Série Narciso: Narcisismo Plural 

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No primeiro artigo desta série abordamos a relação entre o mito de Narciso e a clínica — demonstrando como a perspectiva mítica nos auxilia a compreender o enraizamento desse sofrimento psíquico na história humana —, agora, neste texto, voltaremos nossa atenção à diversidade de pensamentos que compõe os estudos sobre o narcisismo.

Discutir essa diversidade é fundamental, visto que muitos autores junguianos dialogam com outras abordagens psicológicas, incorporando conceitos que distintos da visão junguiana tradicional. Nosso objetivo é ampliar a reflexão sobre o narcisismo a partir dessa pluralidade, tratando-o como um fenômeno complexo que demanda atenção especial no contexto clínico.

Um conceito a muitas mãos

O estudo do narcisismo no campo psi teve início quase simultaneamente ao desenvolvimento da clínica psicológica. O termo foi introduzido por meio de estudos independentes de dois psiquiatras: o britânico Havelock Ellis e o alemão Paul Näcke,. Guimarães e Endo (2014) elucidam a confusão histórica quanto à origem do conceito:

Em 1898, Havelock Ellis, no texto “Auto-erotism: a study of the spontaneous manifestation of the sexual impulse”, cria a expressão Narcissus-like tendency [tendência a ser como Narciso]; tal tendência é a forma extrema do comportamento autoerótico: onde o outro não está presente no processo de excitação e descarga da energia sexual. A partir desse texto de Ellis, surge uma série de estudos sobre essa tendência a ser como Narciso. Paul Näcke, médico criminologista, em 1899, no texto “Kritisches zum Kapitel der normalen und pathologischen Sexualität”, fazendo menção às descrições de Ellis, cria o termo narcisismo e o caracteriza como uma perversão, definida por um olhar que busca – em si e para si – a satisfação sexual. 

A proximidade das publicações de Ellis e Näcke levou Freud a creditar, inicialmente, a Näcke a origem do termo em seu artigo “Sobre o Narcisismo: uma introdução” (1914); posteriormente, em 1920, ele fez uma correção, atribuindo a Ellis a autoria do conceito. Em todo caso, isso demonstra o quanto esse fenômeno psíquico mobilizou estudos desde o início do desenvolvimento do campo psi. 

O estudo do narcisismo foi influenciado por diversos teóricos. A seguir, apresentamos alguns nomes importantes que, direta ou indiretamente, dialogam com a perspectiva junguiana. Ressaltamos que, embora diversos outros autores tenham contribuído significativamente para a compreensão e o tratamento de pacientes narcisistas, selecionamos estes pelo seu diálogo direto com o nosso recorte teórico.

Sigmund Freud – Desenvolveu o conceito do narcisismo na psicanálise. Embora Rank e Jones tenham utilizado o termo anteriormente, foi Freud quem proporcionou o seu devido aprofundamento teórico. Ele compreendeu o narcisismo como um processo de retirada da energia libidinal das pessoas e coisas do mundo exterior, direcionando-a e concentrando-a excessivamente no próprio ego. Este processo seria a base para quadros psicopatológicos, tais como a esquizofrenia, a megalomania e a melancolia; essa retirada da libido é compreendida como “narcisismo secundário”‘.

Heinz Kohut foi um psicanalista austríaco que desenvolveu uma corrente da psicanálise chamada de Psicologia do Self. O conceito de self de Kohut aproxima-se da psicologia junguiana; para ele, o self expressa a totalidade da experiência psíquica, diferenciando-se do ego.

Para Kohut, o desenvolvimento do self transita de um estado fragmentário para um estado coeso, que pode ser arcaico ou maduro. Conforme explicam Azevedo e Neto (2018):

No estágio do self coeso, podemos identificar dois momentos do self: um arcaico e outro maduro. Apesar de no estágio do self coeso o self já se apresentar, segundo Kohut (1971/2009a), como uma unidade que pode ser investida, e não mais como fragmentos de corpo e de funções mentais, esse self ainda precisa evoluir de uma configuração arcaica para outra, em que se organiza de forma madura.(…)é possível inferir que um self arcaico seria aquele que ainda se encontra indiferenciado do mundo e que se acredita onipotente. 

A estrutura do “si-mesmo grandioso-exibicionista” permanece fixada em um nível arcaico. Devido a falhas crônicas no espelhamento empático dos pais (“o brilho nos olhos da mãe”), o self arcaico não amadurece; ao permanecer fixado e não se integrar ao ego, impede o desenvolvimento da empatia, da criatividade, do humor e da sabedoria. O aspecto patológico desse quadro está relacionado à fixação do self grandioso. Deste modo, nessa perspectiva, o narcisismo não é necessariamente patológico, apenas indica uma fixação que deve ser trabalhado no processo analítico.

Otto Kernberg – Foi um psiquiatra e psicanalista austríaco radicado nos EUA que desenvolveu importantes estudos acerca dos transtornos de personalidade, em especial o borderline e o narcisista. Kernberg produziu uma teoria que conciliava a perspectiva freudiana, a teoria das relações objetais (Klein, Bion, entre outros) e a psicanálise do Self de Kohut.

Kernberg construiu uma perspectiva profunda acerca do narcisismo, como aponta Pelisson e Caropreso(2022) 

Kernberg caracteriza o narcisismo a partir de três dimensões, que abarcam desde a normalidade até quadros patológicos mais graves: o narcisismo normal; o narcisismo patológico e personalidade narcisista, sendo que, dentro desta última pode-se ainda manifestar um quadro mais severo denominado de síndrome do narcisismo maligno.

O trabalho de Kernberg possibilitou uma percepção psicodinâmica acurada, compreendendo um espectro de manifestações que não caberiam em um rótulo diagnóstico, e apresentou a possibilidade de manejo da transferência como essencial ao tratamento dos transtornos narcisistas.

No campo junguiano, pouco se foi desenvolvido sobre o narcisismo.Contudo temos algumas perspectivas que precisam ser consideradas.

Carl G. Jung –   Mario Jacobi em seu livro “Narcisismo e Individuação”(2023) aponta algumas contribuições, ainda que indiretas,  de Jung à temática do Narcisismo. Esses elementos são fundamentais à escola clássica junguiana Segundo Jacobi as contribuições seriam:

O Fenômeno da Inflação do Ego: Afastando-se da perspectiva freudiana baseada na libido sexual, Jung interpretou o narcisismo por meio do fenômeno da inflação. Nesse estado, o ego extrapola suas fronteiras humanas ao fundir-se com as imagens arquetípicas do Si-mesmo, o que gera fantasias de onipotência e uma busca ilusória pela perfeição.

Oscilação Defensiva: Notou-se que a postura narcisista alterna drasticamente entre uma prepotência autoconfiante e estados de extrema timidez ou resignação; tais extremos mascaram um “orgulho mórbido” persistente e dotado de alta sensibilidade.

Capacidade de Individuação: Na visão de Jung, o sofrimento originado no narcisismo possuía um caráter prospectivo. O processo de cura depende da admissão das limitações da condição mortal (“sou apenas isso!”), permitindo a construção de uma relação dialética, autêntica e equilibrada entre o ego e a infinitude do Si-mesmo.

Nathan Schwartz-Salant –  Foi um importante analista junguiano, produziu um trabalho impar, Narcisismo e Transformação de Caráter (1984/1988)  oferecendo uma das contribuições mais profundas para a compreensão do narcisismo pelo olhar junguiano, integrando a riqueza da experiência clínica,  da psicanálise moderna (especialmente as descobertas de Heinz Kohut e Otto Kernberg sobre transferência) com a teoria dos arquétipos de C. G. Jung.  Ele argumenta que a visão clínica focada puramente nas falhas parentais deixa escapar o fato de que o indivíduo narcisista está lidando com forças impessoais arquetípicas muito maiores que o seu próprio ego.

Schwartz-Salant propõe uma visão diferenciada: o caráter narcisista não deve ser encarado meramente como uma patologia “sem saída” patológica. Em sua perspectiva, o transtorno representa uma tentativa abortada de nascimento do Si-mesmo, cujo caminho para a cura exige tanto o eco empático quanto um mergulho profundo nos sentimentos e na vivência corporal .

A “série Narciso” do blog esta fundamentada em grande parte no estudo deste livro de Schwartz-Salant. Nos próximos textos, nos debruçarmos mais sobre a obra deste autor.  

Donald Kalsched – É um dos mais influentes analistas junguianos contemporâneos e trouxe uma contribuição revolucionária acerca das perturbações no processo de desenvolvimento. Em sua obra central, “O Mundo Interior do Trauma”, Kalsched explora como a psique humana lida com experiências insuportáveis, integrando a psicologia analítica de Jung com teorias psicanalíticas modernas (como as de Winnicott e Bion).

Com sua perspectiva sobre o trauma, Donald Kalsched humanizou e aprofundou a compreensão do narcisismo, demonstrando que sintomas como a falta de empatia e a grandiosidade — que observamos externamente — são o preço altíssimo pago por uma psique que precisou se fragmentar e criar processos defensivos profundos, dissociando-se do campo relacional da realidade para preservar a possibilidade da vida psíquica e sua continuidade.

A diversidade dos autores citados demonstra a multiplicidade de perspectivas com as quais o narcisismo pode ser abordado. Compreender essa complexidade é essencial para evitar o reducionismo diagnóstico, visto que não basta identificar os sintomas, mas o fundamental é compreender como os sintomas comunicam a história e o sofrimento desses indivíduos. 

Narcisismo : Um espectro

A diversidade de estudos sobre o narcisismo produziu diversas perspectivas que possibilitam tanto o diagnóstico quanto o tratamento. Mais do que apenas listar sintomas, essas descrições revelam uma organização psíquica e um modo de vida, permitindo-nos identificar e nos conectar com pessoas de caráter ou personalidade narcisista.

Entre as descrições disponíveis, a mais difundida é a do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), que apresenta uma síntese dos sintomas voltada ao diagnóstico psiquiátrico do Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN). A seguir, detalhamos os critérios diagnósticos estabelecidos pelo DSM-5, conforme compilados por Tavares et al. (2026):

 O  DSM-5  define  o  TPN  como  um  padrão  persistente  de  grandiosidade  (em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia, que começa no  início  da  vida  adulta  e  está  presente  em  vários  contextos.  Para  o  diagnóstico,  é necessário que o indivíduo apresente pelo menos cinco dos seguintes nove critérios: 

1.Sensação  grandiosa  da  própria  importância(por  exemplo, exagera  conquistas  e  talentos,  espera  ser  reconhecido  como  superior  sem  que tenha as conquistas correspondentes).
2.Preocupação com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal.
3.Crença  de  ser  “especial”  e  único e  que  pode  ser  somente compreendido  por,  ou  associado  a,  outras  pessoas  (ou  instituições)  especiais  ou com condição elevada.
4.Demanda por admiração excessiva.
5.Sentimento de possuir direitos(ou seja, expectativas irracionais de tratamento especialmente favorável ou que estejam automaticamente de acordo com as próprias expectativas).
6.Exploração interpessoal(tira vantagem dos outros para atingir os próprios fins).
7.Falta de empatia(ou seja, relutância em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e necessidades dos outros).
8.Inveja dos outros ou crença de que os outros o invejam.
9.Comportamentos ou atitudes arrogantes e altivos.

Esses  critérios  devem  ser  avaliados  por  um  profissional  de  saúde  mental qualificado,  que  considerará  o  histórico  clínico  do  indivíduo  e  o  impacto  desses comportamentos em sua vida cotidiana.

Vale ressaltar que, embora o DSM-5 forneça uma estrutura para o diagnóstico, ele não  especifica  subtipos  de  TPN,  como  o  narcisismo  grandioso  ou  vulnerável.  Esses subtipos são frequentemente discutidos em pesquisas clínicas, mas não são formalmente reconhecidos no DSM-5.

Em manuais como o DSM-5, não há margem para a particularização do caso, tampouco o objetivo de compreender as origens do transtorno ou o sofrimento singular do sujeito. Da mesma forma, abordagens que incorporam essas classificações psiquiátricas — a exemplo da TCC — focam frequentemente no manejo dos sintomas, utilizando uma linguagem clínica normativa que, por si só, não garante maior eficácia terapêutica. Para além da caracterização do DSM, outras perspectivas oferecem contribuições valiosas ao trabalho clínico.

Vejamos agora as descrições de Kernberg e de Schwartz-Salant, voltadas à compreensão clínica e ao tratamento do narcisismo. Embora apresentem perspectivas distintas, tais abordagens são complementares e proporcionam uma visão mais abrangente desse fenômeno.

Como citado anteriormente, Kernberg compreendia a personalidade narcisista como uma estrutura defensiva patológica e descreve seus sintomas focando nas profundas contradições internas e na degradação das relações interpessoais, abaixo segue uma síntese elaborada a partir de Pelisson e Caropreso(2022):

  • O Si-mesmo Grandioso Patológico: O narcisismo severo não é um mero bloqueio no desenvolvimento infantil, mas a construção de um self grandioso patológico, formado pela condensação (fusão) irreal entre o self real, o self ideal e as imagens de objetos ideais.
  • Grandiosidade vs. Vazio: Existe uma contradição extrema no autoconceito. Os indivíduos apresentam intensa ambição, fantasias de onipotência e um conceito muito inflado de si mesmos, os quais coexistem paradoxalmente com sentimentos crônicos de inferioridade, tédio e uma necessidade desmedida e excessiva de adoração externa.
  • Relações Exploratórias e Falta de Empatia: A vida emocional do narcisista é superficial, marcada pela incapacidade de compreender as emoções dos outros e por uma notável falta de empatia. Kernberg descreve essas relações como exploratórias e parasíticas, comparando a atitude do paciente à de quem “espreme um limão e desperdiça todo o resto”, descartando rapidamente as pessoas que já não oferecem utilidade ou suprimento narcísico.
  • Inveja Crônica e Desvalorização: A inveja intensa e implacável daqueles que parecem desfrutar da vida ou possuir algo que eles não têm. Essa é a emoção central. Para se defenderem dessa inveja, utilizam mecanismos primitivos de controle onipotente e desvalorizam os outros de maneira depreciativa.
  • Incapacidade para o Luto e Raiva Vingativa: Kernberg aponta que a falha básica desses pacientes é a deficiência de sentimentos genuínos de tristeza, luto e saudade frente às perdas. Quando abandonados ou frustrados, em vez de tristeza real, reagem com ressentimento, raiva narcísica e desejos intensos de vingança.
  • Síndrome do Narcisismo Maligno: Nos quadros mais graves, a agressividade se infiltra no próprio self grandioso. Essa síndrome combina o transtorno de personalidade narcisista com comportamentos antissociais, tendências paranoides e um sadismo egossintônico (onde o indivíduo sente orgulho, triunfo onipotente e prazer na crueldade e em infligir dor).

A perspectiva de Kernberg enfatiza as defesas e aponta a importância da raiva e da inveja na organização do narcisismo.

Numa outra perspectiva, Nathan Schwartz-Salant, apresenta em seu livro Narcisismo e Transformação de Caráter, um perfil do caráter narcisista. De forma, sintética, ele aponta como principais caracteristicas: 

  •  O Amálgama Defensivo ou “falsa uroboros” –  Internamente, a identidade do narcisista é formada por uma fusão regressiva entre o ego e o Si-mesmo, criando uma estrutura que o autor chama de “falsa uroboros” ou estrutura defensivo-urobórica. Trata-se de um amálgama indiferenciado que simula a totalidade, mas nega as necessidades de relacionamento autêntico. Esse amálgama é composto por quatro elementos principais, que ele representa como:
  1. O Mágico Negro: Representa o forte impulso de onipotência e poder que exige o controle absoluto dos eventos, teme o acaso e demanda reflexo (admiração) contínuo dos outros.
  2. A Falsa Noiva: Representa o lado feminino enfeitiçado, com foco exclusivo nas aparências e na beleza externa. Ela recusa-se terminantemente a demonstrar sofrimento ou fraqueza, adotando a postura de “posso lidar com tudo”.
  3. A Identidade Ego-Persona: Trata-se de uma rígida máscara de conformidade e adaptação social, pautada em exigências de perfeição impossíveis de serem mantidas, o que frequentemente leva a colapsos e depressão.
  4. A Sombra: É o repositório crônico da inveja tortuosa e da implacável raiva narcísica
  • Impenetrabilidade e Auto-referência extrema: Há uma grande dificuldade no contato genuíno. A pessoa afetada mantém os outros à distância (impenetrabilidade) e apresenta um grau extremo de auto-referência, transformando qualquer assunto que surja em uma história ou ideia exclusivamente a respeito de si mesma.
  • Inveja como “Cola Psíquica”: Na visão de Schwartz-Salant, a inveja atua como uma “cola psíquica” que mantém o si-mesmo grandioso e exibicionista unido de forma coesa. Trata-se da convicção interna tortuosa de que nada lhes pertencerá, o que os leva a estragar ou explorar preventivamente qualquer objeto afetivo ou atenção que os outros tentem lhes dar.
  • Intolerância a Críticas: Devido à fragilidade aguda em seu senso de identidade (a fronteira entre o ego e o Si-mesmo), toda crítica ou “análise redutiva” é experimentada como uma ameaça aniquiladora e estritamente pessoal, o que leva muitas vezes a um abandono abrupto de terapias ou relacionamentos.
  • Deficiência Empática Em situações que exigem sensibilidade com o outro, a personalidade narcisista revela uma severa incapacidade empática. A vida emocional e a empatia genuína encontram-se ausentes ou são retiradas ativamente para propósitos cruéis, sádicos e egocêntricos.
  • Fazer Compulsivo vs. Capacidade de Ser: Devido ao esmagamento do reino feminino pelo impulso masculino de poder, o caráter narcisista carece da “capacidade de ser” e de repouso interno. No lugar disso, a sua vida é dominada por um “fazer incessante” e compulsivo, uma busca apressada por realizações e tarefas externas como única forma de sustentar a sua auto-estima
  • Falta de Sentido da História: O narcisista vivencia a história de maneira deficiente e apresenta pouca ou nenhuma relação com os próprios processos psíquicos internos, funcionando de maneira superficial para evitar a pressão da sua própria grandiosidade ou os sentimentos de inferioridade.
  • Medo do Si-mesmo e do Inconsciente: Schwartz-Salant aponta que o caráter narcisista está numa atitude extremamente defensiva contra o seu próprio mundo interno (a realidade arquetípica). Eles temem o Si-mesmo verdadeiro, porque a energia e o poder numinoso do Si-mesmo genuíno poderiam derrotar e despedaçar a falsa grandiosidade do seu ego.

As três descrições possuem muitas similaridades e se complementam nas divergências ou omissões. O narcisismo se apresenta como um espectro que vai desde a normalidade até o extremo patológico, associado ao comportamento antissocial. 

Para a clínica, o diagnóstico é um processo compreensivo, atento à historicidade e necessidades do paciente, sem ignorar os prejuízos causados à outrem. 

Exibição e Vulnerabilidade

O narcisismo possui duas formas de manifestação: a grandiosidade e a vulnerabilidade. Geralmente, chamomos de narcisismo grandioso e o narcisismo vulnerável, contudo,  não devem ser compreendidos como transtornos inteiramente separados, mas sim como duas faces da mesma moeda que frequentemente oscilam ou coexistem na dinâmica da personalidade narcisista.

O narcisismo grandioso corresponde à manifestação mais clássica e visível do transtorno, estruturada em torno do que Kernberg chama de “si-mesmo grandioso patológico” e Kohut de “si-mesmo grandioso-exibicionista”. Tendo com principais caracteristicas a intensa ambição, exibicionismo, arrogância e uma necessidade desmedida de receber tributos e admiração dos outros. O indivíduo constrói um autoconceito irrealmente inflado, acompanhado de fantasias de poder, riqueza, beleza e onipotência,.

Para Kernberg, essa grandiosidade é uma fusão patológica entre o si-mesmo real, o si-mesmo ideal e o objeto ideal. Ela funciona como um poderoso escudo defensivo contra sentimentos de inferioridade, inveja intensa e raiva em relação aos outros. O indivíduo nega a dependência normal fundindo-se com a própria imagem de perfeição.

Por outro lado, o narcisismo vulnerável, ou deprimido, é o pólo compensatório da grandiosidade. Ele emerge devido à extrema fragilidade do ego e da estrutura de identidade do narcisista.  Em vez de arrogância ostensiva, o indivíduo pode apresentar-se como tímido, exageradamente modesto, super adaptado ou autocrítico. Na clínica é frequentemente dominada por queixas de vazio interior, uma depressão sutilmente vivenciada, insegurança crônica e sensação de inutilidade.

Há uma intensa “vulnerabilidade narcísica”. Como a autoestima do sujeito depende quase inteiramente da aprovação externa, a menor crítica, falha de espelhamento ou falta de atenção é sentida como uma ofensa aniquiladora,. Quando frustrados, reagem com retraimento rancoroso, depressão vazia ou ataques incontroláveis de raiva.

Na prática, o sofrimento narcisista é marcado por flutuações e oscilações violentas “de um extremo ao outro”, indo de sentimentos eufóricos de ostentação a abismos de absoluta indignidade e ódio a si mesmo. Segundo Jacoby(2023), a

chamada “vulnerabilidade narcísica”, uma tendência a registrar com antenas supersensíveis o mínimo sinal de desafio à própria autoestima e a reagir com aflição. As “afeições desagradáveis” podem ser dolorosos sentimentos de inferioridade, vergonha, tormentosa falta de confiança em si mesmo etc. e são suscetíveis de romper as barreiras de defesa à mais leve alusão de ofensa. Uma relativa instabilidade na autovalorização, juntamente com oscilações “de um extremo ao outro”, de sentimentos de ostentação aos de absoluta indignidade, são todos indicativos de um estado psíquico que pode ser denominado “distúrbio narcisístico da personalidade” (Kohut) ou “narcisismo patológico” (Kernberg).(p.135)

 A dor do narcisismo vulnerável é frequentemente um ataque interno do próprio si-mesmo grandioso que envia a mensagem punitiva de que, se o indivíduo não for absolutamente perfeito, ele não tem valor algum.

Considerações Finais

Nesse texto abordamos a diversidade do narcisismo, nos próximos textos abordaremos o desenvolvimento e a psicodinâmica do narcisismo.    

Referências bibliográficas


AZEVEDO, Monia Karine; MELLO NETO, Gustavo Adolfo Ramos. O conceito de self em Heinz Kohut. Rev. bras. psicanál,  São Paulo ,  v. 52, n. 2, p. 123-140,  jun.  2018 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2018000200009&lng=pt&nrm=iso> . acessos em  20  jun.  2026.

Guimarães, L. M., & Endo, P. C.. (2014). A origem da palavra narcisismo. Revista Latinoamericana De Psicopatologia Fundamental, 17(3), 431–449. https://doi.org/10.1590/1415-4714.2014v17n3p431-4 /

JACOBY, Mario, Individuação e Narcisismo – A psicologia do si-mesmo em Jung e Kohut, Petrópolis: Vozes, 2023.

Pelisson, M. C. C., & Caropreso, F. S. (2022). O narcisismo e as patologias narcísicas na perspectiva de Kernberg. PLURAL – Revista de Psicologia UNESP Bauru, 1, e022012.

Schwartz-Salant, Nathan. Narcisismo e transformação do caráter. São Paulo: Editora Cultrix, 1988. 

TAVARES, Kátia; PASCOAL CATALDO FALBO SANTO, Isabela; DA SILVA COUTINHO, Márcia; DE PAULA SIMÕES GAMA, Viviane; COSTA GALENO , Vivianne Cândida; CASTELÕES TAVARES DE SOUZA, Danielle. TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA: UMA REVISÃO NARRATIVA COM FOCO NO HISTÓRICO, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, [S. l.], v. 34, n. 60, p. 68–87, 2026. Disponível em: https://publicacoes.unigranrio.edu.br/reihm/article/view/9511 . Acesso em: 27 jun. 2026.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257). Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. .

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