Uma Reflexão sobre o Arquétipo Paterno
(publicado originalmente em duas partes, em 16 de julho 2012 e 24 de julho de 2012)
Nos últimos tempos, venho vivenciando as primeiras sensações da paternidade. Isso tem me feito refletir não só acerca deste momento, mas, entorno dessa vivência que não é pessoal, mas, arquetípica. A respeito dessa experiência, desde muito, a música “O filho que eu quero ter” (Vinicius de Moraes e Toquinho) me tocou profundamente. Conta a história que, Toquinho
numa bela tarde, na praia de Boa Viagem, no Recife, contou a Vinícius sobre seu desejo de ter um filho. Experiente no assunto, o poeta respondeu algo como “Vai nessa! Dá trabalho, mas é muito bom.”
E Toquinho foi além. Mostrou-lhe uma melodia que havia composto inspirado naquele desejo, com uma levada típica de cantigas de ninar. Foi à praia e deixou o parceiro a embalar a música recém-composta.
Ao voltar, encontrou Vinícius aos prantos, com a letra pronta.
Toquinho costuma dizer que a vontade de ter filho era sua, mas Vinícius fez a letra pensando muito mais em si. O homem encantado com o sonho de ter um filho, vê-lo crescer e, ao final, em seu leito de morte, ser por ele embalado com a mesma canção com que o fazia ninar, embevecido por vê-lo reproduzir seu sonho de também ter um filho. (http://portrasdaletra.blogspot.com.br/2007/04/o-filho-que-eu-quero-ter.html)
Antes de continuar, é melhor lembrarmos a música.
O Filho Que Eu Quero Ter
É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem
De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem
Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.
Ao cruzar o desejo de Toquinho com a letra de Vinicius, vislumbramos o mistério da paternidade que nos atravessa geração após geração, regenerando e fortalecendo o ciclo da vida. Em sua canção, Vinicius descreve não apenas o drama de uma vida, mas o próprio drama humano.
Ao abordarmos o conceito de ‘arquétipo’ na psicologia junguiana, referimo-nos a uma ‘espécie de drama sintetizado: começa de tal e tal maneira, amplia-se em virtude de tal ou tal complicação e encontra sua solução desta ou daquela forma. Este é um modelo comum’ (EVANS, 1973, p. 55). Buscamos, assim, compreender os aspectos relativos à experiência humana — o drama humano. Nesse sentido, o arquétipo abrange todas as possibilidades inerentes a esse núcleo temático; em nosso caso, o arquétipo paterno.
Mas, por que falar em “arquétipo paterno” e não em “função paterna”? O conceito de “função paterna” desenvolveu-se, sobretudo, a partir da releitura de Lacan, que a compreende no plano da estruturação do sujeito, associada ao processo edipiano. Nesse contexto, a “função paterna” — ou “o Nome-do-Pai” — interpõe-se ao par mãe-filho, representando a “Lei” e a “autoridade”. Segundo Brandão, “o Édipo lacaniano deve ser situado em torno da função paterna, articulando os conceitos de falo, falta de objeto e castração” (2005, p. 30).
Assim, ao nos referirmos ao arquétipo paterno, não negamos a contribuição da psicanálise; buscamos, antes, transcendê-la, sem nos restringirmos a uma possibilidade única. Compreendemos, portanto, que a função paterna, conforme descrita pela psicanálise, constitui uma das expressões desse arquétipo.
Pluralidade do Arquétipo Paterno
O arquétipo paterno é uma configuração de miríades de possibilidades da experiência humana de ser pai. Experiência esta que vai desde o aspecto mais basal ou puramente biológico, pautado na procriação, até o aspecto mais diferenciado, que é a adoção por escolha e afetividade.
Por estar enraizado em uma experiência tão arcaica, o arquétipo paterno está, em certo nível, intimamente relacionado à dimensão da masculinidade; por isso mesmo, podemos acreditar que é a partir do arquétipo paterno que os demais arquétipos masculinos se diferenciam. Podemos compreender esse fenômeno a partir do que Neumann denominou ‘processo de fragmentação de arquétipos’.
aquilo que chamamos de “fragmentação de arquétipos” é um processo mediante o qual a consciência busca arrancar do inconsciente o conteúdo material dos arquétipos a fim de agregá-lo ao seu próprio sistema. (…)
Ocorre uma fragmentação no sentido de que, para a consciência, o arquétipo primordial se decompõe num amplo grupo de arquétipos e símbolos inter-relacionados. Ou melhor, esse grupo pode ser concebido como a periferia que envolve um centro desconhecido e intangível.(NEUMANN, 1995, p. 232)
A dinâmica de fragmentação de Neumann nos ajuda a compreender a relação estabelecida entre esse arquétipo e os demais arquétipos masculinos (como os dos irmãos [fratria], herói, mestre e velho sábio, entre outros). Contudo, deve-se ter clareza de que
“a fragmentação dos arquétipos não deve, de modo algum, ser concebido como um processo analítico consciente. (…) o surgimento de um grupo de arquétipos, cindido de um arquétipo mais volumoso, assim como do grupo correspondente de de símbolos, é a expressão do processo espontâneo que mantém intacta a atividade do inconsciente. Para o ego consciente, esses arquétipos e símbolos aparecem como produtos do inconsciente, mesmo quando, na realidade, o seu surgimento é constelado pela consciência e pela sua situação geral”(NEUMANN, 1995, 234)
As mitologias retratam a amplitude desse arquétipo. Um trabalho relevante foi realizado por Colman e Colman no livro O Pai: mitologia e reinterpretação dos arquétipos, no qual os autores investigam as representações arquetípicas paternas e apresentam cinco modelos que nos permitem refletir sobre as diferentes facetas míticas do pai.
1. Pai Criador: Esta imagem de pai refere-se à criação como um “ato criativo”. A paternidade possibilita que o indivíduo se compreenda como um “ser criador”, estabelecendo, assim, a sua família e o seu papel social.
Paradoxalmente, o impulso masculino de criação leva para longe da família e da experiência de paternagem e até para longe da experiência de um relacionamento com a mulher. Sua capacidade compartilhada de criar a vida é facilmente desviada. O papel de pai torna-se uma metáfora de sua capacidade de criar edifícios, cidades, arte, religião e governo. Seu papel na criação de um filho é identificado com outros tipos de criatividade. (COLMAN, COLMAN, 1990, p. 30)
Esse modelo baseia-se em uma perspectiva de paternidade distante, similar à do deus criador masculino — alheio e onipotente —, que cria a realidade independentemente do feminino, não se envolvendo diretamente nos cuidados da criação. Exemplos míticos incluem Deus, no Antigo Testamento da mitologia judaico-cristã; Olorum, na mitologia afro-brasileira; e Atum, na mitologia egípcia do Antigo Império.
2 – Pai-Terra: Embora a ideia de “pai-terra” possa parecer incomum, por estarmos acostumados ao modelo “mãe-terra”/“pai-céu”, esse modelo arquetípico de paternidade caracteriza-se pelo cuidado e pela nutrição da prole, mesmo que não envolva uma relação familiar direta.
Essas figuras da terra não são homens de família, mas são nutridores, personagens masculinos que se ocupam do cuidado regular de coisas em crescimento. (…) Ele compartilha do arquétipo do homem da terra, ctônico, que cultiva, o verdadeiro pai-terra que não é reconhecido com muita frequência na nossa cultura, mas que, não obstante, está presente.(COLMAN, COLMAN, 1990, p. 52)
Esse modelo arquetípico compreende figuras míticas como Baco, que ensinava e ajudava os homens no cultivo e na produção de vinho; Pã e os Faunos, que ensinavam os cuidados com a natureza e com os animais; e Freyr, o deus da agricultura na mitologia nórdica.
3 – Pai-Céu: Esta categoria de ‘pai-céu’ está associada às mitologias celestes, cujas principais características são prover, julgar e proteger.
Um pai desses vive antes na fronteira do que no coração da família. Quando ele age como disciplinador ou como aquele que decide, sua influência depende de seus símbolos exteriores de poder e não de sua presença efetiva. Sua família define sua autoridade como originada no mundo exterior. Quando bem sucedido neste, ele é respeitado (se que bem não necessariamente amado); se fracassar fora, também fracassará na família, visto que sua potência decorre do sucesso exterior.(COLMAN, COLMAN, 1990, p. 52)
O pai-céu é como o deus-sol do mito, que traz a luz da consciência para reinos antes dominados pelas mãe. Ele pouquíssimas vezes tem consciência do grau até o qual separa mãe e filho ao oferecer uma presença alternativa em casa. Ele apenas representa o papel que um homem deve exercer, uma vez que deixou a cargo da mãe-terra as responsabilidades da criação do filho. Alguém deve ajudar a criança a deixar o ninho e encontrar sua individualidade. A partir dessa posição exterior, o pai é perfeitamente adequado à função. (COLMAN, COLMAN, 1990, p. 66)
O modelo Pai-Céu revela um pai distante, que atua ‘acima’, cuja relação com os filhos é pautada pela lei, pela ordenação e pela disciplina. Na mitologia, esse modelo é representado por divindades celestes poderosas que se manifestam à distância, como Zeus, Thor e Yahweh (Iavé), as quais, no geral, inspiravam mais temor do que afeto ou intimidade.
4 – Pai-Real: Este é o modelo arquetípico que unifica tanto as características do Pai-Terra quanto as do Pai-Céu. O termo ‘Real’ remete à realeza, associando esse arquétipo à figura do patriarca e representante de uma dinastia, sendo o Pai-Real o rei e senhor da casa.
(…) o pai real é uma entidade absoluta que contém em si todas as funções, incluindo aquelas relegadas tradicionalmente à mulher. O pai real não procura ter como parceria uma deusa terra, dotada de um forte poder feminino que lhe seja propício. Em vez disso, toma por esposa uma virgem, valorizada por ser pura e inocente. Ela ela tem pouca educação politica ou poder pessoal. Cumpre todas as suas tarefas sob os olhos atentos do pai real. Ele a protege, ao lado do resto da família e do reino. Essa proteção rouba da mulher muito de sua influência e potência femininas, da mesma maneira como elimina toda competição pelo poder em casa.(COLMAN, COLMAN, 1990, p. 78)
Assim, o Pai-Real conduz a família, mas não permite a participação dos demais membros — esposa e filhos.
Pai-Diádico: Esta última categoria caracteriza-se pela ‘díade’, isto é, pelo ‘par’. Ao contrário das categorias anteriores, este é o tipo de pai que divide o seu papel com uma companheira.
A paternagem diática significa o compartilhamento de papéis-terra e papéis-céu por ambos os parceiros. Na prática, requer uma operação intercambiável do pai e da mãe. O pai vai precisar deixar de lado a imagem de si mesmo como única autoridade-céu e aceitar muitas funções-terra como responsabilidade sua; a mãe necessitará abandonar sua imagem de si mesma como a principal autoridade-terra e terá de realizar muitas funções-céu. (COLMAN, COLMAN, 1990, p. 91)
Essa categoria implica não só na divisão de papéis, mas, na interação do componente feminino. A imagem mítica associada é da Sizigia, onde há o emparelhamento do masculino e o feminino, em equilíbrio.
A categorização proposta por Colman e Colman deve ser compreendida como um conjunto de possibilidades arquetípicas que, contudo, não definem o indivíduo. Em momentos distintos da vida, a experiência da paternidade pode assumir variadas facetas. É fundamental compreender que essas categorias não são escolhas conscientes, mas padrões inconscientes que se manifestam tanto ao longo da história humana quanto na vivência do homem contemporâneo.
Ter ou Ser?
No início deste post, apresentei a canção ‘O filho que eu quero ter’, de Vinicius de Moraes e Toquinho, que expressa justamente o desejo do pai: ‘De repente eu vejo se transformar num menino igual a mim’. Muitas vezes, o desejo de ‘ter um filho’ oculta uma questão ainda mais crucial: a reflexão acerca de ‘o pai que eu quero ser’.
Acredito que esta questão é fundamental, pois, precisamos ter clareza de que a força do arquétipo reside em sua inconsciência. Isto é, quanto mais inconsciente estiver o indivíduo, maior será o poder do arquétipo.
Na medida em que pudermos refletir sobre o “pai que eu quero ser”, poderemos recolher nossas projeções, bem como confrontar o nosso próprio complexo paterno. Integrar conscientemente a transição de filho para pai nos permite fazer escolhas autênticas, rompendo com a mera repetição do nosso passado — seja ele pessoal ou coletivo.
Essas duas dimensões (ter e ser) abrem a possibilidade de refletirmos sobre a psicologia da paternidade. É importante frisar que não me refiro aqui ao “papel de pai” — ou seja, não estamos tratando de uma função social ou relacional, mas de uma dinâmica que estrutura e modifica profundamente a experiência do indivíduo consigo mesmo, constituindo uma etapa fundamental em seu processo de individuação.
É igualmente importante lembrar que todo arquétipo se compõe de dois pólos; no caso do arquétipo paterno, temos os pólos PAI e FILHO. Somente com a integração do pólo “FILHO” poderá haver uma realização efetiva e criativa da paternidade. Em outras palavras, é essencial que o indivíduo esteja em paz com o próprio “Ser-Filho” para, assim, poder “Ser-Pai”.
É importante observar que a inconsciência acerca de si mesmo — e de sua própria história como filho — é compensada pela projeção no filho de seus próprios desejos; isto é, por meio dessa projeção, o pai tenta vivenciar a totalidade de si mesmo. Quando essa integração não ocorre, o filho sofre sob o peso das expectativas e desejos paternos, uma vez que o pai não consegue concebê-lo para além de seus próprios anseios. Outra possibilidade é a rejeição ou indiferença ao filho, como projeção da rejeição desse aspecto de sua própria trajetória.
Assim, a reflexão sobre o “pai que eu quero ser” expressa o encontro dos polos “Eu-Filho” e “Eu-Pai”, confrontando-os com os seus contrapontos externos: “Meu-Pai” e “Meu-Filho”. É justamente essa totalidade que se encontra na canção “O Filho que eu quero ter”, de Vinicius e Toquinho (apresentada no post anterior), na qual o filho se torna pai, cujo próprio descendente nasce, cresce e se prepara para também tornar-se pai, fechando o ciclo do arquétipo
Para além da lei: Revisitando a família de Édipo
No âmbito da psicologia, a paternidade tem sido analisada, de modo geral, sob um viés delimitado e restritivo
Nas Produções teóricas desenvolvidas ao longo desse século, onde se destacou a abordagem psicanalítica, o espaço reservado ao pai, no que tange ao processo do filho, foi e tem sido definido basicamente em duas funções: em primeiro lugar, a de interditar o vínculo com a mãe, impedindo que se prolongue indefinidamente a natureza simbiótica dessa relação dual, que visa preponderantemente a obtenção do prazer com a satisfação das necessidades do filho; e, em segundo lugar, concomitantemente com a primeira função, a de introduzir o filho no mundo da Lei, desenvolvendo com isso a linguagem, a noção de limites e o recurso de discriminação, três elementos preponderantes para sua inserção na cultura. (ALMEIDA, 2007, p.41-2)
“Certamente, a contribuição psicanalítica foi importante; contudo, essa concepção relaciona-se a uma vertente específica que não corresponde à totalidade das escolas da psicanálise. Destacamos, neste contexto, a teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. Cito Winnicott, pois, em larga escala, suas concepções dialogam com a perspectiva junguiana (especialmente a da escola inglesa).
Uma crítica frequentemente direcionada à psicanálise diz respeito à sua visão, por vezes, ‘patologizante’ da vida psíquica. É notável que o próprio mito de Édipo sirva de evidência para essa perspectiva. Contudo, a tragédia edipiana configura-se, primordialmente, como uma ‘maldição familiar’ que encontra seu ápice no herói. Para uma compreensão aprofundada desse ‘complexo familiar’, torna-se pertinente investigar as duas gerações que o precedem, analisando a trajetória de seu avô e de seu pai.
Segundo Brandão (2005), o avô de Édipo foi o rei tebano Lábdaco, cujo pai, Polidoro, morreu quando ele tinha apenas um ano. Por ser muito novo, seu avô Nicteu assumiu o trono, mas acabou por se matar, deixando o poder para Lico (seu tio-avô). Após assumir o reinado, Lico teve um período marcado por guerras com Atenas e, especialmente, pela introdução do culto a Dionísio na Beócia. Como Lábdaco não permitira o culto a Dionísio em Tebas, foi despedaçado pelas bacantes.
Com a morte prematura de Lábdaco, seu filho Laio, por ser ainda muito jovem, não pôde assumir as rédeas do governo e, mais uma vez, Lico tornou-se regente; mas, dessa feita, por pouco tempo, porque foi assassinado por seus sobrinhos Anfião e Zeto.
Laio, com a morte violenta do tio, fugiu precipitadamente de Tebas e buscou asilo na corte de Pélops, o amaldiçoado filho de Tântalo, (…). Laio, todavia, herdeiro não apenas do trono de Tebas, mas sobretudo de algumas mazelas de “caráter religioso” de seus antepassados, particularmente de Cadmo, que matou o Dragão de Ares, e de Lábdaco, que se opôs ao deus do êxtase e do entusiasmo, cometeu grave hamartía na corte de Pélops. Desrespeitando a sagrada hospitalidade, cujo protetor era Zeus, e ofendendo gravemente Hera, guardiã severa dos amores legítimos, raptou o jovem Crisipo, filho de seu hospedeiro (…). Este(Pélops) execrou solenemente a Laio, o que, juntamente com a cólera incontida de Hera, teria gerado a maldição dos Labdácidas. Crisipo, envergonhado, matou-se. (BRANDÂO, 2005, p.237)
Como podemos perceber, Laio cresceu sem pai, refugiado em uma corte distante. Seu principal “pecado” foi raptar Crisipo, filho de seu anfitrião Pélops; esse crime configurou um ato contra o próprio Zeus. Por essa transgressão, Laio foi sentenciado pelo oráculo de Apolo: seria morto pelo próprio filho e, segundo a versão de Sófocles, teria a esposa desposada por ele.
O nascimento de Édipo atendia a uma determinação da lei divina, uma vez que o crime de Laio deveria ser punido. A história de Édipo é sobejamente conhecida: após o nascimento, o menino foi exposto, porém resgatado por um pastor e levado à corte de Pólibo, rei de Corinto, onde foi criado como filho do monarca. Posteriormente, por ocasião de uma desavença no reino, Édipo partiu em busca de respostas e passou pelo oráculo de Delfos, onde “em vez de receber da Pítia uma resposta à pergunta que lhe fizera, a sacerdotisa de Apolo o expulsou do templo sagrado, vaticinando-lhe algo terrível: ele estava condenado a matar o pai e unir-se à própria mãe” (BRANDÃO, 2005, p. 245).
Édipo não retornou a Corinto, buscando escapar do destino profetizado por Apolo. No caminho entre Daulis e Delfos, encontrou a comitiva de Laio. Após ser afrontado por Laio — a quem desconhecia —, Édipo reagiu, matando seu pai e os membros da comitiva; restou apenas um escravo. Sem intenção de retornar a Corinto, seguiu em direção a Tebas, cidade então assolada pela Esfinge. Ao vencer o monstro, Édipo conquistou o direito de reinar. Anos mais tarde, quando uma peste assolou o reino e motivou a busca pelo assassino do antigo soberano, os indícios apontaram para o próprio Édipo. Ao descobrir sua história frente aos acontecimentos, Édipo, em desespero, furou os próprios olhos e partiu em exílio. Vagou até encontrar a paz em Colono, onde foi acolhido pela terra e tornou-se herói protetor daquela região, futura Atenas.
Ao observarmos a família de Édipo, notamos que, em três gerações, não houve uma relação estabelecida de PAI-FILHO. Outros aspectos relevantes são as mortes prematuras, as ofensas aos deuses e a criação por estranhos. Um aspecto fundamental, contudo, é que todos eram representantes da lei; por serem de família real, representavam essa autoridade para o seu povo. Eles pertenciam à categoria de “Pai-Céu” (conforme vimos na primeira parte do texto), que indica justamente o distanciamento da família e um posicionamento de julgamento e proteção — neste caso, voltado ao povo.
Acredito ser fundamental, para entendermos o que nos revela o mito de Édipo, que nos voltemos à peça:
Creonte
Vou dizer, pois, o que ouvi da boca do deus. O rei Apolo ordena, expressamente, que purifiquemos esta terra da mancha que ela mantém: que não deixemos de agravar-se até tornar-se insuperável.
Édipo
Mas, por que meios devemos realizar essa purificação? De que mancha se trata?
Creonte
Urge expulsar o culpado, ou punir, com a morte, o assassino, pois o sangue maculou a cidade.
Édipo
De que homem se refere o oráculo à morte?
Creonte
Laio, o príncipe, reinou neste país, antes que te tornasse nosso rei.
(SOFOCLES, s/d, p.23-4)
É importante notar que o drama central da narrativa de Édipo gira em torno da morte de Laio; o incesto é um elemento secundário na trama, configurando-se como parte da punição imposta ao rei tebano. Acerca dessa exigência de Apolo, podemos compreender que o processo de Édipo encontrar-se consigo mesmo — e com a sua própria história — exigia, necessariamente, o confronto com a figura paterna.
Considerações Finais
Neste texto, busquei refletir sobre a paternidade para além do modelo convencional. A vivência interior da paternidade exige atenção e escolha — escolha que deve ser renovada cotidianamente. Os modelos de paternidade apresentados por Colman e Colman elucidam dinâmicas que, frequentemente, não envolvem a escolha consciente.
Muitas vezes, pensamos a paternidade sob a ótica da organização psíquica do filho. Contudo, não podemos perder de vista que a paternidade, enquanto dimensão do desenvolvimento, serve ao processo de individuação do homem e, quando integrada, contribui para o desenvolvimento pleno do filho.
Certamente, a paternidade não se restringe à dimensão biológica. A mitologia nos ensina muito acerca da função paterna. Sem ignorar a importância da lei ou da figura da ‘terceira pessoa’ — que amplia e desfaz a díade mãe-filho —, a mitologia grega, por meio do centauro Quirão (ou Chiron), que acolheu diversos heróis abandonados por seus pais, nos ensina que a função paterna também é acolher, orientar e auxiliar os filhos a encontrarem o próprio destino.
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Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Maria Beatriz Vidigal Barbosa de. Paternidade e subjetividade masculina em transformação: crise, crescimento e individuação. Uma abordagem junguiana. 2007. Dissertação (Mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-13082007-150555/>. Acesso em: 2012-07-19.
BRANDÃO, Hortensia Maria Dantas, A LEI EM NOME DO PAI: IMPASSES NO EXERCÍCIO DA PATERNIDADE NA CONTEMPORANEIDADE Salvador: UFBA, Tese de mestrado, 2005. Disponível em : http://www.pospsi.ufba.br/Hortensia_Brandao.pdf
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. vol. III. 13 ed. Petrópolis: Vozes, 2005.
SÓFOCLES Rei Édipo. In: “Rei Édipo – Antígone – Prometeu acorrentado”. Prefácio, tradução e notas de J.B. Mello e Souza. 17.ed. Rio de Janeiro : Ediouro. s/d.
EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.
COLMAN, A.D.; COLMAN, L.. O Pai: Mitologia e Reinterpretação dos Arquétipos. São Paulo: Editora Cultrix, 1990.
NEUMANN, Erich História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995.
Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257). Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. .


