Relações Doentias e Sofrimento Psíquico

Por  Kelly Guimarães Tristão

Nota: Texto produzido com base na palestra “Relacionamentos Doentios e Transtorno Mental”, apresentada na I Jornada Junguiana da Multivix(11/06/2016), com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade

Quando pensamos na temática dessa conversa, antes de mais nada precisamos esclarecer “que tipo de relação estamos nos referindo?” Podemos falar sobre relações parentais – ou com outros membros da família; podemos falar sobre relações amorosas; podemos falar sobre relações com objetos – tais como o próprio trabalho, drogas, comida, algumas atividades que realizamos. E podemos falar de relações consigo mesmo.

Vamos perceber que algumas vezes essas relações se intercruzam, e algumas outras, até se confundem. Então podemos observar, por exemplo, relações amorosas onde o outro é tido como um objeto, ou sobre o outro é direcionado uma projeção da relação parental. Logo, uma relação que se constrói de forma desordenada – seja qual relação for – pode se constituir como uma relação doentia e, podendo ser condutor para a construção de um sintoma, e em alguns casos, ser um dos disparadores para um sofrimento psíquico mais grave, como um transtorno psiquiátrico.

Quando acompanhamos famílias de sujeitos em sofrimento psíquico grave num processo de psicoterapia familiar, por exemplo, percebemos o quanto a dinâmica familiar, ou seja, os relacionamentos que se estabeleceram e se estabelecem entre os membros dessa família encontram-se fragilizados. Por vezes atribui-se ao sujeito em sofrimento psíquico a causa dessa fragilidade, mas quando investigamos mais a fundo, percebemos que a crise do sujeito, trata-se também da crise da família: uma família que já se encontra em sofrimento, uma família que não consegue desenvolver uma comunicação apropriada entre os seus membros, uma família onde relações de poder muitas vezes se sobressaem às relações afetivas, às relações de cuidado. A crise do sujeito muitas vezes é também o sintoma da família, entretanto, em diversas ocasiões a crise do sujeito, é a oportunidade para que uma mudança naquele contexto possa ser realizada. O sujeito está impregnado do contexto social – familiar –  ou seja, ainda que olhemos num primeiro momento somente para o indivíduo, teremos que olhar para o familiar também.

 O indivíduo precisa, sim, ter a possibilidade de aprender a lidar com seu sofrimento, com as questões familiares e com suas próprias questões, mas muitas vezes, essa crise vem falar de uma paralização em um processo do desenvolvimento do sujeito.  Para entender um pouco isso, precisamos compreender, numa visão da Psicologia analítica, um pouco como dá o desenvolvimento psíquico, em especial como se dão as dinâmicas matriarcais e patriarcais no desenvolvimento do EGO, e Erich Neumann nos dá um norte bastante interessante para essa questão (1993).

Sabemos que o tempo de desenvolvimento humano dentro do útero gestacional é relativamente curto para sua capacidade cerebral, em especial para a construção do EGO, especialmente se comparados a outros mamíferos. Assim, poderíamos compreender que após o parto o bebê encontra-se ainda numa fase que Neumann denominou de Fase Uterina, como se a gestação continuasse acontecendo, ainda que fora do útero materno. É próprio dessa fase que todas as experiências vivenciadas pelo bebê sejam contidas por essa unidade mãe-filho. Assim, é como se a totalidade do mundo dessa  criança fosse a própria mãe, por isso não há uma percepção de separação ainda. A essa relação inicial damos o nome de RELAÇÃO PRIMAL, conforme Neumman (1992)

Se a relação construída a partir de confiança, sustentação e amor da mãe, ela permitirá um espaço adequado para o desenvolvimento egóico de forma integral. É preciso considerar, antes de seguirmos, do que estamos falando por “mãe”, e para isso eu vou me apropriar de uma ideia Winnicottiana de “ambiente” (Winnicott, 1983). Temos que entender que quando falamos na relação com o materno, não estamos falando necessariamente de uma mãe. O arquétipo materno, em nossa cultura, usualmente se humaniza na figura da mãe, mas não é exclusiva a ela. Por isso, muitas vezes nos referimos, ao invés de mãe, ao ambiente. Ou seja, aquele que propicia um espaço de desenvolvimento para o sujeito. E podemos questionar se esse ambiente, ou essa mãe foi “suficientemente boa”. Ou seja, se ela ofereceu a ele nutrição, afeto e suporte, mas se ele falhou também…se ele começou a permitir espaços para que esse sujeito não tivesse um excesso de cuidados, sem antes desejar tais cuidados, e consequentemente tivesse que lidar com a própria frustração também.

O desenvolvimento natural do bebê implicaria num aumento gradual da consciência. Inicialmente, esse desenvolvimento se manifesta através das distinções entre sensações do corpo, favorecem a aproximação do indivíduo com a experiências externas a essa ligação primal, que daria início a separação do Ego do inconsciente. (NEUMMAN, 1992).

A medida que esse desenvolvimento do ego vai evoluindo, percebe-se uma distinção da unidade mãe-bebê, balizada pelo dinamismo patriarcal, especialmente a partir dos estabelecimento de limites. A criança, a partir desse momento, pode perceber o ambiente de forma diferenciada de si mesmo, quais seriam os limites do próprio corpo, e isso é o primeiro limite com que o bebê precisa aprender a lidar. Assim, a dinâmica patriarcal oferece ao ego a possibilidade de desenvolvimento de questões relacionadas ao limite, a organização, a direção. (NEUMMAN, 1992)

Tanto no diz respeito ao dinamismo pautado no arquétipo da mãe, como no do pai, o Ego pode atuar de forma passiva ou ativa no que tange à relação com EGO-OUTO. “Enquanto em um primeiro momento sofremos passivamente a experiência de sermos cuidados, protegidos e orientados, em um segundo momento desempenhamos ativamente o papel de cuidar, proteger e orientar. (SILVEIRA FILHO, 2002, p. 52).

“Quando os pais proporcionam à criança uma base de atuações seguras, isso determinará a capacidade da criança para estabelecer, na idade adulta, laços afetivos seguros. Quando os pais frustram ou gratificam em excesso as necessidades arquetípicas básicas para o desenvolvimento, surge uma criança ansiosa, insegura, que vivencia a si mesma como carente de confiança, tímida, inadequada e incapaz. Muitas vezes apresentam dificuldade para manter relações duradouras e, diante de situações de estresse crônico, desenvolvem transtornos de ansiedade, fóbicos e depressivos”.  (LAUREIRO, 2011, p. 208).

O dinamismo matriarcal é regido pelo Arquétipo da Grande Mãe, que se exerce através do desempenho de uma atitude de carinho, cuidado e proteção – relaciona-se com o princípio de preservação e sobrevivência. Um aspecto negativo desse dinamismo seria no caso de uma hipertrofia do materno, o excesso de zelo e tutela, que dificultariam o sujeito a lidar com frustrações, com o que é novo, por não saber como poderia se portar e o que poderia acontecer se a nova relação desse errada. Em contrapartida, a hipotrofia representaria uma ausência de cuidados. Se falamos que primeiramente o indivíduo assume frente ao cuidado pautado no dinamismo uma relação passiva – de filho da Mãe – é necessário que está se estabeleça de maneira adequada para que ele possa estabelecer uma relação ativa com o cuidado – a constelação da Mãe –  seja pelo cuidado com o outro, seja com o cuidado consigo mesmo.

O dinamismo patriarcal é dirigido pelo arquétipo paterno. Como seus aspectos básicos dizem respeito à orientação e organização, tal dinamismo relaciona-se com as regras e leis  Segundo Silveira Filho (2002) isso relaciona-se ao processo adaptativo de socialização. Uma relação consigo mesmo e/ou com o outro nesse sentido poderia ser guiada por um excesso de normas e consequentemente uma cobrança de si mesmo em demasia, no caso de uma hipertrofia do arquétipo paterno por exemplo, ou uma necessidade que a todo momento o outro o guiasse e orientasse, porque em seu desenvolvimento, não foi capaz de aprendê-lo.

Se houve uma dificuldade em uma dessas fases, e consequentemente uma cristalização do desenvolvimento do sujeito, ele pode por exemplo, projetar essa dificuldade no que tange ao dinamismo matriarcal num relacionamento amoroso, desenvolvendo uma relação de dependência daquele sujeito. Um excesso de cobrança em ser amado, ou uma insegurança em relação aos afetos. É claro que não podemos determinar exatamente como será um comportamento nesse sentido, mas podemos ter um norte para pensar em possibilidades diagnósticas quando investigarmos para que esse sintoma tem se instalado na vida do sujeito.

Um exemplo disso, poderia ser o caso de uma anorexia, onde a mãe representou um aspecto materno de maneira imprópria, e simbolicamente podemos perceber no corpo da mulher anorética o sintoma como sendo um retorno a esse aspecto do desenvolvimento que ficou cristalizado. Ela não se cuida, ela precisa ser cuidada de maneira apropriada para a partir daí aprender a cuidar de si próprio. Muitas vezes não admitimos que precisamos ser cuidados (inclusive por nós mesmos), e o inconsciente nos oferece uma chance de vivenciar e reatualizar esse aspecto do desenvolvimento.

Podemos observar um outro exemplo a partir de uma depressão. Sabemos que a depressão apresenta uma gama de sintomas, desde falta de animo, sono em excesso, sentimento de falta de amor, desde sentimento de impotência e culpabilização de si mesmo, agressividade, insônia, entre outros.  Podemos tentar entender esses sintomas por meio da percepção do dinamismo arquetípico. Uma depressão pautada no dinamismo matriarcal, implicaria em uma dificuldade no que tange  “[…] às estratégias afetivas de adaptação, do sentir-se contido, amado, seguro afetivamente e, em consequência, capaz de alcançar um desenvolvimento afetivo-cognitivo adequado às necessidade de cada individuação.”  (LAUREIRO, 2011, p. 208)

O fato de o sujeito ter o desenvolvimento do ego a priori pautado em uma relação desordenada com as figuras maternas e paternas, não significa que isso será estático, ou seja, que falaremos de uma estrutura. Ao contrário, para evitarmos esse equívoco nomeamos dinamismo arquetípico, que pode ser reatualizado em certas etapas da vida do sujeito, por exemplo, num processo terapêutico. O terapeuta pode servir de ambiente que vai potencializar um lugar seguro onde as transformações necessárias ao desenvolvimento daquele sujeito aconteçam. O mesmo podemos dizer de uma instituição, por exemplo, uma instituição de saúde, ou até uma instituição religiosa.

Muitas vezes, o terapeuta ou esse agente terapêutico,  vai fazer as vezes do ambiente para a reatualização do dinamismo materno, por exemplo, sendo para o paciente acolhedor, dando sustentação para suas escolhas, falhando algumas vezes, no sentido de não atender a toda demanda dele. Para isso, o terapeuta precisa perceber as necessidades e dificuldades do sujeito. Uma relação terapêutica pautada numa necessidade de reatualização do dinamismo paterno, pode oferecer um lugar de organização, de guia…tomando o cuidado para não cair na armadilha de dar ao sujeito pronto todo o processo que ele deve seguir. É importante ressaltar, que no processo terapêutico, isso também pode se modificar, de acordo com lugar de desenvolvimento que o paciente se encontra.

Podemos pensar também na relação com o objeto representado por uma psicopatologia bastante comum em nossos dias. O uso de substâncias químicas….ou como chamamos também, o sujeito com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Falamos assim, porque mais importante do que a droga em si, é necessário compreender a relação que se estabelece com essa e com o entorno a que o sujeito em uso de substâncias psicoativas está adstrito. O que o sujeito busca em sua relação com a droga? Qual a relação que ele tem consigo mesmo, qual a relação pautada no dinamismo arquetípico, humanizado nas figuras parentais, e algumas vezes nas relações afetivas?

Um exemplo simples que estamos acostumados a pensar é que a maior dificuldade do dependente de substância estaria na incapacidade de escolha… “eu escolho parar aqui”. Há uma dificuldade com essa organização, com essas regras (características do dinamismo patriarcal), mas há também, o que é menos abordado pois caímos muitas vezes no julgamento moralizante, uma carência de suporte, de afeto – e esse mundo pouco suportável é substituído pelo mundo mais suportável obtido pelo uso da substância …Ao terapeuta cabe auxilia-lo a perceber quais ferramentas são necessárias para transformar esse mundo pouco suportável (também na ausência de suporte e delimitação) em algo que desse mais satisfação, prazer e segurança para continuar a trilhar o seu caminho.

O inconsciente é sábio…ele nos dá essa chance de trilhar caminhos mais criativos e “seguros” para nós mesmos. Mas se não o ouvimos, se não lhe damos atenção, ele fará com que escutemos de qualquer forma…de maneira pouco ou muito dolorida. Então, qual é a relação que estabelecemos com o nosso inconsciente? Qual é a relação que estabelecemos conosco?

Como isso influencia na relação consigo mesmo?

 

REFERÊNCIAS

 

LAUREIRO, M. E. V. (2011). Depressão na Visão Analítica 203 In: Payá, R. Intercâmbio das Psicoterapias. São Paulo: Rocca.

 

Moraes, F. F. (2015).  Algumas Considerações sobre o Eixo Ego-Self. In: Jung no Espírito Santo. Disponível em: http://www.psicologiaanalitica.com/algumas-consideraes-sobre-o-eixo-ego-self.

Neumann, E. (1992). A Criança. São Paulo: Cultrix.

Silveira Filho, D. X. (2002). Drogas: Uma Compreensão Psicodinâmica das Farmacodependências.  São Paulo: Casa do Psicólogo.

Winnicott, D. (1983). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas.

 

 Amor, traição e processo de individuação

(11 de junho de 2016)

Fabricio Fonseca Moraes

 

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo

Viva Vivida, Vinicius de Moraes (1938)

 

Nota: Este texto foi produzido como base para a palestra na I Jornada Junguiana da Multivix, com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade.

Bom dia! Gostaria de agradecer e parabenizar a faculdade Multivix, sua coordenadora Kirlla Cristhine Almeida Dornelas e ao professor Raphael do Amaral Vaz pela organização desta jornada. Foi nos proposto o desafio de falar sobre Amor, Traição e Processo de Individuação.

Começando pelo amor, é necessário dizer que o amor é mistério.  Jung afirmou em suas memórias que “Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca fui capaz de dar-lhe uma resposta válida” Jung, 1975, 305). O fato de não haver uma resposta válida, pode significar que muitas respostas são possíveis e válidas. Assim, não tentarei definir ou conceituar de forma estrita, mas, pensar no amor como um fenômeno, que se manifesta, que percebemos, mas, que não se dobra a linguagem objetiva.

Quando falamos de Amor ou Eros (como é mais comum na linguagem psicológica) somos “quase que” obrigados a visitar a Platão, em seu simpósio ou “banquete”, ele afirma pela boca de Sócrates, citando Diótima, diz que o Amor é um daimon que intermedia a relação entre mortais e imortais (deuses).

Essa compreensão de Platão é interessante pois, expressa de forma mítica uma das características mais basais e fundamentais desse fenômeno que denominamos Amor:  é uma função de integração psíquica que, não só intermedia, mas possibilita a relação Ego-Self (ou Ego-Si-mesmo) assim como a relação Ego-Outro. O amor se manifesta como uma função do self que une, integra e centraliza a dinâmica psíquica – seja ela relacionada com a realidade interior ou a realidade exterior.

Nessa mesma perspectiva, Adolf Guggehnbul-Craig, no livro “Eros on Crutches” – que posteriormente foi relançado com o titulo “The Empty Soul” –   nos chama atenção para um o fato de que Eros “humaniza os arquétipos” temperando suas qualidades absolutas ele afirma

O guerreiro sem Eros é um mercenário brutal, um absurdo assassino em massa , um exterminador demoníaco . Com Eros, o guerreiro luta para defender os valores que são importantes para ele, estando pronto para dar a sua vida pelos outros ou por ideais mais elevados . O Trisckster sem Eros é apenas um enganador e mentiroso, um impostor. Com Eros, o trisckster é surpreendente, estimulante , não preso a conveções e rotinas, mas continuamente revelando novas faces de si mesmo e abrindo possibilidades inexperadas para aqueles que o rodeiam . Ele é brincalhão e encantador.(Guggenbhul-Craig, p.27- tradução nossa) [1]

Acredito que falar do Trickster pode gerar algumas dúvidas, pois, não temos um termo adequado para Trickster, mas, duas representações bem conhecidas em nossa cultura são o gato de Cheshire e o Capitão Jack Sparrow.

Eros ou Amor humaniza os arquétipos, ele os humaniza na medida que integra e harmoniza suas dinâmicas arquetípicas às necessidades do Ego, de forma saudável e construtiva. Essa humanização torna o ujhamor muito próximo a outro arquétipo, ou dinamismo arquetípico, que é a alteridade[2] – que geralmente é percebida a partir da concepção clássica Anima e Animus, que desde os anos 70 e 80 vem sendo repensados, pois, o aspecto contrassexual expressa na verdade o “totalmente outro ou diferente” da identidade do Ego.  mas, na verdade é uma função que possibilita a compreensão integra o polo “Outro” seja ele interno (como a dinâmica do Self) ou externo (como a compreensão mais adequada da realidade do Outro).

A relação Eros e Alteridade é tão intensa que quando projetada, a experiência de lidar com o outro se torna como lidar com a própria alma. Por isso, o a projeção da “anima/animus” como vemos classicamente é revestida de um brilho especial, como se o outro fosse de fato, parte de nós mesmos.

Muitas vezes pensamos na relação amorosa como condicionada pela projeção da anima/us. E, de fato, em algumas situações é (geralmente mais exageradas e incontroláveis), mas, não é possível condicionar o amor a uma projeção. Como disse anteriormente, o Amor integra os elementos da vida psíquica, ou seja, integra tanto os objetos internos quanto os objetos externos, atribuindo um sentido afetivo próprio. Quando retiramos a projeção podemos amar o objeto e integra-lo a nossa realidade pelo que ele é. Até nesse ponto, falamos de uma perspectiva, olhando o psiquismo pela via da dinâmica psíquica, quando pensamos pela via da experiência do Ego, da vivência do amor, outros aspectos interessantes que eu gostaria de pensar um pouco com vocês.

– O amor nos coloca diante de um dilema moral, pois, elimina a fronteira do bem e do mal. Aldo Carotenuto, no livro Eros de Pathos, fala que o “amor é portanto uma centelha do divino – e com esse termo entendo uma força que encerra em si ambos os pólos da dicotomia maniqueísta bem-mal”(Carotenuto, p. 22). Não é incomum pessoas “mentirem” ou “enganarem” outras por amor. Em outras situações, é possível termos crimes mais graves como roubos e até homicídios em nome do Amor. Sob certos aspectos, poderíamos dizer que o amor infla o Ego, colocando-o para além de suas possibilidades. (Vide Anakin, que escolheu o lado negro da força por amor a padmé) Mas, devemos tomar muito cuidado em não confundir as escolhas guiadas pelo amor das escolhas feitas pelo poder. Tratar uma mulher como propriedade, posse – agredindo ou mesmo chegando a morte –  não faz parte da dinâmica do amor, mas, do poder. Nesse sentido, os relacionamentos sem amor, são mais próximos da psicopatia. Infelizmente, confundimos muito as relações de poder com amor, essa confusão se dá por nossa cultura machista, patriarcal que durante séculos subjugou a mulher colocando-a num lugar de propriedade do homem. O machismo e o sexismo são exercícios de poder, cada que somos machistas ou sexistas(ou com outros tipos de preconceitos) nos distanciamos do amor, nos desencontramos do amor e de uma relação integradora e saudável com o, e nos colocamos numa posição de domínio que tende sempre a degradar a outra parte.

– Todo discurso sobre o amor é sempre um discurso sobre si mesmo(ibid p. 27) O Amor se refere sempre a nossa interioridade, que quem somos de forma mais sincera. Esse é um dos aspectos mais interessantes, no amor e através do amor nós vemos a nós mesmos, não é o amor exatamente pelo Outro em si mesmo, mas, pelo o que o Outro suscita em nós.

Renato Russo na música La Nouva Gioventú expressa essa noção de forma interessante, ele diz “Com você por perto eu gostava mais de mim” – Infelizmente o que acontece é que estamos tão inconscientes da relação com nós mesmos que não percebemos que a relação com o outro está relacionada com a relação que temos com nós mesmos – por isso mesmo, um relacionamento patológico, abusivo, espelha uma relação inadequada do indivíduo consigo mesmo.  Nesse sentido, o mandamento de Cristo “amarás o teu próximo como a ti mesmo” se revela uma verdade psicológica válida.

– O amor altera nossa percepção da realidade – Quando estamos mobilizados pelo amor, nossa percepção do tempo, nossa percepção do objeto amado é alterada. Por isso, a percepção do amor infinito, definitivo, eterno é uma distorção possível, mas, que não se restringe a durabilidade do fenômeno, mas, também percepção da realidade dos objetos – sejam eles pessoas ou coisas – isso se dá pelo direcionamento de nossa atenção, guiada pelo fascínio gerado pelo objeto.

Sob certo aspecto a percepção do objeto de amor se torna parcial, sendo direcionada aos aspectos positivos, belos e aprazíveis – negando os aspectos negativos, produzindo sombra no objeto. A dificuldade de integrar a totalidade do objeto amado, gera o aumento de expectativas e por isso mesmo, aumenta a possibilidade erros de julgamento.

O amor nos impele a totalidade – Essa é uma característica importante porque nos faz sentir-nos incompletos, incapazes e dependentes/. Não podemos perder de vista que o Ego, como principal deintegrado do Self, guarda uma relação fundamental com Self, devemos lembrar que a dinâmica natural do Self, compreende a deintegração e a reintegração, no caso do Ego, não há uma reintegração propriamente dita, há uma relação especial que pode ser compreendida ou nomeada como “processo de individuação” ou “eixo ego-self”. Assim, através do amor o ego tem um vislumbre da totalidade, e se lança desejante desta possibilidade, por isso as palavras de Vinicius de Moraes são tão precisas quando diz que o amor é o “O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”, vislumbrando a totalidade somos impelidos nessa busca.

Vamos falar um pouco sobre a traição. Quando falamos de traição devemos ter em mente uma concepção ampla – que envolve tanto relacionamentos com outras pessoas quanto com instituições, valores. Do mesmo modo, a traição obviamente deve ser percebida sob dois aspectos fundamentais : um social e outro individual.

Quando me refiro ao social, eu me refiro a uma cultura onde trair se tornou banal. Crescemos vendo traições em novelas, quadrinhos, filmes e séries. Trair a família, amigos, valores ou pessoas amadas se tornou uma opção, a traição não tem maiores consequências sociais, em tempos passados a traição tirava a honra de uma pessoa, a trair era um estigma sério (especialmente no que diz respeitos a relação entre amigos, familiares e da mulher com o homem, no caso homem, dada a cultura machista, era permitido trair a mulher). Juntamente com essa banalização temos uma realidade onde os relacionamentos muitas vezes são vistos como temporários, sem o comprometimento real, assim, a cultura sanciona a traição. Mas, não vamos nos estender nesse aspecto.

Quando falamos de traição no contexto da psique do individuo, devemos considerar:

– Poder: Falo tanto do poder, justamente pois, Jung afirmava que psicologicamente, o oposto do amor é poder. O desejo de se afirmar, o desejo se impor, ser alguém frente aos outros. Nessa categoria temos três possibilidades a traição em relacionamentos que se dão na ordem do poder, do domínio, na primeira não há uma consideração efetiva pelo outro, a traição é mais uma conquista, na segunda a traição se dá pela incapacidade do indivíduo enfrentar o termino de um relacionamento, seja por imaturidade, o indivíduo trai por não se sentir capz de um enfrentamento saudável, do termino do relacionamento, nesse caso tomado pelo sentimento de inferioridade, o indivíduo busca um apoio. Uma terceira possibilidade, também interessante mais, é quando o poder compete com o amor. É numa relação onde no relacionamento há amor, mas, na relação do indivíduo consigo mesmo, ele trai como uma forma de lidar com o próprio sentimento de inferioridade e outros. Nesse caso a traição ou traições são acompanhadas por sentimento de culpa.

A traição de si mesmo: Talvez esse seja o aspecto mais pertinente para pensarmos a traição. Muitas vezes o indivíduo em suas escolhas e ao longo da sua vida se traiu de tal forma, se identificando com exigências externas e se desligando de si mesmo, nesse caso, essa traição interior, essa alienação de si-mesmo. Esse estado de alienação se dá muitas vezes, pela adoção de uma atitude da consciência unilateralmente rígida, onde, o indivíduo se prende num relacionamento, numa instituição, num grupo, e nesses casos pode ser que uma traição exterior se faça necessária como uma forma de libertação, a traição do outro (seja uma pessoa, instituição ou valores) seria um caminho para sanar a traição interior.

Não podemos perder de vista, o fato que trair nas situações que nos referimos, no geral, tem um aspecto de positivo, uma necessidade. Contudo, não podemos perder de vista que há sempre o traído, há sempre sofrimento envolvido na traição ou mesmo para quem trai.

Onde que entraria o processo de individuação? O processo de individuação é um processo de desenvolvimento que começa desde que nascemos e se estende até nossa morte. Jung descreve a individuação como “torna-se si mesmo”, e este processo de se tornar quem se é, é em si um processo amoroso,  um processo de integração, de honestidade e consideração profunda consigo mesmo e com a realidade circundante, isto é com os outros.

A maior parte dos efeitos, vamos dizer, “negativos” do amor, do poder e traição se relacionam a inconsciência que o indivíduo em relação a si mesmo. Ou seja, quanto mais inconsciente ou alienado de si mesmo, mais vulnerável o indivíduo se torna às dinâmicas do inconsciente ou a relações abusivas.

Poderíamos falar de individuação como um processo de amadurecimento, onde através da integração dos polos persona-anima, assim como da sombra, torna-se possível a percepção das dinâmicas inconscientes, possibilitando o indivíduo experimente o amor de forma construtiva, deixando de ser apenas levado pela intensidade desse amor que se impõe inconsciente, mas, se tornando responsável pelo amor – tanto de si mesmo quanto pelo amor em relação ao outro.

A individuação exige conhecimento, autoconhecimento e isso só se adquire vivendo, amando, sofrendo e voltando a amar. Em todas as experiências que vivemos, uma parte do quebra-cabeça que somos se revela.  Como dizia o Poeta,

Quem já passou

Por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá

Pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou

Pra quem sofreu, ai

 

Quem nunca curtiu uma paixão

Nunca vai ter nada, não.

(Vinicius de Moraes)

 

Referências

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo, Paulus Editora, 1994.
Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

 

 

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[1]The Warrior without Eros is a brutal mercenary, a senseless massmurderer, a demoniac exterminator. With Eros, the warrior fights to defend values which are important for him, ready to lay down his life for others or for higher ideals. The Trisckster with Eros is but a commom cheat and liar, an imposter, a con-artist. With Eros, the trisckster is surprising, stimulanting, not bogged down in convention ou routine, but continually revealing new sides of himself and openning unexpected vistas to those around him. He is playful and charming.

[2] Vide Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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