Algumas Reflexões sobre a vida vivida, teoria e prática

6 de março de 2012

Esse post começou a surgir durante o desfile das escolas de samba de Vitória, pois, até bem poucos anos atrás eu não compreendia o carnaval, nem mesmo fazia sentido para mim. Confesso que continuo sem compreende-lo, mas, por outro lado, hoje ele é pleno em sentido e significados.

Como disse, esse post começou a surgir durante o desfile das Escolas de Samba de Vitória (dia 11/02), que ocorre uma semana antes do carnaval nacional; o longo desta semana me vinham pensamentos acerca deste tema, até que na sexta-feira de carnaval tive um sonho, meio vago, que, por fim, definiu este post. Eu estava numa sala, que se parecia com um amplo camarote, haviam algumas pessoas, uma mesa no centro. E eu sambava por todo aquele espaço, de um lado a outro, contornado a mesa, enquanto as pessoas me olhavam.”

Eu cresci e vivi durante um longo tempo num meio religioso onde o carnaval “não era bem visto” (para não dizer que era algo do diabo). Assim, sempre fui estranho ao carnaval. De 2010 para cá, acabei por me permitir a experiência do carnaval, e a cada ano venho descobrindo mais o carnaval. E o que posso afirmar é que o carnaval é uma experiência que não se deve verbalizar, mas, viver.

Isso porque existe um campo de nossa existência que não se apreende nos livros nem mesmo nas quatro paredes de um consultório. Esse campo só se manifesta através da vida vivida. Jung afirmou que

Portanto, quem quiser conhe­cer a psique humana infelizmente pouco receberá da psicologia experimental. O melhor a fazer seria [pendurar no cabide as ciências exatas, despir-se da beca professoral, despedir-se do gabinete de estudos e caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

Então, como verdadeiro conhecedor da alma humana, tomar-se-ia um médico apto para ajudar seus doentes. Poder-se-ia perdoar-lhe o pouco respeito pelas assim chamadas “pedras angulares” da psicologia experimental. Pois entre o que a ciência chama de “psicologia” e o que a práxis da vida diária espera da “psicologia” “há um abismo profundo”. (Jung, Psicologia do Inconsciente, p. 112-3)

Jung publicou essa afirmação em 1912, isto é, há 100 anos atrás, e,  suas palavras continuam muito atuais. Certamente, devemos ter uma certa cautela em não “desprezar a psicologia experimental”, pois, não é disso que ele fala, mas, em viver uma vida real e plena e não uma vida de “ouvir falar”.

Quando nos permitimos essas experiências abrimos a possibilidade de um vivência única, plena e que rompe e fertiliza nossa vida comum. Nos elevando para além, da experiência comum. No carnaval de Vitória, o refrão da Boa Vista, escola campeã, soou quase como um mantra,

Na batida do congo, o tambor
Se você me chamar, eu também vou
Canta, canta Madalena
Bota a saia pra girar, ninguém resiste
Ser Capixaba também é chique!

A história de vida de Elisa Lucinda, homenageada pela Escola, se tornou um pouco da história de cada um. Por alguns instantes, todos, num só coro, se tornavam um.

Como definiria essa experiência? Assombrosa e Fascinante.

Outra história relativamente parecida, que me vem a mente, aconteceu há alguns anos, acredito que em  2006, muito antes de sequer pensar em carnaval, eu tive uma experiência muito parecida com essa. Era um domingo de maio, mês de Maria, eu estava assistindo a missa na Igreja Católica, como já disse venho de uma tradição protestante evangélica, deste modo, nunca compreendi ou mesmo fez sentido para mim a devoção a Maria. Nesse dia, havia muita comoção na igreja, muitas pessoas choravam, eu apenas olhava um pouco entediado, tentando entender aquela “catarse” coletiva, pois, não havia ocorrido nada que para mim ( tipo pensamento introvertido) justificasse aquilo. Foi quando de repente senti um estranho arrepio por todo o corpo. Então, eu percebi que não estava alheio a tudo, como imaginava, mas, estava dentro daquele mistério e não era apenas uma “catarse coletiva”. Confesso que continuo sem compreender a devoção mariana, mas, consigo vislumbrar o seu sentido.

Como definiria essa experiência? Assombrosa e Fascinante.

Os adjetivos “Assombroso” e “Fascinante” não foram ao acaso. Pois, esses adjetivos foram utilizados por Rudolf Otto para descrever onuminoso, aspecto fundamental do sagrado, Jung compreendeu como sendo uma característica fundamental da manifestação arquetípica.

Vou tentar sintetizar alguns aspectos que pude aprender que envolvem essas experiências:

1 – Aspecto teórico:

Essas experiências me permitiram compreender melhor a dinâmica psicológica que se manifesta nessas situações. Foi justamente na experiência que tive nessa igreja, que pude compreender com maior clareza a dimensão de símbolo e do conceito de self grupal.

O conceito de símbolo é fundamental para a compreensão da dinâmica psíquica para a abordagem junguiana. Nessas experiências, em especial na experiência da igreja, pude me tornar mais atento que constelação símbolo, que a rigor é uma produção do inconsciente, atinge a consciência também pela via corporal, isto é, o símbolo se expressa pela vivência do corpo, quando a referência consciente do individuo não possui um repertório imagético para receber essa manifestação, ela se expressará através do corpo. O que estou dizendo, é semelhante ao processo de somatização. Entretanto, ao invés de formação do sintoma, prevalece a sensação numinosa, como um certo desconforto, agitação, espanto.

Por outro lado, para as pessoas que participavam integralmente desse fenômeno, podia se perceber que após, a comoção no período ritual, havia a expressão de tranquilidade ou mesmo de uma renovação e fortalecimento egóico.

Essa situação me ajudou a compreender melhor a amplitude da manifestação arquetípica, que mesmo a história individual não houvesse um continente apropriado para o símbolo, este se constelaria na através do corpo, se impondo a consciência, quer por um símbolo que engolfe a consciência ou por sensações corporais.

Para compreender esse fenômeno coletivo de constelação simbólica é necessário nos voltar a um conceito que é, na minha opinião, pouco utilizado, o conceito de self grupal. Segundo Byington O Self Grupal “expressa a totalidade das forças conscientes e inconsciente, subjetivas e objetivas atuando num grupo e sendo coordenadas pelos mesmos arquétipos do self individual” (BYINGTON, 1996, p.29-30).

Apesar de não encontrarmos na obra de Jung os conceitos de Self grupal (que foi introduzido primeiramente por Neumann) e o conceito de Self Cultural (que foi introduzido por Byington), podemos observar nos artigos dos “Aspectos do Drama Contemporâneo” e no prefácio do Psicologia do Inconsciente

A psicologia do indivíduo corres­ponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. (Jung, 2001, p. VIII)

As considerações acerca da psicodinâmica coletiva oferecida por Jung, Neumann e Byington são importantes para compreendermos os fenômenos coletivos sem os taxarmos precipitadamente de patológicos ou, muitas vezes, como histeria coletiva. Na semana posterior ao carnaval, eu ouvi uma relato muito interessante, uma pessoa que foi assistir ao desfile das escolas de samba do rio de janeiro. Seu interesse maior era ver o desfilo  do Salgueiro, que é sua escola de coração, por outro lado, o desfile que menos importava era da Mangueira, segundo ela nunca gostou dessa escola, contudo, mesmo após cantar e dançar durante todo o desfile do Salgueiro, quando começou o desfile da Mangueira, ela contou que mesmo cansada e não gostando da Mangueira, ela não conseguiu deixar de cantar,  pular e dançar com o desfile da mesma, ela dizia é “realmente, a Mangueira é uma escola que tem algo diferente”. 

Mas, como compreender isso? Podemos supor que numa constelação da psique coletiva, a identidade do ego desloca-se para o grupo, isto é, para o self grupal. Assim, quer na igreja ou quer no sambódromo a experiência numinosa se manifesta, pois, subjacente a percepção consciência, a dinâmica arquetípica envolve o ego.

2 – Aspecto Clínico:

Como clínico junguiano eu tenho clareza que todas as experiências que me atravessem e me compõem de uma forma ou de outra vão se manifestar em minha prática clínica. Pois, quando estou na frente de um cliente, estou ou busco estar em minha totalidade. O que cada cliente fala vai ressoar de modo diferente em mim, onde me toca, a lembrança que me traz, a sensação, me auxilia a compreender o que ele me diz, a entender o que me comunica para além das palavras. Para perceber qual o caminho que deve ser trabalhado, possíveis sentimentos, sensações, que pode estar inacessíveis ao cliente.

Por isso, Jung afirmou na citação acima, que para compreender a alma humana e seu sofrimento é necessário.

caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

A vida e a psicoterapia não se faz na teoria ou de teoria.

A Vida Vivida

Acredito o ponto fundamental desse post é a dimensão da vida vivida. Jung foi um exemplo bem claro dessa dimensão, suas viagens, encontros, sempre que leio biografias de Jung, eu o vejo como alguém que viveu bem a vida, viveu bem os erros e acertos, as contradições.

Essa é a condição necessária para a individuação, viver as oportunidades que a vida oferece. Frequentemente usamos a máxima, “o cliente só vai até aonde o analista foi”. Essa máxima se refere ao desenvolvimento individual do terapeuta, não apenas das horas de análise pessoal, mas, como ele aplica a análise pessoal em sua própria vida.

Concluo esse post, com os versos de Vinicius de Moraes,

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Nao há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão

Referências,

BYINGTON, Carlos A. B. Pedagogia Simbólica – A Construção Amorosa do Conhecimento de Ser. São Paulo: Rosa dos Tempos, 1991

JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente, Vozes: Petrópolis, 2001

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte III: Considerações sobre a Persona do Analista

(5 de julho de 2011)

Em outros post já falamos sobre o conceito de persona. Neste post, eu gostaria de ampliar um pouco a discussão acerca desse conceito.

Gostaria, então, de relembrar brevemente o conceito de persona resgatando a explicação dada pelo próprio Jung em entrevista ao Dr. Richard Evans.

Dr. Evans: Outro conceito ou idéia muito interessante em sua obra é a persona. Parece ser sumamente importante para a existência cotidiana do indivíduo. O senhor importar-se-ia de explicar um pouco mais detalhadamente como foi que elaborou esse termo,persona?

Dr. Jung: É um conceito prático de que precisamos para elucidar as relações das pessoas. Observei nos meus pacientes, sobretudo as pessoas que estão na vida pública, que têm uma certa maneira de se apresentar. Por exemplo, um médico. Ele tem uma maneira própria; apresenta-se de um modo característico e comporta-se como esperamos que um médico se comporte. Ele pode até identificar-se com isso e acreditar que é o que parece ser. Tem de aparecer de uma certa maneira, caso contrário, as pessoas não acreditarão que é médico. O mesmo acontece com um professor; também só espera que o seu comportamento seja tal que aceitemos a plausibilidade dele ser professor. Assim, a persona é, em parte, o resultado das exigências da sociedade.

Por outro lado, é o fruto de um compromisso com o que uma pessoa gosta de ser ou gosta de parecer que é. Observe-se, por exemplo, um pároco. Ele também tem a sua maneira particular e, ó claro, vai ao encontro das expectativas gerais da sociedade; mas também se comporta de outra maneira que combina a sua persona com aquilo que a sociedade lhe impõe, de tal forma que a sua ficção de si mesmo, a sua idéia sobre si mesmo, é mais ou menos retratada ou representada.

Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma Ora, isso não é a personalidade real. Apesar do fato das pessoas garantirem que tudo isso é perfeitamente honesto e real, não é. Um tal desempenho da persona está muito certo, desde que se saiba que não é idêntico ao que parece ser; mas se se estiver inconsciente desse fato, então está-se condenado a entrar, por vezes, em conflitos muito desagradáveis. Por exemplo, as pessoas não deixarão de notar, que em casa, a pessoa é muito diferente do que parece ser em público. As pessoas que não sabem disso podem acabar cometendo tremendos Equívocos. Elas negam ser assim, mas são assim; é o que são. Então já não se sabe qual delas é o homem real. É o homem tal como como se conduz em casa ou em relações íntimas, ou é o homem que aparece em público?

É o dilema de Jekyll e Hyde. Ocasionalmente, é tão grande a diferença que quase poderíamos falar de uma dulpa personalidade; e, quanto mais pronunciada for essa diferença, mais as pessoas são neuróticas. Ficam neuróticas porque têm duas maneiras distintas de se comportar: contradizem-se o tempo todo e como, além disso, não têm consciência de de si mesmas, ignoram essas contradições. Pensam ser um todo uno e coeso, mas toda a gente vê que são duas. Alguns só conhecem um lado delas; outros só conhecem o outro lado. E depois ocorrem situações que se chocam, porque a maneira como o indivíduo é gera certas situações com as pessoas de suas relaçoes e essas duas situaçoes não condizem; de fato, elas são simplesmente desonestas, e quanto mais for esse o , caso mais as pessoas são neuróticas.(EVANS, S/D.78-9)

O termo persona foi retirado da máscara utilizada pelos atores do teatro  greco-romano utilizavam. A imagem representacional isto é, amáscara é especialmente significativa  para compreendermos essa dinâminca psíquica. Devemos compreender alguns pontos:

a) a persona é uma estrutura cuja a dinâmica é limiar : o campo de atuação da persona é o limiar entre o individuo e o social. Ela indica um limite, uma zona de interseção que, por um lado, atende as exigências tanto do sociais quanto as exigências ou necessidades do individuo na relação com o social. Em geral, podemos relacionar a persona ao pacto social, ao relação do individuo com a sociedade.

b) a persona é uma estrutura bilateral: A persona, como uma máscara, possui sempre a dupla função de esconder e revelar. Não devemos compreender a persona ou a máscara como um falseamento do individuo, mas, como uma estrutura legítima da personalidade que revela aspectos reais do individuo – apesar de parciais. Como Jung explicitou na citação acima “Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma “ Assim, se por um lado, a persona representa as imposições sociais, os papéis sociais que todos devemos desempenhar, por outro lado, a persona é o veiculo pelo qual o individuo pode ser realizar no campo social.

c) A persona é uma estrutura defensiva: Não podemos perder de vista que a persona é uma estrutura que defende o individuo do assédio do mundo exterior. Uma vez que corresponde a um aspecto parcial da vida do individuo, os ataques realizados ao indivíduos, são recebidos pela persona, isto é, são recebidos como um ataque a um aspecto do individuo, não a totalidade, ou ao individuo integral. Por isto, podemos traçar um paralelo, identificando a persona com o falso Self de Winnicott.

d) A persona é uma estrutura de adaptação: A persona corresponde ao aspecto adaptativo do Self.  A persona possibilita que o Self se constele de forma adequada no mundo. A persona revela o Self ao mundo. Por isso, é importante compreender que a persona é a ponte entre o mundo interior e exterior, assim, a persona é o elemento do Self que possibilita que o individuo seja ele-mesmo-no-mundo.

Certa vez, ouvi uma interpretação equivocada acerca da persona baseada numa má compreensão do texto de Jung, no “O eu e o Inconsciente”, nele Jung afirma que a “ meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (2000, p.61).  Onde, disseram que a “persona” era falsa ou que deveríamos nos “desfazer” da persona. Na verdade, devemos compreender como “invólucros falsos” como as identificações do ego com  a persona, na qual, o individuo  diminui o contato consigo mesmo em função de uma adaptação excessiva ao mundo exterior. Onde a pessoa passa desempenhar o seu papel social (seja sua função familiar ou profissional), vivendo esse recorte de sua existência como se fosse sua totalidade.

Mas, como pensar a persona do analista?

Quando compreendemos os diferentes aspectos da persona, podemos compreender que a persona estará relacionada por um lado, com as representações sociais, com as exigências éticas da profissão, a postura exigida pela abordagem, todos esses elementos constituem o aspecto exterior da persona. Por outro lado, escolha da abordagem, a constituição do setting, a postura adotada pelo psicoterapeuta, constituem o aspecto interior ou pessoal da persona do analista.

Esses elementos são fundamentais para o analista ou psicoterapeuta poder se comunicar com o seu cliente. A persona é sempre um instrumento de comunicação, e será adequada na mesma medida da integridade do analista.

Devemos tomar cuidado, ao dizer que “a persona do analista”  se caracteriza pela “neutralidade”. A neutralidade é uma ilusão, pois, quando estamos diante de uma pessoa já influenciamos ou somos influenciados por esta pessoa. O que caracteriza a persona do analista é uma disponibilidade, uma abertura ao outro. Onde, nesta relação, a minha totalidade se disponibiliza a este outro que se encontra na minha frente.

Um psicólogo ou analista ciente de sua função terapêutica, cuja relação consigo mesmo é saudável, compreendendo a complexidade da relação terapêutica, não teria dificuldades no desenvolvimento de uma persona adequada, que revela o que é necessário ao processo terapêutico. Isto é, a persona do analista não deve ser compreendida como um “escudo”, mas, como uma ponte, que estabelecida de forma adequada não esconde nada, muito pelo contrario, apenas revela o que é necessário a relação terapêutica.

Certa vez, num encontro com os alunos do instituto Jung de Zurique, Jung respondeu a um aluno,

Muito mais forte do que suas frágeis palavras é a coisa que você é. O paciente está impregnado pelo que você é – pelo seu ser real – e presta pouca atenção ao que você diz. (…) Cada passo em frente que o paciente dá pode ser uma nova etapa para o analista. Não se pode estar com alguém sem ser influenciado por essa personalidade, mas o mais provável é que se não se perceba isso; (HULL, McGUIRE, 1984, p. 332)

Infelizmente, muitos confundem frieza ou distância com a neutralidade ou com uma chamada “postura ética”.

Devemos nos voltar para a ultima citação de Jung, pois, nela há uma informação fundamental, ele nos alerta que o Self se revela independente da persona ou do papel que persona se  desempenha. Obviamente, a forma mais adequada seria o Self se revelar através da persona. Então, devemos pensar o que revelamos quando utilizamos da persona para nos esconder?

Algumas expressões fazem parte do nosso “dialeto psicológico” como “fazer cara de geladeira branca”, “Cara de Mona Lisa”, “cara de paisagem” dentre outras que indicam uma certa atitude do psicoterapeuta em não se implicar pessoalmente num dado momento do tratamento.  Em alguns momentos essas expressões de silencio podem ser realmente necessárias, contudo, não podemos fazer dessa atitude uma constante.

Sustentar a persona de analista significa compreender que a persona é o meio mais adequado por onde a totalidade psíquica do analista se faz presente, da forma mais adequada e terapêutica. Assim, a persona não deve ser compreendida como um escudo, mas, como uma ponte que tornará a relação terapêutica viável. É compreender que a persona não deve esconder, mas, revelar o aspecto necessário do terapeuta para que a relação analítica possa se desenvolver. Sustentar a persona, significa, por outro lado, sustentar o dialogo com a própria o próprio inconsciente. Por isso Jung dizia que,

Todo psicoterapeuta não só tem seu método: ele próprio é esse método. Ars totum requirit hominem”[a arte exige o homem inteiro] diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas, não passam de meios auxiliares.(JUNG, 1999b, 84)

Deste modo, deve-se compreender que a persona deve refletir o Self do analista, e não reproduzir uma postura teórica, fria e engessada.

Referências bibliográficas

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones. Rio de janeiro:eldorado,1973

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: ENTREVISTAS E ENCONTROS, Cultrix: São Paulo, 1984.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1999 

JUNG, A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999b.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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