Grupo de Estudos “O Mundo Interior do Trauma”

Em agosto iniciaremos mais um grupo de estudo, acerca do livro de Donald Kalsched ” O mundo interior do Trauma.” Este livro publicado em 1996, se tornou uma importante referência no estudo do trauma, das defesas psíquicas (especialmente as defesas arquetípicas) e do sistema arquetípico de autocuidado .

O enfoque deste livro é o trauma infantil ou trauma precoce e os processos defensivos, o que nos leva a compreender o processo de desenvolvimento infantil descrito pela escola junguiana desenvolvimentista.

Informações Gerais:
Inicio do Grupo
: 07/08/20
Horário: 17h às 18:30 semanalmente nas sextas-feiras.
Duração: Não estipulamos um prazo de funcionamento do grupo, pois depende da participação dos membros o avanço do grupo.
Valor: 100 reais mensais.
Forma de Pagamento: depósito bancário ou picpay.
Coordenação: Fabrício Fonseca Moraes – Psicólogo Clínico junguiano, especialista em teoria e prática junguiana, coordenador de grupos de estudo e diretor do CEPAES.
Funcionamento: O texto será lido anteriormente, e no grupo serão levadas considerações, dúvidas e reflexões. Os encontros serão conduzidos por Fabricio Moraes e um monitor do CEPAES. O grupo será realizado utilizando o app Zoom, e o encontro será gravado e disponibilizado (caso de perda de conexão ou falta). Será criado um grupo no whatsapp onde será disponibilizado o link.

Inscrição:
1 – Preencher esta ficha de inscrição. (enviaremos uma confirmação por inscrição com os dados bancários/picpay)
2 – A efetivação da inscrição se dará pelo pagameno da primeira mensalidade (correspondente ao mês de agosto).
3 – Após a efetivação o participante será inserido no grupo do whatsapp.

Quer participar? link de inscrição : https://forms.gle/pA6fwR2SCzXq7Ppf7

Quaisquer outras dúvidas poderão ser tiradas pelo email contato@cepaes.com.br / whasapp 27-993166985

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

Ocupação das Escolas no Brasil : Heroísmo e Individuação

Nos últimos dias temos visto crescer o número de escolas e universidades ocupadas por estudantes em nosso país. Essas ocupações são uma expressão de vida e resistência contra o total descaso do governo com a educação, com a saúde e com o futuro de nosso país. A reforma do ensino médio, a proposta de “escola sem partido” e a PEC 241 que impõe o teto aos gastos públicos, explicitam não só que a crise econômica que vivemos mas, uma grave crise moral que ainda precisamos a enfrentar: da naturalização das desigualdades, da corrupção e da culpabilização dos oprimidos.

Diante desta realidade, temos a ocupação das escolas e, tivemos o indescritível discurso da adolescente Ana Julia Pires Ribeiro (PR) na Assembleia Legislativa do Paraná(ALEP) (vide vídeo abaixo). Devemos ter clareza que, quando na psicologia junguiana falamos de individuação, de arquétipos e mitos (em especial do herói), falamos da realidade em que vivemos no aqui e no agora! E por isso mesmo não podemos deixar de reconhecer e viver um momento arquetípico que vivemos. Nada expressa tão bem o impulso heroico que a busca pela transformação, enfretamento de injustiças sociais, a defesa da cidadania e a luta pelo bem comum.

Jung afirmava que “O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro” (Jung, 1999, p. 101). Precisamos ter clareza que a nossa individuação está sempre em relação com a individuação do outro, com o processo individuação de nossa época.  Individuação implica em contato, experiência e abertura.

Dessa forma, não basta tentar “compreender intelectualmente” o fenômeno das ocupações nas escolas; é necessário nos permitir viver, participar, ser afetado e tomar parte. O impulso de individuação, o impulso heroico sempre se confronta com as forças do “status quo”, com a resistência à transformação que muitas vezes se manifesta pela desqualificação dos agentes de mudança ou com a imposição do medo. Isso ocorre tanto no indivíduo (na neurose pessoal) quanto na esfera coletiva – por meio, do jogo de desinformação, as acusações e tudo que promova a imobilidade e a estagnação.

O dinamismo arquetípico do herói se faz no enfrentamento, no movimento, na esperança, na aposta da mudança. Essa é energia necessária ao processo de individuação, e individuação exige responsabilidade – consigo mesmo e com o outro, com o particular e com o coletivo. Assumir essa responsabilidade diante da vida é compreender a individuação.

O discurso da estudante Ana Julia Pires Ribeiro teve repercussão internacional mobilizando inúmeras pessoas tanto a favor quanto contra. O mais importante é que nos chama a responsabilidade pela educação, pela juventude e pelo futuro. A juventude sempre foi a anunciadora da mudança, da possibilidade e transformação. Em nossa realidade, creio que devemos nos mobilizar, nos afetar diante da força e entusiasmo dos jovens de nosso país. Para assim, apoia-los, contribuindo com suas necessidades no processo de ocupação e, assim podermos vivenciar juntos o processo de transformação social que precisamos.

“Toda referência ao arquétipo, seja experimentada ou apenas dita, é “perturbadora”, isto é, ela atua, pois ela solta em nós uma voz muito mais poderosa do que a nossa. Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na espera do contínuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade. E com isso solta em nós aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram a humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver à mais longa noite.” (JUNG, 1999b, p. 70).

 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Ab-reação Analise de Sonhos, Transferência, Petropolis:Vozes, 1999.

JUNG, C.G. O espirito na arte e na ciência, Petropolis: Vozes, 1999b

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Programação do XXIII Congresso Nacional da AJB – A Práxis Analítica

Prezados, 

Hoje foi divulgada a a programação científica do XXIII Congresso Nacional da AJB, que acontecerá em Ouro Preto, de 17 a 20 de Novembro de 2016.

Abaixo segue a programação disponibilizada no site: www.congresso2016.com.br

abraços,

Fabrício Moraes

congresso


PROGRAMAÇÃO CIENTÍFICA

16 de novembro de 2016

Hotel Solar do Rosário: Rua Getúlio Vargas, 270

14:00 Assembléia dos Membros da Associação Junguiana do Brasil (AJB)

17 de novembro de 2016

Auditório Tiradentes B

08:30 | 12:30 Reunião dos Candidatos a Analistas da AJB

 12:30 | 14:00 Almoço por adesão

 Auditório São João Del Rei

14:00 | 14:15 Abertura do Congresso
Discurso de boas-vindas da Presidente do Instituto C. G. Jung de MG e convite para composição da mesa
Jussara César e Melo

14:15  Execução do Hino Nacional
Ana Cristina Rocha

14:20 | 14:45 Discurso do Presidente da AJB
Gelson Luiz Roberto

14:45 | 16:00 A práxis analítica: desafios atuais
Conferencista: Gelson Luiz Roberto

16:00 | 16:30 Espetáculo de mágica, música e Imaginação
Artistas: Dennerson Rocha e Ana Cristina Rocha

 16:30 | 17:00 Coffee Break

 17:00 | 19:00 The Relevance of Complex Ecological Networks to the Practice of Analytical Psychology
Conferencista: Joseph Cambray

 19:30  Coquetel

18 de novembro de 2016

09:00 | 10:00 Mesa de temas livres

Auditório São João Del ReiO Processo de Individuação e Análise
Moderadora: Solange Missagia de Mattos
  • Áurea Helena Pinheiro Roitman
  • Tereza Caribé
Auditório Tiradentes A
Nietzsche e o Processo de Individuação
Moderador: Fernando Andrade
  • Nietzsche e o Processo de Individuação
  • O Processo de Individuação em Nietzsche e Munch
Auditório Tiradentes B
Puer na Clínica Analítica
Moderador: a definir
  • Adultescente-Canguru e sua Bolsa Marsupial: um Olhar sobre os Complexos Familiares
  • Imagens do Puer Aeternus em Dois Pacientes no Rio de Janeiro
  • O Processo do Pequeno Príncipe: uma Introdução ao Arquétipo do Puer Aeternus
Auditório Tiradentes C
A Experiência Junguiana na Clínica da Psicose
Moderador: a definir
  • Prática Analítica: Conflito e Criatividade na Clínica das Psicoses
  • A Práxis Analítica – o Encontro Criativo. Nise da Silveira & Jung. Arte ou Loucura?
  • Sr. Filinto: o Processo de Transformação na Análise Junguiana da Experiência Psicótica
Auditório Tiradentes D
Relacionamento Amoroso
Moderadora: Eneide de Souza Caetano
  • A Reconquista do Amor Ferido – Reflexos do Mito de Eros e Psiquê na Relação Analítica
  • Infidelidade e Individuação: uma Análise Simbólica do Filme “Os Belos Dias”
  • Transformações na Dinâmica das Relações Conjugais: uma Análise Junguiana

10:00 | 10:30 Coffee Break

 Auditório São João Del Rei

10:30 | 12:00 Trazendo a alma ao consultório
Conferencista: José James de Castro Barros

 12:00 | 14:00 Almoço por adesão

 14:00 | 15:30 Reavaliando a Práxis Junguiana
Conferencista: Glauco Ulson

15:30 | 16:30 Mesas redondas

Auditório São João Del Rei
Análise de Criança
Moderadora: Daniela Gauzzi Nogueira
  • Análise de Criança
  • Psicopatologia Infantil e Psicologia Analítica: Estudo de Caso de uma Criança com Diagnóstico de Esquizofrenia
  • Sonhos de Crianças: uma Proposta de Pesquisa para uma Abordagem Simbólica do Desenvolvimento do Ego Infantil
Auditório Tiradentes A
O Corpo na Clínica
Moderador: a definir
  • A Mulher Obesa na Contemporaneidade. Apontamentos da Psicologia Analítica
  • Psicologia Junguiana na Contemporaneidade: a Doença Psicossomática como Reflexo do Desequilíbrio nas Relações Coletivas
  • Trabalho Corporal com Adolescentes como Espaço para Sentir e Ser
Auditório Tiradentes B
A técnica da Imaginação Ativa
Moderadora: Adelaide Pimenta
  • A Técnica da Imaginação Ativa de Jung
  • A Invasão de Pã na Clínica Junguiana
  • Paisagem Psíquica: uma Técnica Expressiva Fundamentada na Psicologia Analítica
Auditório Tiradentes C
Reflexões sobre a Sombra
Moderador: a definir
  • Da Tragédia Grega ao Setting Analítico – Reflexões sobre o Suicídio
  • A Práxis Tipológica Aplicada a uma Instituição de Saúde: Possibilidades de Intervenção Centrada no Potencial de Pacientes Oncológicos
  • Considerações sobre o Encontro com a Sombra em um Estudo de Caso
Auditório Tiradentes D
A Mulher na Perspectiva da Psicologia Junguiana
Moderador: a definir
  • A Noiva – a Presença de um Arquétipo Promovendo o Equilíbrio na Prática Clínica
  • A Relação do Complexo Materno e as Representações dos Papéis Sociais da Mulher
  • Maria Degolada, Violência Doméstica Contra a Mulher na Perspectiva da Psicologia Junguiana

16:30 | 17:00 Coffee Break

 Auditório São João Del Rei

17:00 | 18:30 A totatilidade corpo-mente na clínica. Corpo, transferência e psicopatologia
Conferencista: Walter Fonseca Boechat

18:30 | 19:30 Mesas redondas

Auditório São João Del ReiTransferência e Contra-Transferência
Moderadora: Lunalva Chagas
  • Transferência e Contra-Transferência
  • Somos Dois e Somos Muitos – o Impacto da Transferência e Contratransferência num Atendimento Clínico
  • Trivialidades e Penetrações: Transferência e Alma em Dois Processos Analíticos com Base na Psicologia Arquetípica
Auditório Tiradentes A
Mito e Análise
Moderadora: Josiane Sá de Oliveira Pádua
  • Mito e Análise
  • A Constelação do Mito de Deméter e Perséfone em Mulheres com Câncer de Mama, através de Psicoterapia Breve por Imagens Alquímicas, denominada RIME, em Ambiente Hospitalar
  • A Integração das Polaridades Feminino-Masculino: da Mitologia Brasileira à Prática Clínica
Auditório Tiradentes B
Complexos Familiares
Moderador: a definir
  • A Influência da Constelação Familiar na Formação da Personalidade: um Estudo de Caso de John Rayburn, da Série Bloodline
  • Sol Niger e a História da Alma Familiar: uma Perspectiva Sistêmica na Abordagem Junguiana
  • Repetição do Complexo, Projeção e Individuação
Auditório Tiradentes C
O Jovem Analista Junguiano
Moderador: a definir
  • Implementação do Grupo de Estudos: os Primeiros Passos do Jovem Psicoterapeuta Junguiano
  • Reflexões sobre o Início do Ofício em Ser um Jovem Psicoterapeuta Junguiano
  • Equação Pessoal na Formação do Terapeuta – o Jovem Analista e suas Expectativas
Auditório Tiradentes D
A Prática Clínica com Adolescentes
Moderador: Luiz Guilherme Mafle
  • Pesquisa e Práxis: a Experiência Junguiana em Pesquisa Clínica sobre o Cuidado com Crianças e Adolescentes em Uso de Substâncias Psicoativas num CAPSi
  • Projeto de Vida de Adolescente Atendido por Casa de Acolhimento. Um Relato de Experiência de Atendimentos Clínico de um Adolescente Abrigado e o Atendimento com Arteterapia e Projeto de Vida
  • Redes Sociais Digitais: Desafios na Prática Clínica com Adolescentes

19:30 | 20:00 Lançamento de livros

19 de novembro de 2016

08:30 | 09:30 Mesas Redondas

Auditório São João Del ReiO Fim da Análise

Moderador: a definir

  • Fim da Análise
  • O Final da Análise
Auditório Tiradentes A
Sonhos na Prática Clínica
Moderador: a definir
  • Semeando Sonhos – o Desafio na Formação do Psicoterapeuta para a Aprendizagem do Trabalho com Sonhos na Prática Clínica
  • Quando Tanatos Adentra-se ao Temenos: o Relógio que Para
  • Sonhos: Mensagem da Alma na Práxis Analítica
Auditório Tiradentes B
Metanóia e o Amadurecimento do Adulto
Moderador: a definir
  • Clínica do Envelhecimento: Encontro com Imagens do Feminino
  • Metanóia: Caminhos para o Desenvolvimento no Meio da Vida
  • Um Novo Nascimento: a Passagem para o Adulto Maduro
Auditório Tiradentes C
A Criança, o Adolescente e a Família
Moderador: a definir
  • Adolescência, Complexo e Família
  • A Individuação como Possibilidade Familiar de Lidar com um Diagnóstico Incorreto
  • As Imagens e as Vivências no Processo Arteterapêutico em Unidade Hospitalar de Oncologia Pediátrica
Auditório Tiradentes D
Arte e Práxis Analítica
Moderador: a definir
  • Abordagens Expressivas na Psicologia Analítica
  • Criatividade, Arte e Representação Sobre a Via Régia da Psique
  • Métodos Expressivos na Clínica, Reflexões Atualizadas a Partir da Publicação de “O Livro Vermelho”

09:30 | 10:00 Coffee Break

 Auditório São João Del Rei

10:00 | 11:00 A outra voz que eu escuto me transforma
Conferencista: Maria de Lourdes Bairão Sanchez

11:00 | 12:00 Práxis analítica: a arte de explorar e restaurar os subterrâneos labirínticos de cada indivíduo
Conferencista: Renata Whitaker Horschutz

 12:00 | 14:00 Almoço por adesão

 14:00 | 16:00 Ética e Sociopatia
Conferencista: Leandro Karnal

 16:00 | 16:30 Coffee-break

 16:30 | 17:30 A Experiência Religiosa na Práxis Analítica
Conferencista: José Jorge de Morais Zacharias

17:30 | 18:30 As várias maneiras de utilização da caixa de areia na práxis junguiana
Conferencista: Paula Pantoja Boechat

18:30 | 19:30 Sincronicidade, prática clínica e transferência
Conferencista: Joel Sales Giglio

20 de novembro de 2016

09:00 | 10:00 A Práxis Junguiana Hoje
Conferencista: Walter Fonseca Boechat

10:30 Encerramento 

Arquétipos, Representações Arquetípicas e o Processo de humanização

Fabrício Fonseca Moraes

Kelly Guimarães Tristão

Há pouco tempo conversamos no grupo “Aion – Estudos Junguianos” sobre arquétipos e humanização dos arquétipos. Tal conversa gerou o interesse e a sugestão para que fosse escrito um texto a esse respeito, especialmente no que tange ao aspecto da “humanização dos arquétipos”. Assim, este texto tem por objetivo revisar alguns pontos fundamentais da teoria dos arquétipos e discutir a relação das representações arquetípicas em nossa realidade psíquica.

O “Arquétipo em si”

O conceito de arquétipo é central no pensamento junguiano, contudo, frequentemente percebemos uma certa dificuldade para lidar e compreender o conceito em toda sua extensão. Um primeiro aspecto a ser considerado é a confusão entre arquétipo e imagem ou representação arquetípica.  Jung chamava a atenção para essa distinção,

Não devemos confundir as representações arquetípicas que nos são transmitidas pelo inconsciente com o arquétipo em si. Essas representações são estruturas amplamente variadas que nos remetem para uma forma básica irrepresentável que se caracteriza por certos elementos formais e determinados significados fundamentais, os quais, entretanto, só podem ser apreendidos de maneira aproximativa. O arquétipo em si é um fator psicóide que pertence, por assim dizer, à parte invisível e ultravioleta do espectro psíquico. Em si, parece que o arquétipo não é capaz de atingir a consciência. Se ouso formular esta hipótese, é porque qualquer coisa de natureza arquetípica percebida pela consciência parece representar um conjunto de variações sobre o mesmo tema fundamental. (…) parece-me provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação. (Jung, 2000, p 150)

Para tornar mais clara essa distinção, penso que seja funcional compreender que toda vez que usamos o termo “arquétipo” seguido de um complemento, p.ex. “arquétipo da Grande mãe” ou “arquétipo do herói”, nos referindo a uma manifestação do arquétipo ou de um dinamismo arquetípico, nos referimos uma representação arquetípica. Da mesma maneira, toda vez que usamos a forma adjetivada “arquetípico” ou “arquetípica” nos referimos igualmente a uma representação ou imagem arquetípica. Quando, por outro lado,  nos referimos ao arquétipo como aquele aspecto fundamental do inconsciente coletivo, aos padrões basais de organização psíquica, nos quais o drama de nossa história evolutiva está sintetizado, aí estaremos falando do “arquétipo em si”.

Jung apresentou três aspectos importantes para pensarmos o “arquétipo em si” são eles: 1 – o arquétipo é psicóide. 2 – o arquétipo não chega a consciência. 3 – o arquétipo se torna consciente ao ser representado.

 Primeiro, devemos esclarecer o termo psicóide. Sobre esse termo, Jung afirma

Se uso o termo “psicóide”, faço-o com três ressalvas: a primeira é que emprego esta palavra como adjetivo e não como substantivo; a segunda é que ela não denota uma qualidade anímica ou psíquica em sentido próprio, mas uma qualidade quase psíquica, como a dos processos reflexos; e a terceira é que esse termo tem por função distinguir uma determinada categoria de fatos dos meros fenômenos vitais, por uma parte, e dos processos psíquicos em sentido próprio, por outra. Esta última distinção nos obriga também a definir com mais precisão a natureza e a extensão do psíquico, e de modo todo particular do psíquico inconsciente.(Jung, 2000, 116)

O psicóide se refere a um nível de realidade que não é nem propriamente físico (ou fisiológico) nem propriamente psíquico. Para melhor explicar essa realidade, Jung utilizou a imagem do fóton da física para auxiliar a compreensão desta, pois o fóton teria como propriedade se manifestar ora como partícula, ora como onda. Do mesmo modo, o arquétipo ou a realidade do inconsciente coletivo se manifesta “como algo que ora se dá como psíquico, ora como físico”( DAMIÃO, 2005, p.25). Ao evocar a teoria quântica, Jung ampliou o horizonte epistemológico da psicologia analítica compreendendo a realidade como complexa, não definida por dicotomias.

Como a psique e a matéria estão encerradas em um só e mesmo mundo, e, além disso, se acham permanentemente em contato entre si, e em última análise, se assentam em fatores transcendentes e irrepresentáveis, há não só a possibilidade mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa (…) Nossos conhecimentos atuais, porém, não nos permitem senão comparar a relação entre o mundo psíquico e o mundo material a dois cones cujos vértices se tocam e não se tocam em um ponto sem extensão, verdadeiro ponto-zero. (JUNG, 2000, p. 152)

O arquétipo psicóide se coloca justamente na interseção entre a matéria e o psíquico, por isso mesmo está num ponto fundamental da experiência psíquica. Toda a possibilidade humana herdada filogeneticamente, inscrita em nosso corpo/DNA, se transforma em realidade psíquica por meio dos arquétipos. Nossa cultura, nossa percepção, nossas emoções possuem um pressuposto arquetípico fundante.  Uma vez que nossa realidade é sempre uma realidade psíquica, ou seja, não conhecemos nada que não seja a partir e por meio de nossa psique (“a psique é o eixo do mundo”[1]!), poderíamos dizer que o fundamento de nossa apreensão da realidade é arquetípico.

Como vimos, Jung considerava o arquétipo incapaz de atingir a consciência. Para compreender essa “incapacidade”, seria precisa retomar o aspecto mais fundamental da teoria dos arquétipos, ou seja, sua origem ao longo da evolução filogenética. Quando Jung aponta a hipótese de um inconsciente coletivo ele pressupõe

Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)

A perspectiva da evolução filogenética aponta para compreensão de que os arquétipos (assim como os instintos) se constituíram ao longo dos milhares de anos no processo evolutivo. Isso se dá a partir da repetição de situações típicas, comuns ou vitais todos os seres humanos, que imprimiram na psique formas basais de assimilação e reação a realidade de forma que possibilitasse a sobrevivência.

Com o desenvolvimento da capacidade de simbolizar (processo intimamente associado à produção de instrumentos e linguagem), deu-se  início ao lento processo de desenvolvimento da consciência e da cultura. Através dos símbolos abriu-se um espaço entre a percepção da realidade e ação instintiva, isto é, este espaço que se abre é o espaço da representação e da imaginação. Esse processo promove a ampliação da consciência, que antes era apenas um estado de vigília, e se torna um estado consciente de representação da realidade. Assim, este se estabelece enquanto a base para a possibilidade de escolha, ou seja, o uso consciente da vontade, que é determinante para o desenvolvimento da cultura. Não podemos perder de vista, que o mundo dos arquétipos passa a ser vivenciados através da cultura e especialmente dos mitos que, em todos os tempos, ofereceram aos homens modelos exemplares que possibilitavam a vivência humana. A base dos mitos, são as dinâmicas arquetípicas vivenciadas como realidade exterior, por meio participação mística.

Até então falamos sobre o aspecto evolutivo e biológico dos arquétipos, pois, esse é o horizonte conceitual que distingue a psicologia analítica de Jung de considerações metafísicas.

Representações e Humanização

Jung afirmou que os arquétipos tornam-se presentes quando são representados ou se manifestam em imagens arquetípicas. O principal aspecto das representações arquetípicas que devemos considerar é o fato delas serem análogas aos arquétipos. Apesar de possuírem a mesma essência (visto que derivam os arquétipos), essas representações (por serem simbólicas), no geral, não comprometem a dinâmica da consciência. Se pensarmos pela perspectiva evolutiva, podemos compreender que para garantir as possibilidades do ego e das funções psíquicas superiores, o impulso arquetípico natural (“tudo ou nada”) se transformou em simbólico, ou seja, uma realidade que integra tanto o dinamismo inconsciente quanto as possibilidades conscientes. Desta forma, como símbolo, as representações arquetípicas se tornam compatíveis com a dinâmica da consciência.

Segundo Jung

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção e ação. Quando algo ocorre na vida que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda a razão e vontade (Jung 2000, p. 58)

O arquétipo em si representa o potencial a uma dada configuração. Contudo, quando ativado – e só sabemos sobre os arquétipos devido suas manifestações tanto coletivas (míticas e culturais) quanto  pessoais – ele assume uma forma de comportamento específica que se impõe ao dinamismo do ego de forma compulsiva.  No entanto, quando humanizado o dinamismo arquetípico se torna disponível à esfera psíquica consciente. humanizar o arquétipo significa trazê-lo a experiência humana, tornando-o parte dos dinamismos básicos a nosso processo de desenvolvimento individual e coletivo.

Para compreender o processo de humanização dos arquétipos é importante pensa-lo desde o desenvolvimento individual. Para tanto as concepções de Fordham mostram-se muito uteis neste propósito. Fordham construiu uma teoria do desenvolvimento que compreende que os processos arquetípicos estariam ativos desde a mais tenra infância.  Segundo autor “na infância as formas arquetípicas são derivadas do Self através de sua deintegração [2]”(FORHAM, 1985, 45). Para Fordham, a criança já nascia com uma unidade prestes a surgir[3], o self se dividiria espontaneamente em partes, ativando o potencial arquetípico correspondente a situação, a esse processo ele denominou de deintegração.

Em outras palavras frente a uma dado estímulo – seja ele interno como fome, ou externo como o toque – são ativados aspectos do self específicos à situação. Esses deintegrados se manifestam como um sistema de prontidão aos estímulos. Uma vez ativados esses deintegrados são atualizados pela experiência consciente e serão reintegrados novamente (em processos elaborativos, como no sono), e ao longo do processo rítmico de deintegração e reintegração, darão, em primeira instância, origem aos núcleos que formariam o núcleo do ego.

O processo de deintegração-reintegração não se limita ao processo de desenvolvimento do ego, mas, ao processamento continuo de constelação (deintegração) e atualização(reintegração) das representações arquetípicas. Segundo Fordham

Os deintegrados desenvolvem formas simbólicas e outras, em razão de sua interação com o ambiente que fornece imagens perceptivas. Estas imagens se organizam e algumas delas são usados na adaptação do organismo para o mundo externo, (atividades do ego) outras para formar imagens simbólicas internas (as formas arquetípicas) (FORDHAM, 1985, p.31 – tradução nossa) .[4]

A dinâmica de deintegração-reintegração está relacionada ao processo de humanização dos arquétipos (aqui compreendidos como deintegrados). Podemos citar a dinâmica arquetípica da Grande Mãe, onde os dinamismos básicos de nutrição (fome-alimentação-saciação) são humanizados na relação com a mãe. Do mesmo modo, a experiência de proteção/segurança que são humanizados no toque, cuidado, atenção, “holding” que possibilitam o estabelecimento de uma relação saudável com a realidade exterior, são reintegrados no registro ontológico do sujeito, dando origem ao núcleo do complexo materno.

O processo de deintegração-reintegração pressupõe a relação entre o estimulo externo e o potencial arquetípico. Pois, a representação arquetípica

(…) implica não apenas uma disposição intrapsíquica, mas também um fator proveniente do mundo. Quando dizemos que um arquétipo é “ligado” por evocação, queremos dizer que a aptidão arquetípica da psique precisa ser liberada por um fator correspondente proveniente do mundo.(NEUMANN,1992, p.68)

Na infância, o processo de humanização dos arquétipos humanos, (grande mãe, pai, anima e animus, velho sábio) precisam de pessoas humanas para serem humanizados. Assim, a relação entre a criança/indíviduo com o meio determinará a forma dessa humanização – por exemplo, o herói pode ser humanizado através de um esportista ou de um bombeiro militar, em outros casos através do traficante. O padrão basal é permanece, mas, o conteúdo é dado pelo ambiente ou das relações que indivíduo estabelecem.

O que precisamos ter clareza, é que a humanização dos arquétipos na infância é a base do desenvolvimento psíquico, especialmente em relação a formação dos complexos. Contudo, ao longo da vida as novas necessidades e situações que se apresentam ao indivíduo, podem gerar novos processos de deintegração. Isso significa dizer que a nossa história pessoal ou nosso passado pode deixar marcas profundas em nossas vidas, mas, não as define. Através da deintegração, a psique em sua dinâmica autorreguladora possibilita o processo de reparação de possíveis lapsos no desenvolvimento. Aqui a humanização dos arquétipos pode se dar tanto pela mediação da psicoterapia, de outros profissionais em relação de cuidado, pela religião e por grupos de amigos e apoio.

Referências Bibliográficas

DAMIÃO M. Jr. Experiência do Símbolo no Pensamento de C.G.Jung, Rio de Janeiro: Editora Aion, 2005.

FORDHAM, M. New developments in Analytical Psychology. Routledge and Kegan Paul Ldt, Bristol, 1957.

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JUNG, C.G. Natureza da Psique, Petrópolis:Vozes, 2000.

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.

Neumann, E. A Criança. São Paulo: Cultrix. 1992

[1]Jung, 2000, p. 154

[2] In the infancy the archeypal forms are derived form the self through itis the integration. (Fordham, 1957, p. 117)

[3] Term is used for the spontaneous division of the self into parts-a manifest  necessity if consciousness is ever to arise.

3 The deintegrates develop symbolic and other forms by reason of their interaction with the environment which provides perceptual images. These images make a pool and some of them are used in the organism ’s adaptation to the external world, (ego activities) Others to form inner symbolic images (the archetypal forms).

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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