Série Narciso: O Narcisismo no conto “O pescador e sua Mulher” de Grimm
Na série Narciso, estamos abordando diferentes aspectos do narcisismo, com especial ênfase na prática clínica. Inicialmente, o planejamento para o próximo texto, previa focar na clínica do narcisismo; contudo, ao rever alguns contos dos Irmãos Grimm, reencontrei uma narrativa do conto “O Pescador e sua Mulher” que nos permite refletir sobre o tema sob a perspectiva dos contos de fadas.
Neste conto, podemos vislumbrar um retrato da escalada do narcisismo .
63. O PESCADOR E SUA MULHER
Era uma vez um pescador que vivia com sua mulher em uma miserável cabana perto do mar e todas as manhãs saía para pescar, e pescava o dia inteiro. Certo dia, encontrava-se ele pescando, sentado em um rochedo, contemplando a água muito clara, quando, de repente, a linha foi puxada com muita força para baixo, e, quando o pescador conseguiu puxá-la, foi trazendo para fora do mar um grande linguado.
E o linguado disse-lhe então:
— Saúde, pescador! Imploro-te, pescador, deixa-me viver. Na verdade, não sou um linguado, mas um príncipe encantado. De que te valeria matar-me? Não tenho gosto bom, não sirvo para ser comido. Deixa-me ir embora!
— Não há precisão de tantas palavras — replicou o pescador. — É claro que não vou matar um peixe que tem o dom da palavra.
E soltou o linguado, que voltou para o fundo do mar, deixando atrás de si um comprido sulco de sangue. O pescador então levantou-se e foi para junto da esposa, na cabana miserável.
— Não trouxeste peixe algum, meu marido? — perguntou a mulher.
— Não — respondeu o pescador. — Peguei um linguado, que me disse que era um príncipe encantado, e, então, deixei-o voltar para a água.
— Antes não lhe pediste que te pagasse com alguma coisa? — quis saber a mulher.
— Não — respondeu o pescador. — O que iria pedir?
— Ah! — exclamou a mulher. — É horrível viver nesta pocilga suja e fedorenta! Podias ter pedido uma cabana melhor para nós. Volta e pede-lhe. Diga-lhe que estamos precisando de uma cabana melhor. Certamente ele te dará.
— Por que haveria de dar? — retrucou o pescador.
— Por quê? — redarguiu a esposa. — Tu o pescaste, e foste bom, deixando que ele fosse embora. Sem dúvida ele te dará uma recompensa. Vai sem demora procurá-lo.
O pescador não estava muito disposto a ir, mas não estava também muito disposto a enfrentar a resistência da mulher. Voltou à beira-mar.
Sentou-se junto do oceano, agora verde e amarelo e não tão calmo quanto estava antes. E disse o pescador olhando as águas:
Vem, eu te peço, caro Linguado,
Sai desta água, vem para o meu lado!
Vem, vem, Linguado, que assim quer
(E quer que eu queira) minha mulher.
>
O linguado realmente apareceu e perguntou:
— O que está querendo tua mulher?
— Eu te pesquei, não é verdade? — redarguiu o pescador. — A minha mulher acha que eu devo te pedir uma recompensa. Ela não quer continuar morando na pocilga em que moramos. Quer uma choupana melhor, que não seja suja e fedorenta.
— Podes ir — disse o linguado. — Ela já tem.
Quando o pescador voltou para junto de sua esposa, já não a encontrou na imunda pocilga, mas sentada em um banco, do lado de fora de uma cabana. Tendo levado o marido para dentro, ela perguntou:
— Não é, realmente, muito melhor?
De fato, nem havia comparação. Não passava de uma cabana, mas tinha sala de jantar, quarto de dormir e cozinha, e tudo muito arrumadinho e muito limpo, e, fora, um jardinzinho e um pequeno quintal, com flores e frutas.
— Não está ótimo? — disse a mulher.
— Sem dúvida — concordou o marido. — Aqui podemos viver muito felizes e satisfeitos.
Uns dez ou quinze dias mais tarde, a mulher já não se sentia tão entusiasmada com a nova residência.
— Não achas que esta cabana é muito pequena para nós? — disse ao marido. — O jardim e o quintal não passam, também, de uma nesguinha de terreno. O linguado bem que podia nos dar uma casa maior. Eu gostaria de morar em um castelo de pedra. Vai dizer-lhe que nos dê um castelo.
O marido não queria ir. “Já é um abuso” pensava, acabrunhado. Mas foi.
Chegou junto do mar, que estava ainda mais agitado, e falou:
Vem, eu te peço, caro Linguado,
Sai desta água, vem para o meu lado!
Vem, vem, Linguado, que assim quer
(E quer que eu queira) minha mulher.
>
— O que é que ela está querendo agora? — perguntou o linguado, surgindo à superfície da água.
— Ah! — disse o pescador, meio assustado. — Ela está querendo morar em um castelo de pedra.
— Volta, que vais encontrá-la diante da porta — disse o linguado.
O homem voltou para junto da mulher, mas, em vez de encontrá-la na cabana, encontrou-a na escadaria de um grande palácio de pedra.
— Vem! — disse ela, segurando a mão do marido.
Ele a acompanhou. Havia, no castelo, um grande salão cujo chão era de mármore e muitos criados, que abriam diante do casal as imponentes portas. Das paredes pendiam tapeçarias belíssimas. As mesas e cadeiras eram de ouro maciço, candelabros de cristal pendiam dos tetos, e em todas as salas e quartos de dormir, viam-se tapetes persas. Nas mesas, sobre toalhas do mais puro linho, ornado das rendas mais finas, viam-se peças da porcelana mais rara e do cristal mais puro, prontos a servirem as mais saborosas iguarias e as mais deliciosas bebidas. Próximo do palácio, ficavam um enorme pátio, rodeado de estrebarias, estábulos e abrigos para as carruagens. Seguiam-se um jardim de árvores frutíferas e um parque onde corriam antílopes, corças, lebres e tudo mais que se poderia desejar.
— Na verdade, nada se pode querer de melhor do que isto! — exclamou o pescador, entusiasmado.
Na manhã seguinte, a mulher acordou primeiro. Amanhecia, e mesmo do leito através da janela ela podia ver a belíssima paisagem que rodeava o castelo. O marido ainda estava cochilando, mas ela o cutucou com o cotovelo e disse-lhe:
— Levanta e olha pela janela. Vê que beleza de paisagem. A gente podia bem ser rei de tudo isto aqui!
E decidindo de repente, acrescentou:
— Vai procurar o linguado e dize-lhe que eu quero ser rainha!
— O que é isso, mulher? — espantou-se o marido, já apavorado. — Eu não quero ser rei!
— Mas se não queres, eu quero!
E, quase gritando, ordenou:
— Vai procurar o linguado, pois eu quero ser rainha!
— É um absurdo! Um absurdo! — resmungou o pescador. — Como é que vou pedir uma coisa dessas?
Mas foi pedir. Parou junto do mar, cujas águas estavam muito agitadas e disse:
Vem, eu te peço, caro Linguado,
Sai desta água, vem para o meu lado!
Vem, vem, Linguado, que assim quer
(E quer que eu queira) minha mulher.
>
— Vamos a ver o que quer mais agora! — disse o linguado, aparecendo.
— Está querendo ser rainha — respondeu o pescador, morrendo de vergonha.
— Volta. Ela já é rainha — falou o linguado.
O pescador voltou e, quando chegou, viu que o palácio se tornara muito maior, com uma torre muito alta e ricos ornamentos, e sentinelas por toda a parte. Dentro, todo o chão e todas as paredes eram do mármore mais puro, e lá estava a corte com todo o seu esplendor, a mulher sentada no trono e segurando o cetro, e as suas damas de honra formando uma fila, rigorosamente por ordem de altura.
O pescador parando diante dela falou:
— E agora és rainha, minha mulher.
— Sim — disse ela. — Agora sou rainha.
Ele, pela primeira vez, encarou-a com firmeza, para replicar:
— E agora que és rainha, tudo está bem. Não desejemos mais coisa alguma.
— Não, meu marido — disse ela, com a voz entrecortada. — Não estou satisfeita, não posso me resignar. Sou rainha, mas devo ser imperatriz. Vai procurar o linguado e dize-lhe.
— Mas por que desejas ser Imperatriz, minha mulher? — insistiu o pescador.
— Eu já lhe disse! — falou a mulher, com energia. — Vai procurar o linguado, sem demora! Se ele pode fazer um rei, pode também fazer um imperador. Vai, imediatamente!
— Mas, mulher — protestou o marido — não posso pedir ao peixe um absurdo destes! Só há um imperador no mundo. Isso o linguado não pode fazer. Garanto que não pode.
— Escuta aqui, seu idiota! — gritou a mulher. — És apenas meu marido e eu sou a rainha! Vai imediatamente!
E o pobre coitado obedeceu, embora desesperado, com medo até de enlouquecer.
— Isso não vai acabar bem! — dizia, falando sozinho. — Isso não vai acabar bem! Querer ser imperatriz é um absurdo total! O linguado vai cansar-se afinal!
Chegou junto do mar, cujas águas estavam negras como a noite, e agitadas por ondas enormes. E, com muito esforço, falou:
Vem, eu te peço, caro Linguado,
Sai desta água, vem para o meu lado!
Vem, vem, Linguado, que assim quer
(E quer que eu queira) minha mulher.
>
— Eu já esperava — disse o linguado, aparecendo no meio das ondas furiosas. — O que é que ela está querendo?
— Ah, linguado! — disse o pescador, quase sem voz. — Minha mulher está querendo ser imperatriz.
— Volta para junto dela, que já é imperatriz — replicou o linguado.
E, de fato, quando o pescador chegou ao palácio, viu que ele se transformara em um outro muito maior, todo de mármore polido, com figuras de alabastro e ornamentos de ouro. Em sua frente marchavam soldados, tocando cornetas, címbalos e tambores, e, dentro do palácio, barões, condes e duques faziam o papel de criados. E ele então viu a mulher sentada em um trono, todo feito de ouro e com duas milhas de altura. Trazia na cabeça uma coroa com três jardas de altura, cravejada de brilhantes e esmeraldas, e segurava com uma das mãos o cetro e com a outra o globo imperial. Em ambos os lados do seu trono estavam em fila os guardas, por ordem de altura, começando em um gigante, que tinha duas milhas de altura, e terminando em um anão do tamanho de um dedo mindinho. Diante do trono havia muitos príncipes e duques. E, entrando no meio deles, o pescador perguntou:
— Então, minha esposa, és imperatriz agora?
— Sim — ela respondeu. — Sou imperatriz.
Ele a encarou durante algum tempo, depois disse:
— E estás contente, agora que és imperatriz?
— O que está fazendo aí, meu marido? — ela redarguiu. — Sou imperatriz agora, mas quero também ser papa. Vai procurar o linguado imediatamente. Quero ser papa hoje mesmo! O que ainda estás fazendo aqui? Vai!
O marido ficou apavorado, e foi. Mal podia andar, tanto tremiam as pernas. Mas, fazendo das tripas coração, conseguiu se arrastar até a praia. Um vendaval varria a terra, dobrando as árvores e empurrando as nuvens. Antes de anoitecer já estava escuro. E a chuva então desabou sobre a praia. Ao longe, o pescador avistou navios disparando suas peças de fogo, pedindo socorro. Contudo, no meio do céu ainda havia uma pequena mancha azulada, embora em todos os lados estivesse avermelhado, como fica nas grandes tempestades. Foi assim, desesperado, trêmulo, morrendo de medo, que o pescador falou:
Vem, eu te peço, caro Linguado,
Sai desta água, vem para o meu lado!
Vem, vem, Linguado, que assim quer
(E quer que eu queira) minha mulher.
>
— Muito bem! — disse o linguado, aparecendo no meio das ondas furiosas. — Vamos ver o que ela ainda está querendo desta vez!
— Quer ser papa — conseguiu falar o pescador, fazendo um esforço tremendo.
— Podes voltar para junto dela — disse o linguado. — Já virou papa.
O pescador voltou e o que encontrou chegando ao seu destino foi uma igreja enorme, rodeada de palácios. Abrindo caminho entre a multidão que enchia a praça em frente, o pescador entrou. A iluminação do interior era feérica, feita por mais de mil velas e mil candelabros. Sua mulher estava vestida de ouro dos pés à cabeça e sentada em um trono altíssimo, com três coroas de ouro na cabeça, e, de um lado e do outro do trono, estendiam-se duas fileiras de velas, por ordem de altura: as duas mais altas tinham a altura de uma torre e as mais baixas eram menores do que velas comuns. Diante da mulher, estavam ajoelhados imperadores e reis, beijando a sola de seus sapatos.
— Minha mulher — disse o pescador, encarando-a fixamente — quer dizer que agora és papa?
— Sim, sou o papa! — ela respondeu.
Ele continuou a encará-la, durante algum tempo, tendo a sensação de que fitava o Sol, depois falou:
— Bem. Agora que és o papa, vais ficar satisfeita. Nada mais poderás ser maior do que isso.
— Vou pensar sobre isso — limitou-se a dizer a mulher.
Depois, os dois foram se deitar, mas era visível a insatisfação da mulher, que não conseguia dormir, pois não cessava de imaginar o que ainda poderia ser para se tornar mais importante.
O pescador dormiu tranquilamente, pois tinha caminhado muito e feito muito esforço durante o dia.
Quando amanheceu e a luz avermelhada do sol nascente entrou no quarto, a mulher chegou à janela e murmurou:
— Por que não hei de poder também mandar o Sol e a Lua se moverem?
E, tomada por súbita resolução, sacudiu o marido, acordou-o, e ordenou:
— Vai imediatamente procurar o linguado e dize-lhe que eu quero ser igual a Deus!
Mesmo sem ter acordado direito, o pobre homem ficou apavorado, horrorizado com o que ouviu.
— O que é isso! — exclamou. — Enlouqueceste, mulher?
— Cala a boca e faze o que estou mandando! — retrucou a mulher. — Não posso admitir que o Sol nasça sem que eu ordene! Vai imediatamente!
Era tão ameaçador o olhar com que ela acompanhou estas palavras que o marido, mais do que apavorado, caiu de joelhos diante dela:
— Pelo amor de Deus, mulher! — implorou. — O linguado não pode fazer uma coisa dessas! Já fez o máximo que podia fazer. És o Papa, mulher! O que podes querer mais do que isso?
— Cala a boca! — gritou a mulher.
A raiva fê-la transformar-se em uma verdadeira Fúria, capaz de desafiar Alecto, Megera e Tisífone de uma vez. Os seus cabelos se arrepiaram, rangia os dentes, arranhava as faces, arregalava os olhos e, principalmente, cobria o desventurado esposo de pontapés, cada qual mais violento. E, parecendo ter surgido deliberadamente, para oferecer um cenário à altura da ação, o Sol desapareceu, o céu se cobriu de nuvens negras e desabou uma terrível tempestade.
Diante das ameaças e dos pontapés, que outro recurso restava ao pescador senão correr à praia, tomando chuva e se arriscando a ser fulminado por um raio, e, chegando à praia, chamar o linguado, morrendo de vergonha, reconhecendo plenamente o absurdo do pedido que iria fazer?
E, molhado como um pinto, tremendo de medo e de frio, chegou junto do mar, das ondas ameaçadoras e disse:
Vem, eu te peço, caro Linguado,
Sai desta água, vem para o meu lado!
Vem, vem, Linguado, que assim quer
(E quer que eu queira) minha mulher.
O linguado apareceu, desafiando as ondas.
— O que é mesmo que ela quer? — perguntou.
— Quer ser igual a Deus — conseguiu dizer o pescador.
— Vai para junto dela, que se encontra na pocilga em que moravas — disse o linguado.
E na pocilga estão os dois morando até hoje.
Montando o Cenário : como compreender as personagens
O conto apresenta um cenário simples e com poucos personagens que envolve: o casebre, o mar, o pescador e sua esposa e o linguado.
O conto começa com o pescador e sua esposa, que vivem na miséria em um casebre — ao qual a mulher se refere como pocilga —, evidenciando uma profunda pobreza de espírito. A casa simboliza a consciência, a vitalidade e o campo de referência da realidade psíquica, que no conto se encontra esvaziada, desvitalizada e empobrecida. A habitação ficava próxima ao mar, símbolo tradicional da profundeza e do desconhecido; isto é, do inconsciente, que se revela insondável, imprevisível e fonte primária de toda a energia vital e criativa.
Um belo dia, ele vai pescar e encontra um peixe encantado, um linguado. Como Jung descreveu no livro Aion, o peixe é a imagem ou símbolo do Self (ou Si-mesmo), o princípio ordenador de toda a psique — uma dimensão sagrada e orientadora muito maior do que a nossa consciência ordinária. O fato de ser um príncipe no fundo do mar indica o aspecto oculto dessa força.
O pescador representa a dimensão do Ego consciente que se encontra cindida e desprovida de firmeza e posicionamento. Como mediador, ele transita entre a terra (a realidade concreta) e o mar (o inconsciente), contudo atua de forma submissa, sem estrutura para estabelecer limites saudáveis diante das exigências infladas.
A mulher do pescador representa outra parte do ego cindido e inconsciente, aprisionada (ou identificada) pelo que Kohut denominou narcisismo grandioso — ou pelo que compreendemos como as defesas arquetípicas do Self —, marcada pelo sentimento de injustiça e pela compulsão de poder. No conto, ela encarna a força tirânica e defensiva que impede a consciência de estabelecer uma relação saudável e de vivenciar a satisfação, aprisionando o ego consciente em uma rede ininterrupta de suas próprias ilusões.
O conflito com o Numinoso
O encontro do pescador com o “linguado encantado” ilustra claramente a atitude do narcisista diante do Numinoso. Por temer e não compreender o numinoso — enquanto o Totalmente Outro, simultaneamente fascinante e aterrorizante —, o indivíduo dele se afasta sem absorver a essência da experiência. Essa postura se manifesta em atitudes racionalistas e na negação do sagrado, quer se expresse na vivência interior, quer no meio exterior por meio das religiões. Pela incapacidade de se relacionar com esse Totalmente Outro e de compreendê-lo, por não ser sua praia, o narcisista tende a desvalorizá-lo, a ponto de tentar submetê-lo pelo poder — tal como fazem líderes religiosos inescrupulosos.
O numinoso passa, assim, a ser instrumentalizado como objeto de controle e dominação, servindo tão somente para alimentar fantasias infantis de grandeza. A mulher do pescador encarna esse impulso defensivo e fantasioso que visa se apropriar do numinoso e manipulá-lo, esquivando-se de uma verdadeira relação transformadora.
O Vazio Crônico e a Incapacidade de Gratidão
A cada concessão do peixe encantado, a satisfação da mulher do pescador dura menos. Quando o marido diz que a cabana é confortável e perfeita, ela logo reage considerando o quintal “uma nesguinha de terreno”. Ao alcançar a pompa de papa com imperadores beijando seus pés, passa a noite em claro, agitada: “não cessava de imaginar o que ainda poderia ser para se tornar mais importante”.
Conforme destacado por Otto Kernberg, indivíduos com transtorno de personalidade narcisista padecem de um sentimento crônico de vazio e tédio. Suas demandas revelam-se insaciáveis porque o sujeito promove uma destruição inconsciente das gratificações e suprimentos recebidos. Dessa forma, nenhum reconhecimento externo é capaz de nutrir a autoimagem ou reparar a estrutura frágil de sua autoavaliação, perpetuando a insatisfação e a busca incessante por novas fontes de adulação .
O tédio é a expressão da ausência de vida afetiva. Para tentar conter esse esvaziamento e a desconexão com a própria vida, o narcisista recorre ao autoritarismo e a demandas absurdas; a exigência de ter a palavra final, a necessidade de estar sempre certo, a dissimulação e a busca por conveniência servem para ocultar a fragilidade egoica (representada pelo pescador).
Relações Utilitárias e a Ausência de Empatia
No conto, a mulher não enxerga o marido como um parceiro real, dotado de sentimentos e medos; para ela, ele é apenas uma ferramenta. Quando o pescador hesita, expressando pavor diante do absurdo dos pedidos, ela o diminui e o insulta: “Cala a boca e faze o que estou mandando!”, “És apenas meu marido e eu sou a rainha!”. Trata-se da desumanização do outro, típica das relações narcisistas, nas quais as pessoas são descartadas ou instrumentalizadas em favor da autoimagem de quem exerce o poder.
No conto, os dois polos ou manifestações do narcisismo estão claramente representados: o grandioso e o vulnerável. O polo grandioso expressa-se na esposa, através das demandas de “me vejam” ou “eu sou”, revelando a superioridade e a arrogância que caracterizam mais visivelmente o narcisismo. Por sua vez, o pescador encarna o polo vulnerável, que busca explorar o “peixe encantado” tanto quanto sua esposa, embora de forma velada, esquivando-se da responsabilidade e transferindo a culpa. No cotidiano, essa faceta manifesta-se em pessoas que enfatizam um histórico de traumas, abandonos e falta de reconhecimento para se tornarem o centro das atenções e justificarem o cuidado excessivo dos outros.
A Fúria Narcísica
Quando o pescador tenta finalmente impor um limite perante a fantasia onipotente da esposa de ser igual a Deus (“O linguado não pode fazer uma coisa dessas!”), a reação dela é imediata e devastadora: transforma-se em uma fera, range os dentes, arranha o próprio rosto e o agride fisicamente com violência.
Essa reação extrema é conhecida como fúria narcísica. Quando a fantasia de perfeição e controle do indivíduo narcisista é confrontada por um limite ou pelo desejo do outro, ele não reage com reflexão, tristeza ou abertura ao diálogo; em vez disso, vivencia uma ferida insuportável na sua autoimagem e responde com um ódio desmedido para aniquilar a oposição e reimpor sua hegemonia psíquica.
É importante notar que essa dinâmica gera silenciamento e hierarquização pautados pelo medo. Frequentemente, essa fúria é racionalizada por frases como “perdi a cabeça” ou por justificativas de uma suposta “intensidade” e “autenticidade”, como se isso legitimasse a agressão e o exercício tirânico de poder sobre o outro.
O Mar como Espelho da Degradação das Relações
Um dos elementos mais sutis e poéticos do conto é a transformação gradual das águas do mar:
- Inicialmente, a água apresenta-se clara e transparente.
- Com os primeiros pedidos gananciosos, torna-se verde-amarelada e turva.
- À medida que as exigências se intensificam, o mar fica agitado e passa a se mostrar “negro como a noite”.
- No ápice, culmina em uma tempestade violenta, acompanhada de raios e escuridão absoluta.
Na medida em que a fantasia maníaca e a raiva narcísica se apossam da psique, as pontes de conexão interna e externa rompem-se. O ego narcisista, inflado e defensivo, rejeita os limites constitutivos impostos pelo Self, ao mesmo tempo em que degrada e desgasta as relações externas até o seu inevitável colapso.
O Colapso Inevitável: O Retorno à Pocilga
Quando a mulher exige governar o Sol e a Lua — isto é, ordenar os ritmos e leis cósmicas que transcendem a dimensão mortal —, a resposta do linguado é categórica: cessa-se qualquer concessão e o casal é reconduzido imediatamente ao ponto de partida.
O colapso final demonstra a fragilidade da estrutura narcísica. O palácio suntuoso e a corte eram apenas construções infladas pelo ego — ilusões sem raízes na realidade autêntica. Ao tentar usurpar o papel do próprio Criador, a ilusão desmorona instantaneamente. Quando o colapso das relações ocorre, o narcisista, incapaz de vivenciar o luto, sente um profundo sentimento de injustiça e raiva, seguido pelo esvaziamento. Para as pessoas que se relacionavam com ele, fica o sentimento de terem sido enganadas e o alívio de um livramento.
O retorno à pocilga simboliza a verdadeira condição interna do narcisismo: um estado psíquico de imaturidade, empobrecimento e miséria emocional.
O narcisismo abrange um espectro no qual variam a intensidade e a prevalência dos impulsos defensivos que atacam as ligações afetuosas, alimentam fantasias de grandeza e negam a alteridade. Esse inevitável colapso e o consequente confronto com a desolação interna abrem, paradoxalmente, a possibilidade de um trabalho terapêutico profundo com a psique narcísico-vulnerável.
Considerações finais
O conto de Fada “O pescador e sua mulher” possibilitou exemplificar o quadro narcisista por uma outra perspectiva, nos próximos textos retornaremos à proposta pensarmos a clínica dos quadros narcisistas.
Com quase duas décadas dedicadas à escuta clínica e ao estudo da psique humana, Fabrício Fonseca Moraes é psicólogo junguiano, professor e diretor do CEPAES. Sua prática — viva em consultório desde 2004 — é enriquecida por uma visão integrativa e profunda do ser humano. Graduado pela UFES, ele transita com autoridade por diversas áreas do cuidado: é especialista em Psicologia Clínica e da Família, Teoria e Prática Junguiana e Acupuntura Clássica Chinesa, somando a isso sua formação em Hipnose Ericksoniana. Acredita no poder da difusão do conhecimento, sendo o coordenador do Blog do Jung no Espírito Santo (psicologiaanalitica.com), um espaço dedicado a traduzir a psicologia analítica para o dia a dia.


