, que muitas dessas formações do inconsciente, não tinham uma relação direta com a história pessoal do paciente, mas, com conteúdos coletivos análogos as imagens da mitologia e contos de fadas. Deste modo, Jung compreendeu que a partir da experiência coletiva (mitos, contos de fadas) poderíamos compreender a situação ou dinamismo psíquico que estaria “ativo” naquele momento num indivíduo. E, mais importante, através desses conteúdos impessoais, análogos ao arquétipo poderíamos possibilitar que o indivíduo se confrontasse e integrasse ao complexo, isto é, da experiência pessoal de forma saudável.

Compreender a dinâmica arquetípica é fundamental para entendermos os símbolos. Pois, “[…] símbolo nunca é inteiramente ‘abstrato’, mas sempre, ao mesmo tempo, também ‘encarnado’. O símbolo é a encarnação do arquétipo, ou seja, o inconsciente, atualizando-se como imagens e formas.” (DAMIÃO, 2005, p.9 – grifos do autor). Uma vez que os arquétipos são padrões basais e fundamentais da psique, toda produção psíquica é simbólica. Alguns símbolos, como os símbolos linguísticos, já foram elaborados conscientemente por isso acabam sendo mais associados aos processos da consciência, contudo, como dissemos com teste de associação de palavras, Jung demonstrou que simples palavras são capazes de mudanças psíquicas e corporais.

O que dizer então das narrativas? Sim, as narrativas como os mitos foram utilizadas ao longo da história humana como instrumento de cura, Levi-Strauss relata um exemplo disso, na realização de um parto, no texto “A eficácia simbólica”. Jung compreendeu que ao utilizarmos as narrativas míticas a realidade do indivíduo é ampliada, de modo, que o indivíduo se identifica com o aspecto coletivo, de tal forma, que o corpo/psique é integrado na dinâmica do mito.

A habilidade de empregar um ponto de vista geral é de grande valor terapêutico. A terapia moderna não está muito desperta para isso, mas na medicina antiga era largamente conhecido que, transportando-se uma doença pessoal a um nível mais alto e impessoal, atingia-se um efeito curativo. No Antigo Egito, por exemplo, quando um homem era mordido por cobra, o médico-sacerdote era chamado, e tirava da biblioteca o manuscrito sobre o mito de Rá e de Isis, sua mãe, e o recitava. Ísis fizera um verme venenoso e o escondera na areia; o deus Rá pisou na serpente, sendo por ela mordido e então sofreu uma dor terrível, chegando próximo da morte. Mas os deuses fizeram Ísis produzir um encanto para retirar o veneno do corpo do filho. A intenção era que o paciente ficasse de tal modo impressionado por essa narrativa, que lhe sobrevivesse a cura. Para nós isso parece impossível. Não podemos imaginar que uma história dos Contos de Grimm, por exemplo, possa curar febre tifóide ou pneumonia. Mas apenas levamos em consideração nossa moderna psicologia racional. Para entender o efeito, devemos levar em consideração a psicologia do Antigo Egito, que era totalmente diferente. E, apesar de tudo, aquelas pessoas não eram assim tão diferentes. Mesmo conosco, certas coisas podem causar milagres. Às vezes, só o consolo espiritual ou a influência psíquica podem curar, ou pelo menos ajudar no combate de uma doença. Logicamente isso acontece muito mais entre pessoas de um nível mais primitivo ou dotadas de psicologia mais arcaica.

No Oriente, grande parte da terapia prática se constrói sobre o princípio de elevar o caso pessoal a uma situação geral válida. A medicina grega também trabalhava com o mesmo método. É evidente que a imagem coletiva ou sua aplicação deve estar de acordo com a condição particular do paciente. O mito ou a lenda emerge do material arquetípico que está constelado pela doença, e o efeito psicológico consiste em conectar o paciente com o sentido geral de sua situação. A mordida de cobra, por exemplo, é uma situação arquetípica e, por isso mesmo, encontra-se como motivo em muitas lendas. Se a situação subjacente à doença for expressa de maneira adequada, o paciente estará curado. Caso não se encontre essa expressão ideal, ele é novamente arremessado ao seu próprio mal, à isolação de estar doente; ficará só, sem nenhuma ligação com o mundo. Mas se o doente percebe que o problema não é apenas seu, mas sim um mal geral, até mesmo o sofrimento de um Deus, aí então reencontrará seu lugar entre os homens e a companhia dos deuses, e só de saber isso, o alívio já surge. A moderna terapia espiritual usa o mesmo princípio: a dor ou doença é comparada com o sofrimento de Cristo na cruz, e essa idéia dá consolação. O indivíduo é elevado acima de sua miserável solidão e colocado como quem suporta um destino heróico e significativo que, finalmente, reverte em bem para o mundo, como o martírio e a morte de um Deus. Quando se mostrava a um antigo egípcio que ele estava passando pelas mesmas provações que Rá, o deus-sol, era imediatamente, equiparado ao faraó, que era o filho e o representante dos deuses; e assim o homem comum também participava da divindade. Isto provocava tal libertação de energia que se torna perfeitamente compreensível por que a dor diminuía. Em determinados estados de espírito as pessoas podem suportar muitas coisas. Os primitivos caminham sobre brasas e se infligem os maiores castigos, sob certas circunstâncias, sem sentirem dor. E é bem provável que um símbolo adequado e impressionante possa mobilizar as forças do inconsciente a tal ponto que até o sistema nervoso seja afetado, levando o corpo a reagir de maneira normal novamente. (JUNG, 2000, p.114-5)

Os mitos, contos de fadas são formadas por uma cadeia de símbolos que, através de suas imagens, nos mobilizam profundamente. Uma outra forma de compreender esse processo é pensar que todas as narrativas simbólicas que nos tocam são metáforas de nossos processos profundos que ocorrem em nosso psiquismo.

Metáforas

A metáfora é uma figura de linguagem, um recurso utilizado quando queremos fazer uma comparação, mas, sem estabelecer um elemento de conexão entre os dois elementos. Por exemplo, quando dizemos

José é um gato

Ou

João é um touro

Em nossa afirmação trazemos uma relação entre os dois elementos que não é aparente. Não me refiro que José ou João sejam animais, mas, que eles possuem características que são comuns a ambos. Naturalmente, e sem focalizar nossa atenção, nós identificamos a interseção entre os dois elementos, pois, desde criança, somos treinados reconhecer as metáforas, seja através da contos de fadas, provérbios e ditos populares.

No livro “Manual de Hipnoterapia Ericksoniana” Sofia Bauer nos dá uma definição excelente do sentido das metáforas na hipnose ericksoniana, segundo ela

Metaforizar é o meio de ser indireto, de falar a língua do cliente. É atingir o cliente nos dois níveis de consciência, contando histórias, piadas, casos. As metáforas são como pontes no tratamento que viabilizam uma ressignificação e uma saída para os problemas; o paciente vai embora e leva algo (um recado) feito sob medida pra ele (BAUER, 2000, p. 51)

Para explicar um pouco mais a dimensão da metáfora podemos utilizar duas vias dois meios. Eu poderia explicar de uma forma racional e objetiva dizendo podemos entender a metáfora como um recurso de linguagem que opera através de imagens, criando uma relação implícita entre a narrativa do terapeuta e a situação do paciente. Por ser implícita e indireta, a imagem não aciona as defesas do paciente, possibilitando que no tempo certo, o conteúdo da metáfora possa ser, naturalmente, elaborado e atingir o objetivo esperado para o paciente.

Por outro lado, poderia explicar os mesmos aspectos de forma indireta, isto é, de forma metafórica, dizendo que a metáfora é um cavalo de Tróia, eu não sei se você leitor, vai se lembrar da história, que nos foi contada por Homero, o maior poeta grego. Homero nos conta, que há muito tempo, na Grécia, a rainha Helena foi raptada pelo príncipe troiano Paris, isso fez com os gregos reunissem o maior exército de todos os tempos e partissem para Tróia para regatar Helena , dando início a longa guerra de Tróia, que durou pouco mais de 10 anos. Apesar dos gregos terem o melhor exército, os maiores heróis, Aquiles, Ajax, Diomédes, Ulisses entre outros, mas, os troianos possuíam uma cidade com muros poderosos, gigantescos, vigiados dia e noite, e, mesmo ao longo de 10 anos, eles conseguiram impedir que os gregos tivessem sucesso. Até que, um dia, já cansado de muitas balatas, Ulisses, conhecido como o mais esperto e astucioso dos heróis gregos, teve uma ideia, de disse aos comandantes dos exércitos gregos “vamos pegar a madeira dos barcos, fazer um grande cavalo de madeira oco, dentro dele, colocaremos nossos maiores heróis, assim, poderemos atravessar as poderosas muralhas de Tróia”. Assim foi feito, após construído esse belo cavalo de madeira, os heróis, se esconderam dentro dele e o exército fingiu que foi embora. Quando os troianos viram aquele belo cavalo de madeira, acharam que era um presente, e, assim o receberam, levaram para dentro de suas poderosas muralhas, quando menos perceberam, silenciosamente, no meio da noite, os heróis gregos, abriram os portões, e, de dentro para fora conseguiram sua vitória, acabando assim, com o sofrimento daquele longo conflito.

Como podemos ver, passamos a mesma mensagem por vias distintas. Mas, o que o torna de fato uma metáfora eficaz? Para ser eficaz a metáfora precisa estar relacionada com a realidade do cliente, em outras palavras, para a metáfora ser eficaz o terapeuta/analista deve conhecer minimamente o paciente, para poder fazer uma metáfora dialogue com o paciente. Milton Erickson frisava a importância utilizar tudo o que o paciente traz, seja os aspectos físicos, profissão, gostos, interesses, enfim, utilizando tudo que o cliente traz, para não gerar estranheza ao cliente. Observando o que o cliente traz, aumenta a chance do uso de uma metáfora eficaz.

A metáfora pode ser criada (a partir do que o paciente trouxe) ou mesmo pode-se utilizar de uma metáfora “pronta”. Existem muitos livros que oferecem histórias que podem ser utilizadas como metáforas, acredito que esses livros são úteis, mas, acho fundamental percebermos que as metáforas fluem naturalmente na medida que somos curiosos na vida. Seja buscando entender o que se passam nas novelas, nos filmes, nos livros (a literatura é uma fonte inesgotável de imagens), contos de fadas, histórias religiosas, mitos, tecnologia, informática. Enfim, tomar como dever de casa, buscar se atualizar do que os clientes trouxeram nas primeiras sessões.

Acredito que devemos considerar na prática junguiana as metáforas são utilizadas regularmente, pois, toda amplificação de um símbolo (seja no sonho, sintoma) e toda interpretação são metáforas, que possibilitam que a consciência se aproxime dos processos inconscientes. Jung já chamava atenção para a importância da linguagem simbólica/metafórica, pois, observando as reações dos pacientes frente as formas de interpretação “os meus pacientes têm razão preferem as imagens e as interpretações simbólicas, como o que há de mais adequado e eficaz. ” (Jung, 1999, p. 43-4)

O uso da linguagem hipnótica ou mesmo do transe amplifica as possibilidades de transformações (tanto psíquicas quanto físicas) muitas vezes já obtidos no contexto da analise junguiana, visto que possuem princípios similares. Por isso, venho advogando pelo dialogo e consideração atenta dos recursos oferecidos pela hipnose ericksoniana a psicologia junguiana.

Referências bibliográficas

BAUER, S. Manual de Hipnoterapia Ericksoniana, Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010.

BYINGTON, C.A.B. O desenvolvimento Simbólico da Personalidade. In: JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

DAMIÃO M. Jr. Experiência do Símbolo no Pensamento de C.G.Jung, Rio de Janeiro: Editora Aion, 2005.

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989

JUNG, C.G. Vida Simbólica vol I. Petrópolis: Vozes, 2000.

JUNG. C. G, A Prática da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.

Milton H. Erickson, pai da Hipnose Ericksoniana: Disponível em: http://actinstitute.org/pos-graduacao/milton_h_erickson/ Acesso em 08 de jun. de 2015.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Hipnose Ericksoniana e Clínica Junguiana (Parte I) – Uma aproximação

Este texto nasceu a partir de três momentos de minha experiência junguiana com a hipnose. O primeiro ponto esta relacionado com a minha formação em hipnose ericksoniana, pois, ao longo de toda formação eu via nitidamente (e verbalizava isso com alguns colegas) proximidades entre o pensamento junguiano e os pressupostos ericksonianos. O Segundo foi um contínuo incomodo ao perceber que no processo de aprendizagem da hipnose, que a hipnose oferecia uma excelente técnica e uma teoria da técnica, mas, não uma concepção psicodinâmica clara que fundamentasse a técnica. O terceiro ponto, e mais importante, foram as discussões surgidas no Grupo Aion acerca da hipnose e de uma possível compreensão a partir da dinâmica psíquica proposta por Jung.

Neste texto não tenho a pretensão de exaurir o tema, muito pelo contrário, meu objetivo é apenas iniciar um diálogo, buscando diminuir o preconceito e convidar aos junguianos a conhecerem um pouco mais possibilidade terapêutica.

Jung e a Hipnose

No final do século XIX e início do século XX, a hipnose se caracterizava como um recurso médico importante e especialmente para as escolas médicas francesas – um expoente do uso médico da hipnose foi o médico Jean Martin Charcot que foi professor de Freud e utilizou da hipnose no tratamento da histeria. Nesse período o uso da hipnose clinico da hipnose dava seus primeiros passos, por isso, a hipnose daquele tempo que hoje chamamos de “hipnose clássica” era caracterizada por uma indução relativamente rígida associada a sugestão autoritária. Nesse contexto, as resistências eram reforçadas (pelo autoritarismo) e muitas pessoas não entravam no estado hipnótico pela forma como este era induzido – essas dificuldades associadas com recidivas fizeram Freud abandonar o uso da hipnose, ao passo que desenvolvia a psicanálise – por acreditar que a hipnose não seria eficaz. Essa versão da relação de Freud e a hipnose é bem conhecida – inclusive serviu e ainda serve de preconceito quando se fala de hipnose. Muitos encerram o assunto por aí. Como não é de se estranhar, Jung tinha uma opinião bem diversa da de Freud. Um fato que que geralmente não é comentado é que Jung, ao longo da primeira década do séc.XX, utilizou da hipnose – não só utilizou como também era bom hipnólogo, inclusive ministrou cursos sobre hipnose durante seu período como professor na universidade da Basiléia.

A relação de Jung com a hipnose é geralmente ignorada. Numa carta de 1913 ao dr.Loÿ Jung afirma que,

não abandonei a hipnose por não querer nada com as forças básicas da psique humana, mas porque desejava exatamente lutar aberta e diretamente com elas. Sabendo quais forças atuavam na hipnose, eu a abandonei simplesmente para eliminar todas as vantagens indiretas desse método.(JUNG, 1989,p 256)

Esse trecho é muito importante, pois, Jung reconhecia o mérito da hipnose, mas, como pesquisador não podia aceitar as “vantagens indiretas” da hipnose pois, prejudicava sua compreensão ou estudo dos fenômenos do inconsciente.

Em suas memórias, Jung citou um caso que nos permite pensar de forma mais clara e objetiva relação de Jung com a hipnose. Ele relata a história de uma paciente de cerca de 58 anos, que andava com ajuda de muletas, e que foi para ser hipnotizada por ele. Após, um período de dialogo inicial, ele relata que a paciente entrou em transe sem que ele havia feito qualquer técnica,

Entretanto a situação se tornava embaraçosa. Mais de vinte estudantes assistam a essa demonstração de hipnose.

Quando, ao fim de meia hora, quis despertar a doente, não o consegui. A situação era alarmante e imaginei que talvez tivesse aflorado naquela mulher uma psicose latente. Passaram-se dez minutos e não conseguia acorda-la. Não queria que os estudantes percebessem minha ansiedade. Afinal ela voltou a si atordoada e confusa. Procurei tranquiliza-la: ‘Sou médico, e tudo está bem.’ Então ela gritou ‘Estou curada! ’ Jogando longe de si as muletas pôs-se andar. Senti que ruborizava e disse aos estudantes: ‘Vocês podem ver o que é possível obter pela hipnose. ’ Não tinha, porém, a menor idéia do que se passara.

Essa foi uma das experiências que me incitaram a renunciar a hipnose. Não podia compreender o que realmente ocorrera, mas a mulher se curara verdadeiramente e saiu muito feliz da clínica[1]. Pedi que me desse notícias, pois previa uma recaída ao fim de umas vinte quatro horas. Entretanto, as dores não voltaram e tive que aceitar, apesar de meu cepticismo, o fato de que estava curada.

No primeiro curso de semestre de verão do ano seguinte, ela reapareceu. Queixou-se dessa vez de violentas dores nas costas, que haviam começado pouco antes. Não exclui a hipótese de que se relacionassem com o recomeço do meu curso. Talvez tivesse lido no jornal a notícia de minhas experiências. Perguntei-lhe quando a dor começara e qual fora a causa. Ela não se lembrava do fato e de nada que o explicasse. Finalmente, consegui descobrir que as dores haviam efetivamente começado no dia e na hora em que vira no jornal a notícia de meus cursos. Isso confirmava minha suposição, mas, mas continuava sem compreender o que provocara a cura milagrosa. Hipnotizei-a de novo, ou melhor, ela caiu, como antes, espontaneamente em transe e voltou a si livre das dores.

Depois da consulta, a retive para obter alguns detalhes sobre sua vida. Soube então que tinha um filho débil mental, que estava sob os cuidados do meu departamento. Eu de nada sabia, pois ela usava o nome do segundo marido, e o filho nascera de seu primeiro casamento. Era seu único filho. Naturalmente, ela esperara que fosse talentoso e bem sucedido, e se decepcionara profundamente quando, ainda na infância ele tornou-se presa de uma doença psíquica. Naquele momento eu era um jovem médico e representava tudo que ela desejara pra ele. Dessa forma todos os ambiciosos desejos de mãe heroica que ela acalentava, recaíram sobre mim. Adotou-me então como filho, e anunciou urbi et orbi, sua cura maravilhosa.

Efetivamente, devo agradecer a ela minha fama local de mágico e, como a história logo espalhou-se por toda parte, devo-lhe os primeiros clientes de minha clínica particular. Minha prática terapêutica começou porque uma mãe me pusera em lugar de seu filho, doente mental! Naturalmente expliquei todas essas relações; ela aceitou tudo com compreensão e nunca mais recaiu.

(…)

Quando comecei a trabalhar em minha clínica particular, utilizei a hipnose, mas logo a abandonei por sentir que com ela se tateia na obscuridade. É impossível saber quanto tempo dura um progresso ou uma cura, e eu sempre sentia resistência em agir sem certeza.[2] Não me agradava também decidir acerca do que o paciente deveria fazer[3]. Era bem mais importante descobrir a partir dele em que direção se desenvolveria naturalmente. Utilizei para isso uma minunciosa análise de outras manifestações do inconsciente.(JUNG, 1975, 111-2) (Grifos meus)

Essa citação extensa foi necessária para identificarmos os pontos que levaram a Jung abandonar a hipnose clássica: 1- Não saber como ocorria o processo de cura. 2 – Não se sentir confortável ou ter resistências apenas com o uso da técnica. 3 – Não concordar com a postura autoritária da técnica.

Devemos notar outro aspecto importante, Jung não rejeita a eficácia da hipnose – tanto que podemos ver que na segunda vez, ele continuou utilizando a hipnose, mas, em sua conversa analítica com a mulher ele utiliza da hipnose para tirar a dor das costas. O diálogo e a conscientização feita acerca a história do filho, poderia ser compreendida em termos de sugestão pós-hipnótica.

O abandono da hipnose não representou uma negação, mas, uma opção, uma escolha necessária naquele momento. Posteriormente, os próprios estudos de Jung acerca da dinâmica psíquica e da psique arquetípica oferecem elementos compreender a hipnose e seus processos. Por outro lado, o desenvolvimento da hipnose clínica suprimiu as dificuldades que Jung encontrou em seus dias como hipnólogo. James Hall, que foi proeminente analista junguiano americano, compreendia que,

A hipnose continua a ser um valioso e impressionante instrumento no arsenal do clínico. A futura integração entre as técnicas hipnóticas e a teoria junguiana facilitará ainda mais as aplicações da hipnoterapia no contexto da análise junguiana clássica e da interpretação dos sonhos.

Embora só utilize a hipnoterapia, atualmente, numa pequena porcentagem de casos, não considero seu uso cuidadoso como incompatível com a análise dos sonhos e outras técnicas junguianas tradicionais. Ouso imaginar que o próprio Jung concordaria, se estivesse vivo e consciente dos desenvolvimentos da compreensão da hipnose que ocorreram desde seus primeiros anos de trabalho com Freud. (HALL, 1992, p.156)

Acredito, assim como Hall, que a Hipnose oferece um importante instrumento para o analista junguiano, cujo potencial deveria ser melhor considerado nos meios junguianos.

Pensando a Hipnose

Hipnose ou hipnotismo foi um termo criado no século XIX, pelo médico James Braid(1795-1860) para se referir a um estado de sono artificialmente induzido (hipnos – como referência ao deus grego do sono). Apesar do termo ter sido cunhado no século XIX, o fenômeno hipnótico já era conhecido por muitas culturas antigas já conheciam e tiravam proveito seja para cura, para guerra dentre outros, desse estado psíquico.

Sofia Bauer apresenta uma interessante definição de hipnose, segundo ela

Hipnose é um estado alternativo de consciência ampliada, onde o sujeito permanece acordado todo o tempo, experimentando sensações, sentimentos, talvez tendo imagens, regressões, anestesia, analgesias e outros fenômenos hipnóticos enquanto está nesse estado.

Você permanece mais interno, mais focado, mais acordado. Durante o transe, você vai se desligando das percepções externas e tem uma grande atividade interna, sem perder seu estado de alerta. (BAUER, 2010 p. 17)

Para o leitor o mais exigente a “definição” pode parecer pouco precisa. Isso porque a hipnose é um fenômeno psíquico natural que apenas podemos descrevê-lo de forma mais ou menos precisa, pois, uma definição estrita poderia não contemplar o fenômeno. Hipnose e transe são termos quase que indissociáveis – sendo a hipnose se refere o contexto mais amplo que envolve a relação terapeuta e cliente, a comunicação, a técnica e o transe se refere a experiência individual, particular, que o indivíduo vivência consigo mesmo no estado hipnótico.

Deve-se notar que o estado hipnótico já foi descrito como um “estado alterado de consciência”, mas, por como esse termo poderia passar uma ideia pejorativa, patológica, por isso, Sofia Bauer sabiamente optou por um “estado alternativo de consciência” que soa mais coerente. Sob um ponto de vista junguiano, eu questionaria apenas a ênfase na consciência. Digo isso, pois, não é uma alteração ou estado alternativo apenas da consciência mas, do indivíduo como um todo – há uma mudança na totalidade do indivíduo.

Um dos importantes pesquisadores dos fenômenos hipnóticos foi Pierre Janet (que por sua fez, foi professor de Jung), que desenvolveu conceito de abaissement du niveau mental(abaixamento do nível mental) na tentativa de compreender os fenômenos hipnóticos, apesar deste conceito não corresponder de fato ao processo hipnótico, mas, apenas ao que era observado externamente, foi amplamente utilizado por Jung

para descrever uma condição fronteiriça em que a consciência de determinados conteúdos inconscientes era iminente. Reconhecia-a como um importante estado de condição prévia para a ocorrência de fenômenos psíquicos espontâneos. Daí, muito embora seja normalmente um estado que ocorre involuntariamente (…), também pode ser conscientemente propiciado como fator preparatório para a IMAGINAÇÃO ATIVA. (SAMUELS,et al. 1988, p.17)

Este estado fronteiriço, permeável entre a consciência e o inconsciente, é fundamental para qualquer processo psicoterapêutico, pois, corresponde ao princípio natural de autorregulação psíquica. Podemos perceber este estado de permeabilidade da consciência nos fenômenos de transferência /contratransferência, de projeção na matéria (no caso do uso de técnicas expressivas), na mudança da atitude da consciência no caso da imaginação ativa e da hipnose.

Por isso, o “estado hipnótico” não deve ser compreendido como um estado “apenas produzido” pela hipnose, ou restrito a relação hipnótica, muito pelo contrário ele é natural e entramos nesse estado alternativo, fronteiriço ou intermediário em diversas as situações de nossa vida – quando estamos no cinema, quando dirigimos ou andamos “distraidamente” (absortos em nós mesmos), quando lemos, quando rezamos ou meditamos ou mesmo em nossos relacionamentos ou mesmo nos sintomas neuróticos– possibilitando um diálogo entre a consciência e o inconsciente.

Uma forma de comunicação

Como dissemos anteriormente, o transe hipnótico, isto é, a experiência pessoal vivenciada pelo individuo, é uma experiência natural, resultado da tendência natural de aproximação entre a consciência e o inconsciente, que se caracteriza com a interiorização do foco da atenção.

O caminho a ser percorrido até se chegar a experiência do transe e a sua manutenção é chamado de indução. Poderíamos dizer que a indução é o processo no qual o hipnoterapeuta reduz as defesas do ego do paciente – internas e externas – possibilitando que se estabeleça um temenos interior, um espaço de protegido na relação do indivíduo consigo mesmo, possibilitando que ocorram as mudanças necessárias. Geralmente, a indução “formal” é compreendida em três etapas: absorção, ratificação e eliciação. A absorção corresponderia a primeira etapa do processo, onde o hipnoterapeuta auxiliaria ao cliente no seu processo de interiorização, por meio de uma linguagem adequada, facilitando que o indivíduo possa se permitir entrar no estado hipnótico; a ratificação seria um momento onde o hipnoterapeuta descreveria ao cliente as mudanças que são perceptíveis nesse estado, de tal forma, que conscientemente o cliente se permita ficar um pouco mais nesse estado e aprofundar; na eliciação é onde por meio de metáforas ou técnicas busca-se atingir propriamente as mudanças esperadas.

Vale a pena lembrar que Milton Erickson não compreendia a indução como um ritual, mas, antes como uma forma de comunicação especial e atenta as peculiaridades do cliente. Para tanto, desenvolveu e aperfeiçoou vários elementos de uma comunicação eficaz como p.ex. tom de voz, truísmos, pressuposições, injunções simbólicas, dissociação, as categorias intrapsíquicas e dentre outras. Inclusive em suas últimas décadas Erickson praticamente não utilizou induções formais, mas, utilizava um diálogo hipnótico.

A comunicação é fundamental seja na indução de um transe, na imaginação ativa, ao interpretar um sonho ou mesmo para acolher o paciente de forma adequada sem elevar resistências. Devemos notar que um dos aspectos da teoria dos tipos psicológicos passa pela comunicação, isto é, compreendendo a tipologia de um indivíduo poderemos não só compreender como o indivíduo se posiciona em relação a sua realidade, mas, como podemos dialogar com o cliente de forma mais adequada. Acredito que tanto a indução formal quando hipnose como uma forma de comunicação igualmente rica que oferece a possibilidade contribuir com o processo terapêutico de nossos analisandos ou clientes.

Hipnose na Análise

A Hipnose é uma ferramenta poderosa, cuja eficácia bem conhecida na literatura. Em algumas situações a hipnose é capaz de rapidamente atingir o resultado esperado pelo paciente, seja na mudança de alguns comportamentos, seja na resolução de fobias e transtorno de ansiedade dentre outros – com resultados permanentes. A hipnose catalisa os processos inconscientes, propiciando uma elaboração simbólica que, por outro meio, poderia demorar muito mais. Quando a necessidade do indivíduo requer uma resposta a curto prazo (como p.ex, um vestibulando, uma pessoa com transtorno de pânico, ou numa situação que prejudique seu trabalho) o uso da hipnose pode ser não só bem-vindo, mas, desejável. Jung dizia que “todo procedimento é bom quando ele ajuda. Por isso aceito qualquer procedimento de sugestão(…) “A truth is truth, when it Works (uma verdade é uma verdade quando funciona”). (JUNG 1989, p. 248)

Acredito que a hipnose propicie uma relação do indivíduo com o inconsciente que, no processo analítico, pode favorecer ao processo – seja por criar uma segurança para que o ego se relacione com os conteúdos inconscientes, ou por favorecer o surgimento de imagens/símbolos a partir do transe. Penso, quando o cliente relata espontaneamente essas imagens é importante integra-las, tal qual a uma imagem de um sonho.

O uso da hipnose não é diferente do feito com técnicas expressivas (arteterapia, sandplay dentre outras técnicas). O fato mais importante é compreendermos junto com o paciente o que seria eficaz para ele. No Brasil, temos uma tendência em associar(em alguns meios “quase” identificar) a prática junguiana com as técnicas expressivas, mesmo a imaginação ativa (que discutiremos em outro texto) ocupa um espaço menor entre os junguianos.

Acredito que aproximação e diálogo entre a abordagem junguiana e a hipnoterapia seria grande proveito. Este é o primeiro texto que penso em produzir com o intuito de facilitar este dialogo e reduzir o preconceito (que ainda vejo e penso ser grande entre os psicólogos em relação a hipnose).

Em breve, penso em escrever sobre símbolos e metáforas e outros temas que contribuam com o dialogo “Jung-Erickson”

 

Referências Bibliográficas

BAUER, S. Manual de Hipnoterapia Ericksoniana, Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010.

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

HALL, J – A experiência junguiana: análise e individuação. São Paulo, Cultrix, 1986.

SAMUELS, Andrew; SHORTER, Bani; PLAUT, Fred. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. RJ: Imago, 1988.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail:fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com.br/Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas Considerações Sobre o Lugar da Persona

Em 2008, escrevi minha monografia de conclusão de curso na especialização em “Teoria e Prática Junguiana”, sob orientação da profa. Dra. Elizabeth Christina Cotta Mello, com o título “O Lugar da Persona”. Escolhi esse tema pelo desafio que seria pensar esse conceito visto que, no geral, é pouca a literatura Este texto é uma revisão daquela monografia, aproveitei aqui os capítulos centrais onde discuto aspectos da dinâmica da persona.

Para compreender ou ampliar o conceito de persona, acredito que devemos seu aspecto arquetípico, suas representações (míticas), sua interação na dinâmica psíquica.

A Persona

Jung chamou de persona o processo dinâmico de adaptação ao mundo das relações sócio-culturais. Para melhor compreender a escolha do termo latino persona, devemos recorrer a sua etimologia.

Na etimologia de Persona, temos

Persona, ae, f.Phoed. a máscara. Cic. a pessoa, a condição, o estado, a dignidade, o cargo de cada um. Ter. a Personagem que se representa no theatro.Cic. a pessoa, o individuo humano. Cic. a espécie, ou aparecia falsa de alguma cousa.(SOUZA, 1931, p.559)

Onde também encontramos

PERSONA, -ae, subs.f I – Sent. Próprio: 1) máscara (de teatro) (Cic. De Or. 2, 193). Daí, por extensão: 2) Papel (atribuído a essa máscara) (Cic. Phil. 2, 65). II – Sent. Figurado: 3) papel, cargo, função, caráter (Cíc. Pis. 71). 4) Individualidade, Personalidade, ator.(Cic. At. 15, 1a,2). 5) Pessoa Gramatical (Varr. L. Lat. 8,20). (FARIA, 1956, p.771)

No sentido próprio e original, persona era o nome dado a máscara utilizada pelos atores de teatro na antiguidade, acredita-se que o termo derivava de personare por onde passa o som (ou a voz humana). Contudo, desde a antiguidade o termo persona já era utilizado, como vimos, para indicar uma pessoa no exercício de seu papel social. Não tinha como função indicar o indivíduo em sua particularidade ou intimidade, mas sim em sua relação com os outros.

Devemos pensar também que máscara no teatro possuía uma dupla função: 1- expor ou tornar visível o papel ou personagem que se encena; 2 – ocultar o ator. Essa dupla função da máscara também pode ser observada em ritos religiosos onde se utilizam máscaras e trajes característicos para representar a presença da divindade, como p.ex. no Candomblé, onde a indumentária indica a presença do orixá e oculta a individualidade do adepto. Tanto nas religiões quanto no teatro, a máscara delimita o espaço entre o individuo e o coletivo, assim como nossa pele, a máscara separa o mundo exterior do mundo interior.

As máscaras presentes na cultura são expressões dessa estrutura psíquica que faz a ponte entre o “eu” e “mundo”. O termo Persona ou máscara é a imagem mais clara de representar esta dinâmica. Por isso, Jung utilizou essa imagem arquetípica, a máscara, para descrever esse fenômeno, que facilita a compreensão acerca do papel persona.

Nas definições do livro Tipos Psicológicos, Jung afirmou que,

A Persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico a individualidade. O complexo funcional da Persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos. (JUNG, 1991, p. 390)

Assim, experimentamos a persona na experiência pessoal como um complexo de adaptação, orientado pelas relações com objetos externos. Este complexo adaptativo se nutre das experiências provenientes da consciência coletiva. assim, a persona vai indicar um ideal social, o modo correto de ser e agir visando as exigências coletivas. Uma persona adequada vai aparentar uma totalidade psíquica, uma vez que o indivíduo é socialmente funcional, atendendo necessidades coletivas. Entretanto, o indivíduo acaba por perde contato com si mesmo, entrando numa atitude unilateral, isto é, direcionado para atender exclusivamente as demandas sociais sem dar o devido valor às exigências internas.

A persona é o complexo mais intimamente relacionado com o Ego, pois ambos estão relacionados com o processo natural de adaptação do indivíduo ao meio externo. Sobre as relações da persona com o ego discutiremos mais adiante.

O arquétipo de adaptação

No livro “A busca do Símbolo”, Whitmont, apresenta a Persona “[…] como uma imagem representacional do arquétipo de adaptação” (WHITMONT, 2002, p.140). Essa consideração é importante pois, a persona foi um termo utilizado por Jung por nos remeter a imagem da máscara do ator do teatro clássico, possibilitando que intuitivamente compreendamos sua dinâmica e sua relação com os papéis sociais que desempenhamos, contudo corremos o risco de cair num reducionismo reduzindo a persona a função de “máscara”. Assim, é fundamental termos clareza que subjacente a imagem da persona está a dinâmica arquetípica do processo de adaptação. Para compreendermos um arquétipo em sua amplitude devemos considera-los desde seus aspectos biológicos, isto é, seus processos fisiológicos básicos até seu aspecto psíquico e sua representação cultural e mítica.

Se formos pensar no âmbito fisiológico da adaptação notaremos que esta se relaciona com o processo natural de homeostase, que é a capacidade de um sistema complexo se autoregular e se manter estável. Desse processo de autorregulação natural, Jung observou que havia dinamismos distintos, identificando a persona aos processos relacionados a adaptação do organismo a realidade externa. Assim, num nível mais primitivo poderíamos pensar a persona associada aos mecanismos de controle homeostático da temperatura corporal (que visa adaptar o indivíduo ao meio onde se encontra), onde em ambientes quentes promove vasodilatação e transpiração para evitar o aquecimento excessivo do organismo, e, nos ambientes frios, atua através da vasoconstrição e dos calafrios para evitar e produzir calor.

Os processos vinculados a adaptação ao meio externo estão vinculados a pele, que é o órgão que protege e intermedia a relação de nosso organismo com meio externo. Fazendo uma ampliação, na natureza, podemos observar o processo de adaptação manifesto principalmente através da camuflagem e o mimetismo. No homem a evolução dividiu o processo de adaptação externa em duas vias: 1) adaptação ao meio externo; 2) adaptação ao meio cultural.

A adaptação ao meio externo deixou de ser um processo puramente fisiológico, passando a ser um processo determinado pela cultura. Quando nosso organismo percebe as mudanças de clima e temperatura, em geral, nossa resposta se relaciona a uma adequação das roupas que vestimos e, não, uma adaptação fisiológica no sentido estrito do termo.

Com o desenvolvimento da cultura, dos grupos e sociedades, surgiu também o processo de adaptação ao meio cultural, similar ao processo de adaptação ao meio externo, mas, baseado em símbolos e regras culturais. Tanto nas sociedades pré-industriais e/ou pré-letradas quanto em nossa sociedade contemporânea a pintura do corpo, tatuagens, escarificações, cortes de cabelo, roupas (rituais ou não) estão intimamente relacionados com os processos de adaptação cultural. E, estão relacionados diretamente com a pele.

A pele é um dos principais veículos do arquétipo de adaptação. Seja como recipiente das manifestações culturais desse arquétipo (indumentárias, pinturas, tatuagens) quanto manifestações inconscientes e compensatórias do processo de adaptação como enrubescimento, palidez, transpiração e as doenças psicossomáticas (que denunciam, muitas vezes, problemas de adaptação).

O arquétipo de adaptação é contém em si, a possibilidade basal de adaptação tanto meio externo através dos processos fisiológicos relacionados com a pele quanto a possibilidade de identificação das estruturas culturais e se adaptar as mesmas.

Representações Míticas do Arquétipo de adaptação

Ao estudar os resíduos arcaicos e dos delírios de pacientes psicóticos, Jung se deparou com a similaridade desses fenômenos com as narrativas míticas. Com o desenvolver de seus estudos e de sua teoria, Jung observou que a dinâmica dos arquétipos e a narrativa mítica eram complementares – como se os mitos fossem uma projeção cultural da dinâmica arquetípica. Tornou-se parte do método de Jung o estudo comparativo das dinâmicas arquetípicas e a mitologia. Por isso, torna-se importante pensarmos a persona em termos míticos.

Todo mito apresenta uma série de arquétipos interligados. Dessa forma, é necessário observarmos os elementos próprios de cada dinâmica arquetípica. No caso do arquétipo de adaptação, sua dinâmica está relacionada com a possibilidade de uma melhor relação com o meio, com a resposta mais adequada ou mesmo com a apresentação mais adequada.

Para exemplificar e discutir os aspectos míticos relacionados com o arquétipo de adaptação escolhemos elementos míticos de duas tradições distintas, a saber, tradição hindu e tradição grega.

Vishnu e seus avatares

Na mitologia hindu Vishnu era um dos principais deuses, ao lado de Brahman e Shiva. Vishnu

repousando em uma solidão que apesar de transmundana sustenta toda a história do mundo, assegurando-lhe a continuação e periodicamente descendo até o seu tumulto para, na qualidade de salvador e redentor, restabelecer a justiça e ordem. (ZIMMER,1988 p.163)

Vishnu, chamado de conservador dos mundos ou de o preservador, era a divindade mais próxima dos homens, tornado-se também uma das mais veneradas. Conta-se que sempre que uma era chega ao seu ponto extremo de corrupção ou que um grande mal ameaça os homens, Vishnu se corporificava para conduzir os homens a uma nova era de harmonia, livrando-os do mal e/ou evitando que o mundo fosse destruído por Shiva.

Para cumprir sua missão de proteger o mundo, Vishnu se corporificava através de avatares, que vem do Sânscrito avatara que significa aquele de descende de deus ou mesmo encarnação do deus.

imageA tradição hinduísta relata dez avatares de Visnhu que desde o inicio dos tempos salvava a humanidade. 1. Matsya,o peixe – que salvou os vedas ; 2. Kurma: a tartaruga; 3. Varaha: o Javali; 4. Narasimha: o homem-leão; 5. Vamana: o anão; 6.Parashurama: homem com o machado. 7. Rama: o protagonista do Ramáyana 8. Krishna: 9. Buddha;10. Kalki: o guerreiro que virá ao final desta era para restaurar a ordem e salvar a humanidade.

Cada avatar representa o papel ou função que Vishnu deveria assumir ou desempenhar para exercer seu papel de preservador. São Personagens que Vishnu criou para se adaptar a cada situação, resolvendo os problemas dentro seu próprio contexto. Os avatares de Vishnu representam sua adaptação a cada situação. Os avatares não eram “disfarces”, mas formas de revelar o poder de Vishnu e sua possibilidade de se adaptar e se adequar para lidar com as necessidades.

Zeus e suas metamorfoses

Na mitologia grega, Zeus é um dos principais deuses olímpicos, a divindade do céu e da luz. Os mitos gregos colocam Zeus como o rei dos deuses, após ele liderar seus irmãos na luta contra os titãs, divindades relacionadas com as forças primordiais. Contudo, como uma divindade do céu e, por conseqüência, dos fenômenos atmosféricos, é um deus da fertilidade.

Zeus é, antes do mais, um deus da “fertilidade”, é ómbrios e hyéticos, é chuvoso. É deus dos fenômenos atmosféricos, como já disse, por isso que dele depende a fecundidade da terra, enquanto khthónios. (…) Essa primeira característica primeira de Zeus explica várias de suas ligações com deusas de origem ctônia, como Europa Sêmele, Deméter e outras. Trata-se de uniões que refletem claramente hierogamias de um deus, senhor dos fenômenos celestes, com divindades telúricas. (BRANDÃO, 2000, p. 499)

Zeus uniu-se a deusas e mortais tendo muitos filhos. Para concretizar essas uniões, Zeus metamorfoseava-se para se aproximar e fecundar suas escolhidas. Das metamorfoses de Zeus podemos citar o Touro forma que seduziu Europa; para fecundar Dânae, ele assumiu a forma de uma chuva dourada; para seduzir Alcmena, Zeus assumiu a forma de seu marido Anfitrião; para seduzir Leda, transformou-se num cisne; Zeus assumiu a forma de Ártemis para seduzir Calisto; para seduzir Antíope, tornou-se um Sátiro e, para seduzir Ganimedes e leva-lo para o Olimpo, Zeus tornou-se uma águia. Através da mudança de forma, Zeus adaptava-se a cada situação podendo efetuar suas conquistas.

A metamorfose é uma habilidade que característica presente nas divindades e seres fantásticos tanto nos mitos e em contos de fadas. Algumas vezes, os deuses mudavam a forma de um homem para possibilitar que ele enfrentasse sua tarefa – se adaptando melhor a situação que se configurava a sua frente. Podemos citar como exemplo, quando Atena tornou Ulisses um velho, para que ele pudesse entrar em sua casa e verificar a situação e se preparar para enfrentar os pretendentes de sua esposa.

As metamorfoses comuns as mitologias ocidentais, assim como na Índia encontramos os avatares, são expressões da possibilidade divina de adaptação. Nem as metamorfoses, nem os avatares revelam a natureza da divindade, elas apenas indicam a forma mais apropriada para exercer a atividade que lhe era própria.

A Consciência Coletiva

Para que um arquétipo seja constelado, é necessário que existam elementos correspondentes no meio externo. Esses elementos devem fornecer ao arquétipo os parâmetros necessários para que ele se constele/manifeste através de imagens e símbolos – e não apenas como impulso instintivo.

De forma geral, esses parâmetros são oferecidos pela cultura. Apesar de Jung ter sido um atendo observador da dinâmica da psique coletiva de seu tempo[1], ele não se aprofundou teoricamente no âmbito da cultura enquanto fenômeno consciente, mas focou aquele aspecto intimamente relacionado com a esfera arquetípica, isto é, com os padrões arquetípicos que se manifestam em nossa realidade.

De forma geral, o conceito de consciência coletiva não é utilizado pelos autores junguianos. Em nossa revisão bibliográfica apenas Hall (2001) considerou a consciência coletiva como uma quarta instância da estrutura psíquica. Em outros autores, consciência coletiva era usado apenas como uma generalização da consciência pessoal.

Existem, pois, quatro níveis da psique:

1) Consciência pessoal, ou a percepção consciente ordinária;

2) o inconsciente pessoal, o que é exclusivo de uma Psique individual, mas não-consciente;

3) a Psique objetiva, ou inconsciente coletivo, que possui uma estrutura aparentemente universal na humanidade e

4) o mundo exterior da consciência coletiva, o mundo cultural dos valores e das formas compartilhadas. (HALL, 2001, p.14)

Na sociologia, o conceito de consciência coletiva foi amplamente trabalhado e difundido por Émile Durkheim(1857-1917), segundo o mesmo,

O conjunto de crenças e de sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem sua vida própria; pode-se chamá-lo de consciência coletiva ou consciência comum. Sem dúvida, ela não tem por substrato um único órgão; ela é, por definição, difusa em toda extensão da sociedade; mas não tem caracteres específicos que a tornem uma realidade distinta. Com efeito, ela independe das condições particulares em que se encontram os indivíduos; eles passam e ela permanece. É a mesma no Norte e no Sul, nas grandes e nas pequenas cidades, nas mais diferentes profissões. Da mesma forma, não muda a cada geração mas, ao contrário enlaça umas às outras as gerações sucessivas. Ela é portanto uma coisa inteiramente diferente das consciências particulares, ainda que não se realize senão nos indivíduos. Ela forma o tipo psíquico da sociedade, tipo que tem suas propriedades, suas condições de existência, seu modo de desenvolvimento, tal qual os tipos individuais, ainda que de uma outra maneira. (…) Existem em nós duas consciências: uma contém os estados que são pessoais a cada um de nós e que nos caracterizam, enquanto os estados que abrangem a outra são comuns a toda sociedade. A primeira só representa nossa Personalidade individual e a constitui; a segunda é do tipo coletivo e, por conseguinte, a sociedade sem a qual não existiria. Quando um dos elementos desta última é quem determina nossa conduta, não é em vista do nosso interesse pessoal que agimos, mas perseguimos fins coletivos. (DURKHEIM, 1990, p.74-76)

O conceito de “Consciência Coletiva” de Durkheim é importante, por um lado, por oferecer uma proposta para compreender fenômenos sociais (e culturais) e por outro, nos fornecer uma referencia para pensarmos a dinâmica psíquica coletiva – complementar a psique arquetípica.

O conceito de Consciência Coletiva nos oferece uma luz para compreendermos fenômenos que transcendem a esfera individual, nos permitindo pensar fenômenos como, por exemplo, a linguagem. Acredito que uma digressão poderia ser bastante útil. Para pensarmos a linguagem, em nosso contexto, devemos considerar que na concepção junguiana, a consciência pessoal é um processo contínuo de adaptação as exigências do meio, assim, esta consciência exigiria, basicamente, de energia suficiente para se manter funcional o estado de vigília. Devemos considerar também que uma das principiais características da consciência seria seu direcionamento focal, isto é, um foco de atenção e ação.

Todos os conteúdos que não estão no foco de percepção consciente poderiam ser considerados conteúdos conteúdo subliminares e/ou inconscientes. Deste modo, seríamos obrigados a considerar a linguagem como um conteúdo inconsciente, por estar fora do campo de atenção consciente. Pois, a todo o momento pensando que estamos falando em português (ou lendo em português), nós simplesmente falamos – somente quando nos deparamos com a realidade de outro idioma que tomamos consciência de nossa linguagem.

Podemos considerar que a linguagem operaria no âmbito limiar da consciência, e, por isso está relacionada aos processos inconscientes dos complexos ideoafetivos do inconsciente pessoal – como Jung comprovou em seus estudos de associação de palavras, contudo, a linguagem não pertence ao individuo – este teria um acervo de palavras que poderia compor seu repertório verbal, este sim, como uma aquisição pessoal, mas a linguagem estaria operando numa esfera coletiva, fora do inconsciente pessoal. Do mesmo modo, não perderíamos relacionar a linguagem com os processos do inconsciente coletivo, pois, como Jung preconizava o inconsciente coletivo é formado pelos arquétipos e instintos – elementos oriundos de uma herança filogenética.

O conceito de consciência coletiva é necessário para compreender uma gama de experiências coletivas, que assim como a linguagem não podem ser reduzidas ao inconsciente.

Se o conceito de inconsciente coletivo nos possibilita compreender o enraizamento do indivíduo na história humana, no processo de constituição do Homem, a consciência coletiva nos permite compreender o enraizamento do individuo no aqui e agora, no processo coletivo do grupo que o circunda, nos possibilitando compreender a sua constituição pessoal a partir das suas relações com meio social.

A Persona e a Dinâmica da Personalidade

A persona sempre vai indicar um ideal coletivo para individuo. Este ideal irá se associar com a imagem que um individuo tem de si mesmo ou como gostaria de ser visto pelos outros. Contudo, a Persona não é uma estrutura à parte ou dissociada da personalidade. Para compreendermos a dinâmica da persona devemos pensa-la em relação com as demais estruturas da personalidade.

Assim, abordaremos as relações da Persona com Ego, com a Sombra e a Anima e Animus e self.

A Persona e o Ego

A Persona é o complexo mais intimamente relacionado com o Ego, pois ambos estão relacionados com o processo natural de adaptação do indivíduo ao meio externo. A relação entre Persona e Ego deve ser compreendida em dois momentos, o primeiro na infância e posteriormente na vida adulta.

A persona possui um papel importante para auxiliar o desenvolvimento do Ego na infância. Por ser um complexo funcional relacionado à adaptação aos estímulos externos, a persona estabelece uma identidade com Ego, que é fundamental para a aderência do Ego à consciência e o mundo exterior. Pois, a persona agrega a si os papeis sociais, que vão localizar o individuo, inicialmente, na dinâmica familiar (filho, irmão, neto, sobrinho, primo) e fornecer os elementos primários de identidade, favorecendo a constelação do Ego, assim como sua vinculação à consciência.

Ao longo da infância, a persona continua a ser importante para o desenvolvimento do Ego, pois, ao fornecer os elementos de orientação social, propicia também uma economia de energia psíquica, que vai disponibilizar ao Ego energia para o uso da consciência, isto é, no exercício da vontade.

A persona intermedia as relações do Ego com os “objetos externos”. Tal como uma máscara, a persona expõe uma face ou papel para o mundo e oculta ou protege Ego. Essa função de, simultaneamente, expor e proteger o Ego nas relações com o mundo exterior é importante por auxiliar na estabilidade do Ego, evitando que as pressões e exigências do mundo exterior gerem ansiedade e risco de desestruturação.

O desenvolvimento inadequado da persona vai prejudicar tanto as formas como indivíduo percebe o mundo quanto a forma como ele é percebido. Essa relação entre a Persona e o Ego vai ser determinante no contexto da adaptação do Ego.

O desenvolvimento inadequado da persona pode ser prejudicial ao desenvolvimento do ego, nesse sentido Hall(2001) aponta três das formas de desenvolvimento inadequado,

Existem, entretanto, casos de funcionamento anômalo da Persona que exigem com freqüência uma intervenção psicoterapêutica. Três destacam-se: (1) desenvolvimento excessivo da Persona; (2) desenvolvimento inadequado da Persona; e (3) identificação com a Persona a tal ponto que o Ego se sente equivocadamente idêntico ao papel social primário.

O desenvolvimento excessivo da Persona pode produzir uma personalidade que preenche com precisão os papéis sociais, mas deixa a imprecisão de que não existe, “dentro”, uma pessoa real. O desenvolvimento insuficiente da Persona produz uma personalidade que é abertamente vulnerável à possibilidade de rejeição e dano, ou de ser arrebatada ou eliminada pelas pessoas com quem se relaciona. As formas usuais de psicoterapia individual ou de grupo são de grande ajuda nessas condições.

A identificação com a Persona é um problema que se reveste de maior gravidade, em que existe uma percepção insuficiente de que o Ego é separável do papel social é vivenciado como uma ameaça direta à integridade do próprio Ego. (HALL, 2001, p.24)

Essas três possibilidades afetam diretamente o Ego, o desenvolvimento excessivo e a identificação com a persona são relativamente próximas, pois, ambas indicam um funcionamento defensivo da persona. Geralmente ocorre na infância, onde uma situação onde a criança se sente vulnerável – seja por meio de abandono, agressão ou cobrança excessiva– e, desenvolve a persona como uma forma defensiva, envolvendo a personalidade de modo a apresentar uma estrutura funcional, socialmente adequada, mas, aparentemente vazia ou artificial. Isso, porque a defesa proporcionada pela persona oculta a identidade do ego, fazendo com que o mesmo responda de forma padronizada. Não só na aparência a vida da pessoa fica “vazia” é assim que ela se sente, incapaz de ser ela mesma.

Os analistas junguianos da escola desenvolvimentista identificaram essa formação da persona como similar ao que foi descrito pelo psicanalista inglês D.W. Winnicott como “falso self”, pois, indicam o mesmo processo. Como os junguianos não deram uma maior importância as teorizações acerca da persona, temos pouco material específico. Assim, a leitura acerca do falso self possibilita uma ampliação a compreensão da dinâmica defensiva da persona.

O desenvolvimento insuficiente da persona é uma situação muito delicada pois, não protege o ego das dificuldades impostas pelo meio exterior. Essa fragilidade pode gerar muita ansiedade e, em casos extremos, a de um surto psicótico. Nesses casos tanto o processo psicoterapêutico quanto o processo de ressocialização passariam pela reconstituição da persona.

A Persona e a Sombra

Para pensarmos a relação da Persona com a Sombra é importante que façamos uma distinção do funcionamento dessas estruturas na dinâmica arquetípica e da dinâmica pessoal. Abaixo segue uma citação do texto Sobre o conceito de Sombra, publicado em nosso site em 28 de junho de 2010.

Na esfera arquetípica, a persona está relacionada com a imagem idealizada de adaptação e adequação cultural. Deste modo, a persona arquetípica vai indicar o ideal de “homem perfeito”, contudo, sem a totalidade da experiência humana Assim, a persona vai refletir toda a “luz” da cultura e da razão coletiva. A persona, como veículo da cultura, da consciência e razão, vai estar associada à moral e aos mais altos valores culturais. Em culturas que valorizam a introspecção ou a busca espiritual, a persona arquetípica tende a se vincular ao “santo”, “profeta” ou “asceta” que abandona sua individualidade pelos valores e bens comuns. Em sociedades guerreiras seria o herói guerreiro que se sacrifica (como sacrifício da individualidade) em prol do grupo. Os modelos que regem uma cultura estão intimamente relacionados com a Persona, uma vez que esta é representa o “pacto social”, um ícone da cultura.

Por outro lado, a Sombra arquetípica é como um buraco negro que atrai tudo para a esfera dos instintos, visando a satisfação dos mesmos. Nesse aspecto, a Sombra é a radicalização do que somos enquanto espécie, de todos nossos instintos – em seus aspectos mais arcaicos. A natureza da Sombra é contrária e refratária a cultura, deste modo, as representações culturais da Sombra vão indicar algo perigoso, nocivo e que deve ser evitado. Esta incompatibilidade se deve ao fato da cultura se desenvolver a partir de um “sacrifício” da esfera instintual, isto é, da Sombra arquetípica. Podemos observar nos mitos de criação, onde os heróis ou deuses civilizadores matam monstros para ordenar o universo (como no caso de Marduk que mata sua avó, Tiamat e do combate de Zeus e Tifon), ou vencem os deuses primordiais (como no caso da guerra entre os deuses olímpicos e os titãs) ou a perda do paraíso eterno (no caso do mito judaico cristão). A Sombra representa o mal, a destrutividade ou negatividade quando observada pela ótica da cultura e da Persona. A Sombra arquetípica é o veículo e m