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Série Conceituando “A psique autorreguladora e as defesas psíquicas”

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No último texto da série conceituando “A Psique Autorreguladora e os Símbolos” abordamos a autorregulação psíquica através dos símbolos. Naquele texto, apontamos que haveria uma dinâmica complementar e oposta ao processo simbólico, afastando conteúdos, impedindo processos de síntese e transformação. 

Descritas inicialmente por Freud em seus textos de 1896, as defesas psíquicas evoluíram conceitualmente em conjunto com a teoria psicanalítica. Paralelamente, Jung, em seus estudos sobre associação de palavras, observou esses mesmos processos defensivos que alteravam o curso da consciência. Freud não criou as defesas, ele fez uma primeira descrição e explicação de seu processo. Jung se deparou com os mesmos processos em seus estudos. 

“Os fatos da repressão, substituição, simbolismo e amnésia sistemática que FREUD descreve coincidem com os resultados do meu experimento de associação (1902-1904). Mais tarde descobri fenômenos semelhantes na esquizofrenia. Naqueles anos aceitei todos os pontos de vista de FREUD, mas, não pude aceitar, por mais boa vontade que tivesse, a teoria sexual das neuroses e, muito menos ainda das psicoses.” (JUNG, 2000, p. 435-6)

Acredito que a dificuldade de integrar o estudo das defesas no cotidiano da Psicologia Analítica esteja relacionada à separação entre Carl Gustav Jung e Sigmund Freud, formalizada em 1914. Essa ruptura histórica produziu um efeito bastante curioso entre muitos junguianos das gerações posteriores. É como se tivesse sido traçada uma linha divisória no campo dos estudos da psique, uma fronteira que passou a espelhar os interesses teóricos pessoais de cada um dos “pais fundadores”.

De um lado, à psicanálise teria cabido o estudo da sexualidade, do desenvolvimento infantil e da psicopatologia, com ênfase nas defesas, resistências e demais formações clínicas. De outro, à psicologia analítica teria ficado reservado o território dos processos simbólicos, da alma arquetípica — mitos, contos de fadas —, do desenvolvimento adulto e da busca pela integração de sentido.

Como se a própria identidade junguiana dependesse dessa divisão, dessa espécie de “linha de Tordesilhas” da psique, imaginária e, em última instância, sem fundamento real. Muitos junguianos que não aceitaram essa separação – que atravessaram esse limite teórico e buscaram integrar desenvolvimento infantil, psicopatologia e defesa à tradição analítica – foram (e ainda são) vistos com certa reserva, como se estivessem menos comprometidos com a fidelidade à herança junguiana.
Contudo, a psique é uma só. E toda divisão rígida entre símbolo e defesa, entre desenvolvimento e arquetipicidade, revela mais um movimento defensivo no campo teórico do que uma verdade sobre o funcionamento da alma.

Por outro lado, Jung adotou um método rigoroso de descrição dos processos psíquicos, assim, não era essencial para ele explicar ou teorizar uma psicodinâmica, esta ficou subentendida, por não ser o foco de seu trabalho.Por exemplo,ao descrever a influência dos complexos na neurose, indicou o processo de dissociação dos complexos. A dissociação, contudo, é um processo defensivo e dinâmico.  Do mesmo modo, a unilateralidade da atitude da consciência, um estado no qual a consciência se isola do inconsciente, não se apercebendo de suas manifestações, por meio da identificação projetiva, da dissociação, da negação, da racionalização dentre outras defesas. 

Assim, abordar as defesas na perspectiva junguiana implica considerá-las a partir dos processos de autorregulação psíquica. Evers-Fahey(2017) aponta que

Portanto, uma teoria verdadeiramente junguiana das defesas do ego se concentraria menos nos mecanismos específicos tradicionais do ego, como repressão, cisão ou projeção, e, em vez disso, nas áreas em que o ego bloqueia a função natural da TF [Função Transcendente]. Pode-se então considerar a TF como tendo três pilares: a postura consciente do ego, a postura inconsciente oposta e o ego/indivíduo integrador. Os mecanismos de defesa atuariam, portanto, nessas três áreas. Essas defesas podem ser resumidas como defesa contra a percepção consciente, defesa contra o sentimento (ponto de vista inconsciente) e defesa contra a integração. (p. 161)

A função transcendente é uma expressão da tendência de integração entre a consciência e o inconsciente, processo do qual resulta a formação dos símbolos. A percepção de Evers-Fahey vai ao encontro do que apresentamos: as defesas como um processo autorregulador complementar e oposta ao processo simbólico, conforme apresentado no texto da série conceituando “A Psique Autorreguladora e os Símbolos”.

A defesas do Ego 

As defesas do ego visam a estabilidade e a manutenção das funções do ego. Acreditamos ser fundamental revisar as defesas conforme descritas pela psicanálise clássica. Contudo, não vamos dar ênfase a elas aqui, pois, como sugere Evers-Fahey, a compreensão de sua atuação contribui diretamente para a prática clínica.

  1. As defesas contra a percepção consciente atuam impedindo ou limitando a apreensão de conteúdos, geralmente associados a objetos externos. Elas servem, em geral, para compensar a fragilidade ou a dependência egóica, protegendo o ego de ser confrontado. Por exemplo, diante de um relacionamento disfuncional, conteúdos agressivos podem ser suprimidos ou minimizados na percepção, pois representam uma ameaça ao ego ou implicam em mudanças para as quais o ego não se sente preparado.
  2. As defesas contra o sentimento ou o ponto de vista inconsciente visam evitar que o sentimento ou afeto inconsciente cheguem à consciência. Nesse sentido, estabelece-se uma dissociação entre memória/imagem e o sentimento/afeto. Evers-Fahey pondera que: “A defesa é contra o sentimento porque as emoções são essencialmente produtos do inconsciente, não conscientemente escolhidos. Imagens do inconsciente são meramente estéticas se a reação emocional está faltando.” (ibid., p. 162). Um exemplo desta situação é o de um paciente cuja mãe já era falecida na época do atendimento. Ele havia sofrido muito em sua juventude em função da rigidez e violência de sua mãe, que era paciente psiquiátrica. Segundo o paciente, a vizinhança a chamava de “dona fulana, a louca”. Apesar do sofrimento evidente nos relatos, ele falava sem emoção, apático, e complementava: “minha mãe era uma santa”. Ele não entrava em contato com o afeto, nem com o reconhecimento de como sua vida foi afetada por esta relação.
  1. As defesas contra a integração afetam diretamente a função transcendente e a integração simbólica de conteúdos inconscientes. Isso significa que a atitude defensiva impede o processo simbólico de transformação; o ego torna-se enrijecido e esvaziado, frequentemente por meio da identificação com os valores da persona. Essa categoria conceitual é muito próxima à “inibição defensiva da função transcendente” sugerida por Jean Knox.

Os mecanismos de defesa descritos pela psicanálise se encaixam em mais de uma ou mesmo em todas as categorias acima. É mais importante compreender a função da defesa, e o papel desempenhado no processo vital do indivíduo. Frequentemente, nos deparamos com mais de um processo defensivo simultaneamente. Na análise da defesa, o que realmente importa é compreender sua função e contra o que ela se dirige.

As defesas do Self 

As defesas do Self, também conhecidas como arquetípicas ou primitivas, são as primeiras a surgir no processo de amadurecimento psíquico e estão ligadas à estrutura da psique total. Esses mecanismos são cruciais, pois viabilizam o desenvolvimento das relações objetais e do ego. No entanto, por serem defesas basais, elas não se alteram significativamente em sua natureza com o avanço individual. À medida que o ego amadurece e se constitui como sujeito das ações, suas defesas próprias (as defesas do ego) assumem um papel predominante, e as defesas do Self se tornam uma segunda linha, atuando apenas quando as defesas do ego falham.

É importante ressaltar que uma distinção fundamental entre as defesas do Self e as do ego é sua função. Enquanto as defesas do ego visam a manutenção das funções e organização do ego, as defesas do Self visam a manutenção da vida, mesmo que às custas da individuação. As defesas arquetípicas apresentam sua maior intensidade nas experiências traumáticas, segundo Kalsched, a atuação das defesas do Self 

… envolve um ataque à própria capacidade de experienciar a si mesmo, o que significa “atacar os vínculos” entre imagem e afeto, a percepção e pensamento, a sensação e conhecimento. O resultado é que essa experiência se torna sem sentido, a memória coerente é “desintegrada” e a individuação é interrompida.” (Kalsched, 2013 p. 76)

Considerações finais

As defesas são processos dinâmicos que atravessam toda a realidade psíquica, atuando como guardiãs da integridade do sujeito. As defesas compõem a face necessária da autorregulação: se o símbolo é o convite à união de opostos e ao movimento, a defesa é a salvaguarda que impede a desestruturação do Ego diante de conteúdos que ele ainda não consegue metabolizar. Compreender essa dialética permite ao clínico olhar para a resistência como um indicador de que o solo psíquico ainda precisa de fortalecimento antes que a Função Transcedente possa operar plenamente.

Ao integrar o estudo das defesas — sejam elas egóicas ou arquetípicas — a Psicologia Analítica resgata a profundidade da psicodinâmica sem perder de vista a teleologia. O olhar deve se voltar para a função da defesa: o que ela protege? O que ela está adiando? E, principalmente, qual o momento em que essa proteção se torna uma prisão que impede a individuação?

Em última análise, a psique autorreguladora opera em um equilíbrio fino entre o revelar e o ocultar. As defesas do Self e do Ego são as fundações sobre as quais o edifício da consciência é construído e protegido. Ao reconhecermos sua importância, damos um passo além na prática analítica, permitindo que o processo de transformação ocorra no tempo próprio da alma, transformando gradualmente o enrijecimento defensivo na fluidez do processo simbólico.

Referencias 

 EVERS-FAHEY, Karen, Towards a Jungian Theory of the Ego, New York: Routledge, 2017.

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000.

KALSCHED,D. O Mundo interior do Trauma, São Paulo:Paulus, 2013

Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257). Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. .

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