Kore, Deméter e o inverno: a fertilidade das profundezas
Quando o Hino Homérico a Deméter narra o desaparecimento de Kore, não descreve apenas a origem mítica das estações do ano, mas organiza uma compreensão da vida que atravessa séculos da religiosidade grega e se consolida como núcleo dos Mistérios de Elêusis, preservando uma das mais complexas reflexões da Antiguidade sobre fertilidade, morte e transformação. O inverno, nesse contexto, não aparece como fenômeno climático nem como punição divina, mas como efeito direto da interrupção operada por Deméter diante da perda da filha, quando a deusa que sustenta a fecundidade da terra recusa-se a continuar exercendo sua função e, com isso, a própria ordem da vida se desorganiza, já que os cereais deixam de brotar, as árvores não frutificam, os animais não encontram alimento e os homens se aproximam da fome, revelando que a ruptura entre mãe e filha coincide com a ruptura entre a terra e sua capacidade de gerar vida.
Essa imagem, como observa Junito Brandão, ultrapassa a função meramente etiológica frequentemente atribuída ao mito, uma vez que não se trata apenas de explicar a alternância entre inverno e primavera, mas de expressar, por meio da linguagem simbólica, a estrutura dos grandes ciclos da existência, nos quais nascimento, morte, perda, fecundidade e renovação não se organizam como eventos isolados, mas como momentos de um mesmo processo contínuo, sendo a agricultura o campo sensível no qual os gregos reconhecem essa dinâmica, já que o desaparecimento da vegetação durante o inverno nunca foi compreendido como aniquilação da fertilidade, mas como sua retirada para um plano invisível no qual continuava a operar silenciosamente, preparando o retorno da vida.
Nesse cenário, é significativo que Kore não seja conduzida a um espaço externo ou distante, mas que sua passagem ocorra pela própria abertura da terra, pois enquanto colhe flores na planície de Nisa o solo se rompe sob seus pés e Hades emerge do mundo subterrâneo para levá-la consigo, indicando que a transformação da jovem não se dá por deslocamento horizontal, mas por descida vertical, e essa direção é decisiva porque, nas antigas religiões agrárias, o interior da terra não corresponde apenas ao domínio dos mortos, mas também ao lugar onde permanecem ocultas as sementes, onde as águas subterrâneas alimentam as raízes, onde os minerais amadurecem em longos processos de transformação e onde toda forma de vida se prepara antes de emergir novamente à superfície, de modo que a terra se apresenta simultaneamente como túmulo e útero, acolhendo tanto aquilo que se encerra quanto aquilo que ainda está por nascer, e é exatamente essa ambiguidade simbólica que estrutura o núcleo do mito de Kore.
Robert Graves chama atenção para o fato de que muitos elementos dessa narrativa preservam vestígios de cultos anteriores à religião olímpica, nos quais a Grande Deusa agrária concentrava em si tanto a potência da vegetação quanto a dimensão da morte, de modo que a descida de Kore não pode ser compreendida apenas como rapto, mas como participação em um ciclo mais amplo no qual a vida se retira periodicamente da superfície para renascer sob outra forma, o que permite compreender por que o inverno, no pensamento mítico, nunca significou negação da fertilidade, mas deslocamento de sua manifestação visível, permanecendo a potência fecundante ativa nas profundezas, tal como a semente que precisa desaparecer sob a terra para que sua germinação se torne possível.
A figura de Deméter adquire, nesse contexto, uma complexidade que não pode ser reduzida à condição de deusa da agricultura, ainda que essa seja sua expressão mais imediata, pois sua atuação diz respeito à própria potência que torna possível a continuidade da vida, razão pela qual sua etimologia, frequentemente associada a “Mãe Terra”, ainda que discutida entre os filólogos, reforça sua vinculação simbólica com a terra enquanto matriz de geração e transformação, uma terra que alimenta, sustenta e devolve aos homens aquilo que deles recebe, especialmente através do trigo, elemento central da civilização grega e expressão concreta de uma lógica na qual toda vida depende da transformação do que é enterrado em alimento, de modo que a semente precisa desaparecer para que a espiga exista e o grão precisa ser ocultado para que a colheita aconteça, revelando que a fertilidade não é produção incessante, mas organização cíclica da vida.
Essa compreensão permite lançar um novo olhar sobre a dor de Deméter, pois sua recusa em fecundar a terra não constitui um gesto de vingança nem uma reação emocional isolada, mas a suspensão de uma ordem que sustenta a própria fertilidade, já que o mito não descreve uma deusa que instrumentaliza a fome, mas uma interrupção radical do vínculo que mantém unidos os diferentes níveis da existência, e é por isso que Brandão observa que o drama de Deméter repercute simultaneamente no plano divino, humano e natural, uma vez que os homens passam fome, os deuses deixam de receber os sacrifícios e o cosmos inteiro se aproxima do desequilíbrio, revelando que a fertilidade não é atributo isolado da natureza, mas princípio de articulação entre todas as esferas do real.
Enquanto Deméter percorre a terra em busca da filha, os episódios que compõem essa trajetória não constituem interrupções narrativas, mas aprofundamentos simbólicos, especialmente a chegada a Elêusis, onde ocorre o encontro com Céleo e Metanira, com Iambe e Baubo, com Demofonte e com Triptólemo, pois é nesse espaço que a dor da deusa começa a se converter em transmissão de conhecimento, já que, segundo Graves, Deméter ensina a Triptólemo a arte do cultivo dos cereais, inaugurando uma forma de saber que ultrapassa a técnica agrícola e se estrutura como iniciação, na qual o alimento deixa de ser produto da produção humana e passa a ser expressão de um mistério que articula nascimento, morte e renovação, dando origem aos próprios Mistérios de Elêusis, nos quais a vida é compreendida como participação em um ciclo de transformação contínua.
Essa passagem modifica profundamente o sentido do inverno, pois a esterilidade da terra não representa fracasso da natureza, mas fase constitutiva de seu funcionamento, uma vez que a experiência agrícola mostra que o solo precisa descansar, as sementes permanecem ocultas durante meses e muitas espécies somente germinam após atravessar longos períodos de frio, o que implica reconhecer que a vida não se define pelo que se manifesta na superfície, já que a invisibilidade não equivale à ausência, mas à continuidade de processos que escapam ao olhar imediato, rompendo com a tendência contemporânea de identificar realidade apenas com aquilo que se mostra.
Essa lógica aproxima o mito das imagens da Grande Mãe desenvolvidas por Erich Neumann, para quem a terra materna não se define apenas como acolhimento, mas como princípio de transformação que integra nascimento e morte em uma mesma dinâmica simbólica, já que ventre e sepultura pertencem ao mesmo arquétipo, ambos constituindo espaços de passagem nos quais a forma anterior se dissolve para que outra possa emergir, razão pela qual a terra realiza continuamente processos de metamorfose que incluem germinação e decomposição como expressões de um mesmo movimento de fertilidade.
Nesse contexto, a descida de Kore não representa apenas deslocamento geográfico, mas transformação ontológica, já que antes de sua passagem ela é Core, figura associada à juventude e à condição ainda indiferenciada da filha em relação à mãe, e depois de comer a romã e tornar-se Perséfone ela passa a habitar simultaneamente dois mundos, não podendo mais retornar integralmente à condição anterior, pois a ingestão dos grãos de romã estabelece vínculo irreversível com o mundo subterrâneo, transformando participação em pertencimento.
O simbolismo da romã intensifica essa transformação, pois sua estrutura composta por múltiplas sementes reunidas em uma única casca condensa a ideia de abundância contida, continuidade e multiplicidade organizada, ao mesmo tempo em que sua coloração a aproxima do sangue, da menstruação, do parto e da morte, reunindo em um único símbolo dimensões que a sensibilidade moderna tende a separar, e Robert Graves observa que alimentos vermelhos estavam frequentemente associados ao mundo dos mortos, articulando a romã a antigas concepções lunares e agrárias nas quais a fertilidade não se opõe à morte, mas se organiza a partir dela como continuidade do ciclo vital.
A partir desse gesto, o mito se reorganiza, pois Perséfone já não retorna como Core, mas como figura que transita entre mundos, de modo que a alternância entre sua permanência na superfície e no subterrâneo não representa divisão, mas articulação de tempos distintos de um mesmo processo, o que permite compreender por que os Mistérios de Elêusis não prometiam superação da morte, mas uma relação transformada com ela, já que a experiência iniciática não consistia em explicação racional, mas em participação simbólica na dinâmica de Deméter e Perséfone, na qual vida e morte deixam de ser opostos para se tornarem aspectos de um mesmo movimento.
Essa estrutura impede a compreensão da profundidade como oposição à superfície, pois o subterrâneo não é contrário à vida, mas sua condição, já que é nele que a vida se prepara e se reorganiza antes de emergir, o que se expressa no fato de que Deméter e Perséfone são chamadas em Atenas de “as duas deusas”, expressão que indica não separação, mas unidade simbólica, na qual Deméter representa a fertilidade visível e Perséfone a fertilidade invisível.
A permanência desse mito ao longo de séculos não se explica apenas por sua função religiosa ou agrícola, mas por sua capacidade de expressar uma estrutura fundamental da experiência humana, já que, como observa Jung, certas imagens persistem porque organizam modos de experiência psíquica que não se reduzem ao racional, embora não devam ser reduzidas a metáforas psicológicas, pois sua força reside na materialidade simbólica que conservam, na qual a descida ao mundo subterrâneo expressa uma lógica de transformação que não depende da expansão da consciência, mas da sua capacidade de atravessar estados de invisibilidade.
A permanência dessa estrutura simbólica no mito de Deméter e Kore indica que não se trata apenas de uma narrativa agrícola ou de uma explicação arcaica para os ciclos sazonais, mas de uma forma de pensamento que articula, simultaneamente, natureza, psique e experiência religiosa em uma única imagem de continuidade transformativa. Nesse sentido, o subterrâneo não pode ser reduzido à ideia de um “outro mundo”, nem mesmo ao espaço dos mortos como oposição à vida, pois sua função simbólica é precisamente a de sustentar aquilo que ainda não se tornou visível. Nas cosmologias agrárias, aquilo que é oculto não é aquilo que deixou de existir, mas aquilo que ainda não alcançou forma de manifestação. A profundidade, portanto, não é ausência de realidade, mas uma modalidade de sua organização.
Essa compreensão se torna ainda mais clara quando se observa que, no imaginário grego, o mundo subterrâneo não é homogêneo. Hades não é apenas um espaço de punição ou indistinção dos mortos, mas uma região complexa, estruturada por diferentes níveis de existência, na qual a riqueza mineral, os fluxos de água e as forças germinativas convivem com as sombras dos mortos. A própria associação de Hades com Plouton — o “rico” — indica que aquilo que está oculto sob a terra não é deficitário, mas abundante em outra ordem de manifestação. O subterrâneo, nesse sentido, não é o contrário da vida, mas uma de suas reservas invisíveis, um campo de potência que sustenta a superfície sem se confundir com ela.
É nesse registro que a descida de Kore adquire uma dimensão iniciática que não pode ser ignorada. A jovem não é apenas arrancada de seu lugar; ela atravessa uma mudança de regime ontológico. Antes da descida, sua existência se organiza em torno da imanência da superfície, isto é, daquilo que se manifesta de forma imediata, sem mediação. Sua identidade como Kore — a donzela — expressa exatamente essa condição: uma forma de ser ainda não diferenciada, ainda não atravessada pela experiência da perda e da transformação. A descida rompe essa continuidade e introduz uma temporalidade que não é linear, mas cíclica e estratificada, na qual aquilo que desaparece continua existindo sob outra forma.
A ingestão da romã sela essa mudança de forma definitiva, não porque funcione como punição ou armadilha, mas porque estabelece uma lógica de pertencimento simbólico. Em diversas tradições míticas, o alimento não é apenas sustento físico, mas princípio de incorporação ontológica: aquilo que se ingere passa a integrar o próprio campo de existência de quem ingere. A romã, nesse sentido, não é um elemento acidental, mas condensador de múltiplas camadas simbólicas que articulam fertilidade, morte e continuidade. Sua estrutura interna, composta por incontáveis sementes reunidas sob uma única casca, expressa uma lógica de multiplicidade contida, na qual a unidade não elimina a diferença, mas a abriga.
Robert Graves observa que a romã esteve frequentemente associada a cultos ctônicos e lunares, nos quais o vermelho do fruto evocava simultaneamente sangue e vitalidade, vida e sacrifício, nascimento e dissolução. Essa ambivalência não é acidental, mas constitutiva de seu valor simbólico, pois o que está em jogo não é a separação entre opostos, mas a sua coexistência em uma mesma imagem. Ao ingerir o fruto, Perséfone não apenas estabelece vínculo com o mundo subterrâneo; ela passa a pertencer a uma ordem na qual a vida não é concebida como continuidade linear, mas como alternância entre estados de presença e ocultamento.
Essa alternância, contudo, não deve ser confundida com simples divisão. O mito não sugere que Perséfone seja fragmentada entre dois mundos, mas que sua identidade se torna capaz de habitar ambos sem se reduzir a nenhum deles. A partir da romã, ela deixa de ser exclusivamente filha e passa a ser também soberana; deixa de ser apenas Kore e torna-se Perséfone. Essa mudança não implica perda de identidade anterior, mas ampliação de sua estrutura simbólica. O que antes era unidade indiferenciada transforma-se em tensão entre polaridades que se sustentam mutuamente.
Essa transformação encontra paralelo direto no funcionamento simbólico da própria terra. Nas cosmologias agrícolas, a terra não é concebida como superfície inerte, mas como organismo vivo que alterna estados de expansão e contração, produção e recolhimento, visibilidade e ocultamento. A semente enterrada não desaparece; ela ingressa em um regime temporal distinto daquele que regula a superfície. Seu crescimento ocorre fora da escala da percepção imediata, o que significa que a fertilidade não pode ser medida apenas pelo que se mostra, mas também pelo que se processa em camadas invisíveis. A terra, portanto, não apenas produz vida; ela a reorganiza continuamente em diferentes níveis de profundidade.
Essa lógica permite compreender por que o mito de Deméter e Kore não se organiza em torno de uma oposição entre vida e morte, mas em torno de uma dinâmica de transformação contínua. A morte, nesse contexto, não é um fim absoluto, mas uma forma de passagem, uma reorganização da matéria vital em outro regime de existência. É por isso que o mundo subterrâneo não pode ser interpretado como negação da vida, mas como sua condição de continuidade em outro plano. A terra não interrompe os processos vitais; ela os redistribui.
Erich Neumann, ao desenvolver sua análise do arquétipo da Grande Mãe, observa que essa ambivalência entre criação e destruição, acolhimento e dissolução, não é uma contradição a ser resolvida, mas uma estrutura fundamental da experiência simbólica. A mãe arquetípica não é apenas origem da vida, mas também seu retorno constante ao estado indiferenciado. Nesse sentido, o ventre materno e o túmulo pertencem ao mesmo campo simbólico, não por analogia moral, mas por identidade funcional: ambos representam espaços de transformação radical da forma. A descida de Kore inscreve-se precisamente nesse eixo, no qual a passagem pelo interior da terra equivale a uma reorganização da própria condição de existência.
Essa reorganização não se limita à esfera mitológica, mas encontra ressonância na própria estrutura dos Mistérios de Elêusis. Embora envoltos em silêncio ritual, esses mistérios não prometiam aos iniciados a superação da morte, mas uma modificação de sua experiência simbólica. A iniciação não eliminava o limite, mas transformava sua significação. A alternância entre Deméter e Perséfone não era apenas representada, mas vivida como forma de participação em um ciclo que incluía perda, recolhimento e retorno. O que estava em jogo não era a negação da finitude, mas sua inserção em uma ordem mais ampla de continuidade.
Essa dimensão torna compreensível por que o mito preserva sua força ao longo do tempo. Ele não oferece uma explicação definitiva, mas uma estrutura de inteligibilidade que permanece operante enquanto houver necessidade de compreender a relação entre o visível e o invisível, entre o que se manifesta e o que se oculta, entre o que nasce e o que se recolhe. A fertilidade, nesse contexto, não é um atributo fixo da natureza, mas um movimento que depende da capacidade de transitar entre esses estados sem os reduzir a oposição.
Esse movimento de alternância entre superfície e profundidade, visível e invisível, encontra um dos seus desdobramentos mais significativos na maneira como as tradições antigas compreendiam o próprio tempo da fertilidade. Em Robert Graves, especialmente quando reconstrói os vestígios das religiões pré-olímpicas, a terra não é apenas um cenário passivo sobre o qual os ciclos ocorrem, mas uma entidade viva cuja potência se reorganiza conforme ritmos que não pertencem exclusivamente ao mundo humano. A agricultura, nesse sentido, não é apenas técnica de cultivo, mas participação em uma ordem mais ampla, na qual os gestos de semear e colher repetem, em escala humana, aquilo que a própria terra realiza em profundidade. O gesto de enterrar o grão não é uma metáfora da morte; é uma imitação da própria estrutura do real, no qual tudo aquilo que se torna fértil precisa atravessar uma fase de ocultamento.
Junito Brandão, ao interpretar o mito dentro do conjunto das tradições gregas, insiste nesse aspecto de continuidade simbólica que impede qualquer leitura linear da narrativa. O que se manifesta na superfície não esgota o que acontece na totalidade do processo. Por isso, a descida de Kore não pode ser compreendida apenas como evento pontual, mas como atualização de um padrão que estrutura tanto o cosmos quanto a psique: o padrão segundo o qual toda forma de vida precisa atravessar um regime de invisibilidade para que sua potência se reorganize. Essa invisibilidade não é ausência de existência, mas suspensão da forma visível, o que implica reconhecer que a vida não coincide com sua expressão imediata.
É nesse ponto que a leitura de Whitmont, ao retomar o imaginário da Grande Deusa, permite compreender a persistência desse modelo simbólico para além da cultura grega. A figura da deusa não se restringe a uma divindade histórica, mas expressa uma forma arquetípica de experiência em que a vida não é separada da morte, nem a criação da dissolução, mas continuamente gerada por sua interação. O que em termos modernos seria interpretado como oposição — crescimento e declínio, presença e ausência — aparece, nessa estrutura simbólica, como continuidade dinâmica. A fertilidade não é um estado estável, mas um processo que depende da oscilação entre retenção e manifestação.
Essa oscilação se torna especialmente visível quando se considera que o retorno de Perséfone não elimina sua permanência no mundo subterrâneo. A divisão dos tempos — parte do ano com Deméter, parte no Hades — não resolve o conflito, mas o institui como forma estrutural da existência. O mito não conduz a uma reconciliação no sentido de uma síntese final, mas à aceitação de uma duplicidade constitutiva. A vida só permanece viva porque não é contínua em um único plano. Ela exige alternância, interrupção, recolhimento e reemergência. O inverno, nesse sentido, não é apenas intervalo entre primaveras, mas condição para que a primavera não se torne repetição estéril.
Essa compreensão altera profundamente o modo como a fertilidade pode ser pensada. Ela deixa de ser associada à ideia de expansão ilimitada e passa a depender da capacidade de sustentar períodos de retração. O que o mito de Deméter e Kore preserva, nesse nível, é uma inteligência simbólica que reconhece a necessidade da pausa como parte integrante do processo vital. A terra não produz continuamente porque sua fertilidade não é exaustiva; ela se reorganiza em ciclos nos quais a ausência aparente de vida corresponde, na verdade, à sua preparação mais profunda.
Nesse ponto, a leitura de Robert Graves permite aprofundar ainda mais a compreensão dessa lógica simbólica ao recuperar a dimensão pré-olímpica dos cultos agrários, nos quais a fertilidade não era concebida como atributo estável da natureza, mas como manifestação de uma potência cíclica que dependia da relação entre presença e retração, visibilidade e ocultamento, de modo que a terra não era apenas o suporte da vida, mas sua própria instância geradora e devoradora. Em suas reconstruções, Graves insiste que a antiga Grande Deusa não representava uma figura maternal no sentido afetivo moderno, mas uma totalidade ambivalente na qual nascimento e morte não eram opostos, e sim expressões de um mesmo princípio gerador, o que permite compreender por que a descida de Kore não é um evento excepcional dentro do mito, mas a atualização de uma estrutura cosmológica mais antiga do que a própria forma olímpica da religião grega.
Junito Brandão, ao situar o mito no interior da tradição helênica, reforça essa compreensão ao indicar que os ciclos agrícolas não eram apenas observados empiricamente, mas vividos como participação direta em uma ordem sagrada na qual o tempo não se organizava de forma linear, mas em espirais de retorno e transformação, de modo que o que desaparece da superfície não deixa de existir, mas passa a atuar em outro plano de eficácia. Essa lógica impede qualquer leitura do inverno como simples ausência, pois aquilo que se retira do visível não se anula, mas se desloca para uma camada de atividade invisível que sustenta o próprio retorno da primavera. O inverno, nesse sentido, não é intervalo entre dois estados de plenitude, mas parte constitutiva da plenitude mesma, uma vez que é nele que se reorganizam as condições da vida que voltará a emergir.
Essa estrutura simbólica permite ainda compreender que o gesto de Deméter não é apenas emocional ou narrativo, mas cosmológico, já que sua recusa em fecundar a terra interrompe não apenas um fluxo agrícola, mas uma ordem de correspondência entre os diferentes níveis da existência. Quando a deusa suspende sua função, o mundo não perde apenas produtividade, mas perde articulação simbólica, o que significa que os planos divino, humano e natural deixam de operar em continuidade. O mito preserva aqui uma concepção de realidade na qual os processos não são independentes, mas interligados, e na qual a perturbação em um nível repercute inevitavelmente nos demais.
É nesse horizonte que o imaginário da profundidade adquire sua densidade mais radical. O subterrâneo não pode ser reduzido a um espaço inferior, pois ele constitui o domínio onde a forma ainda não se estabilizou ou já deixou de se manifestar, mas continua operando como potência. Nesse sentido, a terra não é apenas aquilo que sustenta a vida visível, mas aquilo que continuamente a reinscreve em ciclos de desaparecimento e retorno. O que se retira para o interior não desaparece; transforma-se em outra modalidade de presença, menos acessível à percepção imediata, mas não menos ativa em sua função estruturante.
A tradição que se organiza em torno de Deméter e Kore preserva, assim, uma compreensão da existência que não se orienta pela oposição entre ser e não-ser, mas pela circulação entre estados de manifestação e latência. É essa circulação que impede a cristalização da vida em uma única forma e que garante a continuidade do processo vital. Nesse ponto, a imagem da semente, tão recorrente em Graves e implicitamente presente em Junito Brandão, adquire seu sentido mais profundo: ela não representa apenas início de vida, mas paradigma de toda transformação, pois sua eficácia depende precisamente de desaparecer enquanto forma visível para que outra forma possa emergir.
Se Whitman é convocado aqui apenas como horizonte de ampliação simbólica, é no sentido de uma atenção à multiplicidade do vivo, àquilo que se expande sem perder o vínculo com suas raízes mais profundas, o que permite pensar o mito não como narrativa encerrada em si, mas como campo de ressonância contínua, onde cada imagem abre uma nova camada de experiência. Nesse sentido, a descida de Kore, a dor de Deméter e a permanência subterrânea de Perséfone não constituem episódios isolados, mas variações de uma mesma estrutura viva que atravessa tanto a natureza quanto a psique.
Nesse horizonte, o subterrâneo deixa de ser concebido como espaço negativo e passa a ser compreendido como matriz de reorganização. O que ali ocorre não é oposição à vida, mas sua reconfiguração em um regime não visível. A terra, ao acolher a semente, não a perde; transforma sua forma de existência. Da mesma maneira, Perséfone não é perdida por Deméter, mas deslocada para um regime de presença que não se manifesta na superfície, mas que sustenta sua própria continuidade. O mito preserva, assim, uma lógica na qual nada desaparece de forma absoluta, mas tudo se redistribui em diferentes níveis de manifestação.
É nesse sentido que o Solstício de Inverno adquire sua forma simbólica mais precisa, pois o ponto de máxima escuridão não representa interrupção do ciclo, mas sua inflexão, momento em que a luz começa a retornar não apesar da escuridão, mas a partir dela, de modo que a terra, ao recolher sua atividade para o interior, não suspende a vida, mas reorganiza suas condições de manifestação, e assim Deméter e Perséfone deixam de ser figuras separadas para constituírem momentos de uma mesma dinâmica na qual a fertilidade depende tanto do florescimento quanto da latência, tanto da superfície quanto das profundezas, tanto da luz quanto da terra.
Referências
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2018
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2018.
BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. 2 v.
GRAVES, Robert. Os mitos gregos. Tradução de Fernando Klabin. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. 2 v.
HINO HOMÉRICO A DEMÉTER. In: TORRANO, Jaa (org. e trad.). Hinos Homéricos.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras Completas, v. 9/1).
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas, v. 5).
NEUMANN, Erich. A Grande Mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. São Paulo: Cultrix, 2003.
WHITMONT, Edward C. O retorno da deusa. 1991.
Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga. É graduada em Psicologia pelo IBMR e com especializações em Psicologia Analítica; na área de Perinatalidade; em Psicologia Sexual; e Especialista em Psicologia do Desenvolvimento Infantil e Adolescente, e Familia e Casais. Possui uma especialização em Neuropsicologia e Reabilitação Cognitiva. No Cepaes, oferece atendimentos online. (Atendimentos presenciais disponíveis no RJ).


