Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 2/3

Para ler a primeira parte clique aqui: Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 1

Diferenciando o ego

Jung escreveu pouco sobre o ego e a sua organização. No pequeno capitulo intitulado “O Eu”, do livro “Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo”, ele nos dá uma descrição importante para pensarmos a organização do ego e dirimir dúvidas sobre a noção de complexo do eu. Segundo Jung,

Entendemos por “eu” aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos conscientes se relacionam. E este fator que constitui como que o centro do campo da consciência, e dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa.(…)

O eu considerado como conteúdo consciente em si não é um fator simples, elementar, mas complexo; e um fator que, como tal, é impossível de descrever com exatidão. Sabemos pela experiência que ele é constituído por duas bases aparentemente diversas: uma somática e uma base psíquica. (Jung, 1986, p. 1-2)

Em primeiro lugar, devemos notar que Jung se refere ao ego como um fator complexo e não como sendo “um complexo”. Nessa citação podemos compreender que ao falarmos do “complexo do eu” não estamos identificando o ego com os demais complexos inconscientes.  Para delimitar essa diferenciação nós adotaremos expressão a complexidade do ego, na qual compreende-se três aspectos interdependentes: organização, autorreconhecimento e energia diferenciada.

Esboçamos essa complexidade quando falamos da formação do ego. A formação do ego, como vimos, tem origem nos processos deintegrativos do self, mais precisamente quando o self forma suas próprias representações (que emergem da experiência corporal com ambiente), isto é, núcleos de consciência que parcialmente expressam o self. Isso equivale dizer que o self é o núcleo arquetípico do ego. Por outro lado, por se desenvolver/emergir das relações de diferenciação entre self e não-self, isto é, das relações objetais, o ego se forma uma organização que é, por excelência, de diferenciação. Esse processo de diferenciação origina a identidade e aos afetos relacionados à identidade (por exemplo, integridade, pertença e segurança). Quando os núcleos de identidade são integrados de forma estável e coerente temos o que chamamos de um ego coeso e forte.

Desta forma, é correto afirmar que o ego é um complexo de identidade. Ou seja, o ego agrega os elementos que propiciam a diferenciação do organismo/self/ego dos demais objetos externos e internos. É exatamente essa capacidade de diferenciação que possibilita o autorreconhecimento. Esta é uma característica da maior importância, visto que ao se diferenciar dos objetos internos e externos (isto é, da realidade interior e exterior) o ego torna-se capaz de se reconhecer/perceber em suas ações e desse modo utilizar os recursos (energia disponível à consciência) e ter autonomia tanto das influências internas (o fascínio das dinâmicas arquetípicas, dos complexos) como das influências externas (as exigências da persona).

A energia que diferencia o ego dos complexos está relacionada ao que Jung nomeou de base somática do ego. Assim, enraizada nos processos somáticos, a energia que sustenta o estado de vigília está intimamente relacionada ao ego. Por esse motivo que as funções psíquicas do ego (tanto conscientes quanto inconscientes) derivam do corpo.

A funções do ego

A complexidade do ego está intimamente relacionada às funções que desempenham. Podemos citar:

– Identidade

Como complexo de identidade, o ego agrega os valores que o qualificam. Assim, esta função se refere aos aspectos subjetivos, históricos, que compõem a narrativa pessoal do ego. Devemos considerar que a identidade é uma construção que tem início com as primeiras relações objetais e segue ao longo do processo vital do ego, onde alguns desses elementos se tornam constantes e outros se modificam ao longo da vida. Assim, é importante compreender que o ego sofre transformações, não sendo, portando, rígido e imutável.

As crises que geralmente acompanham as mudanças de etapas da vida se referem às transformações vividas na organização do ego. É necessário um ego coeso e estável para suportar as mudanças e transformações da vida.

– Mediação com a realidade interna e externa;

O ego é o agente dos processos adaptativos entre a realidade interior e exterior. Frequentemente as exigências interiores e exteriores são incompatíveis, cabendo ao ego avaliar e responder de forma apropriada. Para realizar essa mediação o ego tem a sua disposição recursos perceptivos e volitivos; nesses processos temos o que Jung descreveu como tipos psicológicos. Eles envolvem a atitude da energia psíquica que se caracteriza ou pelo fluxo ou pela retração da energia em relação ao objeto. Assim, diante do objeto a atitude da consciência pode ser extrovertida ou introvertida. Isso implica em possibilidades para o ego se posicionar diante da realidade exterior. As funções psíquicas racionais indicam uma avaliação ou julgamento compreensivo do objeto (o que é ou seu valor), enquanto as irracionais se voltam ao ambiente (objetivo ou as potencialidades). Por outro lado, a função inferior se relaciona com aspectos do inconsciente (sombra e anima/us) que se associa a adaptação da realidade interior.

A memória é outro fator importante nos processos adaptativos internos e externos, pois fornece referenciais para as ações – estando ainda relacionados com os complexos. Apesar da memória não depender do ego, este pode ter um papel fundamental tanto na aquisição (busca, atenção e relação com os objetos), quanto no armazenamento (técnicas, exercícios e evocação que podem ser feitos por um ato de vontade ou prejudicados pelas defesas do ego). O acesso a memória é relacionado tanto ao significado/importância quanto carga afetiva.

Assim, a mediação é o diálogo que o ego estabelece com as necessidades e exigências internas e externas ao longo do tempo.

– Orientação espaço-temporal

A orientação espaço-temporal indica a capacidade do ego em si orientar e relacionar com os objetos externos. Esse processo é muito importante por indicar a adaptação e aderência à realidade exterior, que demonstra a força e coesão do ego para sustentar a relação com o mundo exterior.

Relações corporais

O ego se relaciona com o corpo tanto no sentido da propriocepção, imagem /esquema corporal assim como no sentido de controle das funções motoras. Grande parte das relações com o corpo são inconscientes, ou seja, ocorrem a despeito do foco da atenção e reflexão consciente.

Defesas

As defesas do ego são parte fundamental para a atividade da consciência. As defesas são compreendidas como processos que visam manter a organização e a funcionalidade do ego. Elas atuam de modo inconsciente para que os processos adaptativos (mediação, respostas motoras, atenção e decisões, etc.) possam ter fluxo e continuidade.

Notemos que a atenção é um processo que depende das defesas na medida em que os estímulos filtrados possibilitam ao ego estabelecer uma continuidade na relação com um dado objeto.

Para Evers-Fahey (2017), Jung valorizava os processos sintéticos de integração, considerando as defesas como um aspecto dos processos adaptativos. Ela aponta que poderíamos compreender os processos defensivos em três aspectos:

1 – Defesas contra a percepção

“…é chamada de defesa contra a percepção porque lida com a ausência ou deficiência em observar ou conhecer a própria posição do ego consciente.  Isto pode ser devido à fraqueza do ego, dependência do ego, ou o domínio de um complexo autônomo que suplanta o complexo do ego.[1] (Evers-Fahaey, 2017 p. 161 – Tradução nossa)

A defesa contra a percepção atua na relação do ego consciente com os objetos externos. Ou seja, um objeto ou parte dele não é percebido pelo ego. Um exemplo dessa forma de defesa seria a negação onde um aspecto, qualidade ou atributo de um objeto (pessoa ou situação) não é percebido pelo ego. Outro exemplo seria a idealização, quando a percepção valoriza excessivamente os atributos do objeto, impedindo que outros aspectos sejam percebidos.

A ausência da percepção do objeto impede que este conteúdo externo  prejudique o fluxo da consciência ou mesmo que seja veículo (por similaridade, analogia ou metáfora) de um conteúdo do inconsciente. Além da falta de percepção em relação aos objetos externos, podemos notar essa defesa contra a percepção na ausência de consciência acerca do que falamos ou fazemos. Na prática clínica é perceptível quando o paciente não percebe o que está dizendo ou mesmo quando a reação corporal contradiz o que está sendo dito.

2 – Defesas contra o sentimento/afeto

“…a defesa contra sentimento porque as emoções são essencialmente produtos do inconsciente, não conscientemente escolhidos.  Imagens do inconsciente são meramente estéticas se a reação emocional está faltando[2].” (ibid p.162 – Tradução nossa)

As defesas contra os sentimentos/afetos são uma tentativa de distanciamento radical do inconsciente. Ao evitar que o conteúdo afetivo atinja a consciência, evita-se a elaboração simbólica deste conteúdo.  A imagem ou lembrança sem o componente afetivo se torna apenas um conteúdo consciente, um fragmento dissociado do inconsciente.

Ao neutralizar o sentimento/afeto a imagem perde seu significado, passa a ser percebido como uma informação ou dado cuja importância pode ser avaliada racionalmente, mas soaria como uma informação curiosa, que não promoveria de fato uma mudança para o indivíduo. Em outros termos, o que para o terapeuta poderia ser simbólico,(e, portanto rico ), para o paciente , por força de defesa, é um sinal.

São exemplos de defesas contra os afetos a formação reativa, o deslocamento, a substituição e a projeção.

3 – Defesas contra os mecanismos de integração

“No nível do ego, há um desejo ou necessidade de preservar a coletividade e, portanto, haveria uma defesa contra a integração para preservar a persona.  Cada indivíduo tem uma noção de quanto desafio pode suportar sua identidade pessoal ou cultural ou papel na vida em qualquer momento[3].” (p.162)

Jung indicava que a “meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (Jung, 2001, p.61) O processo de individuação se dá através da diferenciação da relação do ego com Si-mesmo  (ou Self). Devemos compreender que as identificações com a persona ou com os complexos fornecem segurança ao ego, por estabelecerem padrões específicos de comportamento.

Como toda identificação produz uma negligência de outros aspectos da vida, a “desindentificação” produz ansiedade ao ego, pois  a exigência de flexibilidade e adaptação para situações em que o ego não possui repertório implica numa em uma situação desconhecida, o que podemos compreender como resistência aos processos de elaboração simbólica e individuação.

-Volição ou Vontade

A volição ou vontade não é restrito à consciência. Contudo, o uso consciente da vontade é uma função do ego. Assim, a vontade implica no direcionamento da energia disponível na consciência para um ato consciente de adaptação ou para refrear um impulso inconsciente ou somático.

Como não visamos esgotar o tema, acredito que essas funções do ego ilustram o fator complexo do qual Jung se referiu ao falar do ego.

Em breve postaremos a terceira e última parte deste texto.

Referências

JUNG, C.G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo, Petrópolis: Vozes, 1986.

 ________. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 15ed. 2001

EVERS-FAHEY, Karen, Towards a Jungian Theory of the Ego, New York: Routledge, 2017.


[1] “… is called defense against perception because it delas with the absence or deficiency in observation or knowing one´s own conscious ego stance. This may be due to ego weakness, ego dependence or dominance of an autonomous complex which supplants the ego-complex.

[2]“the defense against the feeling because emotions are essentially products of the unconscious, not consciously chosen.  Imagens from the unconscious are merely aesthetics if the emotional reaction is lacking.

[3] At the ego level, there is a desire or need to preserve collectivity and therefore ther would be a defense against integration in order to preserve the persona. Every individual has a sense of how much challenge they can bear to their personal or cultural identity or role in life at any given time.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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