Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 1

O ego é um conceito fundamental para a psicologia analítica pois é a partir dele que podemos compreender e delimitar a relação com os objetos tanto internos e externos, distinguindo a realidade interna e externa. Compreendendo essa importância e, para provocar a reflexão acerca do ego, em algumas situações eu perguntei provocativamente “Onde está o seu ego?” Tal pergunta era recebida com estranheza, desconfiança e, frequentemente, silêncio. As vezes a resposta se dava numa pergunta titubeante “está na consciência? ” Ou “está na cabeça? ”.  Essas respostas explicitavam o quanto nosso enfoque acerca do inconsciente eclipsava os estudos e desenvolvimentos acerca do ego e dos processos da consciência.

A dificuldade ou falta de clareza a respeito de uma construção de uma teoria acerca do ego é um fato que comentado por diferentes autores.  Para Samuels(1989)

Uma dificuldade ocorre porque Jung usa de forma intercambiável “ego”, “complexo do ego”, “consciência do ego” e “consciência”. Outro problema é seu uso de metáforas ambíguas: o ego tanto pode ser visto como uma pele esticada sobre o inconsciente (CW 18, § 122) e, ao mesmo tempo, o centro da consciência (CW 6, § 706). (SAMUELS, 1989, 77)

Evers-Fahey (2017) concorda com essa falta de clareza e aponta quatro possíveis razões para essa dificuldade em relação ao ego. Em primeiro lugar, ela aponta que Jung não seguia uma definição ou conceituação determinada, antes dava diferentes descrições sobre o ego em sua obra completa assim como em suas cartas; em segundo lugar, o uso dos termos “ego”, “complexo do ego” e “ego consciência” indicavam que a ênfase do Jung era mais voltada para o significado do ego do que para estruturar o conceito.

A terceira razão apontada por ela, é que as ideias de Jung evoluíram correlacionadas a sua vida profissional, muitas das ideias acerca do ego organizadas no período em que Jung ainda colaborava com Freud, após a ruptura a forma como Jung organizou sua compreensão a partir de uma perspectiva relacional e dinâmica do ego. E a quarta razão é que Jung não organizou uma metapsicologia do ego pois seus interesses se dirigiam para outro lugar, especialmente a compreensão dos arquétipos e o Self.

Em todo caso, apesar de não sistematizar uma teoria acercado do ego Jung fez considerações importantes que nos abrem a possibilidade pensar o Ego. Samuels aponta que  

é útil considerar as ideias de Jung sobre o ego sob três aspectos: (a) O ego pode ser visto o como um núcleo arquetípico da consciência, e, portanto, trata-se de um complexo do ego com uma série de capacidades inatas. (b) O ego pode ser visto como um elemento na estrutura psíquica em termos de suas relações com o Self (c) Finalmente Jung ás vezes adota uma perspectiva de desenvolvimento a partir da qual se pode visualizar as exigências mutáveis feitas ao ego nos vários estágios da vida. (SAMUELS, 1989, p. 77)

Assim, devemos pensar o ego em seus aspectos de desenvolvimento, funções e dinâmica.

Formação e Desenvolvimento do Ego

O primeiro aspecto fundamental para pensarmos o ego é compreende-lo em seu processo de formação e desenvolvimento. Esse aspecto, em especial, não encontra uma forma própria na obra de Jung. Os dois teóricos que procuraram preencher essa lacuna foram Erich Neumann e Michael Fordham. Apesar de reconhecer a importância de Neumann, enfatizaremos a compreensão de Fordham sobre o desenvolvimento, focalizando sua compreensão acerca do desenvolvimento do Ego.

No modelo de Fordham não há um ego formado no momento no nascimento, o bebê constitui um self primário ou original. Este é self é uma unidade psicofísica integrada, ou seja, todo potencial de desenvolvimento psicofísico está contido ou integrado no self e será atualizado, liberado na interação com o ambiente( que inclui a mãe, pai, roupas, manejo da criança),. A relação com o ambiente se caracteriza pelas relações objetais, que irão qualificar a experiência com o ambiente e a qualidade da experiência, influenciando nos processos de apego e constituição do ego, por ora focaremos na formação do ego.

O self primário traz consigo a potência do desenvolvimento, experiência da totalidade integrada não pode ser percebida ou representada. O potencial humano arquetípico do self se desenvolve em diferentes níveis: biofisiológico; relacional e representacional. O próprio desenvolvimento biofisiologico possibilita estado propício a apreensão dos estímulos, que levará a atualização ou humanização do potencial arquetípico formando as bases sobre as quais o psiquismo se organizará. 

O processo de atualização e humanização arquetípico se desdobra num processo continuo e rítmico que Fordham denominou de deintegração e reintegração. A deintegração implica na ativação do self, isto é, ou partes do self que frente aos estímulos apresentam um estado de “prontidão para a experiência, uma prontidão para perceber, uma prontidão para agir instintivamente, mas não uma percepção ou ação real”. (Fordham, 1957, p.127). Os deintegrados representam a possibilidade de resposta ou reação aos estímulos, a experiência é reintegrada e gradativamente formando as primeiras experiências do bebê. Através do processo de deintregração-reintegração o self desdobra-se, transformando de um self integrado, atemporal, para um self relacional, presente e representacional.

Para exemplificar, na primeira infância a deintegração do self ocorre inicialmente através estímulos sonoros, táteis, luz, orais – que ativam diferentes partes do self. Notemos, nesse momento as experiências estão intimamente relacionadas ao self primário integrado que é psicossomático, por isso não falamos de imagens, símbolos ou consciência pois, ainda não se diferenciaram. Todos esses processos são arquetípicos, por excelência, pois os arquétipos são os padrões basais de organização psíquica, assim Fordham não nomeou este ou aquele padrão arquetípico – pois, nos referimos a um momento pré-egoico e pré-simbólico. Essas experiências são reintegradas, atualizadas ao self no sono, no descanso do bebê.

A relação afetuosa do bebê e sua mãe possibilita segurança para manutenção desse processo de deintegração e reintegração. Na etapa inicial do desenvolvimento não há distinção entre consciente, inconsciente, realidade interior ou exterior. A deintegração exprime uma dinâmica da energia que se dirige aos estímulos, e retorna ao self sendo reintegrada. Os deintegrados do self formam os primeiros objetos do self. Quando falamos de objetos, nos referimos qualquer coisa, ideia ou situação para onde a energia se dirige.

Embora ao nascer o bebê se caracterize por relações objetais, parece evidente que a natureza de seus objetos seja composta. Algumas de suas percepções são objetivas, mas o grosso delas está fortemente carregado de energia proveniente do deintegrado do self. Essa energia organiza a percepção de forma que o objeto se toma algo que poderia ser chamado de objeto do self (FORDHAM, 2001, p.92)

Devemos observar que o self se relaciona de uma forma fragmentaria com a realidade e essa relação se baseia em aspectos primários, sensoriais. Essa relação se dá em termos simples baseado em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As relações com o ambiente/mãe e suas transformações (satisfação-insatisfação; conforto-descontorto, prazer-desprazer etc) possibilitam o inicio da distinção de self e não-selt, ou seja, possibilitando contornos que diferenciem os objetos externos e os objetos do self. 

Os objetos do self possibilitam que a energia dirigida e atualizada na relação com o ambiente formem centros de consciência, que expressam parcialmente o self, que são as representações do self. Estas representações que formam as bases de uma consciência de si mesmo, sentido de continuidade, de fronteiras que distinguem o self do não-self  de uma auto-percepção que levará a formação de uma imagem corporal e um senso de integridade. As representações do self, como aspectos parciais do self que foram deintegrados, formam os “fragmentos” ou “núcleos do ego” que vão ser integrados pela atividade integradora do self.          

Na formação do ego se dá através de pequenos núcleos, resultantes da deintegração, que logo se ligam para que se possa falar de um centro de consciência como nos escritos de Jung. Nesse processo, função integrativa do self desempenha um papel essencial. O corpo principal do ego, às vezes chamado de ego central, tem uma relação especial com o arquétipo do self. Esse arquétipo central pode ser pensado em um organizador do inconsciente: contribui significativamente para a formação do ego central em que encontra expressão, especialmente em experiências conscientes de individualidade. (FORDHAM, 1985, p.32 – tradução nossa)[1]

Deve-se notar que este não é um processo linear. Afirmamos no início, que não há um ego constituído no nascimento, contudo, toda atividade deintegrativa-reintegrativa visa a formação e desenvolvimento do ego.

Geralmente é sustentado, na visão clássica, que durante a individuação o ego dá lugar ao self,o qual, no entanto, se reflete cada vez mais claramente no ego; em contraste, na primeira infância e ao longo da infância, o organismo visa estabelecer o ego em relação ao mundo da realidade material, os arquétipos e também o self. (FORDHAM, 1976, p.14-5 – tradução nossa[2])

A partir dos 4 meses, as relações objetais se tornam cada vez mais perceptíveis, toda dinâmica do self visa a estabilidade e segurança para que o ego possa lenta e continuamente possa se configurar, este movimento na infância é compreendido também como processos de individuação. Aproximadamente com dois anos notamos um ego estável, contudo, assim como o organismo ele está apenas no início de seu amadurecimento.

Um breve comentário sobre relações objetais e defesas

Não cabe aqui uma discussão ampla sobre as relações objetais, contudo, faremos um apontamento de sua importância. Incialmente essa relação se dá em termos simples baseados em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, prazer e dor visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As experiências satisfatórias, de prazer e segurança são nomeadas como objetos bons, já as experiências de dor, insatisfação e desconforto são nomeadas como objetos maus.

A relação com os objetos bons e maus influenciam diretamente a experiência do self e ego em relação ao ambiente. Visto que, diante de um ambiente seguro (com predominância de objetos bons) os processos deintegrativos e reintegrativo (que ocorre em momentos de descanso/segurança) ocorrem mais segura e intensa, possibilitando abertura e interesse pela realidade exterior. Naturalmente, os objetos de frustração e insatisfação fazem parte e são necessários, contudo, seu predomínio produz ansiedade prejudicando os processos relacionais e vinculares com mãe/ambiente.

As tentativas do self em manter objetos bons e afastar/evitar os objetos maus dão origem as defesas primitivas (defesas do self). Essas defesas atuam de forma controlar ou modificar os objetos(como identificação projetiva e introjetiva, algumas formas de acting out e regressão, idealização, somatização dentre outras). Esse fenômeno pode ser percebido no choro, protesto, evacuação e a agressividade são formas de expulsar ou manter ou recupera/manter com os objetos. As defesas do self são protótipos das defesas do ego.  

As defesas visam manter a estabilidade o organismo de modo propiciar o processo de desenvolvimento da forma mais satisfatória possível. Sob essa perspectiva, as defesas compõem o sistema autorregulatório do self que visam regular a relação com o ambiente, propiciando um meio adequado para o desenvolvimento ou amadurecimento.

No processo de desenvolvimento as defesas possibilitam a estabilidade interna necessária para um sentimento satisfatório de integridade. Mesmo as experiências negativas (internalizadas nos complexos) são mantidas afastadas da consciência. Isso é importante para que esses objetos maus não sejam identificados com o ego em seu processo de amadurecimento, pois ao se identificar com objetos de ansiedade a organização/força do ego seria prejudicada e, assim, a capacidade de autopercepção, autoimagem e autoestima (assim como de estabelecer vínculos estáveis/seguros) seriam comprometidos.

(Em breve postaremos a segunda parte – Gostou? Teve dúvidas? Deixe um comentário!)

Referencias Bibliográficas

SAMUELS,Andrew. Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago, 1989.

EVERS-FAHEY, Karen, Towards a Jungian Theory of the Ego, New York: Routledge, 2017.

FORDHAM, Michael, New Developments in Analytical Psychology: London: Routledge and Kegan Paul, 1957.

FORDHAM, Michael, The Self And Autism, London: William Heinemann Medical Books Ltd, 1976.

FORDHAM, Michael, A Criança como Individuo, São Paulo, Cultrix, 2001


[1] when some ego has formed it will be as a number of small nuclei the result of deintegration, which soon become linked together so that one can speak of a centre of consciousness as in Jung’s writings. In that process the integrating function of the self plays an essential part. The main body of the ego, sometimes called the central ego, has a special relation to the archetype of the self. That central archetype can then be thought of an an organizer of the unconscious: it contributes significantly to the formation of the central ego in which it finds expression especially in conscious experiences of selfhood

[2]It is usually held in the classical view that during individuation the ego gives place to the self, which, ehowever, the ego comes to reflect more and more clearly; by contrast, in infancy and childhood the organism aims to establish the ego vis-à-vis the world of material reality, the archetypes and so also the self.

——————————————————–

Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

Conversão, Desconversão e Representações Arquetípicas

Estudando o livro “Mitologemas” de James Hollis no Grupo Aion, surgiu uma discussão interessante que gostaria de amplia-la um pouco. Essa discussão, até pela linguagem metafórica utilizada nos levou a amplificar a dinâmica simbólica e pensar um pouco sobre  os processos de conversão.

No capitulo intitulado “Deuses”, Hollis faz leitura das forças psíquicas, em outros tempos, eram nomeadas como “deuses”. A energia psíquica basal, fundamental da experiência psíquica, foi denominada por Jung de arquétipos, mas em outros tempos a intuição original deu contornos a essas energias que afetavam a todos de deuses. A energia em si não se modificava, ou se perdia, mas se transitava em direção a diferentes “cascas”, roupagens ou representações. 

Nesse contexto, Hollis afirma que

Para os crentes de verdade, ou para os preguiçosos e insensíveis, uma tal utilização dos deuses parece blasfema por ser aparentemente o deus tribal de outra pessoa, e não o deles. No entanto, eles violaram o primeiro mandamento: nao colocar nenhum deus acima de Deus. O deus que eles adoram é o deus tribal, não o deus que destrói a si mesmo para uma reificação e vai para o subterrâneo em busca de outra forma. Eles cometem o mais antigo dos pecados religiosos, a idolatria, ao adorar a imagem de deus que eles criaram.

Quando olhado de modo arquetípico, um deus é a imagem que surge de uma experiência profunda, um encontro com o mistério. Por isso, a divindade está sempre renovando a si mesma. Como é que se pode consertá-la? Ela é energia, não imagem. A imagem é apenas a casca transitória da divindade. A divindade transborda da casca, confere numinosidade a ela, e quando o ego humano busca consertá-la, adorá-la e constringi-la aos serviços da agenda de segurança do próprio ego, o deus “morre”, o que quer dizer, ele abandona a casca para reencarnar em outro lugar. Esse é o significado do tema da “morte de Deus”, que pode ser encontrado nas mitologias antigas de todos os povos, muito antes do pronunciamento de Nietzsche na metade do século dezenove.

Tal reconhecimento da morte de Deus é, por um lado, uma simples observação de como uma imagem particular tornou-se tão concreta, tão constringida a ponto de não mais mexer com o coração e o espírito das pessoas. (HOLLIS, 2005, 108)

Esse texto é descreve como um símbolo (ou representação arquetípica) pode ser desligado de sua fonte ou matriz arquetípica. Essa desconexão produz um estado de esvaziamento, contudo, a energia originária(do arquétipo) não se perde, se torna inconsciente, não-representada – podendo empobrecer a consciência. A representação pode se manter como um sinal, uma referência desprovida intuição, afeto e emoção que são expressões da energia arquetípica.  Pode haver uma transição para outro campo representacional, manifestando-se em outras formas ou representações. Podemos pensar a transição e amplia-la para a nomenclatura das religiões precisamos pensar um pouco sobre a noção de conversão religiosa.

A conversão é considerada um dos pontos cruciais da vivência religiosa.

a conversão envolve mudança no sistema de valores e visão de mundo (Gomes, 2011). O novo converso assume novas práticas, novos costumes e novas atitudes diante da vida, fenômeno este que representa para a vida do converso “uma divisão de antes e depois da conversão” (Alves, 2005, p.75). A conversão também se caracteriza por novos esquemas de significação; a conversão é “um processo psicossocial que se caracteriza pela desestruturação de esquemas de significação, seguido pela adoção de outro, estruturalmente distinto do primeiro” (…). (FREITAS; HOLANDA, 2014, p.94)

Na psicologia analítica falamos da conversão a partir de seu termo

Escolhas… | by Daniel Mendes | O Rascunhador | Medium

grego, metanóia, como uma expressão da emergência do Self e do processo de individuação. O processo de mudança ou transformação em relação ao podem ser nomeadas como “crises de conversão”. Estas implicariam numa dada atitude interior resultante de a falta de significação que pode se manifestar num sentimento de insuficiência, incompletude relacionada a própria experiência consigo mesmo ou com a realidade em termos de ego. Ávila(2007) fala sobre tipos de conversão:

Baseadas em experiências dramáticas: Se caracterizariam por experiências críticas suscitadas externamente que poderiam ser negativas ou positivas, (tragédias naturais, conflitos armados, acidentes). Diante dessas experiências podem surgir uma significação religiosa como elaboração de tal situação.

Baseadas na Solução para problemas pessoais: Se caracterizariam por situações ou experiências críticas internas. Ou seja, pela culpa, problemas físicos ou psicológicos que encontrariam uma significação ou resolução a partir de uma experiência religiosa.

– Baseadas em Experiência Mística: são caracterizadas pela experiência mística ou êxtase que irrompe da realidade interna trazendo uma nova percepção sobre o individuo e sua realidade.

– Revival ou “despertar religioso”: São movimentos internos ao grupo religioso onde o despertar como um “re-conversão” atua sobretudo de dentro pra fora, em grupo onde o agente catalisador é um líder religioso, que potencializa tanto os sentimento de fé/esperança quanto de culpabilidade. 

Conversão à incredulidade ou desconversão: a desconversão ou apostasia se apresentaria como características uma crise de fé, reflexão e abandono – seguida de uma mudança de percepção e compreensão da realidade. Esse processo está associado com o desenvolvimento de novas relações interpessoais, relações com a realidade exterior ao grupo e a desilusão. 

A conversão e a “desconversão” apontam para dois pólos da dinâmica do símbolo: a emergência e a o declínio.

As conversões apontam para a produção de significado/sentido ou de vida simbólica que essa experiência produz no indivíduo.  A qualidade da experiência religiosa é fundamental, Ávila(2007) nos chama atenção para as formas de viver a religiosidade, ele indica duas possibilidades: uma religiosidade funcional que se baseia no busca por sanar as necessidades do individuo – que daria contornos pessoais a experiência com o sagrado. E a outra, a religiosidade como uma experiência de encontro sustentaria uma expansão da experiência, a busca/encontro de um sentido de vida. Assim, a motivação que conduz ao processo de conversão vai estar relacionado com a manutenção ou não da experiência com o numinoso (sagrado).

Para a psicologia junguiana a psique possui uma função religiosa, isto é, uma função criadora de símbolos – estes podem ser compreendidos a partir da religião. Jung compreendia a religião como expressão da psique, que todos os temos e lugares produziu representações e imagens daquilo que seria o inefável, que chamamos também de do sagrado. A religião seria uma “atitude do espirito humano(…) transformada pela experiência do numinoso” (JUNG, 1980, p.4). Assim, a conversão indica mudanças importantes na dinâmica psicológica do indivíduo, compreende-las auxiliam ao clinico compreender o momento que o indivíduo atravessa, sua elaboração simbólica(o que levaria a considerar a linguagem mais adequada) e o processo de individuação.

Por outro lado, a desconversão ou declínio do símbolo/sistema simbólico fala de uma mudança em relação a percepção tanto do símbolo quanto da realidade do sujeito. A desconversão envolve uma crise, um descanto, associada ao um processo um reforçamento das funções racionais e objetivas do Ego. Sobre esse processo de desconversão, Hollis comentou

A divindade transborda da casca, confere numinosidade a ela, e quando o ego humano busca consertá-la, adorá-la e constringi-la aos serviços da agenda de segurança do próprio ego, o deus “morre”, o que quer dizer, ele abandona a casca para reencarnar em outro lugar. (…) (HOLLIS, 2005, 108)

Nesse aspecto, podemos pensar a desconversão podem se dar em função da “agenda do ego”. Ou seja, a experiência funcional, utilitária voltada para suprir necessidades do ego. Esse processo é sutil e lento que restringem e diminuem a possibilidade da experiência simbólica (isto é, estruturante e energética) que sustenta e integra as possibilidades de vida. A agenda ou necessidades do Ego promove uma adesão a grupos e eventos religiosos para usar do sagrado. Muito do trânsito religioso em grupos e igrejas se dá por “adesão” e não conversão, ou seja, uma mudança voltada para mais para uma de ambiente (estética ou litúrgica), relacionamentos interpessoais visando as necessidades do Ego.

Muitas vezes, não significa uma saída de uma instituição religiosa ou grupo mas, uma vivencia medíocre e desprovida de significado interior. O declínio simbólico torna a realidade menos colorida, não indicaria um processo patológico, mas sem o mistério, sem abertura apenas a realidade “nada mais que” a realidade.

Hollis aponta também “(…)Eles cometem o mais antigo dos pecados religiosos, a idolatria, ao adorar a imagem de deus que eles criaram. (…)” As imagens, representações são meios através do qual da consciência se relacionar com a potência arquetípica. São o meio, não o fim. Muitas vezes ficamos inebriados pela representação e nos fixamos nela. Isso leva a uma relação faseada. Clarice Lispector, no conto “Perdoando Deus”, nos ajuda ampliar a percepção, ela nos diz

Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe. (Lispector, 1998, p.)

Esse é belo texto, que nos ajuda a entender a idolatria que que Hollis nos fala – “o adorar a imagem de deus que eles criaram”. As compensações das falhas, dos medos, inseguranças e defesas do Ego criam, na fantasia, um simulacro de Deus, dos deuses ou da vida. Enquanto a experiência de contato for limitada ao desejo ou as necessidades do Ego, a representação se vincula ao ego seja pela busca de uma resposta, uma necessidade ou uma idealização do que o ego jamais será. Assim, essa representação será sempre um espelho de Narciso, um reflexo distorcido de suas próprias insuficiências.

The Narcissus Myth: Early Poets and Versions of the Ancient Story

A desconversão ou o declínio de um símbolo apontam a transição que conduzirá a uma nova conversão (ou emergência). Para tanto é necessária uma mudança na mudança na atitude do Ego, uma abertura para a honestidade da própria insuficiência. Sem honestidade e constrição o Ego continuará criando uma realidade vazia, a sua própria imagem e semelhança. 

Referencias bibliográficas

ÁVILA, Antonio. Para Conhecer a Psicologia da Religião. São Paulo: Loyola, 2007.

FREITAS, Denis de; HOLANDA, Adriano Furtado. Conversão religiosa: buscando significados na religião. Gerais, Rev. Interinst. Psicol.,  Juiz de Fora ,  v. 7, n. 1, p. 93-105, jun.  2014 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-82202014000100009&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  06  jul.  2020.

JUNG, Carl G, Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Petrópolis: Vozes, 1980.

LISPECTOR, Clarice. Perdoando Deus. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998.

Gostou? Deixe um comentário!

——————————————————–

Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

Curso : Jung e sua Obra

 

Abaixo segue a divulgação e do curso de extensão na Paulus – RJ.

 

Café e Debate é um projeto cultural que proporciona cursos de aperfeiçoamento pessoal e profissional promovido pela Paulus.

Curso de Extensão: Livros de C.G. Jung, Estudos Clínicos e Livros Atuais.

Apresentação do Curso:

A psicologia junguiana é pouquíssimo divulgada nas universidades. Atualmente com o movimento da internet está havendo possibilidades de trocas e divulgação por meios não acadêmicos de sua obra. Temos na Paulus vários livros importantes sobre o tema da Psicologia Junguiana e paralelos entre estes e a obra de Jung. Muitos livros ainda não foram traduzidos e é fundamental a leitura dos mesmos, pelo menos a introdução dos temas abordados. Tudo vai facilitar o trabalho com as práticas, bem como divulgar os outros estudiosos da psicologia junguiana em geral.

Curso de Jung e sua Obra
Divulgamos o próximo curso que oferecemos em parceria com a livraria Paulus, na Rua México , 111.
O curso completo (9 palestras) será R$220,00. Aulas avulsas – Quarta R$25,00 / Sábado R$30,00.
Horário: Quarta-Feira de 15h às 17h30 / Sábado 9h30 às 11h30
Inscrições na Livraria! Podem divulgar!

Cronograma curso:
Parte 1 – Introduzindo a Obra de C. G. Jung
08 ABRIL – Quarta – 15h às 17h30
I – A Academia e a Obra de C. G. Jung e a Formação de Analistas – Cynthia Lira e Maddi Damião Junior –
Parte 2 – fundamentos, temas dos livros de Jung e a clínica
18 ABRIL – Sábado – 9h30 às 11h30
I – Jung e Alquimia – Mysterium Coniunctionis e a questão das polaridades – Edinger e Jung – Elizabeth C. Cotta Mello
29 de ABRIL – Quarta – 15h às 17h30 II – Jung e a Imaginação ativa – Livro – Maddi Damião Junior
4 DE JULHO – Sábado – 9h30 às 11h30
III – Sonhos – Priscila Martins e Flávia Medina
Parte 3 – Vivências e discussões teóricas e práticas
8 DE AGOSTO – Sábado – 9h30 às 11h30
I – Arteterapia Junguiana: Leitura de imagens pela arte e Pela Psicologia – Elizabeth Christina Cotta Mello
2 DE SETEMBRO – Quarta – 15h às 17h30
II – Vivência de Arteterapia – Arte e Psicologia Junguiana – Denise Nagem
3 DE OUTUBRO – Sábado – 9h30 às 11h30
III – Recursos expressivos e vivência de Psicologia Junguiana – Clínica e recursos expressivos – Nilce Pinto de Oliveira
18 DE NOVEMBRO – Quarta – 15h às 17h30
IV – Mandala e Cores – Damáris Novo
2 DE DEZEMBRO – Quarta – 15h às 17h30
V – Prática de Psicoterapia – Maddi Damião Junior

Evento: CONGRESSO NACIONAL “CLÍNICA JUNGUIANA E ARTETERAPIA: MITOS E TIPOS”

CONGRESSO DE CLÍNICA JUNGUIANA E ARTETERAPIA: MITOS E TIPOS
QUANDO
: Maio, dia 21,22 e 23 de Maio no Rio de Janeiro.
COMO SE INSCREVER: no site www.praticajunguiana.com  pelo email: praticajunguiana@gmail.com .
LOCAL: Universidade Veiga de Almeida.

INSTITUIÇÕES NA ORGANIZAÇÃO: SBPA – RJ, participação de membros da SBPA – SP; Museu de Imagens do Inconsciente; Terapias Expressivas – UFF e Palestrantes de Mitologias diversas e de Tipos Psicolológicos, além de curso introdutório de Psicologia Analítica. Arteterapia e leitura de imagens. Valores especiais para estudantes em geral, e membros da UBAAT. Apoio: Editora Paulus.
VALORES: As modalidades e os valores de inscrição são os seguintes:
Profissionais – R$260,00 até 20 de Abril e R$360,00 até o dia do congresso
Profissionais da UBAAT – AARJ – R$ 200,00 até 20 de Abril e R$ 320,00 até o dia do congresso
Estudantes de graduação e de pós-graduação – R$180,00 até 20 de Abril e 260,00 até o dia do congresso
Descontos de estudantes da UBAAT – AARJ e Descontos de alunos de graduação e pós-graduação da Universidade Veiga de Almeida; da FAMATH, alunos do curso de Terapia Expressivas – UFF e estagiarios oficiais da Casa das Palmeiras e do Museu de Imagens do inconsciente – R$160,00 até 20 de Abril e 240,00 até o dia do congresso.

Um Minicurso – R$90,00 até 20 de Abril e R$140,00 até o dia do congresso
Desconto para quem vai fazer 03 Minicursos: 200,00 e 250,00 no dia do congresso.

EM BREVE: nome de Palestrantes confirmados!
INSCRIÇÃO DE TRABALHOS: LINHAS TEMÁTICAS
Clínica Junguiana: supervisão e formação
Psicologia Junguiana e Tipos Psicológicos
Pensamento Mítico e Clínica Junguiana
Clínica Junguiana e Arteterapia
Arteterapia e a Mitologia
Arteterapia e Artes Visuais
Arteterapia e Tipologias
Fundamentos Epistemológicos da Psicologia Junguiana e Arteterapia