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Pensando o Bruxismo na Psicossomática Junguiana

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O bruxismo é uma condição psicossomática bastante comum. Geralmente, pacientes relatam que têm bruxismo ou que o tratam com o dentista, mas poucas vezes o trazem como objeto de análise. O bruxismo pode ser uma fonte de informação para o processo terapêutico e deveríamos dar mais atenção à sua ocorrência.

O Bruxismo

O bruxismo é um transtorno funcional caracterizado pela ação repetitiva – ranger, deslizar e apertar os dentes durante o sono. Pode ocorrer durante o estado de vigília, sendo chamado de  “bruxismo de vigília” ou briquismo.

Os principais sintomas do bruxismo são: desgaste dental (podendo chegar à fratura), dor nos dentes, zumbido nos ouvidos, dores nos músculos faciais e na articulação temporomandibular (ATM), sendo que esta pode levar a dores de cabeça e enxaqueca.

Em relação às causas, o bruxismo é multifatorial sendo considerados desde componentes genéticos, alterações respiratórias, assim como ansiedade e estresse que são fatores importantes no desencadeamento e agravamento da crise.

Medicina Chinesa e o Bruxismo

Não existe o termo “bruxismo” na medicina chinesa. Assim, para pensar o bruxismo temos que olhar para sua manifestação e o processo pelo qual se forma. Para tanto, precisamos nos aproximar do univero da medicina chinesa, compreender sua linguagem e sua forma de compreender sua visão de mundo, na qual o indivíduo é microcosmo que espelha o macrocosmo. Numa perspectiva hologramatica, onde tudo que acontece na natureza acontece no indivíduo.

Existem diferentes possibilidades etiológicas para o bruxismo na medicina chinesa. Podendo ser associado ao calor no Fígado, Coração, Estômago, deficiência do Qi ou do Xue (sangue), dentre outros. O diagnóstico é sistêmico, devendo ser observados outros sinais e sintomas no corpo para definir quais são os desequilíbrios que causam o adoecimento.

Vamos enfatizar a percepção associada ao calor ou fogo no Fígado (que pode afetar tanto o coração quanto o estômago). Para tanto, precisamos entender (ainda que de forma superficial) dois fundamentos importantes para compreender o bruxismo: Vento e Calor.

O Vento e o Calor

Durante milênios, os chineses observando a natureza, compreenderam que o vento (fator sutil, sem forma,  ou seja, próprio ao yang) agitava o topo das árvores, ora suave, ora com rajadas súbitas e destruidoras; se tornando perceptível especialmente na agitação das árvores, isto é, da madeira. Ao tratar os adoecimentos humanos, os chineses compreenderam que os tremores poderiam ter a natureza externa (associada à mudança climática, como nas gripes e resfriados com tremores, febres) ou interna (estaria associada ao sistema relacionado ao modo de comportamento da madeira em nosso corpo, o Fígado).

O vento, como fator climático e natural, é chamado de vento exterior. Ele pode ocasionar doenças, afastando especialmente as vias aéreas que são relacionadas ao Pulmão. O vento interior não está diretamente associado ao clima, é fator interno, cuja manifestação indica que algo está afetando o aspecto madeira, no individuo, isto é, o Fígado.

Chama-se de fēng 風 (vento) toda doença cujas características são análogas àquelas do vento: um choque, um ataque súbito, um mal que se espalha rapidamente… (…)

Caracterizado pelo movimento que se torna agitação e turbulência, o vento perverso se manifesta por afinidade nas regiões de predileção dos sopros yang: parte de cima do corpo (onde chega o meridiano do Fígado), mais particularmente na parte de trás (onde se concentram os meridianos yang); as zonas superficiais do corpo (onde se espalham os sopros yang da defesa); o Pulmão (cheio de sopros e em afinidade com a defesa); os músculos (onde os sopros yang fazem circular o sangue sob a impulsão do Fígado).(…)

Por natureza, o vento circula sem cessar e muda constantemente. É responsável pela artralgias migratórias, as erupções cutâneas, entorpecimento ou insensibilidade, câimbras e espasmos… que aparecem em função dos meridianos atacados. Um sintoma pode facilmente transformar-se em outro.

 Por natureza, o vento mexe e agita. Provoca tonturas, tremor de membros, o agitar das convulsões, o virar os olhos.

 O vento perturba o Fígado e empurra os seus sopros em contracorrente, para cima. (VALLEÉ, 2019, p. 68-9)

O bruxismo é uma expressão do vento, com movimento de ranger e pressionar dos dentes, o tensionar dos músculos – por isso, entender que o vento traduz simbolicamente a sintomatologia, nos permitindo compreender a natureza do acometimento. Estando associada ao sistema do Fígado, temos a primeira referência fundamental.  

O calor é uma manifestação fundamental do yang. Quando o organismo está em equilíbrio, ele expressa a vida. Quando em desequilíbrio, seja interno e em suas relações externas, uma das manifestações é o calor.

O calor é de natureza yang; os seus efeitos no individuo são, portanto, um excesso de abertura, de elevação, de difusão, causando transpirações abundantes, elevação da temperatura e febre, ou sensações de calor e de mal-estar, às vezes, de opressão.

Por um lado, o calor destrói os líquidos corporais cuja ausência se traduz por uma secura da boca e lábios, por sede, às vezes intensa, com desejo de beber gelado, urina escassa e escura, fezes secas e mesmo constipação. Por outro lado, o calor ataca também os sopros, esgotando-os seja por perda de líquidos, seja pela hiperatividade que ele desencadeia, deixando sem força e às vezes inconsciente.

Por fim, o calor pode também perturbar a mente e fazer os espíritos do Coração se perderem, suscitar nervosismo e irritabilidade, verborreia a agitação.

O calor interno que se origina de um vazio de yin se manifesta especialmente por febres hécticas, suor noturno, sensação de calor nos pés, nas mãos e ao Coração. (VALEE, 2019, p.73)


O Vento e o Calor são elementos de natureza Yang, importantes para entender a natureza do acometimento quanto o sistema relacionado, pois que o “o Calor que queima o meridiano o Fígado põe o vento em movimento” (AUTEROCHE et NAVAILH, 1992, p.113)

O estresse, ansiedade e problemas emocionais são possíveis causas de Calor no Fígado, que teria como sintoma Vento, no caso o bruxismo . No artigo “Uma visão Psicossomática Sobre as Dores de Cabeça” enfatizamos a influência da raiva sobre o Fígado. Na medicina chinesa, a raiva é uma emoção essencial, uma força que impele o indivíduo ao desenvolvimento. Quando em desequilíbrio, a raiva deixa de ser uma força expansiva e criativa, se convertendo em seu aspecto perverso como agressividade e fúria. Contudo, não é a única emoção a afetar o Fígado.

Aqui, a tristeza danifica o fígado. Pois o desaparecimento dos sopros, corroídos internamente, priva o fígado do dinamismo necessário a seu bom funcionamento.

A tristeza se opõe ao alegre impulso em direção ao desabrochar, próprio do fígado. A tristeza é uma recusa; ela contradiz nosso próprio desejo de ir adiante. Por que você está tão triste? Porque perdeu o gosto pelo esforço espontâneo que constitui o movimento vital.     

A tristeza, que recusa a vida, alimenta a aflição por involução. Esta aflição explode em gemidos, em gritos de dor.

O conjunto tristeza e aflição é uma inversão da vitalidade. Ao invés de estender seus ramos e suas folhas em todas as direções, esta planta na primavera, que eu sou. volta seu ímpeto contra si mesma. Agrido, então, minha interioridade. (LA VALLEE, LARRE, 2007, p 266.)


A tristeza é uma emoção associada ao Pulmão, que é regido pelo metal. Segundo o ciclo de dominância e controle, o metal controla a madeira. Podemos entender que a tristeza é uma força de retração que equilibra a expansão da raiva. Quando em desequilíbrio, a tristeza impede a ação, estagna o Fígado, gerando calor, vento e, assim, o bruxismo.

Psicoterapia e Bruxismo

Considerando esses fatores, como poderíamos pensar a atuação do psicólogo?

Em primeiro lugar, é importante observar que outros sintomas e sinais somáticos o paciente apresenta, para compreender melhor possíveis relações e causas do bruxismo. Nem sempre o componente emocional se manifestará como sentimento ou psiquicamente, o paciente pode não relatar alterações emocionais. Assim, é importante investigar o histórico de doenças e manifestações somáticas, para compreender qual o sistema mais afetado.

Em relação às emoções, acerca da raiva HICKS, HICKS e MOLE(2021) apontam como áreas sensíveis: limites, poder, ser correto, crescimento pessoal e desenvolvimento.  Num espectro de situações que podem ser da agressividade à passividade, da inquietação à apatia, da rigidez física e mental ao excesso de flexibilidade; do excesso de organização à desorganização; da rebeldia à passividade. Assim, a irritabilidade, frustração, resignação são sentimentos correlatos a raiva.

É importante que o profissional observe a história do indivíduo, seus planos e como se modificaram ou se realizaram. A reconstrução da história do paciente é importante para localizar os afetos e os complexos correspondente. Muitas pessoas não conseguem lidar com as emoções, por não conseguir simboliza-las de forma adequada. É necessário aprender a perceber, nomear, visualizar o estado emocional para integra-lo. E, assim, ter o amadurecimento necessário para lidar com as emoções. 

Nas situações que envolvem excesso, técnicas de relaxamento e hipnose auxiliam muito no processo, favorecendo às mudanças de atitude da consciência e os aos padrões de repetição.  Em outros situações, relacionadas à frustração, subserviência etc.; é necessário que a mudança seja ativa nos posicionamentos e relacionamentos, atividades físicas que desenvolvam exercícios cardiovasculares são importantes. É fundamental entender que não é possível lidar com acometimentos psicossomáticos sem lidar diretamente com o corpo.

Nos casos em que se observa a relação com a tristeza, HICKS, HICKS e MOLE(2021) apontam como áreas sensíveis: reconhecimento, aprovação, sentir-se completo, sentir-se adequado no mundo, encontrar inspiração. Essas áreas se relacionam com padrões de comportamento que pode oscilar entre sentir-se frágil à excessivamente protegido, crítico; do isolamento à busca por conexão (esta as vezes inadequada, buscando figuras parentais substitutivas); do resignado ao excesso de trabalho; do perfeccionismo (exigência de qualidade) ao sentir-se indigno, incapaz de obter resultados; do sentir-se comovido ao indiferente. O apego, o pesar, preocupação, arrependimento, remorso, resignação, sentimento de perda , e vazio são correlatos à tristeza. Em todas essas situações, o fluxo da vida é impedido.  

Nesses casos, o manejo da transferência é primordial. É fundamental o sentimento de continência, de pertencimento, contorno. É importante avaliar situações traumáticas precoces, a fragilidade do Ego; ou seja, é necessário compreender como os padrões de dificuldades de vinculação e apego se construíram na história do indivíduo, assim como conscientizar quais as defesas que mantêm esses padrões ativos. A hipnose é um instrumental muito interessante para lidar com os sintomas. Exercícios respiratórios auxiliam bastante. De acordo com o padrão do paciente, atividades como Yoga, natação e corrida podem ser de grande valia.

Considerações finais

A medicina chinesa não tem receita de bolo, o diagnóstico é sempre individual. Aqui pinçamos alguns elementos fundamentais para contribuir com a prática do psicólogo. É importante reforçar, que não é possível trabalhar em psicossomática apenas pela palavra ou pelo campo simbólico, é essencial envolver o corpo seja pelas atividades físicas e respiratórias, que são indicações importantes para o paciente. Acredito que a acupuntura seria de grande auxílio, de modo que seria profundamente desejável a parceria do psicólogo e do acupunturista.

Referências Bibliográficas

AUTEROCHE B;  NAVAILH P: O Diagnóstico na Medicina Chinesa. São Paulo: Organização Andrei Editora, 1992.

HICKS, A.; HICKS, J.; MOLE, P. Acupuntura constitucional dos cinco elementos. São Paulo: Roca, 2021.

LA VALLÉE, E. R. de; LARRE, C. Os movimentos do coração: psicologia dos chineses. São Paulo: Cultrix, 2007

LA VALLÉE, E.R., 101 Conceitos-Chave de Medicina Chinesa, São Paulo: Inserir, 2019

Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257). Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. .

2 comments

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Suzana Martelo

Muito interessante conhecer um pouco do entendimento da medicina chinesa. É uma vastidão de saberes à nosso dispor. Obrigada pelo conteúdo.

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    Fabricio Fonseca Moraes

    Obrigado! Vou escrever mais, quem sabe não vira curso msm

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