Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 2/3

Para ler a primeira parte clique aqui: Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 1

Diferenciando o ego

Jung escreveu pouco sobre o ego e a sua organização. No pequeno capitulo intitulado “O Eu”, do livro “Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo”, ele nos dá uma descrição importante para pensarmos a organização do ego e dirimir dúvidas sobre a noção de complexo do eu. Segundo Jung,

Entendemos por “eu” aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos conscientes se relacionam. E este fator que constitui como que o centro do campo da consciência, e dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa.(…)

O eu considerado como conteúdo consciente em si não é um fator simples, elementar, mas complexo; e um fator que, como tal, é impossível de descrever com exatidão. Sabemos pela experiência que ele é constituído por duas bases aparentemente diversas: uma somática e uma base psíquica. (Jung, 1986, p. 1-2)

Em primeiro lugar, devemos notar que Jung se refere ao ego como um fator complexo e não como sendo “um complexo”. Nessa citação podemos compreender que ao falarmos do “complexo do eu” não estamos identificando o ego com os demais complexos inconscientes.  Para delimitar essa diferenciação nós adotaremos expressão a complexidade do ego, na qual compreende-se três aspectos interdependentes: organização, autorreconhecimento e energia diferenciada.

Esboçamos essa complexidade quando falamos da formação do ego. A formação do ego, como vimos, tem origem nos processos deintegrativos do self, mais precisamente quando o self forma suas próprias representações (que emergem da experiência corporal com ambiente), isto é, núcleos de consciência que parcialmente expressam o self. Isso equivale dizer que o self é o núcleo arquetípico do ego. Por outro lado, por se desenvolver/emergir das relações de diferenciação entre self e não-self, isto é, das relações objetais, o ego se forma uma organização que é, por excelência, de diferenciação. Esse processo de diferenciação origina a identidade e aos afetos relacionados à identidade (por exemplo, integridade, pertença e segurança). Quando os núcleos de identidade são integrados de forma estável e coerente temos o que chamamos de um ego coeso e forte.

Desta forma, é correto afirmar que o ego é um complexo de identidade. Ou seja, o ego agrega os elementos que propiciam a diferenciação do organismo/self/ego dos demais objetos externos e internos. É exatamente essa capacidade de diferenciação que possibilita o autorreconhecimento. Esta é uma característica da maior importância, visto que ao se diferenciar dos objetos internos e externos (isto é, da realidade interior e exterior) o ego torna-se capaz de se reconhecer/perceber em suas ações e desse modo utilizar os recursos (energia disponível à consciência) e ter autonomia tanto das influências internas (o fascínio das dinâmicas arquetípicas, dos complexos) como das influências externas (as exigências da persona).

A energia que diferencia o ego dos complexos está relacionada ao que Jung nomeou de base somática do ego. Assim, enraizada nos processos somáticos, a energia que sustenta o estado de vigília está intimamente relacionada ao ego. Por esse motivo que as funções psíquicas do ego (tanto conscientes quanto inconscientes) derivam do corpo.

A funções do ego

A complexidade do ego está intimamente relacionada às funções que desempenham. Podemos citar:

– Identidade

Como complexo de identidade, o ego agrega os valores que o qualificam. Assim, esta função se refere aos aspectos subjetivos, históricos, que compõem a narrativa pessoal do ego. Devemos considerar que a identidade é uma construção que tem início com as primeiras relações objetais e segue ao longo do processo vital do ego, onde alguns desses elementos se tornam constantes e outros se modificam ao longo da vida. Assim, é importante compreender que o ego sofre transformações, não sendo, portando, rígido e imutável.

As crises que geralmente acompanham as mudanças de etapas da vida se referem às transformações vividas na organização do ego. É necessário um ego coeso e estável para suportar as mudanças e transformações da vida.

– Mediação com a realidade interna e externa;

O ego é o agente dos processos adaptativos entre a realidade interior e exterior. Frequentemente as exigências interiores e exteriores são incompatíveis, cabendo ao ego avaliar e responder de forma apropriada. Para realizar essa mediação o ego tem a sua disposição recursos perceptivos e volitivos; nesses processos temos o que Jung descreveu como tipos psicológicos. Eles envolvem a atitude da energia psíquica que se caracteriza ou pelo fluxo ou pela retração da energia em relação ao objeto. Assim, diante do objeto a atitude da consciência pode ser extrovertida ou introvertida. Isso implica em possibilidades para o ego se posicionar diante da realidade exterior. As funções psíquicas racionais indicam uma avaliação ou julgamento compreensivo do objeto (o que é ou seu valor), enquanto as irracionais se voltam ao ambiente (objetivo ou as potencialidades). Por outro lado, a função inferior se relaciona com aspectos do inconsciente (sombra e anima/us) que se associa a adaptação da realidade interior.

A memória é outro fator importante nos processos adaptativos internos e externos, pois fornece referenciais para as ações – estando ainda relacionados com os complexos. Apesar da memória não depender do ego, este pode ter um papel fundamental tanto na aquisição (busca, atenção e relação com os objetos), quanto no armazenamento (técnicas, exercícios e evocação que podem ser feitos por um ato de vontade ou prejudicados pelas defesas do ego). O acesso a memória é relacionado tanto ao significado/importância quanto carga afetiva.

Assim, a mediação é o diálogo que o ego estabelece com as necessidades e exigências internas e externas ao longo do tempo.

– Orientação espaço-temporal

A orientação espaço-temporal indica a capacidade do ego em si orientar e relacionar com os objetos externos. Esse processo é muito importante por indicar a adaptação e aderência à realidade exterior, que demonstra a força e coesão do ego para sustentar a relação com o mundo exterior.

Relações corporais

O ego se relaciona com o corpo tanto no sentido da propriocepção, imagem /esquema corporal assim como no sentido de controle das funções motoras. Grande parte das relações com o corpo são inconscientes, ou seja, ocorrem a despeito do foco da atenção e reflexão consciente.

Defesas

As defesas do ego são parte fundamental para a atividade da consciência. As defesas são compreendidas como processos que visam manter a organização e a funcionalidade do ego. Elas atuam de modo inconsciente para que os processos adaptativos (mediação, respostas motoras, atenção e decisões, etc.) possam ter fluxo e continuidade.

Notemos que a atenção é um processo que depende das defesas na medida em que os estímulos filtrados possibilitam ao ego estabelecer uma continuidade na relação com um dado objeto.

Para Evers-Fahey (2017), Jung valorizava os processos sintéticos de integração, considerando as defesas como um aspecto dos processos adaptativos. Ela aponta que poderíamos compreender os processos defensivos em três aspectos:

1 – Defesas contra a percepção

“…é chamada de defesa contra a percepção porque lida com a ausência ou deficiência em observar ou conhecer a própria posição do ego consciente.  Isto pode ser devido à fraqueza do ego, dependência do ego, ou o domínio de um complexo autônomo que suplanta o complexo do ego.[1] (Evers-Fahaey, 2017 p. 161 – Tradução nossa)

A defesa contra a percepção atua na relação do ego consciente com os objetos externos. Ou seja, um objeto ou parte dele não é percebido pelo ego. Um exemplo dessa forma de defesa seria a negação onde um aspecto, qualidade ou atributo de um objeto (pessoa ou situação) não é percebido pelo ego. Outro exemplo seria a idealização, quando a percepção valoriza excessivamente os atributos do objeto, impedindo que outros aspectos sejam percebidos.

A ausência da percepção do objeto impede que este conteúdo externo  prejudique o fluxo da consciência ou mesmo que seja veículo (por similaridade, analogia ou metáfora) de um conteúdo do inconsciente. Além da falta de percepção em relação aos objetos externos, podemos notar essa defesa contra a percepção na ausência de consciência acerca do que falamos ou fazemos. Na prática clínica é perceptível quando o paciente não percebe o que está dizendo ou mesmo quando a reação corporal contradiz o que está sendo dito.

2 – Defesas contra o sentimento/afeto

“…a defesa contra sentimento porque as emoções são essencialmente produtos do inconsciente, não conscientemente escolhidos.  Imagens do inconsciente são meramente estéticas se a reação emocional está faltando[2].” (ibid p.162 – Tradução nossa)

As defesas contra os sentimentos/afetos são uma tentativa de distanciamento radical do inconsciente. Ao evitar que o conteúdo afetivo atinja a consciência, evita-se a elaboração simbólica deste conteúdo.  A imagem ou lembrança sem o componente afetivo se torna apenas um conteúdo consciente, um fragmento dissociado do inconsciente.

Ao neutralizar o sentimento/afeto a imagem perde seu significado, passa a ser percebido como uma informação ou dado cuja importância pode ser avaliada racionalmente, mas soaria como uma informação curiosa, que não promoveria de fato uma mudança para o indivíduo. Em outros termos, o que para o terapeuta poderia ser simbólico,(e, portanto rico ), para o paciente , por força de defesa, é um sinal.

São exemplos de defesas contra os afetos a formação reativa, o deslocamento, a substituição e a projeção.

3 – Defesas contra os mecanismos de integração

“No nível do ego, há um desejo ou necessidade de preservar a coletividade e, portanto, haveria uma defesa contra a integração para preservar a persona.  Cada indivíduo tem uma noção de quanto desafio pode suportar sua identidade pessoal ou cultural ou papel na vida em qualquer momento[3].” (p.162)

Jung indicava que a “meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (Jung, 2001, p.61) O processo de individuação se dá através da diferenciação da relação do ego com Si-mesmo  (ou Self). Devemos compreender que as identificações com a persona ou com os complexos fornecem segurança ao ego, por estabelecerem padrões específicos de comportamento.

Como toda identificação produz uma negligência de outros aspectos da vida, a “desindentificação” produz ansiedade ao ego, pois  a exigência de flexibilidade e adaptação para situações em que o ego não possui repertório implica numa em uma situação desconhecida, o que podemos compreender como resistência aos processos de elaboração simbólica e individuação.

-Volição ou Vontade

A volição ou vontade não é restrito à consciência. Contudo, o uso consciente da vontade é uma função do ego. Assim, a vontade implica no direcionamento da energia disponível na consciência para um ato consciente de adaptação ou para refrear um impulso inconsciente ou somático.

Como não visamos esgotar o tema, acredito que essas funções do ego ilustram o fator complexo do qual Jung se referiu ao falar do ego.

Em breve postaremos a terceira e última parte deste texto.

Referências

JUNG, C.G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo, Petrópolis: Vozes, 1986.

 ________. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 15ed. 2001

EVERS-FAHEY, Karen, Towards a Jungian Theory of the Ego, New York: Routledge, 2017.


[1] “… is called defense against perception because it delas with the absence or deficiency in observation or knowing one´s own conscious ego stance. This may be due to ego weakness, ego dependence or dominance of an autonomous complex which supplants the ego-complex.

[2]“the defense against the feeling because emotions are essentially products of the unconscious, not consciously chosen.  Imagens from the unconscious are merely aesthetics if the emotional reaction is lacking.

[3] At the ego level, there is a desire or need to preserve collectivity and therefore ther would be a defense against integration in order to preserve the persona. Every individual has a sense of how much challenge they can bear to their personal or cultural identity or role in life at any given time.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 1

O ego é um conceito fundamental para a psicologia analítica pois é a partir dele que podemos compreender e delimitar a relação com os objetos tanto internos e externos, distinguindo a realidade interna e externa. Compreendendo essa importância e, para provocar a reflexão acerca do ego, em algumas situações eu perguntei provocativamente “Onde está o seu ego?” Tal pergunta era recebida com estranheza, desconfiança e, frequentemente, silêncio. As vezes a resposta se dava numa pergunta titubeante “está na consciência? ” Ou “está na cabeça? ”.  Essas respostas explicitavam o quanto nosso enfoque acerca do inconsciente eclipsava os estudos e desenvolvimentos acerca do ego e dos processos da consciência.

A dificuldade ou falta de clareza a respeito de uma construção de uma teoria acerca do ego é um fato que comentado por diferentes autores.  Para Samuels(1989)

Uma dificuldade ocorre porque Jung usa de forma intercambiável “ego”, “complexo do ego”, “consciência do ego” e “consciência”. Outro problema é seu uso de metáforas ambíguas: o ego tanto pode ser visto como uma pele esticada sobre o inconsciente (CW 18, § 122) e, ao mesmo tempo, o centro da consciência (CW 6, § 706). (SAMUELS, 1989, 77)

Evers-Fahey (2017) concorda com essa falta de clareza e aponta quatro possíveis razões para essa dificuldade em relação ao ego. Em primeiro lugar, ela aponta que Jung não seguia uma definição ou conceituação determinada, antes dava diferentes descrições sobre o ego em sua obra completa assim como em suas cartas; em segundo lugar, o uso dos termos “ego”, “complexo do ego” e “ego consciência” indicavam que a ênfase do Jung era mais voltada para o significado do ego do que para estruturar o conceito.

A terceira razão apontada por ela, é que as ideias de Jung evoluíram correlacionadas a sua vida profissional, muitas das ideias acerca do ego organizadas no período em que Jung ainda colaborava com Freud, após a ruptura a forma como Jung organizou sua compreensão a partir de uma perspectiva relacional e dinâmica do ego. E a quarta razão é que Jung não organizou uma metapsicologia do ego pois seus interesses se dirigiam para outro lugar, especialmente a compreensão dos arquétipos e o Self.

Em todo caso, apesar de não sistematizar uma teoria acercado do ego Jung fez considerações importantes que nos abrem a possibilidade pensar o Ego. Samuels aponta que  

é útil considerar as ideias de Jung sobre o ego sob três aspectos: (a) O ego pode ser visto o como um núcleo arquetípico da consciência, e, portanto, trata-se de um complexo do ego com uma série de capacidades inatas. (b) O ego pode ser visto como um elemento na estrutura psíquica em termos de suas relações com o Self (c) Finalmente Jung ás vezes adota uma perspectiva de desenvolvimento a partir da qual se pode visualizar as exigências mutáveis feitas ao ego nos vários estágios da vida. (SAMUELS, 1989, p. 77)

Assim, devemos pensar o ego em seus aspectos de desenvolvimento, funções e dinâmica.

Formação e Desenvolvimento do Ego

O primeiro aspecto fundamental para pensarmos o ego é compreende-lo em seu processo de formação e desenvolvimento. Esse aspecto, em especial, não encontra uma forma própria na obra de Jung. Os dois teóricos que procuraram preencher essa lacuna foram Erich Neumann e Michael Fordham. Apesar de reconhecer a importância de Neumann, enfatizaremos a compreensão de Fordham sobre o desenvolvimento, focalizando sua compreensão acerca do desenvolvimento do Ego.

No modelo de Fordham não há um ego formado no momento no nascimento, o bebê constitui um self primário ou original. Este é self é uma unidade psicofísica integrada, ou seja, todo potencial de desenvolvimento psicofísico está contido ou integrado no self e será atualizado, liberado na interação com o ambiente( que inclui a mãe, pai, roupas, manejo da criança),. A relação com o ambiente se caracteriza pelas relações objetais, que irão qualificar a experiência com o ambiente e a qualidade da experiência, influenciando nos processos de apego e constituição do ego, por ora focaremos na formação do ego.

O self primário traz consigo a potência do desenvolvimento, experiência da totalidade integrada não pode ser percebida ou representada. O potencial humano arquetípico do self se desenvolve em diferentes níveis: biofisiológico; relacional e representacional. O próprio desenvolvimento biofisiologico possibilita estado propício a apreensão dos estímulos, que levará a atualização ou humanização do potencial arquetípico formando as bases sobre as quais o psiquismo se organizará. 

O processo de atualização e humanização arquetípico se desdobra num processo continuo e rítmico que Fordham denominou de deintegração e reintegração. A deintegração implica na ativação do self, isto é, ou partes do self que frente aos estímulos apresentam um estado de “prontidão para a experiência, uma prontidão para perceber, uma prontidão para agir instintivamente, mas não uma percepção ou ação real”. (Fordham, 1957, p.127). Os deintegrados representam a possibilidade de resposta ou reação aos estímulos, a experiência é reintegrada e gradativamente formando as primeiras experiências do bebê. Através do processo de deintregração-reintegração o self desdobra-se, transformando de um self integrado, atemporal, para um self relacional, presente e representacional.

Para exemplificar, na primeira infância a deintegração do self ocorre inicialmente através estímulos sonoros, táteis, luz, orais – que ativam diferentes partes do self. Notemos, nesse momento as experiências estão intimamente relacionadas ao self primário integrado que é psicossomático, por isso não falamos de imagens, símbolos ou consciência pois, ainda não se diferenciaram. Todos esses processos são arquetípicos, por excelência, pois os arquétipos são os padrões basais de organização psíquica, assim Fordham não nomeou este ou aquele padrão arquetípico – pois, nos referimos a um momento pré-egoico e pré-simbólico. Essas experiências são reintegradas, atualizadas ao self no sono, no descanso do bebê.

A relação afetuosa do bebê e sua mãe possibilita segurança para manutenção desse processo de deintegração e reintegração. Na etapa inicial do desenvolvimento não há distinção entre consciente, inconsciente, realidade interior ou exterior. A deintegração exprime uma dinâmica da energia que se dirige aos estímulos, e retorna ao self sendo reintegrada. Os deintegrados do self formam os primeiros objetos do self. Quando falamos de objetos, nos referimos qualquer coisa, ideia ou situação para onde a energia se dirige.

Embora ao nascer o bebê se caracterize por relações objetais, parece evidente que a natureza de seus objetos seja composta. Algumas de suas percepções são objetivas, mas o grosso delas está fortemente carregado de energia proveniente do deintegrado do self. Essa energia organiza a percepção de forma que o objeto se toma algo que poderia ser chamado de objeto do self (FORDHAM, 2001, p.92)

Devemos observar que o self se relaciona de uma forma fragmentaria com a realidade e essa relação se baseia em aspectos primários, sensoriais. Essa relação se dá em termos simples baseado em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As relações com o ambiente/mãe e suas transformações (satisfação-insatisfação; conforto-descontorto, prazer-desprazer etc) possibilitam o inicio da distinção de self e não-selt, ou seja, possibilitando contornos que diferenciem os objetos externos e os objetos do self. 

Os objetos do self possibilitam que a energia dirigida e atualizada na relação com o ambiente formem centros de consciência, que expressam parcialmente o self, que são as representações do self. Estas representações que formam as bases de uma consciência de si mesmo, sentido de continuidade, de fronteiras que distinguem o self do não-self  de uma auto-percepção que levará a formação de uma imagem corporal e um senso de integridade. As representações do self, como aspectos parciais do self que foram deintegrados, formam os “fragmentos” ou “núcleos do ego” que vão ser integrados pela atividade integradora do self.          

Na formação do ego se dá através de pequenos núcleos, resultantes da deintegração, que logo se ligam para que se possa falar de um centro de consciência como nos escritos de Jung. Nesse processo, função integrativa do self desempenha um papel essencial. O corpo principal do ego, às vezes chamado de ego central, tem uma relação especial com o arquétipo do self. Esse arquétipo central pode ser pensado em um organizador do inconsciente: contribui significativamente para a formação do ego central em que encontra expressão, especialmente em experiências conscientes de individualidade. (FORDHAM, 1985, p.32 – tradução nossa)[1]

Deve-se notar que este não é um processo linear. Afirmamos no início, que não há um ego constituído no nascimento, contudo, toda atividade deintegrativa-reintegrativa visa a formação e desenvolvimento do ego.

Geralmente é sustentado, na visão clássica, que durante a individuação o ego dá lugar ao self,o qual, no entanto, se reflete cada vez mais claramente no ego; em contraste, na primeira infância e ao longo da infância, o organismo visa estabelecer o ego em relação ao mundo da realidade material, os arquétipos e também o self. (FORDHAM, 1976, p.14-5 – tradução nossa[2])

A partir dos 4 meses, as relações objetais se tornam cada vez mais perceptíveis, toda dinâmica do self visa a estabilidade e segurança para que o ego possa lenta e continuamente possa se configurar, este movimento na infância é compreendido também como processos de individuação. Aproximadamente com dois anos notamos um ego estável, contudo, assim como o organismo ele está apenas no início de seu amadurecimento.

Um breve comentário sobre relações objetais e defesas

Não cabe aqui uma discussão ampla sobre as relações objetais, contudo, faremos um apontamento de sua importância. Incialmente essa relação se dá em termos simples baseados em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, prazer e dor visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As experiências satisfatórias, de prazer e segurança são nomeadas como objetos bons, já as experiências de dor, insatisfação e desconforto são nomeadas como objetos maus.

A relação com os objetos bons e maus influenciam diretamente a experiência do self e ego em relação ao ambiente. Visto que, diante de um ambiente seguro (com predominância de objetos bons) os processos deintegrativos e reintegrativo (que ocorre em momentos de descanso/segurança) ocorrem mais segura e intensa, possibilitando abertura e interesse pela realidade exterior. Naturalmente, os objetos de frustração e insatisfação fazem parte e são necessários, contudo, seu predomínio produz ansiedade prejudicando os processos relacionais e vinculares com mãe/ambiente.

As tentativas do self em manter objetos bons e afastar/evitar os objetos maus dão origem as defesas primitivas (defesas do self). Essas defesas atuam de forma controlar ou modificar os objetos(como identificação projetiva e introjetiva, algumas formas de acting out e regressão, idealização, somatização dentre outras). Esse fenômeno pode ser percebido no choro, protesto, evacuação e a agressividade são formas de expulsar ou manter ou recupera/manter com os objetos. As defesas do self são protótipos das defesas do ego.  

As defesas visam manter a estabilidade o organismo de modo propiciar o processo de desenvolvimento da forma mais satisfatória possível. Sob essa perspectiva, as defesas compõem o sistema autorregulatório do self que visam regular a relação com o ambiente, propiciando um meio adequado para o desenvolvimento ou amadurecimento.

No processo de desenvolvimento as defesas possibilitam a estabilidade interna necessária para um sentimento satisfatório de integridade. Mesmo as experiências negativas (internalizadas nos complexos) são mantidas afastadas da consciência. Isso é importante para que esses objetos maus não sejam identificados com o ego em seu processo de amadurecimento, pois ao se identificar com objetos de ansiedade a organização/força do ego seria prejudicada e, assim, a capacidade de autopercepção, autoimagem e autoestima (assim como de estabelecer vínculos estáveis/seguros) seriam comprometidos.

(Em breve postaremos a segunda parte – Gostou? Teve dúvidas? Deixe um comentário!)

Referencias Bibliográficas

SAMUELS,Andrew. Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago, 1989.

EVERS-FAHEY, Karen, Towards a Jungian Theory of the Ego, New York: Routledge, 2017.

FORDHAM, Michael, New Developments in Analytical Psychology: London: Routledge and Kegan Paul, 1957.

FORDHAM, Michael, The Self And Autism, London: William Heinemann Medical Books Ltd, 1976.

FORDHAM, Michael, A Criança como Individuo, São Paulo, Cultrix, 2001


[1] when some ego has formed it will be as a number of small nuclei the result of deintegration, which soon become linked together so that one can speak of a centre of consciousness as in Jung’s writings. In that process the integrating function of the self plays an essential part. The main body of the ego, sometimes called the central ego, has a special relation to the archetype of the self. That central archetype can then be thought of an an organizer of the unconscious: it contributes significantly to the formation of the central ego in which it finds expression especially in conscious experiences of selfhood

[2]It is usually held in the classical view that during individuation the ego gives place to the self, which, ehowever, the ego comes to reflect more and more clearly; by contrast, in infancy and childhood the organism aims to establish the ego vis-à-vis the world of material reality, the archetypes and so also the self.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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