Entre o Falso e o Não Vivido: trauma, simbolização e cisão do self na personalidade “como-se”

Responses : 0

A personalidade “como-se”, tal como delineada, pode ser compreendida como uma organização psíquica que se estrutura a partir de falhas no ambiente primário e, simultaneamente, mobiliza, de forma sofisticada, sistemas internos de autoproteção que garantem a sobrevivência psíquica diante de experiências precoces insuportáveis. Se, com Winnicott, compreendemos a constituição do falso self como resposta à falha ambiental, e com Knox reconhecemos a interrupção do processo de simbolização, é com Donald Kalsched que se torna possível acessar a dimensão defensiva arquetípica que se instala quando o trauma ultrapassa a capacidade de integração do ego nascente.

Kalsched descreve que, diante de experiências traumáticas precoces, a psique mobiliza um sistema autoprotetor que atua de forma dissociativa, preservando os aspectos mais vulneráveis do self ao custo de sua exclusão da consciência. Segundo o autor, “o sistema de defesa do trauma protege o espírito pessoal da criança, mas o faz através de uma divisão da personalidade” (Kalsched, 1996, p. 5). Essa divisão não é apenas estrutural, mas dinâmica: uma parte do self permanece encapsulada, enquanto outra assume a função de adaptação ao mundo externo, frequentemente alinhando-se às exigências do ambiente.

Nesse sentido, a personalidade “como-se” pode ser compreendida como expressão dessa cisão. O sujeito vive a partir de uma organização adaptativa que, embora funcional, encontra-se dissociada do núcleo mais autêntico da experiência psíquica. O falso self, descrito por Winnicott, encontra aqui sua contraparte arquetípica: não apenas uma defesa relacional, mas uma instância interna que vigia, regula e restringe o acesso ao self verdadeiro — compreendido por Kalsched como aquilo que permanece preservado, ainda que inacessível.

Essa formulação amplia significativamente a compreensão clínica do fenômeno. Não se trata apenas de um self não reconhecido, mas de um self protegido ativamente contra o risco de nova aniquilação. Kalsched afirma que “os mesmos sistemas que protegem o self também se tornam seus carcereiros” (Kalsched, 1996, p. 19), evidenciando o paradoxo central dessa organização: aquilo que preserva a vida psíquica também impede seu desenvolvimento. A personalidade “como-se”, nesse contexto, deixa de ser apenas uma adaptação e passa a configurar-se como uma forma de aprisionamento psíquico, na qual o sujeito permanece funcional, porém desconectado de sua própria vitalidade.

A articulação com Knox permite compreender como essa cisão impacta diretamente a capacidade de simbolização. Quando experiências traumáticas não encontram mediação relacional, elas não se integram como memória narrativa, mas permanecem como estados afetivos implícitos, organizando o funcionamento psíquico de forma silenciosa e persistente. Knox observa que “a ausência de simbolização impede que a experiência seja metabolizada, mantendo-a ativa em formas não conscientes” (Knox, 2003, p. 92). Nesse cenário, o sujeito não apenas se percebe como irreal, mas vive sob a influência de conteúdos que não podem ser pensados — apenas atuados, evitados ou somatizados.

A psicologia analítica junguiana oferece, nesse ponto, uma ampliação simbólica dessa dinâmica. O si-mesmo, enquanto princípio organizador da totalidade psíquica, permanece ativo mesmo quando não integrado à consciência. Jung afirma que “o si-mesmo é o arquétipo da ordem e da totalidade” (Jung, OC 9/2, §44), indicando que há uma tendência inerente da psique em direção à integração. No entanto, quando o ego se constitui sobre bases frágeis, sustentado por identificações externas e por uma persona hipertrofiada, essa tendência não se realiza plenamente.

A persona, nesse contexto, deixa de ser apenas um instrumento de mediação social e passa a funcionar como estrutura compensatória. Jung descreve que “quanto mais o indivíduo se identifica com sua persona, mais se afasta de sua verdadeira natureza” (Jung, OC 7, §305). Na personalidade “como-se”, essa identificação não é apenas excessiva, mas necessária para a manutenção da coesão psíquica. O sujeito precisa da persona para existir no mundo, mas essa existência ocorre à custa de uma desconexão progressiva com o si-mesmo.

A sombra, por sua vez, assume uma configuração ainda mais complexa. Não se trata apenas de conteúdos rejeitados, mas de aspectos do self que foram precocemente dissociados para garantir a sobrevivência psíquica. Jung afirma que “a sombra personifica tudo aquilo que o sujeito não reconhece em si mesmo” (Jung, OC 9/2, §13), mas, nesse caso, ela também abriga aquilo que não pôde sequer ser reconhecido desde o início. A sombra torna-se, assim, um território do não vivido.

O retorno desses conteúdos, conforme Jung adverte, ocorre inevitavelmente: “tudo o que não se torna consciente retorna sob a forma de destino” (Jung, OC 9/1, §126). Na personalidade “como-se”, esse retorno não se manifesta necessariamente por sintomas evidentes, mas por uma sensação persistente de vazio, inadequação e falta de autenticidade. O sujeito vive uma vida que funciona, mas que não é sentida como própria.

O perfeccionismo, frequentemente presente nesse quadro, pode ser compreendido como uma tentativa de estabilização frente à ameaça constante de desintegração. Ao controlar a imagem, o desempenho e a resposta do outro, o sujeito busca evitar o contato com conteúdos internos que permanecem não simbolizados. No entanto, como aponta Winnicott, “uma vida organizada em torno do falso self carece de espontaneidade e de sentimento de realidade” (Winnicott, 1960/1983). O resultado é um ciclo no qual a adaptação reforça a alienação, e a alienação exige ainda mais adaptação.

Do ponto de vista clínico, essa articulação teórica impõe uma mudança radical de direção. Não se trata de interpretar diretamente o inconsciente, pois o acesso a ele está protegido por sistemas defensivos complexos. Tampouco se trata de fortalecer o ego em sua dimensão adaptativa, uma vez que esta já se encontra hipertrofiada. O trabalho analítico consiste, antes, em criar um campo relacional suficientemente seguro para que o sujeito possa, gradualmente, tolerar o contato com aspectos dissociados de sua experiência.

Kalsched enfatiza que “a cura do trauma envolve a capacidade de o self dissociado encontrar um ambiente suficientemente seguro para emergir” (Kalsched, 1996, p. 131). Essa formulação converge com Winnicott, para quem a experiência terapêutica pode oferecer, pela primeira vez, as condições para o surgimento do verdadeiro self. Ao mesmo tempo, ressoa com Jung, na medida em que o processo analítico favorece a retomada do eixo ego–si-mesmo, permitindo que o movimento de individuação se torne possível.

Assim, a clínica com a personalidade “como-se” não se orienta pela revelação de uma verdade oculta, mas pela construção de uma experiência que nunca pôde se constituir plenamente. Trata-se de um trabalho que exige tempo, presença e sustentação — um trabalho no qual o analista não apenas interpreta, mas participa da criação de um espaço onde o sujeito possa, finalmente, deixar de viver “como se” e começar, ainda que de forma incipiente, a existir.

269 Visitas totales
190 Visitantes únicos

Share this content:

Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga. É graduada em Psicologia pelo IBMR e com especializações em Psicologia Analítica; na área de Perinatalidade; em Psicologia Sexual; e Especialista em Psicologia do Desenvolvimento Infantil e Adolescente, e Familia e Casais. Possui uma especialização em Neuropsicologia e Reabilitação Cognitiva. No Cepaes, oferece atendimentos online. (Atendimentos presenciais disponíveis no RJ).

Publicar comentário

Responses (0)
cancel

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

slot agen138 agen138 situs slot gacor slot online slot 168gg 168gg slot freebet prediksi togel live skor freebet ag138 ag138 slot ag138 egp88 king138 koin138 wild168gg agen338 link alternatif agen138 koin138