Breve comentário sobre o filme “Um Método Perigoso” de Cronenberg

(29 de abril de 2012)

Finalmente,  eu assisti ao filme mais comentado nas comunidades junguianas nos últimos tempos “Um Método Perigoso” de David Cronenberg. Gostaria de fazer um comentário geral, sem me apegar a detalhes da narrativa.(fazendo assim, spoilers)

O filme tem o mérito inegável de uma excelente fotografia, com paisagens lindas, uma caracterização impecável dos personagens, especialmente dos secundários, como Bleuler, Gross,  Ferenczi. Foi feito um trabalho realmente fabuloso. Mas, especificamente do triangulo sobre o qual a história se desenvolve acho que devo comentar individualmente.

Sobre Freud, de Viggo Mortensen, ficou bem caracterizado, um trabalho excelente de Mortensen, contudo, na minha opinião, Freud pareceu apenas “alguns anos” mais velho que Jung – quando na verdade a diferença era de 20 anos, sei que pode parecer um “excesso” de detalhismo, mas, a diferença de idade foi fundamental para o estabelecimento da relação de respeito e “autoridade” com Jung.

Acerca de Sabina Spielrein… confesso que fiquei profundamente incomodado. A Keira Knightl2ey fez uma interpretação que me pareceu tão caricata, com caras e bocas, ao longo de todo o filme. Se considerarmos que o filme aponta acontecimentos de um período de quase 10 anos. Sabina foi internada em 1904, obteve alta cerca de 1905. Cursou medicina, período no qual teve o envolvimento com Jung, mesmo no final desse período, cerca de 5 anos após sua internação, a Sabina Spielrein de Knightley continua se estivesse acabado de sair da internação. Mas, porque isso me incomodou? Justamente, porque Sabina se tornou uma mulher importante no meio psicanalítico, como o próprio filme indica, e, por outro lado,

Spielrein se apresentara a Freud em 11 de outubro de 1911, e tinha começado a freqüentar seus seminários depois de ter se transferido para Berlim. E, em 25 de novembro de 1911, na presença de 18 membros, entre os quais Freud, Federn, Rank, Sachs, Stekel e Tausk, explica numa conferência as suas idéias sobre o instinto de morte. (…) Um dia depois, Freud comunicava a Jung as suas impressões: “Sabina Spielrein  leu  ontem um capitulo do seu trabalho, (…) ao que se seguiu uma discussão instrutiva. Vieram-me à mente algumas formulações contra seu (…) modo de trabalhar com a mitologia, que também expus a jovem Spielrein. do resto, ela é verdadeiramente talentosa, eu começo a entender…(CAROTENUTO, 1984, p. 35-6)

Seria difícil uma mulher conseguir o respeito da sociedade psicanalítica de Viena fazendo caras e bocas. Enfim, fiquei decepcionado com atuação da Keira Knightley, pois, mais, que “amante doente” de Jung, Sabina Spielrein foi uma mulher que sofreu, superou e influenciou de uma forma direta ou indireta dois dos maiores gênios do século XX. Acredito que o filme “Jornada da Alma” (2003) fez mais justiça a Sabina Spielrein que este.

O Carl Gustav Jung de Michael Fassbender ficou bem caracterizado, mas, vale lembrar que Jung possuia um porte um tanto quanto “avantajado”, entre os amigos tinha o apelido de “barril”, e a diferença de altura entre Jung e Freud era tamanha que na foto do Congresso de Psicanálise de 1911, Freud pediu um banco para subir para não ficar abaixo de Jung. Mas, certamente, esse primeiro aspecto não influi em nada, é apenas uma curiosidade. O segundo, por outro lado, chamou muita atenção: o Jung de Fassbender me pareceu profundamente inseguro. Não podemos perder de vista que antes de conhecer Freud, Jung já era assistente do Dr. Bleuler, privatdozent da Faculdade de Medicina de Zurique (1905-1913), palestrante oficial do Hospital Burgholzli.  Jung era altivo e orgulhoso, seria estranho Freud confiar o “futuro” do movimento psicanalítico a um homem confuso e inseguro como o Jung de Fassbander.

Faço esses comentários não para desmerecer o filme, mas, para lembrar que um filme, por mais bem intencionado, não faria justiça aos personagens históricos que o inspiraram. E, assim, devemos buscar estudar e conhecer mais esses personagens de modo a “completar” em nós mesmos a lacuna deixada pelo filme, que é apenas um vislumbre desses nomes.

Apesar desses comentários, os fatos históricos foram retratados de forma bem fiel, como as 13 horas do primeiro encontro, a viagem aos EUA, a crise de síncope, alguns diálogos relatados no Memórias, Sonhos e Reflexões, a troca de cartas (pois, boa parte da relação deles foi epistolar e não presencial),  buscando fazer um retrato o mais fiel possível da relação de Freud e Jung.

Assim, por conhecer a história, o filme não me impressionou, certamente foi incomparavelmente melhor ao antecessor “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) de 2003. Mas, acredito que para quem nunca estudou a história do movimento psicanalítico, o filme apresenta um belo retrato daquele momento, instigando espectador buscar maiores informações acerca dos primórdios das abordagens do inconsciente.

Vale a pena ser visto, como um primeiro passo nessa jornada de estudo.

Referências Bibliográficas

CAROTENUTO, Aldo (org.). Diário de Uma Secreta Simetria. RJ: Paz e Terra,. 1984.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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