Algumas Considerações Acerca do livro “Carl Gustav Jung: Uma Biografia” de Frank McLynn

02 de fevereiro de 2011

(pequena revisão realizada em 06/01/2012)

Em 1998 a Editora Record publicou no Brasil o livro “Carl Gustav Jung – uma biografia” de Frank McLynn.  Essa biografia chamou muita atenção por apresentar supostas “revelações” acerca de Jung. Que no geral, eram críticas e afirmações tendenciosas acerca de Jung e sua teoria.

Meu primeiro contato com o livro de McLynn foi em 2002, quando ainda era estudante na UFES e fazia parte do grupo de estudos em psicologia junguiana  com a profa. Dra. Kathy Amorim Marcondes(que hoje é uma querida amiga), que havia ficado responsável por uma parte do estudo acerca da biografia de Jung, que ela me indicou o livro, mas me advertiu dizendo que o livro tinha muitas informações interessantes, mas, oclip_image002 autor era horrível, maldoso.

Passaram alguns anos, e acredito que a consideração feita pela Dra. Kathy Marcondes continua muito pertinente na avaliação do livro, ele possui muitas informações interessantes, mas, o autor faz  inúmeros juízos de valor, com o claro objetivo de denegrir a imagem de Jung.

Essas duas características são interessantes pois, torna o livro um sucesso de vendas (que realmente foi), uma vez que muitas das informações contidas são realmente interessantes aos junguianos, por outro lado, as acusações, juízos de valor,  difamações agradam aos que se opõem ao pensamento junguiano. McLynn consegue a proeza de vender seus livros a “gregos e troianos”.

Uma das resenhas que ainda se encontram na internet possui o titulo de “BIOGRAFIA REVÊ CONTRADIÇÕES DE JUNG” do jornalista Carlos Haag, publicado em 1998 no jornal O Estado de São Paulo. A resenha de Haag torna explicita a principal característica do trabalho de Mclynn, um sem fim de acusações a Jung. o dois parágrafos se seu texto nos dá uma boa idéia do perfil do livro,

Freud não explica, mas agradece. Carl Gustav Jung (Record, 641 págs., R$ 50,00), biografia de Frank McLynn, faz um novo retrato – nada agradável – do profeta do inconsciente, por anos visto como pobre vítima do dogmatismo freudiano. “Ele era um homem egoísta que se interessava apenas em sua salvação, atacando Freud porque o via como rival à sua ambição de fundar o próprio movimento psicanalítico”, revela o autor. Não é só. O místico e sonhador Jung também era um tirano que se casou por dinheiro, obrigou a mulher a suportar seus inúmeros casos (e envolveu-a num ménage-à-trois), seduziu pacientes, brigou com todos os amigos, glorificou o nazismo e odiava negros, índios e judeus.

(…)

“Esse, no entanto, não é o caso, pois não há evidências científicas em suas teorizações que devem ser aceitas apenas como sistema metafísico, ainda que ele desejasse o oposto disso, sempre em busca de reconhecimento por parte de instituições que considerava dignas de respeito”, avalia McLynn.  (HAAG, 1998.)

Vamos pensar em algumas dessas afirmações, que são emblemáticas e nos permitem ter alguma idéia acerca do livro.

Ele era um homem egoísta que se interessava apenas em sua salvação, atacando Freud porque o via como rival à sua ambição de fundar o próprio movimento psicanalítico”, revela o autor

Essa afirmação é bem interessante. Especialmente quando se contrasta com o movimento junguiano. Pois, Jung rompeu com Freud e com a psicanálise definitivamente em 1914, contudo, ele não deu inicio a um instituto nem uma sociedade profissional com intuito de expandir a psicologia analítica. Deve-se notar, que em 1916, Jung iniciou o “Clube de Psicologia de Zurique”, que não tinha um objetivo de formação, mas, propiciar uma referencia social aos interessados em aprender a psicologia de Jung, isso considerando que muitos eram estrangeiros e tinham dificuldades em relação ao idioma(que era no geral, um dialeto do alemão) e a cultura local.

Nesse clube, Jung fez vários seminários no geral direcionados a poucas pessoas, mais próximas. Esse foi um motivo porque a psicologia analítica não se difundiu tanto como a psicanálise. Afinal, ao contrario do que é dito por McLynn, se Jung fosse tão ávido por fundar um movimento psicanalítico próprio, porque ficou restrito a um pequeno grupo? Deve-se notar que na década de 1930, Jung foi eleito vice-presidente, e posteriormente, assumiu a presidência da Sociedade Internacional Médica de Psicoterapia, porque ele não usou da  Sociedade para expandir seu movimento?  Ou porque somente em 1948 surgiu o primeiro instituto de formação em psicologia analítica 34 anos depois do rompimento de Jung com Freud?

Um outro dado deve ser considerado, como nos conta Maggy Anthony,

(…) em 1946, a Dra Jacobi, extrovertida oficial junguiana, havia pressionado o Dr. Jung a dar inicio a um instituto. Jung ficara horrorizado com a idéia. A Dra. Jacobi sabia que, de qualquer maneira, após a morte de Jung, tal instituto iria acabar se tornando realidade. Argumentou com ele que, se esperassem demais, ele não poderia exercer sua influencia para construí-lo de acordo com as linhas que considerasse apropriadas.

Assim Jung capitulou. (ANTHONY, 1998 p. 41)

Me parece que se fosse verdadeira essa afirmação a psicologia analítica seria muito mais difundida do que é hoje.

Outra afirmação que merece atenção,

“Jung também era um tirano que se casou por dinheiro”

Essa afirmação é outra complicada. Afinal, qual é a referencia que é usada para ser “tirano”? Não podemos perder de vista, em primeiro lugar, que Jung nasceu no ultimo quarto do século XIX, em 1875.  Domesmo modo, falar que ele casou por dinheiro, é uma afirmação que, em primeiro lugar,  não se pode comprovar efetivamente, em segundo lugar parte do preconceito que todo e qualquer homem que se casasse com uma mulher rica se casaria por interesse. Deve-se notar, que se esquece que Emma era uma jovem muito bonita e com uma formação refinada em colégio interno na França. Afirmar, que Jung se casou apenas por dinheiro, é desmerecer Emma.               

obrigou a mulher a suportar seus inúmeros casos (e envolveu-a num ménage-à-trois),

Acerca da afirmação dos “inúmeros casos” de Jung, tudo indica verdade, entretanto, quando se observa que na cultura machista e patriarcal no final do século XIX e inicio do XX. Por mais censurável que seja em nossos dias essa atitude, naquela época era uma prática tolerável e comum. O que é realmente condenável (seja em nossos dias quanto nos dias de Jung) era seu triangulo com Emma e Toni Wolff.

Mas, e preciso esclarecer esse termo “ménage-a-trois” utilizado pelo autor. Em seu sentido original, indicava uma casa que era habitado por três pessoas, posteriormente, o termo passou a ser usado (e compreendido) como uma relação sexual à três pessoas. O problema do uso desse termo é que para muitos parece que Jung obrigou a Emma a dividir a cama com Toni. De fato, Jung obrigou Emma a conviver seja na própria casa ou socialmente com Toni.

O que causava espanto não era o fato de Jung ter uma amante, mas, fazer com que ela convivesse com sua esposa.

glorificou o nazismo e odiava negros, índios e judeus.

Essa sem dúvida é a afirmação mais equivocada e absurda. Em primeiro lugar, Jung foi um  crítico de Hitler e do Nazismo, inclusive, em biografia posterior ao do McLynn, a escrita pro Deirdre Bair, afirma-se que Jung foi colaborador dos Aliados, contra o eixo.

(…)Jung passou a ser o “Agente 488” nos relatórios de Dulles para os oficiais em Washington e Londres, e os despachos do 488 eram considerados fatos e apareciam com destaque nas políticas operacionais dos agentes. O que realmente “fisgou” Dulles para consultar Jung sobre outros assuntos, além da situação da Alemanha, foi a análise que fez da política da suiça.(…) Dulles investigou as afirmações de Jung de como a impressa suíça limitava e de algum modo controlava as ações pró-nazista de Pilet-Golaz, e verificou o quanto de verdade havia na análise. (BAIR, 2006, p.179)

Devemos lembrar também, que apesar de alguns erros administrativos na direção da Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia(SMIP), Jung primou sua administração para livrar a sociedade da influencia nazista. A SMIP, tinha sede em Berlim. Assim, eram muitas as pressões para a sociedade apoiar o partido nazista. Ao assumir a direção, em 1933, um dos primeiros atos de Jung foi dar autonomia aos países membros, de modo, a garantir que os membros judeus da sociedade, em países ocupados ou nos demais, tivessem seus direitos garantidos.

Sobre os índios e negros, afirmar que ele os “odiava” é estranho, até porque as teorias de Jung afirmam justamente que independente da cultura, etnia ou cor da pela, todos nós possuímos a mesma matriz de organização psíquica! Somos todos igualmente humanos. Jung poderia ser acusado de xenofobia? talvez sim. Afinal, ele era europeu, nascido no final do século XIX. Mas, não ao ponto de odiar quem quer que seja. Seria estranho também, também, se Jung odiasse os índios ele não citaria bom contato que teve com com Antonio Mirabal, também conhecido Ochwiay Biano ou Lago da Montanha.Nem teria se empenhado para aprender os fundamentos de suaíli para tentar se comunicar diretamente com os negros na África.

O que me parece forte nas críticas atribuídas a Jung, é justamente reflexo do choque cultural, devemos lembrar que na América, por exemplo, Jung era estrangeiro lá, ou seja, sua cultura suiça (e seus traços introvertidos) em alguns momentos entravam em choque com a cultura americana dos norte americanos brancos, assim como com os nativos norte americanos. O mesmo pode dizer na África. Mas, afirmar que “Jung odiava negros e índios” me parece fora de sentido.

Sobre as afirmações de “anti-semitismo”,ou odiar judeus, não podemos esquecer que essa afirmação era feita por Freud e perpetuada por freudianos durante muito tempo. Essa afirmação, resquício do rompimento de Freud com Jung é totalmente absurda, pois, afinal, se ele fosse anti semita, porque ele teria aceitado em seu circulo de amigos e discípulos judeus, como Erich Neumann, Jolande Jacobi, assim como o editor de suas obras completas Gerard Adler. Devemos lembrar, que com a fundação do instituto C.G.Jung de Zurique, Jung impôs o nome de Jolande Jacobi na diretoria, mesmo muitos sendo contrários a “indicação”.

Esse, no entanto, não é o caso, pois não há evidências científicas em suas teorizações que devem ser aceitas apenas como sistema metafísico, ainda que ele desejasse o oposto disso, sempre em busca de reconhecimento por parte de instituições que considerava dignas de respeito”diz McLynn,

O que mais me chamou atenção nessa ultima afirmação é o fato que McLynn é jornalista e biógrafo. Que conhecimento efetivo da prática da psicoterapia ele possui para julgar a teoria de Jung? Estaria ele correto e todos os profissionais(psicólogos e médicos) que trabalham com a psicologia analítica e clientes que se viram beneficiados pela teoria e métodos junguianos, desde os tempos de Jung,  errados?

Por outro lado, é negativo que um profissional busque reconhecimento? Diga-se de passagem, em 1936 Jung recebeu o titulo de doutor in honoris causa  pela universidade de Harvard, e em 1938 recebeu o mesmo reconhecimento pela universidade Oxford. Caso Jung e sua teoria fossem tão equivocadas ou condenáveis, tais instituições não lhe dariam tal reconhecimento.

Como eu disse no inicio, o livro possui muitas informações interessantes, contudo, deve-se fazer uma leitura atenta para os “excessos” de Mclynn, que em alguns momentos parece que ele está escrevendo para algum jornal ou tablóide sensacionalista tão comuns na Inglaterra(sua terra natal), que adoram denegrir a imagem das celebridades.

Na minha opinião, caso alguém queira estudar a biografia de Jung, eu indico como o melhor biografia que eu já li,os dois volumes do “Jung: uma biografia” de Deirdre Bair. Isto além, do Memórias, sonhos e reflexões, é claro!

Referencias Bibliográficas

ANTHONY, Maggy.  As mulheres na vida de Jung.  Rio de Janeiro : Rosa dos Tempos, 1998. 

BAIR, Deirdre, JUNG – Uma biografia V. 2; São Paulo: Ed. Globo, 2006.

HAAG, Carlos “BIOGRAFIA REVÊ CONTRADIÇÕES DE JUNG”no site Pensar, disponível em : http://reocities.com/Athens/acropolis/6634/jung.htm. Acessado em 27 de janeiro de 2011. 1998.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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A Psicologia Analítica de C. G. Jung

A Psicologia Analítica de C. G. Jung[1]

A Psicologia Analítica é uma das mais antigas escolas de psicologia contemporânea. Surgindo da interação e divergência do trabalho de Carl Gustav Jung com a psicanálise de Sigmund Freud.

Jung utilizou a expressão “Psicologia Analítica” primeira vez em 1913, no “IV Congresso Internacional de Psicanálise”, em Viena, explicitando que sua forma de compreender tanto a dinâmica psíquica quanto pratica psicoterápica eram diferentes da psicanálise que Freud propunha. Este evento marcou o fim definitivo das relações de Jung com Freud.

Com a separação da psicanálise, Jung conciliou a sua prática clínica com seus estudos em diversas áreas[3] do conhecimento, fornecendo a Psicologia Analítica uma variada fonte de referenciais e fundamentações que fizeram da mesma uma teoria interdisciplinar em sua essência.

2.1 – Uma breve introdução biográfica

“Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver”

(JUNG, 1989, p.324)

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho 1875 em Kesswill, uma pobre vila de pescadores no cantão da Thurgau, na Suíça. Sua família possuía poucas condições financeiras, pois seu pai era um pastor de um pequeno presbitério na zona rural, sua infância foi marcada pela religião e por discussões teológicas, pois além de pai, sete tios e o avô paterno eram pastores.

Apesar da pobreza financeira, Jung cresceu num ambiente intelectualmente rico, pois seu pai era doutor em filologia e possuía uma biblioteca relativamente rica, onde o jovem Jung passava longas horas. Devemos notar que, já no século XIX, a Suíça tinha um sistema educacional[4] exemplar, no ensino secundário, Jung aprendeu grego, latim, inglês, elementos de álgebra, trigonometria e cálculo e história da civilização. No período de adolescência, Jung se tornou um leitor voraz, se aproximando de Platão, Aristóteles, Kant e Schopenhauer.

Em 1895, aos 20 anos, ingressou na faculdade de medicina da Universidade da Basiléia. Jung demonstrava o maior interesse em “teoria evolucionária” e anatomia comparada, aos domingos dedicava-se ao estudo de Kant, von Hartmann e Nietzsche. Ingressou na Fraternidade Estudantil Zofingia, onde participava de debates e pronunciava conferências no campo da filosofia e teologia. “[…] As conferências pronunciadas em Zofingia revelaram sua fascinação pela filosofia não partilhada por outros psicanalistas eminentes, Freud em especial.” (McLYNN, 2002, p. 59).

Logo ao se formar em 1900, Jung foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico Burghözli, sob a orientação de Eugen Bleuler. No Burghözli, Jung desenvolveu pesquisas sobre a, então chamada, dementia praecox, e pesquisas sobre associações de palavras que culminaram na teoria dos complexos de tonalidade afetiva em 1904. Seus estudos sobre complexos o aproximaram dos trabalhos de Freud, pois Jung encontrou elementos que corroboravam a teoria de Freud sobre a repressão, deslocamento, simbolismo e amnésia sistemática.

Jung reconhecia as descobertas de Freud no campo das neuroses, embora não concordasse totalmente com o fato de ser sexual o pano de fundo das neuroses. A característica afetiva ou emocional dos complexos estava mais relacionada a uma “energia” psíquica, que não se podia afirmar ser sexual. Essa concepção nunca se perdeu em Jung, embora somente 1912 ela foi claramente retomada.

Com base em seus próprios estudos, Jung passou a militar junto a Freud. Em 1906  iniciou a troca de correspondência, culminando no encontro em 1907, que durou cerca de 13 horas, dando inicio a uma amizade que duraria, oficialmente, sete anos.

O rompimento entre Jung e Freud foi lento e gradativo.  Em suas Memórias (1975) Jung afirma que o afastamento com Freud se iniciou em 1909, quando viajaram para os Estados Unidos para as comemorações do ducentésimo aniversário da Universidade Clark, e se tornou definitivo em 1912 com a publicação do artigo Metamorfoses e símbolos da libido[5].  Nos dois anos que se seguiram Jung e Freud já não tinham um relacionamento amistoso, em 1914, Jung se demitiu da presidência da IPA (Associação Internacional de Psicanálise), qual foi presidente desde sua fundação em 1910.

A publicação de Símbolos da Transformação, que foi apenas a ponta do iceberg das divergências entre Jung e Freud, que já se acirravam há algum tempo.  Foram vários os fatores que levaram a esta separação, tanto de ordem pessoal quanto teórica. Dos fatores de ordem teórica, como já citamos, estava a teoria da sexualidade, que Jung aceitava somente em parte. Isto era patente desde a publicação da “Psicologia da Dementia Praecox” de 1906, no qual Jung afirmou no prefácio:

[…]Se admito, por exemplo, os mecanismos complexos dos sonhos e da histeria, não significa, de forma alguma, que atribuo ao trauma sexual da juventude uma significação exclusiva, como Freud parece fazer; muito menos que eu coloque a sexualidade em primeiro plano, acima de tudo, ou lhe confira universalidade psicológica que, como parece, é postulada por Freud, pela impressão do papel poderoso que a sexualidade desempenha na psique. (JUNG, C.G. 1999b, p.2).

Anteriormente em 1909, nas comemorações do aniversário da Universidade Clark, ao ser questionado sobre as experiências infantis e seus efeitos na determinação da Personalidade Jung como resposta apontou o modelo de educação dos pais como um determinante da personalidade, não fazendo qualquer menção às teorias freudianas (MULLHAHY, 1978). Antes do rompimento definitivo, foram vários os momentos em que Jung ou se omitiu ou se posicionou contrário ao pensamento freudiano.  Outro ponto que gerava e discordâncias eram os resíduos arcaicos.

A expressão “resíduos arcaicos” foi cunhada por Freud para expressar as “[…] formas psíquicas cuja existência não pode ser explicada pela experiência pessoal, e que representam formas primitivas, inatas e herdadas pela mente humana” (JUNG, 2000a, p.229), que podem ser encontrados em sonhos e delírios de pacientes psicóticos. Esses resíduos despertavam o interesse de Jung, que sempre fora interessando por história, arqueologia e teologia, que via uma clara relação entre esses resíduos comuns da história humana com o cotidiano tanto de pacientes psicóticos quanto neuróticos. Freud, ao contrário, evitava discussões que iam além de suas postulações.

Concomitante com seus estudos os resíduos arcaicos, Jung tornava pública sua forte discordância de sobre a natureza sexual da libido, que foi expressa no livro “Símbolos da Transformação” , de 1912. Nesse livro, Jung fez a análise de alguns poemas de “Miss Miller”, uma jovem americana que após uma viagem à Europa em 1898 desenvolveu uma “perturbação esquizofrênica”[6] Nessa análise Jung demonstrou a intima relação das fantasias que antecederam o surto esquizofrênico com os chamados “resíduos arcaicos”, e por consequência, com a esfera psíquica inconsciente que apresentava um caráter mitológico.

Na segunda parte Jung se dedicou à discussão do conceito de libido de Freud, questionando claramente sua origem sexual e seu papel nas neuroses.  Afirmava que a “[…] libido era um apetitus em seu estado natural. Filogeneticamente são as necessidades físicas como fome, sede, sono sexualidade, e os estados emocionais, os afetos que constituem a natureza da libido” (JUNG, 1999a, p.123). Jung já expunha suas novas concepções sobre a natureza da libido em palestras, como nos EUA, em setembro de 1912, voltando a fazê-las em março 1913.

Nessas viagens aos EUA, Jung visitou hospitais psiquiátricos com o intuito de estudar os delírios e sonhos de pacientes negros. Constatou que não havia diferenças entre os delírios de negros esquizofrênicos e brancos (McLYNN, 2003). Essa constatação foi especialmente importante em sua postulação de um inconsciente que fosse coletivo, comum a toda a humanidade.

Jung reunia dados que cada vez o afastavam mais de Freud. Os resíduos arcaicos, presentes nos delírios tanto de negros e brancos esquizofrênicos quanto de pacientes neuróticos, tinham um caráter mitológico e que pouco se relacionava aos impulsos sexuais. Com o livro “Símbolos da Transformação” Jung inicia seu caminho próprio, como ele mesmo diz no prefácio à quarta edição.

Assim, este livro se tornou um marco, colocado no lugar onde dois caminhos se separam. Por sua imperfeição e suas falhas, ele se transformou no programa dos próximos decênios de minha vida. (…) Este livro foi escrito em 1911, quando eu contava trinta e seis anos de idade. Esta é uma época crítica, pois representa o inicio da segunda metade da vida de um homem, quanto não raro ocorre uma metanóia,uma retomada de posição nada vida. Eu bem sabia, na ocasião, do inevitável  rompimento com Freud, tanto no trabalho como na amizade (JUNG, 1999a, p. XIV–XVII).

Apesar de duas tentativas frustradas de reencontro por parte de Jung no ano 1938, nunca mais eles se encontraram.  A ruptura com a psicanálise e com Freud foi um choque para Jung.

Depois da ruptura com ele, todos meus amigos e conhecidos se afastaram de mim. Meu livro não foi considerado uma obra séria. Passei por místico e desse modo encerraram o assunto. Riklin e Maeder foram os únicos que ficaram a meu lado. Mas eu tinha previsto a solidão e não me iludi acerca das reações dos pretensos amigos. Muito pelo contrário, refleti profundamente sobre o assunto. Sabia que o essencial estava em jogo e que deveria tomar a peito minhas convicções. Vi que o capítulo “O Sacrifício” representava o meu sacrifício. Isso posto, pude recomeçar a escrever, se bem que soubesse de antemão que ninguém compreenderia minhas idéias (JUNG,1975, p.150).

Jung considerou que a repercussão foi negativa, isto porque, frente a clara dissidência de Jung, um grupo de psicanalistas de diferentes nacionalidades fiéis e próximos a Freud criou um comitê para defender a ortodoxia e refutar quaisquer distanciamentos da obra de Freud. Coube a Sándor Ferenczi  criticar ou refutar o trabalho de Jung. Dessa forma, com essa critica negativa e inúmeros ataques aos seus trabalhos, foi inevitável desligamento de Jung das instituições psicanalíticas e o rompimento da amizade com Freud que o levaram a um período de forte instabilidade pessoal. Contudo, Essa crise foi o crucial para o desenvolvimento pessoal e teórico, podemos dizer que Jung foi queimado pelo fogo com o qual trabalhava. Como mais tarde ele escreveria na introdução de seu livro “Psicologia e Alquimia”: “[…] Ninguém mexe como fogo ou veneno sem ser atingido em algum ponto vulnerável; assim, o verdadeiro médico não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo” (JUNG, 1994, p.19).

O confronto de Jung com sua própria vida e história, durou cerca de quatro anos, os mesmos da Primeira Guerra Mundial, esse período de relativo isolamento Jung lançou os fundamentos de seus principais conceitos e técnicas, sobre os quais Jung passaria próximas décadas de sua vida desenvolvendo[7].

O livro “Tipos psicológicos” de 1921 marcou o fim do seu período de reclusão. Neste livro, Jung expôs sua compreensão sobre a dinâmica da consciência e apresentou sua perspectiva epistemológica, propondo que a relação do indivíduo com o mundo, isto é, a forma como um sujeito perceberia o mundo dependeria de cercas características do próprio sujeito, que poderiam ser expressas por seu tipo psicológico.

Em outras palavras, seria o mesmo que afirmar que um grupo de observadores poderia registrar o mesmo fenômeno e os registros serem incompatíveis, sem que isso significasse um erro, pois cada um observou fenômeno sob o aspecto que lhe é peculiar. Dessa forma, não haveria a verdade ou a verdade verdadeira, mas sim verdades.

A postura epistemológica apresentada por Jung, inicialmente nos tipos psicológicos e desenvolvida ao longo de sua obra, era incompatível com o modelo de ciência vigente na comunidade científica, isto contribuiu com o preconceito de que Jung não era cientificamente sério ou adequado. Somente nas ultimas décadas do século XX, com o desenvolvimento do paradigma da pós-modernidade é que percebemos que Jung a frente de seu tempo, vislumbrando elementos próprios da pós-modernidade.

Durante a década de 20, Jung se lançou ao mundo através de grandes viagens, indo a África mulçumana, a África negra onde pode ver povos pré-letrados e pré-industriais, e posteriormente foi aos Estados Unidos para conhecer os índios pueblo. Nessas viagens Jung pode por avaliar suas formulações teóricas e por meio da experiência direta com esses povos.

No final dos anos 20, Jung conheceu Richard Wilhelm, que era um importante sinólogo, que traduziu obras chinesas importantes, como o I Ching, o Tao Te King e o “O Segredo da Flor de Ouro”. Este último foi enviado a Jung para este fizesse um prefácio psicológico sobre este que era um livro da alquimia taoísta. As relações entre a alquimia e o inconsciente não eram novidade, pois, já haviam sido discutidas pelo o psicanalista Hebert Silberer. Entretanto, os símbolos presentes no livro O segredo da Flor de Ouro impressionou Jung, levando-o a se interessar pela alquimia ocidental. Marcando os desenvolvimentos futuros da psicologia junguiana.

Nos anos 30, Jung iniciou uma criativa amizade com o físico Wolfgang Pauli, que viria a ganhar o Prêmio Nobel de física em 1945. Esta amizade[8] aproximou Jung da física quântica, e contribuindo para que Jung se adequasse ao paradigma científico que surgia com a física quântica.

Com a ascensão de nazismo na Alemanha, em 1933, Jung, então vice-presidente da Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia, cuja sede era na Alemanha, se viu na obrigação de assumir a presidência a pedido então presidente Ernst Kretschmer, que renunciou o cargo por temer o avanço do nazismo, uma vez que era judeu. A aceitação do cargo, fez com que surgissem boatos de que Jung fosse simpatizante do nazismo por assumir a sociedade, esses boatos alimentados por incidentes na administração da sociedade e pelo fato dele ter rompido com Freud. As acusações de anti-semitismo não cessariam mesmo depois de sua morte.

Deve notar dois pontos importantes geralmente negligenciados pelos acusadores, o primeiro é a estrutura da teoria junguiana que afirma que todos os indivíduos são iguais em sua matriz psíquica – tanto que em 1940, a obra de Jung foi proibida e queimada pelos nazistas nos países ocupados; e o fato de Jung ter entre seus colaboradores mais proeminentes judeus, como Erich Neumann, Jolande Jacobi e o editor de suas obras Gérard Adler.

Durante os anos 40, apesar de ter sido um período com a saúde debilitada, Jung produziu importantes trabalhos discutindo a dos símbolos tanto na religião quanto na alquimia. Com desenvolvimento da Psicologia Analítica foi fundado em 1948 o “Instituto C.G.Jung de Zurique”, a primeira instituição de formação de analistas junguianos.

Os anos 50 foram os anos do crepúsculo de Jung. Com a saúde debilitada Jung participava cada vez menos de atividades públicas. Em 1955, nas comemorações do 80º aniversário de Jung, foi fundada a “Associação Internacional de Psicologia Analítica”. Nesse mesmo ano, Emma Jung, sua esposa, morreu de câncer – um golpe que afetou o profundamente.

No final dos anos 50, os editores das obras de completas, apresentaram uma proposta para que Jung escrevesse uma autobiografia. Após um período de recusa, Jung aceitou “colaborar” com uma biografia, desde que fosse escrita por sua secretária, a Aniela Jaffé. A biografia foi composta parte por memórias escritas de Jung e parte por compilação feita por Aniela Jaffé a partir de entrevistas feitas por Jung. Como Jung não considerava que este era um livro seu, assim o “Memórias Sonhos e Reflexões”, publicado postumamente, não faz parte das Obras Completas.

Nesse mesmo período, Jung cedeu entrevistas importantes uma para a BBC de Londres e outra para o projeto do Dr. Richard Evans da Universidade de Houston, EUA, que foram chamadas de “Os filmes de Houston”.  A partir da repercussão da entrevista para a BBC, realizada por John Freeman, surgiu a proposta de que Jung escrevesse um livro acessível ao público leigo.   Após recusar a primeira proposta de escrever um livro para leigos, Jung teve um sonho onde ele estava num local público e falava para uma multidão de pessoas que com muita atenção o ouviam e compreendiam o que ele dizia. Após esse sonho Jung compreendeu que era necessário escrever esse livro e  aceitou a tarefa de produzir um livro para o amplo público, mas, em virtude de sua saúde e idade, estipulou que este deveria ser um trabalho coletivo, para o qual Jung convidou alguns seus principais colaboradores Dra. Marie-Louise Von Franz, Dr. Joseph Henderson, Dra. Jolande Jacobi e Sra. Aniela Jaffé.

Apesar de ter planejado o livro, supervisionado e dirigido o trabalho de seus colaboradores, Jung, não chegou a ver concluso seu último trabalho, pois veio a falecer 10 dias após terminar sua parte, em 6 junho de 1961,  Seus colaboradores concluíram este que veio a ser o último trabalho de Jung e uma das principais introduções à Psicologia Analítica.

Referencias bibliográficas

BAIR, Deirdre, JUNG – Uma biografia V. 1; São Paulo: Ed. Globo, 2006a.

BAIR, Deirdre, JUNG – Uma biografia V. 2; São Paulo: Ed. Globo, 2006b.

______________. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

McLYNN, Frank. Carl Gustav Jung – Uma biografia, Rio de Janeiro: Record: 2 ed., 2002.

______________. Psicogênese das doenças mentais. Petrópolis: Vozes, 3. ed. 1999b.

MULLHAHY, Patrick. Édipo: Mito e Complexo – Uma crítica a teoria psicanalítica. 4 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

______________. A Vida Simbólica v.1.  Petrópolis: Vozes, 2ed. 2000a.

________________. Estudos Experimentais, Vozes, Petrópolis,  1991a.

______________. Símbolos da Transformação. Petrópolis: Vozes, 3. ed.  1999a.

______________. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 3. ed.  1994.

[1] Este artigo corresponde ao segundo capitulo da Monografia “O Lugar da Persona” , apresentado como Monografia apresentada ao Programa de Pós-Graduação — Especialização lato sensu em “Teoria e Prática Junguiana” da Universidade Veiga de Almeida .

[2] Fabricio Fonseca Moraes é psicólogo clínico (CRP 16/ 1257), com orientação junguiana, especialista em “Psicologia Clínica e da Família” e especialista em “Teoria e Prática Junguiana”, com formação em Hipnose Ericksoniana.Contato: fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com

[3] Como a filosofia, artes, alquimia, física quântica, história das religiões, teologia, mitologia, arqueologia.

[4] Foram utilizados referencias biográficas McLYNN, 2002; BAIR, 2006a ; BAIR, 2006b; JUNG, 1975.

[5] Em 1952, Jung alterou o título de Metamorfoses e Símbolos da Libido para Símbolos da Transformação,  a partir de agora utilizaremos o título atual.

[6] Jung não teve contato com a paciente, mas apenas com os escritos e comentários publicados em 1906 por Flournoy, que também era amigo de Jung. Contudo, em 1918 Jung teve contato com um psiquiatra americano que tratou Miss Miller, este afirmando que Jung teve uma percepção exata da “mentalidade” da paciente.

[7] Em 1916 Jung escreveu dois artigos “A Estrutura do Inconsciente”(cf. JUNG, 2001b) e  a “A função Transcendente” (cf. JUNG, 2000b), podemos dizer que nesses artigos estão os projetos de desenvolvimento de toda a Psicologia Analítica de Jung.

[8] Que durou até a morte de Pauli em 1958.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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