Amor, traição e processo de individuação

(11 de junho de 2016)

Fabricio Fonseca Moraes

 

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo

Viva Vivida, Vinicius de Moraes (1938)

 

Nota: Este texto foi produzido como base para a palestra na I Jornada Junguiana da Multivix, com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade.

Bom dia! Gostaria de agradecer e parabenizar a faculdade Multivix, sua coordenadora Kirlla Cristhine Almeida Dornelas e ao professor Raphael do Amaral Vaz pela organização desta jornada. Foi nos proposto o desafio de falar sobre Amor, Traição e Processo de Individuação.

Começando pelo amor, é necessário dizer que o amor é mistério.  Jung afirmou em suas memórias que “Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca fui capaz de dar-lhe uma resposta válida” Jung, 1975, 305). O fato de não haver uma resposta válida, pode significar que muitas respostas são possíveis e válidas. Assim, não tentarei definir ou conceituar de forma estrita, mas, pensar no amor como um fenômeno, que se manifesta, que percebemos, mas, que não se dobra a linguagem objetiva.

Quando falamos de Amor ou Eros (como é mais comum na linguagem psicológica) somos “quase que” obrigados a visitar a Platão, em seu simpósio ou “banquete”, ele afirma pela boca de Sócrates, citando Diótima, diz que o Amor é um daimon que intermedia a relação entre mortais e imortais (deuses).

Essa compreensão de Platão é interessante pois, expressa de forma mítica uma das características mais basais e fundamentais desse fenômeno que denominamos Amor:  é uma função de integração psíquica que, não só intermedia, mas possibilita a relação Ego-Self (ou Ego-Si-mesmo) assim como a relação Ego-Outro. O amor se manifesta como uma função do self que une, integra e centraliza a dinâmica psíquica – seja ela relacionada com a realidade interior ou a realidade exterior.

Nessa mesma perspectiva, Adolf Guggehnbul-Craig, no livro “Eros on Crutches” – que posteriormente foi relançado com o titulo “The Empty Soul” –   nos chama atenção para um o fato de que Eros “humaniza os arquétipos” temperando suas qualidades absolutas ele afirma

O guerreiro sem Eros é um mercenário brutal, um absurdo assassino em massa , um exterminador demoníaco . Com Eros, o guerreiro luta para defender os valores que são importantes para ele, estando pronto para dar a sua vida pelos outros ou por ideais mais elevados . O Trisckster sem Eros é apenas um enganador e mentiroso, um impostor. Com Eros, o trisckster é surpreendente, estimulante , não preso a conveções e rotinas, mas continuamente revelando novas faces de si mesmo e abrindo possibilidades inexperadas para aqueles que o rodeiam . Ele é brincalhão e encantador.(Guggenbhul-Craig, p.27- tradução nossa) [1]

Acredito que falar do Trickster pode gerar algumas dúvidas, pois, não temos um termo adequado para Trickster, mas, duas representações bem conhecidas em nossa cultura são o gato de Cheshire e o Capitão Jack Sparrow.

Eros ou Amor humaniza os arquétipos, ele os humaniza na medida que integra e harmoniza suas dinâmicas arquetípicas às necessidades do Ego, de forma saudável e construtiva. Essa humanização torna o ujhamor muito próximo a outro arquétipo, ou dinamismo arquetípico, que é a alteridade[2] – que geralmente é percebida a partir da concepção clássica Anima e Animus, que desde os anos 70 e 80 vem sendo repensados, pois, o aspecto contrassexual expressa na verdade o “totalmente outro ou diferente” da identidade do Ego.  mas, na verdade é uma função que possibilita a compreensão integra o polo “Outro” seja ele interno (como a dinâmica do Self) ou externo (como a compreensão mais adequada da realidade do Outro).

A relação Eros e Alteridade é tão intensa que quando projetada, a experiência de lidar com o outro se torna como lidar com a própria alma. Por isso, o a projeção da “anima/animus” como vemos classicamente é revestida de um brilho especial, como se o outro fosse de fato, parte de nós mesmos.

Muitas vezes pensamos na relação amorosa como condicionada pela projeção da anima/us. E, de fato, em algumas situações é (geralmente mais exageradas e incontroláveis), mas, não é possível condicionar o amor a uma projeção. Como disse anteriormente, o Amor integra os elementos da vida psíquica, ou seja, integra tanto os objetos internos quanto os objetos externos, atribuindo um sentido afetivo próprio. Quando retiramos a projeção podemos amar o objeto e integra-lo a nossa realidade pelo que ele é. Até nesse ponto, falamos de uma perspectiva, olhando o psiquismo pela via da dinâmica psíquica, quando pensamos pela via da experiência do Ego, da vivência do amor, outros aspectos interessantes que eu gostaria de pensar um pouco com vocês.

– O amor nos coloca diante de um dilema moral, pois, elimina a fronteira do bem e do mal. Aldo Carotenuto, no livro Eros de Pathos, fala que o “amor é portanto uma centelha do divino – e com esse termo entendo uma força que encerra em si ambos os pólos da dicotomia maniqueísta bem-mal”(Carotenuto, p. 22). Não é incomum pessoas “mentirem” ou “enganarem” outras por amor. Em outras situações, é possível termos crimes mais graves como roubos e até homicídios em nome do Amor. Sob certos aspectos, poderíamos dizer que o amor infla o Ego, colocando-o para além de suas possibilidades. (Vide Anakin, que escolheu o lado negro da força por amor a padmé) Mas, devemos tomar muito cuidado em não confundir as escolhas guiadas pelo amor das escolhas feitas pelo poder. Tratar uma mulher como propriedade, posse – agredindo ou mesmo chegando a morte –  não faz parte da dinâmica do amor, mas, do poder. Nesse sentido, os relacionamentos sem amor, são mais próximos da psicopatia. Infelizmente, confundimos muito as relações de poder com amor, essa confusão se dá por nossa cultura machista, patriarcal que durante séculos subjugou a mulher colocando-a num lugar de propriedade do homem. O machismo e o sexismo são exercícios de poder, cada que somos machistas ou sexistas(ou com outros tipos de preconceitos) nos distanciamos do amor, nos desencontramos do amor e de uma relação integradora e saudável com o, e nos colocamos numa posição de domínio que tende sempre a degradar a outra parte.

– Todo discurso sobre o amor é sempre um discurso sobre si mesmo(ibid p. 27) O Amor se refere sempre a nossa interioridade, que quem somos de forma mais sincera. Esse é um dos aspectos mais interessantes, no amor e através do amor nós vemos a nós mesmos, não é o amor exatamente pelo Outro em si mesmo, mas, pelo o que o Outro suscita em nós.

Renato Russo na música La Nouva Gioventú expressa essa noção de forma interessante, ele diz “Com você por perto eu gostava mais de mim” – Infelizmente o que acontece é que estamos tão inconscientes da relação com nós mesmos que não percebemos que a relação com o outro está relacionada com a relação que temos com nós mesmos – por isso mesmo, um relacionamento patológico, abusivo, espelha uma relação inadequada do indivíduo consigo mesmo.  Nesse sentido, o mandamento de Cristo “amarás o teu próximo como a ti mesmo” se revela uma verdade psicológica válida.

– O amor altera nossa percepção da realidade – Quando estamos mobilizados pelo amor, nossa percepção do tempo, nossa percepção do objeto amado é alterada. Por isso, a percepção do amor infinito, definitivo, eterno é uma distorção possível, mas, que não se restringe a durabilidade do fenômeno, mas, também percepção da realidade dos objetos – sejam eles pessoas ou coisas – isso se dá pelo direcionamento de nossa atenção, guiada pelo fascínio gerado pelo objeto.

Sob certo aspecto a percepção do objeto de amor se torna parcial, sendo direcionada aos aspectos positivos, belos e aprazíveis – negando os aspectos negativos, produzindo sombra no objeto. A dificuldade de integrar a totalidade do objeto amado, gera o aumento de expectativas e por isso mesmo, aumenta a possibilidade erros de julgamento.

O amor nos impele a totalidade – Essa é uma característica importante porque nos faz sentir-nos incompletos, incapazes e dependentes/. Não podemos perder de vista que o Ego, como principal deintegrado do Self, guarda uma relação fundamental com Self, devemos lembrar que a dinâmica natural do Self, compreende a deintegração e a reintegração, no caso do Ego, não há uma reintegração propriamente dita, há uma relação especial que pode ser compreendida ou nomeada como “processo de individuação” ou “eixo ego-self”. Assim, através do amor o ego tem um vislumbre da totalidade, e se lança desejante desta possibilidade, por isso as palavras de Vinicius de Moraes são tão precisas quando diz que o amor é o “O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”, vislumbrando a totalidade somos impelidos nessa busca.

Vamos falar um pouco sobre a traição. Quando falamos de traição devemos ter em mente uma concepção ampla – que envolve tanto relacionamentos com outras pessoas quanto com instituições, valores. Do mesmo modo, a traição obviamente deve ser percebida sob dois aspectos fundamentais : um social e outro individual.

Quando me refiro ao social, eu me refiro a uma cultura onde trair se tornou banal. Crescemos vendo traições em novelas, quadrinhos, filmes e séries. Trair a família, amigos, valores ou pessoas amadas se tornou uma opção, a traição não tem maiores consequências sociais, em tempos passados a traição tirava a honra de uma pessoa, a trair era um estigma sério (especialmente no que diz respeitos a relação entre amigos, familiares e da mulher com o homem, no caso homem, dada a cultura machista, era permitido trair a mulher). Juntamente com essa banalização temos uma realidade onde os relacionamentos muitas vezes são vistos como temporários, sem o comprometimento real, assim, a cultura sanciona a traição. Mas, não vamos nos estender nesse aspecto.

Quando falamos de traição no contexto da psique do individuo, devemos considerar:

– Poder: Falo tanto do poder, justamente pois, Jung afirmava que psicologicamente, o oposto do amor é poder. O desejo de se afirmar, o desejo se impor, ser alguém frente aos outros. Nessa categoria temos três possibilidades a traição em relacionamentos que se dão na ordem do poder, do domínio, na primeira não há uma consideração efetiva pelo outro, a traição é mais uma conquista, na segunda a traição se dá pela incapacidade do indivíduo enfrentar o termino de um relacionamento, seja por imaturidade, o indivíduo trai por não se sentir capz de um enfrentamento saudável, do termino do relacionamento, nesse caso tomado pelo sentimento de inferioridade, o indivíduo busca um apoio. Uma terceira possibilidade, também interessante mais, é quando o poder compete com o amor. É numa relação onde no relacionamento há amor, mas, na relação do indivíduo consigo mesmo, ele trai como uma forma de lidar com o próprio sentimento de inferioridade e outros. Nesse caso a traição ou traições são acompanhadas por sentimento de culpa.

A traição de si mesmo: Talvez esse seja o aspecto mais pertinente para pensarmos a traição. Muitas vezes o indivíduo em suas escolhas e ao longo da sua vida se traiu de tal forma, se identificando com exigências externas e se desligando de si mesmo, nesse caso, essa traição interior, essa alienação de si-mesmo. Esse estado de alienação se dá muitas vezes, pela adoção de uma atitude da consciência unilateralmente rígida, onde, o indivíduo se prende num relacionamento, numa instituição, num grupo, e nesses casos pode ser que uma traição exterior se faça necessária como uma forma de libertação, a traição do outro (seja uma pessoa, instituição ou valores) seria um caminho para sanar a traição interior.

Não podemos perder de vista, o fato que trair nas situações que nos referimos, no geral, tem um aspecto de positivo, uma necessidade. Contudo, não podemos perder de vista que há sempre o traído, há sempre sofrimento envolvido na traição ou mesmo para quem trai.

Onde que entraria o processo de individuação? O processo de individuação é um processo de desenvolvimento que começa desde que nascemos e se estende até nossa morte. Jung descreve a individuação como “torna-se si mesmo”, e este processo de se tornar quem se é, é em si um processo amoroso,  um processo de integração, de honestidade e consideração profunda consigo mesmo e com a realidade circundante, isto é com os outros.

A maior parte dos efeitos, vamos dizer, “negativos” do amor, do poder e traição se relacionam a inconsciência que o indivíduo em relação a si mesmo. Ou seja, quanto mais inconsciente ou alienado de si mesmo, mais vulnerável o indivíduo se torna às dinâmicas do inconsciente ou a relações abusivas.

Poderíamos falar de individuação como um processo de amadurecimento, onde através da integração dos polos persona-anima, assim como da sombra, torna-se possível a percepção das dinâmicas inconscientes, possibilitando o indivíduo experimente o amor de forma construtiva, deixando de ser apenas levado pela intensidade desse amor que se impõe inconsciente, mas, se tornando responsável pelo amor – tanto de si mesmo quanto pelo amor em relação ao outro.

A individuação exige conhecimento, autoconhecimento e isso só se adquire vivendo, amando, sofrendo e voltando a amar. Em todas as experiências que vivemos, uma parte do quebra-cabeça que somos se revela.  Como dizia o Poeta,

Quem já passou

Por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá

Pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou

Pra quem sofreu, ai

 

Quem nunca curtiu uma paixão

Nunca vai ter nada, não.

(Vinicius de Moraes)

 

Referências

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo, Paulus Editora, 1994.
Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

 

 

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[1]The Warrior without Eros is a brutal mercenary, a senseless massmurderer, a demoniac exterminator. With Eros, the warrior fights to defend values which are important for him, ready to lay down his life for others or for higher ideals. The Trisckster with Eros is but a commom cheat and liar, an imposter, a con-artist. With Eros, the trisckster is surprising, stimulanting, not bogged down in convention ou routine, but continually revealing new sides of himself and openning unexpected vistas to those around him. He is playful and charming.

[2] Vide Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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Hipnose Ericksoniana e Clínica Junguiana (Parte II) – Símbolos e Metáforas

Veja também : Hipnose Ericksoniana e Clínica Junguiana (Parte I) – Uma aproximação

O inconsciente é sempre o mesmo, o que muda é a forma como o abordamos, isto é, a forma como tentamos compreendê-lo. Na primeira metade do século XX, destacou-se na psicologia clínica uma tendência que visava compreender a psique a partir dos fenômenos psicopatológicos e circunscrevia os fenômenos psiquicos nesse contexto – esse foi o viés defendido pela psicanálise de Freud. Jung discordava radicalmente dessa atitude, afirmava

Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde e gostaria de libertar os doentes daquela psicologia que Freud coloca em cada página de suas obras. Não consigo ver onde Freud consegue ir além de sua própria psicologia e como poderá aliviar o doente de um sofrimento do qual o próprio médico padece. (JUNG, 1989, p.325)

A escolha por valorizar a saúde e os aspectos saudáveis e positivos da psique era compartilhada por Jung e por Erickson. A valorização dos aspectos saudáveis da psique falam da experiência pessoal que cada um teve. Jung em sua autobiografia relata que após a ruptura com a psicanálise, ele passou por um período de instabilidade interior, em sua biografia ele relata

Sentia-me muitas vezes de tal forma agitado que recorri a exercícios de ioga para me desligar-me das emoções. Mas como meu intuito era fazer a experiência do que se passava em mim, só me entregava a tais exercícios para recobrar a calma, a fim de retomar o trabalho com o inconsciente. Quando readquiria o sentimento de mim mesmo, abandonava o controle e cedia a palavra as imagens interiores. (…)

Na medida em que conseguia traduzir as emoções em imagens, isto é, ao encontrar as imagens que ocultavam nas emoções, eu readquiria a paz interior. Se tivesse permanecido no plano da emoção, possivelmente eu teria sido dilacerado pelos conteúdos do inconsciente Ou,talvez, se os tivesse reprimido, seria fatalmente vítima de uma neurose e os conteúdos do inconsciente destruir-me iam do mesmo modo. Minha experiência ensinou-me o quanto é salutar, do ponto de vista terapêutico, tornar conscientes as imagens que residem por detrás das emoções. (JUNG, 1975, p.157-8)

Essa experiência de Jung possibilitou que ele compreendesse que a psique era um sistema autorregulador que sempre impelia o individuo ao desenvolvimento e a vida. Milton Erickson, por outro lado, teve em sua vida um desafio enorme, aos 17 anos teve uma crise de poliomielite que ficou com o corpo todo paralisado,

Ele não foi batido e decidiu voltar a lutar. Um dia, estava sentado perto da janela, olhando ansiosamente para fora. Como estava ali sentado, imaginando estar fora, percebeu que a cadeira começou a balançar um pouco.

Empolgado, ele tentou fazer isso acontecer de novo, desejando se mover, mas não podia, não importa o quão duro tentasse. Eventualmente, ele desistiu e afundou-se em seus devaneios, imaginando-se novamente jogando fora. Mais uma vez, a cadeira começou a balançar.

Ele percebeu que era sua imaginação vívida que estava produzindo uma resposta em seu corpo. Inspirado por essa descoberta, ele aprendeu sozinho a andar, observando sua irmãzinha. Ele começou a chamar isto de “memórias do corpo”.

Ao concentrar-se nestas memórias e usando visualização, Erickson começou a recuperar o controle de partes de seu corpo. Eventualmente, embora ainda incapaz de andar, ele decidiu treinar seu corpo ainda mais ao embarcar em uma longa viagem. Depois dela, ele já era capaz de andar com uma bengala. (ACT Institute, 2015)

Erickson em meio ao seu drama descobriu que a psique era capaz de verdadeiros milagres, como a recuperação de seus movimentos. Tanto a experiência de Jung que se recuperou de um período de profunda instabilidade psíquica (que o levou a beira do suicídio) quanto a Erickson que recobrou os movimentos falam de um mergulho restaurador no inconsciente. Para compreender essas experiências que transformam o individuo tanto física quanto psiquicamente vamos lançar mão do conceito junguiano de símbolo.

Símbolo

O conceito de símbolo atravessa toda a psicologia junguiana. O Simbolo, cuja raíz etimológica encontra-se no termo grego, symbolon, que significa “unir, fazer coincidir”, é uma estrutura psíquica formada por elementos conscientes e inconscientes. Por isso, dizemos que o símbolo é como uma ponte onde uma extremidade repousa na consciência e outra repousa no inconsciente, desta forma, o símbolo “[…] aglutina a energia psíquica e redistribui de maneira a transformar os processos inconscientes em conscientes e vice-versa […]” (BYINGTON, 1983, p. 10), possibilitando uma mudança na atitude da consciente. Um aspecto fundamental no símbolo é sua função integradora, pois, o símbolo integra o indivíduo em sua totalidade bio-psico-social. Para exemplicar essa abrangência do símbolo, podemos lembrar os estudo de Jung acerca da associação de palavras.

No inicio do século XX, Jung iniciou pesquisas com associação de palavras, com o objetivo de compreender as regras que envolviam as associações, para tanto foram escolhidas 400 palavras(isso na versão final do experimento), onde eram essas palavras eram ditas pelo experimentador ao sujeito, que deveria dizer a primeira palavra que lhe ocorresse, o experimentador anotaria o tempo de reação(ou tempo de resposta), posteriormente, seria repetido o experimento para verificar as palavras escolhidas. Nesse procedimento o que chamou atenção foram as perturbações ocorridas no experimento, isto é, as alterações no tempo de reação de determinadas palavras. Estudando essas perturbações Jung chegou ao conceito de complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos, que seriam estruturas inconscientes em torno da qual se organiza nossa história pessoal – quando em funcionamento inadequado (inflado) o complexo, que possui certa autonomia, poderia invadir a consciência interferindo na consciência.

A partir desses experimentos Jung ampliou a pesquisa utilizando pneumógrafo que permitia medir a quantidade de gás carbônico expirado, e galvanômetro que permitia medir a variação de potencial de corrente elétrica na superfície da pele. Constatando que frente a palavra estimulo ocorria uma alteração tanto psíquica quanto física. Ou seja, a palavra como símbolo socialmente constituído mobilizaria tanto a consciência (isto é, os recursos de defesa do ego), quando o complexo (que seria ativado ou eliciado pelo estimulo) e faria alterações fisiológicas (perceptíveis tanto na respiração quanto na tensão elétrica na superfície da pele).

Posteriomente, Jung compreendeu que os complexos, que agregavam a si a história pessoal dos indivíduos, se organizam de entorno de núcleos temáticos impessoais e que tinham sua origem nas experiências comuns a toda humanidade – como enfrentamento, nutrição, proteção, cooperação, etc.. – que ao longo da evolução humana se tornaram a base para a organização psíquica. Por isso mesmo, independente da cultura ou etnia todos os seres humanos possuiriam o mesmo padrão de organização psíquica, esse padrão seria como uma forma sem conteúdo, ou seja, seria o padrão/forma seria a possibilidade de organização ou conteúdo seria dado pela experiência do indivíduo na cultura. Jung denominou esses padrões basais de organização psíquica de arquétipos.

Jung observou ao analisar sonhos e delírios de pacientes, que muitas dessas formações do inconsciente, não tinham uma relação direta com a história pessoal do paciente, mas, com conteúdos coletivos análogos as imagens da mitologia e contos de fadas. Deste modo, Jung compreendeu que a partir da experiência coletiva (mitos, contos de fadas) poderíamos compreender a situação ou dinamismo psíquico que estaria “ativo” naquele momento num indivíduo. E, mais importante, através desses conteúdos impessoais, análogos ao arquétipo poderíamos possibilitar que o indivíduo se confrontasse e integrasse ao complexo, isto é, da experiência pessoal de forma saudável.

Compreender a dinâmica arquetípica é fundamental para entendermos os símbolos. Pois, “[…] símbolo nunca é inteiramente ‘abstrato’, mas sempre, ao mesmo tempo, também ‘encarnado’. O símbolo é a encarnação do arquétipo, ou seja, o inconsciente, atualizando-se como imagens e formas.” (DAMIÃO, 2005, p.9 – grifos do autor). Uma vez que os arquétipos são padrões basais e fundamentais da psique, toda produção psíquica é simbólica. Alguns símbolos, como os símbolos linguísticos, já foram elaborados conscientemente por isso acabam sendo mais associados aos processos da consciência, contudo, como dissemos com teste de associação de palavras, Jung demonstrou que simples palavras são capazes de mudanças psíquicas e corporais.

O que dizer então das narrativas? Sim, as narrativas como os mitos foram utilizadas ao longo da história humana como instrumento de cura, Levi-Strauss relata um exemplo disso, na realização de um parto, no texto “A eficácia simbólica”. Jung compreendeu que ao utilizarmos as narrativas míticas a realidade do indivíduo é ampliada, de modo, que o indivíduo se identifica com o aspecto coletivo, de tal forma, que o corpo/psique é integrado na dinâmica do mito.

A habilidade de empregar um ponto de vista geral é de grande valor terapêutico. A terapia moderna não está muito desperta para isso, mas na medicina antiga era largamente conhecido que, transportando-se uma doença pessoal a um nível mais alto e impessoal, atingia-se um efeito curativo. No Antigo Egito, por exemplo, quando um homem era mordido por cobra, o médico-sacerdote era chamado, e tirava da biblioteca o manuscrito sobre o mito de Rá e de Isis, sua mãe, e o recitava. Ísis fizera um verme venenoso e o escondera na areia; o deus Rá pisou na serpente, sendo por ela mordido e então sofreu uma dor terrível, chegando próximo da morte. Mas os deuses fizeram Ísis produzir um encanto para retirar o veneno do corpo do filho. A intenção era que o paciente ficasse de tal modo impressionado por essa narrativa, que lhe sobrevivesse a cura. Para nós isso parece impossível. Não podemos imaginar que uma história dos Contos de Grimm, por exemplo, possa curar febre tifóide ou pneumonia. Mas apenas levamos em consideração nossa moderna psicologia racional. Para entender o efeito, devemos levar em consideração a psicologia do Antigo Egito, que era totalmente diferente. E, apesar de tudo, aquelas pessoas não eram assim tão diferentes. Mesmo conosco, certas coisas podem causar milagres. Às vezes, só o consolo espiritual ou a influência psíquica podem curar, ou pelo menos ajudar no combate de uma doença. Logicamente isso acontece muito mais entre pessoas de um nível mais primitivo ou dotadas de psicologia mais arcaica.

No Oriente, grande parte da terapia prática se constrói sobre o princípio de elevar o caso pessoal a uma situação geral válida. A medicina grega também trabalhava com o mesmo método. É evidente que a imagem coletiva ou sua aplicação deve estar de acordo com a condição particular do paciente. O mito ou a lenda emerge do material arquetípico que está constelado pela doença, e o efeito psicológico consiste em conectar o paciente com o sentido geral de sua situação. A mordida de cobra, por exemplo, é uma situação arquetípica e, por isso mesmo, encontra-se como motivo em muitas lendas. Se a situação subjacente à doença for expressa de maneira adequada, o paciente estará curado. Caso não se encontre essa expressão ideal, ele é novamente arremessado ao seu próprio mal, à isolação de estar doente; ficará só, sem nenhuma ligação com o mundo. Mas se o doente percebe que o problema não é apenas seu, mas sim um mal geral, até mesmo o sofrimento de um Deus, aí então reencontrará seu lugar entre os homens e a companhia dos deuses, e só de saber isso, o alívio já surge. A moderna terapia espiritual usa o mesmo princípio: a dor ou doença é comparada com o sofrimento de Cristo na cruz, e essa idéia dá consolação. O indivíduo é elevado acima de sua miserável solidão e colocado como quem suporta um destino heróico e significativo que, finalmente, reverte em bem para o mundo, como o martírio e a morte de um Deus. Quando se mostrava a um antigo egípcio que ele estava passando pelas mesmas provações que Rá, o deus-sol, era imediatamente, equiparado ao faraó, que era o filho e o representante dos deuses; e assim o homem comum também participava da divindade. Isto provocava tal libertação de energia que se torna perfeitamente compreensível por que a dor diminuía. Em determinados estados de espírito as pessoas podem suportar muitas coisas. Os primitivos caminham sobre brasas e se infligem os maiores castigos, sob certas circunstâncias, sem sentirem dor. E é bem provável que um símbolo adequado e impressionante possa mobilizar as forças do inconsciente a tal ponto que até o sistema nervoso seja afetado, levando o corpo a reagir de maneira normal novamente. (JUNG, 2000, p.114-5)

Os mitos, contos de fadas são formadas por uma cadeia de símbolos que, através de suas imagens, nos mobilizam profundamente. Uma outra forma de compreender esse processo é pensar que todas as narrativas simbólicas que nos tocam são metáforas de nossos processos profundos que ocorrem em nosso psiquismo.

Metáforas

A metáfora é uma figura de linguagem, um recurso utilizado quando queremos fazer uma comparação, mas, sem estabelecer um elemento de conexão entre os dois elementos. Por exemplo, quando dizemos

José é um gato

Ou

João é um touro

Em nossa afirmação trazemos uma relação entre os dois elementos que não é aparente. Não me refiro que José ou João sejam animais, mas, que eles possuem características que são comuns a ambos. Naturalmente, e sem focalizar nossa atenção, nós identificamos a interseção entre os dois elementos, pois, desde criança, somos treinados reconhecer as metáforas, seja através da contos de fadas, provérbios e ditos populares.

No livro “Manual de Hipnoterapia Ericksoniana” Sofia Bauer nos dá uma definição excelente do sentido das metáforas na hipnose ericksoniana, segundo ela

Metaforizar é o meio de ser indireto, de falar a língua do cliente. É atingir o cliente nos dois níveis de consciência, contando histórias, piadas, casos. As metáforas são como pontes no tratamento que viabilizam uma ressignificação e uma saída para os problemas; o paciente vai embora e leva algo (um recado) feito sob medida pra ele (BAUER, 2000, p. 51)

Para explicar um pouco mais a dimensão da metáfora podemos utilizar duas vias dois meios. Eu poderia explicar de uma forma racional e objetiva dizendo podemos entender a metáfora como um recurso de linguagem que opera através de imagens, criando uma relação implícita entre a narrativa do terapeuta e a situação do paciente. Por ser implícita e indireta, a imagem não aciona as defesas do paciente, possibilitando que no tempo certo, o conteúdo da metáfora possa ser, naturalmente, elaborado e atingir o objetivo esperado para o paciente.

Por outro lado, poderia explicar os mesmos aspectos de forma indireta, isto é, de forma metafórica, dizendo que a metáfora é um cavalo de Tróia, eu não sei se você leitor, vai se lembrar da história, que nos foi contada por Homero, o maior poeta grego. Homero nos conta, que há muito tempo, na Grécia, a rainha Helena foi raptada pelo príncipe troiano Paris, isso fez com os gregos reunissem o maior exército de todos os tempos e partissem para Tróia para regatar Helena , dando início a longa guerra de Tróia, que durou pouco mais de 10 anos. Apesar dos gregos terem o melhor exército, os maiores heróis, Aquiles, Ajax, Diomédes, Ulisses entre outros, mas, os troianos possuíam uma cidade com muros poderosos, gigantescos, vigiados dia e noite, e, mesmo ao longo de 10 anos, eles conseguiram impedir que os gregos tivessem sucesso. Até que, um dia, já cansado de muitas balatas, Ulisses, conhecido como o mais esperto e astucioso dos heróis gregos, teve uma ideia, de disse aos comandantes dos exércitos gregos “vamos pegar a madeira dos barcos, fazer um grande cavalo de madeira oco, dentro dele, colocaremos nossos maiores heróis, assim, poderemos atravessar as poderosas muralhas de Tróia”. Assim foi feito, após construído esse belo cavalo de madeira, os heróis, se esconderam dentro dele e o exército fingiu que foi embora. Quando os troianos viram aquele belo cavalo de madeira, acharam que era um presente, e, assim o receberam, levaram para dentro de suas poderosas muralhas, quando menos perceberam, silenciosamente, no meio da noite, os heróis gregos, abriram os portões, e, de dentro para fora conseguiram sua vitória, acabando assim, com o sofrimento daquele longo conflito.

Como podemos ver, passamos a mesma mensagem por vias distintas. Mas, o que o torna de fato uma metáfora eficaz? Para ser eficaz a metáfora precisa estar relacionada com a realidade do cliente, em outras palavras, para a metáfora ser eficaz o terapeuta/analista deve conhecer minimamente o paciente, para poder fazer uma metáfora dialogue com o paciente. Milton Erickson frisava a importância utilizar tudo o que o paciente traz, seja os aspectos físicos, profissão, gostos, interesses, enfim, utilizando tudo que o cliente traz, para não gerar estranheza ao cliente. Observando o que o cliente traz, aumenta a chance do uso de uma metáfora eficaz.

A metáfora pode ser criada (a partir do que o paciente trouxe) ou mesmo pode-se utilizar de uma metáfora “pronta”. Existem muitos livros que oferecem histórias que podem ser utilizadas como metáforas, acredito que esses livros são úteis, mas, acho fundamental percebermos que as metáforas fluem naturalmente na medida que somos curiosos na vida. Seja buscando entender o que se passam nas novelas, nos filmes, nos livros (a literatura é uma fonte inesgotável de imagens), contos de fadas, histórias religiosas, mitos, tecnologia, informática. Enfim, tomar como dever de casa, buscar se atualizar do que os clientes trouxeram nas primeiras sessões.

Acredito que devemos considerar na prática junguiana as metáforas são utilizadas regularmente, pois, toda amplificação de um símbolo (seja no sonho, sintoma) e toda interpretação são metáforas, que possibilitam que a consciência se aproxime dos processos inconscientes. Jung já chamava atenção para a importância da linguagem simbólica/metafórica, pois, observando as reações dos pacientes frente as formas de interpretação “os meus pacientes têm razão preferem as imagens e as interpretações simbólicas, como o que há de mais adequado e eficaz. ” (Jung, 1999, p. 43-4)

O uso da linguagem hipnótica ou mesmo do transe amplifica as possibilidades de transformações (tanto psíquicas quanto físicas) muitas vezes já obtidos no contexto da analise junguiana, visto que possuem princípios similares. Por isso, venho advogando pelo dialogo e consideração atenta dos recursos oferecidos pela hipnose ericksoniana a psicologia junguiana.

Referências bibliográficas

BAUER, S. Manual de Hipnoterapia Ericksoniana, Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010.

BYINGTON, C.A.B. O desenvolvimento Simbólico da Personalidade. In: JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

DAMIÃO M. Jr. Experiência do Símbolo no Pensamento de C.G.Jung, Rio de Janeiro: Editora Aion, 2005.

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989

JUNG, C.G. Vida Simbólica vol I. Petrópolis: Vozes, 2000.

JUNG. C. G, A Prática da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.

Milton H. Erickson, pai da Hipnose Ericksoniana: Disponível em: http://actinstitute.org/pos-graduacao/milton_h_erickson/ Acesso em 08 de jun. de 2015.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Respondendo a Aldo Costa “Para você, que pontos nós junguianos ‘ainda não aprendemos a herdar com serenidade’”

(22 de agosto de 2012)

Há algum tempo, Aldo Costa um leitor que colabora bastante com nosso blog enviou um comentário com uma pergunta,

Prezado Fabrício,

Realmente o livro do Roberto Gambini é excelente (considero leitura obrigatória). Porém, ainda hoje me pego analisando as possibilidades possíveis quando ele diz que: “Nós junguianos temos um complexo de herança – ainda não aprendemos a herdar com serenidade. Alarmamo-nos com a idéia de que a herança possa ocultar um problema paterno, ou que ameace nossa liberdade criativa.”
Qual a sua opinião sobre o trecho citado? Para você, que pontos nós junguianos “ainda não aprendemos a herdar com serenidade”.

Acredito que para começarmos a pensar uma possível resposta devemos voltar ao texto do Gambini. Em seu livro, ele aponta para um complexo de inferioridade junguiano frente a psicanálise, segundo ele,

Um dos problemas a essa questão é o famoso complexo de inferioridade dos junguianos perante os freudianos. (…)

Surgiu então uma certa tendência entre os junguianos, de se fortalecerem através da adoção de procedimentos freudianos, como se isso os legitimasse num terreno de insegurança. O analista junguiano que aprende o uso da técnica psicanalítica, com seu manejo típico da transferência e da resistência, que faz interpretações nessa campo da maneira como é concebida pela Psicanálise, que pensa o momento analítico como repetição do vivido, que concebe o material reprimido como sendo aquilo que uma vez esteve na consciência, que entende os sonhos como exclusiva manifestação de desejos infantis, esse analista junguiano está na verdade pensando  e operando como um psicanalista. Alguns usam divã. De um lado se diz que o sincretismo é positivamente uma aproximação de linhas então divergentes. Digo que não. A Psicanálise até hoje não lucrou rigorosamente nada com a aproximação que lhe fez a Psicologia Analítica, talvez tenha antes se comprazido com o reconhecimento tardio dos descendentes do principal desertor do circulo vienense original. O resultado dessa tendência é a crescente descaracterização da Análise Junguiana, à medida que seus praticantes vão procurar na Psicanálise elementos que supostamente lhes falem. Grifo a palavra supostamente. (GAMBINI, p. 42-44).

Acredito que esse complexo de inferioridade defendido por Gambini não se caracteriza apenas pela “inferioridade frente a psicanálise”, outra forma dessa inferioridade é o que Andrew Samuels, em seu texto, “Sobreviverão os Pós-junguianos”, chamou de “fundamentalismo junguiano” é uma forma compensada deste complexo. Segundo Samuels,

Como todos os fundamentalismos, o fundamentalismo junguiano deseja controlar quem ou o que faz parte e/ou não faz. Daí tende a ser cruel e estigmatizante. Ouve-se, às vezes, numa avaliação das circunstâncias de treinamento: “Ele (ou ela) não tem mente psicológica,” dizem. Ou a tipologia é utilizada para estabelecer situações sociais, culturais ou interpessoais complexas, de um modo inteiramente improdutivo e oracular. Mulheres intelectuais podem ser sumariamente executadas. O fundamentalismo junguiano nega seu papel no mercado de trabalho – tenta convencer-nos de que ele apenas é, que não tem um projeto persuasivo, procurando influência, como o resto de nós. Há uma tentativa de negar seu aspecto comercial, inclusive o financeiro. O fundamentalismo junguiano enfatiza a pessoa de Jung e suas palavras proféticas, que, às vezes, chegam até mesmo a alegar serem inspiradas pelo divino. Mas o que enfatiza, particularmente, é como vivia Jung. Às vezes isso é chamado de “o caminho junguiano”. Tenho horror à essa noção de haver “um” ou “o” caminho junguiano, mas o fundamentalismo junguiano joga com isso.

(…)

Deixem-me prosseguir, fazendo uma crítica semelhante à tendência jungiana atual em direção à fusão com a psicanálise. Quero deixar bem claro que não sou contra o uso da psicanálise pelos junguianos, como é o caso da escola desenvolvimentista. Como foi que apareceu no mundo junguiano, essa tendência atual de fundir-se com a psicanálise? Em primeiro lugar, acho que, muitas vezes, baseou-se em alguma coisa excessivamente pessoal, visto que vários junguianos que fizeram análise pelas escolas jungianas clássica ou desenvolvimentista não ficaram satisfeitos com suas experiências ali. Daí a fusão jungiana com a psicanálise pode estar baseada, em minha opinião, na raiva e numa idealização da psicanálise como sendo, de alguma forma, clinicamente melhor, como possuindo requintada e superior habilidade clínica, quando comparada com a nossa.

Isto leva os junguianos a fecharem os olhos às enormes contribuições clínicas que têm sido feitas pelos próprios junguianos. Não estou fazendo a queixa costumeira (referida acima) de que ninguém reconhece que “nós” pensamos nisto primeiro. Minha queixa aqui é a de que os próprios junguianos da escola psicanalítica não atentam para certas idéias que são nossas por direito de nascença e por herança. (SAMUELS, S/D)

Entretanto, não basta pensar apenas como um complexo de inferioridade, relacionado aos desenvolvimentos e reconhecimentos alcançados pela psicanálise. Não podemos perder de vista que há, também, uma certa relação estabelecida com  a figura de Jung, que em alguns casos beira a mitificação de Jung por um lado, por outro, um distanciamento excessivo das concepções junguianas. Samuels foi extremamente feliz quando propôs o termo pós-junguianos, segundo ele “Quero expressar com isso uma conexão com Jung e, ao mesmo tempo, distância crítica de Jung” (op.cit). Samuels nos fala da necessidade de um luto adequado de Jung.

Se não houvéssemos feito luto adequado por Jung, estaríamos deprimidos. E realmente acho que exista uma depressão no mundo junguiano de hoje que torna difícil valorizar-nos suficientemente para abrirmo-nos a outros psicoterapeutas e intelectuais em geral. O que significaria estar de luto por Jung? Significaria pôr-se além de uma divisão idealização-depreciação em relação a ele, uma divisão que sinto contaminar algo de nossos pensamentos e, certamente, de nossas práticas.

Acredito que estamos dando passos importantes para a “elaboração” desse luto. Mas, a julgar pelo que vemos através das redes sociais temos ainda temos um belo percurso pela frente. Vejo muitos ainda com uma visão extremamente idealizada de Jung, mas, que pouco se dedicam a compreender seus textos assim como os textos dos pós-junguianos. Na elaboração desse luto acredito que a psicologia arquetípica tenha uma contribuição fundamental, pois, ela nasce como uma leitura crítica dos textos de Jung. Acredito que muitos junguianos ainda careçam dessa critica aos textos junguianos, especialmente, os que seriam classificados como “clássicos”. 

Então, Aldo, peço desculpas por essa longa volta… acredito que posso voltar a sua pergunta inicial, o que acho do texto de Gambini? Sim, concordo com o texto.

O que não aprendemos a lidar com serenidade?

Faço das palavras de Gambini e de Samuels as minhas, acho que devemos conscientizar esse o complexo de inferioridade que se traduz em diversos aspectos, como a dependência da figura do pai, muitas vezes traduzidas como o “Mestre Jung”, como se não houvesse produção após Jung! Nossa, o universo junguiano ou pós-junguiano é muito rico! E, muitas vezes, vemos apenas uma pontinha dele… Estudar os textos de Jung é fundamental, mas, não podemos nos tornar reféns de sua obra. Compreendo que fazer jus a Jung é ir para além de Jung. É se abrir ao dialogo, mas, sem ter um “pires na mão” pedindo reconhecimento. É compreender que a psicologia junguiana é plural. E nisso reside nossa força, nossa identidade. Me recordo da frase do belo texto de Clarice Lispector “Perdoando Deus”, que diz “Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrario(…)”  Acho muitas vezes agimos assim, nem ao menos conhecemos todas as possibilidades das escolas junguianas, já nos voltamos a outras abordagens.  Talvez, um desafio será aprendermos a lidar com serenidade com a psicologia junguiana em sua totalidade e com toda sua possibilidade.

Aldo, desculpe a demora para responder suas perguntas. Fico muito feliz com suas colaborações! Abraços,

Referências Bibliográficas

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

SAMUELS, A. Sobreviverão os Pós-Junguianos? Disponível em:
http://www.rubedo.psc.br/Artigos/sobrevi.htm   Acesso em:  22 agosto. 2012, 15 p.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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