Epistemologia Junguiana : Algumas indicações de literatura

Não tenho dúvidas que epistemologia não é a matéria mais apreciada nos circulos junguianos. Contudo, ao longo das últimas décadas temos visto um aumento significativo trabalhos acadêmicos (teses, dissertações e artigos) com o enfoque junguiano.  Dessa forma, torna-se necessário conhecer de forma mais clara e ampla a epistemologia junguiana, de forma que possamos apropriar do espaço que vem se configurando no meio acadêmico.

Pensando assim achei que seria interessante apresentar alguns dos livros que considero importantes no contexto da epistemologia junguiana – que se interessar de fato pelo tema, acredito que o conjunto oferece uma excelente possibilidade aprofundamento do tema. Penso que outros livros poderiam e podem ser indicados, mas, deixo aberto para que outras sugestões possam ser realizadas no comentários abaixo.

Em Busca de Jung – Indagações Históricas e Filosóficas

Autor : J.J.Clarke   Ano: 1993   Editora: Ediouro

Desta lista que aqui apresento o do Clarke é o livro mais antigo publicado no brasil, considerando que foi publicado originalmente em 1992,(e no ano seguinte no Brasil).

Clarke contextualiza Jung na história do pensamento científico e filosófico de sua época, amplicando a compreensão tanto o “pensador Jung” quanto da “teoria junguiana” no contexto do pensamento ocidental. Pode-se dizer que este seria um ponto de partida para estudar a epistemologia junguiana.

 

 

 


Questôes Filosóficas na Psicologia de C.G.Jung

Autora: Marilyn Nagy      Ano: 2003        Editora: Vozes

Este livro foi publicado originalmente em 1992. Aborda a psicologia junguiana de uma forma impar. A autora se propõe discutir em três niveis o pensamento de Jung: epistemológico, ontológico e teleológico. E o faz de forma fascinante. Na primeira parte onde discute a epistemologia de Jung, ela apresenta como Jung aborda a possibilidade do conhecimento e a origem do conhecimento – nos permitindo ter quase um “panorama da genealogia” do pensamento do Jung. Sobre o aspecto ontologico, pertencente a segunda parte, a autora nos leva a considerar desde onde o homem se constitui como homem – para tanto ela discute a dimensão do conceito de arquétipo e energia psiquica como eixo de analise. Na terceira parte ela discute a individuação e suas implicações teleológicas.  É um livro muito rico e denso.

  Jung e a Construção da Psicologia Moderna

Autora: Sonu Shamdasani      Ano: 2011 Editora: Idéias e Letras

Shamdasani é sem sombra de dúvidas o nome mais importante do contexto das idéias junguinas. Não é um teórico junguiano, mas, um profundo conhecedor do pensamento junguiano, editor dos seminários, do Livro Vermelho, com passe livre no conselho de Herdeiro de Jung. Neste livro foi publicado originalmente em 2003, Shamdasi propõe algo interessante, ele propõe uma compreensão do pensamento de junguiano, desde Jung, isto é, tomando partindo de Jung, mas, sem se perder em uma biografia. Ele nos dá um perfil de Jung como cientista e pensador. O acesso a biblioteca de Jung, possibilitou que Shamdasani tivesse uma visão diferenciada da perspectiva que Jung adotava. Posteriormente, Shamdasani publicou o livro “ Jung – Uma Biografia em Livros” onde traça um perfil do Jung a partir dos seus livros, isto é, da sua história pessoal contada pelo acervo que ele constituiu..

 

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  Epistemologia e Método na Psicologia de C.G.Jung

Autora: Eloísa M.D. Penna      Ano: 2013  Editora: Educ Fapesp

É dificil falar sobre este livro. É de uma amplitude e clareza inigualáveis. Este livro foi o resultado do mestrado da Prof. Eloísa Penna. Este livro possui uma linguagem clara, leve, objetiva que convida e conduz o leitor (sem qualquer sofrimeno) pela discussão epistemológica junguiana. A autora introduz uma perspectiva do contexto da epistemologia situando o leitor no campo que vai pisar, contextualiza o pensamento junguiano em suas raizes históricas, faz uma leitura interessante da cronologia do desenvolvimento do pensmento junguiano, abrindo caminho para a discussão própria da epistemologia, ontologia e metodo junguiano.

Sobre esse livro eu não diria que é um livro indispensável na biblioteca junguiana, mas, que é um livro que deveria ser de cabeceira.

 

 

  Psicopatologia, Teoria dos Complexos e Psicanálise

Autora: Heloisa Cardoso      Ano: 1993   Editora: Atheneu Cultura

Este livro é o primeiro volume de uma coleção de epistemologia junguiana que não foi concluida. A proposta da autora é fazer uma análise semiótica, com auxílio da análise de conteudo, obra de Jung,

Neste livro, como seria o primeiro da série, são analisados os primeros anos obra de Jung. Situando-o no contexto da psiquiatria e da psicopatologia que se desenvolvia.

Pensar Jung

  Pensar Jung

Autora: Marco Heleno Barreto  Ano: 2012  Editora: Paulus

Confesso que de todos os textos aqui indicados este é o unico livro que ainda não possuo. Sendo uma indicação do caro colega Roberto Burura. Deixo a sinopse que está no site da Paulus:

“O leitor encontrará nesta obra uma reunião de textos que abordam o pensamento do psicólogo Carl Gustav Jung a partir de uma perspectiva filosófica, visando ultrapassar o nível da apresentação das ideias do psicólogo suíço para fazer vir à luz algumas de suas ideias e articulações fundamentais. São analisados o estatuto epistêmico da Psicologia Analítica, sua relação com a sabedoria prática filosófica antiga, a dimensão ética essencial que a define, entre outros aspectos.”

 

imageArquivos Brasileiros de Psicologia – Carl Gustav Jung

Autora: Instituto de Psicologia UFRJ   Ano: 2001 Editora: Imago

Nesta edição dos Arquivos Brasileiro de Psicologia Especial Carl Gustav Jung reúne artigos de importantes pesquisadores junguianos, contemplando especialmente a discussões epistemológicas.

Por ser uma revista, a temática é variada.

 

 

 

 

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Mergulhando no Mar Sem Fundo – Fundamentos da Clínica Junguiana

Autora: Elizabeth Christina Cotta Mello Ano: 2007 Editora: AION

Este livro foi fruto monografia de conclusão do curso de formação de analistas junguianos da SBPA, feito pela autora. Tem a particularidade de buscar fundamentar a clinica junguiana em seu contexto epistemológico, é uma contribuição que amplifica a compreensão da teoria e da clínica  junguiana. É uma obra rica e extremamente importante para o clínico e o pesquisador clinico.

 

 

 

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Experiência do Símbolo no Pensamento de C.G.Jung

Autora: Maddi Damião Jr. Ano: 2007 Editora: AION

Este livro é parte da tese de doutorado do proferssor Maddi Damião Jr, Nesse trabalho o autor parte da dinâmica do símbolo e da função transcendente como elemento norteador da construção da teoria junguiana. Talvez, seria mais correto dizer que este não é um texto de epistemologia, mas, um texto epistemológico que possibilita a compreensão dos fundamentos junguianos a partir da fenomenologia hermeneutica.

 

 

 

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com.br/Twitter:@FabricioMoraes

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“A divergência entre Freud e Jung”: uma Discussão Acerca dos Pressupostos básicos da Psicologia Analítica

Fabrício Moraes

Kelly Tristão

“Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde”

C.G.Jung

Em 1929, Jung publicou um breve artigo intitulado “A divergência entre Freud e Jung”[1], onde afirmou que a “[…] oposição entre Freud e eu repousa essencialmente na diferença de pressupostos básicos”(JUNG. 1989, p. 329). Nosso objetivo é discutir os pressupostos básicos da psicologia analítica, apontados nesse artigo.

O primeiro pressuposto indicado por Jung está relacionado com seu método utilizado, o método hermenêutico. A hermenêutica é um método inicialmente utilizado para a compreensão de textos sagrados, mas que foi ampliado como método de interpretação de textos em geral, assim como de expressões simbólicas.

Para compreendermos a associação do método hermenêutico à psicologia junguiana, devemos considerar que para Jung o inconsciente se manifesta como uma linguagem, assim, Jung aponta como necessário “[…] examinar as formas de manifestação do inconsciente, a fim de compreender sua linguagem.” (JUNG, 1999, p.118). Para compreender a linguagem do inconsciente, seria necessário.

[…] aplicar o mesmo método usado para a leitura de um texto fragmentário, ou que contenha palavras desconhecidas, isto é, a consideração do contexto. Pode ocorrer que o significado da palavra desconhecida seja descoberto quando comparado com uma série de passagens que a contém (JUNG, 1994, p.54).

Deste modo, para compreender a linguagem do inconsciente é necessário conhecer as formas pelas quais o inconsciente se manifesta, sejam elas pessoais, como os sonhos, devaneios, sintomas, atos falhos dentre outras; ou coletivas, como mitos, contos de fadas, religiões, arte, literatura, ideologias de massa dentre outras; através dessas manifestações poderemos – por meio de contextualização e comparação, compreender a dinâmica do inconsciente.

Na pratica clínica, o método hermenêutico é utilizado por Jung sob o nome de “amplificação”, que consistia no processo de buscar as associações do cliente sobre determinado símbolo, de forma dirigida, circulando em torno do símbolo a fim de recolher o máximo de associações pessoais ou coletivas (culturais e míticas), para melhor compreender o símbolo junto ao cliente.

A hermenêutica não constitui apenas um método de investigação, mas, uma postura epistemológica que visa compreender o conhecimento e o processo de conhecer dentro de seu contexto próprio. E assim, Jung afirma que:

Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver. Outras pessoas tendo outra psicologia vêem e exprimem outras coisas e de outro modo. Isto o demonstrou logo um dos primeiros discípulos de FREUD: ALFRED ADLER. Ele apresentava o mesmo material empírico de um ponto de vista bem diferente, e sua maneira de ver é, no mínimo, tão convincente quanto à de FREUD, porque também ADLER representa um tipo de psicologia que encontramos com freqüência (JUNG, 1989, p. 324).

A compreensão de que o conhecimento deve ser contextualizado, levou Jung a afirmar que a diversidade as teorias psicológicas, representam a diversidade da psique humana. As teorias seriam o resultado da interação dofenômeno observado com observador. Seria um grave equívoco excluir o observador, que é um processo histórico em curso. Jung afirmava que as teorias são confissõessubjetivas, isto é, as teorias expõem tanto o fenômeno observado quanto o observador, pois, o a compreensão do fenômeno (exposta na teoria) vai passar pela história do observador (suas experiências e referências construídas ao longo de sua vida).

Assim, as teorias psicológicas devem ser avaliadas dentro de seu próprio contexto, desta forma, todas as teorias deveriam ser respeitadas como válidas – por mais opostas que possam parecer.

No tocante à psicologia, acho melhor renunciar à idéia de que estejamos hoje em condições de fazer “afirmações verdadeiras” ou “corretas” sobre a essência da psique. O melhor que conseguimos fazer são expressões verdadeiras. Entendo por expressões verdadeiras uma confissão subjetiva e uma apresentação detalhada do que se observa subjetivamente. Alguém colocará ênfase especial na forma do que encontrou e se arvorará em autor do seu achado, outro dará mais  importância àobservação e falarádaquilo que se manifesta,valorizando sua atitude receptiva. A verdade estará provavelmente em ambos: a verdadeira expressão é a que dá forma à observação[2] (JUNG, ibid ).

O segundo pressuposto básico que Jung aponta em seu artigo, é a perspectiva teleológica ou energética. Este foi um dos pontos cruciais na divergência com Freud, pois a adoção da perspectiva energética, isto é, do conceito deenergia psíquica em 1912, marcou o distanciamento teórico entre Jung e Freud, culminando na separação definitiva em 1914.

Jung abandonou a compreensão freudiana de libido, por considerar que:

[…] os processos dinâmicos da psique não podem ser reduzidos a este ou aquele instinto específico (…) Por isso achei oportuno admitir uma grandeza hipotética, uma “energia”, como princípio de explicação psicológica e designá-la “libido”, no sentido clássico da palavra (desejo impetuoso), sem com isso fazer qualquer afirmação sobre sua substancialidade. Com essa grandeza, os processos dinâmicos podem ser facilmente explicados e sem aquela deturpação própria de uma explicação baseada em motivo concreto (JUNG, 2000, p. 13).

A adoção da perspectiva energética significou comparar o conceito de libido como o conceito de energia da física, isto é, como o potencial para realizar um trabalho ou ação. Com essa analogia, a libido se tornou neutra, ou seja, não está condicionada somente à sexualidade como propunha Freud. Jung não negava a importância da sexualidade, mas, questionava a crença freudiana de que a sexualidade era a causa única da dinâmica psíquica. Seria como dizer, que na física toda energia teria a mesma origem, por exemplo, toda energia seria hidroelétrica.  Assumindo o ponto de vista energético, Jung não afirmou nenhuma causa ou uma motivação original do psiquismo, mas sim enfatizou a finalidade da dinâmica psíquica.

Na concepção de libido ou energia psíquica proposta por Jung, a energia deveria ser avaliada em dois aspectos, o quantitativo e o qualitativo. No aspecto quantitativo, poderíamos apenas inferir sobre a quantidade ou intensidade de energia que seria direcionada a uma dada ação ou dinâmica psíquica. No âmbito qualitativo, por outro lado, a ênfase recai sobre o modo ou forma que a energia assumiu; a sexualidade, adaptação, vontade de poder, auto-preservação seriam expressões qualitativas da energia psíquica. O aspecto quantitativo e qualitativo seriam manifestações finais da energia psíquica; sendo assim, passamos a considerar o contexto final do processo psíquico, isto é, seu objetivo. Essa consideração finalista ou da finalidade da dinâmica psíquica também é chamada de teleológica.

Este pressuposto básico se reflete na clínica junguiana pela busca do sentido do sintoma, da neurose ou do sonho.  Isto porque, para Jung, havia uma intencionalidade natural nas formações do inconsciente, isto é, um direcionamento para o desenvolvimento psíquico. Um sonho ou mesmo uma neurose, não se manifesta ao acaso, nem é uma simples repetição de um drama passado, mas são tentativas de libertar o individuo de amarras que o prendem – não ao passado, mas desde o passado.  A neurose é uma tentativa natural de cura. Assim, o trabalho terapêutico se desenvolve numa tentativa de compreender para onde a neurose quer nos guiar, o que ela quer nos dizer.

Não de se deveria procurar saber como liquidar a uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido.[…] Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas é ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. (JUNG, 2000, p.160-1)

Para se compreender o sentido ou a finalidade da neurose, era necessário se observar com atenção o passado, ou a história pessoal de um individuo, para entender e contextualizar as formações do inconsciente, mas sem cair num fatalismo, que reduz o indivíduo a um produto de seu passado. Uma vez compreendida a construção histórica do individuo, deve-se buscar a sentido, a finalidade que é inerente a qualquer formação do inconsciente.  Jung considerava que a perspectiva causal e a finalista eram complementares, mas, ainda assim, enfatizava a importância da perspectiva finalista, pois, “[…] em geral, o para frente é mais importante que o para trás, por que futuro vem e o passado se vai.” (ibid).

O terceiro pressuposto apontado por Jung é considerar a existência de uma função religiosa inerente ao psiquismo. Esse pressuposto é, certamente, o mais polêmico – quando mal compreendido. Para discutirmos essa função psíquica, devemos, antes de mais nada, entender o que Jung compreende por religião, que para o mesmo era “[…] uma atitude do espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: ‘religio’”(JUNG, 1999b, p.10).

Devemos nos atentar para o termo religio, pois o uso contemporâneo de religião, não guarda correspondência com o emprego originário de religio. Ao “[…] termo religio os vocabulários latinos atribuem, em geral, significados correntes entre os autores clássicos: ‘escrúpulo’, ‘consciência’, ‘exatidão’, ‘lealdade’ e outros afins.” (FILORAMO et PRANDI, 1999, p. 255). A concepção que comumente temos de religio como oriunda de religare, (religar, reatar), surgiu por volta do século IV d.C, com Lactâncio, como uma forma de adequar o termo religio à teologia cristã.

Deste modo, religião para Jung era uma atitude que o individuo assumia frente ao numinoso. Este termo, numinoso foi concebido por Rudolf Otto, para descrever o fenômeno do sagrado, Numen, em latim, era um termo aplicado para se referir a divindades menores ou mesmo para se referir ao que seria divino, isto é, algo que transcenderia nossa realidade, nos impactando.  Assim, Jung explicava que religião era:

[…] uma atitude o espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: “religio”, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos concebidos como “potências”: espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais, ou qualquer outra denominação dada pelo homem a tais fatores; dentro de seu mundo próprio a experiência ter-lhe-ia mostrado suficientemente poderosos, perigosos ou mesmo úteis, para merecerem respeitosa consideração, ou suficientemente grandes, belos e racionais, para serem piedosamente adorados e amados” (JUNG, 1999b, p.10).

Devemos observar que Jung não defendia uma ou outra forma de crença religiosa, pois o seu foco era a atitude religiosa, isto é, uma “consideração e observação cuidadosa”, que poderia promover uma relação diferenciada do individuo consigo mesmo. Jung compreendia que todas as religiões se nutriam do mesmo substrato psíquico, possuindo raízes comuns no inconsciente coletivo. Afirmava que em”

[…] seu conteúdo doutrinário reconheço aquelas imagens que encontrei nos sonhos e fantasias de meus pacientes. Em sua moral vejo as mesmas ou semelhantes tentativas que fazem meus pacientes, por intuição ou inspiração próprias, para encontrar o caminho certo de lidar com as forças psíquicas (JUNG, 1989, p. 326).

As religiões, assim como as artes, são expressões simbólicas naturais que orientam e possibilitam o desenvolvimento do psiquismo.  Por este motivo, Jung afirmava que as religiões eram sistemas psicoterapêuticos, por favorecer que, através da identificação simbólica, o indivíduo possa ter um encontro consigo mesmo. Assim, a função religiosa é a capacidade natural da psique em criar símbolos e sistemas simbólicos e se organizar e se orientar a partir desses sistemas.

A função religiosa se manifesta como uma possibilidade de organização psíquica que não depende de instituições religiosas. Ideologias, associações podem ser uma via de manifestação desta função psíquica. Podemos citar como exemplo, a irmandade dos “Alcoólicos Anônimos”, que oferece através de suas reuniões e do estudo dos 12 passos e das 12 tradições, um contexto simbólico importante para a recuperação/mudança de atitude de seus membros.

Esta terceira característica pressupõe uma função natural de auto-regulação psíquica, que impulsiona o individuo ao desenvolvimento.

Os três pressupostos básicos – método hermenêutico, perspectiva teleológica e a função religiosa – nos permitem compreender o desenvolvimento da teoria e prática Junguiana assim como o distanciamento da psicanálise de Freud.

Referencias bibliográficas

FILORAMO,G.; PRANDI, C. As Ciências das Religiões, São Paulo: Paulus, 1999.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

__________. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 3. ed.  1994.

__________. A Prática da Psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 7 ed. 1999.

__________. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 6 ed. 1999b.

__________. Civilização Em Transição. Petrópolis: Vozes, 2 ed. 2000.

__________. O desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Vozes, 9 ed. 2006.


[1] Este artigo faz parte do quarto volume das “Obras Completas de C.G Jung”, intitulado “FREUD E A PSICANÁLISE”

[2] Grifo do autor.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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