Uma reflexão sobre a relação entre a Psicologia e Religião

 

13 de janeiro de 2011

Depois de ler várias  discussões na internet (especialmente, no Orkut) acerca da relação entre psicologia e a religião, onde, em vários casos, havia um certo clima de hostilidade, seja no discurso de psicólogos e ou no de alguns líderes religiosos,  ou entre os próprios psicólogos, alguns denominados de “psicólogos cristãos” e os outros psicólogos que defendem uma postura radicalmente científica.

Em meio as várias as discussões quem acaba por sair perdendo é a população que fica perdida em meio a informações desencontradas ou mesmo equivocadas, como por exemplo, que a psicologia é ateísta ou que os psicólogos em sua maioria são ateus.

De forma geral, quando falamos da psicologia seja como ciência ou profissão devemos ter clareza que ela não é nem ateísta nem teísta. Isso pelo simples fato de que a divindade ou Deus está fora do horizonte de estudos da Psicologia. Desse modo, a Psicologia não afirma nem nega a de Deus, reservando a Teologia a autoridade acerca desse tema.

Entretanto, deve-se notar que a psicologia estuda e se posiciona frente os efeitos da religião/instituições religiosas sobre a sociedade e sobre o comportamento dos indivíduos. Assim, a psicologia tem uma postura crítica seja com as regras ou práticas religiosas que limitam a liberdade de reflexão e escolha dos indivíduos; que promovam preconceitos; ou que de algum modo possam prejudicar os indivíduos.

Ser contrário a determinados dogmas religiosos não significa ser contrário a religião ou a religiosidade dos indivíduos, ou muito menos ser ateu ou ser contra “Deus”.  Não podemos esquecer que críticas sobre práticas ou costumes são realizadas não só pela psicologia ou outras ciências, mas, pelas próprias instituições religiosas, que possibilitam o desenvolvimento das religiões.

Em outro post (Psicologia Analítica Cristã?) já falei da minha estranheza acerca da denominação de “psicólogo cristão” ou “psicólogo evangélico”, do mesmo modo devo ampliar a minha estranheza para a alcunha de “psicólogo ateu” .Pois, é estranho definir a prática profissional a partir do posicionamento frente a religião. Isso porque, se formos tomar o Código de Ética, nós temos:

Art. 2o – Ao Psicólogo é vedado

(…)

b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais; (Conselho Federal de Psicologia,2005,p.9)

Dessa forma,  é importante percebermos que por mais que o argumento que uma postura que se afaste religião seja epistemologicamente “mais correta”, um psicólogo que no exercício profissional defenda o ateísmo  está sendo tão antiético quanto um profissional que defende abertamente sua fé no exercício da profissão. 

É importante frisar que em sua vida pessoal, o psicólogo, como qualquer outro cidadão tem o direito de  vivenciar sua religiosidade da forma que se sentir melhor. Entretanto, ele não pode usar dos conhecimentos da profissão para fundamentar suas crenças, usando a psicologia de forma inadequada. Aos que pensem que é esse artigo é “autoritário”, devemos lembrar que esse artigo, atende claramente ao primeiro dos princípios fundamentais sobre os quais o código de ética foi desenvolvido, de acordo com esse princípio,

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. (Conselho Federal de Psicologia,2005, p7)

Assim, dizer que a  “Psicologia é inimiga a Religião” ou que “Psicólogo é  ateu” não só é um erro, como é um preconceito que muitas vezes prejudica a população, que deixa de procurar ou teme que o atendimento psicológico vá prejudicar sua vida espiritual.  É claro que muito desse preconceito está relacionado a postura de alguns profissionais, a críticas que são feitas a certos modelos religiosos ou práticas religiosas, entretanto, um profissional ético saberá separar a crítica a um “Sistema Religioso” ou “costume costume” da religiosidade do individuo, de modo a não “atacar“ o individuo.

Não podemos deixar de comentar, que no geral, nas instituições formadoras há um certa dificuldade em lidar com a religião, de modo que alguns profissionais tem dificuldades para lidar com pacientes religiosos, o que faz com esses passem a buscar psicólogos que professem a mesma fé. Coliath (2008) aponta que motivos que os levam a essa busca, como

o fato de se sentirem mais confortáveis em poder tratar seu lado emocional e relatar suas experiencias espirituais a alguém  que os entendessem sem considerar que são manipulados por lideres evangélicos interessados em poder e dinheiro. (p. 13)

Percebo que ao atender meus pacientes evangélicos que eles desejam ser compreendidos em relação a sua religiosidade. Não querem ficar o tempo todo explicando o que desejam dizer quando falam  de suas experiencias religiosas, e ainda assim, correrem o risco de serem classificados de fanáticos ou loucos(p. 15)

Assim, é importante compreendermos que a religião é importante (ou mesmo fundamental) para a vida de muitos indivíduos, de modo, que devemos estar preparados compreender e respeitar a religiosidade na vida do individuo, e, por outro lado, podendo ser um importante elemento no processo terapêutico, segundo Coliath(2008)

Richards e Bergin (1998)  in Donatelli (2005)  apresentam cinco razões para o psicólogo explorar o aspecto religioso no atendimento  clínico:

1 –  A compreensão da relação  que os clientes mantêm com a religião  contribui para que os terapeutas  compreendam sua visão de mundo;

2. Ajuda a compreender se as crenças religiosas de seus clientes são saudáveis  ou não, e qual o impacto  em seus  problemas ou distúrbios;

3 – Permite ao psicólogo determinar se as crenças ou a comunidade religiosa do cliente podem ser recursos que o auxiliem a lidar com o mundo a sua volta, a crescer;

4. Ajuda a definir  quais as intervenções sobre a religiosidade podem ser usadas na psicoterapia.

5. Possibilita determinar se os clientes  têm dúvidas, preocupações ou necessidades religiosas não resolvidas que devem ser trabalhadas na psicoterapia, ou fora dela. (p. 28-9)

Eu acredito ser muito importante uma percebermos que em nenhum momento Coliath, citando Richards e Bergins, fala de misturar a psicologia com a religião, mas, nos fala de respeito e conhecimento acerca da religião, que nos possibilitariam compreender o universo de nosso cliente.

Jung sempre enfatizou a necessidade de compreendermos a história das religiões, mitologias, religiões comparadas como forma de compreendermos nossos clientes e os símbolos que atribuem sentido e significado a suas vidas. Isso não significa fazer uma “psicologia religiosa”, mas, fazer uma psicologia respeitosa e ética.

Uma consideração adequada da religião seria importante para evitarmos algumas situações que vemos como a setorização da psicologia pelas denominações religiosas (psicólogos católicos, psicólogos espíritas, psicólogos evangélicos, psicólogos adventistas, etc…), ou a negação da religião por outros; que não contribui para nem para o dialogo entre a Psicologia e a Religião e, por outro lado, prejudica a compreensão da população da prática do psicólogo.

Para finalizar esse post, reafirmo que é fundamental compreendermos que a psicologia e a religião não são opostas ou inimigas, que o estudo e a compreensão dos sistemas religiosos nos torna mais preparados para compreendermos e respeitarmos nossos clientes de um modo mais amplo.

Referencias Bibliográficas

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução n° 010, de 21 de julho de 2005. Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo.  Disponível em:www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/codigo_etica.pdf.

COLIATH , A.A.M.  Escolha do Terapeuta Associada a Denominação Religiosa, 2008,98f. Dissertação de Mestrado –Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. 2008.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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