Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista

(2 de Maio de 2011)

Há alguns meses venho gestando este post, pois, a formação de novos psicoterapeutas vem se tornando um tema que tem me feito pensar nos últimos tempos. Muitas vezes, ao falar da formação do psicoterapeuta ou analista, enfatizamos os aspectos necessários a prática e constituição da persona profissional. Contudo, muitas vezes não falamos acerca da sombra que pode envolver esse processo.

O tema da sombra do analista é uma constante em meus pensamentos deste que eu li o livro de Adolf Guggenbühl-Craig, analista junguiano e ex-presidente da IAAP, falecido em 2008, “O Abuso do Poder na Psicoterapia…” no qual o autor discute acerca a sombra dos profissionais que trabalham com “ajuda”.

Não pretendo fazer uma resenha do livro, apenas ressaltar alguns aspectos que me chamam atenção, mas, que certamente servem para indicar a leitura desse importante livro.

Guggenbhül-Craig traça alguns paralelos entre as profissões que visam “ajudar” os indivíduos. Devemos considerar que o oficio ou exercício dessas “profissões de ajuda” emergem de um mesmo solo arquetípico. Para traçar alguns aspectos da sombra do analista, ele, faz um paralelo do analista com o sacerdote, ele afirma que

A sombra do analista se amplia ainda mais devido ao denominador comum existente entre seu oficio e o do sacerdote. Nós analistas, qualquer seja nossa orientação, não defendemos uma fé específica ou uma religião organizada; mas, como o sacerdote, quase sempre recomendamos uma atitude básica frente a vida. Não representamos uma filosofia, mas uma psicologia que abraçamos por convicção, visto que tanto em nossa vida como em nossa própria análise tivemos experiências que nos persuadiram e nos formaram em termos dessa psicologia. O analista junguiano, por exemplo, é alguém que viveu um profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente. Entretanto, poucos insights psicológicos podem ser estatisticamente provados no sentido empírico, só podendo ser confirmados pelo testemunho honesto e sincero dos que se empenham na mesma busca. (…) Sob este aspecto, encontramo-nos em posição similar à do sacerdote. Mas essa extremada confiança na própria experiência pessoal ou alheia, inevitavelmente dá margem a sérias dúvidas. (…) Será que somos capazes de admitir essas dúvidas para nós mesmos e para o resto do mundo? Ou será que nós psicoterapeutas fazemos com nossas próprias dúvidas e medos o que faz o sacerdote, suprimindo-os e pondo uma pedra em cima?

Da mesma forma que o sacerdote, trabalhamos com nossa alma, nosso ser; os métodos, as técnicas e o aparato utilizado são secundários. Nós, nossa honestidade e autenticidade, nosso contato pessoal com o inconsciente e o irracional – são esses nossos instrumentos. É grande a pressão que sofremos para apresentá-los melhores do que são; mas nesse caso, tornamo-nos vitima da sombra do psicoterapeuta(p. 37-38)

O texto de Guggenbuhl-Craig toca num aspecto delicado, que é a perspectiva epistemológica, pois, muitos críticos do pensamento junguiano ou mesmo das práticas analíticas em geral, criticam o fato de a análise não pode ser considerada científica. Não perderei tempo entrando em discussões epistemológicas, afinal, todo e qualquer pessoa que já se submeteu ao processo psicoterapêutico ou mesmo exerce a psicoterapia, tem clareza que há mais envolvido no processo do que puramente o uso de “técnica” científica. A prática da psicoterapia exige muito mais que um conhecimento técnico exige a pessoa do analista por inteiro. Assim como na antiga alquimia, os alquimistas já declaravam que “ars totum requirit hominem” a arte exige o homem inteiro, a psicoterapia faz a mesma exigência.

Os conceitos acerca do inconsciente se baseiam no princípio da experiência imediata com os fenômenos inconscientes, isto é, na descrição metodológica e sistemática dos fenômenos inconscientes. A esse respeito, Jung, em 1938, na conferência acerca da vida simbólica ele afirma “Nossa ciência é fenomenologia. No século XIX a ciência trabalhava na ilusão de que ela podia estabelecer uma verdade. Nenhuma ciência pode estabelecer uma verdade.” (JUNG, 2000, p.) No máximo podemos fazer aproximações ao fenômeno, através de descrições o mais honestas possíveis. Neste ponto, temos o elemento fundamental que une a construção teórica e a prática clínica : honestidade.

A honestidade é fundamental no processo psicoterapêutico. Entretanto, devemos ter clareza que a honestidade, que fundamenta a ética profissional, começa na pessoa do analista ou psicoterapeuta, isto é, a honestidade começa na relação pessoal do analista/terapeuta com ele mesmo. Assim, é fundamental que o analista seja capaz de suportar suas próprias contradições, tensões internas, dúvidas de forma sincera e consciente, pois, se o analista não suportar em si a tensão dos opostos que nos constituem, como ele poderá auxiliar o cliente nessa empreitada?

De forma geral, os psicólogos são exigidos socialmente a uma persona de compreensão, clareza, solicitude, bondade. Sendo exigido, na maioria das vezes, “ser” ou tentar “ser melhor do que se é” ou “se apresentar de modo diferente do que se é”. O que se configura uma enorme armadilha.

Como sempre repetia C.G.Jung, sempre que um conteúdo luminoso se instala na consciência, seu oposto se constela no inconsciente e procura atrapalhar a partir dessa posição estratégica. O médico se torna um charlatão exatamente por querer curar o maior número possível de pessoas; o sacerdote se torna um hipócrita por querer converter as pessoas à verdadeira fé; o psicoterapeuta se torna um charlatão e um falso profeta apesar de trabalhar dia e noite para ampliar sua consciência. (p. 42)

Pode até parecer pessimismo, contudo, o fundamental é compreender que este risco de ser “tomado pela sombra”, está relacionado idealização ou inflação da persona de analista. Isso não significa que o analista não deva buscar seu desenvolvimento, muito pelo contrario. Mas, o desenvolvimento do analista passa necessariamente pelo reconhecimento de suas imperfeições. Conhecer a si mesmo, crescer internamente, significa, sobretudo, viver a própria vida em toda sua extensão.

Pode até parecer bobo ou óbvio, contudo, um fato que se torna um grande peso para os que optam pelo caminho da clínica psicológica é a solidão ou o isolamento. As exigências da vida profissional, podem, pouco a pouco, limitar a vida do profissional e deixa-lo cada vez mais submerso na em sua inconsciência de sua persona profissional.

Talvez o analista se absorva por completo no trabalho com seus pacientes, o que à primeira vista parece ótimo. Sua própria vida privada fica em segundo plano diante dos problemas e dificuldades das pessoas com quem trabalha. Mas isso pode levar a um ponto em que os pacientes, por assim dizer, passam de fato a viver pelo analista, o qual espera que estes preencham o vazio criado por sua perda de contato com o calor e dinamismo da vida. O analista já não tem seus próprios amigos; as amizades e inimizades dos pacientes são como que também suas. Sua vida sexual pode ficar raquítica, encontrando substituto nos problemas sexuais dos pacientes. Tendo escolhido uma profissão tão exigente, vê-se impedido de atingir uma posição política influente; sua energia é investida toda nas lutas politicas pelo poder de um paciente político. Desse modo, pouco a pouco deixa de viver uma vida própria, passando a contentar-se com a de seus pacientes. (p. 64-65)

Os exemplos do “deixar a própria vida” podem se multiplicar, como ignorar os rumos do próprio relacionamento, negligenciar sua própria realidade espiritual, evitar ambientes que possam “encontrar” pacientes dentre outros,a falta da vida real do analista vai gerar a necessidade de compensação no inconsciente, essa compensação é justamente por meio dessa contratransferência, onde, o analista passa a viver a vida dos pacientes. Imerso numa sombra nutrida por sua inconsciência acerca de sua própria persona de analista.

Antes de mais nada, esse tipo de situação é extremamente perigoso para o próprio analista. Seu desenvolvimento psíquico estanca. Mesmo em sua vida não-profissional, ele só poderá falar de seus pacientes e dos problemas que o afligem. Já não será capaz de amar e odiar, de investir a si próprio na vida, de lutar, ganhar ou perder. Sua própria vida afetiva torna-se um substituto. Agindo assim como um charlatão que sobrevive às custas de sues pacientes, o analista pode dar a impressão momentânea de estar florescendo psiquicamente. Mas, na verdade, estar perdendo a vitalidade e a originalidade criativa. (p. 65).

O esvaziamento da própria vida faz com que o profissional se esconda atrás da teoria. Racionalizando e teorizando a própria existência. De qualquer modo, se torna prejudicial ao cliente na medida que, inconscientemente, precisa dele, tornando-se incapaz de investir verdadeiramente no desenvolvimento do paciente. Sua ajuda será sempre insuficiente na medida em que não conseguir integralmente conceber o processo de desenvolvimento do cliente. Simplesmente, porque ele precisa do paciente. Nesse processo, consciente ou inconscientemente, pode reter o paciente em terapia por uma necessidade pessoal – que não podemos reduzir a necessidade financeira.

Nesse caso, o analista identificado com sua persona, onde ele equivocadamente se coloca no papel de “agente da saúde” ou da “cura”, irradiando uma “autoridade” e perfeição, que só pode ressaltar no paciente os aspectos mais frágeis de dependentes da personalidade do mesmo.

Mas, isso seria uma condenação? O exercício da psicoterapia seria destinado a essa experiência? Não. Em primeiro lugar, é importante frisar que o que foi dito aqui, não é uma regra, apenas, uma possibilidade que pode se colocar no caminho do psicoterapeuta. Devemos ter clareza que na posição de psicoterapeutas, somos nosso próprio instrumento. A totalidade de nosso ser é nosso instrumento.

Em muitos casos, o analista ainda é capaz de apreciar e sofrer devido ao dinamismo de sua própria vida chega a sentir a consciência pesada, achando que deveria interessar-se mais por seus pacientes. Mas, na verdade, a longo prazo, somente o analista apaixonadamente envolvido em sua própria vida poderá ajudar seus pacientes a encontrarem seu caminho. Nesse sentido é bastante verdade, como diz Jung, que o analista só pode dar a seus pacientes aquilo que possui. (p. 66)

Seria importante que cada estudante que se proponha ser “analista”, “psicoterapeuta” ou “psicólogo clínico”, compreenda que no processo de formação o estudo sistemático e a psicoterapia/analise individual, não pode estar dissociado com o dia a dia, com a vida vivida. Não se deve ver a análise ou o estudo como “burocracias” necessárias, mas, como elementos importantes para o desenvolvimento individual. Pois, como dizia Jung,”somente o que realmente somos tem o poder de curar-nos”, ao que eu acrescentaria, e de nos ajudar no processo de cura nossos clientes.

Referências bibliográficas

Guggenbuhl-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, Sacerdócio e Magistério. RJ, Achiamé, 1978.

JUNG, C.G. Vida Simbólica, Vozes, Petrópolis, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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