Hades II: A Batalha contra o Tempo e a Conquista do Próprio Eu

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Em nome de Hades! Olimpo, eu aceito esta mensagem! 

Eu sempre fui apaixonada por mitologia grega. Nem sei quantas vezes assisti Hércules, ou escutei Epic: The Musical (que, no futuro, vai aparecer por aqui com toda certeza), ou li a saga de Percy Jackson e os Olimpianos na minha adolescência. Se você, assim como eu, é fascinado pelo universo mitológico desde que se entende por gente, é quase impossível não se render aos encantos de Hades II (2025), jogo desenvolvido pela Supergiants Games. Se no primeiro jogo a gente acompanhou a saga de Zagreus tentando fugir de casa, a sequência vai muito além e joga os holofotes na sua irmã mais nova, Melinoë, por quem eu criei um carinho imediato. A trama nos joga direto em um cenário de caos absoluto: o Titã do Tempo, Cronos, conseguiu escapar de sua prisão profunda no Tártaro, tomou o controle do Submundo e aprisionou todos da Casa de Hades. Resumindo, toda a família de Melinoë: Hades, Perséfone e Zagreus. 

Diante da guerra e do caos instaurado tanto no Submundo quanto no Monte Olimpo, coube à deusa Hécate acolher Melinoë, ainda um bebê, e criá-la nas Encruzilhadas. Mais do que uma guardiã e líder da resistência contra Cronos, Hécate atua como uma mentora, tão severa quanto afetuosa, treinando rigorosamente a jovem Melinoë para se tornar uma implacável destruidora de titãs. É justamente dessa relação de aprendizado mágico e resistência que o jogo retira sua atmosfera mais marcante, e são nessas duas figuras, Hécate e Melinoë, que esse texto irá focar.

Em termos de gameplay, Hades II  é para os jogadores que gostam de um desafio, pois o jogo abraça a essência do estilo roguelike: a morte não é o fim, mas uma espécie de recomeço “pedagógico”. A cada tentativa frustrada de derrotar Cronos, Melinoë retorna às Encruzilhadas, onde pode realizar encantamentos, fortalecer seus laços com outros combatentes da resistência, aprimorar suas armas e barganhar as poderosas dádivas dos deuses do Olimpo. Em outras palavras, se você morrer, volta para o princípio e deve começar uma nova “run” (partida, tentativa). A morte, portanto, deixa de ser uma punição e se torna parte indissociável de uma jornada progressiva rumo ao acerto de contas com o próprio Tempo.

A PROTAGONISTA MELINOË

Se Zagreus, o protagonista do primeiro jogo, era movido pela rebeldia, pela emoção e por uma impulsividade impressionante, Melinoë se apresenta de uma maneira diferente. Embora a determinação (ou teimosia) seja claramente um traço de família, Melinoë é uma figura marcada pela disciplina rigorosa, pelo foco absoluto e por uma adesão estruturada à ordem de alguém que foi criada para a guerra. Enquanto Zagreus desafiava as regras do lar estabelecidas por seu pai, Hades, na base do improviso, Melinoë lida com os obstáculos em seu caminho com uma boa dose de austeridade. Persistente, sua força não vem da rebeldia despreocupada, mas da coragem silenciosa de sustentar um propósito a cada novo ciclo de recomeço. Ela está inteiramente voltada para o objetivo de derrotar Cronos. 

Sobre a diferença de postura entre os irmãos, podemos pensar no reflexo direto das figuras que os moldaram. Enquanto Zagreus foi treinado por Aquiles, o clássico herói de força física e tenacidade inigualáveis, Melinoë cresceu sob outro contexto. Além da mentoria de Hécate, a princesa foi profundamente influenciada por Odisseu, que faz parte da resistência contra o titã Cronos. Conhecido por sua genialidade tática e por ser o grande estrategista dos mitos, Odisseu ensina a Mel uma abordagem mais calculista de batalha. É por isso que a heroína vai muito além da pura força bruta: sua jornada exige a capacidade de pensar “fora da caixa”, arquitetar planos engenhosos e encontrar formas diferentes de atingir seu objetivo. Podemos ver isso refletido na habilidade do jogador de fazer combinações poderosas com as dádivas disponíveis, a fim de chegar cada vez mais longe a cada tentativa. Assim, Odisseu atua como o Animus da princesa, uma ponte para seus recursos criativos internos, ajudando-a a canalizar sua agressividade de maneira consciente, flexível e focada.

No início de sua jornada, Melinoë carrega o fardo esmagador de ser a arma profetizada contra Cronos, oscilando frequentemente entre uma rigidez defensiva e períodos de profunda angústia e estresse sempre que falha em suas tentativas, que busca sempre mascarar com um sorriso de quem está decidido a continuar. Sob essa fachada de disciplina implacável, transparece o medo de frustrar as expectativas dos outros sobre si, como se sua existência se resumisse apenas a cumprir o destino que estava desenhado antes mesmo do seu nascimento. 

Por trás de sua postura extremamente educada e respeitosa com todos, Melinoë carrega vulnerabilidades, lidando com a insegurança constante e com o peso de temer não estar à altura de seu destino. Ao longo do jogo, diferentes figuras a colocam no papel da “menininha boazinha”, ingênua, incapaz e dependente. Ela se vê constantemente questionada sobre suas capacidades e acaba internalizando essas dúvidas, carregando a sensação permanente de ser uma impostora. Como pontuado por Schwartz (2023), a filha muitas vezes adota uma atitude de hiperpoder e dedicação extrema para agradar ou salvar o pai ausente, na esperança inconsciente de finalmente obter seu amor e reconhecimento. O esforço de Melinoë para invadir o Tártaro e resgatar Hades é a literalização dessa busca, principalmente ao considerarmos seus encontros com Hades, acorrentado e subjugado, durante a sua jornada. 

Um ponto interessante sobre as relações que Melinoë estabelece durante o jogo é que é possível construir caminhos românticos com figuras muito específicas, tendo como algumas opções amorosas tanto Nêmesis, a personificação da retribuição (muitas vezes relacionada de maneira superficial com vingança), quanto Moros, a encarnação da sina e do destino (meu favorito, confesso). Melinoë também pode ter uma relação amorosa com Éris, a personificação da discórdia, e o jovem Ícaro. É, no mínimo, curioso a sua relação com a retribuição, a sina, a discórdia e a desobediência aos limites. Além de ser um detalhe que humaniza a heroína, mostrando que, mesmo em meio a uma guerra catastrófica contra o Tempo, há espaço para o afeto, para o atrito e para a complexidade dos encontros, também podemos destacar o impacto de tais relacionamentos no seu processo de desenvolvimento. 

Conforme interage com deuses, aliados, antagonistas e companheiros de resistência, Melinoë deixa de ser apenas uma menina moldada para a guerra. É através do espelho do Outro, quando os diferentes personagens passam a enxergar nela a capacidade de vitória e validam sua existência para além das profecias, que ela gradualmente passa a enxergar a si mesma, realizando a travessia de uma heroína estritamente obediente a uma mulher dona de sua própria história e de seus próprios desejos.

Certo, agora vamos aprofundar um pouco mais a discussão. Para compreender a genialidade da escolha de Melinoë como a protagonista em Hades II, vale dar uma olhada nos chamados Hinos Órficos, que são uma coleção de 87 hinos do período imperial romano, mais ou menos entre os séculos I e III d.C. O termo “órfico” aqui é questionável, segundo Antunes (2018), porque, na prática, o nome de Orfeu era usado na época muito mais como um “selo de garantia” ou uma grande fonte de inspiração sagrada para dar peso e autoridade aos rituais, do que por uma ligação direta com o Orfismo. Como esses textos são bem mais tardios, é difícil ligá-los diretamente ao movimento original, que rolou séculos antes. 

São nesses textos antigos que encontramos a origem da personagem: ela é descrita como filha de Perséfone, concebida a partir de um encontro violento, em que Zeus recorre ao disfarce e à artimanha para se unir à força à deusa. Em O Mundo Interior do Trauma, Kalsched (1996/2013) nos mostra que, quando um trauma atinge a psique, ocorre uma fragmentação ou dissociação profunda. A consciência se divide para proteger o núcleo vulnerável do indivíduo de uma dor que seria intolerável. A origem traumática de Melinoë não é um detalhe menor, já que marca profundamente a cisão de sua essência desde o seu nascimento. No jogo, o sequestro e aprisionamento de sua família também pode ser lido enquanto um evento profundamente violento. 

Nesse sentido, uma das características mais marcantes de Melinoë é a sua “dúplice pele” (δισώματον, disômaton), ou “dupla pele”, um traço que traduz sua natureza ambivalente. Parte do seu corpo representa sua ligação com o Olimpo, e a outra metade sua linhagem ctônica. Essa duplicidade física inspirou diretamente o design visual da deusa no jogo, que possui uma parte de seu corpo fantasmagórica. Essa constituição de “pele dupla” pode ser lida pela perspectiva do psicanalista Anzieu (1988/2000), que traz a noção de que nosso aparelho psíquico constrói um envelope imaginário baseado nas funções da pele biológica. A nossa pele, portanto, funciona como uma espécie de barreira protetora contra estímulos externos e uma camada interna de continente para os afetos. Em momentos de grande ameaça ou ruptura, como a narrativa de guerra apresentada pelo jogo ou a gênese de Melinoë nos hinos, a psique pode recorrer a uma estrutura de “parede dupla”, um envelope reforçado e endurecido, para evitar que o Self se esvazie, sofra um colapso ou perca sua coesão. Nesse sentido, a dupla pele de Melinoë deixa de ser apenas um traço e se torna a representação de um sistema de defesa pós-traumático.

Enquanto figura mitológica e protagonista do jogo, Mel transita entre o terror e a proteção, vagando pela noite acompanhada por coros de fantasmas e espectros, capaz de provocar tanto o delírio quanto o assombro nos mortais. Não por acaso, sua figura se aproxima de forma quase simbiótica da própria Hécate: na tradição órfica, Melinoë e Hécate compartilham o domínio sobre a lua, a noite, a magia e as fronteiras do invisível, funcionando quase como faces de uma mesma moeda, assim como Dionísio e Zagreus. Entretanto, embora não tenha nenhuma menção nos hinos de que Melinoë possui irmãos, a condição de Hécate enquanto titânide filha única é fundamental para compreendermos sua identidade singular, o que as diferencia em essência. 

 Como dito anteriormente, no jogo, Melinoë cresce protegida por Hécate nas Encruzilhadas, sem o conhecimento do mundo externo. Ela cresce como uma donzela lunar virgem, sob uma matriz acolhedora e limites rígidamente delineados por conta da guerra. No entanto, a individuação exige que o Ego abandone a segurança do “ninho” e desça às profundezas, uma vez que “[…] o chamado do inconsciente começa e emerge dos locais não abordados. A vida não pode mais ser evitada ou escondida com perfeccionismo e objetivos do ego para aprovação externa. […] Recuperar a si mesma é um processo que requer um mergulho ao inconsciente.” (Schwartz, 2023, p.111). 

Assim como Perséfone, sua mãe, Melinoë transita entre a luz da superfície, ao seguir para o Olimpo para auxiliar seus parentes, e as camadas mais profundas do Submundo. Sob o olhar da psicologia analítica, podemos ler sua descida ao Tártaro como um mergulho no campo do inconsciente. Descer às profundezas e retornar não é apenas uma estratégia de combate para ela, mas um processo de confrontar os próprios fantasmas internos e integrar as partes fragmentadas de sua psique. Por outro lado, a ascensão rumo ao Olimpo a distancia de seu objetivo principal, embora ainda esteja em guerra. Quando a realidade física e o trauma se tornam intoleráveis para o Ego, a psique pode acionar uma defesa de fuga para um espaço idealizado e intocável de fantasia (Kalsched, 1996/2013), e essa pode ser uma das possíveis leituras para o caminho da superfície no jogo. Assim, podemos pensar que, quando um jogador se “cansa” de tentar por um caminho, migrar para o outro a fim de avançar em seus objetivos é uma maneira de se manter em movimento. Afinal, a saúde psíquica exige manter justamente essa tensão dialética entre os caminhos. 

“Morte a Cronos!”

Há um ponto que acho muito interessante sobre o grande antagonista do jogo: o Tempo. Cronos representa o arquétipo do patriarca devorador que, com medo de ser substituído pelo novo, engole os próprios filhos e paralisa o fluxo geracional (Rowland, 2024). De certa forma, podemos pensar no trauma, que paralisa e fixa o indivíduo no momento da dor, impedindo o crescimento. Cronos estabeleceu o controle, submetendo a psique e a própria sociedade a um regime autoritário.

Nesse sentido, em uma narrativa centrada em uma protagonista feminina, lutar ativamente contra o tempo carrega uma força política e psicológica imensa. Enquanto o titã Cronos representa o medo da perda de poder, a devoração do novo e a tirania do envelhecimento, Melinoë ergue-se como a força feminina que desafia essa estagnação. Sua jornada contra o Tempo é, no fundo, a recusa de ter seu destino cronometrado pelos outros, um ato de emancipação e soberania sobre a própria existência. 

A FUNÇÃO DE HÉCATE

A deusa Hécate me fascina desde os meus tempos de fã de Percy Jackson e os Olimpianos, lá por volta de 2011, quando eu escrevia fanfic no auge dos meus 12 anos e era representante do injustiçado Chalé 20. Brincadeiras à parte, eu acredito que escrever sobre sua figura é um mergulho mitológico muito mais longo e merece dedicação em outro momento. Para não nos estendermos demais por aqui, o importante é notar o papel estratégico que ela assume nesta leitura. Ou melhor, a função

Pois bem, Hécate em Hades II transborda a simples mentoria mágica, operando não no “palco” da trama que se desenrola, mas no entorno, sustentando o espaço e os caminhos onde a jornada acontece, e acolhendo todos aqueles que precisam de um lugar seguro em meio ao caos. De certa forma, sua presença se faz mesmo em sua ausência. Além disso, a titânide também é o primeiro boss (chefão) do jogo, pois está ali para desafiar Melinoë e testá-la enquanto sua mentora antes do início de sua jornada. 

“Quando sentir o choro subir, Melinoë, solte as lágrimas; elas não são preciosas ao ponto de precisarmos guardá-las.”

 Na psicologia analítica e na clínica do trauma, a função terapêutica está intimamente ligada à criação de um continente seguro (ou “holding“), um espaço de acolhimento e contornos claros onde as dores, defesas e resistências do indivíduo possam ser contidas e elaboradas (Anzieu, 1988/2000; Kalsched, 1996/2013).

Nesse sentido, é relevante destacar que Hécate, tanto no jogo quanto nos hinos, se apresenta como uma figura de extrema complexidade arquetípica, pois ela não se restringe a uma única dimensão; ao contrário, sua natureza liminar e tripartida permite que ela sirva como uma ponte indispensável para a estruturação e a cura da psique. No jogo, ela atua como uma espécie de “recipiente” terapêutico nas Encruzilhadas, funcionando como o espaço seguro de contenção onde as defesas e resistências da heroína podem ser gradualmente elaboradas, o que dialoga diretamente com sua identidade de guardiã das encruzilhadas, da magia e das travessias liminares. 

“Eu não sou sua mãe, Melinoë. Muito do que ela teria lhe ensinado é impossível para mim. Jamais nos compare.”

Embora a própria Hécate recuse o título maternal e o jogo explore essa tensa negociação entre as deusas, Hécate preenche lacunas profundas ao oscilar dinamicamente entre as funções materna e paterna. A titânide exerce a função paterna, estruturando o ambiente e impondo limites rigorosos, uma vez que o arquétipo do pai é tradicionalmente associado à delimitação de contornos e à localização ordenada. Afinal, um de seus epítetos é kleidouchos (κλειδούχος, a detentora das chaves) o que lhe confere o poder de estabelecer fronteiras, controlar o que entra e o que sai, e ditar as leis e os limites do espaço. Como reforçado por Antunes (2018), Hécate é amplamente celebrada como kourotrophos (κουροτρόφος, a nutriz ou protetora dos jovens). Em momentos de crise e colapso, ela exerce essa maternagem ao acolher e proteger a infante fragilizada das ameaças destrutivas do mundo exterior, como ao cuidar de Melinoë após o ataque de Cronos. Trata-se da função materna de conservação, abrigo e nutrição. 

Sua mentoria não é de superproteção, o que seria ligado ao aspecto materno negativo. Hécate é uma mentora severa que impõe disciplina e “solta a mão” de sua aprendiz. Ao ensinar que o fracasso e o retorno são partes fundamentais do caminho, ela conduz Melinoë em direção à sua própria autonomia e diferenciação do Ego. Ela fornece as ferramentas para que ela cumpra seu objetivo, mas não lhe diz como deve cumprí-lo. Isso não passa despercebido no jogo, uma vez que Nêmesis diz a Melinoë, após a princesa questioná-la sobre o porquê de Nêmesis abandonar seu posto nas Encruzilhadas mesmo sem o conhecimento de Hécate:

“[…] Além do mais, Hécate já sabe. Ela não é estúpida; só está me deixando aprender do jeito difícil aquilo que acha que preciso aprender. O que funciona para ela e para mim.”

A titânide não é descrita enquanto aquela que dá respostas ou que impõe caminhos. No jogo, Hécate não decide quais caminhos Melinoë deve seguir, muito pelo contrário; ela reforça a autonomia da princesa em diversos momentos, assim como a de todos os outros refugiados que encontraram acolhimento em seu domínio. Hécate simplesmente ilumina os caminhos possíveis com suas tochas. Assim, a aparente severidade da mestra se revela indissociável de um sustento afetivo, permitindo que Melinoë reconheça em Hécate a presença fundamental que a sustentou e a conduziu rumo à própria soberania.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A jornada de Melinoë é uma representação bastante interessante do processo de individuação feminina diante do trauma e da busca por soberania, e por isso decidi dar foco aos pontos que considero mais indispensáveis para sustentar essa narrativa. Dar conta de tudo o que faz de Hades II uma obra-prima (e um dos meus queridinhos) exigiria quase um livro inteiro, sinceramente. Se a gente quisesse continuar, daria para passar horas comentando como o jogo subverte expectativas de um jeito brilhante, como: ver uma faceta de Afrodite que costuma ficar esquecida, lembrando que ela e a guerra caminham de mãos dadas; os diálogos profundos no encontro com a encarnação do Caos; ou notar o capricho no design visual de Deméter, que carrega a cara do inverno rigoroso que reflete a dor pela ausência de Perséfone, raptada mais uma vez. 

Tem também o toque genial de fazer Mel lutar contra os mesmos monstros e antagonistas que marcaram a clássica jornada de Odisseu, como Polifemo e Scylla (Scylla, por sinal, está fantástica). Além de todos os pontos que eu trouxe aqui, Hades II brilha ao traduzir a identidade de Melinoë como bruxa diretamente para a mecânica de jogo. Para se fortalecer a cada nova tentativa de invasão, ela recorre aos Arcanos, um sistema de cartas de tarô que substitui o antigo espelho de Zagreus e expande seus poderes conforme são desbloqueados e aprimorados. É uma delícia que é ver a relação dela com outras figuras mitológicas ligadas à magia, como Circe e Medéia, construindo uma rede de bruxaria, cumplicidade e poder feminino que dialoga diretamente com sua mentora Hécate e com a irmandade lunar que ela divide com Ártemis e Selene. Isso sem falar na encarnação do Caos e do papel das Moiras na história. 

Como todo bom roguelike, Hades II é um poço sem fundo de camadas narrativas e possibilidades. Por enquanto, fico por aqui com esta recomendação, mas com muito ainda a explorar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Antunes, P. B. (2018). Hinos órficos: edição, estudo geral e comentários filológicos [Dissertação de Mestrado]. Universidade de São Paulo, São Paulo. Recuperado de https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-31082018-103727/ 

Anzieu, D. (2000). O Eu-pele, (Z. Yazigi, & R. Mahfuz, Trad.). Casa do Psicólogo Livraria e Editora Ltda. (Original publicado em 1988).
Kalsched, D. E. (2013). O mundo interior do trauma: Defesas arquetípicas do espírito pessoal (C. G. Duarte, Trad.). Paulus. (Original publicado em 1996). 
Rowland, S. (2024). Jung: Uma revisão feminista (V. C. H. Richardson, Trad.). Vozes. (Obra original publicada em 2002).
Schwartz, S. E. (2023). O efeito da ausência do pai nas filhas: Desejo paterno, ferida paterna (D. Barbosa, Trad.). Vozes. (Obra original publicada em 2021).

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É psicóloga junguiana, Mestra em Psicologia pelo PPGP/UFES e professora no Centro de Psicologia Analítica do Espírito Santo (CEPAES). Atua na clínica infantojuvenil e adulta, dedica sua trajetória de pesquisa no LEITRAS (PPGP/UFES), investigando a saúde mental de crianças e adolescentes em acolhimento institucional. No Jung no Espírito Santo, traduz a densidade da obra junguiana em reflexões sobre a clínica, a infância e a cultura contemporânea.

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