“O Luto de Nós – breves reflexões junguianas sobre a Pandemia da Covid-19”

( Texto postado orginalmente no site do CEPAES, em 28 de março de 2020)


Diante da Pandemia do Covid-19 somos convocados a pensar, a trabalhar e elaborar simbolicamente os efeitos dessa pandemia e do isolamento social em nós mesmos, em nossos pacientes e na sociedade. No grupo “Aion – Estudos Junguianos” [i] refletimos sobre essa realidade que vivemos dialogando com o texto de Jung, “Depois da Catástrofe” de 1945, fazendo um paralelo com o pós-guerra e com a crise que atravessamos. 

No texto de 1945, Jung afirma “A visão do mal acende o mal na própria alma. Isso é inevitável” (Jung, 1990 p.22), é uma noção fundamental pois, apesar do isolamento físico, não estamos isolados psiquicamente. Assim, estarmos diante  de tantas imagens e informações que geram medo, desespero, e outros afetos que nos circundam sem ser afetados de algum modo. Inevitavelmente, diante do drama ou do sofrimento humano também tomamos parte desse sofrimento – algumas vezes de forma velada, outras explicitas.  

Em algumas situações, podemos negar esses afetos – racionalizando ou focando em atividades externas, controlando rigidamente as atividades, ou com pensamentos defensivamente positivos. Em outros, somos tomados por esses afetos que podem se manifestar em crises de ansiedade ou pânico (que não se manifestara antes), pensamentos obsessivos e/ou comportamentos compulsivos (como as compras excessivas, estocagem de alimentos etc.) e fantasias que visam atribuir um sentido, racionalidade ou intenção ao vírus.

Uma terceira via seria aceitarmos nosso medo, falarmos dele, conversarmos buscando integrar essa realidade interior, perceber o que é nosso e o que vem da coletividade. Elaborando os diferentes afetos nas ações/atividades que provem segurança e estabilidade ao Ego dos indivíduos.

Desse modo, os afetos que experimentamos nos coloca num mesmo drama coletivo. Não somos imunes ao espírito do tempo, nem aos afetos mobilizados no inconsciente. No texto citado, Jung utiliza uma noção delicada de “culpa coletiva” que devemos observar com cautela – a culpa coletiva nos remete a um sentimento de solidariedade que nos torna participantes do drama coletivo – saindo da polarização algoz-vítima. Pois, como diz um ditado italiano “no fim do jogo o rei e o peão voltam para a mesa caixa”. Sair da polarização implica assumir a responsabilidade sobre si mesmo e sobre o outro, isso não significa ignorar os erros, mas sim considerar os erros visando a reparação solidária e coletiva dos erros – não acusar e subjugar a quem quer que seja.

“A consciência da culpa oferece condições para transformação e melhoria das coisas. Como se sabe, aquilo que permanece no inconsciente jamais se modifica e as correções psicológicas são apenas possíveis no nível da consciência” (Jung, p.37)

O sentimento de solidariedade (advindo da culpa coletiva) possibilita a relação de cuidado consigo e com o outro de forma saudável e construtiva (como integração do dinamismo da alteridade).

Enxergar através das polarizações (direita x esquerda, pró x contra quarentena, quem estoca x quem não estoca alimentos/remédios/álcool gel) é importante para evitarmos os julgamentos morais e percebermos o fato psíquico, as dinâmicas que nos movem nesse período.

Sob certo aspecto podemos pensar nesse período como o atravessar de um luto, luto dos entes queridos, o luto de nossas certezas (a de nossos planejamentos, rotinas, de nossa saúde), luto da liberdade e o luto de nossas ilusões de controle. Essas perdas mobilizam diretamente nossas defesas – condizentes as descritas por Elisabeth Kubler-Ross quando descreveu como etapas do luto negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Contudo, nas famílias, nas redes sociais notamos esses diferentes estágios do luto simultâneos –nega-se a gravidade da crise, racionalizando atividades como se tudo estivesse normal; vemos as reações de raiva assim como notícias do aumento dos casos de violência doméstica e feminicídio; barganha-se com promessas para  de um futuro incerto, barganha-se com a saúde comprando litros de álcool em gel, com promessas religiosas destituídas de contato com o sagrado; a depressão se dá muitas vezes no cansaço, sono, tédio e melancolia, o distanciamento da vida. A aceitação implica compreensão das mudanças pessoais e coletivas, possibilitando rearranjos internos e externos, assim como exercícios e atos de genuínos de solidariedade.

Assim como a perda de um ente querido exige de nós um redimensionamento das nossas relações afetivas (internas e externas), uma reorganização dos papéis sociais (nossos e dos outros), uma reconstrução de projetos e perspectivas; do mesmo modo a incerteza e a perda das ilusões (de controle) nos colocam diante da mesma necessidade de nos reorientarmos diante da existência.

As milhares de mortes ao redor do mundo certamente acende em nós o medo explicito ou velado da morte. Isso nos coloca diante da fragilidade de nosso sistema de crenças – seja a fé na ciência ou na religião. Vemos muitos grupos religiosos desconectados que estão em negação ou barganha diante dessas incertezas, aumentando o sofrimento. É uma situação delicada, pois, a religião é a possibilidade olhar através da morte, vislumbrando significados e possibilidades estão para além da perspectiva científica.

A noção do luto coletivo que vivemos é importante para compreendermos as distintas manifestações do sofrimento que nos chegam pelas diferentes formas. Pensar nessas manifestações em como somos afetados nos ajuda a contribuir com a elaboração e enfretamento desse momento. Devemos ressaltar que, apesar do sofrimento, isso não diminui a responsabilidade individual e coletiva acerca de nossas escolhas, acolhendo as decisões técnicas que visam preservar as vidas, mesmo que isso signifique a manutenção do isolamento social.

Referência Bibliográfica: 
 

JUNG, C.G., aspectos do Drama contemporâneo, Petrópolis:Vozes, 1990  


[i]No dia 23/03  tivemos nosso primeiro encontro on-line do Aion por conta da Pandemia da COVID-19, de modo que este texto é baseado na discussão do Aion. Agradeço a todos os membros do Aion que contribuíram para essa discussão.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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As Defesas do Self e a Experiência Traumática

Nota: Texto apresentado na IV Jornada Junguiana na Multivix em 15/06/2019. Publicado originalmente no site do CEPAES.

A psicologia analítica é uma abordagem ampla e heterogênea, que comporta uma diversidade pensamentos. No Brasil, temos uma presença mais clara do pensamento clássico e da psicologia arquetípica. Contudo, gostaria de trazer para vocês hoje uma reflexão pautada no pensamento inglês, na chamada escola desenvolvimentista – que tem como expoente o analista inglês Michael Fordham, cujo pensamento vem sendo uma influência muito importante para o CEPAES.

A Escola Desenvolvimentista recebeu essa nomenclatura dada por Andrew Samuels por enfatizar os processos de desenvolvimento, isto é, a infância, e seus desdobramentos na vida adulta e nos processos transferenciais e manejo clinico.

Assim, nossa proposta é falar das defesas do Self e a Experiência traumática dentro desse enquadre teórico, para tanto precisamos fazer algumas contextualizações refletir acerca do Self no processo desenvolvimento das relações com o ambiente. 

O Self e o desenvolvimento

Jung definiu o Self como o arquétipo da totalidade e centralidade, isto é, como sendo o centro e a totalidade da psique, juntamente com o atributo de ser o centro organizador da psique. Como o trabalho de Jung se direcionou aos processos do desenvolvimento adulto, em especial, da meia idade onde os processos integrativos do Self se manifestavam de forma intensa e simbólica, ao que Jung denominou, o processo de individuação e, assim a realização do Self.

Os estudos de Jung acerca do Self, tomaram novos contornos quando aplicados ao processo de desenvolvimento na infância. Um dos pioneiros da análise de crianças foi Michael Fordham, que em 1935 começou o atendimento de crianças na Inglaterra, que eram vítimas dos traumas de guerra (crianças evacuadas das cidades), crianças psicóticas e com transtorno do espectro autista . Deve-se notar, que Fordham desenvolveu seu trabalho em paralelo com o trabalho de Melaine Klein e do Middle group da sociedade psicanalítica de Londres, com pensadores como Winnicott, Fairbain, Bion dentre outros, com os quais Fordham se relacionou e ampliou as discussões teóricas.

Em sua prática, Fordham observou que havia uma autonomia na atividade inconsciente, que impelia a criança ao desenvolvimento desde que houvesse um ambiente adequado ou um ambiente suficiente bom. Observando que a tese defendida por Jung de que as neuroses ou transtornos  infantis eram uma derivados das neuroses dos pais era uma visão parcial e limitada, pois, as crianças tinham conflitos infantis próprios da criança e assim como derivados o ambiente (na relação com os pais), por outro lado, observou que independente de grandes mudanças na dinâmica parental ou na neurose dos pais haveria sim uma melhora significativa da criança e de seus processos de amadurecimento ou de individuação. A atividade do self seria  ativa e intensa desde a vida intra-uterina.

Em 1957, Fordham publicou o livro “New Developments in Analytical Psychology”, prefaciado por Jung, onde ele apresentou as bases de sua teoria acerca do desenvolvimento e do Self. Para Fordham, a criança na primeira infância não teria uma experiência propriamente psíquica, a experiência compreendida como psicossomática, com  um Self integrado, onde não haveria uma distinção entre corpo e Psique, nem ainda haveria um Ego, a esse Self original, manifesto como uma unidade psicossomática, ele chamou de Self primário (que  correspondia ao que Neumann viria a chamar de “fase uriborica” ou self corporal).

Como unidade psicossomática, os processos do Self primário do bebe, estão associados a processos fisiológicos, que seja pela necessidade (fome, saciedade, frio, incomodo tátil, incomodo intestinal) ou por estimulação do meio (luz, som, movimentação, cuidado) estariam ativariam diferentes aspectos Self, a ativação a possibilidade arquetípica de reconhecimento e ter respostas (de satisfação ou insatisfação) Fordham chamou de “deintegração” a essa ativação de diferentes aspectos do Self– com o processo de descanso, sono, essa atividade do Self seria reintegrada, formando as bases para o processo de desenvolvimento.   

Ainda não há uma consciência capaz de sustentar imagens, representações, nem distinção de realidade interior ou exterior. Para a criança, a mãe não é percebida em totalidade ou como outro, a mãe é uma experiência que supre suas necessidades. Por esse motivo, por não haver distinções, nem representações, logo, nem símbolos, falamos de objetos.

Essas locais e situações que ativam o processo de deintegração-reintegração  do Self, são chamados de primeiros objetos do Self, ainda indiferenciados, apenas elementos onde a atividade a energia ou libido se direciona, com o tempo objetos do Self, em formam em si pequenas ilhas de consciência,  núcleos esparsos de consciência, as representações do Self, com o processo de amadurecimento e a atividade integradora do Self, esses núcleos ou representações do Self, vão se integrar dando origem, ao longo de um longo período da primeira infância ao Ego.

Os Self e os Processos Integrativos

Até aqui, descrevi um pouco dos processos do Self, contudo, o processo de amadurecimento neurológico e fisiológico do bebe e os cuidados maternos o colocam em relação com o ambiente – com o entorno que ainda é indistinto para a criança, mas, que aos poucos vai se apresentando como uma realidade que ela não é capaz de controlar, percebendo como um objeto distinto de si mesma. A medida que a criança adquire uma capacidade de se relacionar com objetos (o mamilo da mãe, os brinquedos, as roupas, as sensações) que qualitativamente se manifestam como satisfatórias ou positivas (que produzem saciedade) ou insatisfatórias ou negativas (que produzem insasciedade) essas experiências produzem os objetos de apreço ou de rejeição, os objetos bons e maus.

Com o amadurecimento das funções sensoriais que possibilitam a relação com o ambiente, assim como o desenvolvimento da memória, que sustentam a experiência de onipotência( como se fosse capaz fazer aparecer o objeto bom – o seio no caso da fome, ou afastar o objeto mau, o incomodo com as roupas ou fraudas)  essa onipotência está relacionada com  da criança se torna capaz a sustentar a imagem percebida mesmo na ausência do objeto, ou mesmo evoca-la, alucinando a presença do objeto bom, de satisfação – ou pode alucinar negativamente o objeto mau, de desprazer.

Esse processo de alucinação é a base do processo de representação, da construção de consciência. Nesse processo alucinatório toma elementos da percepção de objetos externos e os mescla sensações ou afetos interiores – numa identidade psíquica ou, como Jung nomeava, utilizando de Lévi-Bruhl, participação mística.

A relação com os objetos ainda indiferenciados e o gradativo processo de amadurecimento possibilita o processo de diferenciação entre os objetos, onde os objetos externos são preenchidos com os objetos internos, formando um campo representacional que não corresponde nem a realidade interior nem a exterior, mas intermediária. Winnicott denominou essa área de “espaço potencial”, onde se desenvolvem os “objetos transicionais”, que são os primeiros símbolos do Self, expandindo as possibilidades da consciência de uma função basal adaptativa para uma função simbólica e representacional da consciência.

O espaço potencial é um espaço distinto da realidade interior e exterior, mas, se constitui na interpenetração das duas. Esse é o espaço representacional, imaginal onde é possível se constituir a função transcendente e a elaboração simbólica. Para tanto, é necessária uma relação adequada ou suficientemente boa com o ambiente, expresso nas relações ambientais.

Os processos de constituição do Ego e das relações objetais vão caracterizar o processo individuação na infância.

O Ambiente

O ser humano se torna humano mediante a relação com outro ser humano. Nosso ambiente para além do ambiente natural é o ambiente simbólico. Assim, para a criança em seus primeiros anos a mãe não é uma pessoa, mas, é o ambiente da criança. A relação com a mãe vai mediar a relação com os objetos. Contudo, devemos compreender que a mãe é a primeira experiência de ambiente, mas, estão se restringe a ela. Ao longo da infância a relação com o ambiente relacional, familiar e social vai possibilitar a humanização do potencial arquetípico fornecendo ao ego recursos que serão referência – seja participando da organização, estabilidade e força do Ego ou na dinâmica dos complexos – para futuras relações com o ambiente ou realidade.

As relações objetais irão compor os padrões de resposta que serão integrados tanto a experiência de constituição do Ego quanto a experiência dos complexos. Quando falamos num ambiente “materno suficientemente bom” na infância nos referimos a um ambiente de segurança e nutrição, onde a criança poderá estabelecer relações e vínculos saudáveis e uma capacidade simbólica que possibilita elaborar as adversidades sem um risco maior a estrutura do Ego.

Ao longo da vida, as experiências com o ambiente, que podemos nomear aqui como psicossociais, vão interferir diretamente nas relações que o ego estabelece tanto consigo mesmo quanto com o ambiente. Essas experiências podem ser desde mudanças na família, trabalho e idade, e implica no estabelecimento de uma nova possibilidade de amadurecimento.

Apenas um aspecto fundamental: O ambiente é sempre relativo a uma realidade psíquica. Ou seja, devemos compreender o ambiente em relação a quem indivíduo, isto é, ao ego que está em relação com o ambiente. O Ambiente é sempre relacional.

As Defesas do Self  

Em 1974, Fordham publicou um pequeno artigo chamado “Defences of The Self” onde, a partir de uma discussão clínica acerca da transferência psicótica, apontou de forma mais clara uma categoria de defesa que não se relacionava com defesas do Ego, mas, defesas intensas que não distinguiam o objeto em si, mas, eram defesas totais, manifestas como proteção contra a ameaça, abandono ou risco de destruição. Esse tipo de defesa, promoveria uma forma de barreira de proteção contra total contra o objeto ou o ambiente que é compreendido como nocivo ou ameaçador.

Fordham também utiliza uma analogia realizada pelo analista Leopold Stein, onde os aspectos defensivos atuariam com ao sistema autoimune, e em determinados casos que poderiam se voltar contra própria a própria psique, impedindo o desenvolvimento de relações objetais, da simbolização ou mesmo do processo de individuação.

Essas defesas do Self se caracterizam pela identificação projetiva, idealização, atuação (act out), somatização e regressão (dentre outras).

Em si, as defesas do Self apontam para a autonomia e capacidade do Self, desde o início do processo de desenvolvimento, em estabilizar, regular e manter a possibilidade de vida. A questão é quando os processos de defesa se mantém tempo demais, ficando fixada e aí assumem um caráter patológico.

Isso envolve um ataque à própria capacidade de experienciar a si mesmo, o que significa “atacar os vínculos” entre imagem e afeto, a percepção e pensamento, a sensação e conhecimento. O resultado é que essa experiência se torna sem sentido, a memória coerente é “desintegrada” e a individuação é interrompida.” (Kalsched, 2013 p. 76)

É importante considerarmos os processos defensivos do Self como base para se pensar transtornos do desenvolvimento como o transtorno do espectro autista, assim como pensar transtornos de personalidade como esquizóide, borderline dentre outros. Esses transtornos estão associados a experiências do Self, que interferem diretamente na experiência e formação do Ego – prejudicando o processo de vinculação, autopercepção, elaboração simbólica dentre outros.

As defesas do Self  cujo processo defensivo não é atualizado (ou seja, não evolui como as defesas egoicas), implica numa fixação do processo defensivo que, Donald Kalsched, descreveu como ataque aos vínculos e proteção do “espírito pessoal” ( uma forma de nomear o Self em seu aspecto dinâmico na experiência individual).

Apesar de serem descritas desde os primórdios do desenvolvimento,  as defesas do Self não devem ser compreendidas como apenas pelo escopo do desenvolvimento, diante de uma experiência que ameace a vida ou a integridade física podem ser ativadas de modo em situações onde a ameaça a vida, a integridade psicofísica e tal forma que as defesas do Ego não suportam. Assim, as defesas do self atuam como uma segunda linha de defesa (ainda que mais radical) para garantir a sobrevivência do Self, mesmo que sacrificando processos importantes do Ego.

A experiência Traumática e o trauma

As defesas do Self estão intimamente associadas a experiência traumática. Esta seria uma experiência insuportável que ameaça alguma forma a continuidade da vida.  Kalsched define “o trauma é uma experiência aguda ou acumulativa que nos estilhaça. O estilhaçamento é tanto o evento exterior que nos choca e o evento interior que chamamos de dissociação. ” (kalsched , 2010.p. 284 – tradução nossa) Essas experiências pode ser de Abandono afetivo, Abuso/Violência física, abuso/Violência sexual, Duplo Vinculo, Rejeição, Bullying, e, muitas vezes, ouvimos a expressão “era coisa se algo quebrasse dentro mim”.

É importante notar que esse sofrimento que estilhaça não tem lugar na psique, não é metabolizado em si, a defesa do self se instaura como uma forma afastar ou tentar neutralizar aquilo que de outra forma é insuportável, esse processo se dá especialmente pela divisão da experiência. Em outras palavras, separando afeto – imagem, Comportamento(ação) – Significado,  Compreensão – Percepção.

 A própria psique, ou o aspecto sombrio do Self, se incumbe em manter a dissociação, atacando os processos simbólicos (ou seja, integrativos), rompendo os vínculos exteriores assim como os vínculos interiores, que de outra forma poderiam integrar essa experiência. A própria psique atua como se reproduzisse a experiência do trauma em sonhos, sensações, intuições. Mantendo o processo dissociativo, evitando que vínculos de confiança.

vemos na personalidade saudável a luta em direção a um relacionamento equilibrado entre as energias do ego e do Self, de maneira que as energias do Self impregnam o ego, mas não o subjugam, nem lhe fornecem substitutos para gratificações humanas. A libido pode ser transferida através do limiar ego/Self e investida nas relações amorosas, interesses, compromissos etc. No trauma, contudo, a história é diferente. O sistema de autocuidado resiste a todo investimento da libido “nesta vida”, a fim de evitar uma ulterior devastação. As energias do mundo numinoso tornam-se, então substitutos para a autoestima que deveria proceder de gratificações personificadas no mundo humano. O transpessoal é colocado a serviço da defesa. (KALSCHED, 2013, p. 256)

A investigação dos processos de desenvolvimento é importante, pois, pessoas que vivenciaram trauma precoce não trazem a memória esses fenômenos traumáticos ou muitas vezes falam dele como se já estivesse sido elaborado. O trauma precoce ou o trauma na vida adulta, vão se caracterizar pela através da predominância das defesas (como citamos, de identificação projetiva e introjetiva, idealização, somatização, atuação e regressão) mais perceptível em transtornos de personalidade (esquizoide, narcisista, border-line, antissocial etc). Mas, também é comum em transtornos ansiosos e depressão onde a dificuldade autopercepção, confiança ou mesmo de percepção do ambiente.  São pessoas seguem na vida de forma funcional, em outras palavras, são pessoas que são bem adaptadas, produtivas, contudo sem uma experiência simbólica, onde a identificação com a persona, substitui uma experiência vida interior e significado.

Em certos casos, a sensação de ameaça, a impossibilidade de elaborar simbólica o sistema de autocuidado arquetípico levar o indivíduo ao suicídio, com uma defesa última a um sofrimento impensável.

Algumas considerações

Para finalizar, gostaria apenas de considerar alguns pontos

O modelo de desenvolvimento apontado por Fordham nos permite aprofundar nos quadros clínicos graves e os aspectos destrutivos ou defensivos da psique, compreendendo sua psicodinâmica dentro da uma perspectiva da individuação.

Na clínica é fundamental compreender a interação dialética com o ambiente – seja, ele passado, presente e o ambiente terapêutico ou transferencial. Nesse sentido, a compreensão do ambiente deve ser desde a perspectiva do indivíduo.

A reconstrução do eixo ego-self é um processo que precisa integrar as polaridades dissociadas da experiência do indivíduo, para tanto é necessário um ambiente suficientemente bom, isto é, um temenos capaz prover uma relação saudável  que possibilite o ego confrontar as defesas primitivas e abrir novas possibilidades de experiências.

Referência bibliográfica

KALSCHED,D. Working with Trauma in Analysis, in STEIN, M(org) Jungian Psychoanalysis, Chicago: Open Court, 2010

KALSCHED,D. O Mundo interior do Trauma, São Paulo:Paulus, 2013

Outras referências utilizadas

Astor, J. Michael Fordham: Innovations in Analytical Psychology. London: Routledge. , 1995

Fordham, M., The self and autism. The Library of Analytical Psychology Vol. III. William Heinemann Medical Books, London, 1976  

Fordham, M Explorations into the Self, Library of Analytical Psychology, Volume 7, London: Academic Press, 1985.

Fordham, M  New Developments in Analytic Psychology. London: Routledge & Kegan Paul, 1957

KALSCHED D.  Archetypal Affect, anxiety and defence in patients Who hace suffered early trauma  CASEMENT, ANN (ed.). Post-Jungians Today: Key Papers in Contemporary Analytical Psychology. London & New York: Routledge, 1998.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

Retorno do Blog “Jung no Espirito Santo”

Depois de 3 anos sem atividades, resolvemos retomar as publicações  do Jung no Espirito Santo e inseri-lo de fato como um projeto do CEPAES.

Em 2017, eu e Kelly Tristão iniciamos as atividades do Centro de Psicologia Analítica do ES – com espaços de discussão e o curso de capacitação em psicologia analítica. Outros cursos foram realizados e o blog Jung no Espirito Santo ficou sem espaço. Contudo, com uma história que teve seu início em 2010 e que auxiliou na abertura de caminhos para o CEPAES, não poderia apenas ser abandonado e deletado.

Atualmente, a estrutura virtual do CEPAES  conta com nosso site oficial, nossa fanpage no facebook, perfis no instragram do CEPAES, onde divulgamos a maior parte de nossas atividades e o perfil “Feminilidade Junguiana” que é um projeto incrível de Kelly Tristão, e o podcast “Amplificando Jung” que está no início.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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 “A Bela e a Fera”, “O Barba Azul” e a violência contra a mulher – algumas reflexões

Por Fabrício Moraes 

Os mitos e contos de fadas são uma rica fonte de conhecimento, inspiração e de trabalho para os psicólogos junguianos. Podemos compreendê-los como metáforas de nossa realidade, de nossa condição humana, pois eles espelham os arquétipos e, assim, falam justamente do aspecto universal que nos constituem como espécie.

Assim, os contos de fadas falam de nós, de quem somos tanto em nossa individualidade quanto em nossas relações sociais. Joseph Campbell nos chamava a atenção que os mitos e contos de fadas possuem funções, dentre as quais, está a função pedagógica, ou seja, os mitos e contos de fadas nos ensinam algo fundamental sobre nós mesmos, tão fundamental que foram fixados na cultura na forma de narrativas.

Frequentemente, no meio junguiano, pensamos os contos de fadas a partir de nossos objetos internos, nossas imagens internas como a anima, persona, sombra etc…  Contudo, essa não é a única forma de compreender a relação dos contos de fadas em nosso cotidiano. Pois, os contos fornecem metáforas para compreender de nossas relações sociais, nossa prática clínica, permitindo uma leitura da realidade.

Nesse sentido, gostaria de fazer uma provocação, ampliando a nossa percepção dos, pois, vejo nos contos “A Bela e a Fera” e “O Barba Azul” uma clara narrativa de violência contra a mulher, e gostaria de fazer algumas reflexões sob essa perspectiva. Caso algum leitor não que não se recorde dos contos eu indico a leitura dos contos nos links a seguir: da bela a fera(clicando aqui) e do barba azul (clicando aqui).

A violência contra a mulher não é fenômeno contemporâneo, muito pelo contrário, ao longo de toda história temos incontáveis registros desse tipo de violência.  No Brasil a violência contra a mulher atinge índices ainda mais alarmantes, em 2015 nosso país foi apontado como o quinto país do mundo em violência contra a mulher. O que os contos de fadas poderiam dizer sobre essa realidade?

Primeiro, devemos considerar que esses dois contos possuem similaridades falam de duas jovens que se casaram com homens abusivos, falam da colaboração da família nesse abuso, falam de homens escondem segredos, que usam do poder (um as riquezas e outro força, ameaças) para conseguir o que querem. E, em ambos tem um final feliz, ou pela morte (do barba azul) ou pela transformação da fera.

Devemos notar o modus operandi, onde no conto do Barba Azul a jovem foi enganada, aspirando por um relacionamento seguro, uma vida próspera ela aceita casar com o Barba Azul. No conto da Bela e a Fera, a Bela se vê na necessidade de salvar seu pai e, para tanto, se entrega nas garras da fera.

Acredito ser bem fácil notar a similaridade com nossa realidade. Em nosso dia a dia, é muito comum ouvirmos “mas, ele não era assim” ou “ ele sempre foi atencioso” (tal qual o Barba Azul) e as mentiras utilizadas por esses homens abusivos/agressores tem como efeito principal a culpa e o sentimento de fizeram algo errado, minando a autoestima e aprisionando-as cada vez mais nessa relação perversa. Da mesma forma, é comum vermos como a necessidade (seja ela afetiva ou material) é usada por homens agressores para produzir a dependência material ou emocional como forma de prender as mulheres.

Os contos nos mostram que um dos fatores predominantes nessas agressões é a cumplicidade social. Em ambos os contos, vemos uma complacência da família com os homens abusivos(o Barba Azul e a Fera). Temos em nossa cultura uma conivência com a violência, que se manifestam muito cedo no machismo e sexismo na infância. Ou fator é religião que contribui com a violência, temos igrejas negligenciam saúde e a vida de muitas mulheres em nome de um casamento indissolúvel, onde essas mulheres só podem orar pela “conversão” ou “mudança” de seus maridos.

Assim, esses contos falam de elementos que se repetem no dia a dia com quais nos deparamos cotidianamente seja no consultório, nas igrejas ou nos noticiários. Apesar desses contos apontarem para a possibilidade do “final feliz”, eles não negam os inúmeros “finais infelizes”, que vemos retratados no Barba Azul, na cena onde a jovem esposa abre o quarto proibido,

“Não conseguia enxergar nada, as janelas estavam fechadas. Aos poucos seus olhos foram se acostumando à escuridão e começou a perceber que o assoalho estava todo recoberto por sangue coagulado, e que naquele sangue se refletiam os cadáveres de muitas mulheres mortas, as antigas esposas do Barba Azul, dependuradas ao longo das paredes, degoladas e enfileiradas num espetáculo macabro e aterrador”

Os cadáveres das antigas esposas refletem os inúmeros finais infelizes. Os finais infelizes refletem nossa realidade, refletem nossa cultura que não só cria novos “barbas azuis” e novas “feras”, mas também impõe às muitas mulheres a responsabilidade pelos “finais felizes” suportando os abusos e sofrimentos esperando a transformação desses homens. Essa concepção, presente na Bela e a Fera, reside no ideal romântico de que o “amor tudo vence”, onde a Bela seria recompensada pelo seu sofrimento. Pessoalmente, vejo nisso uma armadilha perversa (digna de um Barba Azul), pois, no geral só tende a produzir culpa nas mulheres e prendê-las ainda mais nesses relacionamentos abusivos.

Voltando aos contos, acredito que precisamos olhar com mais atenção aos modelos de masculinidade apresentada, pois, há uma cumplicidade com a violência seja pelo consentimento claro (como o pai e os irmãos da Bela), ou no Barba Azul, onde temos omissão das figuras masculinas dos irmãos, que só aparecem no último instante, não representam o eros masculino – que cuida, protege, potencializa- mas, o poder da lei o do estado (são soldados, dragões e mosqueteiros).

O desfecho dos contos nos da falam a necessidade de mudança desses modelos de masculinidade que colaboram com a violência, sejam eles ativos engando, matando e ameaçando (barba azul e a Fera) e os passivos (pai, irmãos) que são agentes indiretos da violência. A necessidade de mudança é expressa na morte do barba azul e na transformação da fera em príncipe. Acho perturbador que numa visão clássica essa transformação condicionada à analise pessoal, pois, é insuficiente. Deveríamos voltar nossos olhos para a educação, para os movimentos sociais, para todas as formas que a psique se manifesta buscando a individuação.

Como disse anteriormente, minha proposta é fazer uma provocação. Muitas vezes nos vemos tão envolvidos no mundo dos contos de fadas, mitos e sonhos e não percebemos que eles apontam para nossa realidade social. Acredito que a psicologia junguiana tem muito a contribuir com as questões sociais, com o conhecimento e uso dos contos de fadas para uma educação que valorize a vida, privilegiando o desenvolvimento coletivo.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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