Contando Histórias – Fragmentos para uma história junguiana no Espirito Santo

Por Fabrício Moraes

Os junguianos são por natureza contadores de histórias sejam por meio de mitos, contos de fadas dentre outras. As histórias nos constituem tanto coletivamente quanto individualmente. A história junguiana capixaba faz parte de minha história pessoal desde o ano 2000 quando me descobri na psicologia junguiana. Nesses poucos mais de 15 anos de história junguiana, participei de várias atividades, conheci várias pessoas e sobretudo ouvi muitas histórias.

Algumas vezes eu contei essas histórias para o Grupo Aion por considerar fundamental conhecer e nos reconhecermos parte dessa história. Contudo, há bem pouco tempo atrás eu me dei conta que não havia escrito nada acerca dessas histórias… assim, acho oportuno falar do movimento junguiano no Espirito Santo, não como uma historiografia, mas, contando um pouco dessas histórias. De antemão peço desculpas e aviso: estes são apenas fragmentos… apenas histórias que ouvi e passo adiante.

Primórdios anos 70 e 80

A psicologia junguiana no Espirito Santo tem suas raízes entrelaçadas com o desenvolvimento da psicologia em nosso estado, nos anos 70, nessa época não só não havia o curso de psicologia da UFES, como os poucos psicólogos vinham de outros estados. Nesse período eu dois nomes se destacam: Helvécio Siqueira da Silva e Solange Missagia de Mattos.

O professor Dr. Helvécio da Siqueira e Silva, foi um dos fundadores do curso de psicologia da Universidade Federal do Espirito Santo, em 1979, se formou em psicologia em Minas Gerais, realizando doutorado na Universidade católica de Louvain, na Bélgica, em 1975[1]. Após retornar ao Brasil, ele criou um projeto social na região de Domingos Martins, com jovens em situação de risco, chamado Gritza que significava burburinho, que envolveu estudantes de diferentes cursos, até que em meados da década de 80, o Gritza chegou a o fim, sua experiência foi em parte relatada no livro “Joca Pivete – o menor violentado”, do prof.Dr. Helvécio publicado em 1987. Ele escreveu,

Gritza – Comunidade Agrícola – é uma sociedade civil sem finalidades lucrativas. Localiza-se no antigo povoado de Panelas, hoje despovoado! Junto à sede (Campinho) do município de Domingos Martins, ES. Fundada em 1977, encerrou parcialmente suas atividades no início de 1985. Nunca tendo urbanizado as crianças que lhe foram confiadas, temendo violenta-las, não encontra mais motivação para continuar ajudando-as de agora em diante: a roça, com o descalabro com que as autoridades tratam a agricultura, agoniza nesses povoados! Nossas crianças tornando-se adultas, devem voltar para as cidades, onde recomeça o circulo infernal que elas conheceram : marginalização – criminalidade… (SILVA, 1987,p.181)

Sabemos que ao longo anos 80, Helvécio ofereceu cursos junguianos, psicoterapia de grupo e individual na abordagem junguiana. A respeito do prof. Helvécio, a psicóloga Sueli Martins, me cedeu o seguinte relato

Helvécio era a pessoa que mais dominava a teoria e a pratica junguiana que conheci. Mas conhecia muito de outras teorias também. Um cara muito inteligente, diferenciado, fora da curva mesmo. Ao mesmo tempo muito rebelde

Talvez por isso despertasse sentimentos extremos nas pessoas, colegas, alunos, discípulos. Ou era amado ou odiado. Um cara a frente de seu tempo.

Inicialmente criou a Gritza para atender a comunidade carente do interior, onde morava. Depois passou a atender em uma base em Vitoria, onde passou a promover a formação em psicologia analítica, psicanálise e ludoterapia e nós os formandos fazíamos os atendimentos sob sua supervisão.

Em paralelo também fui paciente dele em sessões de grupo que não se restringiam aos formandos. A princípio tudo isso pode parecer no mínimo estranho, mas era uma situação que ele administrava muito bem.

Com seu falecimento algumas pessoas ainda tentaram dar continuidade ao projeto que infelizmente não vingou. Mas vale lembrar que de alguma forma ele mesmo já tinha tomado algumas ações, como por exemplo, algumas altas de pacientes, redirecionamento de outros para outros profissionais etc…

O Prof. Helvécio foi o primeiro junguiano e o precursor da psicologia no Espirito Santo. Infelizmente, em 07 de julho de 1990, o prof. Helvécio veio a falecer num acidente de carro.

Ainda nos anos 70, temos a experiência de Solange Missagia Mattos, psicóloga, uma das pioneiras em saúde mental em nosso estado, que trouxe um pouco de Nise da Silveira para o ES. Abaixo, segue um relato que a mesma solicitamente me cedeu

Fiz o Curso de Psicologia na PUCMG onde obtive o título de Bacharel em Psicologia em 1974 e Psicóloga em 1975. Naquela ocasião a psicologia clínica era pautada na teoria do comportamento, psicoterapia rogeriana e psicologia existencialista – O psiquiatra que ministrava psicopatologia era freudiano. A psicanálise, naquela ocasião, era restrita apenas aos médicos. Mas tive a oportunidade de ler algo sobre Jung através dos jesuítas de BH.

Quando cheguei em Vitória ( 1977), meu primeiro emprego foi no Hospital Adauto Botelho. Alguns psiquiatras conheciam a Dra Nise por terem sido alunos do psiquiatra Adauto Botelho, colega de Profissão de Drª Nise no Hospital Pedro II do Rio de Janeiro. O Hospital de Cariacica, pertencente à então Fundação Hospitalar do Espírito Santo, recebeu o nome de Hospital Adauto Botelho, em homenagem ao referido colega de Drª Nise e professor de psiquiatria dos primeiros psiquiatras de Vitória. .

Em vista disso, tive “carta branca” do Drº César Mendonça e Drº Alcides Pereira da Silva, então diretores da Fundação Hospitalar do Espírito Santo, para um estágio de 15 dias na Casa das Palmeiras. Quem me apresentou esse lugar, em 1978, foi um estudante de psicologia e seminarista jesuíta, Álvaro de Pinheiro Gouvea, que hoje é professor do Curso de Especialização em Jung na PUC-RJ.

Para realizar o trabalho de Praxiterapia[2] implantado no Hospital Colônia Adauto Botelho, entrei em contato com a Universidade do Espírito Santo a fim de divulgar e abrir estágio para os alunos de Belas Artes e Educação Física[3]. Os estagiários do Curso de Belas Artes e Educação Física eram remunerados pela Fundação Hospitalar do Espírito Santo, seguindo as normas dos estagiários de medicina.

Quando Helvécio chegou na UFES, tornamos amigos. Além da sintonia junguiana, ele tinha sido formado na PUC MG, mesma faculdade que eu estudei. Conversamos em diversas ocasiões sobre seu trabalho com os meninos em seu sítio em Campinho, um trabalho alternativo ao da instituição estatal.. Nessa ocasião, convidou-me para assumir uma cadeira no Curso de Psicologia da UFES, mas eu não tive coragem de renunciar ao trabalho de Praxiterapia no Hospital Adauto Botelho.

Além do estágio na Casa das Palmeiras, continuei indo ao Rio de Janeiro, participando de grupos de estudos na residência da Drª Nise em Botafogo. Nada havia em Vitória antes de minha chegada, pelo menos que eu tivesse conhecimento.

A história de Jung no Espírito Santo iniciou então com a história da Psicologia Clínica no estado. Quando cheguei em Vitória, fiz parte de um pequeno grupo de psicólogos clínicos. Na Fundação Hospitalar do Espírito Santo não havia quadro de psicólogos. Só em 1978 é que foi incluído.

Nos anos 80 Helvécio reunia com alguns psicólogos e alunos de psicologia da UFES em se sítio em Campinho e em seu consultório no centro de Vitória, à Rua do Rosário, 244 sala 301 – centro de Vitória, ES.

Nos anos 90 havia um psicólogo chamado Irâ ?, ligado à Educação na UFES que soube ser de linha Junguiana, mas nada mais posso informar. Percebo que tudo muito isolado.

Quando surgiu o Instituto Brasileiro de Psicologia e Psicossomática, fiquei feliz por poder retornar aos estudos junguianos. Havia bons professores, vindos do Rio, pertencente ao Instituto Junguiano do Rio de Janeiro, filiado à AJB e IAAP. Mas não conseguiram dar continuidade.

Após se aposentar do serviço público no ES, no início da década de 2000, Solange Missagia de Mattos retornou a Belo Horizonte, onde realizou sua formação de analista junguiana pelo Instituto C.G.Jung de Minas Gerais, membro da Associação Junguiana do Brasil(AJB) e da International Association for Analytical Psychology(IAAP), junto a Carlos Alberto Correa Salles(falecido ano passado), e atualmente é doutoranda na UFMG. Apesar de residir em Belo Horizonte, Solange Missagia nunca deixou de atender no ES, vindo regularmente ao ES, sendo a única analista junguiana vinculada a IAAP em nosso Estado.

Anos 90: Reinícios

Conforme dissemos acima, os anos 90, começaram com a morte do prof. Helvécio e uma desmobilização dos alunos que o acompanhavam, assim, muito de seu trabalho se perdeu.

Outros movimentos e pessoas surgiram no cenário junguiano daqueles dias e se mantiveram até hoje, outros viveram intensamente aquele momento e se dispersaram. Desses, eu gostaria de citar surgiram profissionais inicialmente isolados como Joel Fernando Brinco Nascimento, Luis Fernando Gomes Magalhães e Fernando Antônio Furieri e Kathy Amorim Marcondes.

Desses nomes, Joel Fernando Brinco Nascimento, esteve ligado aos trabalhos de Helvécio no Gritza, tentou de certa forma dar continuidade as atividades oferecendo desde os anos 90 cursos, grupos de estudo, seminários e palestras, além das atividades clinicas, apesar de suas tentativas de desenvolver atividades(como a tentativa de trazer congressos e pós-graduações para o ES) não obteve sucesso nessas empreitadas, veio a se destacar no trabalho individual especialmente a partir da década de 2000, com estudos vinculados a psicologia arquetípica e imaginal, que o tornaram mais reconhecido no cenário nacional, que no estado do ES.

Outro nome, que entrou no cenário junguiano capixaba foi o de Luiz Fernando Gomes Magalhães, psicólogo de Minas Gerais, que veio para o Espirito Santo no inicio dos anos 90. Luis Fernando se dedicou sobretudo a prática clínica, com grupos de estudo e supervisão e cursos ministrados especialmente na área de introdução a psicologia analítica e sonhos.

No incio dos anos 90, um grupo de estudantes de psicologia da UFES(Flávia de Macedo, Alessandra Jantorno, Marcus Welby (in memorian), Gabriela Andrade e Luciana Aquino Vidigal) que eram muito interessados em psicologia analítica, participando de atividades(congressos) e cursos fora do estado, estudaram Jung de forma independente e posteriormente procuram o psicólogo junguiano Luis Fernando Gomes Magalhães para supervisão e orientação, este grupo durou de 1991 a 1999, e foi dissolvido por divergências internas. Acho importante mencionar este grupo, pois, foi um grupo independente de estudantes cuja iniciativa foi reconhecida e comentada por muitos anos.

Em 1995, surgiu o programa de Extensão “Portas – apoio psicológico ao paciente renal crônico” integrado a equipe da Enfermaria de Nefrologia do Hospital da Associação dos Servidores Públicos em Vitória (ES), realizando o acompanhamento psicológico de pacientes com Insuficiência Renal Crônica (IRC) que são assistidos pelo Instituto de Doenças Renais (IDR).[4] Esse projeto foi organizado pela Professora Kathy Amorim Marcondes atendendo a solicitação do dr. Michel S. Zouain Assbú para atender as crianças submetidas ao tratamento de hemodiálise durante o processo de hemodiálise, com o tempo, o projeto se expandiu para todos os pacientes da enfermaria. Foram trabalhadas técnicas psicopedagógicas, hipnose ericksoniana e projetos diversificados. Concomitante ao desenvolvimento do projeto, a prof. Kathy realizou um projeto de pesquisa chamado “Modelos Epistemológicos da Psicologia”, concluída em 1998, onde estudando física quântica se deparou com inúmeras referências a Carl Gustav Jung e, a partir desses estudos, a professora Kathy iniciou seus estudos em psicologia junguiana, criando um grupo, em 1998, chamado de “Grupo da Sexta-feira”. Simultaneamente, a prof. Kathy passou a ministrar a disciplina “Psicologia da Personalidade III” cuja ementa psicologia analítica.

Juntamente com os estudos deste grupo, o programa portas foi assumindo um caráter junguiano. Se tornando, uma referência para os interessados em psicologia analítica na UFES.

Nos finais dos anos 90, o médico psiquiatra Fernando Antônio Furieri, um médico visionário especialista em acupuntura e homeopatia, sempre disposto a trabalhar com novas tecnologias e buscando formas integrativas, foi sócio de uma instituição chamado “Instituto Brasileiro de Psicologia e Psicossomática”, que nos finais dos anos 90 e inicio dos anos 2000, ofereceu cursos de saúde na área de homeopática, psicossomática, acupuntura vinculados a Facis Ibehe, trazendo nomes como do prof. Waldermar Magaldi para ministrar aulas no ES– chegou oferecer o curso de especialização em psicologia junguiana, mas, não abriu turma – e ofereceu uma formação livre em psicologia analítica, que só abriu uma turma. Houve uma tentativa de aproximação do instituto C.G.Jung do Rio de Janeiro, mas, não foi adiante.

Anos 2000: Ocupando espaços

A década de 2000, foi marcada por uma consolidação da psicologia junguiana no ES, conforme comentamos acima, no final dos anos 90, o Instituto Brasileiro de Psicologia e Psicossomática abriu uma formação em psicologia analítica, que teve apenas uma turma entre 2000/2001. Nessa mesma época, a professora Kathy passou a desempenhar um papel mais ativo na psicologia junguiana, com cursos de introdução a psicologia analítica(tanto na UFES quanto fora) e, a partir de 2002 quando, a pedido de uma turma de alunos finalistas, a professora Kathy abriu estágio clinico supervisionado na abordagem junguiana, na UFES. Dessa forma, a professora Kathy se tornou uma referência para todos os alunos da UFES interessados em Jung.

Em outra frente, a prof. Ms Angelita Viana Correa Scárdua, no período de 2002 a 2006, deu aulas no “Instituto de Ensino Superior e Formação Avançada de Vitória” (FAVI) no curso de psicologia, onde ministrou disciplinas associada a psicologia analítica e supervisionou estágio clinico na abordagem junguiana, reunindo um bom grupo de alunos interessados em psicologia analítica. Mesmo após sair da FAVI em 2006, a prof. Angelita continuou ministrando cursos junguianos e coordenou uma iniciativa interessante chamada “Grupo Papeando com a Psicologia” de 2008 a 2012, que eram encontros temáticos abertos a qualquer pessoa onde se discutiam os temas de forma acessível e clara a todos os interessados. Após, o término do Grupo Papeando[5], a prof. Angelita continuou ministrando cursos e dando aulas em pós-graduação.

Não podemos deixar de citar o Instituto Fênix, fundado pela artista plástica e Arteterapeuta Glicia Manso. O Instituto Fênix tem como ênfase a especialização/ formação em arteterapia, contudo, sempre ofereceu cursos e atividades junguiana com professores locais e outros vindos de fora, durante os anos 2000, o Instituto Fênix, buscou uma parceria com o Instituto Jung do Rio de Janeiro, para trazer uma especialização em psicologia analítica, que infelizmente não ocorreu. O Instituto fênix, junto com o psicólogo Luiz Fernando Magalhães sempre oferecem cursos de introdução a psicologia analítica e de sonhos.

Em 2006 tivemos um marco importante, com início em Vitória o curso de pós-graduação em “Teoria e Prática Junguiana”, em grande parte ministrada por professores analistas junguianos da IAAP(Alguns da SBPA e outros da AJB), e coordenada pelos professores Dra. Elizabeth Christina Cotta Mello e prof. Dr. Maddi Damião Jr,  vinculado a Universidade Veiga de Almeida(UVA) do Rio de Janeiro. Essa pós-graduação capacitou vários profissionais aqui do ES. A partir dessa especialização, o pensamento junguiano se expandiu para outras faculdades, como a Unilinhares(Atual Pitágoras) com a Prof. Valéria Felisberto Fiorot no município de Linhares. Em Vitória, nas Faculdades Integradas São Pedro (FAESA) com a Prof. Ms Isabelle Santos Eleotério, que passou a ministrar disciplinas junguianas, assim como supervisionar estágio clinico na abordagem junguiana.

Juntamente com a pós-graduação em 2007 alguns alunos da pós-graduação em “teoria e prática junguiana” iniciaram um processo de abertura de uma “Associação Junguiana no Espirito Santo”, incialmente chamada de AJES. Pela associação, foram realizados poucos cursos, mas, como não houve um interesse maior um envolvimento das pessoas, a Associação foi dissolvida em 2011.

Em novembro de 2009 foi realizado pelo Programa Portas e coordenado pela Prof.Dra. Kathy Marcondes, o I Congresso Estadual de Psicologia Analítica, que contou com a participação do Prof. Dr. Maddi Damião Jr, membro da SBPA, e professor da UFF como palestrante. Sob certo aspecto, o ICongresso marcou a consolidação das atividades junguianas no ES.

Anos 2010: Consolidação

Ao longo dos Anos 2000, muitas atividades foram realizadas, muitos profissionais foram amadurecendo e a clinica junguiana começando a ter mais visibilidade.

Em março de 2010, Fabrício Fonseca Moraes criou o blog “Jung no Espirito Santo”, que surgiu do incomodo de ter tantas páginas que associavam Jung ao esoterismo. Assim, o projeto “Jung no Espirito Santo” surgiu como uma opção para se falar de Jung com um viés clássico e respeitando o pensamento junguiano.

Seguindo a iniciativa do Congresso Estadual de Psicologia Analítica, foram realizados o II Congresso Estadual em (2011) na UFES sob a organização da profa. Kathy Marcondes e o III Congresso Estadual em (2014) na FAESA com a organização da profa. Isabele Santos Eleotério.

Novos movimentos surgiram, em 2012 surgiu o grupo de estudos “Aion-Estudos Junguianos”, em atividade até o presente, sob a coordenação de Fabricio Fonseca Moraes, na UFES ocorreram cursos de introdução em psicologia analítica com Rafaela Feijó de Oliveira, psicóloga do Instituto de Doenças Renais e colaboradora do Portas.

Outros profissionais ocuparam novos lugares acadêmicos como o prof. Ms Raphael do Amaral Vaz, mestre em Psicologia na PUC-SP, deu aulas na FEAV e atualmente dá aulas na Multivix, oferecendo disciplinas e estágio supervisionado em psicologia analítica.

Vale a pena destacar nesses espaços acadêmicos Profa.Ms Kelly Guimarães Tristão ofereceu disciplina e estágio supervisionado na UNES(atual Multivix) em Cachoeiro de Itapemirim no período de 2011/2013. Posteriomente, em 2015, a Prof.Kelly Tristão se tornou a primeira doutoranda a realizar pesquisa com referencial teórico junguiano no Programa de Pós-graduação em Psicologia(PPGP) da UFES.

Nesse interim, o movimento junguiano vem se desenvolvendo e ganhando vitalidade, temos vários junguianos como alunos nos programas de mestrado e doutorado, alguns são professores como Fernanda Helena Freitas Miranda, que é doutoranda e professora em pós-graduação junguiana que teve inicio em 2014, foi realizada uma pós-graduação em psicologia analítica e terá nova turma confirmada para 2016. E o movimento segue se consolidando.

Palavras finais

Ao fazer esse recorte da história junguiana no ES, sei que pessoas ficaram de fora dessa história e algumas histórias se perderam. Essas são as histórias que ouvi e que vivi. Agradeço a todos que se protinficaram em contar suas histórias, como disse no inicio, esse texto não é um “estudo histórico”, mas, notas, para reconhecermos nossa história.

Acredito ser importante resgatar o nome de Helvécio da Siqueira e Silva, pioneiro da psicologia junguiana no ES, assim como de divulgar a história junguiana capixaba. Em seu livro, “Joca Pivete”, Prof. Helvécio conta que Joca Pivete perguntou

– E quando começou a Comunidade Agricola de Gritza, dr. H.?, quis saber Joca Pivete numa manhã.

– Não sei exatamente, Joca Pivete. É uma longa história. Mas na verdade Gritza sempre existiu em todas as partes do mundo e em todos os tempos. Onde quer haja alguém triste e abandonado, onde quer haja alguém transtornado e perseguido, em seu coração nasce e floresce o desejo de encontrar Gritza. Aqui nesta cidade de Campinho nasceu Gritza, num encontro da brisa e de alguns homens. Você sabe, Joca Pivete, o homem raciocina, planeja, organiza, produz e reproduz, realiza, sabe falar, tomar iniciativas e agir. A brisa, porém, que mal tem forças para balançar a ramagem do alecrim, frágil e desarmada, quer ouvir o tempo e dançar ao ritmo das luzes. Ela sabe viver e deixar viver. Os homens amam a brisa em seu frescor matinal ou ao cair a noitinha. Mas o homem se acha muito sério e quer sem cessar raciocinar, organizar, produzir, reproduzir, realizar, falar, tomar iniciativas e agir. Entretanto, a brisa queria que toda humanidade cantasse com ela. E quando sente que as coisas não vão bem em Gritza, ela sopra um pouco mais furiosa, só pra lembrar (…)isto(SILVA, 1987, p. 49)

Helvécio nos deixou a brisa, com a brisa, um mito fundador.

 

Referências Bibliográficas:

SILVA, Helvécio de Siqueira e, Joca Pivete – o Menor Violentado, Ed.Icone: São Paulo, 1987.

PS: Caso alguém queira fazer algum relato dessa história, ou complementar de alguma forma essa história, me envie o relato para o e-mail fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com


[1] O titulo da tese foi “POUR LES ENFANTS DONT L’ECOLE NE VEUT PLUS: UN TRAVAIL EN EQUIPE INTERDISCIPLINAIRE. (HISTOIRE ET BILAN D’UNE EXPERIENCE MEDICO-SOCIO-PSYCHO-PEDAGOGIQUE)” as poucas informações que temos está disponível em http://boreal.academielouvain.be/lib/item/?id=chamo:696773 visitado em 27 de fevereiro de 2016.

[2]Nome que a Drª Nise usava para diferenciá-lo dos trabalhos repetitivos da Terapia Ocupacional da época

[3]Nessa ocasião, o Curso de Psicologia na EFES ainda não tinha sito implantado.

[4] Cf. www.portas.ufes.br

[5] O blog do grupo papeando ainda está disponível. Quem quiser ter uma ideia melhor desse projeto vale a pena visitar https://grupopapeando.wordpress.com/ Acessado em 1 de março 2016.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Discípulo e Dissidente: Repensando algumas distorções

(17 de janeiro de 2013)

Recentemente eu estava relendo algumas partes do livro de “Em busca de Jung” de J.J.Clarke, acerca da relação entre Jung e Freud e as distorções realizadas ao longo da história, que são amplamente divulgadas em livros de teoria da personalidade. Bem, lendo o texto do Clarke, me lembrei de uma situação onde essas “distorções” falaram alto, foi numa conversa com um grupo, em dado momento fiz algumas críticas a Freud e a psicanálise, quando uma pessoa que participava na conversa, que estudava Jung a pouco tempo, me censurou dizendo: “ Você não deveria falar assim, afinal, Jung foi aluno de Freud”, seguiu dizendo que Jung devia muito a Freud e coisas assim. Ao longo deste texto, discutirei justamente os apontamentos que fiz nessa conversa.

Acredito que devemos começar por uma consideração histórica importante, considerando a questão “quem era Jung, antes de conhecer Freud?” Esta questão é fundamental para compreendermos as distorções acerca da relação entre de Jung e Freud.

Logo após se formar, em 1900, Jung se tornou médico e foi contratado no Hospital Psiquiátrico Burgholzli, como médico-assistente do diretor dr.Eugen Bleuler, que um dos principais nomes da psiquiatria do século XX, responsáveis por importantes pesquisas acerca da demência precoce/esquizofrenia. Entre 1904/1905 Jung desenvolve seus estudos sobre associação de palavras, que o projetam internacionalmente. Em 1905, promovido a Médico Chefe da Clínica do Burgholzli e indicado a conferencista em Psiquiatria da Universidade de Zurique. Em 1907, quando ocorreu o encontro com Freud, Jung já possuía muitos artigos publicados e livros, e já utilizava da teoria psicanalítica em seus estudos tanto sobre os complexos quanto sobre a demência precoce(1906), e, desde 1904 ele já utilizava da psicanálise em tratamentos no Burgholzli (a primeira paciente foi Sabina Spielrein). Em 1909, Jung e Freud foram convidados e igualmente homenageados com o doutoramento honoris causa pela Universidade Clark nos EUA, Freud por seus trabalhos com psicanálise e Jung por suas pesquisas em psicopatologia experimental, com seus testes de associação de palavras. 

Um colaborador

De fato, esses dados são importantes para começarmos a pensar a idéia de que Jung foi apenas “discípulo ou aluno” de Freud. A relação de respeito e projeções paternas que Jung nutria em relação a Freud, é explicitada nas cartas que trocaram. Deve-se notar que grande parte da relação deles foi por correspondência, pois, não foram muitos os momentos onde eles se encontraram pessoalmente, sendo que o principal momento foi em 1909, na viagem aos EUA, contudo, Jung relata que nesta viagem de sete semanas teve origem a ruptura com Freud. Ao analisar o período a relação entre Jung e Freud, Clarke aponta que,

Durante todo o período em que foram amigos, Freud certamente nunca o tratou como aluno, vendo-o, isto sim, como um respeitado e altamente valioso parceiro menor, esforçando-se para estabelecer as credenciais profissionais da psicanálise. (CLARKE, 1993, p. 23-4)      

Não estamos dizendo que Jung não aprendeu nada com Freud, mas, que apesar do aprendizado e da relação de amizade, Jung era um pensador independente, profícuo, bem relacionado, a tal ponto que Freud em pouco tempo o elegeu seu “príncipe herdeiro”. Peter Gay, um importante biógrafo de Freud, afirma que

Em cartas a amigos íntimos judeus, ele[Freud] elogiava constantemente Jung por fazer um trabalho “esplêndido, magnífico”, publicando, teorizando ou investindo contra os inimigos da psicanálise. “Agora, não fique com ciúmes”, Freud espicaçou Ferenczi em dezembro de 1910, “e inclua Jung em seus cálculos. Estou mais convencido do que nunca que é o homem do futuro”. Jung era a garantia de que a psicanálise sobreviveria depois que seu fundador tivesse abandonado o palco, e Freud amava-o por isso. (GAY, 1989, 194-5)

A importância de Jung naquele momento era tal, que, em 1909 foi confiada a ele o cargo de redator chefe do “Jahrbuch für Psychoanalytische und Psychopathologische Forschungen”, a primeira revista internacional de psicanálise, assinavam como editores Freud e Bleuler. Já em 1910, Jung foi eleito o primeiro presidente da Associação Internacional de psicanálise.

Como propusemos, reduzir Jung a um “discípulo” não condiz a realidade e a relação entre Jung e Freud naquele momento da psicanálise.

O Dissidente

De fato, Jung protagonizou uma das maiores dissidências da psicanálise. Contudo, eu gostaria apenas de lembrar que ser dissidente implica basicamente numa discordância ou divergência e o afastamento de um grupo. Digo isso, pois, é comum vermos o uso desse termo como se fosse “traição”. Mas, para entendermos a aplicação desse termo, e seu peso, devemos recorrer ao “Dicionário de psicanálise” de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, nos informa,

A palavra dissidência tem outra significação. Designa a ação ou o estado de espirito de quem rompe com a autoridade estabelecida, mas não implica a idéia de separação e divisão que está presente no termo cisão. Por isso ela é empregada em psicanálise para designar as rupturas ocorridas durante a primeira metade do século XX, numa época em que o freudismo não ainda se havia tornado um verdadeiro movimento de massa, como aconteceria depois da morte de Freud. A dissidência, portanto, é um fenômeno historicamente anterior ao das cisões, contemporâneas da expansão maciça da psicanálise no mundo, e, por conseguinte do advento da terceira geração psicanalítica mundial (Jacques Lacan, Heinz Kohut, Marie Langer, Wilfred Ruprecht Bion, Igor Caruso, Donald Woods Winnicott). Instruídos pelos representantes da segunda geração, os membros da terceira só tiveram acesso a Freud através da leitura dos textos. Considerando que a IPA já não era uma instância legítima e inatacável, eles questionaram não apenas a interpretação clássica da obra freudiana, mas também as modalidades de formação didática, às quais não mais queriam se submeter, arrastando consigo as gerações seguintes.

De modo geral, emprega-se o termo dissidência para qualificar as duas grandes rupturas que marcaram os primórdios do movimento psicanalítico: com Alfred Adler, em 1911, e com Carl Gustav Jung, em 1913. Essas duas rupturas conduziram seus protagonistas a fundar, ao mesmo tempo uma nova doutrina e um novo movimento político e institucional: psicologia individual, no caso do primeiro e psicologia analítica, no que tange ao segundo.

Essas duas dissidências concerniram, na verdade, a questões teóricas. Nesse aspecto, há entre a dissidência e a cisão a mesma distância que separa o cisma da heresia. O cisma (religioso), assim como a cisão(leiga), é a contestação da autoridade legítima da instituição que representa a doutrina a ser transmitida(a igreja, na religião e a IPA, na psicanálise), ao passo que a dissidência (leiga), tal qual a heresia (religiosa), é uma crítica da doutrina transmitida, que tanto pode conduzir à ruptura radical quanto ao rearranjo ou reformulação internos da doutrina radical.

As dissidências de Wilhelm Steckel e Otto Rank, sob esse aspecto, são diferentes da adleriana e da junguiana, portanto dizem respeito a certos aspectos da doutrina e não à sua totalidade. Trata-se, pois, de dissidências internas à história da teoria freudiana, da qual conservaram quer o essencial, quer uma parte. A dissidência de Wilhelm Reich é da mesma ordem, tendo sido acompanhada, como a de Rank, de uma expulsão da IPA.(ROUDINESCO, PLON,1998 , 118)

Acredito que este texto, do dicionário de psicanálise, nos ajuda a entender a aplicação do termo dissidência, e, como que Jung passa a ser compreendido no contexto psicanalítico. Confesso que achei bem interessante a explicação utilizando termos de origem religiosa (cisma e heresia), poderíamos utilizar outro termo religioso para compreendermos valor dado a palavra dissidente, o termo seria apostata. Esta é uma distorção, muitas vezes, inconsciente feitas por simpatizantes da psicanálise, que simplesmente hostilizam a Jung e seu corpo teórico sem conhece-lo, apenas por ele ter rompido com o pensamento freudiano.

A psicanálise como pré-requisito?

Ao pensarmos sobre a dissidência de Jung, o texto do dicionário de psicanálise nos permite pensarmos outra distorção comum nos currículos acadêmicos, que consiste em colocar a psicologia analítica como “descendente” da psicanálise, isto é, colocar a psicanálise como pré-requisito para se estudar a psicologia analítica.

A ruptura com Freud, nos primórdios do movimento psicanalítico, não representou uma influência decisiva na construção junguiana, de tal forma, que não há qualquer necessidade de ter conhecimentos de psicanálise para se compreender o pensamento junguiano. Peço ao leitor que me não me tome por extremista ou fundamentalista, na verdade, o que afirmo aqui é a independência da psicologia analítica em relação a psicanálise. Não há necessidade de passar por Freud para chegar a Jung, pois, a psicologia analítica não descende da psicanálise.  Mesmo que tenhamos termos similares (libido, transferência etc) são utilizados de forma própria.

Acredito que superar essas distorções é fundamental para termos uma consideração realista acerca da psicologia analítica.

Referências Bibliográficas

CLARKE, J.J. Em busca de Jung. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993

GAY, P. Freud, uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.  

ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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100 anos de Metamorfoses: Alguns comentários ao “Símbolos da transformação” de C.G.Jung

(3 de janeiro e 2012)

Em 2012, um dos livros mais importantes para a história da psicologia analítica completará 100 anos, o “Símbolos da Transformação” . clip_image001

Originalmente, seu título era “Metamorfoses e Símbolos da Libido” que teve a sua primeira parte publicada em 1911, a segunda parte foi publicada em 1912, pouco tempo após a publicação, foi lançado a edição integral do livro. Esta segunda parte merece destaque pois, ela tornou pública a divergência teórica que existia entre Jung e Freud. Dado a importância que Jung via nesta obra, em 1950 ele promoveu uma ampla revisão e ampliação do livro, atualizando a linguagem, conceituação, mas, sem perder a essência do texto, que veio a se chamar “Símbolos da Transformação” como conhecemos hoje.

Neste primeiro post, pretendo discutir um pouco alguns aspectos históricos que considero importantes para compreender o lugar que livro ocupa na obra junguiana.

C.G.Jung e o “Símbolos da Transformação”

Em suas memórias Jung nos conta a semente que originou esse livro foi lhe dada num sonho,

Eis os sonho: eu estava numa casa desconhecida, de dois andares. Era a “minha” casa. Estava no segundo andar onde havia uma espécie de sala de estar, com belos móveis de estilo rococó. As paredes eram ornadas de quadros valiosos. Surpreso de que essa casa fosse minha, pensava: “Nada mau!” De repente, lembrei-me de que ainda não sabia qual era o aspecto do andar inferior. Desci a escada e cheguei ao andar térreo. Ali, tudo era mais antigo. Essa parte da cada datava do século XV ou XVI. A instalação era medieval e o  ladrilho vermelho. Tudo estava mergulhado na penumbra. Eu passeava pelos quartos, dizendo: “Quero explorar a casa inteira!” Cheguei diante de uma porta pesada e a abri. Deparei com uma escada de pedra que conduzia à adega. Descendo-a, cheguei a uma sala muito antiga, cujo teto era em abóboda. Examinando as paredes descobri que entre as pedras comuns de que eram feitas, havida camadas de tijolos e pedaços de tijolo na argamassa. Reconheci que essas paredes datavam da época romana. Meu interesse chegara ao máximo. Examinei também o piso recoberto de lajes. Numa delas, descobri uma argola. Puxei-a. A  laje deslocou-se e sob ela vi outra escada de degraus estreitos de pedra, que desci, chegando enfim a uma gruta baixa e rochosa. Na poeira espessa  que recobria o solo havia ossadas, restos de vasos,e vestígios de uma civilização primitiva. Descobri dois crânios humanos, provavelmente muitos velhos, já meio desintegrados. – Depois, acordei. (JUNG, 1975, 143)

Esse sonho ocorreu durante a viagem que ele realizou com Freud aos Estados Unidos em 1909. Nesta viagem, Jung relata que haviam ocorridos alguns desentendimentos com Freud, que abalaram a amizade que tinham. Jung conta que Freud não foi capaz de apreender o conteúdo deste sonhos, fixando-se na imagem das caveiras, que julgou ser um desejo de morte por parte de Jung. Ficou claro para Jung que a diferença que havia entre ambos, impedia a Freud de compreender o conteúdo de seu sonho. Entretanto, para Jung a semente do sonho começou a germinar.

O sonho da casa teve um curioso efeito sobre mim: despertou meu antigo interesse pela arqueologia. Voltando a Zurique, li um livro sobre as escavações na Babilônia e diversas obras os mitos. O acaso me conduziu ao Simbolismo e Mitologia dos Povos Antigos, de Friedrich Creuzer, e esse livro me causou entusiasmo.(ibid, p. 145)

Estimulado por esse sonho, Jung enveredou pelo estudo da mitologia, aprofundando conhecimentos de história, símbolos, mitos de diversos povos.

Quando estava imerso nesses trabalhos, encontrei os materiais fantasmagóricos nascidos da imaginação de uma jovem americana que eu não conhecia, Miss Miller. Haviam sido publicados por Teodoro Flournoy, amigo paternal, que gozava de toda minha estima, nos Archives de Psychologie(Genebra). Fiquei imediatamente impressionado pelo caráter mitológico dessas fantasias. Agiram como um catalisador sobre as idéias ainda desordenadas que eu acumulava. A partir dessas fantasias, e também dos conhecimentos que adquirira sobre mitologia, nasceu meu livro Metamorfoses e símbolos da Libido. (ibid, p. 146).

É interessante observarmos que em 1911, as relações entre Freud e Jung já estavam conturbadas desde a viagem aos EUA em 1909, entretanto, outros eventos contribuíram com a “degradação” da amizade. Devemos lembrar que em 1910 na por ocasião do congresso em Nuremberg foi fundada a International Psychoanalytical Association, e teve como primeiro presidente eleito Jung. Deirdre Bair, uma importante biógrafa de Jung, nos dá uma noção interessante do cenário de 1911.

Visto em perspectiva, é irônico que o mais parcial dos biógrafos de Freud, Ernest Jones, tenha sido aquele que mais objetivamente descreveu o obscurecimento da situação de Jung e Freud quando terminava o ano de 1911 e começava o ultimo ano da colaboração entre os dois. De acordo com Jones, o motivo da ruptura e o que mais perturbou  Freud não foi aquele acusado por tantos comentaristas – a crescente diferença entre a interpretação que os dois estudiosos faziam do conceito de libido. Ao contrário, foi a “intensa absorção de Jung por suas pesquisas [que] estava interferindo nos deveres presidenciais que [Freud] tinha atribuído a ele”. Na cabeça de Freud, o principal papel de Jung era o de seu “sucessor direto, […] funcionando como foco central para todas atividades psicanalíticas.” (BAIR, 2006, p.272-3)

Bair destaca que as atividades psicanalíticas envolviam sobretudo a administração das atividades da associação, trabalho editorial, supervisão de colegas e fazer a ligação das entidades psicanalíticas. Assim, para Freud a função de Jung era desenvolver o movimento psicanalítico e não a teoria psicanalítica.

Jones parecia achar que Jung era culpado de um pecado ainda mais importante, o de não estar a altura dos “desejos mais pessoais de Freud” por que ele era “sempre um correspondente um tanto imprevisível; sua dedicação às pesquisas tornava-o cada vez mais negligente a esse respeito”. A dedicação e a pesquisa independente também faziam com que Jung representasse uma ameaça cada vez mais formidável para Freud. Entretanto, Jones cuidadosamente evitou esse tipo de observação, ou não era perspicaz o suficiente para percebê-la. (ibid, p. 273)

É possível que Jung não tenha percebido o quanto estava absorvido por sua pesquisa, considerando, que seu desempenho na presidência da IPA aceitável. Contudo, a produção deste trabalho não foi tranquila, especialmente na segunda parte onde Jung anunciava para a sociedade psicanalítica suas diferenças com Freud. Em suas memórias, Jung afirma

“Quando estava quase acabando de escrever Metamorfoses e Símbolos da Libido, eu sabia de antemão que o capítulo “O sacrifício” me custaria a amizade com Freud.Nele expus minha própria concepção do incesto da metamorfose decisiva do conceito de libido e de  outras idéias, que representavam meu afastamento de Freud.” (JUNG, 1975, p. 149).

Assim, a gênese do “Símbolos da Transformação”, desde seu primeiro sonho, conduziu Jung ao campo de estudo que lhe era próprio, mas, estava adormecido. A dedicação as pesquisas absorveram Jung irritando profundamente a Freud, a ponto de tornar a relação insustentável, assim como a cooperação teórica.

Símbolos da Transformação, Críticas e Legado

Jung sabia que seu trabalho o afastaria de Freud, contudo, esse não foi o único efeito “colateral” de seu livro. Em suas Memórias, ele afirma,

Depois da ruptura com ele, todos meus amigos e conhecidos se afastaram de mim. Meu livro não foi considerado uma obra séria. Passei por um místico e desse modo encerram o assunto. Riklin e Maeder foram os únicos que ficaram do meu lado. Mas eu tinha previsto a solidão e não me iludi acerca das reações dos pretensos amigos. Muito pelo contrário, refleti profundamente sobre o assunto. Sabia que o essencial estava em jogo e que deveria tomar a peito minhas convicções. Vi que o capitulo “O Sacrifício” representava o meu sacrifício. Isso posto, pude recomeçar a escrever, se bem que de antemão que ninguém compreenderia minhas idéias. (JUNG, 1975, p. 149).

Nesse mesmo ano de 1912, Freud criou o chamado “Comitê’” que seria um grupo secreto de psicanalistas proeminentes e sobretudo fiéis ao mesmo . Esse “grupo secreto” zelaria pela psicanálise combatendo duramente qualquer idéia que desviasse da concepção ortodoxa, de modo a evitar que Freud se desgastasse em discussões políticas, formando uma espécie de “guarda pretoriana” de Freud, os primeiros membros deste comitê foram:  Ferenczi, Abraham, Jones, Rank, Sachs.

Assim, coube Ferenczi a refutação publica das idéias de Jung, o que ele realizou num ensaio em 1913, ao passo que nos bastidores o destino de Jung, já estava selado: seria o mesmo de Adler e Stekel – expulsão do movimento psicanalítico. A crítica que Ferenczi seguiu exatamente as diretrizes por ele apresentadas:

Criticaremos esse livro exclusivamente de um ponto de vista psicanalítico, detendo-nos sobretudo naquelas teses que pretendem opor às nossas concepções psicanalíticas atuais novas e melhores maneiras de ver. O futuro decidirá se não estaremos exagerando no nosso esforço de não sacrificar o antigo ao novo – simplesmente porque é novo  se não sucumbiremos assim a esse mesmo conservadorismo rígido que temos recriminado até agora em nossos principais adversários. (FERENCZI, 1992, p.87) (grifo nosso)

A proposta de Ferenczi foi muito clara, seu intuito seria fazer uma avaliação do que era psicanálise e o que não era, separando o “joio do trigo”. O trabalho de Jung não foi considerado “em si” ou em seu próprio contexto, ou como uma ampliação do campo de estudo, mas, como a obra de um inimigo ou opositor. A crítica de Ferenczi, seu afastamento de Freud, o trabalho do comitê secreto que o combatia nas diferentes sociedades que compunham a IPA, fez com que Jung fosse desacreditado e seu livro, como ele afirmou, “não foi considerado uma obra séria”.

Os acontecimentos que seguiram a publicação do “Metamorfoses” foram determinantes para a gênese da psicologia analítica, assim como para a transformação pessoal de Jung, conforme temos acesso hoje, através do Livro Vermelho.  A importância dessa obra, foi indicada por Jung em 1950,

Assim, este livro se tornou um marco, colocado no lugar onde dois caminhos se separam. Por sua imperfeição e suas falhas ele se transformou no programa dos próximos decênios minha vida”[…]

Este livro foi escrito em 1911, quando eu contava trinta e seis anos de idade. Esta é uma época crítica, pois representa o inicio da segunda metade da vida de um homem, quando não raro ocorre uma metanóia, uma retomada de posição na vida. Eu bem sabia na ocasião, do inevitável rompimento com FREUD tanto no trabalho quanto na amizade. (JUNG, 1999, XIV-XVII)

O “Símbolos da Transformação” marca o inicio de um novo caminho, o inicio da psicologia analítica. Sua importância vai além de um aspecto histórico, pois, na década de 1950, a mudança de nome significou seu renascimento. Este livro guarda em si tanto a semente lançada em 1912 como os frutos colhidos na década 1950, o que o torna uma obra impar na literatura junguiana.

No decorrer deste ano iremos fazer outros posts discutindo um pouco mais dessa importante obra centenária.

Referências Bibliográficas

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

JUNG, C.G. Simbolos da Transformação, Petrópolis: Vozes, 4ed., 1999.

BAIR, D. Jung – uma biografia vol.1 , Ed. Globo 2006.

FERENCZI, S. Psicanálise II , São Paulo: Martins Fontes, 1992.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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