Algumas Considerações Acerca do livro “Carl Gustav Jung: Uma Biografia” de Frank McLynn

02 de fevereiro de 2011

(pequena revisão realizada em 06/01/2012)

Em 1998 a Editora Record publicou no Brasil o livro “Carl Gustav Jung – uma biografia” de Frank McLynn.  Essa biografia chamou muita atenção por apresentar supostas “revelações” acerca de Jung. Que no geral, eram críticas e afirmações tendenciosas acerca de Jung e sua teoria.

Meu primeiro contato com o livro de McLynn foi em 2002, quando ainda era estudante na UFES e fazia parte do grupo de estudos em psicologia junguiana  com a profa. Dra. Kathy Amorim Marcondes(que hoje é uma querida amiga), que havia ficado responsável por uma parte do estudo acerca da biografia de Jung, que ela me indicou o livro, mas me advertiu dizendo que o livro tinha muitas informações interessantes, mas, oclip_image002 autor era horrível, maldoso.

Passaram alguns anos, e acredito que a consideração feita pela Dra. Kathy Marcondes continua muito pertinente na avaliação do livro, ele possui muitas informações interessantes, mas, o autor faz  inúmeros juízos de valor, com o claro objetivo de denegrir a imagem de Jung.

Essas duas características são interessantes pois, torna o livro um sucesso de vendas (que realmente foi), uma vez que muitas das informações contidas são realmente interessantes aos junguianos, por outro lado, as acusações, juízos de valor,  difamações agradam aos que se opõem ao pensamento junguiano. McLynn consegue a proeza de vender seus livros a “gregos e troianos”.

Uma das resenhas que ainda se encontram na internet possui o titulo de “BIOGRAFIA REVÊ CONTRADIÇÕES DE JUNG” do jornalista Carlos Haag, publicado em 1998 no jornal O Estado de São Paulo. A resenha de Haag torna explicita a principal característica do trabalho de Mclynn, um sem fim de acusações a Jung. o dois parágrafos se seu texto nos dá uma boa idéia do perfil do livro,

Freud não explica, mas agradece. Carl Gustav Jung (Record, 641 págs., R$ 50,00), biografia de Frank McLynn, faz um novo retrato – nada agradável – do profeta do inconsciente, por anos visto como pobre vítima do dogmatismo freudiano. “Ele era um homem egoísta que se interessava apenas em sua salvação, atacando Freud porque o via como rival à sua ambição de fundar o próprio movimento psicanalítico”, revela o autor. Não é só. O místico e sonhador Jung também era um tirano que se casou por dinheiro, obrigou a mulher a suportar seus inúmeros casos (e envolveu-a num ménage-à-trois), seduziu pacientes, brigou com todos os amigos, glorificou o nazismo e odiava negros, índios e judeus.

(…)

“Esse, no entanto, não é o caso, pois não há evidências científicas em suas teorizações que devem ser aceitas apenas como sistema metafísico, ainda que ele desejasse o oposto disso, sempre em busca de reconhecimento por parte de instituições que considerava dignas de respeito”, avalia McLynn.  (HAAG, 1998.)

Vamos pensar em algumas dessas afirmações, que são emblemáticas e nos permitem ter alguma idéia acerca do livro.

Ele era um homem egoísta que se interessava apenas em sua salvação, atacando Freud porque o via como rival à sua ambição de fundar o próprio movimento psicanalítico”, revela o autor

Essa afirmação é bem interessante. Especialmente quando se contrasta com o movimento junguiano. Pois, Jung rompeu com Freud e com a psicanálise definitivamente em 1914, contudo, ele não deu inicio a um instituto nem uma sociedade profissional com intuito de expandir a psicologia analítica. Deve-se notar, que em 1916, Jung iniciou o “Clube de Psicologia de Zurique”, que não tinha um objetivo de formação, mas, propiciar uma referencia social aos interessados em aprender a psicologia de Jung, isso considerando que muitos eram estrangeiros e tinham dificuldades em relação ao idioma(que era no geral, um dialeto do alemão) e a cultura local.

Nesse clube, Jung fez vários seminários no geral direcionados a poucas pessoas, mais próximas. Esse foi um motivo porque a psicologia analítica não se difundiu tanto como a psicanálise. Afinal, ao contrario do que é dito por McLynn, se Jung fosse tão ávido por fundar um movimento psicanalítico próprio, porque ficou restrito a um pequeno grupo? Deve-se notar que na década de 1930, Jung foi eleito vice-presidente, e posteriormente, assumiu a presidência da Sociedade Internacional Médica de Psicoterapia, porque ele não usou da  Sociedade para expandir seu movimento?  Ou porque somente em 1948 surgiu o primeiro instituto de formação em psicologia analítica 34 anos depois do rompimento de Jung com Freud?

Um outro dado deve ser considerado, como nos conta Maggy Anthony,

(…) em 1946, a Dra Jacobi, extrovertida oficial junguiana, havia pressionado o Dr. Jung a dar inicio a um instituto. Jung ficara horrorizado com a idéia. A Dra. Jacobi sabia que, de qualquer maneira, após a morte de Jung, tal instituto iria acabar se tornando realidade. Argumentou com ele que, se esperassem demais, ele não poderia exercer sua influencia para construí-lo de acordo com as linhas que considerasse apropriadas.

Assim Jung capitulou. (ANTHONY, 1998 p. 41)

Me parece que se fosse verdadeira essa afirmação a psicologia analítica seria muito mais difundida do que é hoje.

Outra afirmação que merece atenção,

“Jung também era um tirano que se casou por dinheiro”

Essa afirmação é outra complicada. Afinal, qual é a referencia que é usada para ser “tirano”? Não podemos perder de vista, em primeiro lugar, que Jung nasceu no ultimo quarto do século XIX, em 1875.  Domesmo modo, falar que ele casou por dinheiro, é uma afirmação que, em primeiro lugar,  não se pode comprovar efetivamente, em segundo lugar parte do preconceito que todo e qualquer homem que se casasse com uma mulher rica se casaria por interesse. Deve-se notar, que se esquece que Emma era uma jovem muito bonita e com uma formação refinada em colégio interno na França. Afirmar, que Jung se casou apenas por dinheiro, é desmerecer Emma.               

obrigou a mulher a suportar seus inúmeros casos (e envolveu-a num ménage-à-trois),

Acerca da afirmação dos “inúmeros casos” de Jung, tudo indica verdade, entretanto, quando se observa que na cultura machista e patriarcal no final do século XIX e inicio do XX. Por mais censurável que seja em nossos dias essa atitude, naquela época era uma prática tolerável e comum. O que é realmente condenável (seja em nossos dias quanto nos dias de Jung) era seu triangulo com Emma e Toni Wolff.

Mas, e preciso esclarecer esse termo “ménage-a-trois” utilizado pelo autor. Em seu sentido original, indicava uma casa que era habitado por três pessoas, posteriormente, o termo passou a ser usado (e compreendido) como uma relação sexual à três pessoas. O problema do uso desse termo é que para muitos parece que Jung obrigou a Emma a dividir a cama com Toni. De fato, Jung obrigou Emma a conviver seja na própria casa ou socialmente com Toni.

O que causava espanto não era o fato de Jung ter uma amante, mas, fazer com que ela convivesse com sua esposa.

glorificou o nazismo e odiava negros, índios e judeus.

Essa sem dúvida é a afirmação mais equivocada e absurda. Em primeiro lugar, Jung foi um  crítico de Hitler e do Nazismo, inclusive, em biografia posterior ao do McLynn, a escrita pro Deirdre Bair, afirma-se que Jung foi colaborador dos Aliados, contra o eixo.

(…)Jung passou a ser o “Agente 488” nos relatórios de Dulles para os oficiais em Washington e Londres, e os despachos do 488 eram considerados fatos e apareciam com destaque nas políticas operacionais dos agentes. O que realmente “fisgou” Dulles para consultar Jung sobre outros assuntos, além da situação da Alemanha, foi a análise que fez da política da suiça.(…) Dulles investigou as afirmações de Jung de como a impressa suíça limitava e de algum modo controlava as ações pró-nazista de Pilet-Golaz, e verificou o quanto de verdade havia na análise. (BAIR, 2006, p.179)

Devemos lembrar também, que apesar de alguns erros administrativos na direção da Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia(SMIP), Jung primou sua administração para livrar a sociedade da influencia nazista. A SMIP, tinha sede em Berlim. Assim, eram muitas as pressões para a sociedade apoiar o partido nazista. Ao assumir a direção, em 1933, um dos primeiros atos de Jung foi dar autonomia aos países membros, de modo, a garantir que os membros judeus da sociedade, em países ocupados ou nos demais, tivessem seus direitos garantidos.

Sobre os índios e negros, afirmar que ele os “odiava” é estranho, até porque as teorias de Jung afirmam justamente que independente da cultura, etnia ou cor da pela, todos nós possuímos a mesma matriz de organização psíquica! Somos todos igualmente humanos. Jung poderia ser acusado de xenofobia? talvez sim. Afinal, ele era europeu, nascido no final do século XIX. Mas, não ao ponto de odiar quem quer que seja. Seria estranho também, também, se Jung odiasse os índios ele não citaria bom contato que teve com com Antonio Mirabal, também conhecido Ochwiay Biano ou Lago da Montanha.Nem teria se empenhado para aprender os fundamentos de suaíli para tentar se comunicar diretamente com os negros na África.

O que me parece forte nas críticas atribuídas a Jung, é justamente reflexo do choque cultural, devemos lembrar que na América, por exemplo, Jung era estrangeiro lá, ou seja, sua cultura suiça (e seus traços introvertidos) em alguns momentos entravam em choque com a cultura americana dos norte americanos brancos, assim como com os nativos norte americanos. O mesmo pode dizer na África. Mas, afirmar que “Jung odiava negros e índios” me parece fora de sentido.

Sobre as afirmações de “anti-semitismo”,ou odiar judeus, não podemos esquecer que essa afirmação era feita por Freud e perpetuada por freudianos durante muito tempo. Essa afirmação, resquício do rompimento de Freud com Jung é totalmente absurda, pois, afinal, se ele fosse anti semita, porque ele teria aceitado em seu circulo de amigos e discípulos judeus, como Erich Neumann, Jolande Jacobi, assim como o editor de suas obras completas Gerard Adler. Devemos lembrar, que com a fundação do instituto C.G.Jung de Zurique, Jung impôs o nome de Jolande Jacobi na diretoria, mesmo muitos sendo contrários a “indicação”.

Esse, no entanto, não é o caso, pois não há evidências científicas em suas teorizações que devem ser aceitas apenas como sistema metafísico, ainda que ele desejasse o oposto disso, sempre em busca de reconhecimento por parte de instituições que considerava dignas de respeito”diz McLynn,

O que mais me chamou atenção nessa ultima afirmação é o fato que McLynn é jornalista e biógrafo. Que conhecimento efetivo da prática da psicoterapia ele possui para julgar a teoria de Jung? Estaria ele correto e todos os profissionais(psicólogos e médicos) que trabalham com a psicologia analítica e clientes que se viram beneficiados pela teoria e métodos junguianos, desde os tempos de Jung,  errados?

Por outro lado, é negativo que um profissional busque reconhecimento? Diga-se de passagem, em 1936 Jung recebeu o titulo de doutor in honoris causa  pela universidade de Harvard, e em 1938 recebeu o mesmo reconhecimento pela universidade Oxford. Caso Jung e sua teoria fossem tão equivocadas ou condenáveis, tais instituições não lhe dariam tal reconhecimento.

Como eu disse no inicio, o livro possui muitas informações interessantes, contudo, deve-se fazer uma leitura atenta para os “excessos” de Mclynn, que em alguns momentos parece que ele está escrevendo para algum jornal ou tablóide sensacionalista tão comuns na Inglaterra(sua terra natal), que adoram denegrir a imagem das celebridades.

Na minha opinião, caso alguém queira estudar a biografia de Jung, eu indico como o melhor biografia que eu já li,os dois volumes do “Jung: uma biografia” de Deirdre Bair. Isto além, do Memórias, sonhos e reflexões, é claro!

Referencias Bibliográficas

ANTHONY, Maggy.  As mulheres na vida de Jung.  Rio de Janeiro : Rosa dos Tempos, 1998. 

BAIR, Deirdre, JUNG – Uma biografia V. 2; São Paulo: Ed. Globo, 2006.

HAAG, Carlos “BIOGRAFIA REVÊ CONTRADIÇÕES DE JUNG”no site Pensar, disponível em : http://reocities.com/Athens/acropolis/6634/jung.htm. Acessado em 27 de janeiro de 2011. 1998.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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