O Mapa da Alma: O encontro entre Jung e o BTS
Há tempos que não acompanho de perto os passos do BTS, como se tivéssemos crescido e tomado rumos distintos como amigos de infância. Acompanhei o grupo desde a estréia em 2013 até por volta de 2019. No entanto, com o burburinho em torno dos shows que estão rolando agora em outubro, foi impossível não lembrar de alguns momentos marcantes da trajetória dos meninos.
O grande diferencial do BTS sempre residiu na capacidade de imprimir sua própria identidade na música. O grupo subverteu a dinâmica mais tradicional do K-pop (música popular sul-coreana) de sua geração ao assumir a composição e a coprodução de grande parte do seu material. É inegável que lendas como Michael Jackson e Madonna já haviam pavimentado o caminho da música popular com forte apelo político e social; no entanto, dentro do seu próprio cenário musical, o BTS se consolidou como uma referência. Eles cresceram de maneira orgânica na indústria justamente por não terem medo de colocar o “dedo na ferida”, debatendo temas complexos como o sistema educacional, as pressões sociais, a desigualdade, os desafios da juventude, a saúde mental, a vulnerabilidade, entre outros tópicos de extrema relevância. Essa vulnerabilidade e autenticidade não apenas firmaram a influência do grupo, mas mudaram definitivamente a forma como o K-pop é enxergado e respeitado globalmente, sendo massivamente abraçado pelo Ocidente e, de forma muito especial, pelo povo latino.
Essa densidade única se reflete nas fortes inspirações filosóficas e literárias que moldam a discografia deles: de Hermann Hesse, passando por Erich Fromm na fase Love Yourself, até chegar à psicologia junguiana com o autor Murray Stein, que fundamenta conceitualmente os álbuns de Map of the Soul; e é justamente sobre esse universo conceitual que decidi trabalhar neste texto, mesmo que de forma breve.
É necessário confessar que não cheguei a me aprofundar tanto em Map of the Soul quando ele foi lançado. O que tornou essa experiência de retorno tão interessante foi poder revisitar a fase que eu realmente acompanhei de perto, especialmente a era Wings, que considero um divisor de águas fundamental no amadurecimento artístico do grupo. Além disso, acompanhei animadíssima o lançamento das mixtapes do SUGA (Min Yoongi/Agust D, também conhecido como meu bias), cujos temas mais densos e introspectivos sempre conversaram muito com o meu gosto. Voltar agora para Map of the Soul com calma e certa maturidade exigiu escutá-lo de outra forma; e foi bem divertido e nostálgico.
Ao observar as discussões sobre a influência da psicologia junguiana no BTS, percebo que, embora mencionem a teoria, as pessoas nem sempre têm o direcionamento adequado para buscar o real sentido dos conceitos por trás dela. Então, o propósito aqui é preencher essa lacuna de forma acessível. Para isso, abordarei brevemente três conceitos fundamentais: a Persona, a Sombra e o Ego. As músicas conceituais que carregam os nomes diretos dos conceitos da psicologia junguiana formam a estrutura principal do álbum Map of the Soul: 7 e foram lançadas originalmente como comeback trailers (“prévias do retorno”) para os álbuns da era.
Persona – A máscara da perfeição
A jornada se inicia em Intro: Persona, faixa solo interpretada por RM, o líder do grupo. Nesta música, explora-se a construção da Persona, o arquétipo junguiano que representa a “máscara” social, o papel desempenhado perante a sociedade e a forma como o indivíduo deseja ser percebido pelo mundo exterior. Em outras palavras, sua função é relacional, permitindo a comunicação e o pertencimento do indivíduo (Hall, 2021). Nas palavras do próprio Jung:
“A persona é um complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e, por outro lado, a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo.” (2015/1928, OC VII,§ 305).
O BTS traduz esse conceito ao retratar a figura pública do idol: uma imagem esculpida para o ápice do espetáculo, elevada à condição de farol, herói e ícone intocável. Para quem acompanha o universo do K-pop, é notório o quão rígida é a construção da imagem de um K-idol, uma figura que se torna alvo constante de julgamentos (realidade que atinge sobretudo as mulheres da indústria). Trata-se de um mito construído sob os holofotes, projetado para inspirar e guiar multidões. A Persona construída, então, atua como uma armadura reluzente e um mecanismo de adaptação cultural; contudo, ela também impõe uma versão idealizada e cristalizada do ser humano nos bastidores. Isto é expresso no desejo de expansão e conquista contido nos versos da música, sintetizando a ambição do Ego de alcançar o topo e incorporar a perfeição esperada pelo público, bem como atingir as próprias expectativas em relação a si:
내가 되고 싶은 나 사람들이 원하는 나
/ O “eu” que quero ser, o “eu” que as pessoas querem
니가 사랑하는 나 또 내가 빚어내는 나
/ O “eu” que você ama, o “eu” que eu crio
웃고 있는 나 가끔은 울고 있는 나
/ O “eu” que sorri, às vezes o “eu” que chora
지금도 매분 매순간 살아 숨쉬는
/ Respirando vivo a cada minuto, a cada segundo agora
O verso reconhece que a Persona é dinâmica e oscila conforme o ambiente e os papéis desempenhados (Woodman, 2002/1982). Nesse sentido, a Persona não é a totalidade do ser humano, mas uma estrutura funcional elaborada para permitir que o sujeito atue no palco social. Em outro trecho, RM menciona seu nome artístico e o caracteriza como o “‘eu’ que criei por mim mesmo para me expressar“, o que demonstra a consciência do artista sobre a criação de sua Persona pública, e que ela é apenas parte de quem realmente é. Trata-se de uma interface necessária para comunicar sua arte ao coletivo sem expor imediatamente suas vulnerabilidades (Grinberg, 2003).
Segundo Woodman (2002/1982), a identificação excessiva ou exclusiva com a Persona gera uma crise de identidade. Quando a pessoa se confunde com o papel social que desempenha, surge a angústia existencial de não saber quem realmente é por baixo do traje profissional ou da imagem celebrada publicamente. A música apresenta constantes perguntas “Quem sou eu?” que marcam essa confusão existencial. A literatura junguiana, embora não apresente extensivamente o conceito, ressalta que uma Persona saudável precisa ser flexível e adaptável às contingências do cotidiano (Grinberg, 2003; Hall, 2021; Woodman, 2002/1982). Então, para se proteger ou navegar por situações sociais complexas, o indivíduo muitas vezes precisa alternar posturas diversas e ser “muitas pessoas” em ambientes diferentes. Afinal, quem é Kim Namjoon? Às vezes, filho. Em outros momentos, amigo. Nos palcos, RM.
Sombra – A vertigem da queda
Dentro dessa arquitetura conceitual, a transição para Interlude: Shadow, interpretada por SUGA, atua como o ponto focal de ruptura e transformação: é o abismo necessário através do qual o mito idealizado do k-idol se desconstrói para dar lugar à verdade do indivíduo, o Min Yoongi.
Curiosamente, há mais produções que se dedicam ao conceito de Sombra ao comprarmos com o conceito de Persona. Geralmente, na psicologia analítica, a Sombra representa os aspectos, desejos, imperfeições, medos e impulsos reprimidos ou não reconhecidos pelo Ego consciente por serem considerados incompatíveis com a Persona (Jung, 1964/2008; Grinberg, 2003). Contudo, a Sombra não é um conceito rigidamente delimitado, e aparece com diferentes conotações na literatura, chegando a ser definida, por exemplo, como “todo o inconsciente” (Von-Franz, 2020/1985). Para quem deseja saber mais sobre, há textos aqui no blog que podem ser bastante úteis.
Ao adentrarmos o território da Sombra, a mesma ambição tratada na música anterior é confrontada pelo desespero do verso “don’t let me fly” (“não me deixe voar”). A vertigem da altura expõe a vulnerabilidade de quem está no topo da fama: surge a hesitação, o medo da queda e a constante dúvida se a pessoa é de fato essa figura perfeita que todos deveriam seguir, idolatrar e amar. Quanto mais intensa e reluzente se torna a Persona pública sob os holofotes do palco, maior e mais densa se projeta a Sombra atrás do indivíduo. A letra reconhece a inutilidade de tentar fugir desse aspecto da psique, e como o indivíduo mascarado se sente impotente ao ver que não é só aquilo que mostra ao mundo.
Yeah, hmm, 발 밑에 그림자
/ Sim, hmm, uma sombra aos meus pés
고개 숙여보니 더 커졌잖아
/ Olho para baixo e ela está ainda maior
도망쳐봤자 날 따라오는 저 빛과 비례하는
/Eu corro, mas a sombra me persegue
내 그림자
/Tão escura quanto a intensidade da luz
두려워, 높게 나는 게 난 무섭지
/ Eu estou com medo, voar tão alto é assustador
아무도 말 안 해줬잖아, 여기가 얼마나 외로운지 말야
/Ninguém me disse o quanto era solitário aqui em cima
나의 도약은 추락이 될 수 있단 걸
/Eu posso dar um salto no ar, mas também posso cair
Sustentar a Persona enquanto a Sombra sussurra a fragilidade do eu real é, no mínimo, doloroso. Em certos momentos, percebemos que não somos exatamente aquilo que pensávamos ser, a ilusão da perfeição sendo estilhaçada como os espelhos no videoclipe. Essa ponte entre o que se projeta e o que se esconde carrega uma angústia descomunal, mostrando que o custo de ser colocado em um pedestal é o pavor constante de ver a própria humanidade ruir. SUGA traduz isso de forma brilhante, não só nessa faixa, mas em grande parte de sua produção, como em Haegeum e Daechwita, com referências à obras audiovisuais como o filme Scarface, e The Last, que também abordam esse mesmo aspecto.
Todavia, é importante ressaltar que a Sombra não é essencialmente ruim ou imoral, tópico que a própria música Haegeum aponta ao estimular a “libertação do que é proibido” para “subir”, e como criar é uma libertação. Embora a inveja, a ambição e a raiva sejam frequentemente estigmatizadas pela moral coletiva e relegadas ao território reprimido da Sombra, a literatura junguiana revela que o inconsciente não guarda apenas aspectos desfavoráveis, mas também os germes mais vitais do potencial humano. Esses aspectos, entendidos em certas culturas como algo “negativo”, estão longe de serem meramente destrutivos. A ambição incontida e o desejo ardente de superação funcionam como dinâmicas psíquicas cruciais que, quando resgatadas da Sombra e elaboradas de forma consciente, convertem-se em poderosos impulsos criativos e motores de autodesenvolvimento (Jung, 1964/2008; Byington, 2002).
Na vivência de um idol, submetido a uma indústria hipercompetitiva que exige a perfeição inalcançável, admitir o apetite por poder e reconhecimento costuma ser um tabu, ou também podem ser aspectos admirados por criarem uma imagem de sucesso intocável. Contudo, SUGA desconstrói essa aparente virtude ao vocalizar seus desejos de maneira crua, sem rodeios e que, muitas vezes, custam caro. Ao encarar de frente a própria ambição desmedida que o aterroriza e ameaça engoli-lo como um monstro, SUGA percebe que foi justamente essa energia sombria e voraz que alavancou sua ascensão. Também reconhece o impacto em sua saúde mental, e a dor, a solidão e o medo que acompanham essa jornada. Assim, a música transforma a própria Sombra em arte, demonstrando que acolher a fome de grandeza e integrar esses impulsos reprimidos é a única via para libertar a verdadeira força criativa, assim como humanizar a figura do idol.
Ego – O caminho da descoberta
Por fim, na faixa Outro: Ego, interpretada por J-Hope para o encerramento do álbum Map of the Soul: 7, o conceito ganha forma em versos que traduzem diretamente o processo de amadurecimento e integração do Ego.
Na psicologia analítica, o Ego pode ser definido como o centro do campo da consciência. Em outras palavras, é a estrutura psíquica responsável por manter a continuidade temporal da identidade, conectando quem fomos no passado, quem somos hoje e quem gostaríamos de ser no futuro, organizando as experiências vivenciadas. Enquanto a Persona atua como a máscara adaptativa externa e a Sombra abriga os conteúdos reprimidos ou temidos, o Ego é a instância que assume a responsabilidade sobre a própria vida (Grinberg, 2003, Stein, 2006/1998).
Assim, J-Hope inicia a música recapitulando partes da história pessoal de Jung Hoseok, sua história, sobre quem era antes da fama e quem é hoje. Como Woodman (2002/1982) pontua, é necessário um Ego maduro para reconhecer e revisitar conscientemente as próprias memórias para ser possível construir a própria identidade e se conectar consigo mesmo. O amadurecimento, então, exige que o Ego encare a realidade concreta e o fato irreversível de que o tempo flui apenas para a frente, e que não é possível refazer o passado (Jacobi, 1995). Na música, ao declarar “Just trust myself” (“Apenas confie em mim mesmo“), J-Hope está afirmando sua autonomia: ele não é refém do mito inalcançável da vida do idol, nem do medo da insuficiência, mas sim o condutor voluntário de suas escolhas e do caminho que vai seguir a partir do hoje.
믿는 대로 가는 대로
/O caminho que eu confio, o caminho que eu vou
운명이 됐고 중심이 됐어
/Virou meu destino, virou meu centro
힘든 대로 또 슬픈 대로
/O caminho foi difícil, e foi triste
위로가 됐고 날 알게 해줬어
/Mas me confortou e fez com que eu me conhecesse
Outro: Ego é a música que encerra a trilogia, onde o Ego atua como o ponto de reconciliação das polaridades psíquicas (Woodman, 2002/1982). O verso proclama o Ego como a estrutura articuladora que permite ao indivíduo abraçar a sua totalidade e seguir seu caminho, por mais difícil que seja. Embora não seja a totalidade da psique, a realização do potencial do indivíduo depende inteiramente da atuação do Ego em reconhecer, integrar e dar corpo aos conteúdos do inconsciente e ao direcionamento do Self (Jung, 2008/1964). Não é sobre inflação de Ego, ao se identificar somente com a figura do ídolo intocável, nem estar subjugado aos próprios medos e neuroses. Não é sobre ser J-Hope, ou Jung Hoseok, mas ambos e muito mais. Afinal, o caminho da individuação não é sobre alcançar a perfeição absoluta, mas a completude.
E, para quem está se preparando para ir aos shows e viver esse momento presencialmente, meu desejo é que aproveitem cada instante dessa celebração. Estar em um show é vivenciar uma forma única de comunhão: um momento potente de conexão genuína com tantas outras pessoas e, ao mesmo tempo, de reconexão profunda com nós mesmos. Em meio a toda essa intensidade e emoção, não se esqueçam de se cuidar. Respeitem seus limites e bebam água. No mais, criem memórias inesquecíveis e desfrutem ao máximo desse momento! 💜
Referências
BTS. (2019). Intro: Persona [Música]. On Map of the soul: Persona. Bighit Entertainment.
BTS. (2019). Interlude: Shadow [Música]. On Map of the soul: 7. Bighit Entertainment.
BTS. (2019). Outro: Ego [Música]. On Map of the soul: 7. Bighit Entertainment.
Byington, C. A. B. (2002). Inveja criativa: O resgate de uma força transformadora da civilização. Religare.
Grinberg, L. P. (2003). Jung: O homem criativo. FTD.
Jacobi, J. (1995). Complexo, arquétipo, símbolo na psicologia de C. G. Jung (M. Martincic, Trad.). Cultrix.
Jung, C. G. (Org.). (2008). O homem e seus símbolos (M. L. Pinho, Trad.). Nova Fronteira. (Trabalho original publicado em 1964).
Jung, C. G. (2015). O eu e o inconsciente (D. F. da Silva, Trad.). Editora Vozes. (Trabalho original publicado em 1928).
Stein, M. (2006). Jung: O mapa da alma: Uma introdução (5ª ed.). Cultrix. (Trabalho original publicado em 1998).
Von Franz, M.-L. (2020). A sombra e o mal nos contos de fada (2ª ed.). Paulus Editora. (Trabalho original publicado em 1985).
Woodman, M. (2002). O vício da perfeição (S. M. Netto, Trad.). Summus Editorial. (Trabalho original publicado em 1982).
É psicóloga junguiana, Mestra em Psicologia pelo PPGP/UFES e professora no Centro de Psicologia Analítica do Espírito Santo (CEPAES). Atua na clínica infantojuvenil e adulta, dedica sua trajetória de pesquisa no LEITRAS (PPGP/UFES), investigando a saúde mental de crianças e adolescentes em acolhimento institucional. No Jung no Espírito Santo, traduz a densidade da obra junguiana em reflexões sobre a clínica, a infância e a cultura contemporânea.


