Respondendo a Aldo Costa “Para você, que pontos nós junguianos ‘ainda não aprendemos a herdar com serenidade’”

(22 de agosto de 2012)

Há algum tempo, Aldo Costa um leitor que colabora bastante com nosso blog enviou um comentário com uma pergunta,

Prezado Fabrício,

Realmente o livro do Roberto Gambini é excelente (considero leitura obrigatória). Porém, ainda hoje me pego analisando as possibilidades possíveis quando ele diz que: “Nós junguianos temos um complexo de herança – ainda não aprendemos a herdar com serenidade. Alarmamo-nos com a idéia de que a herança possa ocultar um problema paterno, ou que ameace nossa liberdade criativa.”
Qual a sua opinião sobre o trecho citado? Para você, que pontos nós junguianos “ainda não aprendemos a herdar com serenidade”.

Acredito que para começarmos a pensar uma possível resposta devemos voltar ao texto do Gambini. Em seu livro, ele aponta para um complexo de inferioridade junguiano frente a psicanálise, segundo ele,

Um dos problemas a essa questão é o famoso complexo de inferioridade dos junguianos perante os freudianos. (…)

Surgiu então uma certa tendência entre os junguianos, de se fortalecerem através da adoção de procedimentos freudianos, como se isso os legitimasse num terreno de insegurança. O analista junguiano que aprende o uso da técnica psicanalítica, com seu manejo típico da transferência e da resistência, que faz interpretações nessa campo da maneira como é concebida pela Psicanálise, que pensa o momento analítico como repetição do vivido, que concebe o material reprimido como sendo aquilo que uma vez esteve na consciência, que entende os sonhos como exclusiva manifestação de desejos infantis, esse analista junguiano está na verdade pensando  e operando como um psicanalista. Alguns usam divã. De um lado se diz que o sincretismo é positivamente uma aproximação de linhas então divergentes. Digo que não. A Psicanálise até hoje não lucrou rigorosamente nada com a aproximação que lhe fez a Psicologia Analítica, talvez tenha antes se comprazido com o reconhecimento tardio dos descendentes do principal desertor do circulo vienense original. O resultado dessa tendência é a crescente descaracterização da Análise Junguiana, à medida que seus praticantes vão procurar na Psicanálise elementos que supostamente lhes falem. Grifo a palavra supostamente. (GAMBINI, p. 42-44).

Acredito que esse complexo de inferioridade defendido por Gambini não se caracteriza apenas pela “inferioridade frente a psicanálise”, outra forma dessa inferioridade é o que Andrew Samuels, em seu texto, “Sobreviverão os Pós-junguianos”, chamou de “fundamentalismo junguiano” é uma forma compensada deste complexo. Segundo Samuels,

Como todos os fundamentalismos, o fundamentalismo junguiano deseja controlar quem ou o que faz parte e/ou não faz. Daí tende a ser cruel e estigmatizante. Ouve-se, às vezes, numa avaliação das circunstâncias de treinamento: “Ele (ou ela) não tem mente psicológica,” dizem. Ou a tipologia é utilizada para estabelecer situações sociais, culturais ou interpessoais complexas, de um modo inteiramente improdutivo e oracular. Mulheres intelectuais podem ser sumariamente executadas. O fundamentalismo junguiano nega seu papel no mercado de trabalho – tenta convencer-nos de que ele apenas é, que não tem um projeto persuasivo, procurando influência, como o resto de nós. Há uma tentativa de negar seu aspecto comercial, inclusive o financeiro. O fundamentalismo junguiano enfatiza a pessoa de Jung e suas palavras proféticas, que, às vezes, chegam até mesmo a alegar serem inspiradas pelo divino. Mas o que enfatiza, particularmente, é como vivia Jung. Às vezes isso é chamado de “o caminho junguiano”. Tenho horror à essa noção de haver “um” ou “o” caminho junguiano, mas o fundamentalismo junguiano joga com isso.

(…)

Deixem-me prosseguir, fazendo uma crítica semelhante à tendência jungiana atual em direção à fusão com a psicanálise. Quero deixar bem claro que não sou contra o uso da psicanálise pelos junguianos, como é o caso da escola desenvolvimentista. Como foi que apareceu no mundo junguiano, essa tendência atual de fundir-se com a psicanálise? Em primeiro lugar, acho que, muitas vezes, baseou-se em alguma coisa excessivamente pessoal, visto que vários junguianos que fizeram análise pelas escolas jungianas clássica ou desenvolvimentista não ficaram satisfeitos com suas experiências ali. Daí a fusão jungiana com a psicanálise pode estar baseada, em minha opinião, na raiva e numa idealização da psicanálise como sendo, de alguma forma, clinicamente melhor, como possuindo requintada e superior habilidade clínica, quando comparada com a nossa.

Isto leva os junguianos a fecharem os olhos às enormes contribuições clínicas que têm sido feitas pelos próprios junguianos. Não estou fazendo a queixa costumeira (referida acima) de que ninguém reconhece que “nós” pensamos nisto primeiro. Minha queixa aqui é a de que os próprios junguianos da escola psicanalítica não atentam para certas idéias que são nossas por direito de nascença e por herança. (SAMUELS, S/D)

Entretanto, não basta pensar apenas como um complexo de inferioridade, relacionado aos desenvolvimentos e reconhecimentos alcançados pela psicanálise. Não podemos perder de vista que há, também, uma certa relação estabelecida com  a figura de Jung, que em alguns casos beira a mitificação de Jung por um lado, por outro, um distanciamento excessivo das concepções junguianas. Samuels foi extremamente feliz quando propôs o termo pós-junguianos, segundo ele “Quero expressar com isso uma conexão com Jung e, ao mesmo tempo, distância crítica de Jung” (op.cit). Samuels nos fala da necessidade de um luto adequado de Jung.

Se não houvéssemos feito luto adequado por Jung, estaríamos deprimidos. E realmente acho que exista uma depressão no mundo junguiano de hoje que torna difícil valorizar-nos suficientemente para abrirmo-nos a outros psicoterapeutas e intelectuais em geral. O que significaria estar de luto por Jung? Significaria pôr-se além de uma divisão idealização-depreciação em relação a ele, uma divisão que sinto contaminar algo de nossos pensamentos e, certamente, de nossas práticas.

Acredito que estamos dando passos importantes para a “elaboração” desse luto. Mas, a julgar pelo que vemos através das redes sociais temos ainda temos um belo percurso pela frente. Vejo muitos ainda com uma visão extremamente idealizada de Jung, mas, que pouco se dedicam a compreender seus textos assim como os textos dos pós-junguianos. Na elaboração desse luto acredito que a psicologia arquetípica tenha uma contribuição fundamental, pois, ela nasce como uma leitura crítica dos textos de Jung. Acredito que muitos junguianos ainda careçam dessa critica aos textos junguianos, especialmente, os que seriam classificados como “clássicos”. 

Então, Aldo, peço desculpas por essa longa volta… acredito que posso voltar a sua pergunta inicial, o que acho do texto de Gambini? Sim, concordo com o texto.

O que não aprendemos a lidar com serenidade?

Faço das palavras de Gambini e de Samuels as minhas, acho que devemos conscientizar esse o complexo de inferioridade que se traduz em diversos aspectos, como a dependência da figura do pai, muitas vezes traduzidas como o “Mestre Jung”, como se não houvesse produção após Jung! Nossa, o universo junguiano ou pós-junguiano é muito rico! E, muitas vezes, vemos apenas uma pontinha dele… Estudar os textos de Jung é fundamental, mas, não podemos nos tornar reféns de sua obra. Compreendo que fazer jus a Jung é ir para além de Jung. É se abrir ao dialogo, mas, sem ter um “pires na mão” pedindo reconhecimento. É compreender que a psicologia junguiana é plural. E nisso reside nossa força, nossa identidade. Me recordo da frase do belo texto de Clarice Lispector “Perdoando Deus”, que diz “Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrario(…)”  Acho muitas vezes agimos assim, nem ao menos conhecemos todas as possibilidades das escolas junguianas, já nos voltamos a outras abordagens.  Talvez, um desafio será aprendermos a lidar com serenidade com a psicologia junguiana em sua totalidade e com toda sua possibilidade.

Aldo, desculpe a demora para responder suas perguntas. Fico muito feliz com suas colaborações! Abraços,

Referências Bibliográficas

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

SAMUELS, A. Sobreviverão os Pós-Junguianos? Disponível em:
http://www.rubedo.psc.br/Artigos/sobrevi.htm   Acesso em:  22 agosto. 2012, 15 p.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas considerações sobre o conceito de “projeção”

(02 de abril de 2012)

Recentemente, no Facebook,  a colega Tania Frison me pediu para indicar um texto sobre a questão de na projeção psicologia analítica. Como não conhecia nenhum texto, pensei em produzir um pequeno comentário sobre esse conceito.

Em primeiro lugar é fundamental lembrarmos que o conceito de projeção é uma herança psicanalítica adotada por Jung. Apareceu nas “primeiras publicações psicanalíticas” de Freud, mais precisamente no texto “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” de 1896. Nesse texto, Freud um estudo comparativo entre histeria, neurose obsessiva e paranóia, para então compreender e apresentar o mecanismo de defesa dessas neuroses.

Parte dos sintomas, ademais, provém da defesa primária – a saber, todas as representações delirantes caracterizadas pela desconfiança e pela suspeita e relacionadas à representação de perseguição por outrem. Na neurose obsessiva, a auto-acusação inicial é recalcada pela formação do sintoma primário da defesa: aautodesconfiança. Com isso, a auto-acusação é reconhecida como justificável; e, para contrabalançá-la, a conscienciosidade que o sujeito adquiriu durante seus intervalos sadios protege-o então de dar crédito às auto-acusações que retornam sob a forma de representações obsessivas. Na paranóia, a auto-acusação é recalcada por um processo que se pode descrever comoprojeção. É recalcada pela formação do sintoma defensivo de desconfiança nas outras pessoas. Dessa maneira, o sujeito deixa de reconhecer a auto-acusação; e, como que para compensar isso, fica privado de proteção contra as auto-acusações que retornam em suas representações delirantes. (FREUD, 1996, p.182)

No texto acima, podemos perceber que Freud descreve a projeção como um mecanismo defesa, onde um conteúdo pulsional é reprimido, modificado e deslocado para um objeto externo.  Essa é a visão clássica da psicanálise.

A compreensão de Jung acerca da projeção é, até certo ponto,  próxima da psicanálise, especialmente em seu aspecto estrutural, segundo Jung,  “A projeção – onde quer que os conteúdos subjetivos sejam transportados  para o objeto, surgindo como se a ele pertencesse – nunca é um ato voluntário”(JUNG, 2000, p. 146). Contudo, a semelhança termina por aqui.

No que diz respeito ao aspecto funcional, a compreensão de Jung é outra, pois, para ele o mecanismo de projeção fazia parte da dinâmica normal (ou  natural) da psique, podendo estar relacionada a uma dinâmica saudável da psique ou atuar como uma mecanismo de defesa como na patologia(como era na visão de Freud). Toda e qualquer afirmação acerca de um caso específico onde a projeção se manifesta deverá considerar seu próprio contexto.

Daryl Sharp, em seu “Léxico junguiano”(1993), nos informa alguns aspectos importantes acerca da projeção segundo Sharp,

É possível projetar certas características em outra pessoa que não as possui em absoluto, mas, a pessoa sobre a qual se dá a projeção pode, inconscientemente, encorajar a tal projeção.

(SHARP, 1993, p.127)

(NOTA:  Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar  a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

Em tais casos é freqüente ver que o objeto oferece uma oportunidade de escolher a projeção, ou mesmo a provoca. Isto acontece quando o objeto (pessoa) não está consciente da qualidade projetada. Com isto ela atua diretamente sobre o inconsciente do interlocutor. Com efeito, qualquer projeção provoca uma contra-projeção todas as vezes que o objeto não está consciente da qualidade projetada sobre ele pelo sujeito.(JUNG, 2000b, p.211)

Sharp/Jung nos apresenta aspectos importantes que nos permitem compreender a dinâmica da projeção, esmiuçando essa citação:

1 – Muitas vezes a projeção é provocada, incentivada, ou motivada por certas características do objeto.

2 – A projeção pode significar uma relação inconsciente de dois individuos.

3 – A projeção provoca uma contra-projeção.

Esses três aspectos estão intimamente relacionados, acredito que um exemplo, pode nos ajudar. Um rapaz imaturo, dependente,  indeciso, com um complexo materno acentuado, pode projetar numa mulher forte e independente (com quem tenha ou não relação afetiva), aspectos de seu complexo materno, mesmo que essa mulher não apresente caracteristicas maternais, pode vir, devido a projeção, apresentar características de cuidado maternal. Esses atribuitos de “independência e força” podem servir de “gancho” favorecendo a projeção, isto é, oferecendo um “gancho” para que a projeção fosse “pendurada”.

Assim, compreendendo que a projeção corresponde a uma dinâmica natural da psique, podemos dizer que

A projeção tem, também, efeitos postivos. No dia-a-dia, ela facilita as relações interpessoais. Além disso, quando supomos que alguma característica ou qualidade está presente em uma pessoa, e constatamos, então, pela experiência, que a suposição não tem fundamento, podemos aprender algo sobre nós mesmos. (SHARP, 1993, p.127-8)

(NOTA: Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

Por isto, enquanto o interesse vital, a libido, puder utilizar estas projeções como pontes agradáveis e úteis, ligando o sujeito com o mundo, tais projeções constituem facilitações positivas para a vida. Mas logo que a libido procura seguir outro caminho e, por isto, começa a regredir através das pontes projetivas de outrora, as projeções atuais atuam então com os maiores obstáculos neste caminho, opondo-se, com eficácia, a toda verdadeira libertação dos antigos objetos. (JUNG, 2000b, p. 203)

Assim, Sharp/Jung apontam como as projeções propicia a dinâmica interpessoal. Essas projeçôes diminuem as defesas e auxiliam o individuo se permita a experiência.

A necessidade de retirar as projeções é, geralmente, indicada por expectativas frustradas nos relacionamentos, acompanhadas de um forte afeto. Jung era da opinião, contudo, que enquanto houver uma discordância óbvia entre aquilo que imaginamos ser verdade e a realidade que se nos apresenta, não há necessidade de se falar em projeções e menos ainda de retira-las. (SHARP, 1993, p.128)

(NOTA: Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

(…) mas só se pode denominá-la projeção quando aparece a necessidade de dissolver a identidade entre sujeito e objeto. Esta necessidade aparece quando a identidade se torna empecilho, isto é, quando a ausência de conteúdo projetado prejudica muito a adaptação, e o retorno desse conteúdo para dentro do sujeito se torna desejável. A partir desse momento a prévia identidade parcial adquire o carater de projeção. Esta expressão designa, pois, um estado de identidade que se tornou perceptível(JUNG, 1991, p. 436)

O texto de Sharp/Jung nos oferece uma compreensão muito importante, somente podemos falar em projeção quando ela se torna desfuncional, nesse caso, será perceptível a incompatibilidade entre as percepções do sujeito e a realidade do objeto. Antes disso, ela será apenas parte da dinâmica natural.

Jung ainda fazia uma distinção entre projeção ativa e passiva. Em linhas gerais, a projeção ativa seria o que chamamos de empatia, “sentir com o outro” ou “sentir como o outro” o que poderia chegar a identificação. Por outro lado, a projeção passiva seria o que compreendemos normalmente como a projeção, um fenômeno inconsciente que nos toma.

Frente ao que comentamos, fica mais claro para compreender algumas das projeções específicas, como a sombra, anima ou animus e os complexos. De forma geral, para haver a projeção é necessário um “gancho” sobre o qual possa se estabelecer essa projeção. No caso da sombra, que está relacionado com os aspectos próprios negados pelo Ego, a tendência é a projeção em pessoas do mesmo sexo. Pois, a identidade se torna mais clara. Essa projeção da sombra, em alguns casos é “aversiva”  e o individuo vai se sentir “perseguido” ou tendo na receptáculo da projeção um inimigo. Em outros casos, a projeção da sombra se torna atraente, pois, a projeção da sombra pode indicar justamente aspectos subdesenvolvidos, que o sujeito precisa se desenvolver.

Por outro lado, a projeção da anima do homem ou do animus na mulher, vão sempre se relacionar a pessoas do sexo oposto. Isso porque os aspectos que vão constituir a anima ou animus não estão relacionados com a identidade do ego, mas, podem ser compreendidos como o totalmente outro.   

Acredito ser importante compreendermos que os vários aspectos da projeção, quer numa dinâmica de defesa ou na dinâmica saudável, têm por finalidade última favorecer o encontro do individuo consigo mesmo. Ao projetar um conteúdo no meio externo o inconsciente não “esconde” esse conteúdo, mas, expõe o individuo a esse conteúdo de uma forma que não ofereça tanto perigo ao Ego, possibilitando que o no momento certo o individuo possa se confrontar e integrar esse conteúdo, dando mais um passo no processo de individuaçao.

Referências Bibliográficas

FREUD, S. . Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. III.

JUNG,C.G. Vida Simbólica Vol. I , Petrópolis,: Vozes 2000

_________ Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

_________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

SHARP, Daryl – Léxico jungiano: dicionário de termos e conceitos – São Paulo: Cultrix. 1993. 167 p. (Estudos de Psicologia Junguiana por Analistas Junguianos)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Resposta a um comentário de Aldo Costa: Sobre o que é ser um “analista junguiano”

(13 de março de 2012)

Há algumas semanas  Aldo Costa, um leitor que participa ativamente de nosso blog, postou um comentário muito interessante. Ele comentou:

Prezado Fabrício, 

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada? Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?
Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).
Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.
E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?
Qual a sua opinião?

Muito obrigado.

Confesso que gostei muito dos questionamentos levantados pelo Aldo, ainda mais, por acreditar que ele deu voz a inúmeras outras pessoas que tem essas mesmas dúvidas. Até porque são questões complexas, que tentarei responde-las da melhor forma possível. Caminhemos um passo de cada vez,

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada?

No Brasil, nenhuma abordagem psicoterapêutica é considerada profissão regulamentada. Isto é, não há nenhuma lei que cria e regulamenta seja a profissão de “analista junguiano”, “analista bioenergético” ou de psicanalista.

No inicio da década passada, houve uma tentativa de regulamentação da profissão de psicanalista. Na época, as principais entidades de referência da psicanálise, apoiadas pelo Conselho Federal de Psicologia, Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria, dentre outras, se organizaram contra essa regulamentação, participando de audiências e produzindo documentos expondo os motivos, desde os apontamentos nos textos de Freud até a situação contemporânea da psicanálise, para não se regulamentar a profissão de psicanalista.

Essa oposição pela regulamentação da psicanálise estava pautada sobretudo no critério de formação. Pois, uma regulamentação padronizaria o exercício profissional e delimitaria um currículo e tempo de formação. Num texto sobre essa questão da regulamentação da psicanalise, BALEEIRO apresenta um esboço daquela proposta de regulamentação

O Projeto n.º 3.944 é composto de seis capítulos. Inicialmente, faz algumas considerações, justificando assim a sua necessidade. No geral, trata da regulamentação da seguinte forma:

Cap. I. – define quem é e de quem trata o psicanalista e onde atua – Psicanalista é a profissão e o título é de psicanalista clínico – trata de pacientes portadores de distúrbios psíquicos de natureza inconsciente;

Cap. II – quem forma – as sociedades serão registradas, reconhecidas e vinculadas ao MEC que irá definir: currículo mínimo, matérias complementares, estágio, obrigatoriedade da análise didática;

Cap. III – reconhece as sociedades existentes antes da vigência da lei – no entanto fixa critérios para as próximas e regulamenta as existentes, ligando-as ao MEC;

Cap. IV – quem fiscaliza e registra as entidades – o Conselho Federal e os Estaduais de Medicina.( BALEEIRO, 2002)

A regulamentação da psicanálise significaria, por um lado, a definitiva mercantilização da psicanálise (ainda presente em função de cursos de formação de 2 anos) por outro, essa regulamentação abriria a possibilidade que qualquer instituição que atendesse os critérios do MEC, poderia direcionar a psicanálise de acordo com os próprios interesses, como instituições religiosas. Não há nenhuma duvida de que se a psicanálise fosse regulamentada, esta se tornaria em larga escala posse de instituições religiosas – usando-a para justificar seu próprio sistema. Como já vemos, na chamada psicanálise cristã.

Mas, porque eu insisti tanto em falar da psicanálise? Justamente porque a análise junguiana não possui a representatividade  da psicanálise, desta forma, os acontecimentos dessa abordagem serviria como um paradigma para pensar os desdobramentos das demais abordagens que lidam com o inconsciente.

Em nossos dias é comum vermos junguianos adotando o titulo de “psicanalistas junguianos”. Isso nos dá um bom indicativo de que se a psicanálise fosse regulamentada, seriam oferecidos cursos de psicanálise freudiana, psicanálise junguiana dentre outros. É sabido que alguns misturam a psicologia analítica com suas crenças religiosas, havendo essa regulamentação, daria o respaldo oficial para essa mistura. De certa forma, ainda há a possibilidade de um certo controle da comunidade profissional para evitar a mercantilização e o domínio ideológico da abordagem, pois,  cabe as instituições e os profissionais delimitarem as diretrizes, selecionar os candidatos que se adeqúem as exigências pessoais e éticas ao exercício da analise.

Deste modo, a regulamentação é algo que é combatido pela comunidade profissional, pois,  abriria uma possibilidade de deturpar a análise junguiana, ou qualquer outro tipo de análise.

Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?

Infelizmente, não tenho informações sobre a regulamentação em outros países, assim, fico devendo esta resposta.

Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).

Essa é uma questão bem polêmica.  Veja bem, no Brasil, os cursos de formação de analistas junguianos são cursos livres , isto é, não possuem um caráter oficial, não reconhecidos pelo MEC. Por mais que tenham uma carga horária alta (cerca de 750 h), não possuem um valor efetivo enquanto titulação. O fato de ser em uma instituição respeitada como a SBPA ou a AJB, que são vinculadas a IAAP, nos informa acerca da qualidade do curso, mas, não altera muito a questão da titularidade que, como disse, é de curso livre.

Quero deixar claro que em hipótese alguma quero desmerecer a formação vinculada a SBPA, AJB ou qualquer instituição vinculada a IAAP, cuja qualidade e profundidade são inquestionáveis.

Entretanto, na minha opinião, o que acontece é que de fato,  como não há regulamentação, a designação “analista junguiano” se torna uma identidade teórica. Assim, o psicólogo que se identifica com a psicologia analítica ou com a análise junguiana se assuma “analista junguiano”. Do mesmo modo que um psicólogo que estuda psicanálise se apresente como “psicanalista”, não indicando necessáriamente uma formação, mas, uma identidade teórica ou de abordagem.

Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.

A afirmação do Dr. Léon Bonaventure deve ser compreendida à luz de sua história. Vale apena recordar que Dr. Léon Bonaventure foi o primeiro analista junguiano reconhecido pela IAAP a vir para o Brasil, em 1967.  Ele foi um “ativista junguiano” muito importante, sendo um dos responsáveis pelo projeto da tradução das obras completas. Segundo Arnaldo Motta (2005) nos finais da década de 70, muitos médicos e psiquiatras buscaram do Dr. Bonaventure para realizar análise didática, criando em torno dele um grupo de pessoas interessadas em criar um instituto de formação em psicologia analítica aberto a diversos profissionais, essa proposta de Dr. Bonaventure encontrou resistência do Dr. Carlos Byington, que defendia a restrição da função de analista a psicólogos e médicos.

Após um periodo desgastante, Dr. Léon Bonaventure se afastou do grupo por ele criado. Este grupo, vinculando-se a liderança do Dr. Carlos Byinton deu origem a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, em 1978. Apesar de seu importante papel, ele não foi convidado para compor ou participar da SBPA que nascia. Outros pioneiros junguianos de importância inquestionável na psicologia analítica brasileira, como Dr. Petho Sandor e a Dra. Nise da Silveira também não fizeram parte da sociedade, por ocasião de sua fundação.

Com essas informações, podemos compreender que fazer parte de uma Sociedade ou Associação, muitas vezes implica num movimento político. E, fazer parte ou não de uma instituição não significa que o individuo não será um bom analista junguiano. Outro exemplo, é Roberto Gambini, analista junguiano formado em Zurique, não é membro da SBPA ou da AJB.

E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?

Bem Aldo, acredito que essa pergunta já foi contemplada, né? De certa forma, analista junguiano pode ser compreendida como uma identidade teórica. Compreendendo também, que o curso de formação de analista  não é exclusivo de instituições vinculados a IAAP.

Você também me pediu minha opinião, ok. Pessoalmente, eu respeito profundamente os analistas vinculados a IAAP, tive vários professores da SBPA. De igual modo, respeito profundamente tanto a SBPA quanto a AJB. Mas, acredito supervalorizamos a psicologia analítica “institucional”. No Brasil, temos vários grupos independentes que estudam e trabalham seriamente divulgando o pensamento junguiano. Devemos dar mais valor a esses movimentos.

Concordo com Dr. Léon Bonaventure, a identidade junguiana não está em certificados ou em carteirinhas de sociedades, mas sim, em viver a individuação. Penso que muitas vezes, a formação não é pensada como um treinamento profissional, mas, como uma autoafirmação profissional. Atendendo a necessidade de fazer parte de algo maior, um grupo.

Roberto Gambini, em seus últimos parágrafos do livro “A Voz e o Tempo”, nos diz,

(…)A psicologia junguiana não poderá jamais ser reduzida a uma técnica de exercício profissional ou de manejo de transferência no setting terapêutico, nem muito menos confinada a um código acadêmico, exatamente por ser um modo de observar, pensar e fazer no qual se fundem objetividade e arte, ciência e poesia, formação e iniciação. A objetividade que praticamos é e deve ser contaminada pela alma, pois sem sua mediação no mundo, tanto interior como exterior, nos é incompreensível. Nunca usaremos aventais brancos nem trabalharemos com instrumentos de precisão, sejam testes ou diagnósticos – assim como nunca seremos neofreudianos.

Digo outra vez: sentimentos de inferioridade profissional podem ser uma defesa que impede o contato com o Self.Nós junguianos temos um complexo de herança – ainda não aprendemos a herdar com serenidade. Alarmamo-nos com a idéia de que a herança possa ocultar um problema paterno, ou que ameace nossa liberdade criativa.

Ninguém é dono de Jung. Mas, podemos coletar as pepitas de ouro que encontramos pelo caminho e nos tornarmos a árvore única que cada um, desde o começo, está fadado a ser. (GAMBINI, 2008, p. 214)

Espero ter respondido as questões. Aldo Costa, muito obrigado por sua contribuição!!!

Referências bibliográficas

BALEEIRO, Maria Clarice. Sobre a regulamentação da psicanálise.Cogito,  Salvador,  2002 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-94792002000100013&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  13  mar.  2012.

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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O Canto do Cisne: um breve comentário a comentários acerca do filme “Cisne Negro”

25 de março de 2011

Agradeço a colaboração de Kelly Guimarães Tristão (psicóloga, Mestranda em Psicologia/UFES, Especialista em “Teoria e Prática Junguiana” e em “Psicologia Clínica e da Família) que com seu conhecimento e experiência no campo da saúde mental contribuiu bastante para a elaboração das idéias deste post.

Após muitos contratempos, finalmente, consegui assistir ao filme “Cisne Negro”. Realmente, a atuação de Natalie Portman é brilhante. Sobre o filme, eu posso dizer apenas que é um filme mediano e, se não fosse a maravilhosa atuação de Natalie Portman, seria fadado ao esquecimento. Antes mesmo de ver o filme, eu cheguei a ler vários comentários acerca do filme abordando o mesmo pelos mais diferentes ângulos, muitos eram pautados na teoria junguiana. Confesso que alguns comentários me causaram profunda estranheza, pois focalizavam aspectos simbólicos que, de certa forma, distorcia o que era expresso no filme, chegando a comparar o processo psicótico apresentado no filme com o processo de individuação. Assim, o objetivo desse post é uma reflexão indireta e teórica do filme a partir de outros comentários.

Algumas pessoas podem objetar dizendo que um filme é um conteúdo simbólico, que pode ser abordado por diferentes ângulos e pontos de vista, tal qual um sonho. Por mais que eu concorde que não devamos ser radicais, eu prefiro a cautela, e me manter ao que é apresentado pelo filme, e não ao que “poderia ser” se observarmos os símbolos isoladamente, pois é como Jung afirma acerca dos sonhos,

“a imagem manifesta do sonho é o próprio sonho e contém o sonho por inteiro. Quando encontro açúcar na urina, é açúcar mesmo, e não uma “fachada” , um disfarce para albumina.(…) Sendo assim, não temos de interpretar o que poderia existir por trás, apenas temos que aprender a lê-lo primeiro. (JUNG, 1999, p. 20)

Assim vou me deter em apenas dois pontos: a questão psicose de Nina e a função da dança.

A Psicose de Nina

O filme retrata o processo de abertura do surto psicótico de Nina, quando esta é confrontada com uma realidade que excede seus limites, que é ser a protagonista do “Lago dos Cisnes”, interpretando tanto o Cisne Branco quanto o Cisne Negro. Contudo, devemos notar alguns detalhes, prévios que somados ao delírio e as alucinações nos permitem pensar que Nina, seria uma personagem psicótica.

– Relação familiar: A relação de Nina e sua mãe  apresenta características típicas e favoráveis à psicose, uma relação simbiótica e extremamente rígida e ambivalente. Nos primeiros minutos do filme percebemos como a mãe de Nina, “domina” a vida da filha, inclusive  “vestindo” a filha como se fosse uma criança. Ao longo do filme, podemos ver como ela pode ser simultaneamente “cuidadosa” e cruel (com suas exigências e cobranças ).

– Antes da crise se manifestar explicitamente, o filme mostra que Nina era uma jovem de 28 anos que vive num mundo infantilizado (como podemos observar no seu quarto), por outro lado, podemos notar que não há uma clareza a respeito  da identidade sexual, não me pareceu que  Nina possua dúvidas acerca de sua sexualidade, mas, que não foi desenvolvido.

A crise se manifesta justamente quando ela está sob forte pressão, da mãe, do diretor, dela mesma.  Que é consoante ao que geralmente acontece em casos de esquizofrenia , onde o surto se manifesta num momento de forte tensão emocional, como rompimento de relacionamento, vestibular, casamento, nascimento de filho.

O processo de Nina é condizente com um quadro de esquizofrenia paranóide, com sintomas positivos de alucinação visual e cenestésica.

Mas, por que pensar no quadro psicopatológico de Nina? Justamente, porque não podemos falar de conceitos de psicologia analítica sem considerar “a quem” estamos relacionando esse conceito. Especialmente quando falamos de processo de individuação.

Particularmente, eu acho que há um pouco de confusão no diz respeito do processo de individuação e a psicose. Em primeiro lugar, eu compreendo que o processo de individuação comporta dois níveis de compreensão:

a) o primeiro é o basal e compreende a dinâmica do Self, que visa a integração e auto-regulação psíquica. Este aspecto corresponde a manutenção da vida psíquica. E ocorre independente dos processos da consciência, podendo ser observado claramente através na busca da integração e organização mesmo em pacientes psicóticos.

b)  O segundo é um processo que envolve diretamente o desenvolvimento da personalidade, que podemos compreender como alinhamento do eixo ego-Self.  Nesse âmbito, falamos que envolve o confronto com o inconsciente e o desenvolvimento do potencial individuo.

Fazendo essa diferenciação, podemos dizer que, no geral, quando nos referimos ao processo de individuação, especialmente na vida adulta, estamos falando do processo de desenvolvimento da personalidade, onde, o Ego é confrontado tanto com a realidade interior quanto exterior. O desenvolvimento se dá, justamente quando o Ego tem força suficiente para suportar a tensão entre os opostos (mundo interior x mundo exterior; inconsciente x consciência ) de modo a atingir um equilíbrio dinâmico entre essas instâncias. No caso do individuo psicótico, a fragilidade do Ego impede esse desenvolvimento ocorra, justamente, por não ser capaz de suportar essa tensão, que geralmente ocasiona a invasão de conteúdos do inconsciente e/ou a ruptura com a realidade exterior.

Von Franz no diz, no livro Psicoterapia, “[…] o ego é como o olho do Si-mesmo,somente ele é capaz de ver e vivenciar como o Si-mesmo nasceu” (FRANZ, 1999, p.232).

Assim, no processo de individuação o Ego é elemento fundamental.

No filme, podemos perceber os elementos que geralmente discutimos acerca da individuação, como a persona, sombra, animus. Obviamente eles estão presentes porque a Nina é humana. Contudo,devemos observar sua função. Por exemplo, podemos falar que o Cisne Branco, como uma persona de Nina, sim, poderia ser uma representação da persona, contudo, devemos notar que a persona possui o papel de intermediar as relações do individuo com o meio exterior, de modo que, simultaneamente, auxilia o Ego na adequação as demandas sociais e protege o Ego dessas exigências do meio, pois, as exigências não são feitas ao Ego, mas, ao papel que este representa. No caso da Nina, a persona não era  inadaptada, pois há uma identificação com o papel/função de bailarina, quanto essas exigências afetam diretamente o Ego, que fica profundamente abalado com “necessidade” ser a bailarina perfeita.

Outro aspecto, é a sombra. A sombra também comporta diferentes níveis de compreensão, podendo ser a “sombra do Ego”, isto é, vislumbrando os aspectos não desenvolvidos relacionados a identidade do Ego, pode ser a “sombra enquanto personificação do inconsciente”, e, comporta uma compreensão arquetípica, como personificação do Mal.

No caso da Nina, não consigo compreender uma sombra pessoal, derivada dos aspectos não desenvolvidos do Ego, visto que a identidade dela é comprometida pela relação simbiótica com a mãe. Devemos notar, também, que quando a personagem Lily se torna a “rival”, não há uma projeção da sombra, pelo contrário, há uma introjeção da imagem Lily, que passa ser ativa no delírio e nas alucinações de Nina, não como uma projeção mas, como uma personificação da sombra, pois Lily, somente é uma ameaça no delírio de Nina.

É importante termos em mente que o processo da função transcendente, isto é, da integração da consciência e do inconsciente por meio dos símbolos, depende do Ego como referência na consciência, para elaborar e assimilar os símbolos que emergiram do inconsciente.

A função da Dança

Alguém poderia perguntar “Porque ela não surtou antes”. Uma possível resposta é porque a dança contribuia para o manter estável a delicada relação de Nina com seu inconsciente e com o mundo exterior.

A dança fornecia a Nina uma relação concreta com corpo, que permitia uma sensação de continência e limite necessários para manter sua organização e aderência a realidade. Por outro lado, a dança possibilitava que os desejos da mãe fossem satisfeitos de forma a não se tornarem mais um peso sobre Nina.

Podemos compreender que a dança era um símbolo para Nina, que permitia a relação entre o inconsciente e a consciência, de modo a dissipar o excesso de energia que pudesse potencializar os conteúdos inconscientes. Isso quer dizer, que Nina podia dar forma e expressar a tensão interior através da dança.

De forma geral, todas as expressões artísticas tem a capacidade de viabilizar/intermediar a relação entre consciência e o inconsciente, de modo a propiciar um mínimo de organização.  O trabalho de Dra. Nise da Silveira é o melhor exemplo de como a arte pode ser estruturante e organizadora para pacientes psiquiátricos.

Concluindo…

A psicologia analítica compreende o homem como um ser em contínuo desenvolvimento. A dinâmica da psique visa sempre a manutenção da vida. Contudo, devemos ter clareza e cuidado para não nos deixarmos levar pelo “otimismo junguiano” e, aplicar os conceitos junguianos sem se adequar a realidade a qual se aplica.

No caso da psicose, como é apresentada no filme, é necessário ter um cuidado a mais, pois, o paciente psicótico não experimenta o inconsciente como uma realidade simbólica, mas, como uma realidade objetiva. Isso significa, que devemos ter atenção, cuidado e respeito com o paciente em sua própria realidade. Para muitos, o final do filme foi uma incógnita se “Nina morre ou não”. Para mim, Nina morre – não como uma morte simbólica – mas, uma morte real. Não há uma “transformação” do Ego.

Devemos ter em mente que o paciente psicótico por vivenciar a realidade interior de forma objetiva, não fazendo uma distinção da realidade exterior, não percebe as situações como metáforas, mas, como realidade concreta. Dessa forma, a transformação de Nina no cisne negro, denuncia isso, ela era o cisne negro, do mesmo modo que ela era o cisne branco.  A perfeição que ela almejava no cisne negro, se constituiu no delírio onde era se tornou o cisne. No caso do cisne branco, que morre no final, para ser perfeito, o mesmo deveria ocorrer.

A psicose muitas vezes se constitui como uma defesa de uma realidade exterior que é hostil, inviabilizando uma relação saudável para o ego, o que leva a uma interação (algumas vezes uma fusão) com o mundo interior. No caso de Nina, a identificação com o cisne, pode nos indicar um movimento em busca de liberdade. Não podemos esquecer que Odete, o cisne branco, também era um ser aprisionado. E, a morte era também uma libertação. Aqui se impõe uma diferenciação necessária:

A identificação de uma pessoa sadia ou mesmo neurótica se dá nos termos : eu sou como Odete

No caso do paciente psicótico a identificação se dá como : Eu sou Odete.

Por isso, por mais que possamos até compreender o delírio e alucinações como necessidade de liberdade e  respeito – especialmente no que diz respeito a relação materna, lembrando que a mãe é agredida no surto, como uma imposição forçada de espaço. Essa leitura simbólica tem sua validade quando feita respeitando a realidade do paciente psicótico, justamente para auxiliar no tratamento, oferecendo ao paciente as condições necessárias para lidar com sua realidade, e oferecer a família as orientações para garantir uma qualidade de vida ao paciente.

Referências bibliográficas

FRANZ, Marie-Louise von, Psicoterapia, São Paulo: Ed. Paulus , 1999.

JUNG, C.G., Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Sobre a terapia e os arquétipos. Via de regra podem ser percebidos pelos sonhos ou há outra “manifestação” clínica?” Resposta a Martônio Sales

 

(4 de junho de 2010)

Há algum tempo recebi um e-mail de um estudante de psicologia do Ceará(UFC) – Martônio Sales – dentre outras perguntas ele me questionou “sobre a terapia e os arquétipos. Via de regra podem ser percebidos pelos sonhos ou há outra “manifestação” clínica?”. Acho que será interessante discutir essa questão, de forma ampla. Antes, porém, gostaria de agradecer ao Martônio Sales pelo e-mail e espero estar esclarecendo um pouco mais essa questão.

Em outro post sobre os arquétipos e representações arquetípicas eu comentei um pouco sobre minha compreensão acerca dos arquétipos. Para começarmos a pensar essa relação de terapia e arquétipos, podemos, retornar um pouco a compreensão acerca dos arquétipos .

a) Arquétipos

Os arquétipos são padrões basais de organização psíquica, assim, antes de adjetiva-los com suas funções seja como “materno”,  “paterno”, “puer”, “poder” etc..,  devemos compreender que eles são os padrões  que possibilitam que o psiquismo se organize de modo semelhante a todos os seres humanos. Jung relacionou os arquétipos ao processo de evolução filogenética(lembrando que os arquétipos são instintos diferenciados), deste modo são anteriores a linguagem e a cultura, na verdade os eles são a possibilidade de apreensão de sinais e a elaboração desses em símbolos, necessários a organização da consciência(da linguagem e cultura).

Ao longo de nossa história coletiva esses padrões de organização se constelaram em referências culturais especialmente nas mitologias(ou religiões) que organizavam os seres humanos em relação a sua realidade(relação com o meio ambiente), em seu grupo (dando leis e normas de ação) e consigo mesmo (identidade e  papel social).  Os mitos são narrativas que expressam esses padrões arquetípicos. Por isso, podemos dizer, que os mitos (e a cultura) são parte da psique, correspondem a um campo impessoal, o conceito que nos permite nos aproximarmos mais dessa idéia é a de “consciência coletiva” de Durkheim.

Na esfera pessoal, os arquétipos atraem e as representações das  experiências individuais, que se organizam em torno de cada arquétipo correspondente, p. ex., as experiências de nutrição e cuidado – próprias da relação materna – vão ser organizadas em torno desse padrão arquetípico, dando origem ao complexo materno. Todo complexo se constitui a partir de um arquétipo.

b)  Representações Arquetípicas individuais(ou naturais)

As representações arquetípicas individuais  são símbolos que emergem do inconsciente. Esses símbolos podem se manifestar através dos sonhos, da sincronicidade, intuição, sintomas neuróticos ou de somatizações. Todas essas formas de manifestação visam a integração entre a consciência e o inconsciente, superando uma possível atitude neurótica da consciência. (estando o individuo ou não em terapia/análise)

c) Arquétipos na clínica

Antes de pensarmos os arquétipos na clínica, devemos lembrar que um dos maiores riscos que o psicólogo junguiano corre é de cair no “reducionismo arquetípico”, isto é, querer ver arquétipos em tudo ou querer “mitificar tudo” associando todas as produções do cliente com a mitologia. Não podemos perder de vista que o cliente e sua individualidade é o da psicoterapia/analise, os arquétipos são instâncias fundamentais da psique e nos ajudam a compreender a dinâmica que está ativa no individuo, Isto é, a a história pessoal.

Quando falamos de “arquétipos na clínica” estamos pressupondo que um dado individuo está envolvido por uma dada dinâmica arquetípica,isto é, tende a perceber e reagir à realidade de uma forma típica, determinada pelo arquétipo. Por exemplo, um individuo com complexo materno negativo, (preso a dinâmica do arquétipo da grande mãe) tende a se portar como filho frente as situações gerais – o que pode significar insegurança, medo e dependência de alguém que cuide e nutra. Em outras palavras, o Ego passa a se organizar a partir da representação individual desse arquétipo, que é o complexo. 

Como a atitude do ego (engolfada pelo complexo) se torna inadequada/unilateral, o inconsciente, que atua de modo complementar à consciência, produz formações quem tentaram corrigir essa identificação do Ego com esse complexo. Assim, os sonhos, sintomas, pensamentos, somatizações visam corrigir essa relação inadequada do Ego com o complexo, tendem a se manifestar em sua forma impessoal que nós podemos reconhecer através das analogias com as mitologias, que fornecerem ao terapeuta possíveis direções para que ele possa verificar melhor a história pessoal do cliente. A manifestação impessoal (arquetípica) é necessária para evitar que os mecanismos de defesa do Ego sejam ativados, que poderia significar a repressão e o aumento da separação entre a consciência e o inconsciente.

Assim sendo, toda manifestação do inconsciente envolve os arquétipos de forma mais ou menos clara (ou típica). O fundamental é não nos atermos a uma “busca cega” por arquétipos e perdermos o foco que deve ser nosso cliente.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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