Limites: Contornos, Margens e Fronteiras

Em nossa vida cotidiana falamos muito em limites, nos mais diferentes contextos e sentidos: falamos em ter limites, colocar limites, reconhecer os limites, estar no limite e superar os limites etc. A ideia de limite pode comportar uma vastidão de possibilidades figurativas e existenciais.  Assim, gostaria de pensar a noção de limite sob a perspectiva da psicoterapia, para tanto vou explorar a ideia de limite em três imagens ou perspectivas: o contorno, a margem e a fronteira

Antes de abordamos essas imagens, gostaria de lembrar a etimologia, a origem, da palavra limite, ela vem do latim limes que indicava o caminho entre dois campos – o que chamamos popularmente de “caminho da roça” ou mesmo de trilha. Dessa imagem, o limes,-ites, é um marco que simultaneamente indica tanto o fim do campo, quanto o início do outro campo, assim com a interseção, o encontro  dos dois campos.

O limite, o limes, como o caminho entre dois campos, não só marcava o início ou o fim de um território, mas indicava também a forma desse espaço ou campo. Posteriormente, os cartógrafos, utilizavam os caminhos, rios e montanhas para desenhar os marcos, os limites que davam forma aos reinos e territórios. Assim, podemos compreender o primeiro significado importante da ideia de limite, que é o contorno.

Conhecendo o próprio corpo com diversão - Papo da Professora Denise

O contorno expressa a forma, expõe a figura. Precisamos antes fazer uma distinção: fomos acostumados a pensar no contorno externo, vindo do social das regras, dando a forma esperada pelas expectativas coletivas. Esse é o contorno mais aparente, intimamente relacionado a persona, que media a relação social mais adequada, entre eu e o outro. Contudo, há outro contorno mais sutil que é tão importante quanto o primeiro, que é o contorno interno, que delineia o ego e suas relações.

Duas das funções mais importantes do ego é a autopercepção e o autorreconhecimento. Para essas funções é necessário que o ego tenha um contorno claro, capaz de distinguir e perceber sensações do corpo, sentimentos e complexos– uma vez delineados, o ego pode se relacionar com eles, sem que seja tomado pelos mesmos. Quando esse contorno não é delineado na infância, o indivíduo vai apresentar uma dificuldade de expressão dos afetos e sentimentos (quer seja pelo excesso ou pela falta), assim como de se perceber na relação com os outros. Quando recebermos um contorno adequado, isto é, quanto nosso ego é constituindo de forma estável, podemos ter a sensação de integridade e autoestima necessárias a uma vida saudável.

 Muitas vezes, a função da psicoterapia é ajudar a criar contornos para o paciente, para ele possa se perceber, desenvolvendo a própria autoimagem, autoconceito e autocuidado. Esse contorno, essa experiência de ter continência, de estar em si que é tão importante. Os contornos nos dão forma interna e externa.

Paisagem Natural Do Verão Com Rio Pantanal Em Florida, EUA Imagem ...

Outra imagem para pensar o limite é a margem, escolhi essa imagem visualizando um rio. A margem indica o caminho, o espaço de fluxo. Em suas margens o rio produz vida, movimento, nutrição. Quando enche, quando transborda pode produzir destruição e morte.

A margens delineiam o curso do rio, seu movimento. Assim também é nossa vida, para seguir o curso precisamos compreender e respeitar nossas margens. Gosto de pensar uma margem como nosso corpo e nossas necessidades físicas;   a outra é nossa psique e suas necessidades espirituais. Enquanto estivermos respeitando nossas margens teremos segurança que propicia a vida, o fluxo necessário para seguirmos em frente, vivendo nosso processo de individuação criativamente, dentro de nossos limites naturais.

Nossa vida cotidiana, frequentemente, nos impele ao excesso, a transbordar e romper com nossas margens. Seja qual for o excesso (trabalho, comida, religião, relacionamento) ele produzirá sofrimento e dor. Muitas vezes, levados pelos excessos, nos distanciamos de nossas margens, de nosso curso natural, a tarefa da psicoterapia é nos ajudar e reencontrar nossas margens, e nesse sentido Jung afirmou “somente aquilo que realmente somos tem o poder de curar-nos”.   

Portal dos Mitos: Jano
Janus

A terceira imagem do limite é a fronteira. A fronteira indica o fim e o início, ou marca os inícios. Na mitologia romana, temos uma interessante divindade dos limites e das transições, o deus Janus ou Jano. A peculiaridade de Janus era justamente por ser um deus bifronte, isto é, tinha duas faces uma que dirigia para frente e outra para trás da cabeça, ou seja, ele olhava para frente e para trás, passado e futuro, para dentro e para fora. Janus era, por excelência, o deus dos começos – pois, todo limite nos conduz ao novo, ao início. Por isso mesmo, nosso primeiro mês do ano, janeiro tem seu nome em homenagem ou referência a Jano.

A fronteira nos coloca diante da possibilidade das transições e da transcendência. Estamos sempre atravessando novas fronteiras sejam elas do tempo, dos espaços das atitudes. Essas travessias nos colocam diante do mistério da vida, nos desafiando a viver. A cada manhã atravessamos várias fronteiras, mas, geralmente não notamos isso. A sabedoria antiga nos ensinava que ao atravessar qualquer fronteira já estávamos sob o julgamento de Deus – o obter o sucesso ou o retorno seguro só aconteceria “se Deus quiser”.  

Assim, sem atravessar os limites, sem ultrapassar as fronteiras não atenderemos o chamado de nossa aventura, não conheceremos a vontade de Deus, e o mistério da vida não se revelará. A função da psicoterapia é encorajar a travessia, é dar suporte ao enfrentamento do novo, auxiliando ao indivíduo nesse novo caminho que se abre. Nessas três imagens o contorno, a margem e a fronteira temos referencias importantes para compreendermos que os limites não se reduzem a normas e regras, mas expressam aspectos fundamentais da vida e os quais não há individuação.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

Polarização Eleitoral no Brasil – Um olhar junguiano a partir da Teoria dos Complexos Culturais

Texto publicado em 22 de outubro de 2018, no site do CEPAES

Fabrício Fonseca Moraes[1]

Kelly Guimarães Tristão[2]

“Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa”

(Cálice – Chico Buarque)

Desde as eleições presidenciais de 2014 vivemos no Brasil um turbilhão de afetos e posturas exaltadas, que dividiram o país, naquele momento sob a representação de dois partidos políticos o PSDB (Partido da Social Democracia do Brasil) e o PT(Partido dos Trabalhadores). O abalo causado pelo momento político-eleitoral se desdobrou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) e na configuração de uma extrema direita que não tinha muita forma no Brasil, desde o fim da ditadura Militar (1964-1985).

O irrompimento desse fenômeno da extrema direita, tomou forma, corpo e voz na campanha eleitoral do, então candidato, Jair Messias Bolsonaro, do PSL (Partido Social Liberal) cujo discurso era caracterizado pelo nacionalismo, conservadorismo, moralismo, racismo, misoginia, lgbtfobia, desprezo por direitos humanos, relativização da tortura e negação da ditatura (assim como de movimentos de direita históricos como o fascismo, nazismo e o holocausto na II Guerra Mundial). O movimento liderado por Bolsonaro chamou atenção e, certa consternação, por ser um movimento tão heterogêneo que agregou tanto classes historicamente privilegiadas e orientadas pela direita quanto intelectuais, mulheres, homossexuais e negros – vítimas dos discursos preconceituosos. A complexidade desse fenômeno não nos permite ser simplistas a ponto de rotular de forma estereotipada a todos indistintamente “fascistas”, adjetivo frequentemente utilizado pelos opositores para identificar os seguidores de Bolsonaro nas mídias sociais. 

Por outro lado, notamos que esse fenômeno da extrema direita não é uma peculiaridade do Brasil, mas um fenômeno que vem crescendo em diversos países como EUA, Alemanha, França, Itália, Grécia dentre outros. Precisamos, portanto compreender a partir de uma perspectiva mais ampla sobre como somos todos tomados por essa convulsão emocional que nos afeta de modo semelhante a vários países.

Para além das experiências em redes sociais, vemos o sofrimento causado pela polarização – o medo, angústia, desesperança – manifestos no dia a dia do consultório, onde lidamos com o sofrimento de pessoas afetadas pelo movimento e suas consequências, como divisão e hostilidade surgida dentro das famílias, igrejas e demais grupos sociais.

Na Psicologia Analítica, um estudo contemporâneo que vem ganhando destaque e que nos possibilita compreender esses fenômenos é a teoria dos complexos culturais. Esta teoria se desenvolveu a partir dos conceitos da teoria dos complexos de Jung passando pelo conceito de inconsciente cultural de Joseph Henderson.

De Jung aos Complexos Culturais

A psicologia de grupo fez parte da preocupação de Jung desde o início de sua obra, no prefácio de 1916, do livro Psicologia do Inconsciente:

 A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação.” (JUNG, 1999, p. VIII)

Jung compreendia que, assim como um conteúdo arquetípico constelado na psique pessoal direcionava a forma de perceber, interpretar e agir, a mesma dinâmica arquetípica interferiria na relação coletiva dos grupos e nações em relação ao ambiente e outros grupos. Um de seus principais trabalhos na década de 30 foi Wotan (1936), no qual Jung, apontou como o povo alemão havia sido tomado por um dinamismo arquetípico, identificado pelo deus Wotan, deus dos ventos. Em essência, significaria compreender que uma dinâmica impessoal, baseada num princípio enraizado na experiência cultural germânica, fora ativado.

A compreensão de Jung, baseada numa aplicação da teoria dos arquétipos, estava muito associada por aspectos impessoais da experiência do grupo ou nação, isto é, ficando aspectos históricos e de constituição da identidade daquele grupo/nação em posição secundária.

Devemos notar que nas décadas de 30 e 40, Jung participou de discussões acerca dos acontecimentos de sua época – seja em entrevistas em rádio[3] ou através de textos. Contudo, a natureza ambígua tanto de suas posições pessoais quanto de seus trabalhos sobre a psique coletiva resultou numa reação fortemente negativa, tanto pessoalmente quanto à psicologia analítica. Visto que a perspectiva apresentava uma visão reducionista ou mesmo estereotipada dos grupos e povos, essas limitações em seus trabalhos fizeram com que o mesmo fosse acusado de racista e, de forma específica, de antissemita. Andrew Samuels (1995) demonstra como a ambivalência de Jung em relação aos judeus e ao nazismo, seja por suas ações, publicações e omissões, o colocou numa situação condenável nesse período da história.

O mal-estar gerado pelos equívocos de Jung, marcaram as gerações seguintes de junguianos que ficaram

profundamente feridos e limitados pelas acusações de anti-semitismo contra Jung e seus seguidores. Depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, poucos queriam abordar o tema “caráter nacional” ou complexos culturais por medo de serem contaminados por alegações de discriminação ou, muito pior, de contribuir para a justificação do genocídio.[4] (SINGER, & KAPLINSKI, 2010, p. 22-3)

Apesar do receio por parte de muitos junguianos em empreender pesquisas no campo da psicologia de grupo, Joseph Henderson, um dos colaboradores mais próximos a Jung, desenvolveu o conceito de inconsciente cultural em 1962. Segundo Henderson o inconsciente cultural é

uma área da memória histórica que se situa entre o inconsciente coletivo e o padrão manifesto da cultura [e] tem algum tipo de identidade advinda dos arquétipos do inconsciente coletivo, que auxilia na formação do mito e do ritual e também promove o processo de desenvolvimento. em indivíduos[5] ( HENDERSON, 1990, p. 103).

Henderson promoveu uma distinção e ampliação importante na noção de inconsciente coletivo de Jung. O inconsciente cultural seria uma zona intermediária entre a psique arquetípica e a psique pessoal. Henderson, situou de um lado das bases arquetípicas, impessoais e filogenéticas comuns a toda humanidade e do outro, as representações ou imagens arquetípicas na cultura, possibilitando compreender cada grupo em sua peculiaridade, história e formação de identidade (Henderson, 1990). Assim, o autor possibilitou uma integração da teoria dos arquétipos com uma perspectiva sócio-histórica e intergeracional  que, inconscientemente, influenciam a constituição, atitudes e comportamento dos grupos.

O termo “complexo cultural” foi um derivado da teoria de Henderson, contudo, mencionado e não amplamente desenvolvido até o final dos anos 90, quando estudos passaram a dinamizar e aplicar a compreensão do inconsciente cultural de Henderson com a Teoria dos Complexos de Jung, destacando-se os analistas junguianos Samuel Kimbles e Thomas Singer na sistematização e ampliação dos estudos no campo dos complexos culturais.  

Os complexos Culturais e as Defesas Arquetípicas do Espirito Grupal

Na psicologia individual os complexos pessoais se formam em torno de núcleos arquetípicos que atraem e condensam a experiência e história pessoal carregadas de afeto e significado, que dão o tom afetivo do complexo, servindo de referência ao Ego em seu processo de desenvolvimento. De modo similar, os complexos culturais são sistemas energéticos que organizam a psique cultural integrando a história, a identidade e idiossincrasias do grupo, fornecendo coesão e sentido ao grupo (KLIMBES, 2003)

Assim, os complexos culturais nos permitem compreender tanto a constituição e organização de um determinado grupo ou cultura, quanto os efeitos desses complexos culturais e psique individual, segundo Tristão (2018)

Ao se tentar compreender e organizar a história psicológica de determinada cultura, através dos complexos culturais, verifica-se que a memória cultural não se relaciona somente aos membros da cultura/grupo, mas à própria cultura/grupo que produz seus próprios campos emocionais. O memorial cultural se utiliza da psique individual de seus membros para difundir afetos e ideologias, de maneira a moldar valores, prescrições, rituais, expectativas e a própria história do grupo. Nessa direção, a maneira como os grupos/culturas concebem a dívida para com o passado, bem como as reparações exigidas do futuro, são profundamente influenciados pelos complexos culturais (p.116)

Pode-se compreender que os complexos culturais se caracterizam por: I) organizar o sistema de crenças e emoções coletivas; II) Operar de forma autônoma; III) Operar como campos energéticos afetados; IV) mediarem a relação emocional do indivíduo com os modelos culturais do grupo; V) proporcionar o sentimento de pertença, identidade e continuidade histórica (SINGER, 2003; TRISTÃO, 2018).

Os complexos culturais são expoentes do inconsciente cultural, assim, na maior parte das vezes não são percebidos através da história “oficial” ou da narrativa mítica da história de um grupo, mas como os indivíduos são afetados por essas narrativas. Os complexos culturais mobilizam afetos, fantasias, sentimentos no individuo e/ou no grupo “que promovem uma distorção do mundo para a consciência, gerando respostas automáticas para o outro. Isso torna a realidade do outro invisível” (TRISTÃO, 2018, p. 113).

É importante ressaltar que sempre que falamos de grupo, estamos pressupondo uma distinção entre o participante e o não-participante, de uma realidade interna e externa ao dinamismo do grupo. Isso nos remete aos aspectos mais basais e arquetípicos de nossa constituição humana que é a dependência do outro. Essa dependência se dá desde os aspectos fisiológicos do desenvolvimento ao processo de inserção na realidade simbólica que nos caracteriza como humanos. Antes de nos compreendermos como indivíduos, isto é, com um ego constituído e funcional, somos parte de um grupo e cultura que nos molda e nos oferece parâmetros nos quais nossa individualidade será constituída. Assim, a relação com a cultura (em seus aspectos conscientes e inconscientes), i.e, complexo cultural, está tão arraigado em nossa organização psíquica pessoal que não percebemos a relação com os complexos culturais. 

Isto porque, em seu aspecto positivo, ou seja, quando atua na psique coletiva de forma saudável, o complexo cultural oferece segurança e estabilidade ao indivíduo e ao grupo, por nutrir o sentimento de pertença e coesão, oferecendo assim uma percepção de continuidade e sobrevivência. Assim, a relação com o próprio grupo e com os demais grupos ocorre de forma segura e amistosa.

 O cerne da existência do grupo pode ser traduzida através complexo cultural ou pela imagem do “espirito grupal”.

O espírito grupal diz de uma representação da experiência matriz na vida do grupo. Quando essa experiência é considerada bem nutrida e saudável, o espírito grupal sustenta e orienta o grupo e cada membro. Do contrário, quando o espírito do grupo está traumatizado, vulnerável ou ferido, ativam-se as “defesas arquetípicas”, que podem assumir uma energia violenta e agressiva, a fim de proteger o “valor cultural sagrado” e a possibilidade de extinção do grupo (TRISTÃO, 2018, p.117)

As experiências traumáticas ou as feridas de grupo são experiências históricas, que atravessam gerações que permanecem vivas no inconsciente cultural do grupo. Como exemplo, podemos falar da escravidão dos negros no Brasil, cujos efeitos permanecem vivos, consciente ou inconscientemente, tanto nos descendentes dos negros escravizados quanto nos descendentes dos brancos escravagistas. Nos afrodescendentes as defesas do espírito grupal se fizeram perceber na resistência, que possui diferentes formas de expressão como religião, como o candomblé, guardiã da língua, do culto e ancestralidade; na capoeira, nas expressões artísticas, e nas últimas décadas no movimento negro, que busca a reparação da dívida histórica da escravidão. Por outro lado, os ecos do escravagismo ecoam no racismo estrutural, nos privilégios e na manutenção da estrutura discriminatória. Esses dois complexos culturais se constituíram a partir da ferida histórica infringida a um grupo.

Nessa compreensão do complexo cultural, é preciso entender três componentes fundamentais: (i) as feridas traumáticas do grupo, lugar ou valores que conduz o espírito do grupo; (ii) o medo de extermínio do espírito pessoal ou do grupo por um estrangeiro; (iii) o surgimento do guardião/protetor, ou vingador, promovendo a defesa aos “perseguidores” do espírito grupal. (TRISTÃO, 2018, p.117)        

As defesas arquetípicas do espirito grupal se manifestam de forma autônoma, incitando o grupo e indivíduos contra o grupo rival, com uma agressividade intensa como se a sobrevivência do grupo dependesse da aniquilação do grupo rival. Existe o caso onde a defesa arquetípica do espírito grupal não projeta no grupo rival, mas introjetado, é percebido com autodepreciação explicitado pelo humor ou autocomiseração, fazendo que a agressividade se volte para dentro do grupo. Pode-se apontar que casos de suicídio em grupos oprimidos possam apontar para essa direção.

Na relação entre dois grupos onde a polarização dos complexos culturais produzem um alinhamento reativo entre os grupos, Singer e Kaplinski (2010) afirmam que

Esses alinhamentos negativos realmente formam um “eixo” no sentido de que uma linha direta ou conexão é traçada entre os daimons de um grupo, protegendo seu centro sagrado e os daimons de um grupo rival, protegendo seu centro sagrado. Tais alinhamentos negativos criam as condições para a erupção de violência incompreensível, destruição e impulso para destruir. Ao fazer a ligação entre as defesas de um grupo e as defesas demoníacas de outro, elas formam, de forma mais potente, as condições no inconsciente cultural para o surgimento indiscriminado do mal e que, no inconsciente cultural, é o verdadeiro “eixo do mal”.[6](p.204-205. Tradução nossa)

A agressividade e violência marcam a manifestação das defesas do espírito de grupo. Devemos notar que frente a ameaças ao espírito de grupo, podem surgir “guardões, protetores ou vingadores” do espírito grupal, personificadas em lideranças que para o bem ou para o mal, agem como em nome do espírito do grupo.

A polarização no Brasil

A polarização política no Brasil tomou forma nos últimos anos, desde a última eleição eleitoral em 2014, então representada pelos candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) havia uma denominação de “coxinhas” e “pão com mortadela”, em 2018 os termos mudaram para “fascistas” e “comunistas”, elevando o tom para uma agressividade mais explícita.

Para amplificarmos e compreendermos a dinâmica desses complexos culturais gostaríamos de elencar três parâmetros: Estereótipo; feridas ou traumas de grupo e Guardião ou protetor.

O estereótipo se refere a percepção, fantasiosa ou não que um grupo faz do outro, projetando essas percepções como um “rótulo” com o qual o outro grupo pode ou não se identificar. Essas projeções falam de um elemento fundamental na coesão do grupo:  o medo. O medo se refere sempre a ameaça externa, ameaça a sobrevivência do grupo.

No grupo vinculado ao candidato da extrema direita o medo que se manifesta toma a forma de comunismo, que foi potencializado pela crise humanitária da Venezuela sob o governo de Maduro, criando um clima de emocional de tensão e medo que é alimentado pelas notícias falsas (fakenews). Assim,  tomadas pelo medo, que é manifesto reativamente na raiva, o grupo responde a todo discurso ou ação de solidariedade, justiça social ou de direitos humanos taxando-as de “comunistas”. Mesmo virtudes cristãs, no discurso religioso, são confundidas com o comunismo.  Devemos notar, que o medo que se apresenta é o medo da perda de direitos e privilégios, e do caos econômico.

Por outro lado, no grupo vinculado ao candidato da esquerda, o medo ou ameaça se manifesta na forma da ditadura ou, mais propriamente, do fascismo. Nesse caso, o medo do fascismo se associa ao discurso do candidato Bolsonaro que historicamente[7] era marcado pelo racismo, homofobia e misoginia, negação da ditadura militar no Brasil. Nesse caso, o medo que atravessa esse grupo é o medo da perda de direitos, da desproteção do estado, e o medo da violência contra minorias e pessoas em situação de risco social legitimado pelo discurso do candidato.

A projeção do estereótipo possui uma função especial pois identifica a ameaça ou o inimigo, fornecendo uma orientação ao grupo na percepção da realidade – podendo esta ser distorcida de acordo com os afetos do grupo.

As feridas ou traumas do grupo se referem a danos, prejuízos e ameaças objetivas, isto é, colocaram em risco a existência física do grupo (como por exemplo, a escravidão, perseguição politico-religiosa, genocídio) ou subjetiva, que afeta a autopercepção e a autoestima do grupo. Em ambos os casos, o trauma é historicamente constituído por ancestralidade (como grupos étnicos) ou por adesão, quando a pessoa entra no grupo, como no caso dos grupos religiosos ou grupos sociais. O sentimento de pertença integra o indivíduo à coletividade, isto é, ao complexo cultural. Sob esse aspecto, o indivíduo é parte do drama do grupo, integrado às gerações que o precederam. E, o mais importante: a ferida ou trauma clama por reparação, por isso que mesmo que silenciosamente ela se retroalimenta, atravessa as gerações e pode eclodir mesmo décadas de silêncio.

O grupo caraterizado pela direita é um grupo  peculiar pois é uma amalgama de feridas que condensaram em torno do símbolo do antipetismo, por isso é um grupo heterogêneo. Assim, podemos pensar nessa diversidade pelas feridas tão distintas sob duas categorias: a perda de privilégios e sentimento de traição.

A categoria de “perda de privilégios” é complexa, pois compreende desde grupos que, ao longo das últimas décadas, tiveram perdas financeiras, perda de status social associado a diminuição da desigualdade; perda de influência por parte de grupos religiosos que perderam influência e hegemonia moral sobre sociedade, especialmente associado a aquisição de diretos por minorias (como o casamento igualitário) e diante da possibilidade de mudança de legislação em relação ao aborto.

A outra categoria compreende o sentimento de traição, que está associado às denúncias e a condenação do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva por corrupção. Isto porque, muitos que aderiram ao grupo da direita foram eleitores, beneficiários das políticas sociais do Governo Lula, contudo, com as denúncias e a condenação (associadas a não haver uma autocrítica do partido) fez com que eleitores se sentissem traídos, na confiança e esperança que o PT e o ex-presidente significassem mudança. O sentimento de traição alimenta em larga escala o “antipetismo”, consistindo um dos aspecto mais fundamentais para a integração do grupo apoiador do candidato Bolsonaro.

Por outro lado, o grupo representado pela esquerda, possui características históricas associadas as classes menos favorecidas, as feridas sendo associadas a exploração e desvalorização do trabalho, exclusão social (saúde, educação e direitos), visibilidade e liberdade de expressão. Essas feridas históricas encontraram no discurso de justiça social e avanços de direitos ao longo dos governos petistas, proteção e representação.

Ao compreender as feridas podemos entender a personificação defensiva do espírito grupal, quer na figura do guardião/protetor ou na figura do vingador do grupo. Nessa perspectiva, o guardião ou protetor personifica o desejo de manutenção do grupo, sobrevivência e continuidade. O vingador personifica o resgate do grupo, uma busca de reparação pelo trauma vivido ou uma restauração do grupo.

Quando analisamos as três situações, fica mais clara a dinâmica desses grupos, compreender os afetos exaltados, a dissociação entre a realidade, discursos e valores pessoais; e a tolerância notícias falsas.

Jung, culpa coletiva e alteridade

Diante da polarização, da exaltação dos afetos, da agressividade, e do amplo sofrimento psíquico que vemos em todos os grupos e na população podemos nos perguntar: Como lidar esse fenômeno?

Ao final da segunda guerra, Jung escreveu um texto chamado “Depois da Catástrofe”(1945), onde introduz uma noção importante que ele chamou de “culpa coletiva”, que é uma modalidade da culpa psicológica diferente da culpa jurídica ou moral, isto é, da culpa por um fato objetivo, mas antes uma identidade psíquica, isso porque Jung compreendia que o ser humano

não vive longe dos demais e que o seu ser inconsciente se acha ligado a todos os outros homens, então um crime nunca pode correr de maneira isolada como pode parecer à consciência. Ele acontece num âmbito bem mais vasto. (…) PLATÃO já sabia que a visão do feio provoca o feio na alma. A indignação e a exigência de punição se levantam contra o assassino e isso tanto mais violenta, apaixonada e odiosamente quanto mais ferver a chispa do mal dentro da própria alma. É um fato inegável que o mal alheio rapidamente se transforma no próprio mal, na medida em que acende o mal da própria alma. O assassinato acontece, em parte, dentro de cada um e todos, em parte, o cometeram (JUNG,1988, p.20-1).

Sob essa compreensão, unidade inconsciente faz com que todos tomem parte dos eventos que os envolvem. Tomamos parte na medida que os eventos nos afetam, nos tocam. Reagimos inconscientemente no corpo, nos afetos, conscientemente podemos condenar, apoiar ou nos omitir. A indiferença não é uma opção psíquica. Em seu aspecto mais fundamental a culpa coletiva expressa uma solidariedade psíquica. Desse modo, para Jung, a culpa coletiva não visa a punição, mas, especialmente a confissão e compensação. Diante do crime, da violência e das atrocidades que desumanizam as vítimas, nos levam a desumanizar os agressores – nomeando-os são monstros, loucos, doentes. A desumanização ou objetificação é uma forma de afastarmos a “culpa coletiva” ou “responsabilidade coletiva” não individual, mas da sociedade que falhou em proteger as vítimas. Acusar, julgar e distanciar dos fatos é uma forma de não assumir a responsabilidade com o outro ou com a coletividade.

E não falamos de impunidade, a culpa coletiva não exime o indivíduo, mas possibilita uma mudança ou transformação coletiva.

Todos nós podemos identificar esta sombra de que emerge o homem de nosso tempo. Não precisamos atribuir a máscara do demônio ao alemão. Os fatos falam uma linguagem bem mais clara e quem não pode compreendê-la não pode ser ajudado. O que fazer com essa visão pavorosa é algo que cada um deve descobrir por si mesmo. Na verdade pouco se ganha em perder de vista a própria sombra ao passo que o conhecimento da culpa e do mal que habitam em cada um traz muitas vantagens. A consciência da culpa oferece condições para a transformação e melhoria das coisas. Como se sabe, aquilo que permanece inconsciente jamais se modifica e as correções psicológicas são apenas possíveis no nível do objeto (JUNG, 1988, p. 36).

Dessa forma, o que vemos na polarização política no Brasil, movida pelos complexos culturais, é a desumanização do outro. Isto é, o outro se torna um objeto, não é percebido como igual, uma pessoa, se torna veículo ou símbolo de uma ideologia a ser combatida – o então amigo ou familiar se torna “fascista” ou “comunista” – objeto de ódio ou temor.

É importante esclarecer que não falamos de uma cúpula partidária ou de quem dá forma ao ato violento atacando as pessoas, nem daqueles que personificam o discurso de ódio contra minorias legitimando a violência, tirando proveito do sofrimento coletivo para benefício próprio. Falamos de pessoas, amigos, colegas de trabalho, familiares e de pacientes que chegam a nossos consultórios.

Passando a tempestade ou “depois da catástrofe” reconhecer o nosso próprio ódio e medo é um passo fundamental para perceber o outro como humano. A noção que Jung insere com a culpa coletiva é do reconhecimento de nossas sombras para não apontarmos o dedo, para não diminuirmos o outro – acirrando a polaridade.

Somente pelo reconhecimento de nossas próprias sombras, da culpa coletiva, da humanização do outro, da existência do grupo que se opõe ao que me identifico e do sofrimento desse grupo (ou das pessoas desse grupo); é que conseguiremos integrar a alteridade necessária ao diálogo, o símbolo necessário para superar a divisão.

Na alteridade reconhecemos não somente o outro, mas a nós mesmos. Depois das eleições teremos de lidar com a desilusão, com o medo e a resistência. O desafio de tecer novos laços afetivos que possibilitem reconstituir indivíduos, famílias e grupos divididos por essa polarização. Reintegrar a alma brasileira dilacerada ao longo dos anos pelo processo político.

O resultado da eleição do próximo dia 28/10/2018 nos confrontará com  mais uma etapa da polarização do país. Assim, a consciência da divisão nos coloca diante do fato de que independente de quem seja eleito, psiquicamente, todos somos perdedores.

REFERÊNCIAS

HENDERSON, J. L.. The cultural unconscious, In Shadow and self: Selected papers in analytical psychology. Wilmette, IL: Chiron. 1990

SAMUELS, A.  Psique Política. Rio de Janeiro: IMAGO, 1995

JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente, Petropolis: Vozes, 1999.

JUNG, C.G. Aspectos do Drama Contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1988.

KLIMBES, Samuel, L. . Cultural Complexes and Collective Shadow Process. In: BEEBE, J. (org). Terror, violence and the impulse to destroy: perspectives from analytical psychology (pp. 211-234). Canadá: Daimon, 2003.

SINGER, T. Cultural Complexes and Archetypal defenses of the group spirit. In: BEEBE, John. Terror, violence and the impulse to destroy: perspectives from analytical psychology (pp. 191-211). Toronto: Daimon, 2003

SINGER, T, & KAPLINSKI C. “Cultural Complexes in Analysis in STEIN, M.(org)Jungian Psychoanalysis: Working in the Spirit of C.G. Jung, Chicago: Open Court Publishing Company,. 2010.

TRISTÃO, K.G. Capsij como lugar de cuidado para crianças e adolescentes em uso de substâncias psicoativas (Tese de doutorado), Programa de Pós-graduação em Psicologia UFES, Vitória, 2018. Disponivel em:  http://repositorio.ufes.br/jspui/bitstream/10/9113/1/tese_9223_TESE%20Kelly%20Guimar%C3%A3es%20Trist%C3%A3o.pdf


[1] Fabricio Fonseca Moraes é psicólgo clínico, especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA), especialista em Psicologia Clínica e da Familia (Saberes), Coordenador de Grupos de Estudos e Diretor do CEPAES (Centro de Psicologia Analítica do ES).

[2] Kelly Guimarães Tristão é psicóloga clínica, Doutora em Psicologia – UFES, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA), Professora Universitária , Diretora do CEPAES (Cenro de Psicologia Analítica do ES)

[3] Confira McGUIRE, William., ; HULL, R. F. C., C.G. Jung: Entrevistas e Encontros; Ed.Cultrix, São Paulo, 1982

[4] who were deeply wounded and limited by the charges of anti-Semitism against Jung and his followers. After World War II and the Holocaust, few wanted to take up the subject of “national character” or cultural complexes for fear of being tainted by  allegations of discrimination or, far worse, of contributing to justification of genocide.

[5] an area of historical memory that lies between the collective unconscious and the manifest pattern of culture [and] has some kind of identity arising from the archetypes of the collective unconscious, which assists in the formation of myth and ritual and also promotes the process of development in individuals. (p. 103)

[6] “these negative aligenments truly form an “axis” in the sense that a direct line or conection is drawn between the daimons o fone group, protecting their sacred center, and the daimons of a rival group, protecting their sacred center. Such negative alignments create the condictions for eruption of incomprehensible violence, destruction and impulse to destroy. By making the link betweein defenses in one group and the demonic defenses of another, they form, most potently, the conditions  in the cultural unconscious for the wholesale emergence of evil, and that, in the cultural unconscious, is the true “axis of evil”.

[7] Historicamente, pois, não foi um discurso de campanha, mas presente ao longo da carreira política do deputado.

Indicação de Livros : “Psicanálise Junguiana” e “Psicologia Analítica”

O pensamento junguiano é extremante rico e diverso. É realmente uma pena muitos não conheçam essa extensão, pois, no Brasil estamos muito acostumados com livros voltados ao pensamento clássico e da psicologia arquetípica. Por isso, a publicação dos “Psicanálise Junguiana” de Murray Stein e o “Psicologia Analítica” de Linda Carter e Joseph Cambray pela editora vozes são tão importantes.

Psicanálise Junguiana:  Trabalhando no espírito de C.G.Jung

Editado por Murray Stein, em 2010, o “Psicanálise Junguiana” ganhou sua tradução em 2019.

É um livro com grande complexidade, são cerca de 40 autores em 36 artigos em 591 paginas. Distribuídos nos eixos:

– Objetivos

– Métodos

– Processo Analítico

– Tópicos Especiais

– Formação

O livro já desperta interesse pelo título que causa um pouco de estranheza para o público junguiano brasileiro, que não está acostumado com o termo psicanálise junguiana. Murray Stein justifica em seu prefácio que a “Psicanálise Junguiana é o nome contemporâneo da aplicação prática da psicologia analítica” (p.18).  Apesar de alguns junguianos há algum tempo se denominarem “psicanalistas junguianos” no Brasil é bem incomum.  Acreditamos que isto esteja relacionado com a formação do pensamento junguiano brasileiro, intimamente relacionado com a escola clássica e com um forte afastamento da psicanálise. Vale a pena lembrar que a psicanálise que Jung criticava em suas páginas não corresponde a psicanálise contemporânea.

O livro como um todo apresenta um mosaico que envolve estudos associados a emergência, sistemas complexos adaptativos, complexos culturais, intersubjetividade, trauma, adolescência, infância e sobre formação.  Essa amplitude abre as portas para novos estudos e novas percepções acerca da psicologia junguiana, uma janela para os estudos contemporâneos.

Psicologia Analítica: Perspectivas Contemporâneas em analise junguiana

Recém lançado pela vozes em 2020, o livro “Psicologia Analitica” Editado por Cambray e Carter tem sua publicação original em 2004.

Este livro nos apresenta um panorama sobre a história, teoria e prática junguiana . Com 11 artigos e pouco mais de 400 páginas fornece uma visão impar do pensamento junguiano contemporâneo.  

Um aspecto importante desta obra é seu caráter crítico. A história junguiana é recontada sem romantismo e sem idealizações, dando uma visão da formação de alguns dos principais grupos junguianos.

Os artigos de John Beebe sobre tipos psicológicos (incluindo apontamentos do MBTI), Jean Knox com uma percepção junguiana da organização psíquica relacionada com neurociência cognitiva e teoria do apego, Thomas Singer e Samuels Kimbles sobre complexos culturais oferecem uma visão ímpar de construções junguianas contemporâneas.

Qual livro é melhor?

 Ambos são excelentes e se complementam. O Psicologia Analítica oferece um visão mais aprofundada, mas, com temas são mais restritos (como dissemos são 11 capitulos ao passo que o psicanálise junguiana são 36). A maior parte dos autores do Psicologia Analítica também participaram do Psicanálise junguiana.  

São livros indispensáveis para quem quer estudar o pensamento junguiano contemporâneo.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

Algumas reflexões acerca do chamado “otimismo junguiano”

 

(28 de dezembro de 2012)

Há alguns anos atrás, quando ainda fazia a graduação em psicologia, uma colega fez uma crítica ao pensamento junguiano dizendo que este era de um otimismo ingênuo. Na época, nem me incomodei com essa crítica, pois, era motivada pela ideia psicanalítica da pulsão de morte. Contudo, nesses últimos dias eu tenho sido questionado acerca do dito “otimismo” junguiano, e, essa lembrança acerca do “otimismo ingênuo” me fizeram pensar um pouco mais.

De fato, acredito que podemos começar a pensar o “otimismo” junguiano, nos perguntando, se ele é apenas um otimismo? Acredito seja necessário primeiro considerarmos alguns aspectos epistemológicos. Isto porque, a postura junguiana não está calcada apenas numa premissa qualitativa ou numa simples aposta que “vai dar tudo certo”, mas, sim numa postura epistemológica, pois, Jung compreendia que a realidade não era um dado objetivo, mas que se constituiria na relação com o sujeito. Desta forma, ao observar um objeto a percepção do sujeito é condicionada tanto por seu sistema sensorial quanto por sua história. É justamente nesse sentido, que Jung a afirma “Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver” (JUNG, 1989, p.324).

A realidade ou mesmo a psique não é dada de forma objetiva ou integral, cada um de nós perceberemos os fenômenos de acordo com nossa perspectiva. Por isso, que na psicologia possuímos tantas abordagens diferentes, que abordam o mesmo fenômeno por perspectivas diferentes, uns focam no comportamento, outros no corpo, outros no sentido da vida, outros nas relações sociais, nas relações sócio-históricas, outros nos aspecto patológico da psique. Através de uma comparação com a perspectiva diametralmente oposta, isto é, a de Freud, Jung expõe sua perspectiva afirmando que

Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde e gostaria de libertar os doentes daquela psicologia que Freud coloca em cada página de suas obras. Não consigo ver onde Freud consegue ir além de sua própria psicologia e como poderá aliviar o doente de um sofrimento do qual o próprio médico padece. (JUNG, 1989, p.325)

Jung afirma que “prefere” olhar pelo viés da saúde, isto é, ele escolhe a perspectiva que prioriza a saúde e os processos autorregulatórios da psique. Afirmar a saúde não significa negar a doença e os aspectos patológicos, mas, compreende-los numa perspectiva onde a doença integra e compõe o processo de saúde. É justamente nesse sentido que Jung afirma que “O importante já não é a neurose, mas quem tem a neurose. É pelo ser humano que devemos começar, para poder fazer-lhe justiça.”(Jung, 1999, p. 80). Assim, podemos compreender que mais que a neurose não possui uma existência em si mesma, mas, compõe o cenário da vida e realidade do individuo.

De fato, devemos compreender que a psique possui todo instrumental necessário para se reorganizar e promover o desenvolvimento do individuo. Por isso mesmo, Jung afirma,

Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrario teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. (JUNG, 2000, p. 160-1)

Acredito que o chamado otimismo junguiano, também esteja relacionado a compreensão que a realidade psíquica é orientada, não apenas pela causa, mas, para um fim. A perspectiva finalista nos possibilita pensar o “para quê” de um dado fenômeno psíquico, isto é, pensar qual a intencionalidade ou para onde o processo está apontando. Através da neurose, eu poderia compreender não só quais os caminhos ou escolhas eu tomei que me trouxeram aonde estou, mas, quais caminhos ou escolhas devo tomar para mim vida. De fato, compreender que “não é apenas o passado que nos condiciona, mas também o futuro, (…).” (JUNG, 2006, p.115) nos abre para uma dimensão da possibilidade, onde o individuo é efetivamente um agente, um construtor de sua própria história.

No filme de animação “Kung Fu Panda 2”(2011), temos uma excelente expressão dessa compressão, a Velha Cabra diz a Po ;“Sua história pode não ter tido um começo muito feliz, mas não é isso que define quem você é. É o restante da sua história, quem você escolhe ser.” Nossa história vivida nos permite compreendermos qual caminho que percorrermos, mas, não somos condenados a vivermos nesses caminhos. A psicoterapia visa possibilitar que o individuo realize novas escolhas a partir de sua própria história.

Por mais que a realidade da neurose possa nos fazer sofrer, devemos compreender que há sempre uma possibilidade, pois, “o fundo da psique é natureza e natureza é vida criadora. É bem verdade que a própria natureza derruba o que construiu, mas vai reconstruir de novo” (JUNG 2000, p.89). A vida gera vida. Mesmo na psicose, como muito bem demonstrou a Dra. Nise da Silveira, sendo tratado com respeito e dignidade, o paciente pode ter qualidade de vida e viver criativamente!

O pensamento junguiano é orientado para a vida e seus processos criativos, isto, já nos permitiria chama-lo de “otimista”. Mas, como expomos acima, este otimismo não seria “ingênuo” nem mesmo “romântico”, mas, sim um otimismo fundamentado, baseado numa perspectiva que prioriza a vida e os processos naturais de desenvolvimento.

De fato, o otimismo, uma postura afirmativa ou positiva frente a vida e aos processos psíquicos pode ser compreendido como uma marca junguiana.

Referências bibliográficas

JUNG, C. G.. Freud e a Psicanálise Petrópolis: Vozes. 1989.

JUNG, C.G. A pratica da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.

JUNG, C.G O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, Petrópolis: Vozes, 2006.

JUNG, C.G Civilização em Transição, Petrópolis: Vozes, 2000.

KUNG FU PANDA 2. Produção de Guillermo del Toro. EUA: Paramount Pictures,. Animação (90 min.), 2011.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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