“O Luto de Nós – breves reflexões junguianas sobre a Pandemia da Covid-19”

( Texto postado orginalmente no site do CEPAES, em 28 de março de 2020)


Diante da Pandemia do Covid-19 somos convocados a pensar, a trabalhar e elaborar simbolicamente os efeitos dessa pandemia e do isolamento social em nós mesmos, em nossos pacientes e na sociedade. No grupo “Aion – Estudos Junguianos” [i] refletimos sobre essa realidade que vivemos dialogando com o texto de Jung, “Depois da Catástrofe” de 1945, fazendo um paralelo com o pós-guerra e com a crise que atravessamos. 

No texto de 1945, Jung afirma “A visão do mal acende o mal na própria alma. Isso é inevitável” (Jung, 1990 p.22), é uma noção fundamental pois, apesar do isolamento físico, não estamos isolados psiquicamente. Assim, estarmos diante  de tantas imagens e informações que geram medo, desespero, e outros afetos que nos circundam sem ser afetados de algum modo. Inevitavelmente, diante do drama ou do sofrimento humano também tomamos parte desse sofrimento – algumas vezes de forma velada, outras explicitas.  

Em algumas situações, podemos negar esses afetos – racionalizando ou focando em atividades externas, controlando rigidamente as atividades, ou com pensamentos defensivamente positivos. Em outros, somos tomados por esses afetos que podem se manifestar em crises de ansiedade ou pânico (que não se manifestara antes), pensamentos obsessivos e/ou comportamentos compulsivos (como as compras excessivas, estocagem de alimentos etc.) e fantasias que visam atribuir um sentido, racionalidade ou intenção ao vírus.

Uma terceira via seria aceitarmos nosso medo, falarmos dele, conversarmos buscando integrar essa realidade interior, perceber o que é nosso e o que vem da coletividade. Elaborando os diferentes afetos nas ações/atividades que provem segurança e estabilidade ao Ego dos indivíduos.

Desse modo, os afetos que experimentamos nos coloca num mesmo drama coletivo. Não somos imunes ao espírito do tempo, nem aos afetos mobilizados no inconsciente. No texto citado, Jung utiliza uma noção delicada de “culpa coletiva” que devemos observar com cautela – a culpa coletiva nos remete a um sentimento de solidariedade que nos torna participantes do drama coletivo – saindo da polarização algoz-vítima. Pois, como diz um ditado italiano “no fim do jogo o rei e o peão voltam para a mesa caixa”. Sair da polarização implica assumir a responsabilidade sobre si mesmo e sobre o outro, isso não significa ignorar os erros, mas sim considerar os erros visando a reparação solidária e coletiva dos erros – não acusar e subjugar a quem quer que seja.

“A consciência da culpa oferece condições para transformação e melhoria das coisas. Como se sabe, aquilo que permanece no inconsciente jamais se modifica e as correções psicológicas são apenas possíveis no nível da consciência” (Jung, p.37)

O sentimento de solidariedade (advindo da culpa coletiva) possibilita a relação de cuidado consigo e com o outro de forma saudável e construtiva (como integração do dinamismo da alteridade).

Enxergar através das polarizações (direita x esquerda, pró x contra quarentena, quem estoca x quem não estoca alimentos/remédios/álcool gel) é importante para evitarmos os julgamentos morais e percebermos o fato psíquico, as dinâmicas que nos movem nesse período.

Sob certo aspecto podemos pensar nesse período como o atravessar de um luto, luto dos entes queridos, o luto de nossas certezas (a de nossos planejamentos, rotinas, de nossa saúde), luto da liberdade e o luto de nossas ilusões de controle. Essas perdas mobilizam diretamente nossas defesas – condizentes as descritas por Elisabeth Kubler-Ross quando descreveu como etapas do luto negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Contudo, nas famílias, nas redes sociais notamos esses diferentes estágios do luto simultâneos –nega-se a gravidade da crise, racionalizando atividades como se tudo estivesse normal; vemos as reações de raiva assim como notícias do aumento dos casos de violência doméstica e feminicídio; barganha-se com promessas para  de um futuro incerto, barganha-se com a saúde comprando litros de álcool em gel, com promessas religiosas destituídas de contato com o sagrado; a depressão se dá muitas vezes no cansaço, sono, tédio e melancolia, o distanciamento da vida. A aceitação implica compreensão das mudanças pessoais e coletivas, possibilitando rearranjos internos e externos, assim como exercícios e atos de genuínos de solidariedade.

Assim como a perda de um ente querido exige de nós um redimensionamento das nossas relações afetivas (internas e externas), uma reorganização dos papéis sociais (nossos e dos outros), uma reconstrução de projetos e perspectivas; do mesmo modo a incerteza e a perda das ilusões (de controle) nos colocam diante da mesma necessidade de nos reorientarmos diante da existência.

As milhares de mortes ao redor do mundo certamente acende em nós o medo explicito ou velado da morte. Isso nos coloca diante da fragilidade de nosso sistema de crenças – seja a fé na ciência ou na religião. Vemos muitos grupos religiosos desconectados que estão em negação ou barganha diante dessas incertezas, aumentando o sofrimento. É uma situação delicada, pois, a religião é a possibilidade olhar através da morte, vislumbrando significados e possibilidades estão para além da perspectiva científica.

A noção do luto coletivo que vivemos é importante para compreendermos as distintas manifestações do sofrimento que nos chegam pelas diferentes formas. Pensar nessas manifestações em como somos afetados nos ajuda a contribuir com a elaboração e enfretamento desse momento. Devemos ressaltar que, apesar do sofrimento, isso não diminui a responsabilidade individual e coletiva acerca de nossas escolhas, acolhendo as decisões técnicas que visam preservar as vidas, mesmo que isso signifique a manutenção do isolamento social.

Referência Bibliográfica: 
 

JUNG, C.G., aspectos do Drama contemporâneo, Petrópolis:Vozes, 1990  


[i]No dia 23/03  tivemos nosso primeiro encontro on-line do Aion por conta da Pandemia da COVID-19, de modo que este texto é baseado na discussão do Aion. Agradeço a todos os membros do Aion que contribuíram para essa discussão.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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