Semana da Psicologia Doctum: Processo Criativo e Práticas de Cuidado em Saúde Mental

Hoje estive ministrando o minicurso “Processo Criativo e Práticas de Cuidado em Saúde Mental” na Faculdade Doctum, na Semana de Psicologia. No dia do Psicólogo, tive a oportunidade de compartilhar um pouco da prática que amo com os alunos (e futuros psicólogos), na teoria e na prática.

 

 Assim, a partir de uma oficina terapêutica – envolvendo música, imagens e coração –  discutimos sobre a importância de, como profissionais de psicologia, estarmos verdadeiramente movidos pelo interesse de entrar no mundo (em alguns casos hermético) do sujeito em sofrimento psíquico, para que a partir disso possamos ter a possibilidade de estabelecer com ele uma relação e uma comunicação sensível as suas necessidades e dificuldades… mas acima de tudo, sensível a seu potencial de expansão da vida, a seu potencial criativo, a seu potencial de  cura.

“Tão perto, não importa quão longe

Não poderia ser muito mais vindo do coração

Sempre confiando em quem nós somos…

E nada mais importa”

(Notthing else Matters – Metallica/ Oficina de Música)

Agradeço a coordenação do curso de Psicologia da Doctum pela oportunidade. Obrigada Eduardo Miranda.

Agradeço às alunas que participaram do curso, pela experiência.

Kelly Guimarães Tristão
Psicóloga Junguiana
Doutoranda em Psicologia – UFES

 

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Relações Doentias e Sofrimento Psíquico

Por  Kelly Guimarães Tristão

Nota: Texto produzido com base na palestra “Relacionamentos Doentios e Transtorno Mental”, apresentada na I Jornada Junguiana da Multivix(11/06/2016), com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade

Quando pensamos na temática dessa conversa, antes de mais nada precisamos esclarecer “que tipo de relação estamos nos referindo?” Podemos falar sobre relações parentais – ou com outros membros da família; podemos falar sobre relações amorosas; podemos falar sobre relações com objetos – tais como o próprio trabalho, drogas, comida, algumas atividades que realizamos. E podemos falar de relações consigo mesmo.

Vamos perceber que algumas vezes essas relações se intercruzam, e algumas outras, até se confundem. Então podemos observar, por exemplo, relações amorosas onde o outro é tido como um objeto, ou sobre o outro é direcionado uma projeção da relação parental. Logo, uma relação que se constrói de forma desordenada – seja qual relação for – pode se constituir como uma relação doentia e, podendo ser condutor para a construção de um sintoma, e em alguns casos, ser um dos disparadores para um sofrimento psíquico mais grave, como um transtorno psiquiátrico.

Quando acompanhamos famílias de sujeitos em sofrimento psíquico grave num processo de psicoterapia familiar, por exemplo, percebemos o quanto a dinâmica familiar, ou seja, os relacionamentos que se estabeleceram e se estabelecem entre os membros dessa família encontram-se fragilizados. Por vezes atribui-se ao sujeito em sofrimento psíquico a causa dessa fragilidade, mas quando investigamos mais a fundo, percebemos que a crise do sujeito, trata-se também da crise da família: uma família que já se encontra em sofrimento, uma família que não consegue desenvolver uma comunicação apropriada entre os seus membros, uma família onde relações de poder muitas vezes se sobressaem às relações afetivas, às relações de cuidado. A crise do sujeito muitas vezes é também o sintoma da família, entretanto, em diversas ocasiões a crise do sujeito, é a oportunidade para que uma mudança naquele contexto possa ser realizada. O sujeito está impregnado do contexto social – familiar –  ou seja, ainda que olhemos num primeiro momento somente para o indivíduo, teremos que olhar para o familiar também.

 O indivíduo precisa, sim, ter a possibilidade de aprender a lidar com seu sofrimento, com as questões familiares e com suas próprias questões, mas muitas vezes, essa crise vem falar de uma paralização em um processo do desenvolvimento do sujeito.  Para entender um pouco isso, precisamos compreender, numa visão da Psicologia analítica, um pouco como dá o desenvolvimento psíquico, em especial como se dão as dinâmicas matriarcais e patriarcais no desenvolvimento do EGO, e Erich Neumann nos dá um norte bastante interessante para essa questão (1993).

Sabemos que o tempo de desenvolvimento humano dentro do útero gestacional é relativamente curto para sua capacidade cerebral, em especial para a construção do EGO, especialmente se comparados a outros mamíferos. Assim, poderíamos compreender que após o parto o bebê encontra-se ainda numa fase que Neumann denominou de Fase Uterina, como se a gestação continuasse acontecendo, ainda que fora do útero materno. É próprio dessa fase que todas as experiências vivenciadas pelo bebê sejam contidas por essa unidade mãe-filho. Assim, é como se a totalidade do mundo dessa  criança fosse a própria mãe, por isso não há uma percepção de separação ainda. A essa relação inicial damos o nome de RELAÇÃO PRIMAL, conforme Neumman (1992)

Se a relação construída a partir de confiança, sustentação e amor da mãe, ela permitirá um espaço adequado para o desenvolvimento egóico de forma integral. É preciso considerar, antes de seguirmos, do que estamos falando por “mãe”, e para isso eu vou me apropriar de uma ideia Winnicottiana de “ambiente” (Winnicott, 1983). Temos que entender que quando falamos na relação com o materno, não estamos falando necessariamente de uma mãe. O arquétipo materno, em nossa cultura, usualmente se humaniza na figura da mãe, mas não é exclusiva a ela. Por isso, muitas vezes nos referimos, ao invés de mãe, ao ambiente. Ou seja, aquele que propicia um espaço de desenvolvimento para o sujeito. E podemos questionar se esse ambiente, ou essa mãe foi “suficientemente boa”. Ou seja, se ela ofereceu a ele nutrição, afeto e suporte, mas se ele falhou também…se ele começou a permitir espaços para que esse sujeito não tivesse um excesso de cuidados, sem antes desejar tais cuidados, e consequentemente tivesse que lidar com a própria frustração também.

O desenvolvimento natural do bebê implicaria num aumento gradual da consciência. Inicialmente, esse desenvolvimento se manifesta através das distinções entre sensações do corpo, favorecem a aproximação do indivíduo com a experiências externas a essa ligação primal, que daria início a separação do Ego do inconsciente. (NEUMMAN, 1992).

A medida que esse desenvolvimento do ego vai evoluindo, percebe-se uma distinção da unidade mãe-bebê, balizada pelo dinamismo patriarcal, especialmente a partir dos estabelecimento de limites. A criança, a partir desse momento, pode perceber o ambiente de forma diferenciada de si mesmo, quais seriam os limites do próprio corpo, e isso é o primeiro limite com que o bebê precisa aprender a lidar. Assim, a dinâmica patriarcal oferece ao ego a possibilidade de desenvolvimento de questões relacionadas ao limite, a organização, a direção. (NEUMMAN, 1992)

Tanto no diz respeito ao dinamismo pautado no arquétipo da mãe, como no do pai, o Ego pode atuar de forma passiva ou ativa no que tange à relação com EGO-OUTO. “Enquanto em um primeiro momento sofremos passivamente a experiência de sermos cuidados, protegidos e orientados, em um segundo momento desempenhamos ativamente o papel de cuidar, proteger e orientar. (SILVEIRA FILHO, 2002, p. 52).

“Quando os pais proporcionam à criança uma base de atuações seguras, isso determinará a capacidade da criança para estabelecer, na idade adulta, laços afetivos seguros. Quando os pais frustram ou gratificam em excesso as necessidades arquetípicas básicas para o desenvolvimento, surge uma criança ansiosa, insegura, que vivencia a si mesma como carente de confiança, tímida, inadequada e incapaz. Muitas vezes apresentam dificuldade para manter relações duradouras e, diante de situações de estresse crônico, desenvolvem transtornos de ansiedade, fóbicos e depressivos”.  (LAUREIRO, 2011, p. 208).

O dinamismo matriarcal é regido pelo Arquétipo da Grande Mãe, que se exerce através do desempenho de uma atitude de carinho, cuidado e proteção – relaciona-se com o princípio de preservação e sobrevivência. Um aspecto negativo desse dinamismo seria no caso de uma hipertrofia do materno, o excesso de zelo e tutela, que dificultariam o sujeito a lidar com frustrações, com o que é novo, por não saber como poderia se portar e o que poderia acontecer se a nova relação desse errada. Em contrapartida, a hipotrofia representaria uma ausência de cuidados. Se falamos que primeiramente o indivíduo assume frente ao cuidado pautado no dinamismo uma relação passiva – de filho da Mãe – é necessário que está se estabeleça de maneira adequada para que ele possa estabelecer uma relação ativa com o cuidado – a constelação da Mãe –  seja pelo cuidado com o outro, seja com o cuidado consigo mesmo.

O dinamismo patriarcal é dirigido pelo arquétipo paterno. Como seus aspectos básicos dizem respeito à orientação e organização, tal dinamismo relaciona-se com as regras e leis  Segundo Silveira Filho (2002) isso relaciona-se ao processo adaptativo de socialização. Uma relação consigo mesmo e/ou com o outro nesse sentido poderia ser guiada por um excesso de normas e consequentemente uma cobrança de si mesmo em demasia, no caso de uma hipertrofia do arquétipo paterno por exemplo, ou uma necessidade que a todo momento o outro o guiasse e orientasse, porque em seu desenvolvimento, não foi capaz de aprendê-lo.

Se houve uma dificuldade em uma dessas fases, e consequentemente uma cristalização do desenvolvimento do sujeito, ele pode por exemplo, projetar essa dificuldade no que tange ao dinamismo matriarcal num relacionamento amoroso, desenvolvendo uma relação de dependência daquele sujeito. Um excesso de cobrança em ser amado, ou uma insegurança em relação aos afetos. É claro que não podemos determinar exatamente como será um comportamento nesse sentido, mas podemos ter um norte para pensar em possibilidades diagnósticas quando investigarmos para que esse sintoma tem se instalado na vida do sujeito.

Um exemplo disso, poderia ser o caso de uma anorexia, onde a mãe representou um aspecto materno de maneira imprópria, e simbolicamente podemos perceber no corpo da mulher anorética o sintoma como sendo um retorno a esse aspecto do desenvolvimento que ficou cristalizado. Ela não se cuida, ela precisa ser cuidada de maneira apropriada para a partir daí aprender a cuidar de si próprio. Muitas vezes não admitimos que precisamos ser cuidados (inclusive por nós mesmos), e o inconsciente nos oferece uma chance de vivenciar e reatualizar esse aspecto do desenvolvimento.

Podemos observar um outro exemplo a partir de uma depressão. Sabemos que a depressão apresenta uma gama de sintomas, desde falta de animo, sono em excesso, sentimento de falta de amor, desde sentimento de impotência e culpabilização de si mesmo, agressividade, insônia, entre outros.  Podemos tentar entender esses sintomas por meio da percepção do dinamismo arquetípico. Uma depressão pautada no dinamismo matriarcal, implicaria em uma dificuldade no que tange  “[…] às estratégias afetivas de adaptação, do sentir-se contido, amado, seguro afetivamente e, em consequência, capaz de alcançar um desenvolvimento afetivo-cognitivo adequado às necessidade de cada individuação.”  (LAUREIRO, 2011, p. 208)

O fato de o sujeito ter o desenvolvimento do ego a priori pautado em uma relação desordenada com as figuras maternas e paternas, não significa que isso será estático, ou seja, que falaremos de uma estrutura. Ao contrário, para evitarmos esse equívoco nomeamos dinamismo arquetípico, que pode ser reatualizado em certas etapas da vida do sujeito, por exemplo, num processo terapêutico. O terapeuta pode servir de ambiente que vai potencializar um lugar seguro onde as transformações necessárias ao desenvolvimento daquele sujeito aconteçam. O mesmo podemos dizer de uma instituição, por exemplo, uma instituição de saúde, ou até uma instituição religiosa.

Muitas vezes, o terapeuta ou esse agente terapêutico,  vai fazer as vezes do ambiente para a reatualização do dinamismo materno, por exemplo, sendo para o paciente acolhedor, dando sustentação para suas escolhas, falhando algumas vezes, no sentido de não atender a toda demanda dele. Para isso, o terapeuta precisa perceber as necessidades e dificuldades do sujeito. Uma relação terapêutica pautada numa necessidade de reatualização do dinamismo paterno, pode oferecer um lugar de organização, de guia…tomando o cuidado para não cair na armadilha de dar ao sujeito pronto todo o processo que ele deve seguir. É importante ressaltar, que no processo terapêutico, isso também pode se modificar, de acordo com lugar de desenvolvimento que o paciente se encontra.

Podemos pensar também na relação com o objeto representado por uma psicopatologia bastante comum em nossos dias. O uso de substâncias químicas….ou como chamamos também, o sujeito com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Falamos assim, porque mais importante do que a droga em si, é necessário compreender a relação que se estabelece com essa e com o entorno a que o sujeito em uso de substâncias psicoativas está adstrito. O que o sujeito busca em sua relação com a droga? Qual a relação que ele tem consigo mesmo, qual a relação pautada no dinamismo arquetípico, humanizado nas figuras parentais, e algumas vezes nas relações afetivas?

Um exemplo simples que estamos acostumados a pensar é que a maior dificuldade do dependente de substância estaria na incapacidade de escolha… “eu escolho parar aqui”. Há uma dificuldade com essa organização, com essas regras (características do dinamismo patriarcal), mas há também, o que é menos abordado pois caímos muitas vezes no julgamento moralizante, uma carência de suporte, de afeto – e esse mundo pouco suportável é substituído pelo mundo mais suportável obtido pelo uso da substância …Ao terapeuta cabe auxilia-lo a perceber quais ferramentas são necessárias para transformar esse mundo pouco suportável (também na ausência de suporte e delimitação) em algo que desse mais satisfação, prazer e segurança para continuar a trilhar o seu caminho.

O inconsciente é sábio…ele nos dá essa chance de trilhar caminhos mais criativos e “seguros” para nós mesmos. Mas se não o ouvimos, se não lhe damos atenção, ele fará com que escutemos de qualquer forma…de maneira pouco ou muito dolorida. Então, qual é a relação que estabelecemos com o nosso inconsciente? Qual é a relação que estabelecemos conosco?

Como isso influencia na relação consigo mesmo?

 

REFERÊNCIAS

 

LAUREIRO, M. E. V. (2011). Depressão na Visão Analítica 203 In: Payá, R. Intercâmbio das Psicoterapias. São Paulo: Rocca.

 

Moraes, F. F. (2015).  Algumas Considerações sobre o Eixo Ego-Self. In: Jung no Espírito Santo. Disponível em: http://www.psicologiaanalitica.com/algumas-consideraes-sobre-o-eixo-ego-self.

Neumann, E. (1992). A Criança. São Paulo: Cultrix.

Silveira Filho, D. X. (2002). Drogas: Uma Compreensão Psicodinâmica das Farmacodependências.  São Paulo: Casa do Psicólogo.

Winnicott, D. (1983). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas.

 

Acompanhamento Terapêutico na abordagem Junguiana : Símbolos e Reflexões

(Publicado no site em 05 de julho de 2013)

Kelly Guimarães Tristão

Psicologa Clĩnica Junguiana – CRP 16/1498

Mestre em Psicologia UFES

Especialista em Teoria e Prática Junguiana- UVA/RJ

Especialista em Psicologia Clĩnica e da Família -Saberes/ES

Este texto corresponde a uma parte da monografia “Acompanhamento Terapeutico a pacientes psiquiátricos na abordagem junguiana” apresentada ao Programa de Pós-Graduação — Especialização lato sensu em “Teoria e Prática Junguiana” da Universidade Veiga de Almeida – RJ, como requisito obrigatório para a obtenção do certificado, em 2008, sob a orientação da Prof. Carla Maria Portella Bezerra.

Neste fragmento apresentamos o capitulo 3 e a Conclusão.

“ 3. O SIMBOLISMO DO ANDAR

3.1. A experiência do andar

Andar é uma experiência humana por excelência. O andar se configura como um dos aspectos fundamentais no processo de “torna-se homem”. A postura ereta foi uma adaptação necessária ao bipedismo (o movimento de andar sobre os dois pés), que possibilitou que o homem “liberasse” suas mãos para outras ações, diferenciando-o mais dos demais animais.

A aquisição do andar bípede é um marco em nossa espécie, que ao longo de nossa evolução foi sendo notada pelas migrações que levaram nossa espécie a se espalhar por todo mundo.

O andar bípede imprimiu em nossa constituição essa tendência ao movimento ereto, essa característica é percebida como o reflexo de marcha na criança. Talvez pudéssemos dizer que a experiência do andar

[…] arquétipos que poderíamos chamar de arquétipos de transformação. Estes não são personalidades, mas sim situações típicas, lugares, meios, caminhos, etc, simbolizando cada qual um tipo de transformação. Tal como as personalidades, estes arquétipos também são símbolos verdadeiros e genuínos que não podemos interpretar exaustivamente, nem como σηµεϊα (sinais), nem como alegorias. São símbolos genuínos na medida em que eles são ambíguos, cheios de pressentimentos e, em última análise, inesgotáveis (JUNG, 2002, p. 47).

Esses arquétipos de transformação possibilitam a passagem da energia de uma forma de manifestação para a outra. Isto é, esses arquetípicos possibilitam que a energia psíquica retida em um aspecto da vida psíquica seja redistribuída, favorecendo a mudança de atitude da consciência. Tomemos como exemplo um indivíduo com fixação por trabalho ou dinheiro; em momentos como nascimentos, morte ou mesmo numa conversão religiosa pode ser constelado nessa pessoa tais arquétipos de transformação, possibilitando que esse indivíduo tenha sua energia deslocada de modo que possa equilibrar seu foco de atenção, isto é, dividindo seu interesse entre o trabalho, família ou espiritualidade.

A constelação ou evocação dos arquétipos não ocorre de forma espontânea por si mesma,

[…] a evocação dos arquétipos e a correlativa liberação de desenvolvimentos psíquicos latentes não são processos apenas intrapsíquicos; eles ocorrem num campo arquetípico que abrange o dentro e o fora, e que inclui sempre, e pressupõe, um estímulo interior – um fator proveniente do mundo. […] Quando dizemos que um arquétipo é “ligado” por evocação, queremos dizer que a aptidão arquetípica da psique precisa ser liberada por um fator correspondente no mundo (NEUMANN, 1991, p.68).

A evocação dos arquétipos ocorre pela correspondência existente entre o arquétipo e o fenômeno que o constelará. Dessa forma, sua ativação se dá por um elemento que é familiar, isto é, que lhe é próprio. Por exemplo, o arquétipo materno é ativado ou evocado pela presença de uma criança ou de uma atitude infantil. A imagem de criança ou da atitude infantil são elementos presentes em toda história humana – por mais que o conceito de infância seja um fenômeno cultural, a criança em si subjaz a todo processo cultural. O mundo natural é o mundo dos arquétipos, é nele que os arquétipos encontram sua atualização e se mantém vivos, pois as mesmas situações que levaram à formação dos arquétipos estão presentes e se impõem ao homem contemporâneo. A forma de manifestação mudou, mas sua essência é a mesma.

Os arquétipos, de forma geral, não são ativados isoladamente, mas possuem uma certa inter-relação e muitas vezes são constelados como um sistema. Isto é, quando frente a uma situação arquetípica há uma tendência à constelação de arquétipos correspondentes. Assim, numa dada situação, podem ser ativados um ou mais arquétipos que possuam certa identidade, a tal ponto de se ativarem mutuamente formando um sistema arquetípico.

Guggenbuhl-Craig em seu livro Abuso do Poder, aponta para o fato de os arquétipos, mesmo guardando uma identidade que nos permite, de forma geral, compreende-los isoladamente em sua unidade, serem na verdade pólos de um mesmo arquétipo. Segundo ele,

Talvez não devêssemos falar de um arquétipo materno, paterno ou do filho, mas de um arquétipo mãe-filho ou pai-filho. Levando a diante esse raciocínio, eu sugeriria que não há um arquétipo especial de terapeuta ou paciente. Ambos são aspectos da mesma coisa. Quando uma pessoa fica doente o arquétipo de terapeuta-paciente se constela. O enfermo procura um terapeuta exterior, mas ao mesmo tempo se constela o terapeuta intrapsíquico (GUGGENBUHL-CRAIG, 1979, p. 98).

Dessa forma, Guggenbühl-Craig aponta para a necessidade de compreendermos os arquétipos em seu eixo de constelação, não apenas em sua polaridade aparente. Uma diferenciação possível que poderíamos fazer entre o sistema arquetípico que nos referimos e a proposta de Guggenbuhl-Craig, é de que a compreensão deste autor, que utilizaremos mais adiante, contempla sobretudo o que Jung chamou de “arquétipos personalidade”, e ao que Neumann também chama de “arquétipos humanos” (NEUMANN, 1991, p.68-70) que segundo Neumann, tem como fator constelador outro ser humano, ao passo que os arquétipos de transformação estão intimamente ligados ao mundo exterior.

Essa diferenciação é necessária para compreendermos que a dinâmica arquetípica constelada no acompanhamento terapêutico compreende tanto os arquétipos de transformação, relacionados ao movimento do andar e do encontro com o mundo, quanto como os arquétipos humanos constelados pela relação com o acompanhante terapêutico. São dois processos complementares que se desenrolam durante o acompanhamento, a relação Eu-Mundo e Eu-Outro.

A dinâmica do arquétipo do andar é melhor compreendida quando podemos pensa-los relacionados a outros arquétipos, como por exemplo, o do caminho. Como imagem arquetípica do caminho, podemos pensar na estrada que se perde no horizonte, na rua, nas trilhas nas florestas, nos trilhos do trem. Esse arquétipo contempla, em sua essência, o “processo”, o meio necessário para a transformação. Seja numa psicoterapia, numa experiência religiosa o caminho se manifesta como o processo que está em curso ou que deve ser seguido. Dependendo como essa imagem arquetípica constele, seja no sonho ou na imaginação ativa, poderemos ter uma noção do processo que se desenvolve no indivíduo. Por exemplo, o caminho numa montanha ou que leva a uma montanha, pode estar vinculado a um processo de desenvolvimento da espiritualidade; o caminho que segue por florestas ou por planícies pode estar relacionado com uma jornada interior; quando pensamos na imagem do caminho que leva a povoados ou cidades, ou mesmo a rua podemos compreender como a necessidade do encontro com o outro, de socialização.

O andar enquanto imagem de transformação é a possibilidade de movimento da energia psíquica de forma ordenada. O sistema arquetípico constelado andar-caminho-guia possibilita o estabelecimento de laços afetivos mais saudáveis. O processo gerado pelo andar no Acompanhamento Terapêutico é um símbolo importante para o paciente psicótico lidar com o desconhecido – isto é, inconsciente – tanto interno quanto externo. Por isso que os antigos alquimistas diziam que Habentibus Symbolum facilis est transitus (Havendo o símbolo, a travessia é fácil)

3.2. O simbolismo do andar junto

Todo processo terapêutico é um acompanhamento, um andar junto. É interessante pensar que a palavra terapia, vem do grego therapéia, que pode significa assistir, cuidar, tratar, em outras palavras, estar junto. O Acompanhamento Terapêutico torna literal o “acompanhar” o cliente, em especial, possibilitando que ele enfrente o mundo de forma positiva.

É pelos espaços do cotidiano do acompanhado, que este e o acompanhante vão tecendo, produzindo em conjunto, revendo limitações, fortalecendo vínculos e reavaliando o pessimismo acerca da doença. O fato de ir para a rua implica em se defrontar com as questões a cerca da loucura e suas implicações socioculturais.

Estar na vida, […] passear no parque, enfim, circular pelo mundo são anseios manifestos quando o paciente começa a perder a paciência, e o que se torna patente é o quanto a sociedade se acha pouco preparada para receber o indivíduo que percorreu os lugares insólitos da loucura (MOTTA, 1997, p.33).

O acompanhar, andar junto, o estar com o paciente é o processo de favorecer o desenvolvimento do indivíduo. O terapeuta não é o responsável, mas ele protege, acolhe e estimula o desenvolvimento do individuo. Muitas vezes, no senso comum, usa-se o termo “cura” para representar o processo de desenvolvimento psíquico ou superação de uma neurose. Nesse sentido, o terapeuta não cura, mas, “[…] ele ativa o processo de cura no inconsciente do paciente” (STEINBERG, 1990, p. 32). No caso do paciente psicótico, não falamos de cura, mas de uma adaptação ao seu universo que compreende tanto o mundo interior quanto exterior, nesses casos o terapeuta é aquele que ajuda a superar a desordem, a restabelecer o equilíbrio psíquico por mais tênue que seja, para que assim esse indivíduo tenha qualidade de vida.

O acompanhante terapêutico está junto com o paciente, experimentando aquelas situações em que este costuma se sentir coagido, testado nos próprios limites, e dessa proximidade nasce a possibilidade de reagir de maneira diferente, de se impor como sujeito da própria história.

Assim como pensamos no andar como um processo arquetípico, devemos também considerar o encontro ou o “andar junto” como um processo arquetípico. Conforme dissemos acima, os arquétipos humanos dependem da relação humana para serem constelados. A relação humana é fundamental desde os primeiros momentos de vida do indivíduo que vão ser importantes na estruturação do Ego. É no encontro da mãe com a criança que o arquétipo do Self se constela (a partir do Self corporal) -, possibilitando o desenvolvimento psíquico. As referencias arquetípicas necessárias ao desenvolvimento do ego estão vinculadas aos arquétipos humanos, como o materno, paterno, fratria. “O ser humano não-relacionado carece de totalidade, pois ele só pode obter totalidade através da alma, e a alma não pode existir sem o seu outro lado, que é sempre encontrado no outro”. (JUNG apud STEINBERG, 1990, p. 15)

O andar junto ou acompanhar o cliente é uma reatualização do processo de constituição do Ego. A totalidade psíquica que se constela no encontro vai possibilitar uma reorganização psíquica. Assim, como o Self materno propicia a constelação do Self da criança, possibilitando o desenvolvimento do Ego. A relação terapêutica possibilita uma reorganização do ego, por poder constelar em certes momentos as mesmas energias arquetípicas que formaram e estruturam o Ego. No caso da neurose, essas energias se manifestam mais claramente nos símbolosconstelados na transferência. Na psicose a fragilidade do Ego faz com que esse processo seja sempre parcial, a transferência é uma tentativa de estabelecer contato com o mundo exterior e resistir ao impulso do inconsciente.

Todo encontro humano pode ser compreendido pela esfera arquetípica. Devemos, assim, nos perguntar “em qual o acompanhante terapêutico reviveria?” ou “sobre qual mito repousaria a esta atividade terapêutica?” Encontramos as principais características que nos auxiliam a compreender a função terapêutica do acompanhante terapêutico mito de Chiron.

3.3. Por que falar de mito?

Para Eliade (1992) os mitos relatam não somente a origem do mundo, mas também acontecimentos primeiros que marcam a transformação do homem naquilo que ele é. O mito é, pois, “[…] uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares” (1992, p. 34), que trata uma idéia sagrada que teve um lugar no “tempo fabuloso dos começos”.

As histórias arquetípicas, segundo Jung, se originam nas experiências individuais – em sua maioria numinosas – a partir da constelação de algum conteúdo inconsciente em sonhos ou alucinações. Por experiências Numinosas (do latim numem – deus) entendemos experiência “provocadas pela revelação de um aspecto do poder divino” (ELIADE, 1992. p. 24).

Os mitos representam uma forma simples de manifestação arquetípica, e têm um grande valor na busca científica do inconsciente, visto que fornecem pistas claras que tornam mais bem compreensível os processos e estruturas básicas da psique coletiva. Os arquétipos, segundo Jung, não poderiam ser traduzidos em conteúdos teóricos, e para entendê-los melhor, seria necessário um estudo comparativo das imagens arquetípicas que emergem do inconsciente coletivo, e suas associações tomando por base as experiências psicológicas.

Os significados dos mitos, bem como o dos contos de fada estariam contidos em uma “[…] totalidade dos temas que ligam o fio da história” (VON FRANZ, 1990, p. 10); contudo, eles não podem se expressar por si mesmo, assim, um evento conceituado pode se manifestar através dos símbolos e ser “decifrado” a partir deles.

Os mitos procuram representar somente um fato psíquico, que por si só, é tão complexo e proporcionam reflexos diversos de fases da experiência humana. O arquétipo seria um impulso psíquico específico que produziria efeitos em uma direção apenas, ao mesmo tempo em que abarcaria várias direções. Assim, é preciso “escavar” a imagem arquetípica até chegar a uma certa clareza, para isso, há que se aproximar ao máximo dessa especificidade.

Jung procurava apontar o valor energético relacionado às imagens arquetípicas; segundo Von Franz (1990, p. 19):

[…] Uma imagem arquetípica não é somente um pensamento padrão (como um pensamento padrão ela está interligada com todos os outros pensamentos); mas ela é, também, uma experiência emocional – a experiência emocional de um individuo. Só se essa imagem arquetípica tiver um valor emocional e afetivo para o indivíduo ela poderá ter vida e significação.

O mito é um integrante de valor à civilização humana; é uma realidade viva,”[…] não é, absolutamente, uma teoria abstrata ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria pratica” (MALINOW SKI apud BRANDÃO, 2004b, p. 41)

Assim, pensando a psicose como um episódio onde símbolos deveriam ser integrados àquela individualidade, pode-se pensar um paralelo do Acompanhamento Terapêutico como uma tentativa de reorganização da psique, à mitologia a partir do mito grego de Chirón, o “curador ferido” e mestre-guia de muitos heróis O Mito de Chíron.

3.4. O Mito de Chíron

Chíron, segundo Penna (2005), se apresenta sempre como um personagem secundário nas histórias das figuras mais ilustres. Nos textos de Brandão, por exemplo, Chíron é citado várias vezes, sempre acompanhando divindades e heróis.

O nome Chíron, possivelmente, tem sua origem no vocábulo grego Kheíron, uma forma abreviada de Kheirurgós (cirurgião), que quer dizer aquele que trabalha ou age com as próprias mãos. (BRANDÃO, 2000).

Para a mitologia grega, Chíron era filho de Crono e Fílira, era, assim, um imortal, meio-irmão de Zeus. Em uma das versões para seu nascimento, apontada por Brandão (2000), Crono, temendo os ciúmes de Reia, se transformou em cavalo para possuir Filira, assim nasceu o centauro Chiron, numa combinação de cavalo com um corpo de homem.

Apesar de ser um centauro, Chíron era diferente dos demais que, exceto por Folo, eram “violentos, sanguinários e luxuriosos, habitavam montanhas e florestas, alimentando-se de carne crua” (BRANDÃO, 1991, p. 199). Devido, sua sensibilidade e relação amistosa com os heróis e com os deuses, Chíron foi conhecido como “[…] o mais justo dos centauros” (BRANDÃO, 2004b, p. 26).

É importante notarmos que a peculiaridade de sua natureza, era na verdade tripla. “Esta tripla natureza (animal-humana-divina) simboliza a unidade dos três elementos, representando a força arquetípica que une e integra as polaridades” (PENNA, 2005, p. 159).

Tudo em Chíron, o médico divino e ferido […] o faz parecer a mais contraditória figura de toda a mitologia grega. Apesar de ser um deus grego, sofre de uma ferida incurável. Além disso, a sua figura combina o aspecto animal com o apolíneo, pois apesar do seu corpo de cavalo – configuração pela qual são conhecidos os centauros, criaturas da natureza, fecundos e destrutivos – é ele quem instrui os heróis (KERÉNYl apud GROESBECK, 1983, p. 74).

Chíron foi o tutor de vários heróis, dentre eles Jasão, Hercules, Castor, Pólux, Asclépio e Aquiles, ensinando não apenas métodos de sobrevivência, mas valores culturais e éticos. Segundo Brandão (2004b) sua função de maior nobreza e indispensável sobremaneira aos heróis era a de permitir passar pelos ritos iniciáticos, outorgando-lhes “[…] imprescindível indumentária espiritual, para que pudessem enfrentar a todos e quaisquer monstros.” (BRANDÃO, 2004, p. 27) – internos e externos. Sobretudo, sua função era conduzir os heróis ao destino deles, a encontrarem sua verdadeira potência.

Das habilidades de Chíron, a de curar é a mais comentada e conhecia, tendo em vista seu importante pupilo Asclépio, deus da medicina. Contudo, são esquecidos atributos que foram importantes na formação de outros heróis. As artes de combate, estratégia, diplomacia, música certamente faziam parte dos conhecimentos que possuía e que passou para seus alunos. Por outro lado, ser compreendidas a paciência, persistência, coragem, justiça que são observadas nas ações dos heróis.

Chíron esteve sempre associado aos heróis, talvez poderíamos compreende-lo também como um herói.

Etimológicamente, ηρ ως (héros) talvez pudesse se aproximar do indo-europeu servā, da raiz ser-, de que provém o avéstico haurvaiti, “ele guarda” e do latim seruāvre, “conservar, defender, guardar, velar sobre, ser útil” donde herói seria ‘o guardião, o defensor, o que nasceu para servir’ (BRANDÃO, 2005, p. 15).

Chíron é o melhor modelo mítico de herói, isto é, daquele que nasceu para servir. Pois, seu trabalho é abrir os caminhos para as gerações futuras. Encaminhar cada um de forma que pudessem encontrar o seu destino de forma digna. A história de Chíron possui um aspecto trágico. Segundo a narrativa mítica, quando Hércules ia em busca do javali Erimanto, ele passou pela região de Foloe, onde vivia o Centauro Folo, que o convidou para se hospedar em sua residência. Após a refeição, Heracles, solicitou vinho a Folo que o concedeu,

[…] Os centauros, sentindo o odor do licor de Baco, armados de rochedos, árvores e troncos avançaram contra Folo e seu hóspede. Na refrega, Heracles matou dez dos irmãos de seu hospedeiro e perseguiu os demais até o cabo Mália, onde o Centuro Élato, tendo se refugiado junto Quirão, foi ferido por uma flecha envenenada de Heracles, que, sem desejar, atingiu igualmente o grande educador dos heróis, provocando-lhe um ferimento incurável (BRANDÃO, 1991, p.530).

No mito de Chíron, este sofre dores dilacerantes que o leva a trocar sua imortalidade por Prometeu, que estava preso no rochedo, por meio desta troca, Chíron pode enfim morrer. Zeus, compadecido com seu meio-irmão, o imortaliza nas estrelas, formando a constelação de Sagitário.

A ferida incurável do mestre das curas é um dos temas mais comentados do mito de Chíron, por constelar um tema arquetípico “a ferida divina” no “curador divino”. O arquétipo do “curador-ferido” é um componente fundamental para o processo terapêutico. Que durante o processo terapêutico se constela tanto no cliente quanto no terapeuta.

Guggenbühl-Craig sugere que existe um arquétipo”médico/paciente” que é ativado todas as vezes que uma pessoa fica doente. O doente procura um médico ou doutor externo, mas o fator intra-psíquico, ou “fator curador”, ou ainda o “médico interior” é também mobilizado. Mesmo o médico externo sendo muito competente, as feridas e doenças não poderão ser curadas se não houver a ação do ‘médico interior’ […] (Basta lembrar o grande número de pessoas que ainda morre de pneumonia, muito embora a pneumonia seja uma doença curável.) É freqüente ouvirmos explicações do tipo: “sua resistência interna cedeu” ou “ ele não estava querendo melhorar”. De um ponto de vista arquetípico, era o médico interior que não estava funcionando (GROESBECK, 1983 p. 77).

No cliente a constelação desse arquétipo é caracterizada pela tendência a reordenação psíquica ou uma predisposição psicossomática ao procedimento terapêutico. Um procedimento terapêutico é a busca pelo “fator curador” inerente ao indivíduo. Contudo, este efeito do “fator curador” ou esse “médico interior” depende da disposição da consciência na relação com o inconsciente. E, talvez seja esta a grande questão das terapias: como possibilitar que a consciência tenha um contato transformador com o do pólo curador deste arquétipo constelado no inconsciente.

Podemos compreender a constelação deste arquétipo como o movimento de reorganização inconsciente para suprir as deficiências da relação com a consciência, podendo ser acompanhado pela constelação de outros arquétipos, conforme já discutimos.

No terapeuta essa constelação tende a se manifestar por uma disposição inconsciente de perceber o cliente, por meio das “feridas” do terapeuta. É uma forma de abertura para um encontro em cliente e terapeuta, é por onde se instala as relações de contratransferência. Por outro lado, esse arquétipo está ligado a faculdade de mestria, a paciência e atenção que o terapeuta deve ter ao acompanhar o desenvolvimento do cliente, de modo a não prejudicar desenvolvimento do processo mesmo.

3.5. O Tema do curador-ferido e as Relações com o Acompanhamento Terapêutico

O tema do curador ferido é importante para pensar a relação do acompanhante terapêutico com o processo do paciente. A mestria conforme comentamos no mito de Chíron é um elemento fundamental, pois é justamente o que é exigido do acompanhante, isto é, a paciência, o cuidado, o estímulo e o encorajamento do paciente para que este possa encontrar o seu lugar. Por outro lado, a ferida pode se situar tanto na sua história pessoal quanto na ferida arquetípica, a ferida do curador que está sempre ao lado, e não pode ser o agente da cura, pois a cura é um processo pessoal.

Essa ferida da impossibilidade é uma ferida arquetípica no narcisismo natural de cada um de nós. O terapeuta apenas conduz, estimula e testemunha o processo do cliente. Se o terapeuta se identifica com a “cura do cliente” o terapeuta se torna vitima de seu próprio narcisismo. A ferida do curador é a marca da humildade necessária ao encontro criativo. A ferida é a possibilidade de cura, tanto para o cliente quanto do terapeuta.

Curar, em alemão vem de Heilen, cuja raiz provém de Heilag – total, completo (GUGGENBUHL-CRAIG, 1983, p. 98). A palavra Saúde, tem a mesma origem, por tanto, quando falamos de cura para nossos pacientes, falamos de se tornarem completos. Segundo Jung (1999b) cura quer dizer transformação, cuja proposta da psicologia analítica é a transformação da personalidade como um todo, possibilitando que o paciente se torne aquilo que de fato é.

Penna aponta que o papel do analista junguiano é “[…] fazer junto com o paciente, não se trata de fazer para ou fazer pelo paciente” (2005, p. 152). Desta forma, cabe ao terapeuta estar junto com o paciente, envolvendo-se integralmente na tarefa de compreensão de suas feridas, buscando, assim, possibilidades de transformação.

A transformação que propomos acontece a partir da reunião da polaridade oposta à que foi colocada em ênfase, reativando a possibilidades de promoção de cura encontradas apagadas na psique do paciente.

Para que o cliente restabeleça essa experiência integral da imagem arquetípica do curador, é preciso que o terapeuta mostre-lhe o caminho. Mesmo se o médico externo for muito competente, as doenças e feridas só poderão ser curadas mediante a ação do medico interno. Assim, não é o terapeuta quem cura o paciente, mas a relação de vínculo possibilitará que seja ativado neste o processo de cura; não significa que as feridas serão fechadas, mas que o individuo terá o ego fortalecido a fim de aprender a conviver com as cicatrizes deixadas, se responsabilizando pelo próprio cuidado, sem colocar a culpa nas outras pessoas.

No que tange à clínica do acompanhamento terapêutico, é preciso que o paciente em sofrimento psicológico aprenda a lidar com suas feridas, e isso se dará a partir do contato com o mundo externo, que outrora fora lhe “arrancado”.

É importante notar outros pontos de intercessão do mito com essa clínica; pois o profissional de Acompanhamento Terapêutico, assim como Chíron, atua sempre como coadjuvante na construção da história do acompanhado; sendo colocado, por diversas vezes, na função de mestria a fim de permitir que o paciente encontre o próprio destino. Através da re-conexão dos aspectos inconscientes e o Ego – tal como a figura de Chíron, homem-cavalo.

CONCLUSÃO

A clínica do Acompanhamento Terapêutico é um importante avanço no tratamento de pacientes psiquiátricos por possibilitar um reencontro com a vida comum e a dignidade. O acompanhante terapêutico fornece ao paciente uma referência corporal e psíquica possibilitando ao mesmo tempo interagir com espaços que lhe foram interditados seja pela doença, seja pela incompreensão e preconceito que a sociedade ainda apresenta em relação ao paciente psiquiátrico.

O Acompanhamento Terapêutico é, sobretudo, uma busca pelo potencial criativo que cada indivíduo possui de recriar suas relações com o meio e consigo mesmo. A doença mental se impõe como um problema em nossa sociedade, justamente, por nossa incapacidade de olhar através dela e perceber que a doença mental é um estado do ser, uma forma diferente de se fazer no mundo.

C.G. Jung foi um dos primeiros psiquiatras a olhar através dos invólucros pessoais da doença mental. Em seus anos de atividade no Hospital Burgholzli, Jung teve contato com o universo de imagens que os pacientes lhe apresentavam por meios de delírios e sonhos. A fragilidade egóica desses pacientes impedia que o contato com essas imagens fosse restaurador. O contato com a psicose foi um ingrediente fundamental para o desenvolvimento posterior da Psicologia Analítica, pois foi justamente olhando através da psicose (e não para a psicose) que Jung percebeu que há uma dinâmica inconsciente que se desenrola para além do caos e da fragilidade pessoal.

A psicologia junguiana com sua perspectiva energética nos permite compreender a dinâmica do adoecimento psíquico não apenas por sua causa, mas por sua finalidade, isto é, o sentido do sintoma e do delírio. Para Jung, o adoecimento é um processo que visa restabelecer a saúde psíquica. No caso da neurose o sintoma busca reorientar o ego.

No caso do paciente psicótico, existe uma energia muito forte no âmbito do inconsciente, provocando uma rigidez na dinâmica energética do psiquismo, levando a invasão da consciência. Nesse processo, o ego é tomado pelo inconsciente, tornando-o cada vez mais frágil. Com essa fragilidade, o ego se torna inseguro, tanto no que diz respeito aos conteúdos conscientes quanto inconscientes. Assim, não sendo possível agir diretamente na consciência, a prática com psicóticos indica acessar o inconsciente através de meios objetivos, como o andar junto no caso do Acompanhamento Terapêutico. Lidando com a realidade, o paciente traz pra fora o que está preso no inconsciente, diminuindo sua intensidade e permitindo que a dinâmica psíquica se restabeleça. O Acompanhamento Terapêutico é um importante meio para propiciar a aderência do ego à realidade, visto que, o sujeito passando a sentir-se parte do meio, e interferindo neste, pode atingir uma estabilidade maior, diminuindo a necessidade e freqüência de internações.

Por outro lado, a psicologia junguiana com o conceito de arquétipo nos oferece um modelo de compreensão do psiquismo que nos leva para além da esfera pessoal. Os arquétipos, padrões temáticos de organização psíquica, são estruturas psíquicas coletivas que se fazem apresentar como um potencial criativo e saudável, mas no caso de pacientes psicóticos é necessário um suporte para que a consciência possa se valer positivamente dessa possibilidade.

Ao pensarmos a referência arquetípica para o processo de Acompanhamento Terapêutico, podemos observar que o caminhar como forma de reorientação psíquica está presente no homem desde temos imemoriais até os dias de hoje, como as romarias e peregrinações. Isso é um fato importante pois os arquétipos são ativados por analogia ou correspondência, isto é, é necessário que haja uma situação correspondente ao arquétipo para ativa-lo, assim podemos considerar que o processo de Acompanhamento Terapêutico, o andar junto, é um processo que ecoa no inconsciente possibilitando uma passagem de energia para a consciência de forma sadia, por estar vinculado a objetos reais.

Do mesmo modo, o Acompanhamento Terapêutico possui um respaldo no elemento arquetípico; pois o ato de caminhar vai favorecer a aderência do indivíduo, por conta da simbolização do Acompanhamento Terapêutico. Tomamos como referência mítica o personagem centauro Chíron. Este frequentemente associado com o padrão arquetípica do terapeuta, também corresponde à figura do acompanhante, pois Chíron não era apenas um médico (curador), mas um mestre que guiava seus discípulos (os heróis gregos) por diferentes artes, dando-lhes segurança e conhecimento para que pudessem perseguir o seu destino.

Assim, a concepção de Jung acerca da psique possibilita um olhar sadio, objetivando não a doença, mas a pessoa que está doente. Os estranhos conteúdos e delírios e movimentos são, muitas vezes, reduzidos e rotulados de “loucura” como sendo um processo desprovido de sentido. Para o olhar junguiano, essa loucura é uma expressão legitima da psique, isto é, da própria vida.

A palavra loucura em alemão deriva de Wahn, que possui a mesma raiz que Wähnen, que significa “supor” ou “fantasiar”. Assim, loucura seria a palavra alemã para fantasia. Segundo o analista junguiano Heinrich Fierz, para a sociedade, reconhecer a loucura significa conhecer a fantasia, a fantasia criativa.

Significaria que o encontro com a fantasia criativa não é incumbência de uns poucos escolhidos, mas sim que todos teriam essa possibilidade e responsabilidade. Sendo esse o caso, seria ideal que não descartássemos irrefletida e negligenciada algo como absurdo, simplesmente porque não o compreendemos. A aceitação da loucura pela sociedade pode nos ajudar a enxergar o elemento criativo na comunidade e a permitir que ele se desenvolva (FIERZ, 1977, p. 231).

A “empreitada” de acompanhar esse indivíduo em sofrimento a estar atravessando o período difícil que vive, ultrapassa o reconhecimento do quadro psiquiátrico por si só. Trata-se, sobretudo, de trabalhar em real parceria com esse sujeito, para que este reconheça que seu estado encerra um certo significado e, por isso, seria imprescindível ser aceito como parte relevante de sua vida, para então poder buscar as metas necessárias para que seu caminho prossiga. Entretanto, de que forma isso se dará, poderá ser decidido à luz dos desdobramentos posteriores. […] toda a vida da pessoa atinge um ponto crítico. É preciso entender que Uma transformação fundamental da personalidade está sendo preparada. (FIERZ,1977,p. 239)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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