Alguns comentários introdutórios ao estudo do livro “Psicologia e Alquimia” de C. G. Jung

No mês de agosto de 2015, iniciamos o estudo do livro “Psicologia e Alquimia” do Jung no Grupo Aion. Em nosso primeiro encontro fiz alguns comentários sobre a importância da alquimia, especialmente no que tange a relação dos estudos de alquimia com o uso de técnicas expressivas, associando com a nossa prática clínica cotidiana. Assim, neste texto, eu gostaria de desenvolver um pouco do que conversamos nesse encontro, fazendo alguns comentários que foram feitos no grupo e acrescentando outros de forma a fazer uma aproximação ao “Psicologia e Alquimia”.

A alquimia de desenvolveu no ocidente a partir da aproximação da mística arte da metalurgia – relacionada com a mitologia celeste devido os meteoritos que foram encontrados e trabalhados ao longo da história humana – com a mística helenística, onde se encontravam diferentes tradições sejam elas cristãs, egípcias, gregas e muçulmanas. O termo Alquimia viria do grego Kemia , o negro associada com o prefixo Al, que indicava o Egito(chamado pelos gregos de país negro) como sua origem. Por isso a alquimia era chamada também de “arte negra”.

Durante um longo período da idade média, muito do conhecimento da antiguidade desapareceu do ocidente, vindo a ser redescoberto posteriormente – esse conhecimento foi preservado pelos muçulmanos, posteriormente, que posteriormente foi sendo traduzido para o latim. Na medida em a base empírica foi se separando da base espiritual, isto é, a alquimia foi se tornando química, a alquimia foi perdendo espaço.

Na perspectiva da psicologia do inconsciente o primeiro a perceber na alquimia como um material rico de estudo foi Herbert Silberer, um psicanalista vienense que publicou o livro “ “Probleme der Mystik und ihrer Symbolik” em 1914, onde analisava a alquimia e outras tendências místicas, pelo viés da psicanálise. Silberer relata que teve contato com um texto alquímico “A Parabola” e percebeu que era semelhante aos mitos e sonhos. Jung teve contato com esta obra de Siberer, contudo, o primeiro contato efetivo com a alquimia foi em 1928 , quando recebeu o livro “O Segredo da Flor de Ouro” traduzido por Richard Wilhelm que apresentava um texto de alquimia chinesa. Wilhelm solicitou que Jung fizesse uma introdução psicológica ao texto.

Jung relata em suas memórias que em 1930 solicitou ao um livreiro de Munique livros de alquimia, cujo contato inicial foi bem difícil. Posteriormente, a coleção de Jung de livros de alquimia veio a se tornar a maior coleção particular de livros de alquimia. Vale a pena ressaltar a psicologia analítica já estava consolidada em seus aspectos teóricos fundamentais quando Jung começou seu contato com a alquimia, ou seja, os conceitos junguianos não derivaram da alquimia, mas, foi justamente a similaridade dos estudos de Jung com o que ele encontrou na alquimia que o fascinou. Assim, estudo da alquimia se desenrolou a partir da década de 30 e representou uma ampliação da compreensão que Jung tinha da psique coletiva. A alquimia ofereceu a Jung um material rico, diverso e objetivo com o qual ele poderia confrontar suas observações sobre inconsciente com estes registros históricos.

Em suas memórias, Jung afirmou

Vi logo que a psicologia analítica concordava singularmente com a alquimia.  As experiências dos alquimistas eram minhas experiências, e o mundo deles era, num certo sentido, o meu. Para mim, isso naturalmente uma descoberta ideal, uma vez que percebi a conexão histórica com a psicologia do inconsciente. (…) Estudando os velhos textos, percebi que tudo encontrava seu lugar: o mundo das imagens, o material empírico que colecionara na minha prática, assim como as conclusões que disso havia tirado. (JUNG, 1975, p. 181)

Acredito que, talvez, a maior dificuldade no estudo da psicologia da alquimia seja compreender a afirmação “as experiências dos alquimistas eram as minhas experiências” e identifica-las como nossas experiências. Sim, acredito que seja fundamental compreendermos que a alquimia é uma impressão da psique na história, codificada em símbolos e narrativas elaboradas, e que os mesmos processos arquetípicos que impulsionam os alquimistas são os mesmos que continuam ativos no homem contemporâneo, isto é, em nós.  Assim, as experiências dos alquimistas são também nossas experiências. Sim acredito que nossas preocupações como psicólogos e analistas junguianos são, por analogia, as mesmas que norteavam os antigos alquimistas. Vamos ver três pontos fundamentais nessa relação

a) A relação espirito-matériamercurius

Os alquimistas buscavam libertar o “espirito da matéria” normalmente designado por “Mercurius”(FRANZ, 1992) para tanto lançavam mão de uma série de operações. Hoje compreendemos que eles vivenciavam seu próprio inconsciente projetado na matéria, os fenômenos observados na matéria correspondiam a dinâmica psíquica inconsciente. A matéria era tão desconhecida do alquimista que possibilitava seu preenchimento ou sua mudança de significado dada a projeção.

Na prática clinica, por um lado o problema espirito-matéria é vivenciado em alguns casos de fobia, em casos de TOC, em somatizações e mesmo no consumismo (dentre outros).Nesses casos vemos como a psique fecunda a matéria tornando-a ou amedrontadora, ou portadora de segurança ou mesmo alterando o funcionamento natural. Assim, seja na projeção ou somatização (lembrando que a alquimia indiana se fundiu com algumas formas de yoga, se caracterizando pelas operações que lidavam com o processo corporal).

 Por outro lado, temos no fenômeno da projeção que é fundamental nas técnicas expressivas, sandplay, dentre outras, que possibilita que conteúdos psíquicos sejam elaborados na matéria.

 

b) A Opus

Na prática a Opus, a Obra, era o centro do trabalho do alquimista, pois, era através da Opus que ele atingiria seus objetivos. A Opus era um trabalho árduo, o texto alquímico Turba Philosophorum, diz que Todos os que buscamos seguir essa arte não podemos atingir resultados úteis senão com uma alma paciente, laboriosa e solícita, com uma coragem perseverante e com dedicação contínua” (EDINGER, 2005, p.25). Os estágios da Opus(nigredo-albedo-rubedo),  assim como as operações( Calcinatio (calcinação) Solutio (solução) Elementorum separatio (separação dos elementos), Putrefactio / Mortificatio (putrefação) Coagulatio (coagulação), Sublimatio (sublimação) Coniunctio (conjunção)) realizadas de fato na matéria, mas, com um significado psíquico profundo análogos ao processo de individuação.

A respeitos das etapas da alquimia Marie-Louise von Franz comenta1

Na primeira fase, nigredo, o material inicial (prima matéria) é dissolvido, calcinado, pulverizado e lavado ou purificado. Trata-se de um estágio perigoso, em que costumam desenvolver-se vapores venenosos, bem como ocorrer envenenamentos por chumbo ou mercúrio ou explosões. Segundo antigos textos, vive no chumbo “um demônio impudico que pode causar uma enfermidade do espírito, ou alienação mental”. O operador sente-se confuso, desorientado, sucumbindo a uma profunda melancolia ou sentindo-se transportado à camada mais profunda do inferno. O nigredo tem seus paralelos no processo de individuação, no confronto com a sombra.(…)

No trabalho alquímico, o nigredo é seguido pelo albedo. Esse estágio corresponde, no processo de individuação, à integração dos componentes contrassexuais interiores, a anima no caso do homem, e o animus no da mulher. (Como quase todos os textos alquímicos foram escritos por homens, o albedo costuma ser descrito como o estágio “em que a mulher reina e a luz da lua aparece”. (…)

No procedimento alquímico, rubedo ou citrinitas (avermelhamento ou cor de ouro) segue o albedo. Nessa fase, o trabalho chega ao fim, a retorta é aberta e a pedra filosofal começa a irradiar o efeito de cura cósmico. Ele une todos os opostos em si e junta os quatro elementos do mundo.32 Também o self, que se faz realidade no processo de individuação, é o homem mais amplo, o homem interior, que direcionado para a eternidade, o anthropos descrito como esférico e bissexual e que “representa a mútua integração do consciente e do inconsciente”. (FRANZ, 1992, p. 181-3)

As operações foram cuidadosamente comentadas por Edward F. Edinger no livro Anatomia da Psique, onde ele faz um comparativo do processo de psicoterapia e as operações alquímicas. Não há a menor dúvida de que as operações alquímicas, como símbolos e metáforas, nos possibilitam uma melhor compreensão dos processos simbólicos do inconsciente.

Compreender a simbologia alquímica das fases e operações nos possibilita compreender as narrativa, sensações e sintomas – igualmente simbólicos. Notamos que muitos se perdem ao longo da analise justamente por não exercitar o estudo de simbolismos – vale lembrar que estudar os trabalhos de alquimia nos conduz ao estudo do simbolismo religioso presente na mesma.

c) A pedra filosofal

A pedra filosofal ou elixir da vida eram a meta dos alquimistas. A pedra filosofal tinha um lugar importante no imaginário dos alquimistas, pois, nela estariam reconciliados todos os elementos e, por isso, frequentemente é associada as “núpcias químicas” ou o “casamento real”.  Psicologicamente a pedra filosofal é associado ao Self. Segundo Jung, o Self era o ponto de partida e a meta a ser alcançada no processo de individuação

o trabalho chega ao fim, a retorta é aberta e a pedra filosofal começa a irradiar o efeito de cura cósmico. Ele une todos os opostos em si e junta os quatro elementos do mundo. Também o self, que se faz realidade no processo de individuação, é o homem mais amplo, o homem interior, que direcionado para a eternidade, o anthropos descrito como esférico e bissexual e que “representa a mútua integração do consciente e do inconsciente”.(FRANZ, 1992, p.182)

A pedra filosofal como expressão do self indica a meta do desenvolvimento psíquico, a integração dos opostos.

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Compreender a dinâmica e simbolismo alquímico é importante para uma compreensão profunda da psicologia junguiana. Como disse no inicio, considero fundamental compreendermos, assim como Jung, que as experiências dos alquimistas são as nossas.

labor

Referências

EDINGER, E. F, Anatomia da Psique, Cultrix, São Paulo,4ed. 2005.

Franz, M-L, von , C.G.Jung – Seu mito em nossa época, Cultrix: São Paulo, e1992

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

Um pouco de Tipos Psicológicos

 

(Este texto foi publicado originalmente em 4 partes, nos dias 17, 28 de setembro e 04 e 27 de outubro de 2010)

Pensando a Teoria dos tipos

A teoria dos Tipos psicológicos ocupa um lugar especial na teoria junguiana. A partir dela podemos vislumbrar aspectos importantes concernentes tanto a epistemologia junguiana quanto a clinica junguiana.

De imediato devemos ressaltar que a teoria dos tipos não tem como objetivo “classificar” as pessoas. Muito pelo contrario, ela é um instrumento para compreendermos como os indivíduos se relacionam conscientemente com a realidade. Em entrevista a Dr. Evans, Jung diz

Todo o meu plano tipológico consiste, meramente, numa espécie de orientação. Existe um fator, a introversão; existe outro fator, a extroversão. A classificação de indivíduos nada significa. Trata-se apenas de um instrumento, ou aquilo a que chamo ”psicologia” prática, usada para explicar, por exemplo, o marido a uma esposa ou vice versa. (EVANS, Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones, p. 92)

A teoria dos “Tipos Psicológicos” foi publicada em 1921, no livro homônimo, e desde então lançou conceitos (que se tornaram simplesmente termos) comuns a toda população como “introversão” e “extroversão”. Antes de falarmos acerca da descrição dos tipos, é importante considerar um ponto central, que antecede a aplicação prática.

Devemos considerar que a teoria dos tipos psicológicos nos propõe questões acerca da possibilidade do conhecimento. Isto é, podemos dizer as questões que fundamentam a caracterização dos tipos são:

a) É possível conhecer um objeto ou a coisa em si?

b) Como se daria o processo de conhecimento?

Através da Teoria dos “Tipos Psicológicos” Jung responde ou indica que não é possível conhecermos as coisas em si mesmas, nós conhecemos apenas aquilo que se manifesta a nossa percepção – ou o que apreendemos do objeto por nossa percepção. Dessa forma, o processo de conhecer é limitado por nossos sentidos, ao espaço e tempo. O processo de conhecimento seria filtrado por algumas categorias subjetivas, essas categorias seriam as atitudes e funções psicológicas

Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver. Outras pessoas tendo outra psicologia vêem e exprimem outras coisas e de outro modo. Isto o demonstrou logo um dos primeiros discípulos de Freud: Alfred Adler. Ele apresentava o mesmo material empírico de um ponto de vista bem diferente, e sua maneira de ver é, no mínimo, tão convincente quanto a de Freud, porque também Adler representa um tipo de psicologia que encontramos com freqüência. Sei que os seguidores de ambas as escolas me consideram, sem mais, no caminho errado, mas a história e os pensadores imparciais me darão razão. Não posso deixar de criticar as duas escolas por interpretarem as pessoas demasiadamente pelo lado patológico e por seus defeitos. Exemplo convincente disso é a impossibilidade de Freud de entender a vivência religiosa. (JUNG, Freud e a Psicanálise, p.324-5 )

A divergência entre Adler e Freud é um exemplo interessante citado por Jung, pois, um mesmo caso clinico era analisado por duas óticas bem distintas – e ambos indicavam caminhos coerentes para se compreender o caso. Deste modo, Jung compreendia que a percepção de Freud e de Adler eram verdadeiras, pois, eles partiam de ângulos distintos, do mesmo modo que ele próprio, Jung, partia de um ângulo distinto dos demais. Isso não implica em erro ou acerto, isso quer dizer apenas que cada teoria (seja de Jung, Freud ou Adler) compreendia um aspecto parcial da experiência ou do fenômeno psíquico. Do mesmo modo, quando trabalhamos na clinica devemos considerar o que o nosso cliente nos diz como fruto de sua forma de perceber a realidade, isto é, sua realidade. Devemos compreender seu modo de se relacionar com o mundo, para assim intervir de forma clara e eficaz.

A teoria dos tipos se apresenta como um instrumento para compreender a dinâmica da consciência (isto é, do Ego) em relação ao mundo dos objetos. De certa forma, podemos dizer, que a a tipologia psicológica de um individuo é a forma principal de adaptação que ele utiliza.

Quando nos referimos a um tipo psicológico nos deparamos com duas categorias a atitude da libido e a função psicológica.

Atitude da Libido : Extroversão e Introversão

Entende-se por “atitude da libido” o movimento da libido ou da energia psíquica em relação ao objeto.

Dessa forma, a extroversão significa que a tendência primária da libido é se voltar ou direcionar ao objeto, o individuo conscientemente “se lança” em busca de conhecer, compreender ou assimilar o objeto, se sente naturalmente “atraída” pelo objeto . Por outro lado, a atitude compensatória do inconsciente é retirar a libido do objeto. Conforme, o quadro abaixo

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Pessoas do tipo extrovertido são pessoas que naturalmente tendem a ocupar os espaços, são expansivas, se sentem instigadas a interagir com o meio, possuindo uma facilidade um pouco maior para se adaptar a situações externas.

Por outro lado, a introversão significa que a tendência primaria da libido é de regredir frente ao objeto, isto é, ao retornar ao sujeito. É como se o objeto fosse algo ameaçador e o individuo tenta se esquivar, o objeto é algo com o qual se deve ter cautela. As impressões apreendidas do objeto são mais marcantes que o objeto em si.

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Devemos compreender que não existe uma atitude “pura”, isto é, ninguém é introvertido ou extrovertido o tempo todo. São tendências naturais, ou seja, quando falamos que um individuo é extrovertido, isso significa que a maior parte do tempo sua atitude natural é assim, em outros momentos ele pode se portar de forma introvertida – nessas horas as pessoas podem pensar que o extrovertido está triste ou deprimido, mas, ele está apenas “quieto” (isto é, num momento de introversão).

Do mesmo modo, uma pessoa introvertida em determinadas situações pode parecer ansiosa,  “quieta demais”, se sentir desconfortável (mesmo em situações corriqueiras como supermercado cheio),  em outras, com amigos (por exemplo), pode ser falante e expansiva. 

O ideal é compreendermos qual nossa atitude natural para não sermos “dominados” por ela, de modo, a perdermos oportunidades.  É importante equilibrarmos as atitudes para termos uma melhor adaptação a realidade. Pois, não há tipo melhor ou pior que o outro. Temos provérbios e ditos populares que nos alertam para os perigos da radicalização das atitudes:

“Quem não chora, não mama”

Ou

“A curiosidade matou o gato”

Na clínica, é importante o psicoterapeuta  perceber a atitude natural do cliente para acolhe-lo da forma que permita que ele se sinta o mais confortável possível. Por exemplo, um terapeuta introvertido pode parecer “frio”, “distante” ou “indiferente” a um cliente extrovertido.

As funções Psiquicas

Como dissemos no post anterior acerca dos Tipos Psicológicos, a tipologia psicológica proposta por Jung se caracteriza pelo movimento da libido, que pode ser introvertido ou extrovertido, e pelas funções psicológicas que descreveremos nesse post.

Jung compreendia como função psicológica uma “certa forma psíquica de atividade que, em principio, permanece idêntica sob condições diversas” (JUNG, 1991, p.412) Assim, uma função psicológica é um dinamismo comum a todos os indivíduos, que caracteriza o funcionamento da consciência, ou seja, a forma como o individuo se relacionaria ou apreenderia o meio externo.

Em seu trabalho, Jung, identificou 4 funções psicológicas, as quais designou como pensamento, sentimento, sensação(que também encontraremos como percepção) e intuição. Devemos tomar cuidado com os termos utilizados por Jung. A denominação dada a função, significa uma forma de possibilitar a melhor compreensão dessa dinâmica, ou seja, p. ex, quando falarmos de “função pensamento” não estamos definindo ou conceituando o “pensar”, mas, dizendo que essa dinâmica psíquica está mais associada aos processos reflexivos/cognitivos relacionados ao pensamento ou pensar – o individuo se orienta na relação com o meio sobretudo através das categorias cognitivas.

Desse modo, quando vemos “função pensamento” devemos compreender que o pensamento adjetiva essa função, não a conceitua. É a principal característica e, assim,  não devemos confundir “função pensamento” com “ato de pensar” ou com o “pensamento em si”, do mesmo modo que não devemos confundir “função sentimento” com “ato de sentir” ou com um “sentimento em si” como alegria.

As quatro funções são divididas em duas categorias: racionais e irracionais.

As funções racionais seriam as funções relacionadas aos processos de conhecimento, julgamento, avaliação,  interpretação e atribuição de valor a realidade. Nesta categoria estariam as funções pensamento e sentimento.

A função pensamento se caracteriza pela interpretação da realidade, isto é, seu direcionamento está em identificar, analisar, categorizar e definir a realidade/objeto. Esta função tem como principio a distinção racional e logica dos fenômenos.

Por outro lado, a função sentimento se caracteriza pela avaliação ou valoração da realidade, isto é, esta função tem como principio avaliar os elementos de valor, importância e significado do objeto. O afeto produzido na relação do sujeito com o objeto, “torna-se, então, efetivamente, não a expressão de algo, de uma atividade interna a um sujeito, mas uma episteme, um modo legítimo para o conhecimento.” (DAMIÃO, 2003, p. 90)

Essas funções são racionais por partirem do mesmo principio de conhecimento. Mas, seu foco, é bem distinto, fazendo que essas funções sejam opostas.

(…) O que pode acontecer com aquelas funções que ela não utiliza diariamente de modo consciente e, portanto, não desenvolve pelo exercício? Permanecem em situação mais ou menos primitivo-infantil, apenas meio-consciente ou totalmente inconscientes. E constituem, assim, para cada tipo, uma inferioridade característica que é a parte integrante de seu caráter geral. Ênfase unilateral no pensamento vem sempre acompanhada de inferioridade do sentimento; sensação diferenciada perturba a faculdade intuitiva e vice-versa.

Se uma função é diferenciada ou não, é fácil de perceber por sua força, estabilidade, consistência, confiabilidade e ajustamento. Mas sua inferioridade nem sempre é tão fácil de reconhecer e descrever. Um critério bastante seguro é sua falta de autonomia e, portanto, sua dependência das pessoas e das circunstâncias, sua caprichosa suscetibilidade, sua falta de confiabilidade no uso, sua sugestionabilidade e seu caráter nebuloso. Na função inferior, estamos sempre por baixo; não podemos comanda-la, mas somos inclusive suas vitimas (JUNG, 1991,p. 497)

As funções irracionais serias as funções estariam relacionadas com a apreensão da realidade, onde foco não é a interpretação, mas, sim o contexto ou situação objetiva. Estando nessa categoria a sensação e a intuição.

A Sensação se caracteriza pelo reconhecimento da realidade, esta função localiza o individuo de forma precisa na realidade, através de uma consideração precisa do que se apresenta a percepção.

Por outro lado, a intuição é designado por jung, como uma percepção por via inconsciente. O prof. Dr. Maddi Damião Jr, nos dá uma metáfora bem interessante para pensarmos a compreensão da intuição

Poderíamos utilizar de uma metáfora – digo metáfora, pois não pretendo aqui fazer nenhuma comparação entre teorias psicológicas – para a Gestalt Theorie: toda forma é apreendida sempre a partir de um conjunto de relações e estas se organizam segundo um princípio nomeado “relação figura-fundo”, ou seja, quando apreendemos ou percebemos um determinado aspecto da realidade, apreendemos um conjunto de relações significativas, escapando, assim, uma série de outras possíveis. O todo deste conjunto de relações seria aquilo que permite que uma determinada configuração de forma se dê, se constitua; aquilo que não percebemos é o que sustenta a figura, ou seja, na figura, o que vigora com maior intensidade, como uma forma organizada, somente tem sua possibilidade de configuração porque existe um fundo, que o mantém, um conjunto de relações que possuem, para o observador, ou para com a relação do olhar que constitui o campo intencional, uma baixa valência, pouca pregnância. A intuição, ao nos utilizarmos desta metáfora, seria a capacidade de percepção do fundo, em sua totalidade. (DAMIÃO, 2003, p. 91-2 )

Assim, a intuição indica tendências para o futuro, a partir de insights derivados da compreensão da totalidade.

As funções racionais são opostas entre si, assim como as funções irracionais são opostas entre si. Se tomarmos por exemplo, uma pessoa que desenvolveu a função pensamento prioritariamente, as funções irracionais seriam funções auxiliares, e a função sentimento, conforme o esquema.

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É importante compreendermos que as funções racionais e irracionais se complementam. Assim, quando uma função racional (pensamento ou sentimento) se diferencia, como função principal, está é auxiliada por uma função secundaria ou terciaria (de acordo com o grau de desenvolvimento) que sera sensação ou intuição. Por mais que tenhamos uma função principal, ao longo da vida temos que desenvolver as outras funções para termos uma relação mais equilibrada com a realidade.

Assim, quando nos referimos a um tipo psicológico, três elementos são necessários para compreendermos um tipo psicológico :

Atitude da libido : Se é introvertido ou extrovertido.

Função Psicológica Principal: o modo preferencial como se relaciona com a realidade

Função Psicológica Secundaria: que complementa a função principal.

Assim teríamos como as 16  as possibilidades possibilidades de combinação da tipologia psicológica.:

Tipo introvertido pensamento – intuição

Tipo Introvertido pensamento – sensação

Tipo Introvertido sentimento – intuição

Tipo Introvertido sentimento – sensação

Tipo Introvertido sensação – pensamento

Tipo Introvertido sensação – sentimento

Tipo Introvertido intuição – pensamento

Tipo Introvertido intuição – Sentimento

Tipo Extrovertido pensamento – intuição

Tipo Extrovertido pensamento – sensação

Tipo Extrovertido sentimento – intuição

Tipo Extrovertido sentimento – sensação

Tipo Extrovertido sensação – pensamento

Tipo Extrovertido sensação – sentimento

Tipo Extrovertido intuição – pensamento

Tipo Extrovertido intuição – Sentimento

Nos próximos posts, discutiremos os tipos básicos (atitude e função principal).

Apresentarei algumas características gerais dos tipos, mas, em hipótese alguma devemos compreender essas características como rótulos, são apenas elementos comuns a esses indivíduos. Vamos começar pelos quatro tipos extrovertidos.

Tipos Extrovertidos

Os tipos extrovertidos se caracterizam por uma peculiar relação com o mundo externo. São como que atraídos pelos objetos, sua energia flui para o objeto.

Tipo pensamento extrovertido

O tipo pensamento extrovertido ou pensativo extrovertido tem como característica fundamental a necessidade de identificar, classificar e ordenar a realidade que o cerca, busca fatos.  Tomam como referência os padrões coletivos de racionalidade e lógica.O pensamento abstrato, subjetivo não são atraentes a esses indivíduos, uma vez que não lógicos, se tornam entediantes, para eles. Sobre esse tipo, von Franz nos diz que esses tipos

Limpam toda a poeira das velhas bibliotecas e  acabam com os fatores que inibem a ciência e que são causados pela desordem,  pela preguiça ou pela falta de clareza na linguagem. O tipo pensativo extrovertido  estabelece a ordem tomando uma posição definida e dizendo: “Quando digo isto  quero dizer isto”. Eles põem ordem clara nas situações exteriores. Num encontro de negócios, o indivíduo dirá que o certo é ater-se aos fatos básicos e depois decidir  como proceder. Um advogado que precisa ouvir todos os relatórios caóticos das partes é capaz de ver, com sua função superior pensamento, quais são os conflitos reais e quais as falsas alegações, conseguindo então uma solução satisfatória para todos. A ênfase será sempre colocada no objeto e não na idéia. (FRANZ, 2002, p. 61)

O tipo pensamento extrovertido  tendem a ser muito exatos, precisos, racionais. Por estarem muito relacionados com os fatos e ordenação dos mesmos eles tendem a parecer autoritários, secos e pedantes. Sua enfâse na racionalidade e no mundo exterior faz com que tenham dificuldades por serem mal compreendidos nos relacionamentos pessoais.

Eu me recordo de um colega de faculdade, que tinha uma característica fortemente marcada pelo pensamento extrovertido, toda apresentação de trabalhos, ele atravessava a fala dos demais dizendo “O que fulano quer dizer é….” isso era constante, era algo que incomodava a todos, para mim, como introvertido que sou, deixava ele falar, já que ele tinha essa necessidade. Até que um dia, outro de nossos colegas, este com um tipo mais prático, que acredito ser sensação introvertido, virou para ele antes do trabalho e disse “se você interromper dizendo ‘o que ele quer dizer é…’ eu juro pra você que eu te encho de porrada lá mesmo, por que ‘não quero dizer’ e ‘estou dizendo’”. Isso foi suficiente para esse amigo pensamento extrovertido  entender que seu habito era incomodo, por mais que suas intenções fossem as melhores possíveis.

O tipo pensamento extrovertido tem uma certa dificuldade tanto para identificar quanto para lidar  com os afetos, que não conseguem muitas vezes expressar, parecendo assim que são frios e indiferentes. O fundamental é compreendermos que apesar de parecerem frios, distantes, o sentimento ocupa um lugar especial que os mobiliza de forma que eles não se dão conta. Mas, falaremos disso em outro momento quando falarmos acerca da função inferior.

Tipo sentimento extrovertido

O tipo sentimento extrovertido é orientado pela avaliação do valor, mérito, importância dos objetos/pessoas. Isso propicia que ele atribua um sentido ou laço afetivo muito claro com a realidade. Segundo von Franz

O tipo sentimental extrovertido caracteriza-se pelo fato de que a sua principal  adaptação é conduzida por uma adequada avaliação dos objetos exteriores e por uma relação apropriada com eles. Por essa razão, esse tipo fará amizades muito facilmente, terá poucas ilusões sobre as pessoas, mas será capaz de avaliar os seus lados positivos e negativos de maneira adequada. São pessoas bem ajustadas, muito razoáveis, que se envolvem amavelmente com o mundo, conseguem o que querem muito facilmente e também conseguem, de alguma forma, levar todos a lhes darem o que elas querem. Elas suavizam o ambiente tão maravilhosamente que a vida transcorre com muita facilidade. Esse tipo é muito  freqüentemente encontrado entre mulheres que de maneira geral têm uma vida familiar muito feliz, entre muitos amigos. Contudo, se de alguma forma estão dissociados neuroticamente, eles agem de maneira um tanto teatral, um tanto mecânica e calculista. Se se vai a um almoço festivo com um tipo sentimental extrovertido, ele dirá coisas como: “Que lindo dia está hoje”; “Estou feliz por vê-lo de novo”: “Não o via há muito”. E ele realmente quer dizer isso! Com essa atitude o ambiente fica cheio de calor e a festa vai em frente. As pessoas se sentem felizes e entusiasmadas.(FRANZ, 2002, p. 69)

Os tipos sentimento extrovertido são muito gentis e afetuosos e fazem questão de expressar o valor, reconhecimento ou  afeto que tem pelas pessoas, o que faz que se preocupem muito com os relacionamentos e circunstâncias sociais. Geralmente, os tipos introvertidos ficam meio sem saber como lidar com essa expressão afetuosa. Muitas vezes, o tipo sentimento extrovertido é taxado como “histérico” ou “histérica” pelo seu modo de agir, o que é um erro enorme, nem todo tipo sentimento é histérico (categoria patológica). Pois, o reconhecimento afetivo expressado pelo tipo sentimento é uma demonstração de algo constatado, não uma tentativa de sedução.

A capacidade do tipo sentimento em avaliar as pessoas, faz com que, muitas vezes, sejam bem claros em suas relações: quando gostam de alguém são como mães protegendo seus filhotes; quando são indiferentes, o são de forma pura e objetiva; quando odeiam alguém, declaram guerra por muitas “gerações”.

Tipo sensação extrovertida

O tipo sensação se caracteriza por uma relação objetiva e prática com o meio circundante. Sua função principal está relacionada com o reconhecimento do espaço imediatamente colocado ao individuo, assim, possuem uma percepção espacial/situacional peculiar. A relação com afetiva ou interpretativa com o meio é segundaria. Esse contato diferenciado com o meio, faz com que ele tenha não só um senso “quase fotográfico” mas, uma habilidade pratica muito diferenciada. Pessoas com a tipologia sensação tem capacidade de resolução de problemas práticos e objetivos muito diferenciada, isto pois, ele não se perde em abstrações, divagações teóricas, é bom ou não fazer, o que importa realmente para ele é identificar : qual é o problema e qual é sua solução. Segundo von Franz,

tipo perceptivo extrovertido é representado por alguém cujo dom e função especializada é sentir e relacionar-se com os objetos externos de uma forma concreta  e prática. Esses indivíduos observam todas as coisas, cheiram tudo e, ao entrarem  num ambiente, percebem quase que imediatamente quantas pessoas estão presentes.  Além disso, eles notam se a sra. fulano de tal estava lá e o que estava vestindo. (…) O tipo perceptivo extrovertido é um mestre em perceber detalhes(FRANZ, 2002, p. 39)

Esse tipo se entedia facilmente com assuntos relacionados a abstratos, contudo, sua percepção diferenciada lhe permite um senso estético muito particular. 

A praticidade e objetividade do tipo sensação faz com que ele pareça não se importar com os outros. Mas, não devemos nos ater as aparências. Pois, os suas ações e como ele as executa demonstram a consideração e o afeto que muitas vezes não percebemos de imediato.

Tipo intuição extrovertida

O tipo intuição extrovertido possui uma observação muito peculiar, cujo foco não está na realidade objetiva, mas, na possibilidade inerente a realidade que se apresenta. O tipo intuitivo está sempre aberto para as possibilidades futuras, para as tendências. Isso não quer dizer que ele “adivinhe” as coisas, mas, que ele está atendo para a configuração da realidade – não seus detalhes; assim, ele tem como um “flash” ou um “insight” das possibilidades objetivas.

Para funcionar, a intuição precisa olhar as coisas de longe ou de modo vago, a fim de captar um certo pressentimento vindo do inconsciente, semicerrar os olhos e não olhar os fatos muito de perto. Se se olhar com muita precisão para as coisas, o foco serão os fatos e o pressentimento não surgirá. É por isso que os intuitivos tendem a ser imprecisos e vagos. A desvantagem de ter a intuição como função principal é que o tipo intuitivo semeia, mas raramente colhe. Assim, por exemplo, se alguém inicia um negócio, surgem geralmente dificuldades iniciais, as coisas não funcionam bem  imediatamente, é preciso esperar um certo tempo para que se torne lucrativo. (FRANZ, 2002, 51-2)

Por estarem mais relacionados com as possibilidades futuras, sua capacidade de se relacionar com o mundo objetivo tende a gerar situações de constrangimento ou parecer que ele é uma pessoa muito desatenta ou desleixada. Tenho um bom amigo com essas características  intuitivas bem acentuadas, ele era capaz de ir para a universidade de carro e simplesmente voltar de ônibus para casa (e somente se recordar que foi de carro, perto de casa) – fato que se repetiu algumas vezes; situações que acabam se tornando folclóricas. A relação com o espaço é algo bem interessante do tipo intuitivo, eu tive o prazer de ter aula com uma professora intuição extrovertida, era como se ela captasse os anseios da turma, fazendo da aula um show, por outro lado, quando ela passava, era como se um furacão passasse, pois, ela derrubava tudo, esbarrava em tudo, teve uma cena engraçada, pois o data show não funcionava, depois de algum tempo tentando resolver a situação,  eu notei o problema – a tomada não estava ligada.  Um detalhe objetivo e pratico, mas, para o intuitivo não é muito atrativo.

Poderíamos dizer, que enquanto o tipo sensação desloca-se no espaço objetivo, o tipo intuitivo extrovertido desloca-se no tempo. São criativos, visionários, mas, não se atém ao aspecto prático da realidade, muitas vezes não se dão conta do próprio corpo.

Tipos introvertidos

Os tipos introvertidos se caracterizam por evitar meio externo, isto é, a energia recua diante dos objetos, como se, o individuo se sentisse ameaçado pelo meio. De forma geral, a impressão ou representação que têm dos objetos lhes são mais importantes do que os objetos em si. Falar dos tipos introvertidos é mais complicado, pois, no geral, eles se voltam para seu mundo interior se expondo pouco, leva mais tempo para identificar a função de um tipo introvertido

Tipo pensamento introvertido

O tipo pensamento introvertido se caracteriza por valorizar sobre tudo as ideias. Os fatos são sempre menos importantes que as ideias, estão sempre buscando os conceitos e os fundamentos das ideias. Marie-Louise que também pertencia a essa categoria, nos descreve bem esse tipo,

Pertence ao tipo pensativo introvertido alguém que diria que não se parte dos fatos, mas, primeiramente, se esclarecem as ideias. O seu desejo de ordenar a vida se exterioriza pela ideia de que, se alguém começar errado, jamais chegará a lugar algum. Primeiro é necessário conhecer as ideias a serem seguidas e de onde elas vêm; é preciso eliminar a estupidez, cavando nas profundidades do pensamento. Toda a filosofia está preocupada com os processos lógicos da mente humana, com a construção de idéias. Esse é o domínio em que o pensamento introvertido mais atua. Na ciência, são essas pessoas que permanentemente estão tentando evitar que os seus colegas se percam em experimentos e que, de vez em quando, tentam voltar aos conceitos básicos e perguntam o que de fato estamos fazendo mentalmente. (Franz, 2002,p)

O tipo pensamento visa a logica das ideias e dos conceitos. Muitas vezes, no meio de uma discussão é o que se volta para os “princípios fundamentais”, questiona se os dois estão “falando do mesmo assunto”, dá muito valor as palavras, não pela forma estética, mas, pela idéia que elas representam.  Geralmente produzem “teorias” sobre tudo, muitas vezes ignorando os fatos concretos.

Tipo sentimento introvertido

O tipo sentimento introvertido caracteriza-se por seu julgamento diferenciado de pessoas e valores. Contudo, não há uma expressão formal desses julgamentos. Seu caráter introvertido faz parecer ser apáticas, um pouco mornas, distantes. Em suas relações, as pessoas não conseguem perceber o quanto significam para pessoas dessa tipologia. Essas pessoas são percebidas como corretas, éticas, bem quistas, fiéis, mas, muitas vezes deslocam-se pela vida sem deixar grandes impressões. Quando se permitem se destacar na vida, elas são pessoas admiradas, respeitadas pela forma quase que impecável de de lidar com outros, mas, são sempre vistas como enigmáticas.

Sobre esse tipo, von Franz nos fala,

É um tipo muito difícil de ser entendido. Jung, nos Psychological Types, afirma que a expressão “as águas paradas correm no fundo” se aplica a esse tipo. Pessoas desse tipo têm uma escala altamente diferenciada de valores, mas não os expressam exteriormente; são afetadas por eles no íntimo. É freqüente achar-se o tipo sentimental introvertido nos bastidores de acontecimentos importantes e valiosos, como se o seu sentimento introvertido lhes tivesse dito “o importante está aqui”. Com uma espécie de lealdade silenciosa e sem nenhuma explicação, eles surgem em lugares onde valiosos e importantes fatos interiores, constelações arquetípicas, são encontrados. Exercem também uma secreta influência positiva à sua volta, estabelecendo padrões. Os outros os observam e, embora não digam nada porque são muito introvertidos para se expressarem muito, eles estabelecem padrões. Assim, por exemplo, o tipo sentimental introvertido muito freqüentemente forma a base ética de um grupo: Sem irritar os outros com a pregação de preceitos morais ou éticos, ele próprio tem padrões éticos tão corretos que emanam secretamente uma influência positiva sobre aqueles que estão à sua volta; as pessoas têm de se comportar corretamente porque o tipo sentimental introvertido possui a espécie correta de padrão de valores, o que, sugestivamente, sempre força as pessoas a serem decentes se eles estão presentes. O seu sentimento introvertido diferenciado sente interiormente qual o fator de real importância. (FRANZ, 2002, p.75-6)

Tipo sensação introvertida

O tipo sensação introvertido se caracteriza por uma relação diferenciada com o meio, ele e impactado pelo meio. É como se o meio o invadisse os sons, odores, cores, formas. Mas, esse tipo fica como que impassível, não transborda ou expressa claramente essa relação com o meio. Esse tipo, é tão enigmático e quase insondável quanto o sentimento introvertido. Sobre esse tipo, von Franz nos diz

Há muitos anos, no Psychological Club, tivemos uma reunião na qual os membros, em lugar de apenas citarem o livro de Jung sobre os tipos, foram instados a descreverem os seus tipos com as suas próprias palavras. Eles deviam descrever a sua experiência da própria função superior. Nunca esquecerei o depoimento dado pela Sra. Jung. Somente após tê-la ouvido é que senti haver entendido o tipo perceptivo introvertido. Fazendo a descrição de si mesma, ela disse que o tipo perceptivo introvertido era como uma chapa fotográfica, altamente sensível. Esse tipo, quando alguém entra numa sala, percebe o modo como a pessoa entra, o cabelo, a expressão do rosto, as roupas e a maneira de caminhar. Tudo isso dá uma impressão muito precisa do tipo perceptivo introvertido; cada detalhe é absorvido. A impressão vem do objeto para o sujeito; é como se uma pedra caísse em águas profundas — a impressão cai mais fundo, mais fundo, e afunda. Por fora, esse tipo mostra-se totalmente estúpido. Ele apenas se senta e olha, e não se sabe o que está
acontecendo dentro dele. Fica parecido com um pedaço de madeira, sem nenhuma reação — a não ser que reaja através de uma das funções auxiliares: pensamento ou sentimento. Porém, interiormente, a impressão está sendo absorvida.

O tipo perceptivo introvertido, portanto, dá a impressão de ser muito lento, o que não é verdade. O que acontece é que a reação interna, que é rápida, caminha por baixo, e a reação externa se exterioriza de maneira atrasada. Assim é o jeito dessas pessoas; se lhes contamos uma piada pela manhã, provavelmente só irão rir à meia noite. Esse tipo muitas vezes é mal interpretado e mal entendido pelos outros, porque não se compreende o que acontece com ele. Se conseguir expressar as suas impressões fotográficas artisticamente, eles poderão reproduzi-las através de pinturas ou por escrito. Tenho uma forte suspeita de que Thomas Mann era um tipo perceptivo introvertido. Ele descreve todos os detalhes de uma cena e nas suas descrições expressa plenamente a atmosfera de um ambiente ou de uma personalidade. Essa é uma espécie de sensibilidade que absorve os menores matizes e os mais íntimos detalhes. (Franz, 2002, p.46-7)

Para mim falar do tipo sensação introvertido me remete a várias lembranças, pois, minha esposa é sensação introvertido. E assim, eu pude aprender melhor essas peculiaridades. Eu me recordo de dois momentos onde o traço sensação se colocou muito presente. Num desses momentos foi quando fizemos especialização juntos, em algumas aulas foi no intervalo quando ela me falava de como estava irritada com as murmurinhos de conversas paralelas que a atrapalhavam prestar atenção (isto porque, sua atenção é guiada pela função principal, que prioritariamente mapeia o meio, como um radar)– depois, que ela me chamou atenção para isso, que no retorno do intervalo, eu percebi que realmente havia alguns alunos que não paravam de falar no fundo. Eu não havia percebido nada. Isso porque sou tipo pensamento com função auxiliar intuição. Com os anos de convívio, eu me apercebi do quanto minha percepção com o meio era(ou é) deficiente.

Outra cena que me deixou me chamou a atenção para essas características do tipo sensação, foi durante uma aula de terapia de casal, onde fomos convidados a um exercício onde um deveria “imitar” o outro, em suas ações, falas, trejeitos etc… quando ela começou a me imitar, foi absurdamente estranho, foi como me olhar no espelho. Ninguém conseguia segurar a gargalhada, pois, ela reproduziu com exatidão meu jeito de sentar, falar, vícios de linguagem, enfim, era meu espelho. Não tivemos muito tempo para preparar nada, era improviso, mas, ela me reproduzia em detalhes que nem eu mesmo percebia. Nem preciso dizer o fiasco que foi a imitação, eu reles e  tipo pensamento – intuição introvertido, me vi incapaz desse tipo de reprodução da realidade.

Tipo intuição introvertida

A função intuição introvertida possui como característica uma capacidade de apreensão da realidade intimamente relacionada com tendências futuras. Sua característica introvertida faz com que sua intuição se volte para um campo subjetivo que muitas vezes identificamos como “espiritual”. São pessoas que passam pela vida sem se apegar ao concreto, percebendo a tendências como “vontade divina”.  O tipo intuitivo é encontrado frequentemente em pessoas que vivem de modo excêntrico, que aderem a uma realidade simbólica que se distancia da realidade prática e concreta dos fatos. Os “sinais” são mais importantes que os fatos. Seu caráter introvertido, faz com que não tenhamos clareza dos significados atribuídos inconscientemente aos fenômenos, fatos e pessoas.

Segundo von Franz,

O tipo intuitivo introvertido tem a mesma capacidade do intuitivo extrovertido no sentido de pressentir o futuro, fazendo as conjeturas ou as premonições certas sobre as possibilidades futuras, ainda não vistas, de uma situação. Contudo, a sua intuição é voltada para dentro e ele é primariamente o tipo do profeta religioso, o tipo do vidente. Num nível primitivo, ele é o xamã que sabe o que os deuses, os espectros e os espíritos ancestrais estão planejando e que transmite as suas mensagens à tribo. Na linguagem psicológica, poderíamos dizer que ele conhece os lentos processos que ocorrem no inconsciente coletivo, as mudanças arquetípicas, e que os comunica à sociedade.(…)(FRANZ, 2002, 54-55)

O intuitivo introvertido freqüentemente é tão inconsciente no que diz respeito a fatos externos que os seus relatos têm de ser tratados com o maior cuidado. Assim, embora não minta conscientemente, ele pode contar as mais espantosas mentiras simplesmente porque não percebe o que está bem à sua frente. Muitas vezes desconfio dos relatos sobre fantasmas, por exemplo, ou parapsicológicos, por essa razão. Os intuitivos introvertidos se interessam muito por esses campos, mas por causa da sua fraqueza em observar os fatos e da sua falta de concentração nas situações externas podem contar os maiores disparates e jurar que são verdadeiros. Eles passam por um número absolutamente espantoso de fatos externos e não os
assimilam.(Ibid, p.56-7)

O tipo intuição introvertido são pessoas tem um contato com o mundo dos arquétipos (muitas vezes, expressos na religiosidade), isso possibilita que eles tenham abertura ao mistério da vida, sendo promotores de reavivamentos espirituais em suas comunidades.

Neste post apresentamos de forma breve uma compreensão básica dos tipos psicológicos, devemos considerar falamos sobretudo da função principal, quando lidamos na realidade associar elementos da função principal e da função segundaria para percebermos é a tendência geral de relação desse individuo.

outubro 27, 2010 4:09 pm por Fabricio | Editar

Ao longo desses posts acerca dos tipos psicológicos discutimos acerca do papel da tipologia junguiana para um perspectiva epistemológica; acerca das atitudes (introversão e extroversão) e das funções psicológicas (pensamento, sensação, sentimento e intuição).  Nesse post, nosso foco será função inferior.

Jung chamou de “função inferior” a função psíquica menos desenvolvida, isto é, a que ao longo do desenvolvimento foi menos utilizada, por ser oposta a função principal. Devido a isto, a função inferior ocupa um espaço menor na consciência, na maioria das vezes, a atitude e funcionamento do Ego ignora a função inferior, deixando-a num estado quase bruto ou primitivo, ficando assim muito mais próxima do inconsciente.

“Nossa esfera consciente é como uma sala com quatro portas, e a quarta porta será aquela através da qual entrarão a sombra, o animus, a anima e a personificação do Si-mesmo. Não entrarão com tanta freqüência pelas outras portas, o que é, de certa maneira, evidente, porque a função inferior está tão próxima do inconsciente, e permanece tão selvagem e inferior, que ela é naturalmente o ponto fraco da consciência através do qual as figuras do inconsciente podem forçar a penetração. Na consciência ela é vivenciada como um ponto fraco, como aquela coisa desagradável que nunca nos deixa em paz, mas que sempre causa problemas, porque todas as vezes que sentimos que adquirimos certo equilíbrio ou ponto de vista interior, alguma coisa dentro ou fora de nós acontece, que nos desequilibra novamente, e isso sempre se á através da quarta porta, a que não conseguimos fechar. Podemos manter fechadas as três portas do aposento interno, mas, na quarta porta a chave não funciona, e ali, quando menos esperamos, o inesperado mais uma vez se manifesta.  Graças a Deus, podemos dizer, caso contrário todo o processo da vida se petrificaria e estagnaria em um tipo errado de consciência. Ela é a ferida da personalidade  consciente que nunca fecha, mas através dela o inconsciente pode entrar, expandir a consciência e produzir nova experiência”. (FRANZ,1999, 136-7)

Desse modo, devemos compreender que a função inferior é considerada um  risco para o individuo na medida em que não a controlamos, já que em grande parte estamos inconscientes dela. Por outro lado, é justamente o nosso ponto fraco que se torna nossa possibilidade de desenvolvimento, pois, ao lidarmos com a função inferior, estamos nos abrindo movimento do inconsciente em nós mesmos.

Von Franz nos chama atenção para o fato que é através da quarta função ou função inferior, que o inconsciente penetra no mundo da consciência. Isso significa uma tendência das figurações do inconsciente(sombra, self, anima e animus) se associar a função inferior, assumindo assim o aspecto desta ultima. Isso se torna claro quando o inconsciente se projeta, seja pela sombra ou pela anima/us, pois, no caso da sombra a pessoa sobre a qual se recai a projeção, será julgada não só pelos atributos da sombra(lembrando que a tendência natural é que a sombra se projete em pessoas do mesmo sexo), mas, pelo preconceito consciente. Por ex., um tipo pensamento introvertido, terá uma forte tendência a julgar uma pessoa sentimento extrovertido como uma pessoa superficial, desprovido raciocínio, imatura, dado a “ataques emotivos”, ou cheio de “estrelismos”, isso devido a incapacidade de compreender o funcionamento do tipo oposto, por outro lado, quando falamos da anima ou do animusassociada a função inferior, podemos compreender alguns casais “incomuns” que se foram aparentemente opostos, mas, que se completam.

É importante a gente entender, que nesses casos, apesar desses relacionamentos permitir um relacionamento com a anima/função inferior, eles são “desejáveis”, pois, se pautam numa inconsciência, na projeção do inconsciente. Mais cedo ou mais tarde esta projeção deve ser assimilada, ou seja, deve ser incorporada, pois é necessária ao desenvolvimento do Si-mesmo. Quando ela está projetada, o individuo muitas vezes não se confronta com esses aspectos em si mesmos, se tornando de certo modo dependente dessa outra pessoa.

Compreender a dinâmica da função inferior não significa “controla-la” mas, sim respeita-la. Isto é, quando compreendermos nossa função inferior e a dos outros poderemos ser mais tolerantes com os outros e ficarmos atentos as nossas projeções. Nos possibilita o exercício de humildade de reconhecermos que em nós há aspectos que não somos hábeis e que nos incomodamos com pessoas que têm desenvolvida a nossa função inferior, justamente, por ser nosso calcanhar de Aquiles.

Assim, devemos fazer uma breve descrição da função inferior:

Função inferior dos tipos Racionais

Pensamento Extrovertido Inferior (do tipo sentimento introvertido). A função pensamento se caracteriza por avaliar e identificar os objetos e situações.  O pensamento extrovertido inferior do tipo sentimento introvertido, tende a ligado com a variedade dos fatos que acontecem no mundo exterior. Apesar do tipo sentimento introvertido ser “silencioso”, “quieto” ou “na dele” tende a apresentar uma série de interesses diversificados. Pelo pensamento não ser bem desenvolvido, a tendência é ter uma certa dificuldade a lidar com essa variedade de opções, isto é, tendo uma certa dificuldade para estabelecer prioridades, por outro lado, o pensamento extrovertido, pode se caracterizar ao que von Franz chamava de “monomania”, isto é, eles apresentem ou possuem poucas idéias básicas (como premissas) e com as quais são capazes de produzir um grande volume de material.

Pensamento Introvertido Inferior (do tipo sentimento extrovertido) –  O pensamento introvertido inferior se manifesta muitas vezes através de pensamentos que invadem a consciência do tipo sentimento extrovertido. Esses pensamentos tendem a ser negativos/depreciativos geralmente relacionados a si mesmos, achando-se incapazes, errados, incompetentes. Muitas vezes, esse tipo tende a evitar ficar sozinho, para não ser tomado ou invadido pelos pensamentos inferiores.

Sentimento Introvertido Inferior (do tipo pensamento extrovertido) – O tipo sentimento introvertido possui uma manifestação muito discreta, no geral, aparece como uma fidelidade (quase devocional), apesar desse tipo não expressar seus sentimentos, quando ele avalia algo como justo ou bom, essa avaliação o guia de modo quase infantil. Na maioria das vezes, o individuo não se dá conta.  Quando ama, esse individuo ama de forma profunda e verdadeira, mas, o mais provável é que a pessoa amada perceba esse amor, pois, esse amor não encontra vias de expressão.

Sentimento extrovertido Inferior (do tipo pensamento introvertido) –  “O sentimento extrovertido, sua função compensatória, atormentará os casos extremos desse tipo [pensamento introvertido] com reações emocionais bizarras e inadequadas, e com avaliações errôneas e ingênuas  em relação as pessoas. Podem ser egoístas sentimentais que ignoram de modo desumano os sentimentos daqueles próximos a eles, em nome do amor pela humanidade ou a serviço de uma grande idéia” (WHITMONT, 1995, p.135)

O tipo pensamento introvertido é tomado por ondas de emoções que o levam a reações inadequadas ou excessivas ou infantis. Por ser extrovertida, sempre será direcionada a uma situação ou objeto externo, geralmente tem dificuldades para avalia-los. 

Função inferior dos tipos irracionais

Intuição Introvertida Inferior (do tipo sensação extrovertido) – “esse tipo está cheio de intuições negativas sobre si próprio e normalmente projeta sobre os outros. Ele vivencia então as intuições projetadas sob a forma de vagos ciúmes, ansiedades e medos, superstições e pressentimentos.  (WHITMONT, 1995, p. 135)

Assim, a intuição introvertida inferior se caracteriza por intuições negativas e muitas vezes equivocadas. Por outro lado, quando se manifesta de uma forma produtiva, podemos notar nesses indivíduos sensação extrovertidos, no geral tão pragmáticos, um interesse incomum por assuntos como o sobrenatural, histórias de fantasmas, ficção e seitas esotéricas. Quando guiados pela função inferior, são convincentes acerca desses assuntos. Quando retornam, a função principal, eles riem e fazem como se não fosse importante, se atendo a realidade objetiva. No geral, o mundo arquetípico penetra em sua realidade através dessas crenças religiosas, esotéricas ou superstições, as quais ele não pode ignorar.

Intuição extrovertida inferior (do tipo sensação introvertido) – A intuição extrovertida inferior do tipo sensação está direcionada para a relação objetiva com o mundo exterior. Isso significa, que os acontecimentos relacionados ao mundo exterior dispararão essa intuição.  Por ser inferior, essa intuição tende a ser negativa e, quando o individuo é muito inconsciente desse caráter, pode se tornar  pessimista em relação a realidade exterior. Criando muitas vezes expectativas que fogem um pouco a realidade.

Sensação Introvertida Inferior (do tipo Intuição Extrovertido) – a sensação introvertida inferior do tipo intuição extrovertida, se caracteriza por uma dificuldade na auto-percepção. Isto é, não conseguem perceber as sensações do próprio corpo, como se estivessem desconectados. A tendência é não se atentar para os cuidados básicos do corpo ou em perceber seus limites corporais, seja com alimentação, cansaço. A sensação inferior implica uma dificuldade de perceber e se relacionar tanto com os movimentos do inconsciente quanto com  a relação com o corpo.

Sensação  extrovertida Inferior ( do tipo Intuição introvertido) –  A sensação inferior se caracteriza por uma relação inadequada com o campo relacional próximo, imediato, podendo ser interior ou exterior. No caso da sensação extrovertida, há uma tendência há um contato inadequado com a realidade o individuo não percebe o que está próximo, derrubando as coisas, no geral, o individuo é visto como distraído, desatento, pois sua relação objetiva é pouco desenvolvida.

Algumas Considerações Finais

É importante termos atenção para alguns aspectos básicos que podem comprometer a aplicação dos tipos psicológicos na pratica do dia a dia :

1-Não existe “tipo puro”, por isso, quando descrevemos a tipologia nos referimos a uma tendência prioritária. Mesmo um individuo muito “unilateral”, possui uma função auxiliar que complementa sua atitude. Ou seja, é tão importante saber qual é a função secundária quanto a função principal. Pois, são dois aspectos complementares : como o individuo avalia ou julga a realidade (função racional)  e como ele percebe a realidade(função irracional).

2 – Quando a função terciaria é pouco desenvolvida ela pode possuir as mesmas características da função inferior. Assim, não podemos ter uma visão rígida acerca da tipologia, não é uma classificação, mas, uma compreensão dinâmica do funcionamento da consciência.

3 – A tipologia pode “mudar” na medida em que o individuo se empenhe em desenvolver da função secundária e terciária. O individuo poderá ter uma capacidade mais ampliada de lidar com a realidade.

4  – A função inferior está sempre fora do domínio do Ego e da consciência. O que podemos fazer é justamente dar espaço para experimentarmos o inconsciente através da função inferior (para não sermos tomados de assalto por ela), por exemplo, um tipo pensamento pode dar espaço a função inferior através  de filmes (comédias românticas, dramas),ou um tipo intuição através de trabalhos manuais (como argila), a tipo sensação se permitir o contato com o sagrado das religiões,  são possibilidades de dar espaço a função inferior, pois, no geral, a tendência é a negação dessa função.

5 – Percebemos a função principal de uma pessoa é importante para não atacarmos a sua função inferior. Pois, é o ponto fraco de uma pessoa, onde ele se defenderá  com unhas e dentes. A forma mais prática (e mais adequada) quando percebemos uma excessiva unilateralidade da função principal é usar as funções auxiliares(secundárias ou terciarias), pois, no geral, possibilitam um reavaliação de uma dada situação sem que o individuo se sinta tão inseguro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS,

FRANZ, Marie-Louise von, Psicoterapia. .São Paulo: Paulus, 1999.

WHITMONT, Edward C. A busca do símbolo. Cultrix; São Paulo, 1995

SILVEIRA, Nise. Jung Vida e Obra. 19.ed., São Paulo: Editora Paz e Terra S.A., 2003.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos Petrópolis, RJ: Vozes, 1991

SHARP, D. Léxico junguiano. São Paulo: Cultrix, 1997.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

FRANZ, Marie-Louise von, A Função Inferior, in  FRANZ, Marie-Louise von et HILLMAN, James. A Tipologia de Jung . 3ª ed.São Paulo: Cultrix, 2002.

DAMIÃO, Maddi, Jr. A Psicologia da Matemática e a Matemática da Psicologia. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 2003.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Um breve comentário sobre “Teleologia”

 

(24 de julho de 2010)

Teleologia é um termo que as vezes confunde a quem está iniciando os estudos em psicologia analítica. Eu me recordo que há alguns anos, uns alunos de psicologia vieram me perguntar sobre os aspecto “teológico” da psique para Jung, eu estranhei, perguntei mais sobre o assunto, ai verifiquei que não era  “teológico”, e perguntei “vocês não estão querendo dizer ‘teLEológico’?” ai se desfez a dúvida… eles contaram que não entenderam o que era  “teleológico” e acharam que tinha alguma coisa a ver com “Teológico”.

Em sua etimologia teleologia vem de teleios que em grego, significa perfeito, completo, final e logos que significa discurso, estudo. A teleologia visa o estudo/compreensão das causas finais, isto e, visa compreender o propósito ou objetivo de alguma coisa.

A Teleologia está, de certa forma, associada com a noção de enteléquia . O conceito de enteléquia surge com Aristóteles, ele compreendia que todo organismo possui uma finalidade que está presente desde o inicio e que todo desenvolvimento visa essa finalidade. Um exemplo bem simples e ilustrativo é dizer que uma arvore é a enteléquia da da semente. O processo natural faria que a semente se torna-se o que ela sempre foi, em potência. A semente segue o impulso natural de transformação naquilo que lhe é completo, pleno ou perfeito que seria ser “árvore”, assim, uma semente/caroço de manga guarda o potencial de ser uma mangueira, não um abacateiro. Assim, a mangueira e a enteléquia do caroço de manga. 

A idéia de enteléquia se desenvolveu ao longo dos séculos, perdendo um caráter de predeterminação ou predestinação, mas, passou a compreender como um impulso natural/vital que impele os organismos ao desenvolvimento, como exemplo, dessa compreensão contemporânea podemos citar, na filosofia,  as idéias de Bergson e seu élan vital; na psicologia, as idéias do psicanalista D.W  Winnicott, acerca de sua teoria do amadurecimento, e de C.G.Jung com o processo de Individuação. 

Acerca do processo de individuação, Jung afirma,

Este processo corresponde ao decorrer natural de uma vida, em que o indivíduo se torna o que sempre foi. Ε porque o homem tem consciência, um desenvolvimento desta espécie não decorre sem dificuldades; muitas vezes ele é vário e perturbado, porque a consciência se desvia sempre de novo da base arquetípica instintual, pondo-se em oposição a ela. (JUNG, 2002, p. 49)

Todo processo de organização psíquica desde o nascimento (organização do Ego, complexos e etc.) tem como objetivo o desenvolvimento do individuo, ou mais precisamente, do que é mais próprio de cada individuo (selbst).  Mesmo as neuroses,  tem como objetivo reequilibrar o sistema psíquico retomando o processo de individuação, que foi perturbado ou comprometido por algum motivo.

Dessa forma, na psicologia analítica perspectiva teleológica é fundamental para compreender a dinâmica da psique, pois, toda manifestação psíquica(sonho, ato falho, sintoma, etc.) está imbuída uma intencionalidade, ou melhor,  possui um propósito/finalidade que serve a totalidade da psique. Essa perspectiva teleológica nos leva a questionar sempre o “para que?” de uma dada manifestação psíquica, e isso significa considerar o individuo em sua totalidade, para compreender a função/proposito de cada manifestação psíquica.

Referências :

JUNG, C.G. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo , Vozes: Petrópolis, 2002

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Sobre o conceito de Sombra

 

(28 de junho de 2010 )

A sombra é um dos conceitos fundamentais da psicologia analítica, contudo, é um conceito complexo, arredio. Em virtude de sua complexidade, conceituar ou definir a sombra não é uma atividade fácil. Sempre que vou falar ou escrever acerca de algum conceito junguiano eu me recordo de uma advertência que von Franz nos da no livro “ A sombra e o mal nos contos de fadas”, ela conta

“Jung criticava seus alunos quando estes se apegavam aos seus conceitos de maneira literal, fazendo deles um sistema, e quando o citavam sem saber exata-mente do que falavam. Numa discussão acabou por dizer: “Isto não tem sentido, a sombra é simplesmente todo o inconsciente”. Acrescentou que tínhamos esquecido como essas coisas haviam sido descobertas e vividas pelo indivíduo e que sempre é preciso pensar na condição atual do paciente.” (Franz,1985,p. 11)

Jung compreendia os conceitos de forma dinâmica, por isso, para compreende-los é fundamental contextualiza-los (tano num texto que lemos, quanto na realidade do paciente que se coloca a nossa frente) para evitar quaisquer reduções. 

No que toca a sombra podemos encontra-la, na literatura junguiana, com diferentes significações como p ex.:  inconsciente pessoal(complexos); Características individuais do Ego não desenvolvidas; Arquétipo.Para compreendermos as nuances da sombra é importante termos sempre em mente que ela corresponde, a priori, a tudo que não está sob a direção ou no foco da consciência. Assim,  a sombra quando indiferenciada compreende todos os conteúdos inconscientes.

A Sombra possui um aspecto pessoal e outro coletivo. No âmbito pessoal, a sombra se refere especialmente,  a conteúdos pessoais que foram retirados/suprimidos da consciência por terem sido considerados inadequados socialmente ou potencialmente prejudiciais ao Ego. Muitas vezes, eram conteúdos importantes para o indivíduo, aos quais tiveram de abrir mão – como por exemplo, uma habilidade que o individuo não pode desenvolver(por questões econômicas, sociais etc…).

Dessa forma, a Sombra se refere ao inconsciente pessoal e aos complexos quando estes passam a confrontar a atitude do Ego e da consciência. Entretanto, não podemos dizer apenas que a sombra pessoal ou coletiva é negativa. Devemos considerar qual o ponto de vista que adotamos e, no geral, é o ponto de vista da Persona. 

Ao tornar-se consciente a Sombra é integrada ao eu, o que faz com que se opere uma aproximação à totalidade. A totalidade não é a perfeição, mas sim ser completo.

Pela assimilação da Sombra , o homem como que assume seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a Psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões. E é justamente isso que faz do homem o problema difícil que ele é.(JUNG, 1999, p.106)

Para pensarmos essa fala de Jung, devemos pensar melhor a relação da Persona com a Sombra.

Na esfera arquetípica, a Persona está relacionada com a imagem idealizada de adaptação e adequação cultural. Deste modo, a Persona arquetípica vai indicar o ideal de “homem perfeito”, contudo, sem a totalidade da experiência humana. Assim, a Persona vai refletir toda a “luz” da cultura e da razão coletiva. Ela se torna veículo da cultura, da consciência e razão, vai estar associada à moral e aos mais altos valores culturais. Em culturas que valorizam a introspecção ou a busca espiritual, a Persona arquetípica tende a se vincular ao “Santo” que abandona sua individualidade pelos valores e bens comuns. Em sociedades guerreiras seria o herói que se sacrifica (como sacrifício da individualidade) em prol do grupo. Os modelos que regem e justificam uma dada uma cultura estão intimamente relacionados com a Persona, uma vez que esta é representa o “pacto social”, um ícone da cultura.

Por outro lado, a Sombra arquetípica é como um buraco negro que atrai tudo para a esfera dos instintos, visando a satisfação dos mesmos. Nesse aspecto, a Sombra é a radicalização do que somos enquanto espécie, de todos nossos instintos – em seus aspectos mais arcaicos. A natureza da Sombra é contrária e refratária a cultura, deste modo, as representações culturais da Sombra vão indicar algo perigoso, nocivo e que deve ser evitado. Esta incompatibilidade se deve ao fato da cultura se desenvolver a partir de um “sacrifício” da esfera instintual, isto é, da Sombra arquetípica. Podemos observar nos mitos de criação, onde os heróis ou deuses civilizadores matam monstros para ordenar o universo (como no caso de Marduk que mata sua avó, Tiamat e do combate de Zeus e Tifon, filho de Gaia e Tártaro), ou vencem os deuses primordiais (como no caso da guerra entre os deuses olímpicos e os titãs) ou a perda do paraíso eterno (no caso do mito judaico cristão).

A Sombra representa o mal, a destrutividade ou negatividade quando observada pela ótica da cultura e da Persona. A Sombra arquetípica é o veículo e meio de manifestação dos instintos e a Persona arquetípica é veículo da cultura.

Na esfera pessoal, a Persona representa o pacto social. É um complexo que forma a partir de elementos coletivos associados a fatores individuais, mas com predominância dos elementos coletivos. Através da Persona o indivíduo se torna um ser social. Atua como uma referência coletiva para o Ego, isto é, um ideal de Ego que serve orientação para o Ego, mas, que aprisiona e impede o desenvolvimento do individuo, isto é, o processo de individuação.

A Sombra pessoal, corresponde a historia do individuo organizada no inconsciente pessoal por meio dos complexos. Na Sombra, os complexos atuam como são testemunhas da história do individuo e fornecem ao Ego os elementos de históricos de identidade. A Sombra vai remeter o indivíduo às suas próprias experiências, ignorando as necessidades coletivas.

No processo de individuação, a integração da Sombra implica reconhecimento de nossa história (que muitas vezes rejeitamos) e de nossos desejos mais instintivos. Isso implica num grande esforço moral. Pois, reconhecer e integrar a sombra implica em chegar ao ponto médio entre nossa matriz instintiva e o anseio cultural (Espiritual). 

Por isso, que as figuras arquetípicas da sombra são associadas ao Mal. Como Lúcifer, os monstros e demônios. Por isso muito das religiões pautadas numa dicotomia da vida ou num maniqueísmo , tende a preterir tudo o que é identificado com a Sombra arquetípica, isto é, o Mal. Assim, os desejos  humanos, isto é, “ da carne” se tornam sempre sujos e pecaminosos.

É importante entendermos que a Sombra deve ser integrada. Isso significa ter uma certa clareza dos desejos(de traços obscuros ou condenáveis de nossa história), sem nega-los ou repudia-los, para tanto deve-se abrir mão de um pouco do “moral” ou moralismo que permeia nossa consciência. Isso é um grande desafio, pois, o poder que emana da Sombra, se coloca o Ego num desafio moral, para não sucumbir “ao lado negro da força”.

A integração da Sombra, como parte fundamental da individuação, implica em equilibrar o que somos (tanto de modo instintivo quanto histórico), com os anseios da cultura que constitui.

Referencias:

FRANZ, M-L. v, A sombra e o mal nos contos de fadas, Ed. Paulinas :São Paulo, 1985.

JUNG, C.G., Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte I

(24 de maio 2010)

A psicoterapia e/ou análise junguiana são, de certa forma, desconhecidas do público em geral. No Espírito Santo, em especial, o lacanismo é uma das principais referências em modelo de atendimento. Assim, nesse post vamos começar a  discutir alguns dos aspectos básicos da abordagem junguiana.

Psicoterapia ou Análise

Em sua obra, Jung utilizava os termos psicoterapia e análise de forma praticamente indistinta. Ele compreendia que o objetivo da análise e da psicoterapia seriam similares. Pois, tanto a psicoterapia quando a análise buscam o desenvolvimento/amadurecimento do individuo.

A distinção entre análise e psicoterapia começou a se delinear de forma mais clara após a morte de Jung.  A Psicoterapia propriamente dita passou ter como objetivo mais delineado com o tratamento das neuroses, isso quer dizer, que a psicoterapia teria como direcionamento a elucidação de um dado quadro neurótico, o processo duraria o tempo necessário para a elucidação do conflito neurótico.  A psicoterapia poderia evoluir para a análise.

Por outro lado, a análise passou a ter como objetivo o processo de individuação. Esta seria de duração maior, propiciando a interação ou dialogo do individuo com o inconsciente. Sem a necessidade de haver uma questão neurótica a priori. Assim, seria muito tênue a separação da análise da psicoterapia ou da psicoterapia da analise, tanto que alguns analistas definem que a analise como uma forma especial de psicoterapia. Podemos dizer até, que a psicoterapia e a análise são faces de uma mesma moeda. Não acredito ter possível separar claramente uma da outra.

Existe, também, uma questão politica que atravessa a caracterização de psicoterapia e análise, e esta questão talvez seja a mais relevante nessa percepção da terminologia. Essa “questão politica” foi sendo construida ao longo do tempo, com a formação de institutos de formação em psicologia analítica e da International Association for Analytical Psychology (IAAP) foi se desenvolvendo uma convenção de que os profissionais que fizessem uma formação num instituto reconhecido pela IAAP seriam denominados “analistas junguianos”, os demais profissionais psicoterapeutas sem formação reconhecida seriam considerados “ psicoterapeutas junguianos”.

Muitos profissionais junguianos que praticam a psicoterapia e a analise junguiana têm passado a utilizar a designação de “analista junguiano”. Efetivamente, não há nada que realmente impeça um profissional (médico ou psicólogo) habilitado e qualificado em psicoterapia a utilizar a designação “analista”.  A IAAP ou institutos de formação não tem o poder de limitar o uso, podem apenas “certificar” a qualidade do treinamento do analista (muito rigorosa, diga-se de passagem). Um dado que chama atenção é que eu verifiquei o site da IAAP, no ultimo dia 26/05/10, e segundo ele hoje a IAAP  conta com 2909 membros no mundo inteiro. No Brasil são 178 analistas junguianos membros da IAAP, em sua grande maioria concentrados no Rio de Janeiro e São Paulo.  Um número pequeno, se pensarmos que somos 190 milhões de brasileiros.

Eu me recordo de um belo texto publicado na revista virtual Coniunctio, (do grupo Sizigia, de Fortaleza), o texto é “A Máscara Junguiana: Uma Reflexão sobre o que caracteriza o autêntico psicólogo de orientação junguiana” de Edvaldo Ferreira da Costa, gostaria apenas de citar o seu final

Portanto, diante de tudo que foi exposto aqui, não é a titulação, a formação ou a filiação a esta ou àquela sociedade que caracteriza o autêntico psicólogo de orientação junguiana, mas a sua capacidade para sustentar uma persona ou máscara junguiana que, em vez de esconder, revele a sua personalidade e o possibilite ser a pessoa autêntica que é com todas as suas fraquezas, limitações e defeitos assim como com todas as suas forças, possibilidades e virtudes. Para isso é necessário que este psicólogo esteja caminhando sozinho, se for capaz, ou com a ajuda de colegas, professores, supervisores e analista em busca de integrar da melhor forma e na maior intensidade possível, autoconhecimento e conhecimento científico.(COSTA,S/D.)

Apesar desse aspecto politico, eu prefiro optar pela diferenciação a partir de foco e duração. Sinceramente, a designação psicoterapeuta ou analista acredito ser pouco importante, prefiro utilizar a designação (também utilizada pelo Edvaldo Costa) de psicólogo de orientação junguiana, afinal, no Brasil, nem psicoterapeuta nem analista são profissões regulamentadas. Por outro lado, dois dos pioneiros da psicologia analítica no Brasil, Dra. Nise da Silveira e Dr. Petho Sándor não eram “analistas reconhecidos” ou “IAAP”. Mas, isso não os impediu de desenvolver a psicologia analítica através de trabalhos brilhantes.

Características da Psicoterapia/Análise Junguiana

Jung não formalizou o método seu analítico em artigos ou manuais, muito pelo contrário, ele formalizou a particularidade de cada analista/psicoterapeuta na condução do processo terapêutico. Segundo Jung,

Todo psicoterapeuta não só tem seu método: ele próprio é esse método. Ars totum requirit hominem” * diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas, não passam de meios auxiliares. Assim que se transformam em dogmas, isso significa que uma grande duvida interna está sendo abafada. É necessário um grande números de pontos de vista teóricos para produzir, ainda que aproximadamente, uma imagem da multiplicidade da alma. Por isso é que se comete um grande erro quando se acusa a psicoterapia de náo ser capaz de unificar suas próprias teorias. A unificação poderia significar apenas unilateralidade e esvaziamento. A psique não pode ser apreendida numa teoria; tampouco o mundo. As teorias não são artigos de fé, são instrumentos a serviço do conhecimento e da terapia; ou então não servem para muita coisa. (JUNG, 1999, 84-85)

* – A arte exige o homem inteiro.

Jung compreendia que a cada psicoterapeuta/analista era antes de tudo um individuo. Assim, era necessário reconhecer as peculiaridades de cada psicoterapeuta, como uma expressão do processo de individuação do terapeuta. Por isso, podemos encontrar psicoterapeutas/analistas junguianos que utilizam técnicas corporais (calatonia), arteterapia, sandplay, biblioterapia, hipnose, etc…Não há uma normatização que diga, “você pode usar isso” ou “você não pode usar aquilo”, a regra é ser sincero consigo mesmo e utilizar instrumento que o psicoterapeuta esteja capacitado e se sinta “inteiro” para usa-lo com  o cliente. Eu me recordo de quando eu era estagiário de psicologia em minha graduação, quando fiz estágio em psicoterapia corporal. Eu conhecia a teoria, fiz grupos de movimento, me sentia confiante para usar utilizar a técnica corporal, contudo, a primeira pessoa que coloquei no grounding foi a ultima. Eu sentia estranho frente a pessoa que estava a minha frente, dentro de mim eu senti um distanciamento enorme. Eu vi que aquela técnica “não me pertencia”, por mais que eu tivesse sentido a eficácia dogrounding pela minha experiência pessoal, aquilo não estava mim.

Apesar dessa ressalva da acerca da particularidade de cada psicoterapeuta junguiano, existem algumas características formais compartilhadas por muitos junguianos. São elas

– Duração: As sessões possuem uma duração fixa, que pode variar de psicoterapeuta para psicoterapeuta, contudo, no  geral variam de 45 min a 60 min.

– Frequência: De formal geral, são realizadas sessões semanais. Entretanto, em caso de análise ou por necessidade terapêutica (como o paciente estar em crise) pode variar, sendo mais comum até 3x por semana, mas, tudo depende da avaliação do psicoterapeuta.

– Postura frente ao Cliente: Os Junguianos geralmente sentam frente a frente com seu cliente, criando um ambiente de igualdade, onde ele pode ver com clareza seu cliente (e suas reações) assim como pode ser visto por seu cliente. O posicionamento frente-a-frente também é importante pela relação dialética proposta por Jung,

Se, na qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente e, como médico, tiver a pretensão de saber algo a sua individualidade e fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espirito critico, pois não estarei reconhecendo que não  tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está na minha frente.(….) Por isso, quer eu queira quer não,  se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico de um individuo, tenho que renunciar à minha autoridade no saber, a toda e qualquer autoridade e vontade de influenciar. Tenho de optar necessariamente por um método dialético, que consiste em confrontar as averiguações mútuas. Mas, isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo pelos meus pressupostos. (JUNG, 1999, p.3)

Deve-se notar que Jung indica que o método dialético é um dialogo entre dois indivíduos, onde há o confronto de hipóteses e percepções. Assim, o psicoterapeuta terá uma atitude ativa – uma escuta ativa e uma troca com o cliente, falando de suas percepções de modo ao cliente refletir sobre a hipótese levantada – sem que com isso, a percepção do terapeuta se imponha ao cliente. Como uma postura ativa, o psicoterapeuta poderá sugerir ao cliente atividades (como ver determinado filme, ou realizar uma determinada atividade) esses “deveres de casa” muitas vezes caracterizam a abordagem junguiana como “semi-diretiva”, mas, isso vai depender de psicoterapeuta para psicoterapeuta e da relação com cada cliente.

Devemos lembrar também que a psicologia analítica clássica atendia preferencialmente adultos em sessões individuais.  Atualmente, tem se produzido trabalhos em atendimentos de casais, grupos e crianças.

(Em breve vou colocar mais aspectos para pensarmos a psicoterapia/analise junguiana)

Referências

COSTA, E. F, A Máscara Junguiana: Uma Reflexão sobre o que caracteriza o autêntico psicólogo Junguiano, Coniunctio, no. 1, v.1, s/d, http://www.sizigia.com.br/revista_conteudo.asp?revista=7&autor=15. Acessado em 26 de maio de 2010.

JUNG, A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Algumas palavras sobre Símbolos

 

( 8 de maio de 2010 )

Um conceito importante para a psicologia analítica é o “símbolo. É quase impossível falar qualquer coisa em psicologia analítica sem tocar direta ou indiretamente em símbolos.  Isso faz com que vejamos o uso do termo de uma forma, muitas vezes, equivocada. Vamos pensar alguns aspectos dos símbolos:

1) Etimologia de Símbolo

A palavra símbolo vem do termo grego symbolon , que por sua vez estava relacionado com o verbo symballein que era “lançar com”, “lançar junto” ou fazer coincidir. O termo significava união, pacto, amizade. Símbolo na antiga Grécia representava um compromisso entre duas pessoas. Era comum, por exemplo, a divisão ao meio de uma moeda na ocasião da separação de dois amigos ou de duas pessoas que tinham um compromisso entre si, para que quando no futuro elas se reencontrassem a moeda partida seria símbolo do compromisso do passado.

Na Ilíada de Homero, no Canto VII, temos um exemplo interessante do sentido do símbolo. Nesse canto é relatado uma pausa na batalha entre os exércitos, sendo então proposta uma luta entre o melhor dos Aqueus e o melhor dos troianos. Assim Ájax, o melhor dos Aqueus, e Hector (ou Heitor) o melhor dos troianos iniciaram um combate feroz, e quando era chegada a noite, hora que era proibida pelos deuses de haver combate,  eles discutem o fim de seu combate. Heitor, diz:

“(…) Vamos por fim ao combate e à luta, por hoje. Mais adiante, à luta voltaremos até que faça a escolha, entre nós, o demônio da fortuna e a vitória caiba a um dos dois. Já cai a noite; cumpre guardar a noite. (…) Troquemos, pois, dons memoráveis, para que alguém, Troiano ou Grego, possa vir a dizer: `Combateram-se os dois na peleja devora-corações. Separaram-se amigos.`” Falou. E deu sua espada ao Dânao, cravejada em prata, com talim bem trabalhado e bainha; Ájax o cinturão – púrpura fulgurante – lhe ofertou. Separaram-se então. Aos Aqueus um se dirigiu; outro, à multidão troiana. (HOMERO, 2002, pág. 282-3)

Nesse fragmento da Ilíada devemos observar a frase “separaram-se amigos”. Olhando o contexto percebemos claramente que “amigos” como aparece no texto em nada se relaciona com o conceito de amigos que temos nos dias atuais. Essa amizade dita por Homero, tem como símbolo ou marca de reconhecimento os “dons memoráveis”, a espada e o cinturão. A troca desse presentes é o símbolo o reconhecimento e respeito mútuo, reconhecimento que seria cantado tanto por gregos e troianos.

O símbolo indica o reconhecimento, aponta para este algo em comum. Heitor e Ájax mesmo em lados opostos estavam unidos pela batalha travada, e simbolizada pela troca de armas.

Outro exemplo, mais próximo e conhecido é o símbolo do peixe utilizado pelos cristãos dos primeiros séculos para se reconhecerem, quando se encontravam, um fazia um risco curvilíneo e o interlocutor completava o desenho com outro risco curvilíneo formando um peixe (símbolo do peixe estava relacionado a palavra ICHTHYS, peixe em grego,  cujas letras que eram consideradas como acróstico para Iesous Christos Theou Hyous Soter – Jesus Cristo, de Deus o filho, Salvador). eles se reconheceriam como cristãos. Em outras versões, uma pessoa escrevia no chão a letra grega alfa (a), que guarda similaridade com o peixe, e o interlocutor apagaria o desenho, de igual modo eles se reconheceriam como cristãos reconhecendo-se como “cristãos”.

O símbolo historicamente representa a união, um elo que une entre dois iguais que foram separados, indicando uma identidade entre ambos.

2) Símbolo na Psicologia Analítica

Os junguianos muitas vezes são questionados sobre “significado” de símbolos, ou de forma caricata são aqueles que reconhecem símbolos em tudo. Por isso, devemos ter cautela no estudo de símbolos.  O primeiro passo para pensarmos o símbolo na psicologia analítica é fazermos a diferenciação entre sinal e símbolo, pois eles possuem uma relação muito próxima.

Os sinais indicam/informar convenções ou relações naturais. No geral, possuem um significado determinado.  Por outro lado, o símbolo possui vários significados. Devemos compreender que osímbolo ser expresso por um sinal, isto é, uma marca ou ícone, entretanto, o significado ou sentido do símbolo será sempre subjetivo. O sinal por sua vez, tende a apontar a um significado objetivo, determinado pela cultura. Assim, todo símbolo é um sinal, mas, nem todo sinal é um símbolo. Deste modo, para a psicologia analítica compreende que os símbolo indica algo que não pode (pelo menos não momentaneamente) ser expresso pela linguagem comum, indicando para algo desconhecido.

Colocando em outros termos, o símbolo possui um icone (ou sinal) que está relacionado com a consciência (ou seja, é percebido ou representado na consciência) e outro aspecto que é sua indeterminação corresponde a sua relação com o inconsciente. Assim, os símbolos possuem uma natureza intermediária ou transcendente, constituindo uma outra realidade. No símbolo a consciência e o inconsciente estão integrados.

Nessa perspectiva um simbolo pode ser uma imagem(icone), local, situação, musica, sensações e etc… todos os elementos sobre os quais o inconsciente possa se projetar atribuindo significado pode se tornar simbólico. Os símbolos são sempre formados a partir do inconsciente, a consciência não cria símbolos, mas sinais.   

a) Símbolos  Culturais

Os símbolos culturais são representações arquetípicas que orientam a cultura. Os símbolos culturais estão relacionados geralmente relacionados com as religiões. Devemos lembrar que  uma religião não é Um simbolo, mas um sistema simbólico. Quando uma religião subjulga outra, o símbolos são substituídos(ou absorvidos) por outros da matriz arquetípica correspondente. Outros, podem se manter como contos de fada ou nos mitos. 

b) Símbolos  Individuais

Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. O símbolo muitas vezes se constela como uma resolução de conflito. É um elemento integrador, que supera um possivel conflito possibilitando o funcionamento da dinâmica psíquica.  Um aspecto fundamental, é considerar que um símbolo somente é para quem o percebe, “depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é simbolo ou não(…)” (JUNG, 1991, p.445)

c) Transformadores de Energia

Jung se referia aos símbolos como transformadores de energia, pois tinham a função de transmitir a energia entre a consciência e o inconsciente. Isso significa dizer que os símbolos possuem a função de nutrir a consciência e o ego. Os símbolos canalizam a energia do inconsciente para a consciência, aglutinando a energia e deixando disponível para a ego. Isso especialmente importante, pois, quanto maior a energia disponível ao ego, maior o potencial de ação ou ao exercício da vontade.

d) Função Transcendente

Função Transcendente foi o conceito que Jung adotou (importando da matemática) para expressar a tendência da consciência e do inconsciente em se unir.Toda vez que falamos de símbolos estamos falando de função transcendente, ou melhor, esta se exprime ou se manifesta pelos simbolos. O que é importante para pensarmos a psicoterapia. Pois, a mudança da atitude da consciência ocorre na medida que a que a função transcedente se manifesta, como expressão da resolução do conflito. No texto intitulado “A Função Transcedente” Jung também relaciona a função transcendente com a transferência, pois, esta é uma tentativa do inconsciene em mudar a atitude da consciência (superação do conflito) através da projeção de conteúdos inconscientes no terapeua/analista que favoreceria essa mudança. Assim, a relação terapêutica seria simbólica, isto é, constituiria um símbolo para o cliente.

Por isto, na prática é o médico adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude. Nesta função do médico está uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto.(JUNG, 1998, p. 74)

Referências

JUNG, C.G. A DINAMICA DO INCONSCIENTE, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1998.

JUNG, C.G. TIPOS PSICÓLOGICOS  Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

HOMERO, ILIADA– tradução Haroldo Campos; 3 ed.; São Paulo: Arx, 2002.

 

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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