O tempo e Maya : Algumas Reflexões sobre o Tempo na Psicoterapia a partir de um conto Hindu

(23 de março de 2015)

Nota: Este texto foi publicado pela primeira vez com o título “O tempo na Psicoterapia: Algumas Reflexões sobre o Tempo a partir de um conto Hindu” em 10 de setembro de 2012. Como o tema do tempo retornou as discussões do grupo Aion, resolvi revisar o texto que culminou em muitas mudanças no texto original(que foi substituído no site).

O tempo é uma questão importante para a psicoterapia. Seja por parte do paciente que, muitas vezes impaciente, questiona o acerca de quanto tempo durará a psicoterapia/análise. Por outro, psicoterapeutas iniciantes se cobram por resultados e ficam angustiados com o tempo, pois, esperam o resultado para se sentirem mais confiantes. Compreender e lidar com o tempo é uma tarefa fundamental para o psicoterapeuta.

Uma das dificuldades para lidarmos com o tempo é que em nosso idioma temos apenas uma palavra para descreve-lo. Acabamos flexionando o tempo em expressões como “o tempo Deus”, mas, que ainda é insuficiente para nos dar mais perspectivas acerca do tempo. No grego antigo haviam três possibilidades de pensar o tempo o Chronos, o kairós e o aion. O Cronos seria o tempo sequencial, o tempo associado a métrica, medida, a linearidade do inicio meio e fim – poderíamos dizer, que o tempo cronos é o tempo associado aos processos da consciência, que também se caracteriza por criar um elo sequencial entre os eventos possibilitando a percepção de continuidade. O tempo Kairós é associado ao tempo oportuno, não representa um período de tempo, mas, um momento significativo – poderíamos pensar o Kairós associado a sincronicidade. O Aion se remete ao tempo que não pode ser mensurado, ao tempo sagrado, mítico, intimamente relacionado atemporalidade, ao eterno – o Aion é o tempo do inconsciente.

Acredito que seria interessante ampliarmos a compreensão acerca do tempo pensando um pouco acerca do conceito hindu de maya. Para nos aproximarmos desse conceito iremos utilizar um pequeno conto hindu narrado pelo Mircea Eliade

Um asceta ilustre chamado Nârada, tendo obtido a graça de Visnu pelas suas inúmeras austeridades, vê aparecer-lhe o deus, o qual lhe promete cumprir qualquer desejo por ele emitido. “Mostra-me a força mágica da tua mâyâ” — pede-lhe Nârada. Visnu acede e faz-lhe sinal para que o siga. Pouco tempo depois, tendo chegado a um caminho deserto e ensolarado, sentindo sede, Visnu pede-lhe para andar umas centenas de metros até uma pequena aldeia que se avista e trazer-lhe água. Nârada precipita-se e bate à porta da primeira casa que encontra. Uma bela rapariga abre-lhe a porta. O asceta olha-a demoradamente e esquece o motivo que ali o levou. Entra na casa e os pais da jovem recebem-no com o respeito devido a um santo. O tempo passa. Nârada acaba por casar com a rapariga e conhece as alegrias do casamento e a  duração de uma vida de camponês. Passam-se doze anos: Nârada tem agora três filhos e após a morte do sogro torna-se proprietário da quinta. Mas no fim do décimo segundo ano, chuvas torrenciais acabam por inundar a região. Numa só noite os rebanhos perecem afogados e a casa desmorona-se. Segurando com uma das mãos a mulher, com a outra dois filhos e levando o mais pequeno ao ombro, Nârada caminha com dificuldade através da água. Mas o fardo é por demais pesado.

Escorregando, o pequeno cai na água. Nârada larga os outros dois e faz tudo para o encontrar. Demasiado tarde: a corrente levou-o para longe. Enquanto procurou o mais pequeno os outros desapareceram tragados pelas águas; pouco tempo depois a mulher tem a mesma sorte. O próprio Nârada cai e a corrente arrasta-o, inconsciente como um pedaço de madeira. Quando desperta atirado sobre uma rocha, lembra-se das suas infelicidades e rompe em soluços. Mas, de repente, ouve uma voz familiar: “Filho, onde está a água que devias trazer-me? Espero-te há mais de meia-hora!” Nârada volta a cabeça e olha. Em lugar da cheia que tudo destruíra, vê campos desertos, brilhando ao sol. “Compreendes agora o segredo do meu mâyâ?” —pergunta-lhe o deus.

Evidentemente que Nârada não podia afirmar que tinha compreendido tudo; mas aprendera uma coisa essencial: sabia agora que a Mâyâ cósmica de Visnu se manifesta através do tempo.(ELIADE, 1978, p.69-70)

Neste conto, ao ensinar sobre sua Maya cósmica, Visnu ensina acerca do tempo e da existência. Todo o período de 12 anos experimentado por Narada, não passou de poucos minutos para Visnu, toda a experiência de vida de Narada, se dissolveu. A maya de Visnu se manifesta no tempo e na experiência da realidade. Acerca da Maya Heinrich Zimmer comenta

O substantivo  mâyâ relaciona-se etimológicamente com ´medida´. É formado pela raiz mâ, que significa medir ou traçar (como por exemplo, a planta de uma construção ou esboço de um desenho), produzir, dar forma ou criar,  revelar.Mâyâ é a medição, criação, ou manifestação das formas; é qualquer ilusão, artificio, ilusionismo, fraude, embuste, sortilégio ou obra de feitiçaria; aparição ou imagem ilusória, fantasmagoria, ilusão de ótica; é também qualquer estratagema diplomático ou artifício político cuja a intenção seja enganar. A mâyâ dos deuses é o poder que têm de assumir diversas formas, exibindo, segundo sua vontade, vários aspectos de sua essência sutil. Mas são, os próprios deuses, a produção de uma mâyâ maior: a espontânea autotransformação de uma substância de origem indiferenciada, divina e onigeratriz. Essa mâyâ maior não produz apenas os deuses, mas o universo em que atuam. (…)

Mâyâ é a Existência: tanto o mundo compreendido por nossa percepção quanto nós próprios que, inseridos nesse meio que se expande e dissolve, também nos desenvolvemos e dissolvemos.(…)

O ego é enredado numa teia num estranho casulo: ´tudo isso à minha volta´ e ´minha própria existência´ – experiência externa e interna – são a urdidura e a trama do tecido sutil. (…) Mâyâ – o mundo, a vida, o ego, aos quais nos agarramos – é fugaz e evanescente como a nuvem e  a névoa. (ZIMMER, 1989, p. 30-1)

Maya é um conceito ou ideia complicado para nós ocidentais.  A tradução mais utilizada é a de “ilusão”, mas, esta não deve ser vista como algo negativo, pois, indica a dimensão da aparência que proporciona delimitações, formas, que nos permitem a experiência da existência. Maya revela a transformação, transitoriedade – por isso mesmo, Zimmer aponta sua fugacidade. Assim, que os deuses se manifestam no mundo dos homens através de sua Maya, isto é, seus inúmeros avatares , que são constituem uma revelação do parcial do deus total. Assim, a Maya nos confronta com o que é parcial e total, aparente e oculto, perene e efêmero. Nosso mundo contemporâneo se tornou escravo do tempo do tempo cronológico, dos 12 anos vividos por Narada, onde, perdendo o contato com a realidade supraordenada, com o tempo fora do tempo, com o tempo mítico, dos sonhos, do sagrado. Devemos frisar que não estamos defendendo concepção religiosa a falar do tempo sagrado mas, apontando que essa dimensão do sagrado e do mito interferem diretamente em nossa psique, pois, estão na mesma ordem da dinâmica do inconsciente.

O tempo efetivo para o desenvolvimento da análise é o tempo do inconsciente. Contudo, não devemos encarar esse fato como se fosse algo extremamente longo, pois, na verdade, a disponibilidade da consciência em lidar ou aceitar os conteúdo do inconsciente também influencia bastante o processo terapeutico. Por mais que existam cobranças acerca dos “meses” ou “anos” de análise/terapia, esse tempo cronológico ou do calendário não afeta o tempo do inconsciente.

O tempo do inconsciente é compreendido como atemporal, ou um tempo fora do tempo. Isto porque as categorias que utilizamos conscientemente não se aplicam ao inconsciente. O passado, presente e futuro (como uma tendência para o futuro) se acham unidos, indistintamente. Devemos ter em vista os complexos ideoafetivos, entorno dos quais nossa história pessoal se organiza, mantém os aspectos mais importantes (positivos ou negativos) ativos e atualizados. Desta forma, elementos da infância com forte carga emocional podem interferir na vida de um adulto ou idoso. Não é algo do passado que afeta, mas, desde o passado que afeta o individuo. A esse respeito Jung afirmou

A verdadeira causa da neurose está no hoje, pois ela existe no presente. Não é de forma alguma um caput mortuum que aqui se encontra, vinda do passado, mas é nutrida diariamente e, por assim dizer, sempre de novo gerada. Somente no hoje e não no ontem será “curada” a neurose. Pelo fato de nos defrontrarmos hoje com o conflito neurótico, a digressão histórica é um rodeio, quando não um desvio, a digressão para milhares de possibilidades de fantasias obscenas ou para desejos infantis não realizados é mero pretexto para fugir do essencial. (JUNG, 2000, p.161-2)

Algumas pessoas tentam determinar o “tempo do sintoma”, isto é, o momento histórico no qual uma possível causa do sintoma tenha ocorrido, como se isso fosse determinante para a cura. Como dissemos acima, o tempo do inconsciente é diferente do tempo do cronológico da vida do sujeito, os acontecimentos passados nos oferecem pistas(muitas vezes valiosas). Mas, não passam de pistas. Descobrir o evento que detonou um crise, nos ajuda a compreender, mas, sem uma mudança de vida, vira apenas um exercício intelectual. Uma maya – uma ilusão- que nos permite vislumbrar um detalhe, mas, não o todo do fenômeno.

Quando falamos do tempo associado ao sintoma, acredito que deveríamos compreendo-lo não termos históricos mas, em termos de mito, isto é, do “mito pessoal” de cada individuo. Mircea Eliade definia o mito como um modelo exemplar, uma referência da daria sentido e legitimidade as ações, segundo o mesmo

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo. “Dizer” um mito é proclamar o que se passou ab origine. Uma vez “dito”, quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodítica: funda a verdade absoluta. “É assim porque foi dito que é assim”, declaram os esquimós netsilik a fim de justificar a validade de sua história sagrada e suas tradições religiosas. O mito proclama a aparição de uma nova “situação” cósmica ou de um acontecimento primordial. Portanto, é sempre a narração de uma “criação”: conta se como qualquer coisa foi efetuada, começou a ser. É por isso que o mito é solidário da ontologia: só fala das realidades, do que aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente. (Eliade, 2001, p.84)

O mito pessoal revela a nossa “verdade verdadeira”. A história que nos constitui e, desde sempre, e nos possibilita ser quem somos, por isso, para Jung o sintoma não ocultava, mas, em sua própria linguagem revelava a história significativa e simbólica do sujeito. Ela não está encerrada no passado distante da infância, mas, está no hoje. É um modelo em torno do qual nos orientamos e nossas ações reatualizam este mito, o modelo exemplar que se coloca no hoje, desde aquele tempo. Não é uma repetição vazia ao passado, mas, um movimento que resgata a vida do individuo desde o passado, que se encontra vivo no presente.

Trata-se, em suma, de um regresso ao Tempo de origem, cujo fim terapêutico é começar outra vez a existência, nascer (simbolicamente) de novo. A concepção subjacente a esses rituais de cura parece ser a seguinte: a Vida não pode ser reparada, mas somente recriada pela repetição simbólica da cosmogonia, pois, como já dissemos, a cosmogonia é o modelo exemplar de toda criação. (Eliade, 2001, p. 74 – grifos do autor)

O passado não pode ser reparado ou modificado, mas, uma vez que o mito (pessoal) é integrado torna-se possível recriação, uma ressignificação da experiência da realidade. O tempo de assimilação e ressignificação vai variar de individuo para individuo. Assim, julgar o “tempo de terapia” apenas pelo calendário não só equivocado como é injusto com cada individuo. Apesar do tempo ser um fator importante, não é ele que vai determinar o avanço da psicoterapia. Isso exige serenidade do terapeuta tanto para aceitar o tempo de cada um como lidar com as cobranças em função do tempo.

A particularidade do tempo de cada um é um aspecto de sua realidade psíquica. Quando estão muito dissociadas de seu mundo interior algumas pessoas não conseguem se compreender em seu processo de desenvolvimento. Isto é, aprisionadas na perspectiva seu mito pessoal, não conseguem se perceber em sua própria história, ignorando muitas de suas realizações. Isso se reflete na terapia como a dificuldade do paciente em perceber as mudanças que lhe ocorrem ao longo do processo terapêutico, julgando todo o processo pelas dificuldades que enfrentam no “momento atual” da terapia, afirmando “continuam no mesmo lugar”.  A dificuldade de integrar o “passado e presente” implica na dificuldade se criar o futuro – isto é, de se permitir uma nova possibilidade. Seu mito pessoal, torna-se como um labirinto. Assim, se sentem continuamente dependentes, temerosos ou fragilizados frente aos novos desafios da vida. Somente com a serenidade e paciência, o analista, poderá segurar pelo tempo necessário o fio de Ariadne que conduzirá o paciente para fora de seu próprio labirinto.

O tempo é maya, somente com a compreensão de que o tempo da realidade psíquica de cada um é impar, a transformação pode acontecer. O tempo é maya, não no sentido comum de “ilusão”, mas, da existência que se transforma. Compreender o tempo na psicoterapia como uma das faces do processo contínuo de vir-a-ser, é um passo para integrarmos nossa própria maya.

Referências bibliográficas

ELIADE, M. Imagens e Símbolos, Lisboa:Ed. Arcádia, 1978.

ELIADE M, O Sagrado e o Profano, São Paulo: Martins Fontes, 2001

JUNG, Civilização em Transição,Petrópolis: Vozes, 2000.

ZIMMER, H. Mitos e Símbolos na Arte e na Cultura da Índia, São Paulo:Ed. Palas Athena, 1989.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte III: Considerações sobre a Persona do Analista

(5 de julho de 2011)

Em outros post já falamos sobre o conceito de persona. Neste post, eu gostaria de ampliar um pouco a discussão acerca desse conceito.

Gostaria, então, de relembrar brevemente o conceito de persona resgatando a explicação dada pelo próprio Jung em entrevista ao Dr. Richard Evans.

Dr. Evans: Outro conceito ou idéia muito interessante em sua obra é a persona. Parece ser sumamente importante para a existência cotidiana do indivíduo. O senhor importar-se-ia de explicar um pouco mais detalhadamente como foi que elaborou esse termo,persona?

Dr. Jung: É um conceito prático de que precisamos para elucidar as relações das pessoas. Observei nos meus pacientes, sobretudo as pessoas que estão na vida pública, que têm uma certa maneira de se apresentar. Por exemplo, um médico. Ele tem uma maneira própria; apresenta-se de um modo característico e comporta-se como esperamos que um médico se comporte. Ele pode até identificar-se com isso e acreditar que é o que parece ser. Tem de aparecer de uma certa maneira, caso contrário, as pessoas não acreditarão que é médico. O mesmo acontece com um professor; também só espera que o seu comportamento seja tal que aceitemos a plausibilidade dele ser professor. Assim, a persona é, em parte, o resultado das exigências da sociedade.

Por outro lado, é o fruto de um compromisso com o que uma pessoa gosta de ser ou gosta de parecer que é. Observe-se, por exemplo, um pároco. Ele também tem a sua maneira particular e, ó claro, vai ao encontro das expectativas gerais da sociedade; mas também se comporta de outra maneira que combina a sua persona com aquilo que a sociedade lhe impõe, de tal forma que a sua ficção de si mesmo, a sua idéia sobre si mesmo, é mais ou menos retratada ou representada.

Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma Ora, isso não é a personalidade real. Apesar do fato das pessoas garantirem que tudo isso é perfeitamente honesto e real, não é. Um tal desempenho da persona está muito certo, desde que se saiba que não é idêntico ao que parece ser; mas se se estiver inconsciente desse fato, então está-se condenado a entrar, por vezes, em conflitos muito desagradáveis. Por exemplo, as pessoas não deixarão de notar, que em casa, a pessoa é muito diferente do que parece ser em público. As pessoas que não sabem disso podem acabar cometendo tremendos Equívocos. Elas negam ser assim, mas são assim; é o que são. Então já não se sabe qual delas é o homem real. É o homem tal como como se conduz em casa ou em relações íntimas, ou é o homem que aparece em público?

É o dilema de Jekyll e Hyde. Ocasionalmente, é tão grande a diferença que quase poderíamos falar de uma dulpa personalidade; e, quanto mais pronunciada for essa diferença, mais as pessoas são neuróticas. Ficam neuróticas porque têm duas maneiras distintas de se comportar: contradizem-se o tempo todo e como, além disso, não têm consciência de de si mesmas, ignoram essas contradições. Pensam ser um todo uno e coeso, mas toda a gente vê que são duas. Alguns só conhecem um lado delas; outros só conhecem o outro lado. E depois ocorrem situações que se chocam, porque a maneira como o indivíduo é gera certas situações com as pessoas de suas relaçoes e essas duas situaçoes não condizem; de fato, elas são simplesmente desonestas, e quanto mais for esse o , caso mais as pessoas são neuróticas.(EVANS, S/D.78-9)

O termo persona foi retirado da máscara utilizada pelos atores do teatro  greco-romano utilizavam. A imagem representacional isto é, amáscara é especialmente significativa  para compreendermos essa dinâminca psíquica. Devemos compreender alguns pontos:

a) a persona é uma estrutura cuja a dinâmica é limiar : o campo de atuação da persona é o limiar entre o individuo e o social. Ela indica um limite, uma zona de interseção que, por um lado, atende as exigências tanto do sociais quanto as exigências ou necessidades do individuo na relação com o social. Em geral, podemos relacionar a persona ao pacto social, ao relação do individuo com a sociedade.

b) a persona é uma estrutura bilateral: A persona, como uma máscara, possui sempre a dupla função de esconder e revelar. Não devemos compreender a persona ou a máscara como um falseamento do individuo, mas, como uma estrutura legítima da personalidade que revela aspectos reais do individuo – apesar de parciais. Como Jung explicitou na citação acima “Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma “ Assim, se por um lado, a persona representa as imposições sociais, os papéis sociais que todos devemos desempenhar, por outro lado, a persona é o veiculo pelo qual o individuo pode ser realizar no campo social.

c) A persona é uma estrutura defensiva: Não podemos perder de vista que a persona é uma estrutura que defende o individuo do assédio do mundo exterior. Uma vez que corresponde a um aspecto parcial da vida do individuo, os ataques realizados ao indivíduos, são recebidos pela persona, isto é, são recebidos como um ataque a um aspecto do individuo, não a totalidade, ou ao individuo integral. Por isto, podemos traçar um paralelo, identificando a persona com o falso Self de Winnicott.

d) A persona é uma estrutura de adaptação: A persona corresponde ao aspecto adaptativo do Self.  A persona possibilita que o Self se constele de forma adequada no mundo. A persona revela o Self ao mundo. Por isso, é importante compreender que a persona é a ponte entre o mundo interior e exterior, assim, a persona é o elemento do Self que possibilita que o individuo seja ele-mesmo-no-mundo.

Certa vez, ouvi uma interpretação equivocada acerca da persona baseada numa má compreensão do texto de Jung, no “O eu e o Inconsciente”, nele Jung afirma que a “ meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (2000, p.61).  Onde, disseram que a “persona” era falsa ou que deveríamos nos “desfazer” da persona. Na verdade, devemos compreender como “invólucros falsos” como as identificações do ego com  a persona, na qual, o individuo  diminui o contato consigo mesmo em função de uma adaptação excessiva ao mundo exterior. Onde a pessoa passa desempenhar o seu papel social (seja sua função familiar ou profissional), vivendo esse recorte de sua existência como se fosse sua totalidade.

Mas, como pensar a persona do analista?

Quando compreendemos os diferentes aspectos da persona, podemos compreender que a persona estará relacionada por um lado, com as representações sociais, com as exigências éticas da profissão, a postura exigida pela abordagem, todos esses elementos constituem o aspecto exterior da persona. Por outro lado, escolha da abordagem, a constituição do setting, a postura adotada pelo psicoterapeuta, constituem o aspecto interior ou pessoal da persona do analista.

Esses elementos são fundamentais para o analista ou psicoterapeuta poder se comunicar com o seu cliente. A persona é sempre um instrumento de comunicação, e será adequada na mesma medida da integridade do analista.

Devemos tomar cuidado, ao dizer que “a persona do analista”  se caracteriza pela “neutralidade”. A neutralidade é uma ilusão, pois, quando estamos diante de uma pessoa já influenciamos ou somos influenciados por esta pessoa. O que caracteriza a persona do analista é uma disponibilidade, uma abertura ao outro. Onde, nesta relação, a minha totalidade se disponibiliza a este outro que se encontra na minha frente.

Um psicólogo ou analista ciente de sua função terapêutica, cuja relação consigo mesmo é saudável, compreendendo a complexidade da relação terapêutica, não teria dificuldades no desenvolvimento de uma persona adequada, que revela o que é necessário ao processo terapêutico. Isto é, a persona do analista não deve ser compreendida como um “escudo”, mas, como uma ponte, que estabelecida de forma adequada não esconde nada, muito pelo contrario, apenas revela o que é necessário a relação terapêutica.

Certa vez, num encontro com os alunos do instituto Jung de Zurique, Jung respondeu a um aluno,

Muito mais forte do que suas frágeis palavras é a coisa que você é. O paciente está impregnado pelo que você é – pelo seu ser real – e presta pouca atenção ao que você diz. (…) Cada passo em frente que o paciente dá pode ser uma nova etapa para o analista. Não se pode estar com alguém sem ser influenciado por essa personalidade, mas o mais provável é que se não se perceba isso; (HULL, McGUIRE, 1984, p. 332)

Infelizmente, muitos confundem frieza ou distância com a neutralidade ou com uma chamada “postura ética”.

Devemos nos voltar para a ultima citação de Jung, pois, nela há uma informação fundamental, ele nos alerta que o Self se revela independente da persona ou do papel que persona se  desempenha. Obviamente, a forma mais adequada seria o Self se revelar através da persona. Então, devemos pensar o que revelamos quando utilizamos da persona para nos esconder?

Algumas expressões fazem parte do nosso “dialeto psicológico” como “fazer cara de geladeira branca”, “Cara de Mona Lisa”, “cara de paisagem” dentre outras que indicam uma certa atitude do psicoterapeuta em não se implicar pessoalmente num dado momento do tratamento.  Em alguns momentos essas expressões de silencio podem ser realmente necessárias, contudo, não podemos fazer dessa atitude uma constante.

Sustentar a persona de analista significa compreender que a persona é o meio mais adequado por onde a totalidade psíquica do analista se faz presente, da forma mais adequada e terapêutica. Assim, a persona não deve ser compreendida como um escudo, mas, como uma ponte que tornará a relação terapêutica viável. É compreender que a persona não deve esconder, mas, revelar o aspecto necessário do terapeuta para que a relação analítica possa se desenvolver. Sustentar a persona, significa, por outro lado, sustentar o dialogo com a própria o próprio inconsciente. Por isso Jung dizia que,

Todo psicoterapeuta não só tem seu método: ele próprio é esse método. Ars totum requirit hominem”[a arte exige o homem inteiro] diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas, não passam de meios auxiliares.(JUNG, 1999b, 84)

Deste modo, deve-se compreender que a persona deve refletir o Self do analista, e não reproduzir uma postura teórica, fria e engessada.

Referências bibliográficas

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones. Rio de janeiro:eldorado,1973

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: ENTREVISTAS E ENCONTROS, Cultrix: São Paulo, 1984.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1999 

JUNG, A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999b.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista

(2 de Maio de 2011)

Há alguns meses venho gestando este post, pois, a formação de novos psicoterapeutas vem se tornando um tema que tem me feito pensar nos últimos tempos. Muitas vezes, ao falar da formação do psicoterapeuta ou analista, enfatizamos os aspectos necessários a prática e constituição da persona profissional. Contudo, muitas vezes não falamos acerca da sombra que pode envolver esse processo.

O tema da sombra do analista é uma constante em meus pensamentos deste que eu li o livro de Adolf Guggenbühl-Craig, analista junguiano e ex-presidente da IAAP, falecido em 2008, “O Abuso do Poder na Psicoterapia…” no qual o autor discute acerca a sombra dos profissionais que trabalham com “ajuda”.

Não pretendo fazer uma resenha do livro, apenas ressaltar alguns aspectos que me chamam atenção, mas, que certamente servem para indicar a leitura desse importante livro.

Guggenbhül-Craig traça alguns paralelos entre as profissões que visam “ajudar” os indivíduos. Devemos considerar que o oficio ou exercício dessas “profissões de ajuda” emergem de um mesmo solo arquetípico. Para traçar alguns aspectos da sombra do analista, ele, faz um paralelo do analista com o sacerdote, ele afirma que

A sombra do analista se amplia ainda mais devido ao denominador comum existente entre seu oficio e o do sacerdote. Nós analistas, qualquer seja nossa orientação, não defendemos uma fé específica ou uma religião organizada; mas, como o sacerdote, quase sempre recomendamos uma atitude básica frente a vida. Não representamos uma filosofia, mas uma psicologia que abraçamos por convicção, visto que tanto em nossa vida como em nossa própria análise tivemos experiências que nos persuadiram e nos formaram em termos dessa psicologia. O analista junguiano, por exemplo, é alguém que viveu um profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente. Entretanto, poucos insights psicológicos podem ser estatisticamente provados no sentido empírico, só podendo ser confirmados pelo testemunho honesto e sincero dos que se empenham na mesma busca. (…) Sob este aspecto, encontramo-nos em posição similar à do sacerdote. Mas essa extremada confiança na própria experiência pessoal ou alheia, inevitavelmente dá margem a sérias dúvidas. (…) Será que somos capazes de admitir essas dúvidas para nós mesmos e para o resto do mundo? Ou será que nós psicoterapeutas fazemos com nossas próprias dúvidas e medos o que faz o sacerdote, suprimindo-os e pondo uma pedra em cima?

Da mesma forma que o sacerdote, trabalhamos com nossa alma, nosso ser; os métodos, as técnicas e o aparato utilizado são secundários. Nós, nossa honestidade e autenticidade, nosso contato pessoal com o inconsciente e o irracional – são esses nossos instrumentos. É grande a pressão que sofremos para apresentá-los melhores do que são; mas nesse caso, tornamo-nos vitima da sombra do psicoterapeuta(p. 37-38)

O texto de Guggenbuhl-Craig toca num aspecto delicado, que é a perspectiva epistemológica, pois, muitos críticos do pensamento junguiano ou mesmo das práticas analíticas em geral, criticam o fato de a análise não pode ser considerada científica. Não perderei tempo entrando em discussões epistemológicas, afinal, todo e qualquer pessoa que já se submeteu ao processo psicoterapêutico ou mesmo exerce a psicoterapia, tem clareza que há mais envolvido no processo do que puramente o uso de “técnica” científica. A prática da psicoterapia exige muito mais que um conhecimento técnico exige a pessoa do analista por inteiro. Assim como na antiga alquimia, os alquimistas já declaravam que “ars totum requirit hominem” a arte exige o homem inteiro, a psicoterapia faz a mesma exigência.

Os conceitos acerca do inconsciente se baseiam no princípio da experiência imediata com os fenômenos inconscientes, isto é, na descrição metodológica e sistemática dos fenômenos inconscientes. A esse respeito, Jung, em 1938, na conferência acerca da vida simbólica ele afirma “Nossa ciência é fenomenologia. No século XIX a ciência trabalhava na ilusão de que ela podia estabelecer uma verdade. Nenhuma ciência pode estabelecer uma verdade.” (JUNG, 2000, p.) No máximo podemos fazer aproximações ao fenômeno, através de descrições o mais honestas possíveis. Neste ponto, temos o elemento fundamental que une a construção teórica e a prática clínica : honestidade.

A honestidade é fundamental no processo psicoterapêutico. Entretanto, devemos ter clareza que a honestidade, que fundamenta a ética profissional, começa na pessoa do analista ou psicoterapeuta, isto é, a honestidade começa na relação pessoal do analista/terapeuta com ele mesmo. Assim, é fundamental que o analista seja capaz de suportar suas próprias contradições, tensões internas, dúvidas de forma sincera e consciente, pois, se o analista não suportar em si a tensão dos opostos que nos constituem, como ele poderá auxiliar o cliente nessa empreitada?

De forma geral, os psicólogos são exigidos socialmente a uma persona de compreensão, clareza, solicitude, bondade. Sendo exigido, na maioria das vezes, “ser” ou tentar “ser melhor do que se é” ou “se apresentar de modo diferente do que se é”. O que se configura uma enorme armadilha.

Como sempre repetia C.G.Jung, sempre que um conteúdo luminoso se instala na consciência, seu oposto se constela no inconsciente e procura atrapalhar a partir dessa posição estratégica. O médico se torna um charlatão exatamente por querer curar o maior número possível de pessoas; o sacerdote se torna um hipócrita por querer converter as pessoas à verdadeira fé; o psicoterapeuta se torna um charlatão e um falso profeta apesar de trabalhar dia e noite para ampliar sua consciência. (p. 42)

Pode até parecer pessimismo, contudo, o fundamental é compreender que este risco de ser “tomado pela sombra”, está relacionado idealização ou inflação da persona de analista. Isso não significa que o analista não deva buscar seu desenvolvimento, muito pelo contrario. Mas, o desenvolvimento do analista passa necessariamente pelo reconhecimento de suas imperfeições. Conhecer a si mesmo, crescer internamente, significa, sobretudo, viver a própria vida em toda sua extensão.

Pode até parecer bobo ou óbvio, contudo, um fato que se torna um grande peso para os que optam pelo caminho da clínica psicológica é a solidão ou o isolamento. As exigências da vida profissional, podem, pouco a pouco, limitar a vida do profissional e deixa-lo cada vez mais submerso na em sua inconsciência de sua persona profissional.

Talvez o analista se absorva por completo no trabalho com seus pacientes, o que à primeira vista parece ótimo. Sua própria vida privada fica em segundo plano diante dos problemas e dificuldades das pessoas com quem trabalha. Mas isso pode levar a um ponto em que os pacientes, por assim dizer, passam de fato a viver pelo analista, o qual espera que estes preencham o vazio criado por sua perda de contato com o calor e dinamismo da vida. O analista já não tem seus próprios amigos; as amizades e inimizades dos pacientes são como que também suas. Sua vida sexual pode ficar raquítica, encontrando substituto nos problemas sexuais dos pacientes. Tendo escolhido uma profissão tão exigente, vê-se impedido de atingir uma posição política influente; sua energia é investida toda nas lutas politicas pelo poder de um paciente político. Desse modo, pouco a pouco deixa de viver uma vida própria, passando a contentar-se com a de seus pacientes. (p. 64-65)

Os exemplos do “deixar a própria vida” podem se multiplicar, como ignorar os rumos do próprio relacionamento, negligenciar sua própria realidade espiritual, evitar ambientes que possam “encontrar” pacientes dentre outros,a falta da vida real do analista vai gerar a necessidade de compensação no inconsciente, essa compensação é justamente por meio dessa contratransferência, onde, o analista passa a viver a vida dos pacientes. Imerso numa sombra nutrida por sua inconsciência acerca de sua própria persona de analista.

Antes de mais nada, esse tipo de situação é extremamente perigoso para o próprio analista. Seu desenvolvimento psíquico estanca. Mesmo em sua vida não-profissional, ele só poderá falar de seus pacientes e dos problemas que o afligem. Já não será capaz de amar e odiar, de investir a si próprio na vida, de lutar, ganhar ou perder. Sua própria vida afetiva torna-se um substituto. Agindo assim como um charlatão que sobrevive às custas de sues pacientes, o analista pode dar a impressão momentânea de estar florescendo psiquicamente. Mas, na verdade, estar perdendo a vitalidade e a originalidade criativa. (p. 65).

O esvaziamento da própria vida faz com que o profissional se esconda atrás da teoria. Racionalizando e teorizando a própria existência. De qualquer modo, se torna prejudicial ao cliente na medida que, inconscientemente, precisa dele, tornando-se incapaz de investir verdadeiramente no desenvolvimento do paciente. Sua ajuda será sempre insuficiente na medida em que não conseguir integralmente conceber o processo de desenvolvimento do cliente. Simplesmente, porque ele precisa do paciente. Nesse processo, consciente ou inconscientemente, pode reter o paciente em terapia por uma necessidade pessoal – que não podemos reduzir a necessidade financeira.

Nesse caso, o analista identificado com sua persona, onde ele equivocadamente se coloca no papel de “agente da saúde” ou da “cura”, irradiando uma “autoridade” e perfeição, que só pode ressaltar no paciente os aspectos mais frágeis de dependentes da personalidade do mesmo.

Mas, isso seria uma condenação? O exercício da psicoterapia seria destinado a essa experiência? Não. Em primeiro lugar, é importante frisar que o que foi dito aqui, não é uma regra, apenas, uma possibilidade que pode se colocar no caminho do psicoterapeuta. Devemos ter clareza que na posição de psicoterapeutas, somos nosso próprio instrumento. A totalidade de nosso ser é nosso instrumento.

Em muitos casos, o analista ainda é capaz de apreciar e sofrer devido ao dinamismo de sua própria vida chega a sentir a consciência pesada, achando que deveria interessar-se mais por seus pacientes. Mas, na verdade, a longo prazo, somente o analista apaixonadamente envolvido em sua própria vida poderá ajudar seus pacientes a encontrarem seu caminho. Nesse sentido é bastante verdade, como diz Jung, que o analista só pode dar a seus pacientes aquilo que possui. (p. 66)

Seria importante que cada estudante que se proponha ser “analista”, “psicoterapeuta” ou “psicólogo clínico”, compreenda que no processo de formação o estudo sistemático e a psicoterapia/analise individual, não pode estar dissociado com o dia a dia, com a vida vivida. Não se deve ver a análise ou o estudo como “burocracias” necessárias, mas, como elementos importantes para o desenvolvimento individual. Pois, como dizia Jung,”somente o que realmente somos tem o poder de curar-nos”, ao que eu acrescentaria, e de nos ajudar no processo de cura nossos clientes.

Referências bibliográficas

Guggenbuhl-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, Sacerdócio e Magistério. RJ, Achiamé, 1978.

JUNG, C.G. Vida Simbólica, Vozes, Petrópolis, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas questões acerca de Psicoterapia e Análise

11 de agosto de 2010

Frequentemente eu tenho de responder ou melhor, esclarecer algumas questões acerca de psicoterapia e análise.  Eram dúvidas que muitas pessoas tem, mas, que não tem oportunidade de sanar. Assim, eu optei em apresentar algumas dessas questões e o que eu geralmente respondo.

1- Qual a diferença entre Psicoterapia e Análise?

De forma geral, os termos psicoterapia e análise geram um pouco de confusão. Acredito que devemos pensar um pouco na etimologia e desses termos, Psicoterapia  que vem do grego psykhé que seria alma e therapéia cuidado, atenção ou tratamento  e  análise vem do grego análusis,eōs  que seria “dissolver” que estaria relacionado ao verbo analúō, “desligar, dissolver, soltar, separar, libertar, examinar”.

A Psicoterapia não se refere a uma prática ou técnica específica, mas, sim a todo processo que  visa cuidar da saúde psíquica.

O termo  “análise”, isto é, a analise psicológica, esteve historicamente relacionado com a “Psicanálise”, muitas vezes sendo utilizada como uma abreviatura do termo. No Brasil, durante muito tempo falar em “análise” era o mesmo que se referir a psicanálise. Contudo, isso era apenas um uso comum, nada formal ou definido, o termo análise é utilizado por diferentes abordagens desde as que possuem alguma relação histórica ou metodológica com a psicanálise e com estudo do inconsciente até as abordagens sem qualquer relação histórica com a psicanálise, como a Análise Comportamental que tem sua origem na escolas americanas de estudo do comportamento.

O fato é que não há um consenso geral ou uma clara convenção sobre a definição dos termos “psicoterapia” e “análise”, dessa forma, o que encontramos geralmente é que a

psicoterapia é um processo direcionado a um objetivo claro, isto é, possui um foco determinado, por ex., um individuo quer tratar transtorno de ansiedade, por ter um objetivo estabelecido a psicoterapia tende a ter uma duração menor. Por outro lado, a

Análise é um processo que não possui necessariamente o objetivo de resolver de um conflito ou quadro psicopatológico, mas, é um processo mais profundo que visa o autoconhecimento, desenvolvimento/ amadurecimento do individuo. Dessa forma, o tempo é o tempo de cada individuo.

Tanto a psicoterapia quanto a análise podem produzir resultados igualmente positivos, o que muitas vezes denominamos de forma incerta como “cura”.

No âmbito da teoria e das conceituações, podemos fazer essas e outras distinções, mas, dentro do consultório é muito tênue a separação entre uma e outra, até porque o cliente/paciente é quem vai indicar o caminho e sua necessidade, por ex., uma psicoterapia pode se desenvolver e se tornar um processo analítico.

[Em outro post (Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte I) eu apresentei uma distinção direcionado a quem estuda a psicologia analítica.]

2 – O que nos leva a procurar psicoterapia ou análise?

Não há um motivo específico para procurar a psicoterapia ou análise. Cada pessoa tem seu motivo particular para procurar a psicoterapia/analise, entretanto, devemos considerar que a nossa cultura propicia situações desfavoráveis a nossa saúde psíquica. O excesso de competição, o individualismo, a “obrigação” de estar sempre “bem”, os vários padrões que nos são impostos muitas vezes nos fazem adoecer, Jung dizia  muitos adoecem por que tentam se adaptar aos padrões coletivos (muitas vezes, de forma desesperada) outros adoecem porque se adaptaram demais a esses padrões. E se perdem nesse processo.

O grande problema é que nos acostumamos com as situações que nos fazem adoecer, nos acostumamos a sentir medo, a nos sentir inseguros, a nos sentir inferiores, nos não pensar em nos mesmos. Com o passar do tempo, acabamos sentido o peso desse sofrimento ou da falta de sentido que tomou nossas vidas – alguns sentem isso no próprio corpo através de doenças de pele, doenças gastro-instestinais. , hipertensão, fibromialgia – que são doenças intimamente ligadas a nossa dinâmica psíquica ou como dizemos popularmente ao nosso estado emocional; por outro lado, algumas pessoas desenvolvem transtornos propriamente psicológicos como transtornos de ansiedade (o medo de ter medo) e depressão que são males de mais assolam as pessoas. Infelizmente, a grande maioria só procura auxílio profissional quando os problemas crescem e se tornam insuportáveis. Muitas acham que é fraqueza pedir ajuda, mas, não percebem o quanto de coragem é necessária para reconhecer que precisamos de ajuda.

Há ainda um terceiro grupo que não busca psicoterapia por problemas de adaptação ou por algum quadro patológico, esse terceiro grupo são de pessoas que estão atentas ao que acontecem em si mesmas, e querem compreender mais acerca de si, o porque de suas escolhas, enfim buscam o autoconhecimento necessário para uma vida saudável (no sentido mais pleno da palavra).  Outras, percebem que algo está faltando em sua vida, às vezes, um vazio que não conseguem compreender, pois, afinal, “tudo parece estar tão certo”, e através desse incomodo as pessoas buscam a psicoterapia/análise para compreender o que pode estar faltando onde, aparentemente, nada falta.

Muitos são os motivos para se buscar terapia, apenas citei alguns fatores que frequentemente vemos:  a dificuldade de adaptação e relacionamento (questões familiares), por questões de doença ou transtornos diagnosticados, por autoconhecimento, por desenvolvimento pessoal.

Assim, é um erro pensar que apenas quem está “doente” busca psicoterapia/análise. A psicoterapia/análise é antes de mais nada um cuidado pessoal. Um espaço protegido onde a pessoa pode ser ela mesma, e assim, avaliar suas escolhas e ações, para compreender o caminho que percorreu e poder escolher melhor caminho que irá percorrer.

3 – Remédios ou Psicoterapia/análise?

Muitas pessoas, antes de procurar ao psicólogo, já passou por vários médicos que receitaram vários remédios(muitos também indicaram a necessidade da psicoterapia), a grande parte dessas pessoas acabam se questionando se ficam apenas com os remédios ou procuram também a psicoterapia/análise. Para essa pergunta “remédios ou psicoterapia?” Acredito que a resposta mais adequada e proveitosa a essa questão é: Remédio e Psicoterapia.

Muitos tem preconceitos ou com a medicação ou com a psicoterapia, entretanto, devemos compreender que o o remédio sozinho não faz milagres, ele ajuda ao individuo ter a estabilidade necessária para enfrentar os fatores que causaram seu adoecimento. Entretanto, se o individuo não faz o que é necessário para resolver “causas”, em algum tempo, o remédio pode  diminuir sua efetividade ou mesmo, o tratamento medicamentoso pode ser um sucesso, mas, algum tempo após a retirada da medicação o individuo recai.

Eu gostaria de frisar que alguns indivíduos podem obter resultado satisfatório e permanente com a medicação, podendo, segundo orientação médica, parar com os medicamentos. Mas, infelizmente, o que podemos perceber –apesar   de não termos números sobre o tema– é  poucos que obtém esse resultado.  Na maioria das vezes, o que observamos são pessoas que restabelecem a sua capacidade de suportar as situações causadoras de seu sofrimento. Elas aparentam saúde, mas, vivem  infelizes.

Por outro lado, em algumas situações a psicoterapia obtém resultado melhor quando aliada a medicação, pois, o individuo terá maiores possibilidades de enfrentar sua realidade e efetuar as mudanças necessárias. Em várias situações a parceria entre psicólogo e médico(especialmente psiquiatra) é fundamental.

4 – Que profissional procurar?

A psicoterapia ou análise não é uma atividade restrita a uma única categoria profissional.  Assim, independente da abordagem que o profissional siga (se junguiano, psicanalista, rogeriano, comportamental, corporal etc…) o importante é ter em mente qual a formação de profissional. No Brasil, as abordagens mais consolidadas restringem a formação clinica a psicólogos e médicos. Devemos notar que os profissionais devem estar inscritos em seu conselho de classe(CRP ou CRM). Isto é importante pois, essas profissões são legalmente instituídas no Brasil, possuem código de ética o que oferece uma proteção ao cliente.

Caso o cliente se sinta lesado ou ocorra algum tipo de abuso por parte do profissional, o cliente poderá recorrer ao conselho de classe e prestar denuncia contra o profissional, que poderá inclusive o direito de exercer a profissão.

Muitos profissionais apresentam credenciais de  conselhos de “Psicanálise” ou “Conselho de Terapeutas”, que são instituições que não existem legalmente (isto é, não foi constituído por lei federal), não existe nenhum “Conselho Federal de Psicanálise” nem “Conselho Federal de Terapia”, isso considerando que muitas terapias não existem como profissões regulamentadas, ou seja, não há nada que regulamente ou proteja a pessoa atendida. Em caso da pessoa se sentir lesada, deverá procurar o ministério público.

Assim, eu sugiro sempre que procurarem um profissional verifiquem se é psicólogo e se está inscrito no conselho regional de psicologia.

Caso você queira conhecer mais da psicoterapia/analise na abordagem junguiana visite o post Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte I

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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