Psicologia da Religião–uma Leitura Clínica e Junguiana

Este texto foi escrito como base para a Palestra Realizada na Semana Acadêmica da UNES – Faculdade do Espirito Santo, Cachoeiro de Itapemirim, ES. em 27 outubro 2011[1]

Acredito que para muitos falar em “Psicologia da Religião” soa como uma novidade, mesmo para os alunos em períodos finais de graduação em psicologia. Quando falamos em psicologia da religião, a principio nos remetemos a concepção de estudo da religião a partir da psicologia. Esta concepção, nos anos 60, foi substituída por uma concepção que visava uma perspectiva de “psicologia e religião”, isto é, priorizando o dialogo com a religião. Assim, falar em “psicologia da religião” implica não só no estudo, mas, no dialogo com a religião.

Apesar deste tema ser relativamente desconhecido (e estranho a grade curricular das faculdades), mas, a “psicologia da religião” não é “nova”, pois, os estudos de psicologia direcionados ao fenômeno religioso começam no final do século XIX, a primeira obra destinada ao estudar a Religião a partir da Psicologia foi publicada por Edwin Starbuck, em 1899, com o titulo “A psicologia da Religião – um estudo empírico do desenvolvimento da experiência religiosa”, mas, a obra que efetivamente marcou o nascimento da Psicologia Religião, foi a do professor de Starbuck, William James, que em 1902 publicou “As variedades da Experiência Religiosa”. A aplicação da psicologia no estudo do fenômeno religioso nasce com a própria psicologia, e vários importantes teóricos como Jung, Freud, Piaget, Fromm, Erikson, Maslow dentre outros dedicaram inúmeras páginas para falar acerca desse fenômeno.

Apesar da Psicologia da Religião possuir um rico histórico e ter sido objeto de preocupação de vários dos ícones da psicologia, no Brasil, a psicologia da religião não se constitui uma área autônoma, pois, está dividida entre estudos da psicologia social, psicologia clínica e da ciências da religião.

Não devemos perder de vista que, ao falarmos de estudar a “religião”, não estamos reduzindo a mesma a um fenômeno psicológico. Na verdade devemos ter clareza que quando nos referimos a religião estamos falando de um fenômeno complexo, que comporta várias perspectivas de compreensão, desde o estudo próprio da religião, a teologia, história da religião, antropologia da religião, sociologia da religião, filosofia da religião. Nenhuma perspectiva possui a “verdade” acerca da religião, todas se esforçam para, na medida do possível, serem o mais fiéis na compreensão do fenômeno religioso. Devemos assim, especificar mais o que entendemos por religião, isto é, o que seria a religião segundo uma concepção psicológica? Segundo Velasco,

A religião é um fato humano complexo e específico: um conjunto de sistemas de crenças, de praticas, de símbolos, de estruturas sociais por meio dos quais o homem, nas diferentes épocas e culturas, vive uma relação com um mundo específico: o mundo do sagrado. Esse fato caracteriza-se por sua complexidade – nele põem em jogo todos níveis da consciência humana- e pela intervenção de uma intenção específica de referência a uma realidade superior, invisível, transcendente, misteriosa, da qual se fez depender o sentido ultimo da vida. (VELASCO apud ÁVILA, 2007. p. 14).

Aqui se coloca um ponto fundamental: a religião é um fato humano. Isto é, para compreender esta afirmação devemos ter clareza que falamos do homem frente ao sagrado. Assim, “suas motivações, seus desejos, suas experiências, suas atitudes, etc., expressos em seus comportamentos” (ÁVILA, 2007, p.15). Devemos frisar que ao falarmos do homem frente ao sagrado englobamos tanto as atitudes positivas, como o teísmo, quanto as negativas, como o ateísmo. Por outro lado, a religião se constitui, “uma busca de sentido em relação ao sagrado”(PARGAMENT apud ÁVILA, 2007, p.15) Deste modo, a psicologia da religião não tem por objetivo estudar “Deus” ou o “divino” ou “qualquer realidade transcendental”, isto está fora do escopo da psicologia.

Caberia mais uma observação, alguns autores preferem utilizar o termo espiritualidade a religião, pois, espiritualidade está mais relacionado a aspectos pessoais e individuais, ao passo que religião é muito amplo, abrangendo tanto aspectos pessoais quanto sociais/institucionais. Ainda sobre definições, a religiosidade pode ser compreendida como “todo comportamento, atitude, crença, que tenha um caráter religioso, independente de sua origem (a experiência pessoal, aprendizagem, tradição etc.) e de toda avaliação (maturidade, sanidade, profundidade, intensidade, etc.)” (AVILA, 2007, p. 69).

A psicologia da religião não possui uma unidade no estudo do fenômeno religioso, dessa forma, existem várias possibilidades de se aborda-la, seja pelo aspecto individual ou coletivo, seja pelas teorias psicológicas.

Em nosso caso específico, eu compreendo e estudo a religião a partir de duas referências, a primeira é a psicologia analítica, que é uma das abordagens clássicas do estudo da psicologia da religião, e a segunda é clínica, uma vez que sou psicólogo clínico.

Na abordagem junguiana, o estudo da religião ocupa um lugar de destaque, seja por facilitar a compreensão teórica acerca da teoria dos arquétipos, ou por sua implicação na prática da clínica. O próprio Jung valorizava bastante a compreensão da função da religião na vivência do individuo. Basta lembrarmos que a família do Jung foi uma fonte bem rica da diversidade de manifestações religiosas. Seu pai, seu avô e sete de seus tios eram pastores da igreja reformada. Parte de sua família se envolveu no estudo do espiritismo. Em suas Memórias, Jung relata que cedo rompeu com a religião institucional, relata também que via e sentia pena do pai que era angustiado em suas dúvidas interiores.

Suas experiências pessoais, familiares e profissionais o levaram a um estudo dedicado do fenômeno religioso. Jung percebeu que as idéias religiosas, em sua essência, eram similares e se manifestavam de modo semelhante por diferentes culturas, fato que o levou a considera-las como expressão da psique coletiva, isto é, do inconsciente coletivo. Desde modo, a religião, para Jung, possuiria uma função estruturante importante na psique – tanto coletiva, isto é, dos povos, quanto na psique individual. As narrativas, os símbolos religiosos, os sistemas de crenças seriam importantes por auxiliar ao ego a suportar a tensão tanto do inconsciente quanto do mundo exterior. Para Jung todas as religiões eram igualmente válidas. No âmbito da psicologia, não é relevante pensar se é verdadeira ou não qualquer concepção apresentada pelo cliente,

Quando a Psicologia se refere, p. ex., a concepção virginal, só se ocupa da existência de tal idéia, não cuidando de saber se ela é verdadeira ou falsa, em qualquer sentido. A idéia é verdadeira, na medida em que existe. (JUNG, 1999, p.8)

De forma geral, quando observamos os escritos de Jung, notamos que seus trabalhos ou seus estudos não se concentravam num estudo acadêmico da religião, mas, sim num estudo direcionado a prática da psicoterapia. Ou seja, Jung percebia que a relação do individuo com a religião, poderia contribuir para compreender seu adoecimento psíquico ou ser um meio útil para a resolução do conflito no qual o individuo se encontrava.

O que são as religiões? São sistemas psicoterapêuticos. E o que fazemos nós, psicoterapeutas? Tentamos curar o sofrimento da mente humana, do espírito humano, da psique, assim como as religiões se ocupam dos mesmos problemas. Assim, Deus é um agente de cura, é um médico que cura os doentes e trata dos problemas do espírito; faz exatamente o que chamamos de psicoterapia. Não estou fazendo jogo de palavras ao chamar a religião de sistema psicoterapêutico. É o sistema mais elaborado, por trás do qual se esconde uma grande verdade prática. (JUNG, 2000a, p. 167-8)

Jung compreendia que todos os sistemas religiosos, ao longo da história humana buscavam lidar os males da alma. Assim, a religião é compreendida como um meio eficaz que a desenvolvida pela humanidade para lidar com os males que afetavam o corpo e a alma. A compreensão saúde pela religiosidade antiga contemplava o homem inteiro. Não é atoa que em sua origem, nos mais diversos idiomas, os termos saúde e salvação compartilham o mesma origem

Saúde e salvação são termos co-originários, ou melhor, nasceram de um mesmo conceito e partilharam por muito tempo a mesma sorte e um mesmo significado geral, que acabou cindindo-se bem mais tarde. Trata-se do significado sânscrito do svastha(= bem-estar, plenitude), que depois assumiu a forma do nórdico heill e, mais recentemente, Heil, whole, hall nas línguas anglo-saxônicas, que indicam “integridade” e “plenitude”. A mesma coisa acontece com o termo sotería: na língua grega, segundo a qual justamente Asclépio é considerado sotér: aquele que cura e que é ao mesmo tempo “salvador”. Na língua latina é emblemático o significado de salus, termo capaz de incorporar, mesmo em época recente, tanto o significado de “saúde” como de “salvação”. É preciso, porém, lembrar que também em outras línguas acontece a mesma combinação. (TERRIN,1998 , p154)

Compreender esses aspectos históricos e culturais que aproximam a psicologia, em especial a clinica, da função psíquica das religiões nos possibilita compreender a possibilidade de seu uso correlacionado com a prática da psicoterapia. Devo esclarecer, que quando falo em “uso correlacionado” não me refiro a misturar psicologia e religião, mas, compreender o contexto simbólico do cliente, compreender suas metáforas e os elementos de suas vivências que são fundamentais para aquele individuo.

Uma das maiores dificuldades no dialogo entre a psicologia e a religião é o preparo do profissional, isto é, o despreparo. Andreia Coliath produziu uma interessante dissertação acerca da “Escolha do Terapeuta associada à denominação religiosa”, nesse trabalho, Coliath, a partir de categorias de Wulff, faz uma levantamento interessante das atitudes comuns dos psicólogos acerca da relação com o fenômeno religioso. Ela cita quatro tendências gerais de posicionamento dos psicólogos

1 – Negação literal: Esta atitude assume que a linguagem religiosa deve ser entendida de forma literal, porém rejeita todo o conteúdo nela apresentado. Os psicólogos nesta posição desconsideram a singularidade das experiências religiosas, o milagroso, e hipervalorizam os princípios formais do conhecimento. Os profissionais que adotam esta atitude tendem a ignorar a religiosidade do sujeito ou reduzem a religião a um conjunto de afirmações irracionais a serem extirpadas ou apropriadas pelas ciências para serem explicadas racionalmente. O paciente nesta posição encontra-se fechado à linguagem simbólica.

2 – Afirmação literal: “ Diz respeito a afirmação literal do objeto religioso. Os psicólogos nesta posição, aceitam os conhecimentos das teorias psicológicas, desde que não se choquem com suas crenças. É a atitude dos fundamentalistas e dos religiosos ortodoxos. Atitude frequente desses psicólogos é a de atuar a partir do ponto de vista de sua religião e da visão de mundo nela contida valendo-se basicamente de generalizações idealizadas e de um conjunto de regras de comportamento. Esta forma de atendimento choca-se com a proposta do atendimento clínico que propõe uma aceitação total do paciente.

3 – Interpretação redutiva – Vê a religião como um fenômeno social ultrapassado e ingênuo, excluindo a transcendência da linguagem e das práticas religiosas. Esta atitude assemelha-se muito com a negação literal. Os psicólogos nesta posição buscam perspectivas científicas para interpretar, a partir delas, os conteúdos religiosos. O objetivo implícito nesta atitude é o de transformar ou eliminar o campo religioso, reduzindo-o a outras áreas.

4 – Interpretação restauradora – É a atitude que considera a especificidade da experiência religiosa. Os psicólogos nessa posição examinam as crenças e posicionamentos pessoais de seus pacientes e buscam compreender e aproximar-se do fenômeno religioso abrindo-se para vivências, símbolos, metáforas, que o paciente traz. Esta atitude implica em humildade epistemológica e clareza quanto aos próprios pressupostos e adesões religiosas. (COLIATH, 2007, p. 34)

Quando pensamos essas atitudes, fica claro a necessidade de uma compreensão mais ampla do significado da religião para o paciente, assim como a necessidade de conhecer os sistemas religiosos para compreender nosso paciente a partir de seu contexto simbólico, de sua realidade específica. Infelizmente, muitos pensam nas religiões simplesmente como um sistema fechado de regras e ditames morais, perdendo, assim, o potencial que nos é oferecido pelo universo de símbolos, narrativas ou histórias significativas que são os aspectos essenciais das religiões. Tendo posse de toda a possibilidade que a religião nos oferece, podermos ter uma comunicação mais eficaz e significativa para nosso cliente, mobilizando-o por inteiro.

Uma outra grande dificuldade e talvez, a maior dificuldade, se encontra na incapacidade de muitos profissionais em lidar com suas próprias convicções religiosas, pois, muitos acabam por impô-las consciente ou inconscientemente ao paciente. Essa limitação faz com que o profissional perca seu caráter terapêutico, muitas vezes, sendo uma forma deformada de conselheiro espiritual.

Acredito ser válido, quando pensamos o dialogo da psicologia clinica com a religião, considerar as palavras de Jung,

(…)o psicoterapeuta está obrigado a um autoconhecimento e a uma crítica de suas convicções pessoais, filosóficas e religiosas, tanto quanto um cirurgião está obrigado a uma perfeita assepsia. O médico deve conhecer sua equação pessoal para não violentar seu paciente”. (JUNG, 2000b, p.154)

Essa consideração é importante pois, nos leva a pensar não só a clinica psicológica, mas, quaisquer relações humanas quem envolvam a religião devemos considerar que a importância e significado que a minha matriz religiosa tem para mim, também vai ter para uma outra pessoa, assim respeito (mais que tolerância) é a única forma se evitar a violência contra o outro.

Referências bibliográficas

ÁVILA,A. Para Conhecer a Psicologia da Religião, São Paulo, Edições Loyola, 2007

COLIATH , A.A.M. Escolha do Terapeuta Associada a Denominação Religiosa, 2007,98f. Dissertação de Mestrado –Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. 2007.

JUNG,C.G. Psicologia e Religião, Petrópolis,: Vozes 1999a.

JUNG,C.G. Vida Simbólica Vol. I , Petrópolis,: Vozes 2000a

JUNG. C.G Civilização Em Transição. Petrópolis: Vozes, 2 ed. 2000b .

TERRIN, A.N. O Sagrado Off limits, São Paulo, SP: Edições Loyola, 1998.


[1] Publicado em 30 de outubro de 2011, no antigo blog “Jung no Espírito Santo”. A atual versão foi revista e ligeiramente modificada para a publicação no site da Comunidade Anglicana Bom Pastor (www.anglicana-es.org)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Função Psicológica da Religião

(11 de julho de 2010)

Este post é uma complementação dos posts “Psicologia Analítica e Religião” e “Psicologia Analítica Cristã?”. No primeiro apresentei alguns aspectos acerca de como a psicologia analítica se compreende a religião – fazendo algumas diferenciações entre função religiosa, religião e confissão religiosa. No post “Psicologia Analítica Cristã? ” discuti a relação entre a psicologia(de forma geral) e cristianismo(o que podemos expandir para religião de forma geral), pensando no cuidado que devemos ter para não fazermos misturas que podem prejudicar tanto uma quanto a outra. Contudo, não foi discutido de forma específica a compreensão junguiana da função psicológica da religião.

Quando perguntamos “qual a função psicológica da religião?” a resposta mais correta (sob o prisma junguiano)seria: “Para quem?” ou “ Em que contexto?”, isso porque a religião é um fenômeno de complexo, e não há uma resposta simples que valha para todos os contextos.  Assim,devemos separar o aspecto arquetípico da religião do aspecto pessoal(subjetivo) da religião.

Ao qualificar a religião como arquetípica estamos afirmando que há na psique uma tendência natural a produzir símbolos e a atribuir/reconhecer neles um sentido numinoso. A religião e a arte surgem do mesmo “solo arquetípico”, a diferença esta no fato da arte emergir do espanto do homem frente a natureza e possibilidade transforma-la, imprimindo-lhe significado, dando sentido a vida. A religião, por outro lado, emerge do espanto do homem frente frente as forças incompreensíveis da natureza e frente a morte. a religião é a possibilidade do homem lidar com essas potências invisíveis, atribuindo significado/sentido, especialmente no que diz respeito a morte, se configurando como a possibilidade do homem se afirmar frente o desconhecido, superando o mistério da morte. Através da religião o homem encontra um sentido que o torna capaz de viver e enfrentar a morte Toda religião prepara o individuo para a vida, na medida em que o prepara para morte.

Na vida do “homo religiosus” a religião atravessa os vários campos de sua psique, assim, como o poeta Khalil Gibran, fala em seu belíssimo livro “O Profeta” nos diz,

Então UM VELHO sacerdote disse: “Fala-nos da Religião.” E ele disse:
“Tenho eu falado de outra coisa hoje?
Não é a religião todas as nossas ações e reflexões?
E tudo o que não é ação nem reflexão, mas aquele espanto e aquela surpresa sempre brotando na alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou manejam o tear?
Quem pode separar sua fé de suas ações, ou sua crença de seus afazeres?
Quem pode espalhar suas horas perante si, dizendo: “Esta é para Deus, e essa é para mim; esta é para minha alma, e essa é para meu corpo?

(…)

Vossa vida cotidiana é vosso templo e vossa religião.

Todas as vezes que penetrais nela, levai convosco todo vosso ser” (GIBRAN, 1976, p. 75-6)

Joseph Campbell(2002) nos dá uma boa perspectiva da amplitude da função da religião quando ao discutir a função dos mitos (lembrando que segundo Campbell, “mitologia é como chamamos a religião dos outros”), segundo ele, são quatro as funções básicas da mitologia/religião:

1 – Função Mística ou Metafísica

2 – Função Cosmológica

3 – Função Social

4- Função Pedagógica

A função mística ou metafísica corresponde a abertura ao desconhecido, ao mistério da vida e da morte. Através da religiões o homem amplia sua percepção do mundo, integrando a sua vivência uma realidade que está para além dos percepção sensorial – um mundo eterno, espiritual; libertando a psique humana do condicionamento do tempo e espaço.  Isso é importante, pois, essa função também se reflete como uma  abertura ao inconsciente, a criatividade e imaginação. Que são elementos importantes para o equilíbrio dinâmico da psique.

A segunda, a função cosmológica da religião oferece ao homem uma perspectiva sobre o universo e situa o no mesmo. Essa função geralmente foi mal compreendida afirmando que as mitologias e religiões eram uma proto-ciência, uma tentativa de explicar o mundo. As narrativas sobre a origem do universo, dos deuses, dos homens, de como surgiram os instrumentos, etc…não tinham o objetivo de uma explicação “científica”, mas, sim atribuir sentido e significado ao universo que circunda o homem, colocando-o nessa teia da vida. :Se na primeira função indica que há algo para além da percepção, nessa segunda função o homem toma parte desse mundo sobrenatural, percebendo qual é o seu lugar na existência.

A função social da religião se relaciona com o grupo social. Toda religião vai indicar certas regras de convívio social, geralmente, justificando e reforçando os conceitos morais e organizacionais de um grupo, visando a sobrevivência do mesmo, a religião se constitui um elemento de identidade, dando coesão ao grupo

A quarta, é função pedagógica. A religião se apresenta como pedagógica na medida que orienta as ações e comportamentos dos indivíduos em cada etapa da vida. As narrativas religiosas oferecem ao individuo referencias para se organizar frente ao mundo e as dificuldades, para fazer suas escolhas e tomar suas decisões. Em cada etapa da vida, o individuo é cercado por referências (narrativas/mitos) que o prepara para a vida e para morte. As quatro funções são interligadas, pois, uma leva a outra, oferecendo um solo relativamente firme sobre o qual o individuo pode se organizar e viver.Essas quatro funções nos auxiliam a perceber como a  religião pode atuar psique.

A religião é uma importante fonte de símbolos que possibilita que o homem tenha um contato diferenciado com sua realidade interior. Os símbolos religiosos foram elaborados/refinados pela consciência coletiva/cultura, de modo a possibilitar que a consciência tenha contato com a esfera dos arquétipos  sem que isso ofereça risco à integridade da consciência. Através dos símbolos, a energia psíquica inconsciente contribuem para a estruturação do Ego, dando energia e condições para enfrentar as dificuldades do dia a dia.

Por meio do símbolo, o mundo dos arquétipos penetra, através do homem criador, na esfera da cultura e da consciência. O mundo das profundezas fecunda, transforma e amplia, dando à vida do coletivo e do individuo o fundo único que torna a existência plena de sentido. O significado da religião e da arte é positivo e sintético, não penas para as culturas primitivas, também para nossa cultura e para nossa consciência superacentuadas, justamente porque elas oferecem um canal de saída para conteúdos e componentes emocionais cuja supressão foi demasiado rigorosa. Tanto em relação ao detalhe, como também em relação ao todo, o mundo patriarcal da cultura, com a sua primazia da consciência, forma apenas um segmento. As forças positivas do inconsciente coletivo que foram excluídas lutam, no homem criador, por se manifestarem e, através dele fluem para a comunidade. São em parte forças “antigas”, excluídas pela ultradiferenciação do mundo cultural e, em parte, forças novas, nunca presentes antes, destinadas a dar forma à face do futuro.(NEUMANN, 1995,p.269)

Apesar da concepção junguiana compreender que função psíquica da religião é naturalmente positiva, não se nega ou se ignora o fato de que a religião possa ser utilizada por grupos ou lideres religiosos de forma “inadequada”, em alguns casos corroborando com o pensamento de Marx, de que a religião seria o opio do povo. Ou mesmo, o individuo pode ser esmagado pelos dogmas da instituição religiosa (não tendo a vivência saudável da religião), se vendo mergulhado num oceano de culpa, assim, vivendo a religião como uma busca incansável por expiação, se constituído como uma neurose obsessiva, como Freud  sugeria.

Por esse motivo eu apontei acima, que para pensar a função da religião devemos conhecer o primeiro contexto para visualizarmos sua função. A religião não é positiva ou negativa, ela pode funcionar ou atuar de modo positivo ou negativo, dependendo de como for vivida ou manipulada. A religião pode ser veiculo de saúde (como vemos pessoas que realmente superam doenças, drogas, luto etc,), mas, por outro lado,  também pode veiculo de manutenção dos mais diversos preconceitos e estimulando muitas vezes o ódio e a violência. Como disse, tudo depende o uso que é feito da religião.

Nós falamos da religião num prisma coletivo,no campo individual, devemos ter atenção para observar como o individuo se relaciona com a religião. Apesar dessas funções citadas acima atuarem sobre o individuo, o individuo pode se valer da religião de forma patológica – perpetuando culpas ou preconceitos. Acredito que o psicólogo deva condenar e combater abertamente todo e qualquer preconceito ou injustiças cometidas contra qualquer ser humano promovidos por religiões, grupos, seitas ou instituições. Entretanto, quando se trata do individuo, devemos ter cuidado para não atacarmos o individuo perdendo de vista a os fatores que o levaram a essa atitude patológica ( seja o preconceito ou o fanatismo), como diz o ditado “não devemos jogar o bebê fora junto com água do banho”. Se a religião for um fator constitucional fundamental para aquele individuo, devemos leva-lo a questionar aquela atitude ou sua crença patológica, não julgando todo o sistema religioso, para  não promover uma “amputação psíquica”. Mas, isso necessitaria que o psicólogo possuísse um certo conhecimento do sistema religioso do cliente. Jung tinha uma opinião interessante(e controversa) a esse respeito, segundo o mesmo,

Minha posição neste assunto é a seguinte: Enquanto um paciente é deveras membro de uma Igreja, deve levar isto a sério. Deveria ser real e sinceramente um membro daquela Igreja e não ir ao médico para resolver seus conflitos quando acredita poder fazer isso com Deus. Quando, por exemplo, um membro do Grupo Oxford me procura para tratamento, eu lhe digo: “Você pertence ao Grupo Oxford; enquanto for membro dele, resolva seus assuntos com o Grupo. Não posso fazer nada melhor do que Jesus”.

Gostaria de contar-lhes um caso desses. Um alcoólico histérico fora curado pelo movimento desse Grupo, e este o usou como uma espécie de caso-modelo. Mandaram-no viajar por toda a Europa, onde dava seu testemunho e dizia ter procedido mal, mas ter sido curado por esse movimento. Depois de haver contado vinte ou cinqüenta vezes sua história, ficou cheio e recomeçou a beber. A sensação espiritual simplesmente desapareceu. O que fazer com ele? Agora dizem que se trata de um caso patológico e que ele precisa de um médico. No primeiro estágio foi curado por Jesus, no segundo, só por um médico! Tive que recusar o tratamento desse caso. Mandei-o de volta a essas pessoas e lhes disse: “Se vocês acreditam que Jesus curou este homem da primeira vez, ele o fará pela segunda vez. E se ele não o puder, vocês não estão supondo que eu possa fazê-lo melhor do que Jesus, não é?” Mas é exatamente o que pensam: quando uma pessoa é patológica, então Jesus não ajuda, só o médico pode ajudar.

Enquanto alguém acredita no movimento do Grupo Oxford, deve permanecer ali; e enquanto uma pessoa é da Igreja Católica, deve estar na Igreja Católica para o melhor e para o pior, e deveria ser curada através dos meios dela. E saibam os senhores que eu vi que as pessoas podem ser curadas por esses meios – é um fato. A absolvição e a sagrada comunhão podem curá-los, mesmo em casos bem sérios. Se a experiência da sagrada comunhão for real, se o rito e o dogma expressarem plenamente a situação psicológica do indivíduo, ele pode ser curado. Mas se o rito e o dogma não expressarem plenamente a situação psicológica do indivíduo, ele não pode ser curado. (Jung, 1997, p.271-2)

Jung defendia que a religião não só era uma expressão da psique, como parte do mecanismo de autoregulação psíquica. No caso citado acima, a recusa de Jung foi justamente para evitar uma “amputação” da crença daquela pessoa. A recaída ocorreu em função da política que foi feita utilizando a experiência daquele individuo. Podemos acreditar que o atendimento foi negado pelo fato da busca por atendimento ter partido do grupo, o que poderia ferir e enfraquecer a experiência simbólica daquele individuo, que poderia ser terapêutica para ele.

Isso não quer dizer não devamos atender um paciente religioso, mas, que devemos estudar e conhecer as várias dinâmicas religiosas, Jung considerava fundamental o estudo de mitologia e religião comparadas no preparo de novos analistas. O estudo das idéias religiosas é importante para compreender o cliente em seu próprio contexto simbólico, de modo a compreender o individuo em sua totalidade, respeitando suas crenças e, quando necessário, fazer apontamentos para promover uma reflexão acerca de suas crenças, sem que isso signifique uma violência contra o individuo e suas crenças. Nesse contexto, o ideal seria que quando o paciente estivesse com uma crise de cunho religioso/espiritual (com dúvidas próprias a sua relação com o divino) que o profissional conhecesse dos sistemas religiosos e denominações possuísse contato com bons ministros religiosos (como bons padres ou pastores) que pudessem tirar as dúvidas campo espiritual. Afinal, não é função do psicólogo dizer o que é ou que não é pecado; ou tirar dúvidas acerca de questões “fé”.  Muitas vezes, nós psicólogos, questionamos os ministros religiosos por tratar tudo como “espiritual”, mas, muitas vezes, não percebemos que fazemos o reducionismo oposto, tratando tudo como psicológico.

Por outro lado, para tanto,  o psicoterapeuta deve ter clareza de suas próprias crenças para não se deixar levar por elas, pois, todo e qualquer proselitismo ou tentativa de conversão/evangelismo/catequese durante o processo terapêutico é SEMPRE prejudicial ao mesmo. Isso não só fere o código de ética profissional do psicólogo, como é uma clara violência contra o individuo. E não se trataria de uma conversão autêntica, mas, de um convencimento, uma sedução baixa feita por meio do abuso da relação terapêutica.

Concluindo, a religião tem como função psicológica básica, fornecer símbolos (imagens, narrativas e ritos) que intermediem a relação da consciência com o inconsciente, oferecendo um sistema de referência que promove a segurança e estabilidade do Ego. Essa função já oferece um aspecto terapêutico natural à religião, que pode servir como coadjuvante no processo terapêutico, desde que o terapeuta seja responsável e ético, para respeitar a matriz religiosa de seu cliente.

Referências bibliográficas

GIBRAN, G.K. O Profeta, ACIGI:Rio de Janeiro, 1976

CAMPBELL, Isto é Tu, Landy: São Paulo,SP, 2004

NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, SP, Cultrix, 1995

JUNG, C.G. A Vida Simbólica – Vol I, 2 ed Petrópolis, RJ: Vozes, 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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