Rise Up: o que nos levanta quando a força já não basta?
Levantar-se costuma ser associado à força, à determinação e à capacidade de enfrentar aquilo que se interpõe entre o sujeito e a continuidade de sua vida. Essa leitura, fortemente incorporada ao imaginário contemporâneo da superação, pressupõe que o movimento depende sobretudo de uma decisão consciente: diante da adversidade, seria preciso reunir recursos, recuperar a confiança e seguir adiante. Rise Up, de Andra Day, permite outra aproximação. A canção nasce justamente de um momento em que a vontade já não parecia suficiente e transforma a imagem de se levantar em algo mais complexo do que uma convocação à perseverança.
Quando compôs a música, Day atravessava um período de estagnação pessoal e profissional, enquanto uma amiga próxima enfrentava um diagnóstico de câncer. A cantora descreveu posteriormente a composição como uma espécie de oração e afirmou que escreveu aquilo que ela própria precisava ouvir naquele momento. O contexto modifica a escuta da música porque desloca o gesto de levantar-se do campo da certeza para o da necessidade. A voz que afirma que se levantará não parte de uma posição de domínio sobre as circunstâncias; ela emerge precisamente quando essa capacidade está ameaçada.
A cultura contemporânea transformou a superação em uma espécie de imperativo moral. Diante da adversidade, espera-se que o indivíduo desenvolva resiliência, reorganize-se, encontre aprendizado, produza sentido e retome rapidamente o movimento. A era do positivismo tóxico produz culpa e não permite que o indivíduo desanime. Até o sofrimento tende a ser avaliado segundo sua produtividade: depois dele, deveríamos nos tornar mais fortes, mais conscientes, mais preparados. A experiência que não produz imediatamente uma narrativa de crescimento parece incompleta ou mal elaborada. Nesse cenário, levantar-se corre o risco de deixar de representar uma possibilidade para tornar-se uma obrigação.
A psicologia analítica introduz uma ruptura importante nessa lógica ao retirar do eu a posição de soberania sobre a vida psíquica. Para Jung, o eu constitui o centro do campo da consciência, mas não corresponde à totalidade da psique. A distinção altera profundamente a maneira de compreender tanto o sofrimento quanto a transformação. Se a psique excede aquilo que conhecemos e controlamos, os processos de mudança não podem ser reduzidos às decisões conscientes. Complexos, afetos, sonhos, fantasias, sintomas e imagens possuem graus variados de autonomia e demonstram repetidamente que a intenção do eu representa apenas uma das forças atuantes na experiência.
O esgotamento adquire, sob essa perspectiva, um significado mais complexo. Ele não corresponde necessariamente à ausência de recursos psíquicos, mas pode indicar o limite dos recursos disponíveis à organização consciente naquele momento. Uma pessoa pode ter passado anos sustentando a vida pela eficiência, pelo controle, pela adaptação às expectativas externas ou pela capacidade de cuidar dos outros. Essas características cumprem funções importantes e podem participar de uma adaptação bem-sucedida. O conflito começa quando a estratégia deixa de ser recurso e passa a determinar rigidamente aquilo que o sujeito pode ser. A eficiência já não admite falha; a autonomia não admite dependência; o cuidado com o outro impede o reconhecimento das próprias necessidades; a persona construída para responder ao mundo torna-se estreita demais para comportar experiências que contradizem sua imagem.
A crise aparece então não apenas como interrupção de uma trajetória, mas como confronto com os limites de uma forma de consciência. Insistir em “voltar ao normal” pode significar tentar restaurar precisamente a organização que já não consegue responder à experiência. A imagem central de Rise Up ganha densidade nesse ponto: levantar-se não equivale necessariamente a recuperar a posição ocupada antes da queda. Se a queda revelou algo que a consciência anterior não comportava, o movimento seguinte precisará incluir essa descoberta.
A questão deixa de ser simplesmente como reunir forças para continuar e passa a envolver outra pergunta: o que se movimenta na psique quando a vontade consciente já não consegue conduzir sozinha o processo?
A psique que não obedece ao eu
Um dos aspectos mais desconcertantes da experiência psíquica é descobrir que conhecer racionalmente um problema não garante poder modificá-lo. Podemos compreender perfeitamente a inadequação de determinada reação e continuar reagindo da mesma maneira. Reconhecemos um padrão afetivo, identificamos sua origem, percebemos suas consequências e, mesmo assim, voltamos a ele. Uma situação aparentemente pequena produz uma resposta desproporcional; uma crítica atinge um ponto muito mais profundo do que seu conteúdo justificaria; um relacionamento desperta sentimentos que pareciam pertencer ao passado. Nesses momentos, a diferença entre consciência e totalidade psíquica deixa de ser uma formulação teórica e se torna experiência.
A teoria dos complexos oferece uma das demonstrações mais claras dessa autonomia. Jung chama atenção para uma inversão importante: costumamos dizer que uma pessoa “tem” complexos, quando a experiência mostra que, em determinadas circunstâncias, são os complexos que nos têm (JUNG, OC 8, §200). Quando constelados, interferem nas intenções da vontade, perturbam a atuação consciente, produzem bloqueios e podem influenciar a fala e a ação sem que o eu reconheça imediatamente sua participação. Jung chega a afirmar que os complexos se comportam como organismos independentes (JUNG, OC 8, §253).
Essa formulação não atribui aos complexos uma existência separada da personalidade. Ela descreve fenomenologicamente uma experiência conhecida: a de sermos tomados por uma configuração afetiva cuja intensidade modifica temporariamente nossa percepção e nossa capacidade de escolha. A pessoa continua sendo ela mesma, mas já não ocupa exatamente a posição consciente que acreditava ocupar.
A força coercitiva da psique aparece nesse desencontro entre intenção e acontecimento interior. Não escolhemos conscientemente todos os conteúdos com os quais precisaremos nos confrontar, assim como não determinamos antecipadamente quais experiências irão constelar nossos complexos. Também não decidimos quais imagens surgirão nos sonhos, quais afetos resistirão às explicações racionais ou quais perguntas continuarão retornando mesmo depois de tentarmos encerrá-las.
Pensar essa força apenas como obstáculo, entretanto, significaria permanecer preso à perspectiva do eu. A mesma autonomia que perturba os planos conscientes pode romper configurações que se tornaram excessivamente rígidas. A psique que se recusa a obedecer também pode ser a psique que já não consegue permanecer organizada indefinidamente em torno de uma unilateralidade.
A compensação ocupa uma posição central nessa dinâmica. Jung parte do caráter seletivo da consciência: toda direção consciente exige que determinados conteúdos sejam privilegiados enquanto outros permanecem excluídos. Essa seleção é indispensável ao funcionamento consciente, mas produz inevitavelmente unilateralidade. Os conteúdos incompatíveis com a orientação dominante não desaparecem por terem sido excluídos; permanecem no inconsciente e podem constituir um contraponto à atitude consciente. Quanto mais rígida se torna a unilateralidade, maior pode se tornar a tensão produzida por aquilo que ficou fora dela (JUNG, OC 6, §§773-774).
A pessoa identificada com a força encontra a vulnerabilidade. Quem construiu a própria identidade em torno do controle depara-se com aquilo que não pode controlar. Uma adaptação fundada exclusivamente no reconhecimento externo pode ser abalada por uma perda de status ou função. Quem aprendeu a existir somente através do cuidado com os outros pode descobrir, diante do esgotamento, que não desenvolveu linguagem para reconhecer as próprias necessidades.
Nenhum desses movimentos precisa ser interpretado como punição da psique ou como uma inteligência secreta que planeja pedagogicamente nossas crises. A autorregulação psíquica não funciona como um professor moral que organiza acontecimentos para nos ensinar lições. A compensação descreve uma relação dinâmica: aquilo que a consciência exclui não deixa necessariamente de existir, e sua exclusão prolongada modifica a tensão entre os polos.
Rise Up se distancia, nesse ponto, de uma narrativa simples de força. A canção não começa em uma posição de potência que precisa apenas ser reafirmada. Seu movimento nasce da experiência de esgotamento. A afirmação de que o sujeito se levantará surge quando permanecer na mesma posição já não oferece continuidade possível.
A noção de Self aprofunda essa leitura. Na psicologia analítica, o Self não designa um “eu verdadeiro” escondido sob máscaras sociais, tampouco uma versão idealizada da personalidade à qual deveríamos chegar. Ele representa a totalidade psíquica, consciente e inconsciente, e introduz uma referência que excede a perspectiva do ego. A relação ego-Self impede que individuação seja confundida com aperfeiçoamento consciente: tornar-se mais inteiro não significa ampliar indefinidamente o domínio do eu, mas reconhecer sua posição relativa dentro de uma realidade psíquica maior.
Essa relação também modifica a noção de força. O movimento transformador não precisa surgir como uma decisão heroica do ego. Em determinados processos, ele aparece primeiro como perturbação, impasse, perda de sentido ou impossibilidade de continuar repetindo uma adaptação conhecida. O que inicialmente é experimentado como fracasso da vontade pode revelar o esgotamento de uma organização que precisa ser transformada.
A força coercitiva da psique não determina antecipadamente para onde iremos. Ela rompe, antes, a fantasia de que permaneceremos indefinidamente iguais porque assim decidimos.
O símbolo do levantar-se
A escolha da imagem central da canção é significativa. Rise Up não se organiza em torno de vencer, conquistar ou derrotar. O movimento é levantar-se. A diferença parece pequena enquanto tratamos as palavras apenas como equivalentes de superação, mas se torna decisiva quando nos aproximamos delas simbolicamente.
Jung diferencia o símbolo de uma expressão cujo significado já é conhecido. O símbolo vivo constitui a melhor formulação possível para algo que ainda não pode ser inteiramente apreendido pela consciência (JUNG, OC 6, §§903-906). Por isso, traduzir imediatamente o gesto de levantar-se como “superação” encerra a imagem justamente onde sua potência começa. O símbolo não apenas substitui uma ideia conhecida por uma figura mais expressiva; ele permite aproximar a consciência de uma experiência que ainda excede sua capacidade de formulação.
Levantar-se pressupõe uma posição anterior. O corpo esteve abaixado, deitado, caído ou submetido ao peso de alguma coisa. A verticalidade só adquire sentido porque existe uma horizontalidade que a antecede. A imagem conserva, portanto, a experiência da queda dentro do próprio gesto de ascensão.
Esse aspecto impede uma leitura baseada na simples negação do sofrimento. Quem se levanta não demonstra que nunca esteve no chão. Ao contrário: o movimento só pode existir porque a queda aconteceu.
Outras imagens da canção ampliam o mesmo campo simbólico. O nascimento do dia remete à alternância entre luz e escuridão; a onda reúne elevação e retorno; a montanha representa simultaneamente obstáculo, distância, altura e mudança de perspectiva. Todas essas imagens contêm movimentos entre posições opostas sem permitir que uma delas seja simplesmente eliminada.
A psicologia analítica reconhece no símbolo justamente essa capacidade de comportar uma tensão que a linguagem racional tende a resolver prematuramente. Seu sentido não se esgota em uma definição e tampouco permanece idêntico para todas as pessoas ou em todos os momentos. A imagem de levantar-se pode representar resistência, renascimento, recuperação de dignidade, saída de uma posição de submissão, retomada do vínculo com a vida ou necessidade de assumir uma responsabilidade evitada. A pluralidade não torna o símbolo arbitrário. Seu campo permanece organizado pela imagem, mas nenhuma explicação isolada consegue encerrá-lo.
Essa abertura ajuda a compreender por que Rise Up foi apropriada por experiências tão distintas daquelas que participaram de sua criação. A música deixou de pertencer exclusivamente à biografia de Andra Day porque a imagem que organiza sua narrativa toca uma experiência humana muito mais ampla. Queda e ascensão, morte e renascimento, noite e amanhecer, descida e retorno aparecem repetidamente em mitos, narrativas religiosas, contos e sonhos porque oferecem formas simbólicas para experiências de transformação que não podem ser descritas apenas como mudança de comportamento.
A função transcendente aprofunda esse movimento. No ensaio dedicado ao tema, Jung afirma que ela surge da união de conteúdos conscientes e inconscientes (JUNG, OC 8, §131). A formulação não indica a eliminação da diferença entre esses campos, mas um processo no qual sua confrontação pode produzir uma mudança de posição. Ao longo do ensaio, Jung desenvolve justamente a necessidade de estabelecer relação entre as posições da consciência e do inconsciente para que da tensão entre elas possa emergir uma terceira possibilidade (JUNG, OC 8, §131-193).
Essa concepção permite compreender a diferença entre restauração e transformação. Se uma pessoa deseja simplesmente retornar ao estado anterior à crise, o objetivo é restaurativo. Ela pretende recuperar a antiga organização. A função transcendente aponta para outra direção: a tensão pode produzir uma posição que incorpore elementos antes incompatíveis, modificando a própria estrutura a partir da qual a experiência é vivida.
Levantar-se, nessa perspectiva, não significa voltar ao ponto em que se estava antes de cair. Significa alcançar uma posição que só se tornou possível porque a queda introduziu uma experiência que já não pode ser retirada da história.
A transformação psíquica carrega por isso uma dimensão de perda. Uma identidade precisa deixar de funcionar como referência absoluta; uma expectativa precisa ser abandonada; uma imagem idealizada de si ou do outro precisa morrer; uma forma de relação pode precisar terminar para que outra se torne possível. A linguagem do renascimento frequentemente seduz porque enfatiza o novo, mas todo renascimento simbólico pressupõe alguma morte. Sem ela, temos continuidade disfarçada de transformação.
O movimento de Rise Up preserva essa tensão. Levantar-se não apaga a experiência que colocou o sujeito no chão. A verticalidade não cancela a queda; nasce dela. A imagem se torna menos heroica e mais humana: o sujeito não supera a vulnerabilidade para finalmente tornar-se invulnerável. Ele incorpora a experiência de ter sido vulnerável à maneira como passa a ocupar sua posição no mundo.
Eros e a experiência de não se levantar sozinho
A leitura individualista de Rise Up encontra um obstáculo importante na própria estrutura relacional da música. O movimento de levantar-se é repetidamente dirigido a um outro. A força não aparece como patrimônio privado de um indivíduo autossuficiente, mas circula em um campo de vínculo.
Esse aspecto permite aproximar a canção de Eros sem reduzi-lo ao amor romântico. Na obra de Jung, Eros aparece relacionado à função de ligação e de relação. Tomado nesse sentido, ele oferece uma chave importante para compreender que a transformação psíquica não ocorre em isolamento. A individuação não corresponde à conquista de uma autossuficiência que tornaria o outro dispensável, mas à diferenciação necessária para que a relação possa deixar de depender exclusivamente de fusão, submissão ou projeção.
Uma personalidade diferenciada não é uma personalidade sem necessidade do outro. Ao contrário, reconhecer a alteridade exige que o outro deixe de existir apenas como extensão das necessidades do eu. Relação pressupõe diferença.
Essa distinção se torna particularmente importante em situações de sofrimento. Quando alguém perde temporariamente a capacidade de reconhecer possibilidades em si, outra pessoa pode sustentar uma representação que naquele momento não está acessível à consciência. Isso não equivale a substituir a autonomia do sujeito. O vínculo oferece continente para uma experiência que ainda não pode ser inteiramente elaborada.
Na clínica, esse movimento aparece quando uma pessoa chega convencida de que determinada característica define completamente quem ela é. O terapeuta não precisa oferecer uma imagem oposta nem persuadi-la de que está errada. Sua função envolve manter aberto um campo no qual outras possibilidades de compreensão possam emergir. Em relações significativas, algo semelhante ocorre quando alguém continua reconhecendo no outro uma continuidade que o sofrimento tornou temporariamente invisível para ele próprio.
O risco surge quando essa função relacional é confundida com salvamento. Salvar implica assumir para si aquilo que pertence ao processo do outro, criando facilmente posições de onipotência, dependência e controle. Sustentar é diferente. Quem sustenta não realiza a travessia no lugar de ninguém, mas oferece presença suficiente para que ela não precise ocorrer em completo isolamento.
A projeção participa inevitavelmente desse campo. Muitas qualidades que reconhecemos intensamente no outro correspondem a conteúdos que ainda não conseguimos relacionar à nossa própria personalidade. Coragem, criatividade, potência, liberdade e capacidade de amar podem aparecer inicialmente personificadas em alguém que parece possuir exatamente aquilo que nos falta.
Essa dinâmica não transforma toda admiração em projeção, mas lembra que o fascínio frequentemente contém informação sobre a própria psique daquele que se fascina. O outro funciona como portador de uma imagem que ainda não encontrou lugar dentro do sujeito.
O desenvolvimento exige que essa projeção possa ser progressivamente reconhecida. Enquanto toda a força pertence ao outro, a relação permanece assimétrica: um possui aquilo que o outro acredita não possuir. Recolher a projeção não significa deixar de admirar ou de precisar da relação. Significa reconhecer que aquilo que o outro despertou possui também uma correspondência interior que precisa ser desenvolvida.
A relação presente em Rise Up pode ser lida nessa tensão. O outro mobiliza, sustenta, oferece razão para continuar e participa da possibilidade de movimento. Ao mesmo tempo, o gesto de levantar-se precisa acontecer no sujeito. Eros conecta, mas não substitui.
A esperança também se transforma quando compreendida a partir dessa perspectiva relacional. Em vez de funcionar como expectativa ingênua de que tudo terminará bem, ela pode representar a manutenção de uma ligação com possibilidades que ainda não estão disponíveis à consciência. O sujeito não precisa saber como a situação será resolvida para não decretar que nenhuma transformação é possível.
Uma relação pode sustentar essa abertura. Uma obra artística também. Uma imagem onírica, um encontro ou uma experiência simbólica podem interromper o fechamento produzido pelo sofrimento e introduzir uma possibilidade que ainda não possui forma definida.
A própria história de Rise Up demonstra esse movimento. Day escreveu a canção a partir daquilo que precisava ouvir, mas a obra deixou de funcionar apenas como expressão de sua experiência e passou a participar da experiência de outras pessoas. O símbolo criado retornou ao mundo carregando sentidos que sua autora não havia planejado. A criação ultrapassou a intenção consciente de quem criou.
Essa passagem do individual ao coletivo é particularmente relevante para a psicologia analítica. Certas imagens encontram ressonância para além da biografia pessoal porque mobilizam padrões reconhecíveis em experiências humanas compartilhadas. A ascensão depois da queda pertence a esse campo. Seu significado específico depende da história de cada sujeito, mas sua estrutura simbólica permite que pessoas muito diferentes reconheçam nela algo de suas próprias travessias.
Quando uma música se torna linguagem para experiências que sua autora jamais viveu, não precisamos supor que ela antecipou conscientemente todos esses sentidos. A potência está justamente no fato de a imagem comportar mais do que a intenção que participou de sua criação.
Levantar-se outra vez: individuação, repetição e transformação
Uma narrativa convencional de superação precisa de um ponto final. O sujeito encontra o obstáculo, sofre, descobre recursos, vence e emerge transformado. A estrutura é reconfortante porque organiza retrospectivamente o sofrimento: tudo aquilo aconteceu para que se chegasse ao estado atual.
A individuação não oferece essa linearidade. Jung a compreende como processo de diferenciação mediante o qual o sujeito se torna psicologicamente aquilo que lhe é próprio, realizando sua singularidade sem confundi-la com individualismo ou isolamento. O movimento exige uma diferenciação progressiva das identificações coletivas e das posições inconscientes que governam a personalidade, ao mesmo tempo em que amplia a relação entre o eu e a totalidade psíquica (JUNG, OC 7/2).
Isso impede que individuação seja convertida em estado final de desenvolvimento. Não existe um momento em que nos tornamos definitivamente individuados, com conflitos resolvidos, sombra integrada, complexos dissolvidos e personalidade finalmente harmonizada. A totalidade psíquica não pode ser inteiramente assimilada pelo eu, e cada transformação da consciência modifica também sua relação com aquilo que permanece inconsciente.
A própria vida acrescenta novas exigências. Envelhecemos, mudamos de posição nas relações, perdemos pessoas, construímos vínculos, encerramos ciclos profissionais, adoecemos, cuidamos, somos cuidados, encontramos limites corporais e sociais que não existiam anteriormente. Cada etapa pode exigir uma reorganização de conteúdos que pareciam já compreendidos. Por isso, reencontrar um conflito não significa necessariamente retornar ao início.
Uma pessoa pode reconhecer novamente um complexo parental muitos anos depois de tê-lo trabalhado intensamente. O conteúdo é familiar, mas a posição de consciência mudou. Uma nova relação, a parentalidade, o envelhecimento dos próprios pais ou uma perda podem constelar dimensões que antes não estavam disponíveis.
A repetição psíquica precisa então ser diferenciada da mera reprodução compulsiva. A compulsão mantém o sujeito preso à mesma estrutura sem ampliação significativa de consciência. O retorno transformador reencontra temas fundamentais a partir de uma nova posição, permitindo que aspectos antes inacessíveis sejam reconhecidos. A imagem da espiral descreve melhor esse processo do que a linha reta: passamos novamente por regiões conhecidas, mas não ocupamos exatamente o mesmo ponto.
A insistência de Rise Up na repetição do gesto de levantar-se encontra aqui uma ressonância importante. Levantar-se inúmeras vezes não representa fracasso em permanecer de pé. Representa a condição de uma existência na qual nenhuma posição consciente pode ser definitiva.
Essa compreensão também altera nossa relação com a fragilidade. Se esperamos que o desenvolvimento psicológico elimine definitivamente aquilo que nos desorganiza, cada nova crise será interpretada como prova de fracasso. Se reconhecemos a individuação como processo, a crise pode ser examinada a partir daquilo que exige agora, e não apenas comparada ao que acreditávamos já ter resolvido.
O sujeito que se levanta depois de uma perda não recupera exatamente a identidade anterior. Aquele que atravessa uma crise amorosa significativa não retorna à mesma compreensão de vínculo. Quem confronta uma doença, uma mudança corporal ou o envelhecimento precisa integrar uma experiência que altera a relação com os próprios limites. Determinados acontecimentos não podem ser “superados” no sentido de serem deixados para trás. Eles passam a compor a história psíquica e modificam a posição a partir da qual o mundo é experimentado.
Essa é a diferença decisiva entre recuperação e transformação. Recuperar pressupõe retornar a uma condição anterior considerada desejável. Transformar implica admitir que essa condição já não está disponível ou já não é suficiente.
O luto participa necessariamente desse processo. Não apenas o luto pelas pessoas perdidas, mas pelas versões de nós mesmos que deixaram de existir, pelas possibilidades que não se realizarão, pelas fantasias que precisaram ser abandonadas e pelas relações que não poderão corresponder ao que projetamos nelas.
A individuação não promete compensar todas essas perdas com uma versão superior de nós mesmos. Ela exige uma relação progressivamente mais consciente com a totalidade da experiência, incluindo aquilo que não pode ser reparado.
É nesse ponto que a imagem de levantar-se encontra sua maior potência. Ela não afirma que a queda foi necessária, boa ou desejável. Não transforma sofrimento em método de crescimento. Tampouco promete que todo sofrimento produzirá transformação. Ela representa a possibilidade de que a experiência da queda seja incorporada ao movimento seguinte sem precisar ser negada.
A pessoa que se levanta carrega a memória do chão.
Essa memória pode modificar sua relação com a própria força, tornando-a menos identificada com invulnerabilidade. Pode alterar sua relação com os outros, permitindo reconhecer dependência e reciprocidade sem confundi-las com fraqueza. Pode modificar sua compreensão dos próprios limites e introduzir uma relação menos idealizada com aquilo que consegue controlar. A transformação não acontece apesar da experiência vivida, mas inclui aquilo que ela tornou consciente.
A pergunta inicial pode então ser retomada de outra maneira. O que nos levanta quando a força já não basta?
A psicologia analítica não oferece uma resposta única porque o próprio pressuposto da pergunta precisa ser revisto. A força consciente não constitui a única fonte possível de movimento psíquico. Somos atravessados por conteúdos que não escolhemos, vinculados a pessoas que mobilizam regiões desconhecidas de nós mesmos e confrontados por símbolos capazes de formular experiências que ainda não sabemos pensar.
Em alguns momentos, o movimento começa na decisão do eu. Em outros, nasce da impossibilidade de continuar ocupando a mesma posição. Um vínculo pode sustentar temporariamente aquilo que ainda não conseguimos sustentar sozinhos; uma imagem pode abrir uma possibilidade onde a consciência via apenas encerramento; um conflito pode romper uma adaptação que se tornou estreita demais.
Reconhecer que a psique não está inteiramente submetida ao eu não significa abdicar da consciência, mas ampliar sua tarefa. Não somos responsáveis por impedir que todo conteúdo perturbador apareça; somos responsáveis pela relação que construímos com aquilo que aparece. Não escolhemos todos os complexos que serão constelados, mas podemos reconhecer quando estamos sendo governados por eles. Não controlamos as projeções que inicialmente se formam, mas podemos trabalhar para recolhê-las. Não escolhemos todas as perdas, mas participamos da maneira como elas serão incorporadas à continuidade de nossa história.
O movimento de individuação acontece justamente nessa relação entre aquilo que nos acontece e a posição que construímos diante do acontecimento.
Rise Up começou como uma canção criada em um período no qual sua autora precisava encontrar uma maneira de se colocar novamente em movimento. A imagem ultrapassou essa circunstância e passou a acompanhar pessoas, relações e movimentos coletivos que encontraram nela uma forma para suas próprias experiências. Sua força não depende de oferecer uma resposta definitiva sobre como superar a adversidade. Ela permanece viva porque conserva a tensão entre queda e ascensão, esgotamento e movimento, indivíduo e relação, fragilidade e força.
Levantar-se, sob essa perspectiva, deixa de representar a vitória final sobre aquilo que nos derruba. Também não constitui prova de que somos suficientemente fortes para suportar qualquer coisa. A fantasia de invulnerabilidade pertence muito mais ao heroísmo do ego do que ao processo de individuação.
A imagem aponta para um movimento mais complexo: reconhecer a queda sem fazer dela uma identidade, receber a força do vínculo sem transformar o outro em salvador, suportar a tensão entre posições que já não oferecem respostas suficientes e permitir que uma nova relação com a experiência possa emergir.
O sujeito que se levanta não volta ao ponto de partida, ele se levanta sabendo algo sobre o chão. Essa diferença modifica a pergunta inicial e o mais importante já não é descobrir de onde retiramos força suficiente para nunca mais cair. A vida psíquica não oferece essa garantia. A questão que permanece é outra: quem nos tornamos cada vez que nos levantamos?
Referências
DAY, Andra; DECILVEO, Jennifer. Rise Up. In: DAY, Andra. Cheers to the Fall. Warner Bros. Records, 2015.
JUNG, C. G. Tipos psicológicos. Obras Completas de C. G. Jung, v. 6. Petrópolis: Vozes.
JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Obras Completas de C. G. Jung, v. 7/2. Petrópolis: Vozes.
JUNG, C. G. A natureza da psique. Obras Completas de C. G. Jung, v. 8/2. Petrópolis: Vozes.
JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/2. Petrópolis: Vozes.
DAY, Andra. Entrevistas sobre a composição e a recepção de Rise Up. Time; Chicago Sun-Times.
Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga. É graduada em Psicologia pelo IBMR e com especializações em Psicologia Analítica; na área de Perinatalidade; em Psicologia Sexual; e Especialista em Psicologia do Desenvolvimento Infantil e Adolescente, e Familia e Casais. Possui uma especialização em Neuropsicologia e Reabilitação Cognitiva. No Cepaes, oferece atendimentos online. (Atendimentos presenciais disponíveis no RJ).


