PROGRAMAÇÃO DO IV CONGRESSO ESTADUAL DE PSICOLOGIA ANALÍTICA eVII CICLO DE DEBATES EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

VII CICLO DE DEBATES EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

IV CONGRESSO ESTADUAL DE PSICOLOGIA ANALÍTICA

11, 12 e 13 de Agosto de 2016

Campus Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória – ES

 

HORARIOS LOCAL:  AUDITÓRIO EDUCAÇÃO FÍSICA HORARIOS

LOCAL:  AUDITÓRIO MANUEL VEREZA (CCJE)

 

QUINTA-FEIRA     11/08/2016

 

18:00 – 18:30 Abertura e boas vindas!
18:30 – 19:00 Criatividade: Ferramenta para Psicologia Hospitalar e para vida!

Palestrante: Rafaela Feijó dos Santos, psicóloga do IDR

19:00 – 19:30 Nossa atenção vai além da diálise!

Palestrante:Michel Silvestre ZouainAssbu, médico do IDR

19:30 – 20:00 A individuação: aspectos práticos do uso do conceito junguiano na clínica e na psicologia hospitalar.

Palestrante:Kathy Amorim Marcondes, professora do departamento de Psicologia UFES

 

SEXTA-FEIRA    – 12/08/2016

 

08:00 – 08:40 Arteterapia em números: Levantamento de produções científicas nacionais.

Palestrantes: Queila Cássia Corrêa Guimarães

Barbara Frigini De Marchi

Samara Zavarize de Lima

08:00 – 08:40 O lugar da arte na psicologia analítica.

Palestrante: Kathy Amorim Marcondes

08:40 – 09:20 Aprendendo com a morte: relatos de experiências em psicologia hospitalar.

Palestrante: Rachel de Freitas WandekokemCazelli

08:40 – 09:20 Contemporaneidade do trabalho de luto em ambiente hospitalar. 

Palestrante: Daniela Reis e Silva.

09:20 – 10:00 As práticas integrativas na psico-oncologia: possibilidades na intervenção.

Palestrante: Jurama Ribeiro de Oliveira

09:20 – 10:00 Mitos e o cotidiano: a importância dos mitos para uma vida simbólica.

Palestrante: Indianara Pereira de Melo

10:00 – 10:40 A cirurgia bariátrica como uma oportunidade

Palestrante:Edina Silva Guimarães

10:00 – 10:40  

Relações de cuidado na dependência química

Palestrante: Kelly Guimarães Tristão

 

10:40 – 12:00 Mesa Redonda:

Clínica Junguiana na Faesa: três casos e muitas histórias.

Mediadora: Isabele Santos Eleotério

Palestrantes: Aguilar Vieira de Sousa

Jamile kenia Santos Lira de Castro

Beatriz Soares Sant’Anna

10:40 – 12:00 Mesa Redonda:

Feminino, corpo e psique.

Mediadora: Kelly Guimarães Tristão.

Palestrantes: Carolina Leão

Raissa R. Módolo

12:00 – 13:00 INTERVALO ALMOÇO 12:00 – 13:00 INTERVALO ALMOÇO
13:00 – 13:40 Grupos terapêuticos no hospital.

Palestrante:Ana Luisa Brandão

13:00 – 14:00 A religiosidade nos contos de fadas – um olhar sob perspectiva redentora do herói.

Palestrante:Barbara Lavinski Jardim

13:40 – 14:20 Intervenção do psicólogo hospitalar no programa de cirurgia bariátrica.

Palestrante: Rosilene Chagas Ricardo.

14:00 – 15:00 Levando-se a sério: considerações sobre a sombra do analista.

Palestrante:Fabricio Fonseca Moraes

14:20 – 15:50 Mini-curso:

Fitoterápicos no tratamento da ansiedade e depressão.

Ministrante: Henriqueta Tereza Sacramento

 

15:00 – 16:00 O sapo que não virou príncipe: um enfoque simbólico da violência sexual a partir da psicologia Analítica

Conferencista convidada: Sandra Fernandes Amorim

15:50 – 17:20 Mini-curso:

Hipnose na prática

Ministrante: Sergio Oliveira Valentin

16:00 – 17:00

 

Experiência do Lazer produzindo vida.

Conferencista convidada:Solange Missagia de Mattos

17:20 – 18:00

 

Violência obstétrica: precisamos falar sobre isso!

Palestrantes: Telemi Flor de Lira

Carolina Leão Borges Ramos

 
18:00 – 19:00

 

Avisos  
 

SÁBADO – 13/08/2016

 

HORARIOS LOCAL:  AUDITÓRIO EDUCAÇÃO FÍSICA HORARIOS LOCAL:  AUDITÓRIO MANUEL VEREZA (CCJE)
08:00 – 09:00 Relação entre Psicólogo e Médico: importância para melhor atendimento ao paciente.

Palestrante: Barbara Subtil de Paula Magalhães

09:00 – 10:00 Suicídio como uma expressão arquetípica da morte na vida do homem.

Palestrante: Raphael do Amaral Vaz

 

10:00 – 12:00

(15 minutos para cada apresentação).

1.    QUANDO O SUICÍDIO INVADE O HOSPITAL… MANEJO DO COMPORTAMENTO SUICIDA EM AMBIENTE HOSPITALAR – Daniela Reis e Silva.

2.    ANGÚSTIA E ELABORAÇÃO DE LUTO: A IMPORTÂNCIA DA ESCUTA ANALÍTICA – Nayara Oliveira Francisco.

3.    CONTAR E TECER HISTÓRIAS: UM FAZER DA CLÍNICA. Taynah de Marillack Maia Monteiro.

4.    O EDUCADOR SOCIAL E O MINOTAURO – Luiz Henrique Gomes da Silva.

5.    ACOLHIMENTO COMO FERRAMENTA DE INTERVENÇÃO EM EQUIPE MULTIDISCIPLINAR – Karla Oliveira do Amaral, Mariella Caliman Monteiro, Rafaela Feijó dos Santos.

6.    VAMOS FUXICAR? UMA PROPOSTA TERAPÊUTICA NA ATENÇÃO BÁSICA  – Helaynne Ximenes Faria, Débora de Oliveira Lourenço, Aline Christina Grisotto Alves

7.    O MENINO DO DENSEINHO E OS DESENHOS DO MENINO – Marieta Vieira Messina, Maria da Graça Von Krüger Pimentel.

Programação sujeita a alteração. Qualquer alteração será avisada com antecedência.

“Brincar de Boneca”: Reflexões sobre o desenvolvimento da personalidade, misoginia e psicopatia

(Por Fabricio F. Moraes)

Esse último mês de outubro de 2015 foi marcado por uma ampla discussão nas redes sociais sobre assédio/abuso sexual, machismo, sexismo e misoginia. Acompanhando essas discussões, me deparei com um texto que chamou atenção com o título “’Sou homem e meu filho não brinca de boneca.’ Ou ‘Como criar um machista’” de Dr.Leonardo Sakamoto http://goo.gl/bZUqno , nesse texto ele discute a gênese do machismo e misoginia associado ao sexismo dos brinquedos e das brincadeiras das crianças.

Tal temática é fundamental, especialmente porque, na atualidade, o estado do Espirito Santo lidera as estatísticas de violência contra a mulher em nosso país. Assim, como Dr. Sakamoto muito bem apontou no texto acima citado e em outros textos, sob certo aspecto o brincar é um veículo ideológico do sexismo, do machismo e da misoginia que tanto violenta e mata mulheres em nosso país e no mundo. As expressões “de menino” ou “de menina” na boca das crianças trazem todo o peso de séculos de uma divisão social de trabalho, poder, e determinações possibilidades de futuro que desqualificam as mulheres. Essas situações não podem ser ignoradas.

Neste texto, pretendemos desenvolver um pouco da visão de desenvolvimento na psicologia junguiana, pelo viés de Fordham, do brincar e suas implicações na personalidade. Para assim, posteriormente, voltar as questões que envolvem a discussão da misoginia e o machismo.

Desenvolvimento e o Brincar

Um dos principais teóricos junguianos do desenvolvimento foi o analista inglês Michael Fordham (1905-1995), psiquiatra que, ao longo de sua carreira trabalhou com crianças, sendo responsável por um abrigo de crianças evacuadas na segunda guerra. Seus estudos com crianças, o aproximaram do middle group da sociedade britânica de psicanálise, especialmente de Winnicott, de quem foi amigo. Desta maneira, sua forma de pensar o desenvolvimento é importante por unir tanto aspectos da sua percepção clinica com crianças, a teoria de Jung e a psicanálise inglesa.

Em seu modelo de desenvolvimento, Fordham(2001) defende que a criança quando nasce já possui uma unidade psicossomática, a qual ele chamou de “Self primário” a partir da qual, toda a experiência do psiquismo (incluindo o ego) se desenvolveria. Haveria, assim, uma organização preexistente na criança que direcionaria o processo de amadurecimento. Este processo já começaria desde a vida intrauterina, onde este Self primário passaria por um processo ao qual Fordham denominou de “deintegração e reintegração”.

Como unidade psicossomática, o self primário está diretamente relacionado com o corpo e os processos psicofisiológicos que, de acordo com as relações com a mãe/ambiente (toque, cuidado, suporte, alimentação, proteção, etc.), se manifesta, ativando partes especificas (relacionadas com o estimulo) que naturalmente vão deintegrando (ou dividindo-se). Desta forma, o self primário se “dividiria” em partes menores chamadas “deintegrados”. Essa divisão espontânea não deve ser confundida como uma desintegração ou algo similar negativo, pelo contrário é um processo positivo de ativação e atualização de determinadas partes do self.

Esses “deintegrados representam a prontidão à experiência, prontidão a perceber, a prontidão para agir instintivamente, mas, não uma ação ou percepção real”[1] (Fordham, 1957, p. 127, tradução nossa). Essa “prontidão”, seja percepção, ação ou experiência é a característica mais fundamental dos arquétipos[2]. O processo de deintegração corresponde a uma ativação dos processos arquetípicos inatos necessários ao desenvolvimento naquele momento. Que será seguido pelo processo de reintegração, onde este conteúdo será reintegrado ao Self, seja por meio do sono ou outros meios de elaboração. Com o tempo, o processo continuo e rítmico de integração-deintegração compondo e atualizando o substrato que dará origem ao núcleo do Ego.

É importante compreender que o processo de integração-deintegração não termina no estabelecimento do ego. Muito pelo contrário, ao longo da vida esse processo de repete continuamente através da formação de símbolos. Especialmente na infância esse processo desempenha um papel importante no processo de constituição ou desenvolvimento da personalidade.

O Self e seus processos representam o conceito-chave para Fordham, segundo o mesmo,

Dei muita importância ao self definido como a totalidade organizada dos sistemas consciente e inconsciente. A concepção aplicada à criança trata-a como uma entidade em si mesma, da qual se podem derivar os processos maturativos. Ela não inclui a mãe nem a família. A significação deste postulado de uma unidade primária ficará evidente, mas talvez possa dizer desde já que ela é concebida como a base sobre a qual repousa a noção de identidade pessoal e da qual procede a individuação.

A partir daí, o objetivo ideal dos pais pode ser definido como o de fomentar o amadurecimento do self e, assim, facilitar a sensação de autoconfiança da criança em relação a eles, a seus irmãos e ao ambiente extrafamiliar, no qual ela se irá engajando com o passar do tempo. (Fordham, 2001, p. 22)

Desta forma, o processo de desenvolvimento ou amadurecimento é inerente a dinâmica do Self, que necessita de condições mínimas para possibilitar esse desenvolvimento – sejam elas, o toque, fala, manejo etc. – pois, “o amadurecimento só pode se dar-se em toda plenitude num ambiente bom o suficientemente” (ibid, p.120). Nos primeiros meses de vida, a unidade mãe-bebê é importante por garantir a vida e o desenvolvimento dos processos deintegrativos. O ego da criança ainda não consegue se relacionar com a integralidade da mãe (objeto total), mas, como um objeto parcial (seio, pele, olhar, etc). Com o processo de amadurecimento da criança e, naturalmente, com as ausências da mãe desenvolvem-se os fenômenos e objetos transicionais – estes são, para Winnicott, uma importante expressão do amadurecimento. Os fenômenos e objetos transicionais só podem se desenvolver a partir do espaço potencial que, segundo Avellar (2004) é uma zona intermediária que resulta do fim da relação fusionada mãe-bebê, devido ao desenvolvimento de um sentimento de “eu” que possibilita a delimitação de uma realidade interior e exterior. Essa delimitação possibilita o afastamento da mãe, “o primeiro espaço que se abre entre na separação da unidade mãe-bebê para ser mãe-e-bebê é o espaço potencial”(Avellar, 2004, p. 60). Nesse espaço intermediário, transicional o bebê pode encontrar substitutos para os objetos parciais, de modo a suportar a ansiedade de separação e lidar de forma criativa e espontânea.

O objeto transicional, como o chama Winnicott, tem sua origem nos períodos em que a mãe está por perto e o bebê se sente seguro e a vontade. Ele pega o seio, ou um pedaço de pano que entre em contato com a boca para brincar e criar ilusões (ou delírios) que se tornam carregados de sentido. (…)ele é antes uma tentativa inicial de representação do self e, assim, pode ser a primeira de todas as simbolizações. (Fordham, 2001, p. 109)

É no espaço potencial, na experiência dos objetos transicionais, que se situa o brincar. Ao longo do desenvolvimento, o brincar se configura como uma experiência fundamental para a constituição da personalidade e para a experiência da realidade.

O brincar, quer na infância ou ao longo da vida, é uma oportunidade de integração e reparação dos processos de amadurecimento que por algum motivo foram prejudicados. Assim, o brincar possibilita que as representações do self (deintegrados) sejam atualizadas, humanizadas e integradas à estrutura da personalidade. Isto é, no processo de brincar, conteúdos arquetípicos que foram eliciados (deintegrados) pelo ambiente (família, relações sociais) e que o ego ainda não tem condições de assimilar possam ser elaboradas no brincar, de forma, a introduzir de forma aceitável ao mundo das crianças esses conteúdos.

Ao brincar as crianças não só reencenam a realidade que vivem, mas, podem integrar essa realidade como participantes ativos, produzindo no brincar – que como já dito, se constrói num espaço de segurança psíquica – a possibilidade do amadurecimento. Segundo Avellar (2004, p. 62) “é no brincar que o indivíduo pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral. É com base no brincar que se constrói totalidade da existência humana”. A experiência do brincar é possibilita essa experiência de integração ao longo da vida. Winnicott em seu livro “Brincar e Realidade” afirma

Em outros termos, é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. (Winnicott 1975, p. 63)

O brincar com bonecos, isto é, brinquedos com formas humanas possibilita que a criança possa não só elaborar a realidade que ela vivencia, mas, também integrar os conteúdos relacionados com essa realidade à sua personalidade. Com essa integração, a criança pode lidar com o medo e ansiedade relacionado às figuras parentais e às situações ambientais novas que surgem para as quais ainda não está preparado. Através do brincar a criança se torna ativa e internamente resolver as situações-problema que se apresentem.

Devemos considerar que quando falamos acerca do “brincar com bonecas”, isto é, brincar com bonecos que representam o feminino, falamos da atividade que permite a integração e a assimilação de características humanas que historicamente foram associadas ou identificadas com feminino (como receptividade, flexibilidade, cuidado, delicadeza e afetividade dentre outras). O mesmo vale para as meninas que integram características que foram historicamente identificadas com o masculino (como a agressividade, objetividade, rigidez, ênfase na lógica, dentre outras) tendo a possibilidade de brincar com os mesmos brinquedos ou brincadeiras que os meninos.

Com todo sexismo histórico, a integração e assimilação desse potencial é parcial. Isso se estabelece pois, as crianças que não tem a possibilidade de integrar naturalmente os aspectos do gênero oposto através de uma relação direta e criativa, sendo estes integrados a partir das relações com figuras parentais, familiares e colegas. Todavia esse contato com outro é limitado – seja pelo desejo, interesse e limitações físicas – fazendo com que o interagir das crianças com outras pessoas não corresponda a imaginação e ao brincar criativo. Dessa forma, esses os conteúdos terão maior dificuldade para ser integrados a personalidade da criança, ficando, assim, reprimidos ou subdesenvolvidos no inconsciente. Podendo podem oferecer dificuldades ao indivíduo ao longo da vida até serem finalmente integradas.genero

Assim, podemos questionar: qual seria o brinquedo mais adequado para a criança? O brinquedo mais adequado para a criança é aquele que ela deseja e que seja seguro para sua idade.

Para além das bonecas: misoginia e psicopatia

Para as crianças, brincar com bonecos ou bonecas é apenas brincar. É para os adultos que o brincar assume uma outra dimensão. Brincar se torna instrumento ideológico, no caso, o patriarcado que atravessa nossa constituição psíquica e social. A divisão sexista dos brinquedos de “menina” e de “menino” tem por objetivo estabelecer um modelo do que viria a ser “adequado” ou “próprio” para um cada gênero, numa tentativa de estabelecer um “local” masculino ou feminino, baseado (em nossa cultura) na tradição judaico-cristã, que durante séculos subjugou as mulheres baseado no mito do “pecado original”.

Não podemos negar que essa ideologia patriarcal também influenciou a psicologia. Em outro texto (Entorno da anima e animus – algumas reflexões sobre machismo e atualidade) foi discutido acerca do machismo na psicologia analítica, tendo expressão nos conceitos de anima e animus. Os conceitos não são em si “machistas” mas, são atravessados pela cultura machista. Esse atravessamento cultural é sentido na configuração das representações arquetípicas, cuja expressão se dá na dicotomia anima-animus.

Na teoria junguiana, esse atravessamento pode ser compreendido por diferentes persepctivas. Em Neumann temos uma noção de fragmentação de arquétipos, onde “ocorre uma fragmentação no sentido de que, para a consciência, o arquétipo primordial se decompõe num amplo grupo de arquétipos e símbolos inter-relacionados” (1995, p. 232). De modo semelhante, Guggenbhül-Craig retoma a mesma temática, em “Abuso do Poder…”, falando sobre as polaridades do arquétipo e cisão do arquétipo,

Não é fácil, para a psique humana, suportar a tensão das polaridades. O ego ama a clareza e sempre tenta erradicar a ambivalência interior. Essa necessidade de situações inequívocas pode acarretar uma cisão dos polos arquetípicos. Um pólo poderá ser reprimido e continuar operando no inconsciente,(…) A parte reprimida do arquétipo poderá ser projetada sobre o mundo exterior.(Guggenbhul-craig, 1979,p.99)

A dinâmica que Neumann e Guggenbhul-Craig descrevem nos indicam de uma dificuldade do ego e da cultura para lidar com a ambivalência natural dos arquétipos. A fragmentação ou a cisão do arquétipo não se dá ao acaso, mas, é condicionada pela consciência coletiva. Nesse sentido, podemos considerar que o masculino e o feminino são pólos de uma mesma dinâmica arquetípica, representada na teoria junguiana pela sizígia “Anima-Animus”, que, em outro texto, discutimos como sendo os polos do arquétipo da alteridade (cf. Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010 ), esse arquétipo pode ser expressado pela relação “Eu-Outro” que, em aspecto de maior diferenciação ou oposição, pode ser representado como masculino e feminino.

Poderíamos nos questionar acerca dessas cisões, pois, e “se essa cisão for radical? E, se não houver a reintegração?” Por mais que a psique seja um sistema autorregulador nem sempre encontra os meios necessários para reparar as falhas no desenvolvimento. Assim, quando um elemento não é adequadamente integrado pode formar uma lacuna na psique, isto é, um vazio na alma, que faz com que o indivíduo será incapaz de lidar adequadamente com as situações relacionadas com o conteúdo “não integrado”. Guggenbhul-Craig foi um pensador junguiano que trabalhou a ideia do “vazio na alma”, ele nos ajuda a pensar essa imagem,

“Imagine, se você quiser, uma geografia da psique, um imenso continente povoado por diferentes tribos (habilidades e capacidades), cada uma vive e se desenvolve adequadamente. Seguindo um pouco mais esta analogia, aquelas áreas que não foram habitadas ou são inabitáveis, como desertos, áreas estéreis, ou lacunas(lacunae) representariam as psicopatias. Todos temos traços psicopáticos, cada um de nós tem algo faltando ou aspectos que são marcadamente subdesenvolvidos. (Guggenbhul-Craig, 1986, p.68 – tradução nossa)[3]

Na lacuna, no deserto estéril não há produção simbólica, não há vida simbólica. Esta “vida simbólica” é representada por Guggenbhul-Craig como eros, a força psíquica, criativa, que une tanto os elementos de nosso mundo interior quanto nos liga ao mundo exterior. Nesse sentido, a psicopatia compreendida por Guggenbhul-Craig como um vazio ou lacuna na alma, no psicopata há uma “ausência de eros” ou a “deficiência de eros”, que impede o desenvolvimento adequado da personalidade. Guggenbhul-Craig afirma, “a falta de crescimento e de desenvolvimento é, como a falta da moralidade, o resultado de um fraco ou deficiente sentido de Eros: sem Eros não há desenvolvimento.”[4] (ibid, p.90) As relações humanas se estagnam, assim como relações consigo.

Para além do machismo, temos a misoginia, onde o feminino e a mulher não é apenas inferiorizado, mas, desprezado e objetificado. Na misoginia vemos um deserto de eros, onde o feminino não foi integrado a personalidade. A mulher não é compreendida em sua totalidade e dignidade numa relação de igualdade, mas, como uma posse, como uma relação inadequada.

Essa falta de Eros nos psicopatas encontra expressão nas dificuldades encontradas nas relações interpessoais. Em vez de Eros, nós frequentemente encontramos manipulação. Jung disse que quando o Amor se retira, o Poder avança, o Poder sendo um sinal de importância em indivíduos com tendências psicopáticas. Onde Eros está faltando, manipulação, controle, dominação e intriga dominam. Muitos pesquisadores têm reconhecido a “diminuição do Eros” como qualidade da psicopatia. (ibid. p.80- tradução nossa)[5]

Acredito que poderíamos equiparar a misoginia a psicopatia. Mas, faço isso como uma provocação. Uma provocação ao nosso próprio traço psicopático, nossa própria deficiência de Eros, que nos incapacita na relação com alteridade. Começamos esse texto discutindo o desenvolvimento, o processo de deintegração e reintegração – e o quanto o ambiente (mães/pais/família) são importantes para o desenvolvimento e falamos do brincar de boneca como ícone do sexismo de nossa cultura. Falar do “brincar de boneca” é falar de nosso sexismo íntimo, de nosso traço psicopático que cultivamos em silêncio, racionalizando, categorizando como “politicamente correto” todo movimento que visa a igualdade – seja ele de gênero, étnico-racial ou de orientação sexual. Na aridez do politicamente correto, construímos um deserto sem Eros, sem implicação.

Jung afirmava que “a pessoa que não tem o coração mudado, não mudará o coração de ninguém”(Jung, 2000, p. 186). Por isso mesmo, chamo atenção para o cuidado com o “politicamente correto”, pois a mudança de linguagem não é uma “mudança de coração”. É importante salientar que, no texto do Sakamoto citado no início deste texto, ele usa o “brincar de boneca” para chamar atenção aos hábitos machistas e sexistas que atravessam nossa formação deste a mais tenra idade. A mudança não se dá de forma mecânica, automática ou por adesão ao “politicamente correto”, a mudança se dá pela experiência, pela ação e vivenciar a realidade do outro.[6]

Acredito que enquanto não tivermos o coração mudado – que implica em ações e afetos – não mudaremos nada. Enquanto não nos permitirmos a experiência da alteridade – que nos identifica na relação como outro, compreendendo-o como igual – continuaremos a ter uma sociedade hostil e violenta contra as mulheres. Enquanto escondermos nosso machismo e sexismo sob os “panos quentes” do politicamente correto, viveremos no deserto da alma, acalentando, silenciosamente, nossos próprios traços psicopáticos.

Referencias Bibliográficas

Avellar, Luziane, Z.. Jogando na análise de crianças: intervir-interpretar na abordagem winnicottiana. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2004

Guggenbühl-Craig, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. RJ, Achiamé, 1978

Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

Fordham, Michael. New Developments in Analytical Psychology, Londres: Routledge and Kegan Paul, 1957.

Fordham, Michael, A criança como individuo: Rio de Janeiro, 2001.

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. II, Petrópolis: Vozes, 2000.

Neumann, Erich. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix, 1995

Winnicott, D.W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago, 1975


[1] The deintegrates represent a readiness for experience, a readiness to perceive, a readiness to act instintively, but not na actual preception or action.

[2] Cf. Instinto e Inconsciente(1919). In JUNG, C.G. Natureza da Psique, Vozes, 5ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000.

[3] Imagine, if you will, a geography of the psyche, na immense continente peopled by different tribes (the abilities and capabilities) which live and develop accordingly. Following the analogy further, those áreas wich were uninhabited or uninhabitable, the deserts, barren areas, or lacunae would represent psychopathies. Everyone has psychopathic traits; each of us is missing something or has some aspect that is markedly underdeveloped.

[4] The lack of growth and of development is, like the lack of morality, the result of a weak or deficient sense of Eros: without Eros there is no

[5] This lack of Eros in psychopaths fids expression in difficulties encountered in interpersonal relationships. Rather than Eros, we frequently find manipulation. Jung said that when Love retreats, Power advences, Power being of signal importance in individuals with psychopathic tendencies. Where Eros is lacking, manipulation, control, domination, na intrigue take over. Most researchers have recongnized the Eros-less quality of psychopaths.

[6]No cinema dois filmes que eu indico que abordam essa experiência são: Inimigo Meu (1985) e Irmão Urso (2003)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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O tempo e Maya : Algumas Reflexões sobre o Tempo na Psicoterapia a partir de um conto Hindu

(23 de março de 2015)

Nota: Este texto foi publicado pela primeira vez com o título “O tempo na Psicoterapia: Algumas Reflexões sobre o Tempo a partir de um conto Hindu” em 10 de setembro de 2012. Como o tema do tempo retornou as discussões do grupo Aion, resolvi revisar o texto que culminou em muitas mudanças no texto original(que foi substituído no site).

O tempo é uma questão importante para a psicoterapia. Seja por parte do paciente que, muitas vezes impaciente, questiona o acerca de quanto tempo durará a psicoterapia/análise. Por outro, psicoterapeutas iniciantes se cobram por resultados e ficam angustiados com o tempo, pois, esperam o resultado para se sentirem mais confiantes. Compreender e lidar com o tempo é uma tarefa fundamental para o psicoterapeuta.

Uma das dificuldades para lidarmos com o tempo é que em nosso idioma temos apenas uma palavra para descreve-lo. Acabamos flexionando o tempo em expressões como “o tempo Deus”, mas, que ainda é insuficiente para nos dar mais perspectivas acerca do tempo. No grego antigo haviam três possibilidades de pensar o tempo o Chronos, o kairós e o aion. O Cronos seria o tempo sequencial, o tempo associado a métrica, medida, a linearidade do inicio meio e fim – poderíamos dizer, que o tempo cronos é o tempo associado aos processos da consciência, que também se caracteriza por criar um elo sequencial entre os eventos possibilitando a percepção de continuidade. O tempo Kairós é associado ao tempo oportuno, não representa um período de tempo, mas, um momento significativo – poderíamos pensar o Kairós associado a sincronicidade. O Aion se remete ao tempo que não pode ser mensurado, ao tempo sagrado, mítico, intimamente relacionado atemporalidade, ao eterno – o Aion é o tempo do inconsciente.

Acredito que seria interessante ampliarmos a compreensão acerca do tempo pensando um pouco acerca do conceito hindu de maya. Para nos aproximarmos desse conceito iremos utilizar um pequeno conto hindu narrado pelo Mircea Eliade

Um asceta ilustre chamado Nârada, tendo obtido a graça de Visnu pelas suas inúmeras austeridades, vê aparecer-lhe o deus, o qual lhe promete cumprir qualquer desejo por ele emitido. “Mostra-me a força mágica da tua mâyâ” — pede-lhe Nârada. Visnu acede e faz-lhe sinal para que o siga. Pouco tempo depois, tendo chegado a um caminho deserto e ensolarado, sentindo sede, Visnu pede-lhe para andar umas centenas de metros até uma pequena aldeia que se avista e trazer-lhe água. Nârada precipita-se e bate à porta da primeira casa que encontra. Uma bela rapariga abre-lhe a porta. O asceta olha-a demoradamente e esquece o motivo que ali o levou. Entra na casa e os pais da jovem recebem-no com o respeito devido a um santo. O tempo passa. Nârada acaba por casar com a rapariga e conhece as alegrias do casamento e a  duração de uma vida de camponês. Passam-se doze anos: Nârada tem agora três filhos e após a morte do sogro torna-se proprietário da quinta. Mas no fim do décimo segundo ano, chuvas torrenciais acabam por inundar a região. Numa só noite os rebanhos perecem afogados e a casa desmorona-se. Segurando com uma das mãos a mulher, com a outra dois filhos e levando o mais pequeno ao ombro, Nârada caminha com dificuldade através da água. Mas o fardo é por demais pesado.

Escorregando, o pequeno cai na água. Nârada larga os outros dois e faz tudo para o encontrar. Demasiado tarde: a corrente levou-o para longe. Enquanto procurou o mais pequeno os outros desapareceram tragados pelas águas; pouco tempo depois a mulher tem a mesma sorte. O próprio Nârada cai e a corrente arrasta-o, inconsciente como um pedaço de madeira. Quando desperta atirado sobre uma rocha, lembra-se das suas infelicidades e rompe em soluços. Mas, de repente, ouve uma voz familiar: “Filho, onde está a água que devias trazer-me? Espero-te há mais de meia-hora!” Nârada volta a cabeça e olha. Em lugar da cheia que tudo destruíra, vê campos desertos, brilhando ao sol. “Compreendes agora o segredo do meu mâyâ?” —pergunta-lhe o deus.

Evidentemente que Nârada não podia afirmar que tinha compreendido tudo; mas aprendera uma coisa essencial: sabia agora que a Mâyâ cósmica de Visnu se manifesta através do tempo.(ELIADE, 1978, p.69-70)

Neste conto, ao ensinar sobre sua Maya cósmica, Visnu ensina acerca do tempo e da existência. Todo o período de 12 anos experimentado por Narada, não passou de poucos minutos para Visnu, toda a experiência de vida de Narada, se dissolveu. A maya de Visnu se manifesta no tempo e na experiência da realidade. Acerca da Maya Heinrich Zimmer comenta

O substantivo  mâyâ relaciona-se etimológicamente com ´medida´. É formado pela raiz mâ, que significa medir ou traçar (como por exemplo, a planta de uma construção ou esboço de um desenho), produzir, dar forma ou criar,  revelar.Mâyâ é a medição, criação, ou manifestação das formas; é qualquer ilusão, artificio, ilusionismo, fraude, embuste, sortilégio ou obra de feitiçaria; aparição ou imagem ilusória, fantasmagoria, ilusão de ótica; é também qualquer estratagema diplomático ou artifício político cuja a intenção seja enganar. A mâyâ dos deuses é o poder que têm de assumir diversas formas, exibindo, segundo sua vontade, vários aspectos de sua essência sutil. Mas são, os próprios deuses, a produção de uma mâyâ maior: a espontânea autotransformação de uma substância de origem indiferenciada, divina e onigeratriz. Essa mâyâ maior não produz apenas os deuses, mas o universo em que atuam. (…)

Mâyâ é a Existência: tanto o mundo compreendido por nossa percepção quanto nós próprios que, inseridos nesse meio que se expande e dissolve, também nos desenvolvemos e dissolvemos.(…)

O ego é enredado numa teia num estranho casulo: ´tudo isso à minha volta´ e ´minha própria existência´ – experiência externa e interna – são a urdidura e a trama do tecido sutil. (…) Mâyâ – o mundo, a vida, o ego, aos quais nos agarramos – é fugaz e evanescente como a nuvem e  a névoa. (ZIMMER, 1989, p. 30-1)

Maya é um conceito ou ideia complicado para nós ocidentais.  A tradução mais utilizada é a de “ilusão”, mas, esta não deve ser vista como algo negativo, pois, indica a dimensão da aparência que proporciona delimitações, formas, que nos permitem a experiência da existência. Maya revela a transformação, transitoriedade – por isso mesmo, Zimmer aponta sua fugacidade. Assim, que os deuses se manifestam no mundo dos homens através de sua Maya, isto é, seus inúmeros avatares , que são constituem uma revelação do parcial do deus total. Assim, a Maya nos confronta com o que é parcial e total, aparente e oculto, perene e efêmero. Nosso mundo contemporâneo se tornou escravo do tempo do tempo cronológico, dos 12 anos vividos por Narada, onde, perdendo o contato com a realidade supraordenada, com o tempo fora do tempo, com o tempo mítico, dos sonhos, do sagrado. Devemos frisar que não estamos defendendo concepção religiosa a falar do tempo sagrado mas, apontando que essa dimensão do sagrado e do mito interferem diretamente em nossa psique, pois, estão na mesma ordem da dinâmica do inconsciente.

O tempo efetivo para o desenvolvimento da análise é o tempo do inconsciente. Contudo, não devemos encarar esse fato como se fosse algo extremamente longo, pois, na verdade, a disponibilidade da consciência em lidar ou aceitar os conteúdo do inconsciente também influencia bastante o processo terapeutico. Por mais que existam cobranças acerca dos “meses” ou “anos” de análise/terapia, esse tempo cronológico ou do calendário não afeta o tempo do inconsciente.

O tempo do inconsciente é compreendido como atemporal, ou um tempo fora do tempo. Isto porque as categorias que utilizamos conscientemente não se aplicam ao inconsciente. O passado, presente e futuro (como uma tendência para o futuro) se acham unidos, indistintamente. Devemos ter em vista os complexos ideoafetivos, entorno dos quais nossa história pessoal se organiza, mantém os aspectos mais importantes (positivos ou negativos) ativos e atualizados. Desta forma, elementos da infância com forte carga emocional podem interferir na vida de um adulto ou idoso. Não é algo do passado que afeta, mas, desde o passado que afeta o individuo. A esse respeito Jung afirmou

A verdadeira causa da neurose está no hoje, pois ela existe no presente. Não é de forma alguma um caput mortuum que aqui se encontra, vinda do passado, mas é nutrida diariamente e, por assim dizer, sempre de novo gerada. Somente no hoje e não no ontem será “curada” a neurose. Pelo fato de nos defrontrarmos hoje com o conflito neurótico, a digressão histórica é um rodeio, quando não um desvio, a digressão para milhares de possibilidades de fantasias obscenas ou para desejos infantis não realizados é mero pretexto para fugir do essencial. (JUNG, 2000, p.161-2)

Algumas pessoas tentam determinar o “tempo do sintoma”, isto é, o momento histórico no qual uma possível causa do sintoma tenha ocorrido, como se isso fosse determinante para a cura. Como dissemos acima, o tempo do inconsciente é diferente do tempo do cronológico da vida do sujeito, os acontecimentos passados nos oferecem pistas(muitas vezes valiosas). Mas, não passam de pistas. Descobrir o evento que detonou um crise, nos ajuda a compreender, mas, sem uma mudança de vida, vira apenas um exercício intelectual. Uma maya – uma ilusão- que nos permite vislumbrar um detalhe, mas, não o todo do fenômeno.

Quando falamos do tempo associado ao sintoma, acredito que deveríamos compreendo-lo não termos históricos mas, em termos de mito, isto é, do “mito pessoal” de cada individuo. Mircea Eliade definia o mito como um modelo exemplar, uma referência da daria sentido e legitimidade as ações, segundo o mesmo

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo. “Dizer” um mito é proclamar o que se passou ab origine. Uma vez “dito”, quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodítica: funda a verdade absoluta. “É assim porque foi dito que é assim”, declaram os esquimós netsilik a fim de justificar a validade de sua história sagrada e suas tradições religiosas. O mito proclama a aparição de uma nova “situação” cósmica ou de um acontecimento primordial. Portanto, é sempre a narração de uma “criação”: conta se como qualquer coisa foi efetuada, começou a ser. É por isso que o mito é solidário da ontologia: só fala das realidades, do que aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente. (Eliade, 2001, p.84)

O mito pessoal revela a nossa “verdade verdadeira”. A história que nos constitui e, desde sempre, e nos possibilita ser quem somos, por isso, para Jung o sintoma não ocultava, mas, em sua própria linguagem revelava a história significativa e simbólica do sujeito. Ela não está encerrada no passado distante da infância, mas, está no hoje. É um modelo em torno do qual nos orientamos e nossas ações reatualizam este mito, o modelo exemplar que se coloca no hoje, desde aquele tempo. Não é uma repetição vazia ao passado, mas, um movimento que resgata a vida do individuo desde o passado, que se encontra vivo no presente.

Trata-se, em suma, de um regresso ao Tempo de origem, cujo fim terapêutico é começar outra vez a existência, nascer (simbolicamente) de novo. A concepção subjacente a esses rituais de cura parece ser a seguinte: a Vida não pode ser reparada, mas somente recriada pela repetição simbólica da cosmogonia, pois, como já dissemos, a cosmogonia é o modelo exemplar de toda criação. (Eliade, 2001, p. 74 – grifos do autor)

O passado não pode ser reparado ou modificado, mas, uma vez que o mito (pessoal) é integrado torna-se possível recriação, uma ressignificação da experiência da realidade. O tempo de assimilação e ressignificação vai variar de individuo para individuo. Assim, julgar o “tempo de terapia” apenas pelo calendário não só equivocado como é injusto com cada individuo. Apesar do tempo ser um fator importante, não é ele que vai determinar o avanço da psicoterapia. Isso exige serenidade do terapeuta tanto para aceitar o tempo de cada um como lidar com as cobranças em função do tempo.

A particularidade do tempo de cada um é um aspecto de sua realidade psíquica. Quando estão muito dissociadas de seu mundo interior algumas pessoas não conseguem se compreender em seu processo de desenvolvimento. Isto é, aprisionadas na perspectiva seu mito pessoal, não conseguem se perceber em sua própria história, ignorando muitas de suas realizações. Isso se reflete na terapia como a dificuldade do paciente em perceber as mudanças que lhe ocorrem ao longo do processo terapêutico, julgando todo o processo pelas dificuldades que enfrentam no “momento atual” da terapia, afirmando “continuam no mesmo lugar”.  A dificuldade de integrar o “passado e presente” implica na dificuldade se criar o futuro – isto é, de se permitir uma nova possibilidade. Seu mito pessoal, torna-se como um labirinto. Assim, se sentem continuamente dependentes, temerosos ou fragilizados frente aos novos desafios da vida. Somente com a serenidade e paciência, o analista, poderá segurar pelo tempo necessário o fio de Ariadne que conduzirá o paciente para fora de seu próprio labirinto.

O tempo é maya, somente com a compreensão de que o tempo da realidade psíquica de cada um é impar, a transformação pode acontecer. O tempo é maya, não no sentido comum de “ilusão”, mas, da existência que se transforma. Compreender o tempo na psicoterapia como uma das faces do processo contínuo de vir-a-ser, é um passo para integrarmos nossa própria maya.

Referências bibliográficas

ELIADE, M. Imagens e Símbolos, Lisboa:Ed. Arcádia, 1978.

ELIADE M, O Sagrado e o Profano, São Paulo: Martins Fontes, 2001

JUNG, Civilização em Transição,Petrópolis: Vozes, 2000.

ZIMMER, H. Mitos e Símbolos na Arte e na Cultura da Índia, São Paulo:Ed. Palas Athena, 1989.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas reflexões acerca do chamado “otimismo junguiano”

 

(28 de dezembro de 2012)

Há alguns anos atrás, quando ainda fazia a graduação em psicologia, uma colega fez uma crítica ao pensamento junguiano dizendo que este era de um otimismo ingênuo. Na época, nem me incomodei com essa crítica, pois, era motivada pela ideia psicanalítica da pulsão de morte. Contudo, nesses últimos dias eu tenho sido questionado acerca do dito “otimismo” junguiano, e, essa lembrança acerca do “otimismo ingênuo” me fizeram pensar um pouco mais.

De fato, acredito que podemos começar a pensar o “otimismo” junguiano, nos perguntando, se ele é apenas um otimismo? Acredito seja necessário primeiro considerarmos alguns aspectos epistemológicos. Isto porque, a postura junguiana não está calcada apenas numa premissa qualitativa ou numa simples aposta que “vai dar tudo certo”, mas, sim numa postura epistemológica, pois, Jung compreendia que a realidade não era um dado objetivo, mas que se constituiria na relação com o sujeito. Desta forma, ao observar um objeto a percepção do sujeito é condicionada tanto por seu sistema sensorial quanto por sua história. É justamente nesse sentido, que Jung a afirma “Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver” (JUNG, 1989, p.324).

A realidade ou mesmo a psique não é dada de forma objetiva ou integral, cada um de nós perceberemos os fenômenos de acordo com nossa perspectiva. Por isso, que na psicologia possuímos tantas abordagens diferentes, que abordam o mesmo fenômeno por perspectivas diferentes, uns focam no comportamento, outros no corpo, outros no sentido da vida, outros nas relações sociais, nas relações sócio-históricas, outros nos aspecto patológico da psique. Através de uma comparação com a perspectiva diametralmente oposta, isto é, a de Freud, Jung expõe sua perspectiva afirmando que

Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde e gostaria de libertar os doentes daquela psicologia que Freud coloca em cada página de suas obras. Não consigo ver onde Freud consegue ir além de sua própria psicologia e como poderá aliviar o doente de um sofrimento do qual o próprio médico padece. (JUNG, 1989, p.325)

Jung afirma que “prefere” olhar pelo viés da saúde, isto é, ele escolhe a perspectiva que prioriza a saúde e os processos autorregulatórios da psique. Afirmar a saúde não significa negar a doença e os aspectos patológicos, mas, compreende-los numa perspectiva onde a doença integra e compõe o processo de saúde. É justamente nesse sentido que Jung afirma que “O importante já não é a neurose, mas quem tem a neurose. É pelo ser humano que devemos começar, para poder fazer-lhe justiça.”(Jung, 1999, p. 80). Assim, podemos compreender que mais que a neurose não possui uma existência em si mesma, mas, compõe o cenário da vida e realidade do individuo.

De fato, devemos compreender que a psique possui todo instrumental necessário para se reorganizar e promover o desenvolvimento do individuo. Por isso mesmo, Jung afirma,

Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrario teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. (JUNG, 2000, p. 160-1)

Acredito que o chamado otimismo junguiano, também esteja relacionado a compreensão que a realidade psíquica é orientada, não apenas pela causa, mas, para um fim. A perspectiva finalista nos possibilita pensar o “para quê” de um dado fenômeno psíquico, isto é, pensar qual a intencionalidade ou para onde o processo está apontando. Através da neurose, eu poderia compreender não só quais os caminhos ou escolhas eu tomei que me trouxeram aonde estou, mas, quais caminhos ou escolhas devo tomar para mim vida. De fato, compreender que “não é apenas o passado que nos condiciona, mas também o futuro, (…).” (JUNG, 2006, p.115) nos abre para uma dimensão da possibilidade, onde o individuo é efetivamente um agente, um construtor de sua própria história.

No filme de animação “Kung Fu Panda 2”(2011), temos uma excelente expressão dessa compressão, a Velha Cabra diz a Po ;“Sua história pode não ter tido um começo muito feliz, mas não é isso que define quem você é. É o restante da sua história, quem você escolhe ser.” Nossa história vivida nos permite compreendermos qual caminho que percorrermos, mas, não somos condenados a vivermos nesses caminhos. A psicoterapia visa possibilitar que o individuo realize novas escolhas a partir de sua própria história.

Por mais que a realidade da neurose possa nos fazer sofrer, devemos compreender que há sempre uma possibilidade, pois, “o fundo da psique é natureza e natureza é vida criadora. É bem verdade que a própria natureza derruba o que construiu, mas vai reconstruir de novo” (JUNG 2000, p.89). A vida gera vida. Mesmo na psicose, como muito bem demonstrou a Dra. Nise da Silveira, sendo tratado com respeito e dignidade, o paciente pode ter qualidade de vida e viver criativamente!

O pensamento junguiano é orientado para a vida e seus processos criativos, isto, já nos permitiria chama-lo de “otimista”. Mas, como expomos acima, este otimismo não seria “ingênuo” nem mesmo “romântico”, mas, sim um otimismo fundamentado, baseado numa perspectiva que prioriza a vida e os processos naturais de desenvolvimento.

De fato, o otimismo, uma postura afirmativa ou positiva frente a vida e aos processos psíquicos pode ser compreendido como uma marca junguiana.

Referências bibliográficas

JUNG, C. G.. Freud e a Psicanálise Petrópolis: Vozes. 1989.

JUNG, C.G. A pratica da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.

JUNG, C.G O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, Petrópolis: Vozes, 2006.

JUNG, C.G Civilização em Transição, Petrópolis: Vozes, 2000.

KUNG FU PANDA 2. Produção de Guillermo del Toro. EUA: Paramount Pictures,. Animação (90 min.), 2011.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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