“Individuação Dói”–Reflexões sobre o processo de individuação e “novo nascimento”

(5 de maio de 2012)

Há pouco tempo, encontrei minha querida amiga Carolina A. Silva, numa rápida conversa, ela fez um comentário que me mobilizou bastante, ela afirmou que “Individuação doí”. Saí daquele encontro com essas palavras …”individuação dói”.

De fato, a individuação é um processo que pode ser marcado por fortes angústias e, por isso mesmo, é associado a “crise da meia idade”.  Mas, para entendermos um pouco melhor essa “crise de individuação” ou a “dor de individuação” eu gostaria de usar uma experiência pessoal como metáfora.

Quando era pré-adolescente com meus 11 ou 12 anos, eu tive uma leve fratura no tornozelo e precisei engessar, bem, eu não era uma criança não muito “ortodoxa”, assim, fiquei duas semanas com o gesso, chegando a véspera do dia que eu deveria retirar o gesso, eu optei em ir para a garagem da minha casa, enfiei o pé balde d’água e cortei o gesso. O problema foi quando eu coloquei o pé no chão, não conseguia firmar o pé, sentia um pouco de dor, e como se estivesse sem força, como se não conseguisse controlar meu pé. Durante um tempo pensei que era tinha errado, que deveria esperado mais um dia, fiquei com medo do que meu pai diria, foi um turbilhão de pensamentos, sentimentos e e sensação de dor.

Mas, com o passar das horas, com o exercício de tentar pisar. Enfim, “tomei posse” do meu pé. Essa experiência foi muito angustiante.

Acredito que essa experiência pode nos ajudar bastante a compreender nosso tema. Pois, quando falamos em processo de individuação falamos num redimensionamento da persona, no confronto e assimilação da sombra, integração da anima/us e constelação do self. Todo esse processo tomar consciência da persona e confronto com a sombra nos conduz ao conhecimento do que sou, do faço, do que vivo. Por analogia, a crise de individuação se inicia a tomada de consciência do gesso ou da vida engessada. Se por um lado o gesso protege,  por outro ele limita, tira os movimentos.

A dor da individuação começa quando nos damos conta da irrealidade em que vivemos. Quando nos damos conta que precisamos respirar, nos mover, ser. Tão difícil quanto reconhecer o gesso é retira-lo, pois, exige muito esforço. É preciso corta-lo, não dá apenas para flexibiliza-lo.

Quando retiramos o gesso, nos deparamos com uma outra realidade. O membro não “obedece”, não tem força, como se não fosse “nosso”. Ao mesmo tempo, temos a experiência de amplitude e liberdade vem o receio, estranheza… Abrindo as portas para a possibilidade das possibilidades. Acredito que essa seja uma metáfora possível para o encontro com a anima.

Quando pensamos em individuação, estamos falando de um processo de tornar-se indivisível, isto é, um processo de integração total do individuo. Essa integração implica em reconhecer que estou invariavelmente e intrinsecamente relacionado com o mundo (que muitas vezes, nós vemos, mas, não enxergamos) e por outro lado, estou profundamente enraizado em “mim mesmo”. Assim como uma árvore é nutrida pela Terra, o “eu” é nutrido pela “Self”. Note que eu não usei solo, mas, sim Terra. Pois, eu me refiro ao planeta, pois, uma árvore precisa mais do que apenas solo para crescer, precisa da chuva, precisa do ar, dos ciclos das estações do planeta em torno do sol. Da mesma forma, o Self está para muito além da compreensão individual, pois, o Self representa o potencial universal de nos tornarmos o nosso melhor, de nos tornarmos únicos.

Quando nascemos temos todo o potencial para nos tornarmos humanos. Isto é, viver como humanos, falar como humanos, nos relacionar como humanos, amar como humanos etc… no geral, a cultura nos torna humanos, molda nossa linguagem, molda a forma de nos relacionar, molda nossa moral e a forma de ser no mundo. Tudo isto é dado pela cultura. No “processo de individuação” não somos mais lançados na humanidade, mas, sim, podemos assumir a nossa humanidade e o potencial de ser “além do homem”, saindo do genérico para o único.

A individuação dói por ser um novo nascimento. Dói porque é um “libertar-se” de um gesso existencial. Dói o processo de integração e de tornar-se si-mesmo, isso implica em fazer escolhas e assumir a responsabilidade pela vida. A temática do “novo nascimento” ou “renascimento” indica exatamente o processo de individuação. Vejamos, um pouco desta esta dinâmica arquetípica

Dimensão arquetípica do renascimento.

Para pensarmos o renascimento ou novo nascimento, vamos usar para referência duas tradições que nos são próximas a cristã e a afrobrasileira, do candomblé.

Assim, na tradição cristã, um dialogo que excepcionalmente interessante em nosso contexto,

Em resposta, Jesus declarou: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”.
Perguntou Nicodemos: “Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer! ”
Respondeu Jesus: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito.
O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito.
Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo.
João 3:3-7 (NVI)

Na tradição cristã, esse dialogo se constitui fundamental para se compreender aconversão(metanóia) que tem como principal marco o batismo, o novo nascimento, que vai abrir as portas para o “reino de Deus”. Apesar de todas as denominações cristãs reconhecerem a importância do batismo, cada um atribui um significado para o rito, que segundo algumas tradições simboliza a morte do velho homem e o nascimento do novo homem em Cristo.

Assim, novo nascimento ou nascimento espiritual indica simbolicamente a integração do individuo a uma realidade superior, uma integração com Deus, o homem deixa de ser criatura para ser filho. Uma vez que este passa a ser filho de Deus, podendo assim, também, participar da comunidade cristã, isto é, da Igreja de Cristo.

Por outro lado, na tradição afro-brasileira do candomblé, temos uma referência similar, pois, a iniciação não só integra o individuo ao “povo-de-santo” ou “família-de-santo”.

A iniciação, cumprindo a formalização do contrato entre individuo e divindade, marca diacriticamente o ser social em formação, uma vez que a relação estabelecida é única e individualizada. (…)

Isto se refere as etapas preliminares da “lavagem de contas”, o recebimento do colar sacralizado cujas contas são da cor da insígnia do seu orixá, ou a rituais como o bori, cerimônia mais complexa destinada a reforçar a cabeça do iniciante, que supõe um período de recolhimento e descanso do corpo, e ainda ao “assentamento do santo” quando é construída ritualmente uma representação e são sacralizados objetos que representam o orixá associado ao fiel.

Entendemos que a construção social da pessoa no candomblé expressa, dessa forma, tanto o processo de individuação como o de integração social. (BARROS e TEIXEIRA, 2000, p.110-112)

No candomblé a iniciação é um processo longo, onde tudo na vida do iniciado será mudado, inclusive seu nome como será conhecido pelo povo-de-santo. Devemos observar que na iniciação do candomblé o fiel e passará a ter uma série de obrigações com seu orixá e com a casa onde ele passará a pertencer.

Tanto no cristianismo como no candomblé o novo nascimento no desenvolvimento de uma relação vertical ( isto é, com a divindade) e uma relação horizontal (com a comunidade dos fiéis). Acredito que esses dois elementos – a relação com o divino e com o social – são fundamentais, pois, implicam numa mudança ou transformação da atitude do individuo tanto em sua intimidade (na relação com o divino) quanto no aspecto público. No candomblé isso é ainda mais visível, pois, após a iniciação o yàwó deve respeitar uma série de restrições alimentares, sexuais, da cor da roupa. Ao devoto as mudanças ou a transformação que ele atravessa pode não ser interpretada de como sofrimento, dado o significado interior, contudo, para quem não participa desse símbolo, percebe há um sofrimento envolvido. Por outro lado, no cristianismo, não é sem razão que Cristo afirma “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Mt 16:24

Destaquei, esses dois ritos ou símbolos do cristianismo e do candomblé. Justamente porque em nossa cultura brasileira somos atravessados por essas duas matrizes. Conscientemente, somos cristãos, agimos, sentimos, pensamos como cristãos. Contudo, inconscientemente, estamos irremediavelmente imbuídos da tradição negra (ou vice-versa) Mesmo que nunca tenhamos pisado ou sonhado em pisar num terreiro, a força e o ímpeto negro de preservar sua identidade cultural (que formou candomblé) chega até nós através de nossa música, literatura, nossa língua, nossa culinária, nossas festas. E, até mesmo, na forma como cultuamos no cristianismo. Somos atravessados pelo sincretismo.

Vida Significativa e Vida Simulada

No contexto das religiões citadas, o batismo e a feitura de cabeça são rituais de passagem de uma vida profana, vulgar para uma vida significativa, espiritual em contato com uma realidade maior. Onde tudo é significativo.

No contexto do processo de individuação saimos de uma vida simulada, isto é, uma vida falseada seja pelos medos, seja pelas exigências externas – o “ter que agradar os outros” – para um vida significativa, onde, o individuo está inteiro em cada ação. Esta integração abrange tanto a relação do individuo consigo mesmo quanto a relação com o mundo externo, sendo marcada por uma profunda coerência.

O processo de individuação não termina. É uma constante. Escolher muitas vezes gera angústia. E, isso dói. Contudo, a dor, a tristeza, o medo e a saudade fazem parte da vida. A diferença que quando falamos de individuação, falamos em atravessar a dor e não em ficar presos na mesma, são apenas momentos existênciais, que já não podem ser negados.

Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria
Não se pode fechar os olhos
Não se pode olhar pra trás
Sem se aprender alguma coisa pro futuro

(Renato Russo, L´Aventura)

Referências bibliográficas

BARROS, José Flávio Pessoa de; TEIXEIRA, Maria Lina Leão. O código do corpo: inscrições e marcas dos orixás. In: MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (org.).Candomblé:religião do corpo e da alma: tipos psicológicos nas religiões afro-brasileiras. Rio de Janeiro: Pallas, p. 103-38, 2000

Nota : Apesar de não ter feito uma citação explicita, indico sobre o candomblé o blog “Candomblé – o mundo dos Orixás”http://ocandomble.wordpress.com/  , do qual sou leitor e admirador. Lá você poderá encontrar informações excelentes acerca desta religião.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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