“Eu acho que não vou conseguir” – Breve reflexão sobre o símbolo de travessia e psicoterapia

(2 de agosto de 2012)

“Eu acho que não vou conseguir…”

Essa é uma fala que frequentemente ouvimos no consultório. Há algum tempo eu atendi uma pessoa que estava deprimida (e com vários outros problemas por resolver) e que, no inicio da terapia  repetia frase “não sei se vou conseguir”, ao que num dado momento, respondi, “acho que você não percebeu, mas, você já está conseguindo”, frente a expressão de interrogação, acrescentei, “ veja quanto tempo você já está nesse processo, você já foi ao psiquiatra, você já buscou terapia. É importante  você perceber o caminho percorrido em sua travessia.”Nas sessões seguintes, nos deparamos com o símbolo da travessia em diferentes situações, onde observamos os vários momentos onde o paciente atravessou divergentes crises em sua vida, onde pudemos vislumbrar juntos o seu potencial, contribuindo para o seu processo terapêutico.

Acredito que o símbolo de “travessia” seja uma excelente imagem para pensarmos o processo da psicoterapia. Isto, pois, geralmente, durante a crise a pessoa tende a esquecer de seu próprio potencial.  Segundo Jung, 

Não devemos esquecer que toda neurose é acompanhada por um sentimento de desmoralização. O homem perde confiança em si mesmo na proporção de sua neurose. Uma neurose constitui uma derrota humilhante e desse modo é sentido por todos aqueles que não são de todo inconscientes de sua própria psi­cologia. (JUNG, 1999,p.12)

Essa “falta de confiança” ou “ sentimento de desmoralização”  geralmente é compensada através da relação transferencial. Por meio da transferência, o paciente deposita no analista/terapeuta o potencial que não consegue enxergar em si mesmo. Não devemos esquecer que essa “derrota humilhante” se relaciona com a postura unilateral da consciência. No inconsciente, por outro lado, reside todo o potencial da vida psíquica do individuo, tanto passada quanto futura.

Por isso mesmo, não podemos perder de vista a potencial do paciente, que podemos observar, primeiramente, ao longo de sua própria história. A análise visa restabelecer a relação da consciência com o inconsciente, promovendo a integração, isto é, superando a divisão interna que promoveu neurose (lembrando que a própria neurose é uma tentativa de superar essa divisão).

O método construtivo de tratamento pressupõe percepções que estão presentes, pelo menos potencialmente, no paciente, e por isso é possível torná-las conscientes. Se o médico nada sabe dessas potencialidades, ele não pode ajudar o paciente a desenvolvê-las(…). Por isto, na prática é o médico adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude. Nesta função do médico está uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto. Para o paciente, o médico tem o caráter de figura indispensável e absolutamente necessária para a vida. (JUNG, 2000, p. 12)

Por isso, é fundamental que o analista/terapeuta seja capaz de “devolver” ao paciente o potencial que lhe foi transferencialmente confiado, de modo, que possa uma nova atitude da consciência possa surgir.

O símbolo de travessia quer associado a um rio, deserto ou a noite, nos traz uma dimensão tempo e espaço, isto é, de história – de passado, presente e futuro –  possibilita compreendermos o processo, nos permite compreender de onde viemos, onde estamos e qual a direção a seguir. A própria vida pode ser representada como uma longa travessia, mas, devido ao fato da consciência estar relacionada com adaptação ao momento presente, muitas vezes, percebemos essa “travessia” fragmentada, em “pequenas travessias”. Para compensar essa  “limitação”, sempre que necessário,  o inconsciente colabora (através dos sonhos, sintomas e outras formações simbólicas) com a experiência que já vivemos e/ou com  a experiência coletiva. Mas, tudo depende a disponibilidade da consciência em se abrir para o inconsciente.

Por isso mesmo, eu disse acima que a travessia seria um símbolo viável para a psicoterapia. Esta, não é a “travessia” do problema, mas, a travessia da distância que separa o individuo de “Si-mesmo”, que separa o individuo de seu potencial, de seu ser real.

Referências Bibliográficas

JUNG,C.G. Psicologia e Religião, Petrópolis,: Vozes 1999.

______. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas palavras sobre símbolos e função transcendente

 

11 de setembro de 2010

O símbolo é o conceito que melhor representa a compreensão da psicologia junguiana acerca da psique. Etimologicamente, símbolo vem da palavra grega symbolon, do verbo symballein que seria lançar com, arremessar ao mesmo tempo, também sendo usado para exprimir um acordo ou uma senha que possibilitaria o reconhecimento de iguais que se separaram.

A função psíquica do símbolo é semelhante à expressa historicamente na cultura: reconhecer e unir. Os símbolos “[…] são tentativas naturais de lançar uma ponte sobre o abismo muitas vezes profundo entre os opostos, e de equilibrar as diferenças que manifestam” (JUNG, 2000, p. 259). Assim o símbolo é como uma ponte que aproxima o inconsciente e a consciência. E, como uma ponte, o símbolo possui uma face que é apreendida pela consciência e outra que é inconsciente, dessa forma o símbolo nunca é totalmente apreendido pela razão, isto é, pela consciência.

Assim, por possuírem um aspecto inconsciente os símbolos possibilitam o trânsito da energia psíquica entre a consciência e o inconsciente, além de possibilitar a transformação da energia de uma forma de manifestação para a outra, disponibilizando energia para a atuação da vontade consciente.

Os símbolos expressam uma totalidade psíquica que é simultaneamente pessoal, cultural e arquetípica. Isso confere ao símbolo uma riqueza de significados que não permitem sua delimitação. Quando se tenta demarcar o sentido do símbolo, este torna-se um sinal.

Um sinal sempre aponta para uma idéia consciente […] Um sinal é sempre menos do que a coisa que quer significar, e um símbolo é sempre mais do que podemos entender a primeira vista. Por isso não nos detemos diante de um sinal, mas vamos até o objetivo para o qual aponta; no caso do símbolo, porém, nós paramos porque ele promete sempre mais do que revela (JUNG, 2000, p.215).

Os símbolos coletivos são expressos por meio da cultura unindo a consciência coletiva ao inconsciente coletivo. Esses símbolos expressam o espírito da época (zeitgeist), nos possibilitando compreender a dinâmica das massas e das nações. Por outro lado, os símbolos pessoais nos falam da dinâmica do indivíduo, mesmo que esse símbolo tenha uma moldura marcadamente cultural.

Quando um símbolo se manifesta à consciência, abre a possibilidade de uma mudança da atitude desta, por exemplo, um indivíduo que sonha que sofreu acidente de carro e ao acordar repensa a forma como conduz sua vida, ou minimamente, passa a dirigir com mais cautela, por ter a imagem do acidente em sua mente. O conteúdo simbólico do sonho possibilitou uma mudança nesse indivíduo.

Os símbolos, como os sonhos, são produtos da natureza, mas eles não aparecem só nos sonhos; podem s urgir em qualquer forma de manifestação psíquica: existem pensamentos, sentimentos, ações e situações simbólicos, e muitas vezes parece que não só o inconsciente mas também objetos inanimados se arranjam de acordo com os modelos simbólicos (JUNG, 2000 , p. 214).

Os símbolos podem surgir no contexto de um conflito neurótico, se opondo à atitude da consciência. Não que o símbolo seja patológico ou mesmo patogênico, mas sim a atitude da consciência. Para haver mudança é necessário que haja um símbolo constelado. Dessa forma, a psicoterapia só é eficaz se possibilitar a relação simbólica do indivíduo com consigo mesmo. Em outras palavras, é necessário que a psicoterapia seja simbólica para o cliente, de modo que favoreça seu processo de individuação.

Neste contexto, é que podemos falar da função transcendente.

Jung define a função transcendente, assim, como a “união de conteúdos conscientes e inconscientes”, “a reconciliação” dos pares de opostos e a partir desta reconciliação uma nova coisa é sempre criada , uma nova coisa é realizada. Este processo não lida somente com “conteúdos” mas como se depreende é a interação e integração em um todo, múltiplo e dinâmico, do inconsciente com o consciente. Isto é a função transcendente, que “nasce da união dos opostos”.

O símbolo como se verá desfaz a dicotomia entre externo e interno, pois este passa a ser uma “incarnação”(sic) do psiquismo como uma totalidade não fragmentada, ou seja, o símbolo reúne em sua constituição todas as possibilidades de compreensão e reúne os opostos em uma unidade não fragmentada. (DAMIÃO, 2003, p.42)

Dessa forma, falar em símbolo é necessariamente falar em função transcendente, pois símbolo e função transcendente exprimem a mesma dinâmica, em proporções diferentes. O símbolo está diretamente relacionado a uma dinâmica energética basal – necessária para a manutenção do psiquismo, já a função transcendente está relacionada ao processo de desenvolvimento do psiquismo, que exige uma ação da consciência.

(…)A “confrontação do eu com o inconsciente” é um processo de estabelecimento de uma atitude e não apenas de entendimento, pois o Ego torna-se a partir de então fruto deste “confronto”.

Quando se consegue formular o conteúdo inconsciente e entender o sentido da formulação, surge a questão de saber como o Ego se comporta diante desta situação. Tem, assim, início a confrontação entre o Ego e o inconsciente. Esta é a segunda e a mais importante etapa do procedimento, isto é, a aproximação dos opostos, da qual resulta o aparecimento de um terceiro elemento que é a “… a função transcendente que é o resultado da união dos opostos”, ou seja, o próprio símbolo. (DAMIÃO, 2003, p. 52)

A função transcendente é um símbolo que marca o confronto e a união de opostos, seu objetivo não é a transformação de energia, mas a unidade psíquica, ou seja, a função transcendente é um símbolo unificador, que intimamente relacionado com o processo de individuação.

Referencias

JUNG, Carl Gustav, A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

DAMIÃO, Maddi, Jr. A Psicologia da Matemática e a Matemática da Psicologia. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 2003.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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