Subjetivismo, Realidade Psíquica e Esoterismo

 

(31de março de 2010 )

Um dos problemas que incomodam fortemente a todos que são psicólogos sérios, estudiosos sérios de psicologia analítica, é  a constante relação que é feita entre Jung e o esoterismo.  Essa constante relação faz com que a psicologia analítica seja acusada de ser um culto, como fez Noll, ou de Jung ser aclamado como um “Guru” ou um “Mestre Iluminado”.  Essa visão fanática ou essa apropriação da psicologia analítica por religiosos indicam sobretudo que as pessoas leem pouco os textos de Jung, passando a ler apenas comentaristas ou os textos autobiográficos de Jung.

Para compreender essa associação entre a psicologia analítica e o esoterismo devemos observar algumas coisas:

1 – Modelo epistemológico adotado por Jung:

A Obra junguiana é marcada pelo Subjetivismo, que é uma perspectiva epistemológica onde a possibilidade do conhecimento é determinada pelo sujeito (pelo ser pensante).

Assim, nessa perspectiva, o conhecimento do exterior ou dos objetos é incerto, a única experiência verdadeira e realmente acessível ao sujeito é a experiência interior.  Essa perspectiva adotada por Jung contribuiu, segundo Nagy (2003, p.48), para seu isolamento tanto da comunidade cientifica quanto das comunidades filosóficas e teológicas. Uma forma de apreender o subjetivismo em Jung é o conceito de Realidade Psíquica, que é a realidade do sujeito, isto é, o modo particular e próprio de cada sujeito experimentar  o mundo (tanto interior quanto exterior). Assim, toda formação inconsciente é real e verdadeira para quem a experimenta. De forma geral, quando se assume  o ponto de vista da “realidade psíquica” o mundo dos objetos ou as verdades coletivas tem menor importância. No livro “Memórias, sonhos e reflexões”, Jung torna bem clara essa concepção quando afirma ”

Assim, pois, comecei agora aos oitenta e três anos, a contar o mito de minha vida. No entanto, posso fazer apenas constatações imediatas, contar histórias. Mas o problema não é saber se são verdadeiras ou não. O problema é este: é aminha aventura a minha verdade? (JUNG, 1975, p.19)

Como o próprio texto de Jung indica, o fundamental é sua experiência interior, sua percepção de sua vida.

A postura subjetivista é em larga escala incompatível com a atitude científica. Jung não tinha a menor dúvida disso, afinal, durante quase 10 anos, ele foi pesquisador no hospital Burgholzli, seus estudos acerca de associação de palavras lhe renderam reconhecimento acadêmico justamente por seguir um rigoroso protocolo científico.   Contudo, frente às formações do inconsciente e à prática da clínica era necessário uma postura que visasse compreender o que ocorria com o paciente a partir da própria perspectiva do paciente. Assim, a atitude subjetivista na prática clínica pode ser traduzida como um respeito profundo ao cliente, pois se assume, que somente o cliente tem a verdade acerca si mesmo, o terapeuta tem a função de auxilia-lo a encontrar a si mesmo, sua história e sua verdade.

A grande questão colocada em relação ao “esoterismo” é que ao defender que o fundamental é a experiência interior, Jung reconhece a validade das experiências religiosas como experiências psíquicas, não como algo sobrenatural. Pois, o subjetivismo acaba por negar ou desconsiderar não só a experiência objetiva, mas, a experiência transcental  ou divina que esteja para além do homem. Assim, este modelo junguiano aceita a experiência mística ou religiosa como uma experiência interna do sujeito, uma experiência psíquica, que nos revela aspectos da realidade psíquica daquele individuo.

2 –  Jung e suas experiências pessoais

Devemos considerar que Jung era oriundo de uma família religiosa, o pai, avô e sete de seus tios eram pastores. Alguns de seus parentes, como uma prima, se envolveram com o espiritismo. Assim, a sua vida foi rica de experiências e relatos da experiência religiosa e seus efeitos sobre os indivíduos. Como Jung era um tipo introvertido, essas experiências o marcaram profundamente. Como a religião foi nos primeiros 20 anos uma realidade cotidiana, não é de se estranhar que ela continuou a motivar ou incomodar Jung.

Em poucos meses, será lançado em português o “livro vermelho” de Jung, que compreende uma série de reflexões,  imagens, sonhos de Jung.  Muito já tem sido dito acerca de Jung a partir de um julgamento desta obra. O que me recorda de Richard Bach, no livro Fernão Capelo Gaivota, que diz que o preço de não ser compreendido é ser classificado de diabo ou de deus.

As experiências de Jung são a medida de Jung, fazendo parte do processo de individuação dele. Jung é claro na ênfase em colocar que “é a minha aventura a minha verdade?” como questão fundamental, ele não impunha sua percepção como paradigma.

3- Os Junguianos e realidade psíquica

Muitas das relações feitas da psicologia analítica se devem também a postura permissiva dos junguianos. Nagy faz um comentário interessante:

Entre junguianos ou nas sociedades profissionais e nas comunidades que cercam seus diversos institutos de formação, o argumento subjetivista teve, frequentemente, o efeito devastador de fazer calar o pensamento crítico e criar uma espécie de atmosfera confessional. (…) Grupos periféricos e seitas diversas podem se ligar aos centros junguianos, porque os junguianos aceitam experiências que não são cientificamente comprovadas.  Náo é fácil tomar uma posição em direção a uma formulação teórica que expressa tipos fronteiriços de experiência, porque numa estrutura subjetivista toda experiência real é valida. Alguns junguianos diriam que é melhor não tentar discriminar – é melhor errar pelo lado da aceitação de todos os pontos de vista. Em todo caso, acrescentam, náo podemos saber o que é a verdade real; podemos apenas conhecer o que experimentamos individualmente. (NAGY, 2003, p. 50).

Nesse contexto, podemos compreender como que a defesa da percepção da realidade psíquica, fez com que houvesse uma abertura para a entrada de pessoas esotéricas nos meios junguianos, associando seus conceitos com os conceitos psicológicos de Jung. Essa omissão somada ao estudos de símbolos, mitos e imagens arquetípicas contribuíram para se criar essa imagem deturpada de que a psicologia analítica ou os junguianos são esotéricos.

Referências

Nagy, M. Questões Filosóficas na Psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes.2003

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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