“Entre Nós” – “Você tem fome de Quê? Transtornos alimentares e Psicologia Analítica

Na manha de 13 de maio tivemos um excelente encontro do “Entre Nós” na Livraria Paulus de Vitória. Foi um excelente encontro com a apresentação do tema por Kelly Tristão. Vejam as fotos abaixo, mês que vem temos mais.

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Ocupação das Escolas no Brasil : Heroísmo e Individuação

Nos últimos dias temos visto crescer o número de escolas e universidades ocupadas por estudantes em nosso país. Essas ocupações são uma expressão de vida e resistência contra o total descaso do governo com a educação, com a saúde e com o futuro de nosso país. A reforma do ensino médio, a proposta de “escola sem partido” e a PEC 241 que impõe o teto aos gastos públicos, explicitam não só que a crise econômica que vivemos mas, uma grave crise moral que ainda precisamos a enfrentar: da naturalização das desigualdades, da corrupção e da culpabilização dos oprimidos.

Diante desta realidade, temos a ocupação das escolas e, tivemos o indescritível discurso da adolescente Ana Julia Pires Ribeiro (PR) na Assembleia Legislativa do Paraná(ALEP) (vide vídeo abaixo). Devemos ter clareza que, quando na psicologia junguiana falamos de individuação, de arquétipos e mitos (em especial do herói), falamos da realidade em que vivemos no aqui e no agora! E por isso mesmo não podemos deixar de reconhecer e viver um momento arquetípico que vivemos. Nada expressa tão bem o impulso heroico que a busca pela transformação, enfretamento de injustiças sociais, a defesa da cidadania e a luta pelo bem comum.

Jung afirmava que “O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro” (Jung, 1999, p. 101). Precisamos ter clareza que a nossa individuação está sempre em relação com a individuação do outro, com o processo individuação de nossa época.  Individuação implica em contato, experiência e abertura.

Dessa forma, não basta tentar “compreender intelectualmente” o fenômeno das ocupações nas escolas; é necessário nos permitir viver, participar, ser afetado e tomar parte. O impulso de individuação, o impulso heroico sempre se confronta com as forças do “status quo”, com a resistência à transformação que muitas vezes se manifesta pela desqualificação dos agentes de mudança ou com a imposição do medo. Isso ocorre tanto no indivíduo (na neurose pessoal) quanto na esfera coletiva – por meio, do jogo de desinformação, as acusações e tudo que promova a imobilidade e a estagnação.

O dinamismo arquetípico do herói se faz no enfrentamento, no movimento, na esperança, na aposta da mudança. Essa é energia necessária ao processo de individuação, e individuação exige responsabilidade – consigo mesmo e com o outro, com o particular e com o coletivo. Assumir essa responsabilidade diante da vida é compreender a individuação.

O discurso da estudante Ana Julia Pires Ribeiro teve repercussão internacional mobilizando inúmeras pessoas tanto a favor quanto contra. O mais importante é que nos chama a responsabilidade pela educação, pela juventude e pelo futuro. A juventude sempre foi a anunciadora da mudança, da possibilidade e transformação. Em nossa realidade, creio que devemos nos mobilizar, nos afetar diante da força e entusiasmo dos jovens de nosso país. Para assim, apoia-los, contribuindo com suas necessidades no processo de ocupação e, assim podermos vivenciar juntos o processo de transformação social que precisamos.

“Toda referência ao arquétipo, seja experimentada ou apenas dita, é “perturbadora”, isto é, ela atua, pois ela solta em nós uma voz muito mais poderosa do que a nossa. Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na espera do contínuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade. E com isso solta em nós aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram a humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver à mais longa noite.” (JUNG, 1999b, p. 70).

 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Ab-reação Analise de Sonhos, Transferência, Petropolis:Vozes, 1999.

JUNG, C.G. O espirito na arte e na ciência, Petropolis: Vozes, 1999b

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Programação do XXIII Congresso Nacional da AJB – A Práxis Analítica

Prezados, 

Hoje foi divulgada a a programação científica do XXIII Congresso Nacional da AJB, que acontecerá em Ouro Preto, de 17 a 20 de Novembro de 2016.

Abaixo segue a programação disponibilizada no site: www.congresso2016.com.br

abraços,

Fabrício Moraes

congresso


PROGRAMAÇÃO CIENTÍFICA

16 de novembro de 2016

Hotel Solar do Rosário: Rua Getúlio Vargas, 270

14:00 Assembléia dos Membros da Associação Junguiana do Brasil (AJB)

17 de novembro de 2016

Auditório Tiradentes B

08:30 | 12:30 Reunião dos Candidatos a Analistas da AJB

 12:30 | 14:00 Almoço por adesão

 Auditório São João Del Rei

14:00 | 14:15 Abertura do Congresso
Discurso de boas-vindas da Presidente do Instituto C. G. Jung de MG e convite para composição da mesa
Jussara César e Melo

14:15  Execução do Hino Nacional
Ana Cristina Rocha

14:20 | 14:45 Discurso do Presidente da AJB
Gelson Luiz Roberto

14:45 | 16:00 A práxis analítica: desafios atuais
Conferencista: Gelson Luiz Roberto

16:00 | 16:30 Espetáculo de mágica, música e Imaginação
Artistas: Dennerson Rocha e Ana Cristina Rocha

 16:30 | 17:00 Coffee Break

 17:00 | 19:00 The Relevance of Complex Ecological Networks to the Practice of Analytical Psychology
Conferencista: Joseph Cambray

 19:30  Coquetel

18 de novembro de 2016

09:00 | 10:00 Mesa de temas livres

Auditório São João Del ReiO Processo de Individuação e Análise
Moderadora: Solange Missagia de Mattos
  • Áurea Helena Pinheiro Roitman
  • Tereza Caribé
Auditório Tiradentes A
Nietzsche e o Processo de Individuação
Moderador: Fernando Andrade
  • Nietzsche e o Processo de Individuação
  • O Processo de Individuação em Nietzsche e Munch
Auditório Tiradentes B
Puer na Clínica Analítica
Moderador: a definir
  • Adultescente-Canguru e sua Bolsa Marsupial: um Olhar sobre os Complexos Familiares
  • Imagens do Puer Aeternus em Dois Pacientes no Rio de Janeiro
  • O Processo do Pequeno Príncipe: uma Introdução ao Arquétipo do Puer Aeternus
Auditório Tiradentes C
A Experiência Junguiana na Clínica da Psicose
Moderador: a definir
  • Prática Analítica: Conflito e Criatividade na Clínica das Psicoses
  • A Práxis Analítica – o Encontro Criativo. Nise da Silveira & Jung. Arte ou Loucura?
  • Sr. Filinto: o Processo de Transformação na Análise Junguiana da Experiência Psicótica
Auditório Tiradentes D
Relacionamento Amoroso
Moderadora: Eneide de Souza Caetano
  • A Reconquista do Amor Ferido – Reflexos do Mito de Eros e Psiquê na Relação Analítica
  • Infidelidade e Individuação: uma Análise Simbólica do Filme “Os Belos Dias”
  • Transformações na Dinâmica das Relações Conjugais: uma Análise Junguiana

10:00 | 10:30 Coffee Break

 Auditório São João Del Rei

10:30 | 12:00 Trazendo a alma ao consultório
Conferencista: José James de Castro Barros

 12:00 | 14:00 Almoço por adesão

 14:00 | 15:30 Reavaliando a Práxis Junguiana
Conferencista: Glauco Ulson

15:30 | 16:30 Mesas redondas

Auditório São João Del Rei
Análise de Criança
Moderadora: Daniela Gauzzi Nogueira
  • Análise de Criança
  • Psicopatologia Infantil e Psicologia Analítica: Estudo de Caso de uma Criança com Diagnóstico de Esquizofrenia
  • Sonhos de Crianças: uma Proposta de Pesquisa para uma Abordagem Simbólica do Desenvolvimento do Ego Infantil
Auditório Tiradentes A
O Corpo na Clínica
Moderador: a definir
  • A Mulher Obesa na Contemporaneidade. Apontamentos da Psicologia Analítica
  • Psicologia Junguiana na Contemporaneidade: a Doença Psicossomática como Reflexo do Desequilíbrio nas Relações Coletivas
  • Trabalho Corporal com Adolescentes como Espaço para Sentir e Ser
Auditório Tiradentes B
A técnica da Imaginação Ativa
Moderadora: Adelaide Pimenta
  • A Técnica da Imaginação Ativa de Jung
  • A Invasão de Pã na Clínica Junguiana
  • Paisagem Psíquica: uma Técnica Expressiva Fundamentada na Psicologia Analítica
Auditório Tiradentes C
Reflexões sobre a Sombra
Moderador: a definir
  • Da Tragédia Grega ao Setting Analítico – Reflexões sobre o Suicídio
  • A Práxis Tipológica Aplicada a uma Instituição de Saúde: Possibilidades de Intervenção Centrada no Potencial de Pacientes Oncológicos
  • Considerações sobre o Encontro com a Sombra em um Estudo de Caso
Auditório Tiradentes D
A Mulher na Perspectiva da Psicologia Junguiana
Moderador: a definir
  • A Noiva – a Presença de um Arquétipo Promovendo o Equilíbrio na Prática Clínica
  • A Relação do Complexo Materno e as Representações dos Papéis Sociais da Mulher
  • Maria Degolada, Violência Doméstica Contra a Mulher na Perspectiva da Psicologia Junguiana

16:30 | 17:00 Coffee Break

 Auditório São João Del Rei

17:00 | 18:30 A totatilidade corpo-mente na clínica. Corpo, transferência e psicopatologia
Conferencista: Walter Fonseca Boechat

18:30 | 19:30 Mesas redondas

Auditório São João Del ReiTransferência e Contra-Transferência
Moderadora: Lunalva Chagas
  • Transferência e Contra-Transferência
  • Somos Dois e Somos Muitos – o Impacto da Transferência e Contratransferência num Atendimento Clínico
  • Trivialidades e Penetrações: Transferência e Alma em Dois Processos Analíticos com Base na Psicologia Arquetípica
Auditório Tiradentes A
Mito e Análise
Moderadora: Josiane Sá de Oliveira Pádua
  • Mito e Análise
  • A Constelação do Mito de Deméter e Perséfone em Mulheres com Câncer de Mama, através de Psicoterapia Breve por Imagens Alquímicas, denominada RIME, em Ambiente Hospitalar
  • A Integração das Polaridades Feminino-Masculino: da Mitologia Brasileira à Prática Clínica
Auditório Tiradentes B
Complexos Familiares
Moderador: a definir
  • A Influência da Constelação Familiar na Formação da Personalidade: um Estudo de Caso de John Rayburn, da Série Bloodline
  • Sol Niger e a História da Alma Familiar: uma Perspectiva Sistêmica na Abordagem Junguiana
  • Repetição do Complexo, Projeção e Individuação
Auditório Tiradentes C
O Jovem Analista Junguiano
Moderador: a definir
  • Implementação do Grupo de Estudos: os Primeiros Passos do Jovem Psicoterapeuta Junguiano
  • Reflexões sobre o Início do Ofício em Ser um Jovem Psicoterapeuta Junguiano
  • Equação Pessoal na Formação do Terapeuta – o Jovem Analista e suas Expectativas
Auditório Tiradentes D
A Prática Clínica com Adolescentes
Moderador: Luiz Guilherme Mafle
  • Pesquisa e Práxis: a Experiência Junguiana em Pesquisa Clínica sobre o Cuidado com Crianças e Adolescentes em Uso de Substâncias Psicoativas num CAPSi
  • Projeto de Vida de Adolescente Atendido por Casa de Acolhimento. Um Relato de Experiência de Atendimentos Clínico de um Adolescente Abrigado e o Atendimento com Arteterapia e Projeto de Vida
  • Redes Sociais Digitais: Desafios na Prática Clínica com Adolescentes

19:30 | 20:00 Lançamento de livros

19 de novembro de 2016

08:30 | 09:30 Mesas Redondas

Auditório São João Del ReiO Fim da Análise

Moderador: a definir

  • Fim da Análise
  • O Final da Análise
Auditório Tiradentes A
Sonhos na Prática Clínica
Moderador: a definir
  • Semeando Sonhos – o Desafio na Formação do Psicoterapeuta para a Aprendizagem do Trabalho com Sonhos na Prática Clínica
  • Quando Tanatos Adentra-se ao Temenos: o Relógio que Para
  • Sonhos: Mensagem da Alma na Práxis Analítica
Auditório Tiradentes B
Metanóia e o Amadurecimento do Adulto
Moderador: a definir
  • Clínica do Envelhecimento: Encontro com Imagens do Feminino
  • Metanóia: Caminhos para o Desenvolvimento no Meio da Vida
  • Um Novo Nascimento: a Passagem para o Adulto Maduro
Auditório Tiradentes C
A Criança, o Adolescente e a Família
Moderador: a definir
  • Adolescência, Complexo e Família
  • A Individuação como Possibilidade Familiar de Lidar com um Diagnóstico Incorreto
  • As Imagens e as Vivências no Processo Arteterapêutico em Unidade Hospitalar de Oncologia Pediátrica
Auditório Tiradentes D
Arte e Práxis Analítica
Moderador: a definir
  • Abordagens Expressivas na Psicologia Analítica
  • Criatividade, Arte e Representação Sobre a Via Régia da Psique
  • Métodos Expressivos na Clínica, Reflexões Atualizadas a Partir da Publicação de “O Livro Vermelho”

09:30 | 10:00 Coffee Break

 Auditório São João Del Rei

10:00 | 11:00 A outra voz que eu escuto me transforma
Conferencista: Maria de Lourdes Bairão Sanchez

11:00 | 12:00 Práxis analítica: a arte de explorar e restaurar os subterrâneos labirínticos de cada indivíduo
Conferencista: Renata Whitaker Horschutz

 12:00 | 14:00 Almoço por adesão

 14:00 | 16:00 Ética e Sociopatia
Conferencista: Leandro Karnal

 16:00 | 16:30 Coffee-break

 16:30 | 17:30 A Experiência Religiosa na Práxis Analítica
Conferencista: José Jorge de Morais Zacharias

17:30 | 18:30 As várias maneiras de utilização da caixa de areia na práxis junguiana
Conferencista: Paula Pantoja Boechat

18:30 | 19:30 Sincronicidade, prática clínica e transferência
Conferencista: Joel Sales Giglio

20 de novembro de 2016

09:00 | 10:00 A Práxis Junguiana Hoje
Conferencista: Walter Fonseca Boechat

10:30 Encerramento 

Grupo de Estudos “ Fundamentos da Teoria Junguiana”

 

O Grupo de Estudos “ Fundamentos da Teoria Junguiana” desde o inicio março vem funcionando quinzenalmente aos sábados em Vitória.  Este Grupo é uma iniciativa do “ Espaço Kairós” que é um grupo junguiano formado pelas psicólogas Indianara Pereira Melo(CRP 16/4364) , Carla Carion(CRP 16/1849, Patricia Lopes Cordeiro(CRP 16/1256) e Maria da Penha Guimarães Mello(CRP 16/814) que são queridas companheiras de caminhada no estudo junguiano aqui em Vitória, ES.

O Grupo de Estudos “ Fundamentos da Teoria Junguiana” tem como proposta discutir a psicologia analítica dialogando com outros saberes, assim, é um Grupo aberto a todos os interessados em conhecer um pouco mais da psicologia analítica.

O Grupo funciona quinzenalmente aos sábados, de 09h as 11h, com uma mensalidade de 80 reais.

O endreço é Rua Misael Pedreira da Silva, nº 98, sala 408 – Edf. Empire Center

Para maiores informações e incrições: espaçokairoses@gmail.com

Próximo encontro, neste sábado dia 25 de abril de 2015.

Outros projetos serão divulgados em breve.

Abaixo temos algumas das divulgações realizadas no facebook:

Visitem e curtam : www.facebook.com/espacokairoses

Uma Reflexão sobre o Arquétipo Paterno

(publicado originalmente em duas partes, em 16 de julho 2012 e 24 de julho de 2012)

Nos últimos tempos, venho vivenciando as primeiras sensações da paternidade.  Isso tem me feito refletir não só acerca deste momento, mas, entorno dessa vivência que não é pessoal, mas, arquetípica. A respeito dessa experiência, desde muito, a música “O filho que eu quero ter” (Vinicius de Moraes e Toquinho) me tocou profundamente. Conta a história que, Toquinho

numa bela tarde, na praia de Boa Viagem, no Recife, contou a Vinícius sobre seu desejo de ter um filho. Experiente no assunto, o poeta respondeu algo como “Vai nessa! Dá trabalho, mas é muito bom.”
E Toquinho foi além. Mostrou-lhe uma melodia que havia composto inspirado naquele desejo, com uma levada típica de cantigas de ninar. Foi à praia e deixou o parceiro a embalar a música recém-composta.
Ao voltar, encontrou Vinícius aos prantos, com a letra pronta.
Toquinho costuma dizer que a vontade de ter filho era sua, mas Vinícius fez a letra pensando muito mais em si. O homem encantado com o sonho de ter um filho, vê-lo crescer e, ao final, em seu leito de morte, ser por ele embalado com a mesma canção com que o fazia ninar, embevecido por vê-lo reproduzir seu sonho de também ter um filho. (http://portrasdaletra.blogspot.com.br/2007/04/o-filho-que-eu-quero-ter.html)

Antes de continuar, é melhor lembrarmos a música.

O Filho Que Eu Quero Ter

Toquinho

É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem

De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.

Do desejo do Toquinho passando pela letra do Vinicius, podemos vislumbrar o mistério da paternidade, que nos atravessa geração após geração. Onde o ciclo da vida se regenera e ganha nova força. Em sua canção, Vinicius descreve não só o drama de uma vida, mas, o drama humano.

Quando falamos em psicologia junguiana de “arquétipo” falamos de um uma “espécie de drama sintetizado. Começa de tal e tal maneira, amplia-se em virtude de tal ou tal complicação e encontra sua solução desta ou daquela forma. Este é um modelo comum.” (EVANS, 1973, p.55). Assim, buscamos compreender os aspectos relativos a experiência humana, isto é, ao drama humano. Por isso mesmo, devemos compreender que o arquétipo corresponde a toda a possibilidade concernente a este núcleo temático, em nosso caso, do arquétipo paterno.

Mas, porque falar em “arquétipo paterno” e não em “função paterna”? O conceito de “função paterna” se desenvolve especialmente a partir da releitura de Lacan, que compreende a função paterna no plano da estruturação do sujeito, associado ao processo edipiano onde a “função paterna” ou “o nome do Pai” se interpõe ao par Mãe-filho, representado pela “Lei” e a “autoridade”. Segundo Brandão “o Édipo lacaniano deve ser situado em torno da função paterna, articulando os conceitos de falo, falta de objeto e castração” (2005,p 30).

Assim, quando nos referimos ao arquétipo paterno, não estamos negando a dimensão da psicanálise, mas, indo para além da mesma, não se restringindo a uma determinada possibilidade única. Compreendemos assim, que a função paterna como descrita pela psicanálise é uma das possíveis expressões do arquétipo paterno.

Pluralidade do Arquétipo Paterno

O arquétipo paterno é uma configuração de miríades de possibilidades da experiência humana de ser pai. Experiência estava que vai desde de o aspecto mais basal ou puramente biológico, pautado em procriação, até o aspecto mais diferenciado que é adoção por escolha e afetividade. 

Por estar enraizado numa experiência tão arcaica, o arquétipo paterno em certo nível, está intimamente relacionado com a dimensão da masculinidade , por isso mesmo, podemos acreditar que é a partir arquétipo paterno que os demais arquétipos masculinos se diferenciam. Podemos, compreender esse fenômeno a partir do que Neumann denominou o processo de fragmentação de arquétipos,

aquilo que chamamos de “fragmentação de arquétipos” é um processo mediante o qual a consciência busca arrancar do inconsciente o conteúdo material dos arquétipos a fim de agregá-lo ao seu próprio sistema. (…)

Ocorre uma fragmentação no sentido de que, para a consciência, o arquétipo primordial se decompõe num amplo grupo de arquétipos e símbolos inter-relacionados. Ou melhor, esse grupo pode ser concebido como a periferia que envolve um centro desconhecido e intangível.(NEUMANN, 1995, p. 232)

A dinâmica de fragmentação de Neumann nos ajuda a compreender a relação estabelecida entre esse arquétipo e os demais arquétipos masculinos (como dos irmãos(fratria), herói, mestre, velho sábio dentre outros). Contudo deve-se ter clareza que

“a fragmentação dos arquétipos não deve, de modo algum, ser concebido como um processo analítico consciente. (…) o surgimento de um grupo de arquétipos, cindido de um arquétipo mais volumoso, assim como do grupo correspondente de de símbolos, é a expressão do processo espontâneo que mantém intacta a atividade do inconsciente. Para o ego consciente, esses arquétipos e símbolos aparecem como produtos do inconsciente, mesmo quando, na realidade, o seu surgimento é constelado pela consciência e pela sua situação geral”(NEUMANN, 1995, 234)

As mitologias retratam a amplitude desse desse arquétipo. Um trabalho bem interessante foi realizado por  Colman e Colman no livro “ O Pai – Mitologia e reinterpretação dos Arquétipos””, onde, investigando as mitologias e as representações arquetípicas paternas eles apresentam cinco categorias mitológicas que nos permitem pensar em certas categorias míticas de pai,

1- Pai Criador: Esta imagem de pai se refere a criação como o “ato criativo”. A paternidade possibilita  individuo se compreenda um “ser criador”, criando assim “sua família”, seu papel social.

Paradoxalmente, o impulso masculino de criação leva para longe da família e da experiência de paternagem e até para longe da experiência de um relacionamento com a mulher. Sua capacidade compartilhada de criar a vida é facilmente desviada. O papel de pai torna-se uma metáfora de sua capacidade de criar edifícios, cidades, arte, religião e governo. Seu papel na criação de um filho é identificado com outros tipos de criatividade. (COLMAN, COLMAN, 1990, p. 30)

Esse modelo se baseia numa perspectiva de paternidade distante, similar ao deus criador masculino, alheio e onipotente,  cria a realidade independente do feminino, não se envolvendo diretamente com os cuidados da criação. São exemplos míticos Deus  do Antigo Testamento na mitologia judaico-cristã, Olorum na mitologia afrobrasileira, Atum na mitologia egípcia do antigo império.

2 – Pai – Terra: Apesar de parecer incomum esse a idéia de “pai-terra”, por estarmos a acostumados com o modelo “mãe-terra”/”pai-céu”. Esse modelo arquetípico de paternidade se caracteriza pelo cuidado e nutrição da prole. Mesmo, que não envolva uma relação familiar.

Essas figuras da terra não são homens de família, mas são nutridores, personagens masculinas que se ocupam do cuidado regular de coisas em crescimento. (…) Ele compartilha do arquétipo do homem da terra, ctônico, que cultiva, o verdadeiro pai-terra que não reconhecido com muita freqüência na nossa cultura, mas que, não obstante, está presente.(COLMAN,  COLMAN, 1990, p. 52)

Esse modelo arquetípico compreende figuras míticas como Baco, que ensinava e ajudava os homens no cultivo e produção do  vinho. Pã e os Fauno ensinaram os cuidados com natureza e com os animais. Freyr, o deus da agricultura,  na mitologia nórdica.

3- Pai-Céu:  Essa categoria, de pai-céu está associado as mitologia celestes cujas  principais características são prover, julgar e proteger.

Um  pai desses vive antes na fronteira do que no coração da família. Quando ele age como disciplinador ou como aquele que decide, sua influência depende de seus símbolos exteriores de poder e não de sua presença efetiva. Sua família define sua autoridade como originada no mundo exterior. Quando bem sucedido neste, ele é respeitado (se que bem não necessariamente amado); se fracassar fora, também fracassará na família, visto que sua potência decorre do sucesso exterior.(COLMAN,  COLMAN, 1990, p. 52)

O pai-céu é como o deus-sol do mito, que traz a luz da consciência para reinos antes dominados pelas mãe. Ele pouquíssimas vezes tem consciência do grau até o qual separa mãe e filho ao oferecer uma presença alternativa em casa. Ele apenas representa o papel que um homem deve exercer, uma ez que deixou a cargo da mãe-terra as responsabilidades da criação do filho. Alguém deve ajudar a criança a deixar o ninho e encontrar sua individualidade. A partir dessa posição exterior, o pai é perfeitamente adequado à função. (COLMAN, COLMAN, 1990, p. 66)

O modelo pai-céu, revela um pai distante, que fala acima, cuja relação com os filhos passa pela lei, ordenação e disciplina. Na mitologia, esse modelo é representado por divindades celestes, poderosas que se manifestam a distância, como Zeus, Thor, Yahweh(Iavé), que no geral se apresentavam mais pelo temor do que pelo afeto e intimidade.

4 – Pai-Real : O Pai-real é o modelo arquetípico que unifica tanto as características do pai-terra e do pai-céu. O termo “Real” remente a realeza, o pai-real está associado ao “patriarca”, representante de uma dinastia, assim, onde o Pai-Real é o rei e senhor da casa.

(…) o pai real é uma entidade absoluta que contém em si todas as funções, incluindo aquelas relegadas tradicionalmente à mulher. O pai real não procura ter como parceria uma deusa terra, dotada de um forte poder feminino que lhe seja propício. Em vez disso, toma por esposa uma virgem, valorizada por ser pura e inocente. Ela ela tem pouca educação politica ou poder pessoal. Cumpre todas as suas tarefas sob os olhos atentos do pai real. Ele a protege, ao lado do resto da família e do reino. Essa proteção rouba da mulher muito de sua influência e potência femininas, da mesma maneira como elimina toda competição pelo poder em casa.(COLMAN, COLMAN, 1990, p. 78)

Assim, o Pai-Real, conduz a família, mas, não permite a participação dos demais membros – esposa e filhos. 

Pai-Diatico: Esta última categoria, se caracteriza pela “díade”, isto é, pelo “par”. Ao contrario das categorias acima,  é a tipo de pai que divide o seu papel com uma companheira.

A paternagem diática significa o compartilhamento de papéis-terra e papéis-céu por ambos os parceiros. Na prática, requer uma operação intercambiável do pai e da mãe. O pai vai precisar deixar de lado a imagem de si mesmo como única autoridade-céu e aceitar muitas funções-terra como responsabilidade sua; a mãe necessitará abandonar sua imagem de si mesma como a principal autoridade-terra e terá de realizar muitas funções-céu. (COLMAN, COLMAN, 1990, p. 91)

Essa categoria implica não só na divisão de papéis, mas, na interação do componente feminino. A imagem mítica associada é da Sizigia, onde há o emparelhamento do masculino e o feminino, em equilíbrio.

A categorização feita por Colman e Colman deve ser compreendida como possibilidades arquetípicas, mas, que não definem o individuo. Em momentos diferentes da vida a experiência da paternidade pode assumir diferentes aspectos. Acredito ser importante que compreendermos que essas categorias não escolhas conscientes, mas, padrões inconscientes que se manifestam em diferentes épocas da história humana ou mesmo podem se manifestar na vida do homem atual.

Ter ou Ser?

No inicio deste post, apresentei a música do Vinicius de Moraes e do Toquinho “O filho que eu quero ter”, na música expressa justamente o desejo do pai :De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim”. Muitas vezes, o desejo de “ter o filho” oculta uma questão ainda mais crucial, que seria a reflexão acerca do que “ o pai que eu quero ser”.

Acredito que esta questão é fundamental pois, no geral, não temos clareza que a força do arquétipo reside em sua inconsciência. Isto é, quanto mais inconsciente estiver o individuo, maior será a poder do arquétipo.

Na medida em que pudermos pensar antes no “no pai que eu quero ser” poderemos recolher nossas projeções assim como nos confrontar com o nosso próprio complexo paterno. Assimilar de forma consciente a transição de filho para pai, de modo a poder fazer as escolhas, não repetindo apenas o nosso próprio passado – pessoal ou coletivo.

Essas duas dimensões(ter e ser) nos abrem a possibilidade de pensarmos um pouco mais a psicologia da paternidade.  É importante frisar que não falo aqui do “papel de pai”, ou seja, não estamos nos referindo uma função social ou relacional, mas, sim a uma dinâmica que estrutura e modifica profundamente a experiência do individuo consigo mesmo. Significando uma etapa fundamental no seu processo de individuação.

Acredito que seja igualmente importante lembrarmos que todo arquétipo é composto por dois polos, no caso do arquétipo paterno são os polos PAI-FILHO. Creio ser importante, pois, somente com a integração do polo “FILHO”, poderá haver uma realização efetiva e criativa da Paternidade. Em outras palavras, isso significa dizer que é importante que individuo esteja em paz com o próprio “Ser-Filho”, para assim, poder “Ser-Pai”.

É importante observarmos que a inconsciência acerca de si mesmo, acerca de sua própria história como filho, é compensada com a projeção no filho de seus próprios desejos, isto é, por meio da projeção no filho, o pai pode tentar ter uma experiência total de si mesmo. Quando essa integração não ocorre, o filho sofre pelas expectativas e desejos do pai, uma vez que este último, não consegue conceber o filho fora de desejo de si mesmo. Outra possibilidade é a rejeição ou indiferença ao filho como uma projeção da rejeição ou indiferença desse aspecto de sua própria história.

Assim, a reflexão do “o pai que eu quero ser” expressa o encontro dos pólos “Eu-Filho” e “Eu-Pai”, confrontando-os com os seus contrapontos externos, isto é, “Meu-Pai” e “Meu-Filho”.  É justamente essa totalidade da experiência que temos na experiência  descrita na canção “O Filho que eu quero ter” de Vinicius e Toquinho(apresentada no post anterior), onde o filho se torna pai, cujo filho nasce cresce e se prepara para torna-se pai, fechando o ciclo do arquétipo.

Para além da lei: Revisitando a família de Édipo

De forma geral, a paternidade acabou por ser tratada de uma forma específica e delimitada na psicologia,

Nas Produções teóricas desenvolvidas ao longo desse século, onde se destacou a abordagem psicanalítica, o espaço reservado ao pai, no que tange ao processo do filho, foi e tem sido definido basicamente em duas funções: em primeiro lugar, a de interditar o vínculo com a mãe, impedindo que se prolongue indefinidamente a natureza simbiótica dessa relação dual, que visa preponderantemente a obtenção do prazer com a satisfação das necessidades do filho; e, em segundo lugar, concomitantemente com a primeira função, a de introduzir o filho no mundo da Lei, desenvolvendo com isso a linguagem, a noção de limites e o recurso de discriminação, três elementos preponderantes para sua inserção na cultura. (ALMEIDA, 2007, p.41-2)

A certamente a contribuição psicanalítica foi importante, contudo, essa concepção se relaciona diretamente com uma dada visão psicanalítica que não corresponde a totalidade das escolas da psicanálise, destacamos a concepção da teoria do amadurecimento de D.W.Winnicott neste contexto. Cito Winnicott, pois, a em larga escala suas concepções dialogam com a concepção junguiana(especialmente, da escola inglesa).

Uma crítica geralmente feita à psicanálise é a de ter uma visão “patologizante” da vida psíquica. É interessante que o próprio mito de Édipo é uma expressão disso. A tragédia de Édipo é antes uma “maldição familiar” que culmina em Édipo. Para entendermos esse “complexo familiar”, talvez, seria interessante voltar duas gerações antes de Édipo, conhecendo assim o avô e o pai de Édipo.

Segundo nos conta Brandão (2005), o avô de Édipo foi o rei tebano Labdaco cujo pai, Polidoro, morreu quando ele tinha apenas um ano. Por ser muito novo, seu avô Nicteu, assumiu o trono, mas, este se matou. Deixando o trono para Lico,(tio-avô). Após assumir o trono, teve um reinado marcado pela guerra com Atenas e, em especial, foi o periodo da introdução do culto a Dionísio na Beócia, como Labdaco não permitiu o culto a Dinísio em Tebas, ele foi despedaçado pelas bacantes.

Com a morte prematura de Lábdaco, seu filho Laio, por ser ainda muito jovem, não pôde assumir as rédeas do governo e, mais uma vez, Lico tornou-se regente; mas, dessa feita, por pouco tempo, porque foi assassinado por seus sobrinhos Anfião e Zeto.

Laio, com a morte violenta do tio, fugiu precipitadamente de Tebas e buscou asilo na corte de Pélops, o amaldiçoado filho de Tântalo, (…). Laio, todavia, herdeiro não apenas do trono de Tebas, mas sobretudo de algumas mazelas de “caráter religioso” de seus antepassados, particularmente de Cadmo, que matou o Dragão de Ares, e de Lábdaco, que se opôs ao deus do êxtase e do entusiasmo, cometeu grave hamartía na corte de Pélops. Desrespeitando a sagrada hospitalidade, cujo protetor era Zeus, e ofendendo gravemente Hera, guardiã severa dos amores legítimos, raptou o jovem Crisipo, filho de seu hospedeiro (…). Este(Pélops) execrou solenemente a Laio, o que, juntamente com a cólera incontida de Hera, teria gerado a maldição dos Labdácidas. Crisipo, envergonhado, matou-se. (BRANDÂO, 2005, p.237)

Como podemos perceber, Laio cresceu sem pai, refugiado numa corte distante. O principal “pecado” de Laio foi raptar Crisipo, filho de seu anfitrião Pélops, esse crime foi um ato contra o próprio Zeus. Por esse ato, contra o filho de seu anfitrião, ele foi condenado a ser morto pelo próprio filho e, segundo a versão de Sófocles, ter sua esposa desposada pelo mesmo.  Essa sentença foi dada a Laio pelo Deus Apolo, em seu oráculo de Delfos.

O nascimento de Édipo atendia a uma determinação da lei divina. O crime de Laio deveria punido. A história de édipo é mais familiar, após o nascimento Édipo foi exposto, sendo resgatado por um pastor e levado a corte de Pólibo, rei de Corinto, onde foi criado como filho do rei. Por ocasião de um roubo de cavalos do reino de Pólibo, Édipo sai em busca dos cavalos, passando pelo oráculo de Delfos, onde “em vez de receber da Pítia uma resposta à pergunta que lhe fizera, a sacerdotisa de Apolo o expulsou do templo sagrado, vaticinando-lhe algo terrível: ele estava condenado a matar o pai e unir-se à própria mãe.”(BRANDÃO, 2005, p.245).

Édipo não voltou a Corinto, fugindo do destino previsto por Apolo. No caminho entre Daulis e Delfos, ele se depara com a comitiva de Laio. Após se afrontado por Laio, que lhe era desconhecido, Édipo reage matando seu pai e os membros de sua comitiva, restando apenas um escravo. Como não iria voltar para Corinto, escolheu o caminho de Tebas, que estava sendo assolada pela Esfinge. Após, vencer a Esfinge, Édipo adquire o direito de reinar, até que a peste motiva a busca pelo culpado pela morte do antigo. Os indícios acabam por levar ao próprio Édipo, que ao descobrir sua história, frente a aos acontecimentos,  Édipo fura os olhos, sai a vagar, até por encontrar a paz, em Colono, onde é recebido pela terra e, se torna herói protetor de Colono, futura Atenas.

Quando observamos a família de Édipo, notamos que em três gerações não houve uma relação estabelecida de PAI-FILHO. Outros aspectos relevantes são as mortes prematuras, ofensas os deuses, criação por estranhos. Mas, um aspecto fundamental é que  todos eram representantes da lei. Sim, por serem de família real, eles eram representavam a lei para seu povo.  Eles pertenciam a categoria de Pai-Céu (conforme, vimos na primeira parte de texto), essa categoria de paternidade indica justamente o distanciamento da família, um posicionamento de julgamento e proteção(nesse caso voltado ao povo).

Acredito que ser fundamental para entendermos do que nos fala o mito de Édipo, devemos nos voltar a peça,

Creonte

Vou dizer, pois, o que ouvi da boca do deus. O rei Apolo ordena, expressamente, que purifiquemos esta terra da mancha que ela mantém: que não deixemos de agravar-se até tornar-se insuperável.

Édipo

Mas, por que meios devemos realizar essa purificação? De que mancha se trata?

Creonte

Urge expulsar o culpado, ou punir, com a morte, o assassino, pois o sangue maculou a cidade.

Édipo

De que homem se refere o oráculo à morte?

Creonte

Laio, o príncipe, reinou neste país, antes que te tornasse nosso rei.

(SOFOCLES, s/d, p.23-4)

É interessante notarmos que o drama em torno do qual a narrativa de Édipo se desenrola é entorno da morte de Laio, o incesto é secundário na trama, fazendo parte da punição a Laio. Acerca dessa exigência de Apolo, podemos compreender como a forma de Édipo se encontrar consigo mesmo, com sua história, e, para tanto deveria se encontrar com seu pai.

Considerações Finais

Estes dois posts, procurei pensar a paternidade para além do modelo comum. Acredito que a vivência interior da paternidade exige atenção e escolha. Uma escolha que deve ser refeita cotidianamente. Os modelos de paternidade apresentados por Colman e Colman nos falam de dinâmicas que não envolvem a escolha consciente pela paternidade.

Muitas vezes, pensamos a paternidade sob a ótica da organização psíquica do filho. Contudo, não podemos perder de vista que a paternidade, como fase, serve ao processo de individuação do homem.  E, desta forma, quando integrada servirá ao desenvolvimento pleno do filho.

Certamente, a paternidade não se restringe a “paternidade biológica”. A mitologia nos ensina bastante acerca da função paterna. Sem ignorar, a função da lei ou de ser uma terceira pessoa real que amplia e desfaz a diade mãe-filho, a mitologia grega através do centauro Quirão (ou Chiron), que acolheu vários heróis (abandonados pelos pais), nos ensina que a função paterna também é acolher, orientar e auxilar que os filhos encontrem o próprio destino.

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Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Maria Beatriz Vidigal Barbosa de. Paternidade e subjetividade masculina em transformação: crise, crescimento e individuação. Uma abordagem junguiana. 2007. Dissertação (Mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-13082007-150555/>. Acesso em: 2012-07-19.

BRANDÃO, Hortensia Maria Dantas, A LEI EM NOME DO PAI: IMPASSES NO EXERCÍCIO DA PATERNIDADE NA CONTEMPORANEIDADE Salvador: UFBA, Tese de mestrado, 2005. Disponível em : http://www.pospsi.ufba.br/Hortensia_Brandao.pdf

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. vol. III. 13 ed.  Petrópolis: Vozes, 2005.

SÓFOCLES Rei Édipo. In: “Rei Édipo  – Antígone  – Prometeu  acorrentado”.  Prefácio, tradução e  notas  de  J.B.  Mello  e  Souza.  17.ed.  Rio  de  Janeiro : Ediouro. s/d.

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.

COLMAN, A.D.; COLMAN, L.. O Pai: Mitologia e Reinterpretação dos Arquétipos. São Paulo: Editora Cultrix, 1990.

NEUMANN, Erich História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista

(2 de Maio de 2011)

Há alguns meses venho gestando este post, pois, a formação de novos psicoterapeutas vem se tornando um tema que tem me feito pensar nos últimos tempos. Muitas vezes, ao falar da formação do psicoterapeuta ou analista, enfatizamos os aspectos necessários a prática e constituição da persona profissional. Contudo, muitas vezes não falamos acerca da sombra que pode envolver esse processo.

O tema da sombra do analista é uma constante em meus pensamentos deste que eu li o livro de Adolf Guggenbühl-Craig, analista junguiano e ex-presidente da IAAP, falecido em 2008, “O Abuso do Poder na Psicoterapia…” no qual o autor discute acerca a sombra dos profissionais que trabalham com “ajuda”.

Não pretendo fazer uma resenha do livro, apenas ressaltar alguns aspectos que me chamam atenção, mas, que certamente servem para indicar a leitura desse importante livro.

Guggenbhül-Craig traça alguns paralelos entre as profissões que visam “ajudar” os indivíduos. Devemos considerar que o oficio ou exercício dessas “profissões de ajuda” emergem de um mesmo solo arquetípico. Para traçar alguns aspectos da sombra do analista, ele, faz um paralelo do analista com o sacerdote, ele afirma que

A sombra do analista se amplia ainda mais devido ao denominador comum existente entre seu oficio e o do sacerdote. Nós analistas, qualquer seja nossa orientação, não defendemos uma fé específica ou uma religião organizada; mas, como o sacerdote, quase sempre recomendamos uma atitude básica frente a vida. Não representamos uma filosofia, mas uma psicologia que abraçamos por convicção, visto que tanto em nossa vida como em nossa própria análise tivemos experiências que nos persuadiram e nos formaram em termos dessa psicologia. O analista junguiano, por exemplo, é alguém que viveu um profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente. Entretanto, poucos insights psicológicos podem ser estatisticamente provados no sentido empírico, só podendo ser confirmados pelo testemunho honesto e sincero dos que se empenham na mesma busca. (…) Sob este aspecto, encontramo-nos em posição similar à do sacerdote. Mas essa extremada confiança na própria experiência pessoal ou alheia, inevitavelmente dá margem a sérias dúvidas. (…) Será que somos capazes de admitir essas dúvidas para nós mesmos e para o resto do mundo? Ou será que nós psicoterapeutas fazemos com nossas próprias dúvidas e medos o que faz o sacerdote, suprimindo-os e pondo uma pedra em cima?

Da mesma forma que o sacerdote, trabalhamos com nossa alma, nosso ser; os métodos, as técnicas e o aparato utilizado são secundários. Nós, nossa honestidade e autenticidade, nosso contato pessoal com o inconsciente e o irracional – são esses nossos instrumentos. É grande a pressão que sofremos para apresentá-los melhores do que são; mas nesse caso, tornamo-nos vitima da sombra do psicoterapeuta(p. 37-38)

O texto de Guggenbuhl-Craig toca num aspecto delicado, que é a perspectiva epistemológica, pois, muitos críticos do pensamento junguiano ou mesmo das práticas analíticas em geral, criticam o fato de a análise não pode ser considerada científica. Não perderei tempo entrando em discussões epistemológicas, afinal, todo e qualquer pessoa que já se submeteu ao processo psicoterapêutico ou mesmo exerce a psicoterapia, tem clareza que há mais envolvido no processo do que puramente o uso de “técnica” científica. A prática da psicoterapia exige muito mais que um conhecimento técnico exige a pessoa do analista por inteiro. Assim como na antiga alquimia, os alquimistas já declaravam que “ars totum requirit hominem” a arte exige o homem inteiro, a psicoterapia faz a mesma exigência.

Os conceitos acerca do inconsciente se baseiam no princípio da experiência imediata com os fenômenos inconscientes, isto é, na descrição metodológica e sistemática dos fenômenos inconscientes. A esse respeito, Jung, em 1938, na conferência acerca da vida simbólica ele afirma “Nossa ciência é fenomenologia. No século XIX a ciência trabalhava na ilusão de que ela podia estabelecer uma verdade. Nenhuma ciência pode estabelecer uma verdade.” (JUNG, 2000, p.) No máximo podemos fazer aproximações ao fenômeno, através de descrições o mais honestas possíveis. Neste ponto, temos o elemento fundamental que une a construção teórica e a prática clínica : honestidade.

A honestidade é fundamental no processo psicoterapêutico. Entretanto, devemos ter clareza que a honestidade, que fundamenta a ética profissional, começa na pessoa do analista ou psicoterapeuta, isto é, a honestidade começa na relação pessoal do analista/terapeuta com ele mesmo. Assim, é fundamental que o analista seja capaz de suportar suas próprias contradições, tensões internas, dúvidas de forma sincera e consciente, pois, se o analista não suportar em si a tensão dos opostos que nos constituem, como ele poderá auxiliar o cliente nessa empreitada?

De forma geral, os psicólogos são exigidos socialmente a uma persona de compreensão, clareza, solicitude, bondade. Sendo exigido, na maioria das vezes, “ser” ou tentar “ser melhor do que se é” ou “se apresentar de modo diferente do que se é”. O que se configura uma enorme armadilha.

Como sempre repetia C.G.Jung, sempre que um conteúdo luminoso se instala na consciência, seu oposto se constela no inconsciente e procura atrapalhar a partir dessa posição estratégica. O médico se torna um charlatão exatamente por querer curar o maior número possível de pessoas; o sacerdote se torna um hipócrita por querer converter as pessoas à verdadeira fé; o psicoterapeuta se torna um charlatão e um falso profeta apesar de trabalhar dia e noite para ampliar sua consciência. (p. 42)

Pode até parecer pessimismo, contudo, o fundamental é compreender que este risco de ser “tomado pela sombra”, está relacionado idealização ou inflação da persona de analista. Isso não significa que o analista não deva buscar seu desenvolvimento, muito pelo contrario. Mas, o desenvolvimento do analista passa necessariamente pelo reconhecimento de suas imperfeições. Conhecer a si mesmo, crescer internamente, significa, sobretudo, viver a própria vida em toda sua extensão.

Pode até parecer bobo ou óbvio, contudo, um fato que se torna um grande peso para os que optam pelo caminho da clínica psicológica é a solidão ou o isolamento. As exigências da vida profissional, podem, pouco a pouco, limitar a vida do profissional e deixa-lo cada vez mais submerso na em sua inconsciência de sua persona profissional.

Talvez o analista se absorva por completo no trabalho com seus pacientes, o que à primeira vista parece ótimo. Sua própria vida privada fica em segundo plano diante dos problemas e dificuldades das pessoas com quem trabalha. Mas isso pode levar a um ponto em que os pacientes, por assim dizer, passam de fato a viver pelo analista, o qual espera que estes preencham o vazio criado por sua perda de contato com o calor e dinamismo da vida. O analista já não tem seus próprios amigos; as amizades e inimizades dos pacientes são como que também suas. Sua vida sexual pode ficar raquítica, encontrando substituto nos problemas sexuais dos pacientes. Tendo escolhido uma profissão tão exigente, vê-se impedido de atingir uma posição política influente; sua energia é investida toda nas lutas politicas pelo poder de um paciente político. Desse modo, pouco a pouco deixa de viver uma vida própria, passando a contentar-se com a de seus pacientes. (p. 64-65)

Os exemplos do “deixar a própria vida” podem se multiplicar, como ignorar os rumos do próprio relacionamento, negligenciar sua própria realidade espiritual, evitar ambientes que possam “encontrar” pacientes dentre outros,a falta da vida real do analista vai gerar a necessidade de compensação no inconsciente, essa compensação é justamente por meio dessa contratransferência, onde, o analista passa a viver a vida dos pacientes. Imerso numa sombra nutrida por sua inconsciência acerca de sua própria persona de analista.

Antes de mais nada, esse tipo de situação é extremamente perigoso para o próprio analista. Seu desenvolvimento psíquico estanca. Mesmo em sua vida não-profissional, ele só poderá falar de seus pacientes e dos problemas que o afligem. Já não será capaz de amar e odiar, de investir a si próprio na vida, de lutar, ganhar ou perder. Sua própria vida afetiva torna-se um substituto. Agindo assim como um charlatão que sobrevive às custas de sues pacientes, o analista pode dar a impressão momentânea de estar florescendo psiquicamente. Mas, na verdade, estar perdendo a vitalidade e a originalidade criativa. (p. 65).

O esvaziamento da própria vida faz com que o profissional se esconda atrás da teoria. Racionalizando e teorizando a própria existência. De qualquer modo, se torna prejudicial ao cliente na medida que, inconscientemente, precisa dele, tornando-se incapaz de investir verdadeiramente no desenvolvimento do paciente. Sua ajuda será sempre insuficiente na medida em que não conseguir integralmente conceber o processo de desenvolvimento do cliente. Simplesmente, porque ele precisa do paciente. Nesse processo, consciente ou inconscientemente, pode reter o paciente em terapia por uma necessidade pessoal – que não podemos reduzir a necessidade financeira.

Nesse caso, o analista identificado com sua persona, onde ele equivocadamente se coloca no papel de “agente da saúde” ou da “cura”, irradiando uma “autoridade” e perfeição, que só pode ressaltar no paciente os aspectos mais frágeis de dependentes da personalidade do mesmo.

Mas, isso seria uma condenação? O exercício da psicoterapia seria destinado a essa experiência? Não. Em primeiro lugar, é importante frisar que o que foi dito aqui, não é uma regra, apenas, uma possibilidade que pode se colocar no caminho do psicoterapeuta. Devemos ter clareza que na posição de psicoterapeutas, somos nosso próprio instrumento. A totalidade de nosso ser é nosso instrumento.

Em muitos casos, o analista ainda é capaz de apreciar e sofrer devido ao dinamismo de sua própria vida chega a sentir a consciência pesada, achando que deveria interessar-se mais por seus pacientes. Mas, na verdade, a longo prazo, somente o analista apaixonadamente envolvido em sua própria vida poderá ajudar seus pacientes a encontrarem seu caminho. Nesse sentido é bastante verdade, como diz Jung, que o analista só pode dar a seus pacientes aquilo que possui. (p. 66)

Seria importante que cada estudante que se proponha ser “analista”, “psicoterapeuta” ou “psicólogo clínico”, compreenda que no processo de formação o estudo sistemático e a psicoterapia/analise individual, não pode estar dissociado com o dia a dia, com a vida vivida. Não se deve ver a análise ou o estudo como “burocracias” necessárias, mas, como elementos importantes para o desenvolvimento individual. Pois, como dizia Jung,”somente o que realmente somos tem o poder de curar-nos”, ao que eu acrescentaria, e de nos ajudar no processo de cura nossos clientes.

Referências bibliográficas

Guggenbuhl-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, Sacerdócio e Magistério. RJ, Achiamé, 1978.

JUNG, C.G. Vida Simbólica, Vozes, Petrópolis, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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