Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte I

(24 de maio 2010)

A psicoterapia e/ou análise junguiana são, de certa forma, desconhecidas do público em geral. No Espírito Santo, em especial, o lacanismo é uma das principais referências em modelo de atendimento. Assim, nesse post vamos começar a  discutir alguns dos aspectos básicos da abordagem junguiana.

Psicoterapia ou Análise

Em sua obra, Jung utilizava os termos psicoterapia e análise de forma praticamente indistinta. Ele compreendia que o objetivo da análise e da psicoterapia seriam similares. Pois, tanto a psicoterapia quando a análise buscam o desenvolvimento/amadurecimento do individuo.

A distinção entre análise e psicoterapia começou a se delinear de forma mais clara após a morte de Jung.  A Psicoterapia propriamente dita passou ter como objetivo mais delineado com o tratamento das neuroses, isso quer dizer, que a psicoterapia teria como direcionamento a elucidação de um dado quadro neurótico, o processo duraria o tempo necessário para a elucidação do conflito neurótico.  A psicoterapia poderia evoluir para a análise.

Por outro lado, a análise passou a ter como objetivo o processo de individuação. Esta seria de duração maior, propiciando a interação ou dialogo do individuo com o inconsciente. Sem a necessidade de haver uma questão neurótica a priori. Assim, seria muito tênue a separação da análise da psicoterapia ou da psicoterapia da analise, tanto que alguns analistas definem que a analise como uma forma especial de psicoterapia. Podemos dizer até, que a psicoterapia e a análise são faces de uma mesma moeda. Não acredito ter possível separar claramente uma da outra.

Existe, também, uma questão politica que atravessa a caracterização de psicoterapia e análise, e esta questão talvez seja a mais relevante nessa percepção da terminologia. Essa “questão politica” foi sendo construida ao longo do tempo, com a formação de institutos de formação em psicologia analítica e da International Association for Analytical Psychology (IAAP) foi se desenvolvendo uma convenção de que os profissionais que fizessem uma formação num instituto reconhecido pela IAAP seriam denominados “analistas junguianos”, os demais profissionais psicoterapeutas sem formação reconhecida seriam considerados “ psicoterapeutas junguianos”.

Muitos profissionais junguianos que praticam a psicoterapia e a analise junguiana têm passado a utilizar a designação de “analista junguiano”. Efetivamente, não há nada que realmente impeça um profissional (médico ou psicólogo) habilitado e qualificado em psicoterapia a utilizar a designação “analista”.  A IAAP ou institutos de formação não tem o poder de limitar o uso, podem apenas “certificar” a qualidade do treinamento do analista (muito rigorosa, diga-se de passagem). Um dado que chama atenção é que eu verifiquei o site da IAAP, no ultimo dia 26/05/10, e segundo ele hoje a IAAP  conta com 2909 membros no mundo inteiro. No Brasil são 178 analistas junguianos membros da IAAP, em sua grande maioria concentrados no Rio de Janeiro e São Paulo.  Um número pequeno, se pensarmos que somos 190 milhões de brasileiros.

Eu me recordo de um belo texto publicado na revista virtual Coniunctio, (do grupo Sizigia, de Fortaleza), o texto é “A Máscara Junguiana: Uma Reflexão sobre o que caracteriza o autêntico psicólogo de orientação junguiana” de Edvaldo Ferreira da Costa, gostaria apenas de citar o seu final

Portanto, diante de tudo que foi exposto aqui, não é a titulação, a formação ou a filiação a esta ou àquela sociedade que caracteriza o autêntico psicólogo de orientação junguiana, mas a sua capacidade para sustentar uma persona ou máscara junguiana que, em vez de esconder, revele a sua personalidade e o possibilite ser a pessoa autêntica que é com todas as suas fraquezas, limitações e defeitos assim como com todas as suas forças, possibilidades e virtudes. Para isso é necessário que este psicólogo esteja caminhando sozinho, se for capaz, ou com a ajuda de colegas, professores, supervisores e analista em busca de integrar da melhor forma e na maior intensidade possível, autoconhecimento e conhecimento científico.(COSTA,S/D.)

Apesar desse aspecto politico, eu prefiro optar pela diferenciação a partir de foco e duração. Sinceramente, a designação psicoterapeuta ou analista acredito ser pouco importante, prefiro utilizar a designação (também utilizada pelo Edvaldo Costa) de psicólogo de orientação junguiana, afinal, no Brasil, nem psicoterapeuta nem analista são profissões regulamentadas. Por outro lado, dois dos pioneiros da psicologia analítica no Brasil, Dra. Nise da Silveira e Dr. Petho Sándor não eram “analistas reconhecidos” ou “IAAP”. Mas, isso não os impediu de desenvolver a psicologia analítica através de trabalhos brilhantes.

Características da Psicoterapia/Análise Junguiana

Jung não formalizou o método seu analítico em artigos ou manuais, muito pelo contrário, ele formalizou a particularidade de cada analista/psicoterapeuta na condução do processo terapêutico. Segundo Jung,

Todo psicoterapeuta não só tem seu método: ele próprio é esse método. Ars totum requirit hominem” * diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas, não passam de meios auxiliares. Assim que se transformam em dogmas, isso significa que uma grande duvida interna está sendo abafada. É necessário um grande números de pontos de vista teóricos para produzir, ainda que aproximadamente, uma imagem da multiplicidade da alma. Por isso é que se comete um grande erro quando se acusa a psicoterapia de náo ser capaz de unificar suas próprias teorias. A unificação poderia significar apenas unilateralidade e esvaziamento. A psique não pode ser apreendida numa teoria; tampouco o mundo. As teorias não são artigos de fé, são instrumentos a serviço do conhecimento e da terapia; ou então não servem para muita coisa. (JUNG, 1999, 84-85)

* – A arte exige o homem inteiro.

Jung compreendia que a cada psicoterapeuta/analista era antes de tudo um individuo. Assim, era necessário reconhecer as peculiaridades de cada psicoterapeuta, como uma expressão do processo de individuação do terapeuta. Por isso, podemos encontrar psicoterapeutas/analistas junguianos que utilizam técnicas corporais (calatonia), arteterapia, sandplay, biblioterapia, hipnose, etc…Não há uma normatização que diga, “você pode usar isso” ou “você não pode usar aquilo”, a regra é ser sincero consigo mesmo e utilizar instrumento que o psicoterapeuta esteja capacitado e se sinta “inteiro” para usa-lo com  o cliente. Eu me recordo de quando eu era estagiário de psicologia em minha graduação, quando fiz estágio em psicoterapia corporal. Eu conhecia a teoria, fiz grupos de movimento, me sentia confiante para usar utilizar a técnica corporal, contudo, a primeira pessoa que coloquei no grounding foi a ultima. Eu sentia estranho frente a pessoa que estava a minha frente, dentro de mim eu senti um distanciamento enorme. Eu vi que aquela técnica “não me pertencia”, por mais que eu tivesse sentido a eficácia dogrounding pela minha experiência pessoal, aquilo não estava mim.

Apesar dessa ressalva da acerca da particularidade de cada psicoterapeuta junguiano, existem algumas características formais compartilhadas por muitos junguianos. São elas

– Duração: As sessões possuem uma duração fixa, que pode variar de psicoterapeuta para psicoterapeuta, contudo, no  geral variam de 45 min a 60 min.

– Frequência: De formal geral, são realizadas sessões semanais. Entretanto, em caso de análise ou por necessidade terapêutica (como o paciente estar em crise) pode variar, sendo mais comum até 3x por semana, mas, tudo depende da avaliação do psicoterapeuta.

– Postura frente ao Cliente: Os Junguianos geralmente sentam frente a frente com seu cliente, criando um ambiente de igualdade, onde ele pode ver com clareza seu cliente (e suas reações) assim como pode ser visto por seu cliente. O posicionamento frente-a-frente também é importante pela relação dialética proposta por Jung,

Se, na qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente e, como médico, tiver a pretensão de saber algo a sua individualidade e fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espirito critico, pois não estarei reconhecendo que não  tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está na minha frente.(….) Por isso, quer eu queira quer não,  se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico de um individuo, tenho que renunciar à minha autoridade no saber, a toda e qualquer autoridade e vontade de influenciar. Tenho de optar necessariamente por um método dialético, que consiste em confrontar as averiguações mútuas. Mas, isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo pelos meus pressupostos. (JUNG, 1999, p.3)

Deve-se notar que Jung indica que o método dialético é um dialogo entre dois indivíduos, onde há o confronto de hipóteses e percepções. Assim, o psicoterapeuta terá uma atitude ativa – uma escuta ativa e uma troca com o cliente, falando de suas percepções de modo ao cliente refletir sobre a hipótese levantada – sem que com isso, a percepção do terapeuta se imponha ao cliente. Como uma postura ativa, o psicoterapeuta poderá sugerir ao cliente atividades (como ver determinado filme, ou realizar uma determinada atividade) esses “deveres de casa” muitas vezes caracterizam a abordagem junguiana como “semi-diretiva”, mas, isso vai depender de psicoterapeuta para psicoterapeuta e da relação com cada cliente.

Devemos lembrar também que a psicologia analítica clássica atendia preferencialmente adultos em sessões individuais.  Atualmente, tem se produzido trabalhos em atendimentos de casais, grupos e crianças.

(Em breve vou colocar mais aspectos para pensarmos a psicoterapia/analise junguiana)

Referências

COSTA, E. F, A Máscara Junguiana: Uma Reflexão sobre o que caracteriza o autêntico psicólogo Junguiano, Coniunctio, no. 1, v.1, s/d, http://www.sizigia.com.br/revista_conteudo.asp?revista=7&autor=15. Acessado em 26 de maio de 2010.

JUNG, A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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