Nise–O Coração da Loucura–um breve comentário

(Não há spoilers nesse post)

Por Fabrício Moraes e Kelly Tristão

No último dia 28 de abril de 2016, estreou em Vitória, no Cine Jardins, assistir ao filme Nise – O coração da Loucura, foi uma experiência fantástica. Por termos conhecimento da biografia da Nise da Silveira, a produção nos trouxe inúmeras expectativas, desejosos de ver cenas da vida da Nise. Entretanto, o filme foi além, não nos proporcionou uma biografia sobre Nise da Silveira, ele nos possibilitou uma compreensão do Olhar, da Força e do Amor de Nise – e através destes nos permite visualizar a capacidade transformadora do amor e das relações afetivas.

O filme mostra a realidade com a qual Nise da Silveira se deparou ao retornar o serviço – e que não é diferente da realidade que vivenciamos – onde o Poder travestido de ciência, conhecimento, controle, força, violência, machismo, maus tratos e abandono reduz pessoas a objetos. Frente a esse tipo tratamento desumano e às violências as quais os pacientes eram submetidos Nise se colocou como defensora da vida e da dignidade de cada um. Demonstrando que amor, respeito, dignidade e o cuidado são capazes de propiciar um espaço potencial que pode transformar todos que estão envolvidos sejam eles os clientes ou a equipe.

No filme são registrados, em linhas gerais os aspectos fundamentais da Obra de Nise da Silveira, mas, sem estabelecer “conclusões” o filme é um convite para conhecer mais de sua vida, obra e desenvolvimentos – como o Museu Imagens do Inconsciente e a casa das palmeiras. Não é possível ver o filme sem sentir um orgulho da Nise da Silveira, do que ela representa na Saúde mental e para psicologia junguiana.

Não podemos deixar de comentar a interpretação de Glória Pires, que deu vida a Nise da Silveira de forma digna, íntegra e sobretudo humana. O filme “Nise- O coração da Loucura” é um filme para se ver e rever, se inspirar e pensar em nosso próprio papel na transformação da sociedade em que vivemos.

 

Em vitória no Cine Jardins.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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#euqueronise– Vamos trazer o filme “Nise–O coração da Loucura” para o ES?

Hoje, 21 de abril de 2016, foi um dia muito esperado pela estreia nacional do filme “Nise – O coração da Loucura” ou deveria ser, pois, para surpresa de muitos, assim como a minha, não houve a exibição em nenhum cinema do Espiríto Santo. Foi uma grande frustração, que acredito foi compartilhada com colegas de outros estados.

A equipe de divulgação/distribuição do filme compartilhou nesta manhã no facebook uma lista dos cinemas onde o filme está sendo exibido:

lista

 

Vendo essa listagem comentei na fan page do filme:

image

 

Acredito que seja importante que todos que tem interesse de ver o filme no cinema mobilizar a todos para pedir na página dos cinemas “Eu quero ver “Nise – O Coração da Loucura” #euqueronise”.

Na grande vitória seguem as páginas do facebook dos cinemas locais:

https://www.facebook.com/cinejardins

https://www.facebook.com/Cinemark-Vitória-1434834820083408/

https://www.facebook.com/pages/Cinemark-Shopping-Vila-Velha/904960042890028

https://www.facebook.com/pages/Shopping-Mestre-Alvaro-Cine-Araujo/704525316285107

https://www.facebook.com/pages/Cinemagic-Shopping-Norte-Sul/591959637495797

https://www.facebook.com/pages/Cine-System-Shopping-Boulevard-Vila-V/1411338555800827

https://www.facebook.com/pages/Cinema-Kinoplex-Praia-da-Costa/139752962761635

https://www.facebook.com/pages/Cinépolis-Shopping-Moxuara/311379492368239

https://www.facebook.com/cinemetropolisufes/

Vamos compartilhar e nos esforçar para trazer este filme para nosso estado!

abraços,

Fabrício Moraes e Kelly Tristão

Kiriku e a Feiticeira – alguns comentários

ki1Há poucos dias um colega, Douglas Jakob, postou no grupo “Psicologia Junguiana no ES” do facebook uma sugestão, pedindo um comentário sobre o filme “Kiriku e a Feiticeira”. Confesso que eu já havia visto o link do vídeo em outros grupos mas, não tinha me interessado, contudo, frente ao post de nosso colega me prontifiquei…. e me surpreendi. A riqueza da história e a forma como a lenda foi trabalhada o respeito a cultura africana foi algo sensacional.

O Filme “Kiriku e a Feiticeira” foi lançado em 1998, sendo uma produção franco-belga, seu diretor Michel Ocelot passou parte de sua infância em Guiné, onde aprendeu sobre a lenda de Kiriku. Como comentaremos sobre o filme é impossível não fazer spoilers! Então, convido ao leitor a assistir ao filme primeiro e, depois ler nosso texto. Deixo claro, que meu objetivo não é exaurir as possibilidades do filme, nem rotular, mas, antes ampliar e apontar pontos relevantes.

veja o filme no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=n4JYa-e3rPI

Um nascimento milagroso

O nascimento de Kiriku foi um prodígio, desde o ventre de sua mãe, o pequeno Kiriku disse a mãe que queria nascer, ao que a mãe responde “ uma criança que fala na barriga de sua mãe pode nascer sozinha” e assim, sem dor Kiriku nasce, corta seu cordão umbilical, e declara a própria mãe que se chama Kiriku e pede a mãe para ser lavado, ao que mãe responde “uma criança que nasce sozinha, se lava sozinha” e Kiriku se lava e ao se lavar toma conhecimento do drama que a tribo sofre devido a feiticeira Karabá.

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O nascimento milagroso é uma marca e o prenúncio de grandes feitos. Encontramos paralelos no nascimento de Buddha Gautama, que segundo algumas tradições, Buddha nasceu sem que sua mãe sofresse as dores do parto, logo após o nascimento ele deu sete passos na direção dos quarto pontos cardeais e disse que aquele era seu último nascimento. O mesmo ocorre em nascimentos como de Dionísio, que retirado do útero de Sêmele foi enxertado na coxa de Zeus. O mesmo ocorre nos nascimentos virginais de Jesus e Krishna.

No caso de Kiriku temos um aspecto importante, ele era uma criança, nascida antes da hora, mas, que dialoga com a mãe – esta, apresenta a missão de Kiriku falando sobre as dificuldades passadas pela aldeia e devido o poder de Karabá. Assim, devemos considerar que Kiriku, o herói-criança, está intrinsecamente relacionado com a mãe, não apenas a mãe-genitora, mas, a mãe terra que sofre com a seca.

Na primeira cena, são contrapostos dois femininos importantes a Mãe de Kiriku e Karabá, a feiticeira devoradora. Os homens haviam sido “devorados” por Karabá. Por isso, Kiriku sendo recém-nascido é fundamental – ele ainda está associado ao mundo do feminino materno, da terra, ctônico(das profundezas), nele o feminino e o masculino estão em equilíbrio.

Primeiras façanhas

A primeira façanha de Kiriku foi salvar o tio, diante da feiticeira Karabá, ele se escondeu no chapéu, e, este foi pensado como um objeto mágico. Que foi trocado com Karabá. Por não ser mágico, Karabá exigi o ouro das mulheres. A segunda foi, mesmo sendo rejeitado, ter salvado as crianças por duas vezes – da canoa e da árvore. O terceiro feito ocorre pouco antes das mulheres censurarem a mãe de Kiriku pelas suas ações, posterioremente, foi até a fonte e entrou na mesma e encontrou o animal que drenava toda a água, restituindo a água da aldeia, para tanto ele quase que morre afogado – ele é levado ao seio da mãe e da aldeia que finalmente o aceita.

Nas três primeiras façanhas temos um dado interessante: a rejeição a Kiriku, (todos o rejeitam). E, mesmo assim, ele salva a todos. A cada etapa ou cada façanha, seu valor era reconhecido. Podemos pensar esse processo de reconhecimento ou integração: tio (família), as crianças (os iguais) e a fonte (a aldeia). Com essas três façanhas Kiriku se torna um legitimo como um herói/guerreiro da tribo e resgata a alegria (expressado pelas danças) e a esperança (a água) da aldeia. A alegria e a esperança incomodam ainda mais a Karabá.

A Jornada de Kiriku

Após descansar de seu quase afogamento, Kiriku retoma suas indagações sobre o motivo da maldade de Karabá. Sua mãe lhe diz que somente seu avô, o sábio da montanha, saberia. Mas, que ele viveria para além das terras de Karabá, Com a ajuda da mãe, Kiriku inicia sua jornada pelo mundo interior, pelas profundezas da terra onde ele se encontra com desafios,posteriormente, doma um javali para chegar até o cupinzeiro, que se ele fosse digno o cupinzeiro se abriria para ele, a entrada da morada sábio da montanha, seu avô..

Com a ajuda da mãe Kiriku inicia sua jornada pelo mundo subterrâneo, onde, pelo seu tamanho se sente a vontade, ele encontra com animais, se vê em meio a um labirinto de possibilidades. Podemos pensar nesse enfrentamento dos animais o gambá, os esquilos, o pássaro e o javali como um enfrentamento da própria natureza instintiva. Com sua ingenuidade, Kiriku conquista todos animais, o que o torna digno de entrar no cupinzeiro. Onde encontra com seu avô, que logo o reconhece. Deve-se notar que o avô, o sábio, se coloca para além do problema, para além das terras da feiticeira. Ele traz a ancestralidade, o conhecimento antigo e, sem julgamentos, compartilha com Kiriku.

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Segue o dialogo entre o Avô e Kiriku, onde ele revela que o que era atribuído a Karabá não tinha sido obra dela, mas, o medo das pessoas que deu a fama a Karabá O Sábio revela que Karabá era má porque sofria dia e noite, pois, havia sido violentada por homens que colocaram o espinho em sua coluna, esse espinho dava poderes a ela. Kiriku afirmar retiraria o espinho das costas de Karabá, Kiriku pede para se aconchegar no colo do avô, fala de sua solidão, ao que o avô responde que estaria sempre com ele.

A revelação acerca da maldade de Karabá é na minha opinião o ponto mais importante do filme. Karabá inflige o sofrimento porque também sofre. Libertar a aldeia do mal e sofrimento de Karabá, significa libertar Karabá. Diferente de nossa lógica ocidental maniqueísta, a narrativa não fala de uma “vitória” do bem sobre o mal. Mas, fala de equilíbrio, trazer paz a Karabá é trazer paz a todos. Não é uma lógica de opressão.

Devemos notar também que há um ponto importante: Karabá fala do feminino ferido. Ela foi violentada por homens que imprimiram espinho magico em sua coluna. Seu poder torna os homens em objetos, tira a naturalidade de suas vidas, mesmo assim, ela é mulher, bela e vaidosa(vide as joias que usa e exige das demais), mas, em seu sofrimento é solitária, não tem uma amiga que ajude.

Nesse ponto, Kiriku é igual a Karabá, ambos são solitários. Kiriku é uma criança – ou seja, nem homem nem mulher – que luta sozinho, por isso, se coloca fora desse poder “devorador do masculino”.

Kiriku cria uma estratégia para retirar o espinho de Karabá, ele rouba as joias dela, enterra e enquanto Karabá se abaixa para cavar, ele ataca e retira o espinho. A natureza volta a florescer. Karabá e Kiriku conversam e ele se torna um adulto, com um beijo de Karabá.

Kiriku rouba as joias, isto é, o símbolo da feminilidade de Karabá. E, através disso ele consegue expor a ferida ou o ki4espinho para assim retira-lo. Com a retirada do espinho, ela volta a ser mulher, deixa de ser feiticeira, a terra retoma sua fertilidade. Kiriku pede para que Karabá se case com ela, ela rebate dizendo que ele era uma criança e que mesmo que não fosse ela não seria empregada de ninguém, não se submeteria, como na verdade foi submetida a força no passado. É importante pensarmos como o feminino ferido, se constela em sua forma sombria (a feiticeira) mediante a violência do masculino. O abuso contra o feminino é um abuso contra toda a natureza. Como dissemos antes, Kiriku não era homem, nem mulher, era uma criança, ainda intimamente ligado ao feminino materno. Quando Karabá o beija, Kiriku deixa de ser criança, se torna um homem, mas, não perde a sua essência feminina que é capaz de curar as feridas de Karaba.

O Retorno de Kiriku e Karabá

Karabá prepara roupas para Kiribu, ao retornarem a aldeia, as pessoas fogem com medo. Ninguem reconhece Kiriku, até ele convocar sua a mãe que o reconheça. Ela o reconhece, mas, a aldeia se põe contra karabá pelos males causados. O sábio da montanha retorna, junto com todos os homens, e revela que não havia culpa em karabá pelos males e que kiriku a libertara, todos reencontra homens e mulheres.

O retorno fala do processo de reintegração de kiriku e karaká a vida da aldeia. Devemos notar que a aldeia ainda estava marcada pelo feminino ferido de Karabá, a chegada do casal Kiriku-karaba, ambos transformados precede a transformação da aldeia.ki5
Chama muito a atenção a postura de Kiriku, que estando adulto, forte, não se impõe pela força a, antes dialogou e convocou sua mãe para reconhece-lo, uma reverência ao feminino materno – uma confirmação do respeito que ele prometeu a Karabá. Mesmo assim, a aldeia na ainda enganada, sofrendo pelo mal que atribuíam a Karabá, não os aceitam e ameaçam a ambos. Somente, quando o sábio a montanha, retorna com os homens e fala que não havia nenhuma culpa em Karabá que todo podem festejar juntos. É fantástico pensar que somente como o resgate do feminino expressado em Karabá, a aldeia pode recuperar sua masculinidade, isto é, os homens.

Algumas considerações finais

Ao longo do texto tentei evitar de usar conceitos para não ser (ainda mais) reducionista. Acredito que essa narrativa fala da individuação em diferentes níveis, seja ele como um confronto tanto com a sombra quanto com a anima ou como um processo de integração.

Kiriku como um herói-criança é um portador de uma nova consciência, de um processo de transformação, não pautado na força, mas, na compreensão. Ao se dispor a “libertar” Karabá de seu sofrimento, de sua solidão e isolamento, Kiriku liberta a todos. Pois, o sofrimento de um é o sofrimento de todos.

Na narrativa é podemos perceber que todos são vítimas em certo ponto, mas, todos também são agressores em outros, todos são parte do problema, mas, também são parte da solução. Não há uma divisão do “bom ou mal” Compreender, aceitar as diferenças (seja de tamanho, idade e gênero) é necessário para integrar e fazer de volta a vida a terra.

Mas, confesso que a força do feminino no filme foi o que mais me tocou. O Feminino nas mulheres da aldeia, a grandeza do feminino materno da mãe de Kiriku, a altivez do feminino ferido de Karabá, a inocência do feminino em Kiriku e o feminino no Sábio da Montanha. Estamos tão acostumados com um masculino fálico, solar e conquistador que chega ser difícil compreendermos essa dinâmica do feminino num herói. Jung chamou de Anima dimensão feminina da psique que o homem precisa integrar – essa integração, permite ao homem viver tanto sua masculinidade quanto sua feminilidade de forma saudável, como dizia Pepeu Gomes “ser um homem feminino, não fere meu lado masculino”. E, de fato, vejo na minha prática clínica é necessário ser um homem materno para acolher e cuidar do feminino ferido tanto em mulheres quanto homens.

Obviamente, essas são considerações que me tocaram, muitas outras são possíveis dada a riqueza apresentada no filme.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Yoda vs Sombra– Comentários acerca da integração da Sombra

Há algum tempo atrás, um vídeo chamou atenção da comunidade junguiana (pelo menos dos nerds junguianos) onde podíamos ver o confronto do Mestre Yoda com sua Sombra, Lado Negro. Esse vídeo que, na verdade, é um fragmento do episódio 12 da sexta temporada, intitulado Destiny, da série animada Star Wars – The Clone Wars, foi exibido na TV americana em 07 de março de 2014. Como nosso objetivo é fazer um comentário de tal fragmento (e. assim, invariavelmente faremos spoilers) eu convido ao leitor assistir ao vídeo legendado segundo o link abaixo, são pouco mais de 3 minutos .

https://www.youtube.com/watch?v=lfS70QoGDZg – Fragmento do Confronto com a Sombra, o Lado Negro.

https://www.youtube.com/watch?v=OMHW-P8x72E – Episódio completo em Inglês.

Yoda vs Lado Negro

Façamos um pequeno resumo . No vídeo vemos o Meste Yoda foi conduzido pelas cincos sacerdotisas da Força a uma caverna, onde ele seria testado.

Chegando na caverna ele percebe uma presença e escuta uma voz que o chama pelo nome, ao exigir que o desconhecido se apresente, Yoda é atacado, por pelo Lado Negro ou sua sombra, que diz:

– Yoda me odeia, sim… Yoda não brinca comigo mais! Yoda pensa que não sou digno! (Ao desvencilhar-se do ataque, eles travam um dialogo)
Yoda: – Yoda não reconhece você!

Lado Negro : Não vê o que está dentro de você, não é?

Y: Eu Escolhi não dar a você poder!

L.N.: Então você passa seus dias na decadência da guerra e com isso eu cresço dentro de você! Conheça seu verdadeiro “eu”! Me encare agora, ou Eu te devorarei!

A luta continua, Yoda ataca com veemência sua Sombra, ao achar que a dominou, pisando em seu pescoço, afirma

Y: Parte de Mim, você não é!

Mudando de posição e assumindo o ataque ao que Lado Negro responde:

L.N: Parte de você eu sou! Parte de tudo que vive! (Continuando o ataque feroz a Yoda) Porque você odeia o que te dá poder?! Yoda pensa que não sou digno!

Após muitos golpes. Yoda levanta e diz,

Y: Eu reconheço você agora! (o que assusta e faz com que o Lado Negro inicie outra investida, mas, Yoda usando da força, para o ataque e continua dizendo) Parte de mim você é, sim (e começa a atrair o Lado Negro para próximo de si) Mas poder sobre mim, você não tem! Sou eu quem controla você! Controle sobre mim você não possui! Meu lado Negro você é, e eu te rejeito.

Após tocar o rosto do Lado Negro, este desaparece. Uma sacerdotisa da Força aparece e afirma: Você conquistou sua Húbris, agora precisa encarar as tentações.

yoda 2

Esse fragmento do episódio é de fato bem arquetípico. O Mestre Yoda é conduzido a uma caverna. As cavernas são, por excelência, os símbolos da entrada e descida ao inconsciente, da “Katabasis” do herói, a descida a mundo inferior.

O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a cuja dolorosa exigüidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo.(Jung, 2000, p. 31)

Na consciência, somos nossos próprios senhores; aparentemente somos nossos próprios “fatores”. Mas se ultrapassarmos o pórtico da sombra, percebemos aterrorizados que somos objetos de fatores. (Jung, 2000, p33)

A entrada na caverna aponta para o distanciamento do mundo da consciência e da segurança da coletividade e das relações com o mundo exterior. Entrar na solidão da caverna nos possibilita ouvir e ver o que antes não era perceptível pois, somos despojados do controle e das ilusões de soberania do ego, na “caverna” o ego encontra-se em paridade com os demais conteúdos do inconsciente, o que gera uma profunda ansiedade ao ego. A Sombra do Mestre Yoda, afirma,

– Yoda me odeia, sim… Yoda não brinca comigo mais! Yoda pensa que não sou digno!

O contato com a sombra, isto é, o confronto com a sombra gera muita tensão para o ego. Especialmente porque a sombra se coloca como um adversário, o que não só reprimido mas, rejeitado por não ser adequado a dinâmica da consciência e dos valores da coletividade. Quanto mais identificado com os valores da consciência coletiva for um indivíduo, maior será o distanciamento que o mesmo terá da sombra. Devemos lembrar mestre Yoda foi durante muito tempo um ícone para a ordem Jedi (o mesmo viveu cerca de 900 anos), inspirando em todos a sabedoria e os valores cultivados pela ordem Jedi. Com as Guerras Clônicas, esses valores foram de fato superestimentos em face ao crescimento do poder do lado Negro da Força. É fato, também, que treinamento Jedi visava evitar ou reprimir tudo que pudesse ser relacionado com o lado negro . Por isso mesmo Yoda afirma,

– Yoda não reconhece você!

Não reconhecer a sombra é justamente o que a potencializa, especialmente, por que nos distanciarmos de nós mesmos, de nossas limitações, temores e desejos, de nossa humanidade. Com esse distanciamento, podemos incorrer numa inflação do Ego. Assim, ocorre exatamente como a Sombra de Yoda afirma, “você não vê o que está dentro de você”. Esta afirmação é importante, pois, indica uma a unilateralidade da consciência que faz com que o indivíduo acredite “ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo” (JUNG, 2000a, p. 145). De fato, muitas vezes, nos identificamos com as fantasias que criamos em torno de nós mesmos, que são meios para nos nos defendermos do que não querermos perceber em nós mesmos. Yoda chega a afirmar “Eu Escolhi não dar a você poder!” Fingir que não a sombra não existe ou não “investir” na sombra não a limita nem a incapacita. A Sombra, o Lado Negro responde

Então você passa seus dias na decadência da guerra e com isso eu cresço dentro de você! Conheça seu verdadeiro “eu”! Me encare agora, ou Eu te devorarei!

Tudo o que vivemos nos afeta de uma forma ou de outra. Quer queiramos ou não. Yoda podia controlar suas reações à guerra, controlar seus sentimentos, mas, não podia evitar  que eles existissem. Quanto maior a identificação com a luz da consciência, maior será a escuridão interior, maior será a Sombra. Augusto dos Anjos, em seu poema Versos Intimos diz,

(…)

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

(…)

(ANJOS, 2001, p.85)

Yoda vivia um contexto de guerra, por mais que não aceitasse o lado negro da Força, sua liderança gerava efeitos destrutivos. Os Jedis tinham como principio usar a força como conhecimento e defesa justamente para evitar o lado negro da Força, raiva, ódio, vingança. Contudo, indiretamente ele produzia esse lado negro. O Lado Negro ainda apresenta uma ameaça interessante, afirma que se não for encarado é uma realidade, ou encaramos a sombra ou seremos devorados por ela, em neuroses e suas somatizações. No vídeo, Yoda tentou nega-la mais uma vez, dizendo que “parte de mim você, não é”. Essa negação reforça a sombra que inverte sua posição e retoma o ataque.

Parte de você eu sou! Parte de tudo que vive! (Continuando o ataque feroz a Yoda) Porque você odeia o que te dá poder?! Yoda pensa que não sou digno!

Acredito que essa parte seja muito importante. Penso que a Sombra, o Lado Negro, não se refere a si mesmo quando questiona “porque você odeia o que te dá poder!?” Acredito que esse questionamento se refere a própria Força. A força é composta tanto pelo lado luminoso quanto o lado sombrio, negar o lado sombrio também é negar a Força. Trazendo para nossa realidade, a Vida é luminosa e sombria, negar os aspectos sombrios é negar a própria vida. A sombra, não é em si mesma negativa.

Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras tradicionais. (JUNG, 1999, p. 83)

Aceitar a sombra é o primeiro passo em direção a totalidade, a integração e a um viver pleno. A cena que se segue é importante, Yoda afirma,

Eu reconheço você agora! (o que assusta e faz com que o Lado Negro inicie outra investida, mas, Yoda usando da força, para o ataque e continua dizendo) Parte de mim você é, sim (e começa a atrair o Lado Negro para próximo de si) Mas poder sobre mim, você não tem! Sou eu quem controla você! Controle sobre mim você não possui! Meu lado Negro você é, e eu te rejeito.

Aceitar a sombra, reconhecer sua presença e a traze-la parto da consciência é um desafio enorme. Jung afirma que

Todos nós trazemos conosco essa sombra, isto é, o aspecto inferior e, portanto, oculto da personalidade, a fraqueza que pertence a toda força, a noite que sucede a ao dia, o mal do bem. Reconhecê-lo vem naturalmente junto com o perigo de sucumbir à sombra. No entanto, com esse perigo nos é dada a possibilidade da decisão consciente de não sucumbir a ela.(JUNG, 1999b, p. 86)

Aceitar, integrar a sombra não significa se entregar a mesma. A rejeição de Yoda, neste caso, não é uma negação, não é fechar aos olhos. Pelo contrario, rejeitar a sombra é aceitar a dualidade interna. Sucumbir a sombra, ou aceita-la incondicionalmente é ser tomado por ela – como foi com Anakin Skywalker – por isso, a escolha de e o toque na sombra, o toque como um gesto simbólico e transcendente que integra a sombra, trazendo a responsabilidade de saber quem se é, assim como, de ser responsável pelas próprias escolhas. Rejeitar a Sombra nesse caso é assenta-la no lugar que apropriado. Para pensarmos essa rejeição podemos pensar nas tentações de Cristo, que interpretamos como a integração da Sombra, após a terceira tentação Cristo o texto diz “Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus e só a ele preste culto’”. (Mateus 4:10 -NVI)

Após tocar a sombra e integra-la, a sacerdotisa da Força aparece e afirma “ Você conquistou sua Húbris”. A Húbris é o termo grego que pode ser traduzido como desmedida, excesso, orgulho, arrogância, vaidade, tudo que passa dos limites. A Hubris de Yoda certamente estaria vinculada ao lado luminoso da Força, a um ideal jedi. Reconhecer a imperfeição, reconhecer a sombra, é um ato de humildade de nos coloca em nossa própria realidade, em nosso próprio tamanho, de forma saudável. Para Yoda, reconhecer o lado Negro em si, aceita-lo, implica em um ato continuo de humildade. No dia a dia, vemos muitas situações em que as pessoas querem ser “boas”, corretas, agradáveis muitas vezes, numa compensação da própria sombra, buscam pelo extremo oposto negar o que há em sua sombra, isso só gera uma projeção ainda maior da sombra e uma incompatibilidade com a vida. Quase todas as tradições religiosas advertem contra esse excesso e a moderação, mesmo não sendo tão comentado no cristianismo de hoje, a bíblia diz

Não seja excessivamente justo nem demasiadamente sábio; por que destruir-se a si mesmo? Não seja demasiadamente ímpio e não seja tolo; por que morrer antes do tempo? É bom reter uma coisa e não abrir mão da outra, pois quem teme a Deus evitará ambos os extremos. (Eclesiastes 7:16-18 – NVI)

Assim, perceber a nossa sombra, as nossas limitações, a nossa humanidade nos permite ter uma relação mais saudável com as pessoas, assim como com nós mesmos.

Referências

ANJOS, A. Eu e Outras Poesias, L&PM Pocket: Porto Alegre. 2001

ECLESIATES in BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

MATEUS in BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

JUNG, C.G. Natureza da Psique, Vozes:Petrópolis, 2000a.

___________ Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Petropolis: Vozes, 2000b.

___________ Psicologia e Religião, Petropolis: Vozes, 1999.

___________ Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999b

Breve comentário sobre o filme “Um Método Perigoso” de Cronenberg

(29 de abril de 2012)

Finalmente,  eu assisti ao filme mais comentado nas comunidades junguianas nos últimos tempos “Um Método Perigoso” de David Cronenberg. Gostaria de fazer um comentário geral, sem me apegar a detalhes da narrativa.(fazendo assim, spoilers)

O filme tem o mérito inegável de uma excelente fotografia, com paisagens lindas, uma caracterização impecável dos personagens, especialmente dos secundários, como Bleuler, Gross,  Ferenczi. Foi feito um trabalho realmente fabuloso. Mas, especificamente do triangulo sobre o qual a história se desenvolve acho que devo comentar individualmente.

Sobre Freud, de Viggo Mortensen, ficou bem caracterizado, um trabalho excelente de Mortensen, contudo, na minha opinião, Freud pareceu apenas “alguns anos” mais velho que Jung – quando na verdade a diferença era de 20 anos, sei que pode parecer um “excesso” de detalhismo, mas, a diferença de idade foi fundamental para o estabelecimento da relação de respeito e “autoridade” com Jung.

Acerca de Sabina Spielrein… confesso que fiquei profundamente incomodado. A Keira Knightl2ey fez uma interpretação que me pareceu tão caricata, com caras e bocas, ao longo de todo o filme. Se considerarmos que o filme aponta acontecimentos de um período de quase 10 anos. Sabina foi internada em 1904, obteve alta cerca de 1905. Cursou medicina, período no qual teve o envolvimento com Jung, mesmo no final desse período, cerca de 5 anos após sua internação, a Sabina Spielrein de Knightley continua se estivesse acabado de sair da internação. Mas, porque isso me incomodou? Justamente, porque Sabina se tornou uma mulher importante no meio psicanalítico, como o próprio filme indica, e, por outro lado,

Spielrein se apresentara a Freud em 11 de outubro de 1911, e tinha começado a freqüentar seus seminários depois de ter se transferido para Berlim. E, em 25 de novembro de 1911, na presença de 18 membros, entre os quais Freud, Federn, Rank, Sachs, Stekel e Tausk, explica numa conferência as suas idéias sobre o instinto de morte. (…) Um dia depois, Freud comunicava a Jung as suas impressões: “Sabina Spielrein  leu  ontem um capitulo do seu trabalho, (…) ao que se seguiu uma discussão instrutiva. Vieram-me à mente algumas formulações contra seu (…) modo de trabalhar com a mitologia, que também expus a jovem Spielrein. do resto, ela é verdadeiramente talentosa, eu começo a entender…(CAROTENUTO, 1984, p. 35-6)

Seria difícil uma mulher conseguir o respeito da sociedade psicanalítica de Viena fazendo caras e bocas. Enfim, fiquei decepcionado com atuação da Keira Knightley, pois, mais, que “amante doente” de Jung, Sabina Spielrein foi uma mulher que sofreu, superou e influenciou de uma forma direta ou indireta dois dos maiores gênios do século XX. Acredito que o filme “Jornada da Alma” (2003) fez mais justiça a Sabina Spielrein que este.

O Carl Gustav Jung de Michael Fassbender ficou bem caracterizado, mas, vale lembrar que Jung possuia um porte um tanto quanto “avantajado”, entre os amigos tinha o apelido de “barril”, e a diferença de altura entre Jung e Freud era tamanha que na foto do Congresso de Psicanálise de 1911, Freud pediu um banco para subir para não ficar abaixo de Jung. Mas, certamente, esse primeiro aspecto não influi em nada, é apenas uma curiosidade. O segundo, por outro lado, chamou muita atenção: o Jung de Fassbender me pareceu profundamente inseguro. Não podemos perder de vista que antes de conhecer Freud, Jung já era assistente do Dr. Bleuler, privatdozent da Faculdade de Medicina de Zurique (1905-1913), palestrante oficial do Hospital Burgholzli.  Jung era altivo e orgulhoso, seria estranho Freud confiar o “futuro” do movimento psicanalítico a um homem confuso e inseguro como o Jung de Fassbander.

Faço esses comentários não para desmerecer o filme, mas, para lembrar que um filme, por mais bem intencionado, não faria justiça aos personagens históricos que o inspiraram. E, assim, devemos buscar estudar e conhecer mais esses personagens de modo a “completar” em nós mesmos a lacuna deixada pelo filme, que é apenas um vislumbre desses nomes.

Apesar desses comentários, os fatos históricos foram retratados de forma bem fiel, como as 13 horas do primeiro encontro, a viagem aos EUA, a crise de síncope, alguns diálogos relatados no Memórias, Sonhos e Reflexões, a troca de cartas (pois, boa parte da relação deles foi epistolar e não presencial),  buscando fazer um retrato o mais fiel possível da relação de Freud e Jung.

Assim, por conhecer a história, o filme não me impressionou, certamente foi incomparavelmente melhor ao antecessor “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) de 2003. Mas, acredito que para quem nunca estudou a história do movimento psicanalítico, o filme apresenta um belo retrato daquele momento, instigando espectador buscar maiores informações acerca dos primórdios das abordagens do inconsciente.

Vale a pena ser visto, como um primeiro passo nessa jornada de estudo.

Referências Bibliográficas

CAROTENUTO, Aldo (org.). Diário de Uma Secreta Simetria. RJ: Paz e Terra,. 1984.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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