Algumas questões acerca de Psicoterapia e Análise

11 de agosto de 2010

Frequentemente eu tenho de responder ou melhor, esclarecer algumas questões acerca de psicoterapia e análise.  Eram dúvidas que muitas pessoas tem, mas, que não tem oportunidade de sanar. Assim, eu optei em apresentar algumas dessas questões e o que eu geralmente respondo.

1- Qual a diferença entre Psicoterapia e Análise?

De forma geral, os termos psicoterapia e análise geram um pouco de confusão. Acredito que devemos pensar um pouco na etimologia e desses termos, Psicoterapia  que vem do grego psykhé que seria alma e therapéia cuidado, atenção ou tratamento  e  análise vem do grego análusis,eōs  que seria “dissolver” que estaria relacionado ao verbo analúō, “desligar, dissolver, soltar, separar, libertar, examinar”.

A Psicoterapia não se refere a uma prática ou técnica específica, mas, sim a todo processo que  visa cuidar da saúde psíquica.

O termo  “análise”, isto é, a analise psicológica, esteve historicamente relacionado com a “Psicanálise”, muitas vezes sendo utilizada como uma abreviatura do termo. No Brasil, durante muito tempo falar em “análise” era o mesmo que se referir a psicanálise. Contudo, isso era apenas um uso comum, nada formal ou definido, o termo análise é utilizado por diferentes abordagens desde as que possuem alguma relação histórica ou metodológica com a psicanálise e com estudo do inconsciente até as abordagens sem qualquer relação histórica com a psicanálise, como a Análise Comportamental que tem sua origem na escolas americanas de estudo do comportamento.

O fato é que não há um consenso geral ou uma clara convenção sobre a definição dos termos “psicoterapia” e “análise”, dessa forma, o que encontramos geralmente é que a

psicoterapia é um processo direcionado a um objetivo claro, isto é, possui um foco determinado, por ex., um individuo quer tratar transtorno de ansiedade, por ter um objetivo estabelecido a psicoterapia tende a ter uma duração menor. Por outro lado, a

Análise é um processo que não possui necessariamente o objetivo de resolver de um conflito ou quadro psicopatológico, mas, é um processo mais profundo que visa o autoconhecimento, desenvolvimento/ amadurecimento do individuo. Dessa forma, o tempo é o tempo de cada individuo.

Tanto a psicoterapia quanto a análise podem produzir resultados igualmente positivos, o que muitas vezes denominamos de forma incerta como “cura”.

No âmbito da teoria e das conceituações, podemos fazer essas e outras distinções, mas, dentro do consultório é muito tênue a separação entre uma e outra, até porque o cliente/paciente é quem vai indicar o caminho e sua necessidade, por ex., uma psicoterapia pode se desenvolver e se tornar um processo analítico.

[Em outro post (Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte I) eu apresentei uma distinção direcionado a quem estuda a psicologia analítica.]

2 – O que nos leva a procurar psicoterapia ou análise?

Não há um motivo específico para procurar a psicoterapia ou análise. Cada pessoa tem seu motivo particular para procurar a psicoterapia/analise, entretanto, devemos considerar que a nossa cultura propicia situações desfavoráveis a nossa saúde psíquica. O excesso de competição, o individualismo, a “obrigação” de estar sempre “bem”, os vários padrões que nos são impostos muitas vezes nos fazem adoecer, Jung dizia  muitos adoecem por que tentam se adaptar aos padrões coletivos (muitas vezes, de forma desesperada) outros adoecem porque se adaptaram demais a esses padrões. E se perdem nesse processo.

O grande problema é que nos acostumamos com as situações que nos fazem adoecer, nos acostumamos a sentir medo, a nos sentir inseguros, a nos sentir inferiores, nos não pensar em nos mesmos. Com o passar do tempo, acabamos sentido o peso desse sofrimento ou da falta de sentido que tomou nossas vidas – alguns sentem isso no próprio corpo através de doenças de pele, doenças gastro-instestinais. , hipertensão, fibromialgia – que são doenças intimamente ligadas a nossa dinâmica psíquica ou como dizemos popularmente ao nosso estado emocional; por outro lado, algumas pessoas desenvolvem transtornos propriamente psicológicos como transtornos de ansiedade (o medo de ter medo) e depressão que são males de mais assolam as pessoas. Infelizmente, a grande maioria só procura auxílio profissional quando os problemas crescem e se tornam insuportáveis. Muitas acham que é fraqueza pedir ajuda, mas, não percebem o quanto de coragem é necessária para reconhecer que precisamos de ajuda.

Há ainda um terceiro grupo que não busca psicoterapia por problemas de adaptação ou por algum quadro patológico, esse terceiro grupo são de pessoas que estão atentas ao que acontecem em si mesmas, e querem compreender mais acerca de si, o porque de suas escolhas, enfim buscam o autoconhecimento necessário para uma vida saudável (no sentido mais pleno da palavra).  Outras, percebem que algo está faltando em sua vida, às vezes, um vazio que não conseguem compreender, pois, afinal, “tudo parece estar tão certo”, e através desse incomodo as pessoas buscam a psicoterapia/análise para compreender o que pode estar faltando onde, aparentemente, nada falta.

Muitos são os motivos para se buscar terapia, apenas citei alguns fatores que frequentemente vemos:  a dificuldade de adaptação e relacionamento (questões familiares), por questões de doença ou transtornos diagnosticados, por autoconhecimento, por desenvolvimento pessoal.

Assim, é um erro pensar que apenas quem está “doente” busca psicoterapia/análise. A psicoterapia/análise é antes de mais nada um cuidado pessoal. Um espaço protegido onde a pessoa pode ser ela mesma, e assim, avaliar suas escolhas e ações, para compreender o caminho que percorreu e poder escolher melhor caminho que irá percorrer.

3 – Remédios ou Psicoterapia/análise?

Muitas pessoas, antes de procurar ao psicólogo, já passou por vários médicos que receitaram vários remédios(muitos também indicaram a necessidade da psicoterapia), a grande parte dessas pessoas acabam se questionando se ficam apenas com os remédios ou procuram também a psicoterapia/análise. Para essa pergunta “remédios ou psicoterapia?” Acredito que a resposta mais adequada e proveitosa a essa questão é: Remédio e Psicoterapia.

Muitos tem preconceitos ou com a medicação ou com a psicoterapia, entretanto, devemos compreender que o o remédio sozinho não faz milagres, ele ajuda ao individuo ter a estabilidade necessária para enfrentar os fatores que causaram seu adoecimento. Entretanto, se o individuo não faz o que é necessário para resolver “causas”, em algum tempo, o remédio pode  diminuir sua efetividade ou mesmo, o tratamento medicamentoso pode ser um sucesso, mas, algum tempo após a retirada da medicação o individuo recai.

Eu gostaria de frisar que alguns indivíduos podem obter resultado satisfatório e permanente com a medicação, podendo, segundo orientação médica, parar com os medicamentos. Mas, infelizmente, o que podemos perceber –apesar   de não termos números sobre o tema– é  poucos que obtém esse resultado.  Na maioria das vezes, o que observamos são pessoas que restabelecem a sua capacidade de suportar as situações causadoras de seu sofrimento. Elas aparentam saúde, mas, vivem  infelizes.

Por outro lado, em algumas situações a psicoterapia obtém resultado melhor quando aliada a medicação, pois, o individuo terá maiores possibilidades de enfrentar sua realidade e efetuar as mudanças necessárias. Em várias situações a parceria entre psicólogo e médico(especialmente psiquiatra) é fundamental.

4 – Que profissional procurar?

A psicoterapia ou análise não é uma atividade restrita a uma única categoria profissional.  Assim, independente da abordagem que o profissional siga (se junguiano, psicanalista, rogeriano, comportamental, corporal etc…) o importante é ter em mente qual a formação de profissional. No Brasil, as abordagens mais consolidadas restringem a formação clinica a psicólogos e médicos. Devemos notar que os profissionais devem estar inscritos em seu conselho de classe(CRP ou CRM). Isto é importante pois, essas profissões são legalmente instituídas no Brasil, possuem código de ética o que oferece uma proteção ao cliente.

Caso o cliente se sinta lesado ou ocorra algum tipo de abuso por parte do profissional, o cliente poderá recorrer ao conselho de classe e prestar denuncia contra o profissional, que poderá inclusive o direito de exercer a profissão.

Muitos profissionais apresentam credenciais de  conselhos de “Psicanálise” ou “Conselho de Terapeutas”, que são instituições que não existem legalmente (isto é, não foi constituído por lei federal), não existe nenhum “Conselho Federal de Psicanálise” nem “Conselho Federal de Terapia”, isso considerando que muitas terapias não existem como profissões regulamentadas, ou seja, não há nada que regulamente ou proteja a pessoa atendida. Em caso da pessoa se sentir lesada, deverá procurar o ministério público.

Assim, eu sugiro sempre que procurarem um profissional verifiquem se é psicólogo e se está inscrito no conselho regional de psicologia.

Caso você queira conhecer mais da psicoterapia/analise na abordagem junguiana visite o post Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte I

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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