Semana da Psicologia Doctum: Processo Criativo e Práticas de Cuidado em Saúde Mental

Hoje estive ministrando o minicurso “Processo Criativo e Práticas de Cuidado em Saúde Mental” na Faculdade Doctum, na Semana de Psicologia. No dia do Psicólogo, tive a oportunidade de compartilhar um pouco da prática que amo com os alunos (e futuros psicólogos), na teoria e na prática.

 

 Assim, a partir de uma oficina terapêutica – envolvendo música, imagens e coração –  discutimos sobre a importância de, como profissionais de psicologia, estarmos verdadeiramente movidos pelo interesse de entrar no mundo (em alguns casos hermético) do sujeito em sofrimento psíquico, para que a partir disso possamos ter a possibilidade de estabelecer com ele uma relação e uma comunicação sensível as suas necessidades e dificuldades… mas acima de tudo, sensível a seu potencial de expansão da vida, a seu potencial criativo, a seu potencial de  cura.

“Tão perto, não importa quão longe

Não poderia ser muito mais vindo do coração

Sempre confiando em quem nós somos…

E nada mais importa”

(Notthing else Matters – Metallica/ Oficina de Música)

Agradeço a coordenação do curso de Psicologia da Doctum pela oportunidade. Obrigada Eduardo Miranda.

Agradeço às alunas que participaram do curso, pela experiência.

Kelly Guimarães Tristão
Psicóloga Junguiana
Doutoranda em Psicologia – UFES

 

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Relações Doentias e Sofrimento Psíquico

Por  Kelly Guimarães Tristão

Nota: Texto produzido com base na palestra “Relacionamentos Doentios e Transtorno Mental”, apresentada na I Jornada Junguiana da Multivix(11/06/2016), com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade

Quando pensamos na temática dessa conversa, antes de mais nada precisamos esclarecer “que tipo de relação estamos nos referindo?” Podemos falar sobre relações parentais – ou com outros membros da família; podemos falar sobre relações amorosas; podemos falar sobre relações com objetos – tais como o próprio trabalho, drogas, comida, algumas atividades que realizamos. E podemos falar de relações consigo mesmo.

Vamos perceber que algumas vezes essas relações se intercruzam, e algumas outras, até se confundem. Então podemos observar, por exemplo, relações amorosas onde o outro é tido como um objeto, ou sobre o outro é direcionado uma projeção da relação parental. Logo, uma relação que se constrói de forma desordenada – seja qual relação for – pode se constituir como uma relação doentia e, podendo ser condutor para a construção de um sintoma, e em alguns casos, ser um dos disparadores para um sofrimento psíquico mais grave, como um transtorno psiquiátrico.

Quando acompanhamos famílias de sujeitos em sofrimento psíquico grave num processo de psicoterapia familiar, por exemplo, percebemos o quanto a dinâmica familiar, ou seja, os relacionamentos que se estabeleceram e se estabelecem entre os membros dessa família encontram-se fragilizados. Por vezes atribui-se ao sujeito em sofrimento psíquico a causa dessa fragilidade, mas quando investigamos mais a fundo, percebemos que a crise do sujeito, trata-se também da crise da família: uma família que já se encontra em sofrimento, uma família que não consegue desenvolver uma comunicação apropriada entre os seus membros, uma família onde relações de poder muitas vezes se sobressaem às relações afetivas, às relações de cuidado. A crise do sujeito muitas vezes é também o sintoma da família, entretanto, em diversas ocasiões a crise do sujeito, é a oportunidade para que uma mudança naquele contexto possa ser realizada. O sujeito está impregnado do contexto social – familiar –  ou seja, ainda que olhemos num primeiro momento somente para o indivíduo, teremos que olhar para o familiar também.

 O indivíduo precisa, sim, ter a possibilidade de aprender a lidar com seu sofrimento, com as questões familiares e com suas próprias questões, mas muitas vezes, essa crise vem falar de uma paralização em um processo do desenvolvimento do sujeito.  Para entender um pouco isso, precisamos compreender, numa visão da Psicologia analítica, um pouco como dá o desenvolvimento psíquico, em especial como se dão as dinâmicas matriarcais e patriarcais no desenvolvimento do EGO, e Erich Neumann nos dá um norte bastante interessante para essa questão (1993).

Sabemos que o tempo de desenvolvimento humano dentro do útero gestacional é relativamente curto para sua capacidade cerebral, em especial para a construção do EGO, especialmente se comparados a outros mamíferos. Assim, poderíamos compreender que após o parto o bebê encontra-se ainda numa fase que Neumann denominou de Fase Uterina, como se a gestação continuasse acontecendo, ainda que fora do útero materno. É próprio dessa fase que todas as experiências vivenciadas pelo bebê sejam contidas por essa unidade mãe-filho. Assim, é como se a totalidade do mundo dessa  criança fosse a própria mãe, por isso não há uma percepção de separação ainda. A essa relação inicial damos o nome de RELAÇÃO PRIMAL, conforme Neumman (1992)

Se a relação construída a partir de confiança, sustentação e amor da mãe, ela permitirá um espaço adequado para o desenvolvimento egóico de forma integral. É preciso considerar, antes de seguirmos, do que estamos falando por “mãe”, e para isso eu vou me apropriar de uma ideia Winnicottiana de “ambiente” (Winnicott, 1983). Temos que entender que quando falamos na relação com o materno, não estamos falando necessariamente de uma mãe. O arquétipo materno, em nossa cultura, usualmente se humaniza na figura da mãe, mas não é exclusiva a ela. Por isso, muitas vezes nos referimos, ao invés de mãe, ao ambiente. Ou seja, aquele que propicia um espaço de desenvolvimento para o sujeito. E podemos questionar se esse ambiente, ou essa mãe foi “suficientemente boa”. Ou seja, se ela ofereceu a ele nutrição, afeto e suporte, mas se ele falhou também…se ele começou a permitir espaços para que esse sujeito não tivesse um excesso de cuidados, sem antes desejar tais cuidados, e consequentemente tivesse que lidar com a própria frustração também.

O desenvolvimento natural do bebê implicaria num aumento gradual da consciência. Inicialmente, esse desenvolvimento se manifesta através das distinções entre sensações do corpo, favorecem a aproximação do indivíduo com a experiências externas a essa ligação primal, que daria início a separação do Ego do inconsciente. (NEUMMAN, 1992).

A medida que esse desenvolvimento do ego vai evoluindo, percebe-se uma distinção da unidade mãe-bebê, balizada pelo dinamismo patriarcal, especialmente a partir dos estabelecimento de limites. A criança, a partir desse momento, pode perceber o ambiente de forma diferenciada de si mesmo, quais seriam os limites do próprio corpo, e isso é o primeiro limite com que o bebê precisa aprender a lidar. Assim, a dinâmica patriarcal oferece ao ego a possibilidade de desenvolvimento de questões relacionadas ao limite, a organização, a direção. (NEUMMAN, 1992)

Tanto no diz respeito ao dinamismo pautado no arquétipo da mãe, como no do pai, o Ego pode atuar de forma passiva ou ativa no que tange à relação com EGO-OUTO. “Enquanto em um primeiro momento sofremos passivamente a experiência de sermos cuidados, protegidos e orientados, em um segundo momento desempenhamos ativamente o papel de cuidar, proteger e orientar. (SILVEIRA FILHO, 2002, p. 52).

“Quando os pais proporcionam à criança uma base de atuações seguras, isso determinará a capacidade da criança para estabelecer, na idade adulta, laços afetivos seguros. Quando os pais frustram ou gratificam em excesso as necessidades arquetípicas básicas para o desenvolvimento, surge uma criança ansiosa, insegura, que vivencia a si mesma como carente de confiança, tímida, inadequada e incapaz. Muitas vezes apresentam dificuldade para manter relações duradouras e, diante de situações de estresse crônico, desenvolvem transtornos de ansiedade, fóbicos e depressivos”.  (LAUREIRO, 2011, p. 208).

O dinamismo matriarcal é regido pelo Arquétipo da Grande Mãe, que se exerce através do desempenho de uma atitude de carinho, cuidado e proteção – relaciona-se com o princípio de preservação e sobrevivência. Um aspecto negativo desse dinamismo seria no caso de uma hipertrofia do materno, o excesso de zelo e tutela, que dificultariam o sujeito a lidar com frustrações, com o que é novo, por não saber como poderia se portar e o que poderia acontecer se a nova relação desse errada. Em contrapartida, a hipotrofia representaria uma ausência de cuidados. Se falamos que primeiramente o indivíduo assume frente ao cuidado pautado no dinamismo uma relação passiva – de filho da Mãe – é necessário que está se estabeleça de maneira adequada para que ele possa estabelecer uma relação ativa com o cuidado – a constelação da Mãe –  seja pelo cuidado com o outro, seja com o cuidado consigo mesmo.

O dinamismo patriarcal é dirigido pelo arquétipo paterno. Como seus aspectos básicos dizem respeito à orientação e organização, tal dinamismo relaciona-se com as regras e leis  Segundo Silveira Filho (2002) isso relaciona-se ao processo adaptativo de socialização. Uma relação consigo mesmo e/ou com o outro nesse sentido poderia ser guiada por um excesso de normas e consequentemente uma cobrança de si mesmo em demasia, no caso de uma hipertrofia do arquétipo paterno por exemplo, ou uma necessidade que a todo momento o outro o guiasse e orientasse, porque em seu desenvolvimento, não foi capaz de aprendê-lo.

Se houve uma dificuldade em uma dessas fases, e consequentemente uma cristalização do desenvolvimento do sujeito, ele pode por exemplo, projetar essa dificuldade no que tange ao dinamismo matriarcal num relacionamento amoroso, desenvolvendo uma relação de dependência daquele sujeito. Um excesso de cobrança em ser amado, ou uma insegurança em relação aos afetos. É claro que não podemos determinar exatamente como será um comportamento nesse sentido, mas podemos ter um norte para pensar em possibilidades diagnósticas quando investigarmos para que esse sintoma tem se instalado na vida do sujeito.

Um exemplo disso, poderia ser o caso de uma anorexia, onde a mãe representou um aspecto materno de maneira imprópria, e simbolicamente podemos perceber no corpo da mulher anorética o sintoma como sendo um retorno a esse aspecto do desenvolvimento que ficou cristalizado. Ela não se cuida, ela precisa ser cuidada de maneira apropriada para a partir daí aprender a cuidar de si próprio. Muitas vezes não admitimos que precisamos ser cuidados (inclusive por nós mesmos), e o inconsciente nos oferece uma chance de vivenciar e reatualizar esse aspecto do desenvolvimento.

Podemos observar um outro exemplo a partir de uma depressão. Sabemos que a depressão apresenta uma gama de sintomas, desde falta de animo, sono em excesso, sentimento de falta de amor, desde sentimento de impotência e culpabilização de si mesmo, agressividade, insônia, entre outros.  Podemos tentar entender esses sintomas por meio da percepção do dinamismo arquetípico. Uma depressão pautada no dinamismo matriarcal, implicaria em uma dificuldade no que tange  “[…] às estratégias afetivas de adaptação, do sentir-se contido, amado, seguro afetivamente e, em consequência, capaz de alcançar um desenvolvimento afetivo-cognitivo adequado às necessidade de cada individuação.”  (LAUREIRO, 2011, p. 208)

O fato de o sujeito ter o desenvolvimento do ego a priori pautado em uma relação desordenada com as figuras maternas e paternas, não significa que isso será estático, ou seja, que falaremos de uma estrutura. Ao contrário, para evitarmos esse equívoco nomeamos dinamismo arquetípico, que pode ser reatualizado em certas etapas da vida do sujeito, por exemplo, num processo terapêutico. O terapeuta pode servir de ambiente que vai potencializar um lugar seguro onde as transformações necessárias ao desenvolvimento daquele sujeito aconteçam. O mesmo podemos dizer de uma instituição, por exemplo, uma instituição de saúde, ou até uma instituição religiosa.

Muitas vezes, o terapeuta ou esse agente terapêutico,  vai fazer as vezes do ambiente para a reatualização do dinamismo materno, por exemplo, sendo para o paciente acolhedor, dando sustentação para suas escolhas, falhando algumas vezes, no sentido de não atender a toda demanda dele. Para isso, o terapeuta precisa perceber as necessidades e dificuldades do sujeito. Uma relação terapêutica pautada numa necessidade de reatualização do dinamismo paterno, pode oferecer um lugar de organização, de guia…tomando o cuidado para não cair na armadilha de dar ao sujeito pronto todo o processo que ele deve seguir. É importante ressaltar, que no processo terapêutico, isso também pode se modificar, de acordo com lugar de desenvolvimento que o paciente se encontra.

Podemos pensar também na relação com o objeto representado por uma psicopatologia bastante comum em nossos dias. O uso de substâncias químicas….ou como chamamos também, o sujeito com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Falamos assim, porque mais importante do que a droga em si, é necessário compreender a relação que se estabelece com essa e com o entorno a que o sujeito em uso de substâncias psicoativas está adstrito. O que o sujeito busca em sua relação com a droga? Qual a relação que ele tem consigo mesmo, qual a relação pautada no dinamismo arquetípico, humanizado nas figuras parentais, e algumas vezes nas relações afetivas?

Um exemplo simples que estamos acostumados a pensar é que a maior dificuldade do dependente de substância estaria na incapacidade de escolha… “eu escolho parar aqui”. Há uma dificuldade com essa organização, com essas regras (características do dinamismo patriarcal), mas há também, o que é menos abordado pois caímos muitas vezes no julgamento moralizante, uma carência de suporte, de afeto – e esse mundo pouco suportável é substituído pelo mundo mais suportável obtido pelo uso da substância …Ao terapeuta cabe auxilia-lo a perceber quais ferramentas são necessárias para transformar esse mundo pouco suportável (também na ausência de suporte e delimitação) em algo que desse mais satisfação, prazer e segurança para continuar a trilhar o seu caminho.

O inconsciente é sábio…ele nos dá essa chance de trilhar caminhos mais criativos e “seguros” para nós mesmos. Mas se não o ouvimos, se não lhe damos atenção, ele fará com que escutemos de qualquer forma…de maneira pouco ou muito dolorida. Então, qual é a relação que estabelecemos com o nosso inconsciente? Qual é a relação que estabelecemos conosco?

Como isso influencia na relação consigo mesmo?

 

REFERÊNCIAS

 

LAUREIRO, M. E. V. (2011). Depressão na Visão Analítica 203 In: Payá, R. Intercâmbio das Psicoterapias. São Paulo: Rocca.

 

Moraes, F. F. (2015).  Algumas Considerações sobre o Eixo Ego-Self. In: Jung no Espírito Santo. Disponível em: http://www.psicologiaanalitica.com/algumas-consideraes-sobre-o-eixo-ego-self.

Neumann, E. (1992). A Criança. São Paulo: Cultrix.

Silveira Filho, D. X. (2002). Drogas: Uma Compreensão Psicodinâmica das Farmacodependências.  São Paulo: Casa do Psicólogo.

Winnicott, D. (1983). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas.

 

 Amor, traição e processo de individuação

(11 de junho de 2016)

Fabricio Fonseca Moraes

 

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo

Viva Vivida, Vinicius de Moraes (1938)

 

Nota: Este texto foi produzido como base para a palestra na I Jornada Junguiana da Multivix, com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade.

Bom dia! Gostaria de agradecer e parabenizar a faculdade Multivix, sua coordenadora Kirlla Cristhine Almeida Dornelas e ao professor Raphael do Amaral Vaz pela organização desta jornada. Foi nos proposto o desafio de falar sobre Amor, Traição e Processo de Individuação.

Começando pelo amor, é necessário dizer que o amor é mistério.  Jung afirmou em suas memórias que “Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca fui capaz de dar-lhe uma resposta válida” Jung, 1975, 305). O fato de não haver uma resposta válida, pode significar que muitas respostas são possíveis e válidas. Assim, não tentarei definir ou conceituar de forma estrita, mas, pensar no amor como um fenômeno, que se manifesta, que percebemos, mas, que não se dobra a linguagem objetiva.

Quando falamos de Amor ou Eros (como é mais comum na linguagem psicológica) somos “quase que” obrigados a visitar a Platão, em seu simpósio ou “banquete”, ele afirma pela boca de Sócrates, citando Diótima, diz que o Amor é um daimon que intermedia a relação entre mortais e imortais (deuses).

Essa compreensão de Platão é interessante pois, expressa de forma mítica uma das características mais basais e fundamentais desse fenômeno que denominamos Amor:  é uma função de integração psíquica que, não só intermedia, mas possibilita a relação Ego-Self (ou Ego-Si-mesmo) assim como a relação Ego-Outro. O amor se manifesta como uma função do self que une, integra e centraliza a dinâmica psíquica – seja ela relacionada com a realidade interior ou a realidade exterior.

Nessa mesma perspectiva, Adolf Guggehnbul-Craig, no livro “Eros on Crutches” – que posteriormente foi relançado com o titulo “The Empty Soul” –   nos chama atenção para um o fato de que Eros “humaniza os arquétipos” temperando suas qualidades absolutas ele afirma

O guerreiro sem Eros é um mercenário brutal, um absurdo assassino em massa , um exterminador demoníaco . Com Eros, o guerreiro luta para defender os valores que são importantes para ele, estando pronto para dar a sua vida pelos outros ou por ideais mais elevados . O Trisckster sem Eros é apenas um enganador e mentiroso, um impostor. Com Eros, o trisckster é surpreendente, estimulante , não preso a conveções e rotinas, mas continuamente revelando novas faces de si mesmo e abrindo possibilidades inexperadas para aqueles que o rodeiam . Ele é brincalhão e encantador.(Guggenbhul-Craig, p.27- tradução nossa) [1]

Acredito que falar do Trickster pode gerar algumas dúvidas, pois, não temos um termo adequado para Trickster, mas, duas representações bem conhecidas em nossa cultura são o gato de Cheshire e o Capitão Jack Sparrow.

Eros ou Amor humaniza os arquétipos, ele os humaniza na medida que integra e harmoniza suas dinâmicas arquetípicas às necessidades do Ego, de forma saudável e construtiva. Essa humanização torna o ujhamor muito próximo a outro arquétipo, ou dinamismo arquetípico, que é a alteridade[2] – que geralmente é percebida a partir da concepção clássica Anima e Animus, que desde os anos 70 e 80 vem sendo repensados, pois, o aspecto contrassexual expressa na verdade o “totalmente outro ou diferente” da identidade do Ego.  mas, na verdade é uma função que possibilita a compreensão integra o polo “Outro” seja ele interno (como a dinâmica do Self) ou externo (como a compreensão mais adequada da realidade do Outro).

A relação Eros e Alteridade é tão intensa que quando projetada, a experiência de lidar com o outro se torna como lidar com a própria alma. Por isso, o a projeção da “anima/animus” como vemos classicamente é revestida de um brilho especial, como se o outro fosse de fato, parte de nós mesmos.

Muitas vezes pensamos na relação amorosa como condicionada pela projeção da anima/us. E, de fato, em algumas situações é (geralmente mais exageradas e incontroláveis), mas, não é possível condicionar o amor a uma projeção. Como disse anteriormente, o Amor integra os elementos da vida psíquica, ou seja, integra tanto os objetos internos quanto os objetos externos, atribuindo um sentido afetivo próprio. Quando retiramos a projeção podemos amar o objeto e integra-lo a nossa realidade pelo que ele é. Até nesse ponto, falamos de uma perspectiva, olhando o psiquismo pela via da dinâmica psíquica, quando pensamos pela via da experiência do Ego, da vivência do amor, outros aspectos interessantes que eu gostaria de pensar um pouco com vocês.

– O amor nos coloca diante de um dilema moral, pois, elimina a fronteira do bem e do mal. Aldo Carotenuto, no livro Eros de Pathos, fala que o “amor é portanto uma centelha do divino – e com esse termo entendo uma força que encerra em si ambos os pólos da dicotomia maniqueísta bem-mal”(Carotenuto, p. 22). Não é incomum pessoas “mentirem” ou “enganarem” outras por amor. Em outras situações, é possível termos crimes mais graves como roubos e até homicídios em nome do Amor. Sob certos aspectos, poderíamos dizer que o amor infla o Ego, colocando-o para além de suas possibilidades. (Vide Anakin, que escolheu o lado negro da força por amor a padmé) Mas, devemos tomar muito cuidado em não confundir as escolhas guiadas pelo amor das escolhas feitas pelo poder. Tratar uma mulher como propriedade, posse – agredindo ou mesmo chegando a morte –  não faz parte da dinâmica do amor, mas, do poder. Nesse sentido, os relacionamentos sem amor, são mais próximos da psicopatia. Infelizmente, confundimos muito as relações de poder com amor, essa confusão se dá por nossa cultura machista, patriarcal que durante séculos subjugou a mulher colocando-a num lugar de propriedade do homem. O machismo e o sexismo são exercícios de poder, cada que somos machistas ou sexistas(ou com outros tipos de preconceitos) nos distanciamos do amor, nos desencontramos do amor e de uma relação integradora e saudável com o, e nos colocamos numa posição de domínio que tende sempre a degradar a outra parte.

– Todo discurso sobre o amor é sempre um discurso sobre si mesmo(ibid p. 27) O Amor se refere sempre a nossa interioridade, que quem somos de forma mais sincera. Esse é um dos aspectos mais interessantes, no amor e através do amor nós vemos a nós mesmos, não é o amor exatamente pelo Outro em si mesmo, mas, pelo o que o Outro suscita em nós.

Renato Russo na música La Nouva Gioventú expressa essa noção de forma interessante, ele diz “Com você por perto eu gostava mais de mim” – Infelizmente o que acontece é que estamos tão inconscientes da relação com nós mesmos que não percebemos que a relação com o outro está relacionada com a relação que temos com nós mesmos – por isso mesmo, um relacionamento patológico, abusivo, espelha uma relação inadequada do indivíduo consigo mesmo.  Nesse sentido, o mandamento de Cristo “amarás o teu próximo como a ti mesmo” se revela uma verdade psicológica válida.

– O amor altera nossa percepção da realidade – Quando estamos mobilizados pelo amor, nossa percepção do tempo, nossa percepção do objeto amado é alterada. Por isso, a percepção do amor infinito, definitivo, eterno é uma distorção possível, mas, que não se restringe a durabilidade do fenômeno, mas, também percepção da realidade dos objetos – sejam eles pessoas ou coisas – isso se dá pelo direcionamento de nossa atenção, guiada pelo fascínio gerado pelo objeto.

Sob certo aspecto a percepção do objeto de amor se torna parcial, sendo direcionada aos aspectos positivos, belos e aprazíveis – negando os aspectos negativos, produzindo sombra no objeto. A dificuldade de integrar a totalidade do objeto amado, gera o aumento de expectativas e por isso mesmo, aumenta a possibilidade erros de julgamento.

O amor nos impele a totalidade – Essa é uma característica importante porque nos faz sentir-nos incompletos, incapazes e dependentes/. Não podemos perder de vista que o Ego, como principal deintegrado do Self, guarda uma relação fundamental com Self, devemos lembrar que a dinâmica natural do Self, compreende a deintegração e a reintegração, no caso do Ego, não há uma reintegração propriamente dita, há uma relação especial que pode ser compreendida ou nomeada como “processo de individuação” ou “eixo ego-self”. Assim, através do amor o ego tem um vislumbre da totalidade, e se lança desejante desta possibilidade, por isso as palavras de Vinicius de Moraes são tão precisas quando diz que o amor é o “O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”, vislumbrando a totalidade somos impelidos nessa busca.

Vamos falar um pouco sobre a traição. Quando falamos de traição devemos ter em mente uma concepção ampla – que envolve tanto relacionamentos com outras pessoas quanto com instituições, valores. Do mesmo modo, a traição obviamente deve ser percebida sob dois aspectos fundamentais : um social e outro individual.

Quando me refiro ao social, eu me refiro a uma cultura onde trair se tornou banal. Crescemos vendo traições em novelas, quadrinhos, filmes e séries. Trair a família, amigos, valores ou pessoas amadas se tornou uma opção, a traição não tem maiores consequências sociais, em tempos passados a traição tirava a honra de uma pessoa, a trair era um estigma sério (especialmente no que diz respeitos a relação entre amigos, familiares e da mulher com o homem, no caso homem, dada a cultura machista, era permitido trair a mulher). Juntamente com essa banalização temos uma realidade onde os relacionamentos muitas vezes são vistos como temporários, sem o comprometimento real, assim, a cultura sanciona a traição. Mas, não vamos nos estender nesse aspecto.

Quando falamos de traição no contexto da psique do individuo, devemos considerar:

– Poder: Falo tanto do poder, justamente pois, Jung afirmava que psicologicamente, o oposto do amor é poder. O desejo de se afirmar, o desejo se impor, ser alguém frente aos outros. Nessa categoria temos três possibilidades a traição em relacionamentos que se dão na ordem do poder, do domínio, na primeira não há uma consideração efetiva pelo outro, a traição é mais uma conquista, na segunda a traição se dá pela incapacidade do indivíduo enfrentar o termino de um relacionamento, seja por imaturidade, o indivíduo trai por não se sentir capz de um enfrentamento saudável, do termino do relacionamento, nesse caso tomado pelo sentimento de inferioridade, o indivíduo busca um apoio. Uma terceira possibilidade, também interessante mais, é quando o poder compete com o amor. É numa relação onde no relacionamento há amor, mas, na relação do indivíduo consigo mesmo, ele trai como uma forma de lidar com o próprio sentimento de inferioridade e outros. Nesse caso a traição ou traições são acompanhadas por sentimento de culpa.

A traição de si mesmo: Talvez esse seja o aspecto mais pertinente para pensarmos a traição. Muitas vezes o indivíduo em suas escolhas e ao longo da sua vida se traiu de tal forma, se identificando com exigências externas e se desligando de si mesmo, nesse caso, essa traição interior, essa alienação de si-mesmo. Esse estado de alienação se dá muitas vezes, pela adoção de uma atitude da consciência unilateralmente rígida, onde, o indivíduo se prende num relacionamento, numa instituição, num grupo, e nesses casos pode ser que uma traição exterior se faça necessária como uma forma de libertação, a traição do outro (seja uma pessoa, instituição ou valores) seria um caminho para sanar a traição interior.

Não podemos perder de vista, o fato que trair nas situações que nos referimos, no geral, tem um aspecto de positivo, uma necessidade. Contudo, não podemos perder de vista que há sempre o traído, há sempre sofrimento envolvido na traição ou mesmo para quem trai.

Onde que entraria o processo de individuação? O processo de individuação é um processo de desenvolvimento que começa desde que nascemos e se estende até nossa morte. Jung descreve a individuação como “torna-se si mesmo”, e este processo de se tornar quem se é, é em si um processo amoroso,  um processo de integração, de honestidade e consideração profunda consigo mesmo e com a realidade circundante, isto é com os outros.

A maior parte dos efeitos, vamos dizer, “negativos” do amor, do poder e traição se relacionam a inconsciência que o indivíduo em relação a si mesmo. Ou seja, quanto mais inconsciente ou alienado de si mesmo, mais vulnerável o indivíduo se torna às dinâmicas do inconsciente ou a relações abusivas.

Poderíamos falar de individuação como um processo de amadurecimento, onde através da integração dos polos persona-anima, assim como da sombra, torna-se possível a percepção das dinâmicas inconscientes, possibilitando o indivíduo experimente o amor de forma construtiva, deixando de ser apenas levado pela intensidade desse amor que se impõe inconsciente, mas, se tornando responsável pelo amor – tanto de si mesmo quanto pelo amor em relação ao outro.

A individuação exige conhecimento, autoconhecimento e isso só se adquire vivendo, amando, sofrendo e voltando a amar. Em todas as experiências que vivemos, uma parte do quebra-cabeça que somos se revela.  Como dizia o Poeta,

Quem já passou

Por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá

Pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou

Pra quem sofreu, ai

 

Quem nunca curtiu uma paixão

Nunca vai ter nada, não.

(Vinicius de Moraes)

 

Referências

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo, Paulus Editora, 1994.
Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

 

 

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[1]The Warrior without Eros is a brutal mercenary, a senseless massmurderer, a demoniac exterminator. With Eros, the warrior fights to defend values which are important for him, ready to lay down his life for others or for higher ideals. The Trisckster with Eros is but a commom cheat and liar, an imposter, a con-artist. With Eros, the trisckster is surprising, stimulanting, not bogged down in convention ou routine, but continually revealing new sides of himself and openning unexpected vistas to those around him. He is playful and charming.

[2] Vide Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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Algumas palavras sobre o Curador-Ferido

(19 de outubro de 2012)

(Este foi o texto base para da  apresentação realizada no II Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, 19 de outubro de 2012)

É com muito prazer que  participo desta mesa, juntamente com a profa. Isabele Santos Eleotério, para pensarmos e contribuirmos com a psicologia junguiana no ES. Neste congresso já tivemos o prazer de ouvir o Prof. Maddi, Profa. Kathy e a Profa. Elizabeth, aliás é sempre um prazer ouvi-los. A minha contribuição é uma breve reflexão acerca da representação arquetípica que denominamos curador-ferido.

O “arquétipo do curador-ferido” é facilmente reconhecido e intuitivamente compreendido em suas representações. Para ilustrar, vou citar três representações que nos tocam diretamente.

A primeira é também a mais conhecida e “reverenciada”, vem da mitologia grega, que é o Chiron, o centauro meio-irmão de Zeus. Digo que nos toca, pois, nossa herança intelectual nos liga ao pensamento grego. Assim, Chiron e a mitologia grega nos possibilitam acompreensão de forma tão clara dos arquétipos. No caso, Chiron que era detentor das artes de cura, sendo inclusive mestre de Asclépio, o deus da medicina. Num dado momento, Herácles, que passava pelo Monte Pelion, entrou numa confusão com centauros, nesse conflito acidentalmente Héracles alvejou Chiron, com uma flecha embebida pelo sangue da hidra de Lerna, causando uma ferida mortal. Contudo, por ser imortal, Chiron passou a sofrer dores monstruosas, pois, toda sua habilidade de cura não era suficiente contra o sangue da hidra.

A segunda representação nos toca diretamente, pois, somos atravessados pela tradição judaico-cristã, quer professemos ou não a fé cristã. Assim, temos Jesus Cristo como representante do curador ferido. Suas feridas já faziam parte das profecias do antigo testamento. “Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados.” (Isaias 53:3- NVI). No novo testamento temos outras referências a seu caráter curador “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados”.( I Pedro 2:24 – NVI).

O terceiro também é presente na nossa cultura, vindo da tradição afrobrasileira, que nos toca sutilmente e compõe nossa forma de ser.  Na tradição do candomblé e da Umbanda temos o orixá Xapanã, também chamado de Omulu ou Obaluae.    Em seus mitos, verificamos que quando esse orixá era criança, teve seu corpo tomado pela varíola, motivo pelo qual foi abandonado por sua mãe Nãnã. Ele foi encontrado e tratado por Yemanjá, mas, ficou com o corpo com as terríveis marcas da varíola. Conta-se também, que quando Olodumaré foi dividir seus bens, essa divisão ocorreu quando Xapanã estava ausente, os orixás pegaram os “bens”, restando para ele somente a peste. Posteriormente, ele se tornou um orixá muito temido e respeitado justamente por ser o senhor das doenças e da cura das mesmas.

(eu poderia até citar um outro curador-ferido, que expressa a crença e a fé na ciência. Que é o personagem Gregory House, que representa bem o curador ferido).

O arquétipo do curador-ferido nos é especialmente atraente por se referir à dinâmica do processo de cura e, por conseqüência, por nos permitir pensar a dinâmica que envolve a relação terapêutica. Especialmente pela perspectiva de Guggenbuhl-Craig(1978) que amplia a compreensão desse arquétipo, que afirma que se a consciência se identifica com um pólo do arquétipo, o contrario é constelado no inconsciente. Isto é, numa situação de doença, se constela na consciência a dinâmica da doença e o pólo de “curador”  se constela no inconsciente.  O fato de ser inconsciente, propicia que o polo curador possa projetado seja na figura do médico ou do terapeuta. Guggenbühl-Criag aponta a necessidade de integrar o pólo de cura, justamente para  mobilizar todo potencial de cura do individuo.

Mas, eu gostaria de pensar o arquétipo sob outra perspectiva, pois, quando vemos essa imagem arquetípica temos dois aspectos:  “cura” ou “curador” que se opõe à “ferida”. As imagens citadas (Quiron, Cristo, e Obaluae) distinguem-se justamente por possuírem um limite, o qual denominamos “ferida”, que se torna tão próxima ou mesmo, necessária aos seres humanos. Assim, poderíamos associar ao curador os seguintes elementos:

Curador

Ferida

Saúde

Doença

Possibilidade

Limite

Total

Parcial

Imortal

Mortal

Divino

Humano

Se pensarmos que o pólo curador, expressa a “possibilidade de possibilidades”, o potencial de vir-a-ser, o impulso heroico de expansão. A ferida é um limite. Assim como doença, a velhice também constituem limites ao homem. A Possibilidade-Saúde-Cura e o Limite-Doença-Ferida são opostos refletem o aspecto autorregulatório da psique. De fato, os mitos sempre apontam para a necessidade integrarmos os limites, para não incorrermos na “desmensura” ou na hybris, o erro muitas vezes fatal dos heróis gregos.

É interessante que notarmos que vivemos numa cultura que ainda tem dificuldades de lidar com os limites, isto é, mais propriamente feridas. Não estou advogando em prol da doença, mas, chamo atenção ao Guggenbuhl-Craig nos alerta acerca dos perigos da fantasia da saúde como força, totalidade (como pleno funcionamento fisiológico e mental) que pode ocultar na verdade a ideia de perfeição, que nos leva a uma busca por algo inatingível. Essa busca se manifesta por diferentes vias. Seja excesso de cuidados, ou pela negação dos limites. Lidar ou aceitar com os limites não significa resignação, mas, uma consideração adequada da realidade e do que é a saúde para o indivíduo nesse momento.

Eu já ouvi de pessoas/pacientes religiosos dizerem que não podem ter essa ou aquela doença/limitação por serem tementes a Deus, ao eu respondo, “olha, vc já ouviu falar no apóstolo Paulo que tinha um “espinho na carne” que Deus se recusou a tirar, ou mesmo se conhece o profeta Elias que nos dias de hoje seria diagnosticado estando com depressão”.

Por outro lado, nós que trabalhamos com as “artes de cura”, devemos considerar as feridas do curador como um limite a cura, ou melhor, um limite ao desejo de curar. Pois, “o desejo de curar” muitas vezes expressa esse “ideal de saúde ou perfeição”, onde o terapeuta impõe uma realidade estranha a realidade ou a verdade do paciente. A busca incessante pelo ideal de saúde pode ser mais opressivo que a limitação e a doença. Jung aponta que o que terapeuta nao suporta o paciente também não vai suportar.

Por isso mesmo, integrar as feridas-limites significa aceitar nossa humanidade, como uma forma de possibilitar a quem atendemos integrar tanto o pólo “curador” quando o pólo “ferida”. É, como o prof. Maddi disse ontem, aceitar que a vida gera vida, tanto pela possibilidade quanto pelo limite. Pois, é através da integração dos dois que podemos experimentar “quem somos”.

O arquétipo do curador-ferido expressa o processo de individuação. Acredito que em outras oportunidades poderemos falar mais sobre o processo saúde-doença que é expresso por essa imagem.

Textos utilizados:

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf. O Arquétipo do Inválido e os limittes da Cura ,in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bílbica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BRANDÃO. J. DICIONÁRIO MÍTICO-ETIMOLÓGICO, Vol. I, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

GROESBECK, C.J. A IMAGEM ARQUETÍPICA DO MÉDICO FERIDO,inJUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

Cf. JUNG, C.G. Ab-Reação, Análise dos Sonhos, Transferência, Petrópolis, RJ : Vozes, 1999.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Psicologia da Religião–uma Leitura Clínica e Junguiana

Este texto foi escrito como base para a Palestra Realizada na Semana Acadêmica da UNES – Faculdade do Espirito Santo, Cachoeiro de Itapemirim, ES. em 27 outubro 2011[1]

Acredito que para muitos falar em “Psicologia da Religião” soa como uma novidade, mesmo para os alunos em períodos finais de graduação em psicologia. Quando falamos em psicologia da religião, a principio nos remetemos a concepção de estudo da religião a partir da psicologia. Esta concepção, nos anos 60, foi substituída por uma concepção que visava uma perspectiva de “psicologia e religião”, isto é, priorizando o dialogo com a religião. Assim, falar em “psicologia da religião” implica não só no estudo, mas, no dialogo com a religião.

Apesar deste tema ser relativamente desconhecido (e estranho a grade curricular das faculdades), mas, a “psicologia da religião” não é “nova”, pois, os estudos de psicologia direcionados ao fenômeno religioso começam no final do século XIX, a primeira obra destinada ao estudar a Religião a partir da Psicologia foi publicada por Edwin Starbuck, em 1899, com o titulo “A psicologia da Religião – um estudo empírico do desenvolvimento da experiência religiosa”, mas, a obra que efetivamente marcou o nascimento da Psicologia Religião, foi a do professor de Starbuck, William James, que em 1902 publicou “As variedades da Experiência Religiosa”. A aplicação da psicologia no estudo do fenômeno religioso nasce com a própria psicologia, e vários importantes teóricos como Jung, Freud, Piaget, Fromm, Erikson, Maslow dentre outros dedicaram inúmeras páginas para falar acerca desse fenômeno.

Apesar da Psicologia da Religião possuir um rico histórico e ter sido objeto de preocupação de vários dos ícones da psicologia, no Brasil, a psicologia da religião não se constitui uma área autônoma, pois, está dividida entre estudos da psicologia social, psicologia clínica e da ciências da religião.

Não devemos perder de vista que, ao falarmos de estudar a “religião”, não estamos reduzindo a mesma a um fenômeno psicológico. Na verdade devemos ter clareza que quando nos referimos a religião estamos falando de um fenômeno complexo, que comporta várias perspectivas de compreensão, desde o estudo próprio da religião, a teologia, história da religião, antropologia da religião, sociologia da religião, filosofia da religião. Nenhuma perspectiva possui a “verdade” acerca da religião, todas se esforçam para, na medida do possível, serem o mais fiéis na compreensão do fenômeno religioso. Devemos assim, especificar mais o que entendemos por religião, isto é, o que seria a religião segundo uma concepção psicológica? Segundo Velasco,

A religião é um fato humano complexo e específico: um conjunto de sistemas de crenças, de praticas, de símbolos, de estruturas sociais por meio dos quais o homem, nas diferentes épocas e culturas, vive uma relação com um mundo específico: o mundo do sagrado. Esse fato caracteriza-se por sua complexidade – nele põem em jogo todos níveis da consciência humana- e pela intervenção de uma intenção específica de referência a uma realidade superior, invisível, transcendente, misteriosa, da qual se fez depender o sentido ultimo da vida. (VELASCO apud ÁVILA, 2007. p. 14).

Aqui se coloca um ponto fundamental: a religião é um fato humano. Isto é, para compreender esta afirmação devemos ter clareza que falamos do homem frente ao sagrado. Assim, “suas motivações, seus desejos, suas experiências, suas atitudes, etc., expressos em seus comportamentos” (ÁVILA, 2007, p.15). Devemos frisar que ao falarmos do homem frente ao sagrado englobamos tanto as atitudes positivas, como o teísmo, quanto as negativas, como o ateísmo. Por outro lado, a religião se constitui, “uma busca de sentido em relação ao sagrado”(PARGAMENT apud ÁVILA, 2007, p.15) Deste modo, a psicologia da religião não tem por objetivo estudar “Deus” ou o “divino” ou “qualquer realidade transcendental”, isto está fora do escopo da psicologia.

Caberia mais uma observação, alguns autores preferem utilizar o termo espiritualidade a religião, pois, espiritualidade está mais relacionado a aspectos pessoais e individuais, ao passo que religião é muito amplo, abrangendo tanto aspectos pessoais quanto sociais/institucionais. Ainda sobre definições, a religiosidade pode ser compreendida como “todo comportamento, atitude, crença, que tenha um caráter religioso, independente de sua origem (a experiência pessoal, aprendizagem, tradição etc.) e de toda avaliação (maturidade, sanidade, profundidade, intensidade, etc.)” (AVILA, 2007, p. 69).

A psicologia da religião não possui uma unidade no estudo do fenômeno religioso, dessa forma, existem várias possibilidades de se aborda-la, seja pelo aspecto individual ou coletivo, seja pelas teorias psicológicas.

Em nosso caso específico, eu compreendo e estudo a religião a partir de duas referências, a primeira é a psicologia analítica, que é uma das abordagens clássicas do estudo da psicologia da religião, e a segunda é clínica, uma vez que sou psicólogo clínico.

Na abordagem junguiana, o estudo da religião ocupa um lugar de destaque, seja por facilitar a compreensão teórica acerca da teoria dos arquétipos, ou por sua implicação na prática da clínica. O próprio Jung valorizava bastante a compreensão da função da religião na vivência do individuo. Basta lembrarmos que a família do Jung foi uma fonte bem rica da diversidade de manifestações religiosas. Seu pai, seu avô e sete de seus tios eram pastores da igreja reformada. Parte de sua família se envolveu no estudo do espiritismo. Em suas Memórias, Jung relata que cedo rompeu com a religião institucional, relata também que via e sentia pena do pai que era angustiado em suas dúvidas interiores.

Suas experiências pessoais, familiares e profissionais o levaram a um estudo dedicado do fenômeno religioso. Jung percebeu que as idéias religiosas, em sua essência, eram similares e se manifestavam de modo semelhante por diferentes culturas, fato que o levou a considera-las como expressão da psique coletiva, isto é, do inconsciente coletivo. Desde modo, a religião, para Jung, possuiria uma função estruturante importante na psique – tanto coletiva, isto é, dos povos, quanto na psique individual. As narrativas, os símbolos religiosos, os sistemas de crenças seriam importantes por auxiliar ao ego a suportar a tensão tanto do inconsciente quanto do mundo exterior. Para Jung todas as religiões eram igualmente válidas. No âmbito da psicologia, não é relevante pensar se é verdadeira ou não qualquer concepção apresentada pelo cliente,

Quando a Psicologia se refere, p. ex., a concepção virginal, só se ocupa da existência de tal idéia, não cuidando de saber se ela é verdadeira ou falsa, em qualquer sentido. A idéia é verdadeira, na medida em que existe. (JUNG, 1999, p.8)

De forma geral, quando observamos os escritos de Jung, notamos que seus trabalhos ou seus estudos não se concentravam num estudo acadêmico da religião, mas, sim num estudo direcionado a prática da psicoterapia. Ou seja, Jung percebia que a relação do individuo com a religião, poderia contribuir para compreender seu adoecimento psíquico ou ser um meio útil para a resolução do conflito no qual o individuo se encontrava.

O que são as religiões? São sistemas psicoterapêuticos. E o que fazemos nós, psicoterapeutas? Tentamos curar o sofrimento da mente humana, do espírito humano, da psique, assim como as religiões se ocupam dos mesmos problemas. Assim, Deus é um agente de cura, é um médico que cura os doentes e trata dos problemas do espírito; faz exatamente o que chamamos de psicoterapia. Não estou fazendo jogo de palavras ao chamar a religião de sistema psicoterapêutico. É o sistema mais elaborado, por trás do qual se esconde uma grande verdade prática. (JUNG, 2000a, p. 167-8)

Jung compreendia que todos os sistemas religiosos, ao longo da história humana buscavam lidar os males da alma. Assim, a religião é compreendida como um meio eficaz que a desenvolvida pela humanidade para lidar com os males que afetavam o corpo e a alma. A compreensão saúde pela religiosidade antiga contemplava o homem inteiro. Não é atoa que em sua origem, nos mais diversos idiomas, os termos saúde e salvação compartilham o mesma origem

Saúde e salvação são termos co-originários, ou melhor, nasceram de um mesmo conceito e partilharam por muito tempo a mesma sorte e um mesmo significado geral, que acabou cindindo-se bem mais tarde. Trata-se do significado sânscrito do svastha(= bem-estar, plenitude), que depois assumiu a forma do nórdico heill e, mais recentemente, Heil, whole, hall nas línguas anglo-saxônicas, que indicam “integridade” e “plenitude”. A mesma coisa acontece com o termo sotería: na língua grega, segundo a qual justamente Asclépio é considerado sotér: aquele que cura e que é ao mesmo tempo “salvador”. Na língua latina é emblemático o significado de salus, termo capaz de incorporar, mesmo em época recente, tanto o significado de “saúde” como de “salvação”. É preciso, porém, lembrar que também em outras línguas acontece a mesma combinação. (TERRIN,1998 , p154)

Compreender esses aspectos históricos e culturais que aproximam a psicologia, em especial a clinica, da função psíquica das religiões nos possibilita compreender a possibilidade de seu uso correlacionado com a prática da psicoterapia. Devo esclarecer, que quando falo em “uso correlacionado” não me refiro a misturar psicologia e religião, mas, compreender o contexto simbólico do cliente, compreender suas metáforas e os elementos de suas vivências que são fundamentais para aquele individuo.

Uma das maiores dificuldades no dialogo entre a psicologia e a religião é o preparo do profissional, isto é, o despreparo. Andreia Coliath produziu uma interessante dissertação acerca da “Escolha do Terapeuta associada à denominação religiosa”, nesse trabalho, Coliath, a partir de categorias de Wulff, faz uma levantamento interessante das atitudes comuns dos psicólogos acerca da relação com o fenômeno religioso. Ela cita quatro tendências gerais de posicionamento dos psicólogos

1 – Negação literal: Esta atitude assume que a linguagem religiosa deve ser entendida de forma literal, porém rejeita todo o conteúdo nela apresentado. Os psicólogos nesta posição desconsideram a singularidade das experiências religiosas, o milagroso, e hipervalorizam os princípios formais do conhecimento. Os profissionais que adotam esta atitude tendem a ignorar a religiosidade do sujeito ou reduzem a religião a um conjunto de afirmações irracionais a serem extirpadas ou apropriadas pelas ciências para serem explicadas racionalmente. O paciente nesta posição encontra-se fechado à linguagem simbólica.

2 – Afirmação literal: “ Diz respeito a afirmação literal do objeto religioso. Os psicólogos nesta posição, aceitam os conhecimentos das teorias psicológicas, desde que não se choquem com suas crenças. É a atitude dos fundamentalistas e dos religiosos ortodoxos. Atitude frequente desses psicólogos é a de atuar a partir do ponto de vista de sua religião e da visão de mundo nela contida valendo-se basicamente de generalizações idealizadas e de um conjunto de regras de comportamento. Esta forma de atendimento choca-se com a proposta do atendimento clínico que propõe uma aceitação total do paciente.

3 – Interpretação redutiva – Vê a religião como um fenômeno social ultrapassado e ingênuo, excluindo a transcendência da linguagem e das práticas religiosas. Esta atitude assemelha-se muito com a negação literal. Os psicólogos nesta posição buscam perspectivas científicas para interpretar, a partir delas, os conteúdos religiosos. O objetivo implícito nesta atitude é o de transformar ou eliminar o campo religioso, reduzindo-o a outras áreas.

4 – Interpretação restauradora – É a atitude que considera a especificidade da experiência religiosa. Os psicólogos nessa posição examinam as crenças e posicionamentos pessoais de seus pacientes e buscam compreender e aproximar-se do fenômeno religioso abrindo-se para vivências, símbolos, metáforas, que o paciente traz. Esta atitude implica em humildade epistemológica e clareza quanto aos próprios pressupostos e adesões religiosas. (COLIATH, 2007, p. 34)

Quando pensamos essas atitudes, fica claro a necessidade de uma compreensão mais ampla do significado da religião para o paciente, assim como a necessidade de conhecer os sistemas religiosos para compreender nosso paciente a partir de seu contexto simbólico, de sua realidade específica. Infelizmente, muitos pensam nas religiões simplesmente como um sistema fechado de regras e ditames morais, perdendo, assim, o potencial que nos é oferecido pelo universo de símbolos, narrativas ou histórias significativas que são os aspectos essenciais das religiões. Tendo posse de toda a possibilidade que a religião nos oferece, podermos ter uma comunicação mais eficaz e significativa para nosso cliente, mobilizando-o por inteiro.

Uma outra grande dificuldade e talvez, a maior dificuldade, se encontra na incapacidade de muitos profissionais em lidar com suas próprias convicções religiosas, pois, muitos acabam por impô-las consciente ou inconscientemente ao paciente. Essa limitação faz com que o profissional perca seu caráter terapêutico, muitas vezes, sendo uma forma deformada de conselheiro espiritual.

Acredito ser válido, quando pensamos o dialogo da psicologia clinica com a religião, considerar as palavras de Jung,

(…)o psicoterapeuta está obrigado a um autoconhecimento e a uma crítica de suas convicções pessoais, filosóficas e religiosas, tanto quanto um cirurgião está obrigado a uma perfeita assepsia. O médico deve conhecer sua equação pessoal para não violentar seu paciente”. (JUNG, 2000b, p.154)

Essa consideração é importante pois, nos leva a pensar não só a clinica psicológica, mas, quaisquer relações humanas quem envolvam a religião devemos considerar que a importância e significado que a minha matriz religiosa tem para mim, também vai ter para uma outra pessoa, assim respeito (mais que tolerância) é a única forma se evitar a violência contra o outro.

Referências bibliográficas

ÁVILA,A. Para Conhecer a Psicologia da Religião, São Paulo, Edições Loyola, 2007

COLIATH , A.A.M. Escolha do Terapeuta Associada a Denominação Religiosa, 2007,98f. Dissertação de Mestrado –Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. 2007.

JUNG,C.G. Psicologia e Religião, Petrópolis,: Vozes 1999a.

JUNG,C.G. Vida Simbólica Vol. I , Petrópolis,: Vozes 2000a

JUNG. C.G Civilização Em Transição. Petrópolis: Vozes, 2 ed. 2000b .

TERRIN, A.N. O Sagrado Off limits, São Paulo, SP: Edições Loyola, 1998.


[1] Publicado em 30 de outubro de 2011, no antigo blog “Jung no Espírito Santo”. A atual versão foi revista e ligeiramente modificada para a publicação no site da Comunidade Anglicana Bom Pastor (www.anglicana-es.org)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Pensando Alguns aspectos do “curador ferido”

 

20 de novembro 2010

(Pequenas correções e ampliações em 09/12/2011)

Falar em relação terapêutica na abordagem junguiana implica, antes de tudo, em reconhecer o aspecto arquetípico que envolve o processo de psicoterapia ou relação terapêutica. Para fazer esse reconhecimento, em primeiro lugar, devemos lembrar que psicoterapia em sua origem etimológica significa “cuidado ou atenção com alma”. Tanto psicologia(especialmente, a clinica psicológica/psicoterapia) quanto a psiquiatria nasceram da necessidade nossa cultura em lidar com psique por uma via propriamente científica, pois esta era uma necessidade de nossa cultura. Entretanto, bem antes de Pinel, Wundt, Charcot, Freud e Jung o homem sofria do males da alma.

Antes de nossa concepção científica, o homem há milênios lidava com os “males ou sofrimentos da alma” por meio das religiões ou mais especificamente das práticas mágico-religiosas, praticas essas que em nosso meio “científico” desprezamos. Contudo, foi a partir dessas práticas mágico-religiosas que podemos ter uma perspectiva dos meios que a psique utilizava para se reorganizar e se curar através dos tempos. Entendam, não estou dizendo que a psicoterapia e a religião são iguais. Estou afirmando que ambas emergem da mesma necessidade humana de lidar com as adversidades da alma.

Por isso, Jung costumava dizer que as religiões eram sistemas psicoterapêuticos, justamente por lidar com os mesmos fenômenos que lidamos no consultório, os males da alma. Não é a toa que muitos clientes recorrem primeiramente a religião, antes de procurar psicoterapia. Entretanto, que não devemos compreender isso uma ineficácia da religião ou como se ela tivesse perdido sua “validade terapêutica”. Uma das formas, para compreendermos porque a psicoterapia ocupa o lugar que outrora foi da religião, nós é dado por Levi-Strauss, que no seu livro “antropologia esturural”, no capitulo “O Feiticeiro e sua magia”, afirma que :

Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a eficácia da magia implica na crença da magia, e que esta se apresenta sob três aspectos complementares: existe, inicialmente, a crença do feiticeiro. na eficácia de suas técnicas; em seguida, a crença do doente que ele cura, ou da vítima que ele persegue, no poder do. próprio feiticeiro; finalmente, a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam à cada instante uma espécie de campo de gravitação no seio do qual se definem e se situam ás relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça. (Levi-Strauss, 1975, p. 194-5)

Os três aspectos citados por Levi-Strauss são a) confiança do feiticeiro em suas técnicas; b) confiança do doente no feiticeiro; c) confiança do grupo nesse processo de cura. Esses aspectos podem ser transportados para a psicoterapia contemporânea, reconhecendo que há a necessidade 1 ) o psicoterapeuta confiar e dominar a sua técnica, 2) a confiança do cliente (que pode ser traduzida como rapport, vinculo ou transferência); 3) Reconhecimento social, crença em sua eficácia científica.

A eficácia psicoterapêutica e a eficácia da cura mágico-religiosa estão relacionadas por emergirem da mesma realidade psíquica. A principal diferença está a psicoterapia contemporânea é uma forma de a consciência estabelecer um ponte para o dinamismo inconsciente, buscando reestabelecer a saúde psíquica. Por sua vez, a religião surge como uma expressão simbólica do próprio inconsciente na tentativa de uma reordenação psíquica. Assim, os mitos e os rituais são metáforas de dinâmicas coletivas que estão presentes no interior de cada um.

Por outro lado, poderíamos inclusive ampliar essas relações, se observarmos alguns resquícios da amplitude da função religiosa para o homem na linguagem. Por exemplo, o termo saúde e salvação derivam da mesma palavra latina Salus. Já em língua germânica, o termo hailag está na raiz de heilig (sagrado) e de Heil (inteiro, são, curado).

Essa correlação de salvação e saúde não é estranha quando pensamentos, que na concepção religiosa Deus ou deuses são os responsáveis pelas tanto pelas curas quanto pelas doenças. Ou seja, se urma doença foi um castigo de uma divindade, a pessoa que sofre deveria rever seus atos para ver onde que ofendeu a divindade, e fazer as expiações necessárias. Essa noção de causalidade divina pode ter perdido força em nossa cultura em face a ciência, apesar em vários grupos e camadas sociais essa concepção continua viva e atuante, no meio científico que, no geral, menosprezamos ou mesmo abandonamos a importância e efeito da religião no cotidiano. Segundo, Jung, em nossa cultura regida pela ciência,

Abandonamos, no entanto, apenas os espectros verbais, não os fatos psíquicos responsáveis pelo nascimento dos deuses. Ainda estamos tão possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos, como se estes fossem deuses. Atualmente eles são chamados: fobias, obsessões, e assim por diante; numa palavra, sintomas neuróticos. Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico; também perturba os miolos dos políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo verdadeiras epidemias psíquicas. (JUNG, O Segredo da Flor de Ouro,xx)

As experiências humanas o fenômeno doença-cura imprimiram na psique um padrão de mobilização psíquica, que cuja imagem representacional é o mitema curador-ferido.

Antes de falarmos sobre o essa dinâmica arquetípica de saúde-doença, que fundamenta a relação terapêutica, devemos rever os mitos relacionados ao a dinâmica do curador ferido/saúde-doença.

Algumas pessoas podem achar estranho o fato dos junguianos sempre buscarem os “mitos” ou “referências mitológicas”. Acredito que seja importante frisar que, segundo Cambpell, os mitos são metáforas. Isto é, metáforas de nossa realidade interior. Essas metáforas nos servem como modelos para um nível de apreensão da realidade, nos dando orientação e direcionamento, e, por outro lado, nos possibilitam a compreensão de processos inconscientes projetados e elaborados nos mitos.

O curador-Ferido

Para falarmos do arquétipo do curador ferido eu gostaria de contrapor três variações desse arquétipo que nos narram acerca dessa dinâmica.

A primeira tradição que nos ensina bastante é a tradição afro-brasileira, do Candomblé, pessoalmente, eu acredito que das três que vou me referir esta é a que melhor explicita a dimensão arquetípica das polaridades saúde e doença. No candomblé, orixá que rege a saúde e a doença é Xapanã, mas, por respeito e temor, ele é mais conhecido por Obaluaê(Senhor da Terra) ou Omulu (Filho do Senhor) . Um dos mitos sobre Xapanã, diz o seguinte,

Xapanã ganha o segredo das peste na partilha dos poderes

Olodumare, um dia, decidiu distribuir seus bens.

Disse aos seus filhos que se reunissem

e que eles mesmos repartissem entre si as riquezas do mundo.

Ogum, Exu, Orixá Oco, Xangô, Xapanã

e os outros orixás deveriam dividir

os poderes e mistérios sobre as coisas da Terra.

Num dia em que Xapanã estava ausente,

os demais se reuniram e fizeram a partilha,

dividindo todos os poderes entre eles,

não deixando nada de valor para Xapanã.

Um ficou com o trovão, o outro recebeu as matas,

Outro quis os metais, outro ganhou o mar.

Escolheram o ouro, o raio, o arco-íris;

Levaram a chuva, os campos cultivados, os rios.

Tudo foi distribuído entre eles,

cada coisa com seus segredos,

cada riqueza com seus mistério.

A única coisa que sobrou sem dono, desprezada, foi a peste.

Ao voltar, nada encontrou Xapanã para si,

A não ser a peste que ninguém quisera.

Xapanã guardou a peste para si,

mas, não se conformou com o golpe dos irmãos.

Foi procurar Orunmilá, que lhe ensinou a fazer sacrifícios,

para que seu enjeitado poder fosse maior que os dos outros.

Xapanã fez sacrifícios e aguardou.

Um dia, uma doença muito contagiosa

Começou a se espalhar-se pelo mundo.

Era a varíola.

O povo desesperado, fazia sacrifícios para todos os orixás.

mas nenhum deles podia ajudar.

A varíola não poupava ninguém, era uma mortandade.

Cidades, vilas e povoados ficavam vaizos,

já não havia espaços nos cemitérios para tantos mortos.

O povo foi consultar Orunmilá para saber o que fazer.

Ele explicou que a epidemia acontecia

Porque Xapanã estava revoltado,

por ter sido passado para trás pelos irmãos.

Orunmilá mandou fazer oferendas para Xapanã.

Só Xapanã poderia ajudá-los a conter a varíola,

pois só ele tinha o poder sobre as pestes,

só ele sabia o segredo das doenças.

Tinha sido essa a sua única herança.

Todos pediram proteção a Xapanã

E sacrifícios foram realizados em sua homenagem.

A epidemia foi vencida.

Xapanã era então respeitado por todos.

Seu poder era infinito, o maior de todos os poderes” (PRANDI, 2007, p.210-1)

Em outras narrativas acerca de Xapanã é dito que ele, quando nasceu doente e foi abandonado pela mãe (Nãnã) e criado por Iemanjá, outros falam que quando criança que foi punido com varíola por desobediência, e mesmo ele superando a doença ele continuou com as marcas e deformações da doença. O que fazia com que ele usasse palha para esconder as marcas da doença. Mesmo sendo ele senhor das doenças e das curas, ele próprio era marcado pela doença. Xapanã, Obaluaê-Omulu, é um curador que carrega suas próprias feridas, escondendo-as por debaixo de sua roupagem de palha, tanto pro vergonha de sua aparência e para evitar as reações que causa nas pessoas.

Indo para outra época, uma outra mitologia, podemos reconhecer a mesma dinâmica, no mitema grego de Quiron, o centauro. Na mitologia grega, Quiron é um personagem que não possui um mito próprio, mas, participa da história de deuses e heróis. Ele nasceu da união de Cronos e a ninfa Filira, ele foi criado por Apolo, e se tornou o mais sábio (e civilizado) dos centauros, foi o mestre de heróis como Ajax, teseus Jasão, Perseu, Enéas, Télamon, Aquiles Peleu, Aristeu, Hercules e Asclépio. No toca a nosso estudo, Quíron foi mestre de Asclépio(ou Esculápio), a quem ensinou as artes da cura, por sua vez, Asclépio se tornou o deus da medicina. Mas, todo conhecimento nas artes da cura não  foram suficientes para curá-lo, quando ele foi atingindo pela flecha de Hercules que havia sido embebida no sangue da hidra de Lerna, que era mortal, mas, como Quiron era imortal, o ferimento causado jamais curaria, causando dores intermináveis. O sofrimento de Quiron só terminou quando ele trocou sua imortalidade pela liberdade de Prometeu, feita esta troca, Zeus eternizou sua história nas estrelas criando a constelação de Sagitário.

O terceiro representante dessa categoria de curadores feridos é bem conhecido d e nossa cultura, justamente por estar no centro da mitologia vigente que é Jesus Cristo. Devemos tomar alguns textos como referência:

Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Isaias 53:3 (NVI).

Os profetas do antigo já previam o sofrimento do messias, que o sofrimento dele seria necessário para o perdão e a purificação de todos.

Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados. I Pedro 2:24 (NVI)

As feridas de Cristo são ressaltadas na passagem onde Cristo encontra com Tomé, após a ressurreição.

Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu.

Os outros discípulos lhe disseram: “Vimos o Senhor! ” Mas ele lhes disse: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”.

Uma semana mais tarde, os seus discípulos estavam outra vez ali, e Tomé com eles. Apesar de estarem trancadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês! ”

E Jesus disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia”.

Disse-lhe Tomé: “Senhor meu e Deus meu! ”

Então Jesus lhe disse: “Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram” Jo. 24-29. (NVI)

Quando estudamos atenciosamente esses três mitemas, podemos perceber que em culturas diferentes produziram estruturas muito semelhantes como o nascimento divino ( Obaluae e Quíron foram abandonados no nascimento; Cristo foi perseguido e teve de ir para o Egito) os três passaram pelo sofrimento, tinham as marcas do sofrimento, mas, eles mesmos não curaram essas marcas/feridas.

A identidade entre essas representações evidenciam um arquétipo que denominamos “curador-ferido”. Entretanto, eu gostaria de ressaltar que essa estrutura arquetípica deveria ser compreendida de modo mais amplo, pois, os curadores feridos indicam que saúde e a doença estão associadas numa mesma dinâmica, são polaridades do mesmo arquétipo. Dos três exemplos, Obaluae representa melhor essa dinâmica, pois, ele é tanto o curador quanto o causador das doenças (um paralelo que poderíamos traçar, seria com Jeová, que tanto enviava as doenças quanto curava o povo).

Dessa forma, poderíamos compreender esse arquétipo por essas duas vias:

a) Curador-ferido: que dá indicações para pensarmos a temática do terapeuta;

b) Saúde-doença: que nos permite compreender o potencial de saúde inconsciente, isto é, há sempre o potencial de vida mesmo na doença. Assim, como o símbolo do Tai Chi, o germe da saúde encontra-se na doença, e germe da doença está presente na saúde.

É importante frisar que como arquétipo, essa dinâmica é comum a todos os seres humanos, não restrita a “terapeutas”.

Indo pela primeira via, entramos num domínio que é a percepção do “curador-ferido”, que nos permite refletir acerca das pessoas que se propõe a posição de curadores ou cuidadores (que não se restringem a psicólogos, mas, também, ministros religiosos, assistentes sociais, professores, médicos dentre outros).

O aspecto fundamental dessa representação é a ferida do curador. Esta ferida pode ser compreendida simbolicamente em dois aspectos :

1 – É uma ferida aberta na pele : Em primeiro lugar devemos focalizar a pele, que é o órgão de nosso corpo responsável pela proteção de nosso organismo, e que intermedia a nossa relação com o meio. Essa ferida aberta na pele nos fala de uma “abertura sensível” ao mundo exterior. É uma abertura

2 – É incurável : Ser incurável significa que ela requer cuidados contínuos.

Assim,  essa ferida, essa disposição a compreender e ajudar aos outros, produz “uma ponte simbólica” inconsciente, que não deve ser vista como “negativa”, mas que deve ser cuidada atentamente para não causar “infecções” (seja por meio de relações contratransferenciais arrasadoras ou de outras ordens), como história do movimento psicanalítico nos ensina (sugiro a leitura do livro “Luz e Trevas” de Isaias Paim).

Em outros, termos, essa ferida simbólica do terapeuta, por ser inconsciente, está associada com sua sombra. Essa é uma questão importante, segundo Guggenbhul-Craig,

Sombra no analista constela sombra no paciente. Nossa própria honestidade ajuda-o a confrontar seus fenômenos sombrios. Cada um de nós deve trabalhar em ambas áreas (GUGGENBHUL-CRAIG,1978, p.86)

Quando falamos de sombra devemos lembrar que esta corresponde a todos os pontos cegos (ou míopes) que temos em nossa consciência. É importante compreendermos que a sombra não é um processo apenas histórico, mas é um fator dinâmico, fazer analise não significa que você vai “exaurir” ou “dominar” a sombra, mas, apenas que você estar atento aos seus “tendões de Aquiles”, de nossa história pessoal. Quando nós, terapeutas,  não permitimos a entrada desses conteúdos em nossa consciência ou não permitimos sua expressão simbólica, eles encontram outro meio, seja pela formação do sintoma neurótico ou a somatização. Por outro lado, essa sombra também vai estar associada a dinâmica arquetípica do curador ferido.

(…)Quando uma pessoa fica doente o arquétipo de terapeuta-paciente se constela. O enfermo procura um terapeuta exterior, mas, ao mesmo tempo se constela o terapeuta intrapsíquico. Costumamos nos referir a este, no paciente, como “fator de cura”. É o médico dentro do próprio paciente – e sua ação terapêutica é tão importante quanto a do profissional que entra em cena externamente. As feridas não se fecham nem as doenças se vão sem a ação curativa do terapeuta interior. (…) O médico pode fechar o corte – mas, algo no corpo e na psique do paciente deve cooperar para que a enfermidade seja vencida. (GUGGENBHÜL-CRAIG, 1978, p. 98)

Os dois pólos do arquétipo são atuantes em nós. Quando reconhecemos o pólo que até aqui já chamamos de “ferida/doença/doente/paciente” estamos reconhecendo também a nossa limitação, esse pólo conduz o terapeuta a humildade não se achar melhor ou superior ao atendido. Por outro lado, quando não reconhecemos as feridas, corremos o risco da hybris do analista, na identificação com a polaridade curadora. Essa identificação gera cisão na dinâmica do arquétipo, onde a consciência identifica com o pólo curador e a tendência é projetar o pólo oposto na relação terapêutica, isto é, no cliente. Quando isso ocorre, o terapeuta se torna o dono da verdade, não reconhece ou valoriza os desenvolvimentos do cliente, isto é, não desperta o potencial de cura do cliente, tornando-o cada vez mais dependente de si.

É fundamental compreendermos que as feridas do curador lhe lembram que ele é humano, que deve buscar viver e desenvolver sua vida. A ferida lhe impõe o cuidado de sua vida in lato sensu (pessoal, familiar, social). As feridas do terapeuta somente serão problemáticas quando dissociadas, isto é, quando sua relação consigo mesmo for precária.

(Voltaremos a essa discussão, no que tange ao curador ferido na psicoterapia, num post futuro quando falaremos da relação transferência-contratransferência. Este texto foi baseado numa aula dada na UFES em 2010. Corresponde a primeira parte da aula, a segunda parte foi aprofudado o tema da transferência-contratransferência. Este post guarda algumas ligações com o texto  Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista).

Referencias Bibliograficas

LEVI-STRAUSS, Claude. 1970. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

JUNG, C. G.; WILHEIM, R. O segredo da flor de ouro: um livro de vida Chinesa. 11 Edição. Petrópolis: Vozes, 2001.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Depressão, preconceito e Elias

 

18 de outubro de 2010

(Escrevi esse texto como base para uma palestra apresentada no dia 17/10/10, numa reunião das Mulheres Cristãs em Ação – MCA, da Igreja Batista em Praia do Suá, Vitória,ES. Essa palestra não tem uma finalidade objetivamente teórica ou expositiva da teoria junguiana)

O tema de nossa palestra é “Depressão, preconceito e Elias”. Acredito ser importante para discutirmos nas igrejas, para estarmos atentos a depressão, pois é um tema com o qual nos confrontamos todos os dias. Recentemente foi divulgado pela Organização Mundial de Saúde que em 20 anos, isto é, 2030, a depressão será a doença mais comum no mundo e será a que gerará mais gastos em seu tratamento. Hoje estima-se que cerca de 17% da população sofra de depressão.

Esses dados da OMS servem para nos chamar a atenção para essa doença, muitas vezes silenciosa, que vem ocupando cada vezes mais espaços em nosso dia a dia, acredito que todos nós aqui já tivemos contato próximo com pessoas com depressão em nossa família, vizinhança, trabalho ou na igreja.

Apesar de termos muita informação acerca da depressão, muita gente ainda acha que é a depressão é uma bobeira, é fraqueza moral, é preguiça, ou que a depressão é apenas uma longa tristeza. Entretanto, a depressão é uma doença que exige seriedade pois, não só pelo sofrimento pessoal e perdas sociais causadas pela depressão, mas, pelo fato de estar associada a casos de suicídio e, também, ao abandono de tratamentos médicos, o que pode também agravar outras doenças.

Quando falamos da depressão ou de qualquer doença, três aspectos são fundamentais: sintomas, causas e tratamento. Falando de forma geral da depressão, os principais sintomas são:

– Perda de interesse

– Alterações no Sono (dorme demais ou tem insonia)

– Alterações no apetite (come muito pouco ou come muito)

– Dificuldade de concentração

– Lentificação das atividades físicas e mentais (demora a responder aos estímulos)

– Se sente fracassada, culpada, com pensamentos negativos acerca de si.

– Pessimista,

– Indecisão

– Isolamento

– Inquieta, irritadiço

– Ou Chora à-toa ou não consegue chorar.

Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa.

Na depressão há um esvaziamento da vida, cada vez mais a vida vai se tornando sem sentido, cada experiência que a pessoa tem se torna frustrante, ela não consegue ter prazer em nada, não conseguindo ter uma visão ou perspectiva de futuro. Mas, não podemos confundir isso com tristeza, a tristeza dá e passa, tem um motivo, a depressão é um estado persistente, que atravessa os dias e as semanas.

A depressão é uma doença silenciosa, ela vai se construindo lentamente, muitas vezes só nos damos conta quando estamos em meio a uma crise depressiva. Não há uma causa específica, são várias as causas que podem levar a uma pessoa a desenvolver uma depressão, desde uma predisposição genética, perdas profundas (como de um familiar, amigo, ou mesmo emprego), uma vida de pura rotina, muitas vezes sem sentido, apenas repetição; dificuldades para lidar com a frustração, mudanças drásticas na vida, isolamento/solidão, isso sem falar em alterações de ordem fisiológicas como variações hormonais na menopausa. São vários os fatores que podem se somar no processo de depressão.

O ideal para o tratamento da depressão é a conciliação entre a medicação e a psicoterapia. Em alguns casos de depressão leve o medicamento sozinho pode ser eficaz, mas, na maioria das vezes, nos caso de depressão moderada e severa a pessoa apresenta uma melhora, mas, fica dependente da medicação, pois não refletiu acerca das mudanças necessárias em sua vida. Isso porque a medicação gera uma estabilidade no individuo, permitindo que ele tome as decisões necessárias em sua vida. Essas questões e decisões serão identificadas num processo psicoterapêutico. Aqui entra no segundo tópico, que sugeri no tema: O preconceito.

Eu acho importante falar do preconceito porque já ouvi algumas pessoas ligadas a igrejas/lideres religiosos falando sobre a depressão e outros transtornos psicológicos, como sendo exclusivamente de ordem espiritual. Algumas dizem (inclusive pastores) que depressão é falta de Deus, ou é fruto de um pecado não confessado, ou que é ação do diabo ou “do inimigo” na vida da pessoa e por isso ela deprimiu. E, que basta orar e buscar a Deus que a depressão ser curada.

Mas, geralmente as pessoas ficam sofrendo no banco das igrejas, achando que tem algum pecado, achando que Deus não as ouve, achando que é o diabo agindo em suas vidas e não procuram ajuda profissional porque acham e ouvem as pessoas dizerem que a depressão é um problema “espiritual”. É importante entendermos que a depressão não é um problema espiritual, mas, pode causar um problema espiritual. Pois, muitos afastam da igreja e de Deus pelo fato se sentirem tão mal por ouvirem os irmãos dizendo que é “só ter fé “ou que o “seu problema é espiritual”, “é só uma provação” ou que “ é ter fé que o diabo vai se afastar”, nisso, a a ida na igreja em vez de ajudar, acaba deixando a pessoa pior.

Frente a essas idéias, esses preconceitos, podemos perguntar o que a bíblia diria acerca da depressão?Sempre que eu ouço alguém falando que se uma pessoa está deprimida ou é porque tem pouca fé, ou tem que orar mais, ou está em pecado, eu sempre pergunto, você já ouviu falar de Elias?

Elias foi o maior profeta do antigo testamento. No capitulo 19 de I Reis, temos um relato interessante sobre a situação dele. Vejamos o que diz o texto,

3 – Elias teve medo e fugiu para salvar a vida. Em Berseba de Judá ele deixou o seu servo

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados. ”

5 – Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: “Levante-se e coma”.

6 – Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo.

7 – O anjo do Senhor voltou, tocou nele e disse: “Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa”.

8 – Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus.

9 – Ali entrou numa caverna e passou a noite. E a palavra do Senhor veio a ele: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

10 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

13 – Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

14 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

15 – O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria.

16 – Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

17 – Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú.

18 – No entanto, fiz sobrar sete mil em Israel, todos aqueles cujos joelhos não se inclinaram diante de Baal e todos aqueles cujas bocas não o beijaram”. (BIBLIA, I Reis 19:3-18, 2000),

Para entendermos esse capitulo da vida Elias, devemos lembrar rapidamente o que aconteceu no capitulo anterior, nele, Elias fez um desafio a 450 profetas de Baal, o deus que respondesse o holocausto com fogo, seria o Deus verdadeiro, após meio dia de suplicas os profetas de Baal nada obtiveram, Elias ao orar teve uma resposta imediata, onde fogo caiu do céu. Logo após, o povo que estava ali presente ficou maravilhado e matou os 450 profetas.

Mesmo acontecendo esse milagre, Elias não viu a conversão em massa que provavelmente ele esperava. Muito pelo contrário, a notícia que ele teve foi justamente que a rainha Jezabel queria vê-lo morto. Assim, começa dizendo que

3 – Elias teve medo e fugiu para salvar a vida.

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia.

Elias teve medo e fugiu, se isolou, foi para o deserto, isto é, foi para uma região árida, infrutífera, vazia, que certamente refletia o que ele estava se sentindo por dentro. Assim, olhando para esse inicio poderíamos começar a identificar como sintomas de depressão o isolamento, mas, um sintoma não é suficiente para falar depressão, vamos continuar vendo o texto,

Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados. ”

Encontramos outros sintomas aqui, o desejo de morrer e os pensamentos negativos sobre si, como ele diz, que não é melhor que os antepassados. No versículo seguinte temos outro sintoma,

5 – Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu

Uma dos sintomas comuns na depressão é a alteração do regime de sono (uns dormem demais, outros sofrem de insônia). É importante notar que o texto continua dizendo que Deus cuidava de Elias, tanto que o anjo veio por duas vezes para alimentá-lo. Elias estava num processo depressivo, mas, Deus não o abandonou, não viu pecado nele, nem o julgou. No versículo 8, temos outro dado

8 – Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus.

O sofrimento Elias continuava, e ele caminhou pelo deserto durante 40 dias e 40 noites, até chegar em Horebe, no Egito. E chegando lá, ele entrou numa caverna, quando Deus fala com ele, e o responde dizendo justamente o que ele percebia da realidade, segundo ele, todo o povo de Israel havia abandonado a Deus, e só restava ele, sozinho.

10 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

Na fala de Elias percebemos como ele se sentia frustrado como profeta, como ele sentia que havia fracassado um profeta que não conseguiu converter o povo de seus maus caminhos. Deus manda Elias sair da caverna, que ele iria passar, conforme o texto,

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

Elias conhecia bem a Deus, e não viu sua presença nem na tempestade, nem no terremoto, nem no fogo. Ou seja, as vezes a gente espera coisas grandiosas, milagres enormes, mas, Deus se manifestou na brisa, no suave murmúrio da brisa, e Elias o reconheceu ali.

Por isso, eu insisto em dizer que mesmo segundo a bíblia não tem como afirmar que a depressão é um problema espiritual. A depressão pode causar um problema espiritual, pode causar um afastamento de Deus, mas ela em si não deve ser vista como um problema espiritual.

Elias estava deprimido, mas, mesmo assim sua relação com Deus não mudou. Ele reconhecia a presença e a manifestação a Deus, e por outro lado, o próprio Deus falava com ele. É interessante a gente notar, que Deus mandou ele voltar pelo mesmo caminho e ir até o deserto de Damasco, ou seja, ele teria que viajar pelo deserto (por outros quarenta dias), onde ele caminhando ainda nesse vazio, mas, Deus afirma que mesmo estando com essa depressão ele não estaria sozinho, pois, no caminho dele ele encontraria ajuda.

Nesse ponto encontramos um segundo preconceito tão complicado quanto o primeiro muito complicado, que é o preconceito ao tratamento. Muitas pessoas não procuram tratamento porque alegam que não conhecem algum psicológo cristão ou não há no plano de saúde nenhum psicólogo cristão. E, não percebem que o mais importante é encontrar um bom profissional, mesmo que não seja cristão. Acerca disso, a bíblia nos mostra algumas coisas importantes. Vejamos um ponto importante, no texto.

15 – O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria.

16 – Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

17 – Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú.

Deus mandou Elias ir ungir Hazel, como rei da Síria, que não era do povo de Israel, para ajudar em sua obra, mais adiante vemos que Hazael declarou guerra contra Israel, de forma a combater os inimigos de Elias, segundo a vontade de Deus. Ao longo de toda a bíblia vemos Deus usando pessoas que não eram do povo de Israel para salva-los. Outros exemplos bíblicos, que podemos citar são: Moisés, que Deus usou a filha do Faraó, para protegê-lo de Faraó; Davi que quando perseguido por Saul, ele encontrou abrigo entre filisteus de Gate(I Sm 27), eu seja, Deus usou os inimigos de Israel para dar abrigo a Davi; no período do exílio na Babilônia, Deus usou Ciro, Dario e Artaxerxes reis da Pérsia, para libertar o povo, restabelecer o templo e a reconstruir a cidade de Jerusalém conforme nos narram Esdras e Neemias; outro exemplo, foi o próprio Cristo, quando nasceu, teve de fugir de Herodes e encontrou abrigo no Egito, sendo acolhido numa terra estranha.

Por isso, é importante a gente orientar as pessoas que estão atravessando uma depressão ou qualquer outro transtorno de ordem psicológica a confiar em Deus e procurar um profissional habilitado, isto é, um psiquiatra para ministrar a medicação e um psicólogo para fazer o acompanhamento psicoterapêutico – existem pessoas que fizeram cursos de psicanálise e abrem consultório, eu não indico nem considero confiáveis. Sugiro sempre procurar um psicólogo devidamente registrado no Conselho Regional de Psicologia.

Em nossos dias, é muito importante que as igrejas tenham clareza desses preconceitos que cercam a depressão (também outras doenças de ordem psicológica), pois, esses preconceitos impedem um tratamento adequado, e isso promove o agravamento da doença, podendo realmente se tornar numa doença espiritual – quando a pessoa duvida de Deus, se revolta ou se sente abandonada por Ele. A melhor forma de ajudar essas pessoas é estimulá-las confiar em Deus e procurar um tratamento adequado e profissional. Quando mais dizemos que ela “não tem fé”, “só precisa de Deus” ou que “depressão coisa do inimigo” pioramos o estado de saúde delas, quando deveríamos orientarmos as pessoas a procurarem o tratamento adequado e assim, muitas vezes, contribuímos para que elas se afastem de Deus e das Igrejas.

Referencia bibliográfica

– Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional. São Paulo: Soc. Bíblica Internacional, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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