Psicologia Analítica Cristã?

(08 de junho de 2010)

(foi realizada uma breve revisão em 09/12/2011)

Recentemente, eu estava vendo o mecanismo de estatística do WordPress e ao ver a lista de termos procurados (e que trouxeram visitantes ao Blog) um dos termos me chamou a atenção, e era este “Psicologia Analítica Cristã”.

Eu estudo psicologia analítica de Jung há pouco mais de 10 anos, mas, antes de conhecer Jung, eu já me interessava por tópicos relacionados à psicologia e religião (ou da religião), em especial leituras de Mircea Eliade, importante historiador das religiões, esses estudos favoreceram minha aproximação ao pensamento junguiano, que era frequentemente citado, algum tempo depois, estudando “Psicologia da Personalidade III”, com a Prof. Dra. Kathy Marcondes, pude enfim começar a conhecer a Psicologia Analítica. A interface com a religião sempre me chamou atenção. Apesar de ter me afastado da temática durante alguns anos, a prática clínica sempre nos leva a nos confrontar com fenômenos associados à função religiosa e religiosidade/religião de nossos clientes.

Como interessado pelo estudo da religião, a ideia de uma “psicologia analítica cristã” me causou certa preocupação. Antes de falar de forma específica de religião, devemos considerar alguns pontos…: Em primeiro lugar, quando falamos de uma “psicologia cristã” (ampliando para toda e qualquer abordagem)  estamos também abrindo a possibilidade para pensarmos uma “psicologia neo-pagã”, uma “psicologia budista” ou “psicologia muçulmana” gerando toda sorte misturas entre religião e psicologia que tem como principal consequência  a descaracterização de ambas.

Pessoalmente, acredito que considerar a psicologia e a religião como opostas, inimigas ou mesmo “concorrentes” não só é um erro como é uma concepção ultrapassada.

O fundamental é percebermos que a psicologia lida com fenômenos de ordem natural, a religião com o que é sobrenatural, com o divino. Isso pode parecer óbvio, mas, mas, quando unimos psicologia e religião não nos apercebemos disso. Ao pensarmos uma “psicologia religiosa” não estamos ampliando a percepção para ao divino, mas, estamos submetendo a psicologia à teologia, isto é, a uma dada compreensão doutrinária acerca do divino. O que implicaria não em pensar uma “psicologia cristã”, mas, “psicologia cristã batista”, “psicologia cristã adventista”, “psicologia cristã católica”, psicologia cristã presbiteriana” etc.… Perde-se de vista, que o fundamento ultimo da cristandade é a experiência individual com Cristo, isto é, Deus.

Por outro lado, pensar uma “religião psicologizada” isto é, trazendo elementos da psicologia as práticas religiosas, ou mesmo, que utiliza dos argumentos psicológicos para fundamentar algumas de suas doutrinas. É de causar espanto quantos lideres religioso buscam na ciência (em especial na psicologia e psicanálise) elementos para  melhorar sua “prática”, como se a religião em si não fosse suficiente dentro de seu próprio contexto.

A tentativa de muitos em fazer ou buscar uma psicologia cristã ou uma ciência cristã, me chama atenção, pois, a “teoria (teologia) cristã” muitas vezes se torna mais importante (se sobrepondo) a vivência ou experiência espiritual cristã.

Eu me recordo de Tertuliano, um dos grandes apologistas dos primeiros séculos da cristandade, que utilizava amplamente sua formação filosófica  e jurídica na defesa do cristianismo, não obstante, propunha o questionamento aos cristãos “Quid ergo Athenis et Hierosolymis? Quid academiæ et ecclesiæ?” (“Que têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?”), como uma preocupação com a invasão da filosofia na cristandade. Esse questionamento, serve de base para se compreender o célebre “Credo Quia Absurdum Est”(Creio porque é absurdo),  na verdade  Tertuliano nunca pronunciou essa sentença, mas, em seu De Carne Christi, lançou fundamentos para essa frase, segundo ele “O Filho de Deus nasceu: não há vergonha, porque é vergonhoso.E o Filho de Deus morreu: é totalmente credível, porque não é sólido. E, enterrado, ressuscitou: é certo, porque impossível.” Essas afirmações implicam na independência da religião no que tange as lógica e a racionalidade. A essência da religião não está em seu aspecto racional, mas, no irracional, que Rudolf Otto denominou de numinoso – que poderíamos também chamar de “aspecto sobrenatural” – ou mais precisamente, da experiência numinosa que não se dobra a argumentação científica.

Por isso, é necessário tomar cuidado com essas misturas. Seria como misturar água com o vinho. Eles se misturam, mas, nunca num ponto de mantermos as qualidades de ambos, sempre perderemos as melhores características. O “vinho aguado” perderá seu sabor, a “água com vinho” será turva, perderá a clareza. Assim, eu vejo uma “psicologia religiosa”(ou psicologia cristã) perde sua efetividade e amplitude de ação, restringida pelo olhar teológico, a “religião psicologizada” se atém ao humano, se afastando do divino.

Desde o momento em que eu li no wordpress “psicologia analítica cristã” me veio à mente as palavras de Ernst Gombrich, em sua História da Arte, ele começa seu livro dizendo: “UMA COISA QUE realmente não existe é aquilo a que se dá o nome de Arte. Existem somente artistas.”  Em minha opinião, “UMA COISA QUE realmente não existe é aquilo que se dá o nome “Psicologia Cristã”. Existem somente ‘psicólogos que são cristãos’”. Isso significa dizer, que a na experiência pessoal de cada um pode conciliar a profissão de psicólogo com a sua fé.  A questão é como equilibra-las, como “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, para que não haja perdas nem de um lado nem de outro.

Psicologia Analítica e o Cristianismo

Não se pode negar que o Cristianismo desempenhou um papel determinante para a C.G.Jung, filho, sobrinho e neto de pastores, ele cresceu respirando discussões bíblicas e teológicas. Em suas memórias, ele relata como essa vivência era delicada para ele e para sua família – basta lembrar que seu pai, o advertiu que ele poderia seguir qualquer profissão menos a de teólogo (pastor).

Mas, não devemos reduzir as influencias do cristianismo à experiência pessoal de Jung, o cristianismo faz parte da construção de quem somos ocidente. James Hillman, em entrevista a Laura Pozzo, nos oferece um ponto de reflexão interessante:

J.H. (…)Veja, por que foi necessário para Jung – ou Nietzsche ou Kierkegaard – passar toda uma vida trabalhando com o cristianismo, ou para Freud inventar novos mitos como hordas primordiais ou aquela criança gorducha e polimorfa da sexualidade e as três Pessoas Invisíveis da psique: Ego, Id e Superego? eles estavam tentando encontrar saídas para a sobrecarga cristã. Vai nos tomar pelo menos dez horas de papo só pra começar a falar dessa grande questão que é o efeito de dois mil anos de cristianismo nos casos individuais que encontramos em psicologia. Nem você nem eu podemos fazer nada, somos cristãos.

L.P. Nós não somos cristãos praticantes…

J.H. Sim, somos, porque somos cristãos comportamentais, nós nos comportamos como cristãos – sofremos de modo cristão, julgamos de modo cristão, nos encaramos de uma maneira cristã. Temos que enxergar isto, ou permaneceremos inconscientes, e isto significa que nossa inconsciência é fundamentalmente o cristianismo. A psicoterapia não pode modificar nada, ninguém em lugar algum até que ela encare esta inconsciência cristã, e foi por isso que Freud teve de atacar a religião e Jung teve de tentar modificar o cristianismo. Até Lacan disse que se a religião triunfar, e ele acredita que triunfará, será o fim da psicanálise. (HILLMAN, 1989, p.85-86)

Na fala de Hillman, só faltou ele comentar que não só agimos de modo cristão, mas, também criticamos o cristianismo de modo tipicamente cristão, se olharmos a forma como das várias denominações se criticam mutuamente em discussões doutrinárias e teológicas. Hillman toca no ponto fundamental :  o problema da inconsciência do cristianismo.

Um dos grandes problemas que a psicologia analítica traz é a necessidade como conciliar ou integrar os opostos. Na medida que somos inconscientes do cristianismo em nós, nos tornamos indiferenciados, vivemos apenas o peso da cristandade (da culpa, do pecado, angustia do afastamento de Deus) sem a possibilidade de redenção. Não vivemos o mito que nos constitui. No meio acadêmico e científico a inconsciência do cristianismo (ou da religião) produz em alguns uma sombra “fanática”, dogmática cuja crença na efetividade das teorias (isso me refiro especialmente na psicologia)  produz uma atitude que só posso chamar de “religiosa”.

A psicologia analítica surgiu no contexto marcado pelo cristianismo (não podemos esquecer que a Suíça, em especial, Zurique, foi por muito tempo uma cidadela da reforma protestante), o dialogo com a religião (não só a cristã) é uma forma de não cair na armadilha da negação, da inconsciência e unilateralidade (que são três elementos que frequentemente constituem uma atitude neurótica). A psicologia analítica não defende o cristianismo ou qualquer religião, justamente porque não se ocupa do “sobrenatural” ou de “verdades divinas”, mas, apenas dos fenômenos compreendidos na esfera natural e relacionados com a psique humana. Deus e a Religião são compreendidos pela teoria como realidade psíquica, isso não significa um posicionamento teísta ou ateísta, mas, que até aonde a psicologia pode chegar, ideia de Deus e as ideias religiosas produzem efeitos sobre a psique do individuo. As discussões sobre Deus e sua existência e afins ficam a cargo da teologia.

Se a psicologia analítica não está compromissada com o cristianismo, o mesmo não podemos dizer dos profissionais junguianos em sua individualidade. Cada um vivencia sua religiosidade da forma lhe for mais adequada. Frente ao cliente, ele deve ter plena consciência de sua relação com sua própria matriz religiosa, para ter clareza de seus limites e, assim, respeitar o cliente em sua vivência religiosa, sem impor sua própria perspectiva religiosa ao cliente.

Assim, insisto, a Psicologia Analítica em si é religiosamente neutra. Ela estuda e compreende a religião como sendo algo positivo no desenvolvimento humano. Não nega a religião, permitindo que cada profissional tenha a perspectiva que lhe for própria. Isto é, a psicologia analítica não “induz” ninguém a religião, mas, respeita vivência religiosa do profissional, assim como do cliente.

Referencias Bibliográficas

Hillman, J. Pozzo, L. Entre  Vistas: Sumus Editorial: São Paulo, 1999

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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