“A divergência entre Freud e Jung”: uma Discussão Acerca dos Pressupostos básicos da Psicologia Analítica

Fabrício Moraes

Kelly Tristão

“Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde”

C.G.Jung

Em 1929, Jung publicou um breve artigo intitulado “A divergência entre Freud e Jung”[1], onde afirmou que a “[…] oposição entre Freud e eu repousa essencialmente na diferença de pressupostos básicos”(JUNG. 1989, p. 329). Nosso objetivo é discutir os pressupostos básicos da psicologia analítica, apontados nesse artigo.

O primeiro pressuposto indicado por Jung está relacionado com seu método utilizado, o método hermenêutico. A hermenêutica é um método inicialmente utilizado para a compreensão de textos sagrados, mas que foi ampliado como método de interpretação de textos em geral, assim como de expressões simbólicas.

Para compreendermos a associação do método hermenêutico à psicologia junguiana, devemos considerar que para Jung o inconsciente se manifesta como uma linguagem, assim, Jung aponta como necessário “[…] examinar as formas de manifestação do inconsciente, a fim de compreender sua linguagem.” (JUNG, 1999, p.118). Para compreender a linguagem do inconsciente, seria necessário.

[…] aplicar o mesmo método usado para a leitura de um texto fragmentário, ou que contenha palavras desconhecidas, isto é, a consideração do contexto. Pode ocorrer que o significado da palavra desconhecida seja descoberto quando comparado com uma série de passagens que a contém (JUNG, 1994, p.54).

Deste modo, para compreender a linguagem do inconsciente é necessário conhecer as formas pelas quais o inconsciente se manifesta, sejam elas pessoais, como os sonhos, devaneios, sintomas, atos falhos dentre outras; ou coletivas, como mitos, contos de fadas, religiões, arte, literatura, ideologias de massa dentre outras; através dessas manifestações poderemos – por meio de contextualização e comparação, compreender a dinâmica do inconsciente.

Na pratica clínica, o método hermenêutico é utilizado por Jung sob o nome de “amplificação”, que consistia no processo de buscar as associações do cliente sobre determinado símbolo, de forma dirigida, circulando em torno do símbolo a fim de recolher o máximo de associações pessoais ou coletivas (culturais e míticas), para melhor compreender o símbolo junto ao cliente.

A hermenêutica não constitui apenas um método de investigação, mas, uma postura epistemológica que visa compreender o conhecimento e o processo de conhecer dentro de seu contexto próprio. E assim, Jung afirma que:

Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver. Outras pessoas tendo outra psicologia vêem e exprimem outras coisas e de outro modo. Isto o demonstrou logo um dos primeiros discípulos de FREUD: ALFRED ADLER. Ele apresentava o mesmo material empírico de um ponto de vista bem diferente, e sua maneira de ver é, no mínimo, tão convincente quanto à de FREUD, porque também ADLER representa um tipo de psicologia que encontramos com freqüência (JUNG, 1989, p. 324).

A compreensão de que o conhecimento deve ser contextualizado, levou Jung a afirmar que a diversidade as teorias psicológicas, representam a diversidade da psique humana. As teorias seriam o resultado da interação dofenômeno observado com observador. Seria um grave equívoco excluir o observador, que é um processo histórico em curso. Jung afirmava que as teorias são confissõessubjetivas, isto é, as teorias expõem tanto o fenômeno observado quanto o observador, pois, o a compreensão do fenômeno (exposta na teoria) vai passar pela história do observador (suas experiências e referências construídas ao longo de sua vida).

Assim, as teorias psicológicas devem ser avaliadas dentro de seu próprio contexto, desta forma, todas as teorias deveriam ser respeitadas como válidas – por mais opostas que possam parecer.

No tocante à psicologia, acho melhor renunciar à idéia de que estejamos hoje em condições de fazer “afirmações verdadeiras” ou “corretas” sobre a essência da psique. O melhor que conseguimos fazer são expressões verdadeiras. Entendo por expressões verdadeiras uma confissão subjetiva e uma apresentação detalhada do que se observa subjetivamente. Alguém colocará ênfase especial na forma do que encontrou e se arvorará em autor do seu achado, outro dará mais  importância àobservação e falarádaquilo que se manifesta,valorizando sua atitude receptiva. A verdade estará provavelmente em ambos: a verdadeira expressão é a que dá forma à observação[2] (JUNG, ibid ).

O segundo pressuposto básico que Jung aponta em seu artigo, é a perspectiva teleológica ou energética. Este foi um dos pontos cruciais na divergência com Freud, pois a adoção da perspectiva energética, isto é, do conceito deenergia psíquica em 1912, marcou o distanciamento teórico entre Jung e Freud, culminando na separação definitiva em 1914.

Jung abandonou a compreensão freudiana de libido, por considerar que:

[…] os processos dinâmicos da psique não podem ser reduzidos a este ou aquele instinto específico (…) Por isso achei oportuno admitir uma grandeza hipotética, uma “energia”, como princípio de explicação psicológica e designá-la “libido”, no sentido clássico da palavra (desejo impetuoso), sem com isso fazer qualquer afirmação sobre sua substancialidade. Com essa grandeza, os processos dinâmicos podem ser facilmente explicados e sem aquela deturpação própria de uma explicação baseada em motivo concreto (JUNG, 2000, p. 13).

A adoção da perspectiva energética significou comparar o conceito de libido como o conceito de energia da física, isto é, como o potencial para realizar um trabalho ou ação. Com essa analogia, a libido se tornou neutra, ou seja, não está condicionada somente à sexualidade como propunha Freud. Jung não negava a importância da sexualidade, mas, questionava a crença freudiana de que a sexualidade era a causa única da dinâmica psíquica. Seria como dizer, que na física toda energia teria a mesma origem, por exemplo, toda energia seria hidroelétrica.  Assumindo o ponto de vista energético, Jung não afirmou nenhuma causa ou uma motivação original do psiquismo, mas sim enfatizou a finalidade da dinâmica psíquica.

Na concepção de libido ou energia psíquica proposta por Jung, a energia deveria ser avaliada em dois aspectos, o quantitativo e o qualitativo. No aspecto quantitativo, poderíamos apenas inferir sobre a quantidade ou intensidade de energia que seria direcionada a uma dada ação ou dinâmica psíquica. No âmbito qualitativo, por outro lado, a ênfase recai sobre o modo ou forma que a energia assumiu; a sexualidade, adaptação, vontade de poder, auto-preservação seriam expressões qualitativas da energia psíquica. O aspecto quantitativo e qualitativo seriam manifestações finais da energia psíquica; sendo assim, passamos a considerar o contexto final do processo psíquico, isto é, seu objetivo. Essa consideração finalista ou da finalidade da dinâmica psíquica também é chamada de teleológica.

Este pressuposto básico se reflete na clínica junguiana pela busca do sentido do sintoma, da neurose ou do sonho.  Isto porque, para Jung, havia uma intencionalidade natural nas formações do inconsciente, isto é, um direcionamento para o desenvolvimento psíquico. Um sonho ou mesmo uma neurose, não se manifesta ao acaso, nem é uma simples repetição de um drama passado, mas são tentativas de libertar o individuo de amarras que o prendem – não ao passado, mas desde o passado.  A neurose é uma tentativa natural de cura. Assim, o trabalho terapêutico se desenvolve numa tentativa de compreender para onde a neurose quer nos guiar, o que ela quer nos dizer.

Não de se deveria procurar saber como liquidar a uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido.[…] Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas é ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. (JUNG, 2000, p.160-1)

Para se compreender o sentido ou a finalidade da neurose, era necessário se observar com atenção o passado, ou a história pessoal de um individuo, para entender e contextualizar as formações do inconsciente, mas sem cair num fatalismo, que reduz o indivíduo a um produto de seu passado. Uma vez compreendida a construção histórica do individuo, deve-se buscar a sentido, a finalidade que é inerente a qualquer formação do inconsciente.  Jung considerava que a perspectiva causal e a finalista eram complementares, mas, ainda assim, enfatizava a importância da perspectiva finalista, pois, “[…] em geral, o para frente é mais importante que o para trás, por que futuro vem e o passado se vai.” (ibid).

O terceiro pressuposto apontado por Jung é considerar a existência de uma função religiosa inerente ao psiquismo. Esse pressuposto é, certamente, o mais polêmico – quando mal compreendido. Para discutirmos essa função psíquica, devemos, antes de mais nada, entender o que Jung compreende por religião, que para o mesmo era “[…] uma atitude do espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: ‘religio’”(JUNG, 1999b, p.10).

Devemos nos atentar para o termo religio, pois o uso contemporâneo de religião, não guarda correspondência com o emprego originário de religio. Ao “[…] termo religio os vocabulários latinos atribuem, em geral, significados correntes entre os autores clássicos: ‘escrúpulo’, ‘consciência’, ‘exatidão’, ‘lealdade’ e outros afins.” (FILORAMO et PRANDI, 1999, p. 255). A concepção que comumente temos de religio como oriunda de religare, (religar, reatar), surgiu por volta do século IV d.C, com Lactâncio, como uma forma de adequar o termo religio à teologia cristã.

Deste modo, religião para Jung era uma atitude que o individuo assumia frente ao numinoso. Este termo, numinoso foi concebido por Rudolf Otto, para descrever o fenômeno do sagrado, Numen, em latim, era um termo aplicado para se referir a divindades menores ou mesmo para se referir ao que seria divino, isto é, algo que transcenderia nossa realidade, nos impactando.  Assim, Jung explicava que religião era:

[…] uma atitude o espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: “religio”, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos concebidos como “potências”: espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais, ou qualquer outra denominação dada pelo homem a tais fatores; dentro de seu mundo próprio a experiência ter-lhe-ia mostrado suficientemente poderosos, perigosos ou mesmo úteis, para merecerem respeitosa consideração, ou suficientemente grandes, belos e racionais, para serem piedosamente adorados e amados” (JUNG, 1999b, p.10).

Devemos observar que Jung não defendia uma ou outra forma de crença religiosa, pois o seu foco era a atitude religiosa, isto é, uma “consideração e observação cuidadosa”, que poderia promover uma relação diferenciada do individuo consigo mesmo. Jung compreendia que todas as religiões se nutriam do mesmo substrato psíquico, possuindo raízes comuns no inconsciente coletivo. Afirmava que em”

[…] seu conteúdo doutrinário reconheço aquelas imagens que encontrei nos sonhos e fantasias de meus pacientes. Em sua moral vejo as mesmas ou semelhantes tentativas que fazem meus pacientes, por intuição ou inspiração próprias, para encontrar o caminho certo de lidar com as forças psíquicas (JUNG, 1989, p. 326).

As religiões, assim como as artes, são expressões simbólicas naturais que orientam e possibilitam o desenvolvimento do psiquismo.  Por este motivo, Jung afirmava que as religiões eram sistemas psicoterapêuticos, por favorecer que, através da identificação simbólica, o indivíduo possa ter um encontro consigo mesmo. Assim, a função religiosa é a capacidade natural da psique em criar símbolos e sistemas simbólicos e se organizar e se orientar a partir desses sistemas.

A função religiosa se manifesta como uma possibilidade de organização psíquica que não depende de instituições religiosas. Ideologias, associações podem ser uma via de manifestação desta função psíquica. Podemos citar como exemplo, a irmandade dos “Alcoólicos Anônimos”, que oferece através de suas reuniões e do estudo dos 12 passos e das 12 tradições, um contexto simbólico importante para a recuperação/mudança de atitude de seus membros.

Esta terceira característica pressupõe uma função natural de auto-regulação psíquica, que impulsiona o individuo ao desenvolvimento.

Os três pressupostos básicos – método hermenêutico, perspectiva teleológica e a função religiosa – nos permitem compreender o desenvolvimento da teoria e prática Junguiana assim como o distanciamento da psicanálise de Freud.

Referencias bibliográficas

FILORAMO,G.; PRANDI, C. As Ciências das Religiões, São Paulo: Paulus, 1999.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

__________. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 3. ed.  1994.

__________. A Prática da Psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 7 ed. 1999.

__________. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 6 ed. 1999b.

__________. Civilização Em Transição. Petrópolis: Vozes, 2 ed. 2000.

__________. O desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Vozes, 9 ed. 2006.


[1] Este artigo faz parte do quarto volume das “Obras Completas de C.G Jung”, intitulado “FREUD E A PSICANÁLISE”

[2] Grifo do autor.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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