Série Narciso: O Narcisismo – Mito e Clínica

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Nota: Narcisismo é um tema complexo, amplo e atual. Assim, achamos mais interessante construir uma série de textos, a “Série Narciso”, abordando a diversidade desse tema à luz da psicologia junguiana.

Nos últimos anos, os termos narcisista e narcisismo se popularizaram e passaram a se tornar parte da linguagem cotidiana, distanciando-se de sua origem na psicologia e psicanálise. A popularização, naturalmente, traz consigo a distorção do conceito clínico, mas, aumentou o interesse sobre essa temática.

Na psicologia analítica, o conceito é pouco utilizado; e quando abordado, remete mais à dimensão mitológica do que à prática clínica. É um fato que Jung fez pouquíssimas referências ao termo, mas sem aprofundar qualquer discussão. Dessa forma, o estudo sobre o narcisismo foi desenvolvido pelo pensamento pós-junguiano, intimamente relacionado com a prática clínica. 

Diferenciando Neurose, Caráter e Transtorno Narcisista

No campo “psi” narcisismo e narcisista podem aparecer em contextos similares, mas com significados distintos, por isso é importante olharmos atentamente para diferenciar a neurose, o transtorno e o caráter narcisista.

A neurose narcísica tem sua origem nos primórdios da psicanálise freudiana, indicando um fenômeno no qual, diante de situações traumáticas, a libido seria recolhida, desligando-se completamente das figuras externas e retornando ao próprio ego. Inicialmente, foi associada a quadros como melancolia grave e processos psicóticos, partindo da crença de que o neurótico narcisista era incapaz de estabelecer transferência. Este termo possui um fundamento essencialmente histórico.

Com o amadurecimento do pensamento psicanalítico, o caráter narcisista assumiu uma compreensão diferenciada na clínica. O termo, originado na obra de Wilhelm Reich, Análise do Caráter (1933), diferenciava-se das neuroses narcísicas por não indicar um colapso da realidade, mas uma adaptação defensiva a ela. A pessoa opera no mundo — trabalha, lidera, casa-se, etc. —, mas o faz de maneira defensiva. Diversos autores da psicanálise, como Winnicott, Kohut, Bion e Kernberg, entre outros, desenvolveram estudos fundamentais para a compreensão das defesas no caráter narcisista e as possibilidades terapêuticas.

Por outro lado, o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) está relacionado ao pensamento psiquiátrico atual. Neste caso, não se visa à etiologia ou à dinâmica psíquica, mas utiliza-se a psicopatologia em sua forma mais perceptível para classificar o sofrimento psíquico. Deste modo, a definição e a lente de observação adotadas pertencem ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). O foco recai sobre o diagnóstico médico: como essa pessoa “funciona”, sofre e faz os outros sofrerem no momento atual.

Deste modo, o TPN se relaciona a clínica psiquiátrica, trazendo um diagnóstico mais restrito ou rígido. Seu conhecimento é importante para o diálogo com a psiquiatria, contudo, por enfatizar os sintomas pode agregar pouco ao analista ou psicoterapeuta, cuja olhar recai sobre a individualidade, processos históricos e defensivos. 

O caráter narcisista é uma terminologia própria às abordagens psicodinâmicas, indicando características gerais que possibilitam pensar os processos que envolvem o paciente. Pois, é muito mais frequente encontrarmos pacientes com caráter narcisista mesmo sem o diagnóstico de TPN.  

Do Mito à Clínica

A psicologia analítica tem como método a amplificação simbólica, para tanto utiliza das imagens dos mitos e contos de fada. Assim, é importante começarmos pelo mito,  cujo resumo costuma ser apresentado assim: Narciso era um jovem muito belo, que atraia a paixão de todos, em especial da ninfa Eco, que fora punida por Juno a repetir a última palavra das pessoas e que fora  rejeitada por Narciso, este último se apaixonou pela própria imagem e morreu definhando por observar seu próprio reflexo. 

A narrativa mítica possui várias versões, as mais conhecidas são de Ovídio e Pausânias. Como indica Schwartz-Salant(1988) , as narrativas são complementares para a compreensão do caráter narcisista. Assim, gostaria de pensar em dois momentos da narrativa mítica, segundo Ovídio, onde após ouvir falar de Tirésias, Liriope, mãe de Narciso, vai ao encontro do vidente.

Ele foi muito célebre em todas as urbes aônias
dando resposta sempre corretas às consultas do povo, 
foi a cerúlea Liríope a primeira a testar a verdade
das palavras certeiras. Ela que outrora em recurva 
forma de rio o Cefiso cercou com suas águas e à força 
a estuprou. Belíssima, do útero pleno um infante a
ninfa gerou; e, a fim de que desde já fosse amado, 
chama-o Narciso. Consultado se ele veria 
o tempo adulto e se viveria até a longa velhice, 
o fatídico vate “Se não conhecer-se”, responde. 
Vã pareceu a voz desse augúrio: mas os eventos 
a comprovaram, o tipo da morte, a estranha loucura. 
Já havia acrescido um ano aos quinze o Cefísio 
e parecia ao mesmo tempo jovem e menino: 
muitos jovens a ele, muitas meninas quiseram; 
mas (em tão tenra forma havia soberba tão dura) 
nenhum jovem a ele, nenhuma menina o tocara. 
Viu-o carregando cervos trementes nas redes 
ninfa da voz que não aprendeu a reter o que fala 
nem a primeiro falar ela mesma, Eco soante. 
(OVÍDIO, 2023, p.107-8)

A narrativa de Ovídio aponta que Narciso nasceu de um estupro. Brandão (1991) afirma: ‘foi uma gravidez penosa e indesejável, porque a ninfa jamais amara o deus-rio, mas foi um parto jubiloso e, ao mesmo tempo, de apreensão. Não era concebível um menino tão belo’ (p. 155). A beleza incomum de Narciso gerou tanta preocupação em Liríope que a levou a consultar Tirésias sobre a longevidade do filho, que sentenciou: ‘se não se conhecer’ ou ‘se não se vir’.”

Na Grécia mítica, a beleza extraordinária representava um risco, frequentemente atraindo punições divinas. Podemos citar os exemplos de Medusa — cuja formosura, especialmente a dos cabelos, foi castigada por Atena — e de Psiquê, cujo encanto admirado por todos despertou a ira de Afrodite.

Narciso era apenas um adolescente, um efebo de 16 anos. Embora sua beleza despertasse desejos, ele mesmo não se envolvia, não se abria nem se entregava às relações — fato frequentemente interpretado como soberba. Desde o nascimento, foi tratado como objeto de admiração e, posteriormente, de desejo e inveja; nunca foi, de fato, visto ou validado como sujeito. . Esse estado objetal — o ‘não se conhecer’ — indica a ausência de um olhar materno que o espelhasse e legitimasse. Disso, depreende-se uma falha relacional profunda, um trauma contra o qual ele precisou se defender, sacrificando a integridade do eixo ego-Self. Sobre o desenvolvimento do caráter narcisista, Schwartz-Salant(1992) aponta: 

O indivíduo narcisista, recebeu, ao mesmo tempo, uma mensagem inteiramente oposta, ou ‘seja, a devastadora mensagem da inveja, que lhe é transmitida assim: “Você é extraordinário e eu o odeio por isto. Você tem tudo e, como eu não tenho, desprezo-o por isto.” Ter “tudo” refere-se aqui às qualidades mais conscientemente idealizadas que os pais adotam.

A personalidade narcisista forma-se pelo uso da idealização que recebe, pela adaptação a seus valores e pela criação de uma barreira ‘interna e extema contra o ataque da inveja Esta barreira, chamada de defesa narcisista, constitui a base de uma personalidade singularmente impenetrável. ( p. 78)

A barreira ou distanciamento de Narciso era interpretado pelos outros como desprezo. Eco — punida por Hera (Juno) a repetir apenas o final das frases que ouvia — foi uma das ninfas que se apaixonaram por ele, acompanhando-o até o fim de sua breve existência. Para compreendermos as circunstâncias desse “auto enamoramento” de Narciso, recorremos à narrativa de Ovídio:

A ela assim, e de outras ninfas das águas ou montes
ele iludira e também iludira o amor de rapazes,
um dos quais, desprezado, lançando seus braços ao éter,
“Que ame ele mesmo de modo que não usufrua do amado!”,
e disse; e então assentiu a Ramnúsia aos justos pedidos.
Fonte havia límpida, argêntea com nítidas ondas,
que nem pastores nem cabras que pastoreiam nos montes
alcançaram, ou outra grei, que ave nenhuma,
fera nenhuma perturbara, nem ramo caído;
relva havia ao redor que um frescor de perto nutria,
mais uma selva que impede que o sol ao local aquecesse.
Lá, cansado do calor e do esforço da caça
deita-se o jovem, levado pela beleza da fonte,
ao desejar saciar uma sede, cria outra sede,
e, ao beber, fascinado pela imagem que vira,
ama esperança sem corpo e crê ser corpo o que é água.
Pasma o próprio consigo e, imóvel à vista do rosto
fixa-se, como uma estátua formada de mármore pário.(…)

(Ovídio, 2023, p.110)

O desprezo de Narciso pelo desejo alheio causou sofrimento a muitos de seus pretendentes. Um deles clamou por justiça e amaldiçoou Narciso para que sofresse do mesmo mal: amar e não ser correspondido. Essa maldição foi ouvida e assentida por Ramnúsia, um dos epítetos de Nêmesis, deusa da justiça retributiva. O fatídico encontro de Narciso consigo mesmo não foi uma busca ou coincidência, mas um ato de punição divina. Há uma dose de ironia na punição de Nêmesis: Narciso, que nunca amou ninguém, foi condenado a nunca amar outra pessoa. Morreu como viveu: só e sem conhecer o amor, apesar do testemunho solitário de Eco.

(…)

Quando mira de novo a imagem na límpida onda,
não aguenta mais e tal como uma chama suave
loura cera derrete, ou mesmo um sol agradável
ao matutino orvalho, assim, de amor devastado
vai derretendo aos poucos, queimado por fogo escondido,
já não há cor, não há mais alvura ao rubor misturada,
nem vigor, ou forças, ou o agradável ao ser visto,
nem o corpo resta, aquele que outrora Eco amara.
Quando, porém, ela o viu, mesmo ainda lembrada da ira,
condoeu-se, e quantos “ais” o mísero jovem
expirava, os mesmos “ais” com a voz iterava;
quando ele com próprias as mãos feria seus braços,
ela também devolvia o mesmo som das batidas.
Última voz que o jovem lançara ao olhar para a água:
“Ai, menino amado em vão”, e as mesmas palavras
torna o local, e ao último adeus, “Adeus”, diz-lhe Eco.
Ele deita a cabeça cansada na relva virente, e a
morte cerrou os olhos que olhavam a beleza do dono.
Mas ainda depois de acolhido nas ínferas sedes
se admirava nas águas do Estige. Irmãs o choraram,
náiades, que ofereceram ao irmão o cabelo cortado,
dríades o choraram: os prantos, repete-os Eco.
Já o féretro, trêmulos fachos e a pira dispunham:
mas não havia corpo, e uma flor açafrão encontraram
no lugar do corpo, com pétalas brancas em torno. (p.112-3)

Narciso, apaixonado ou identificado com a própria imagem, sofreu profundamente e definhou. Sua morte foi cruel, pois ele sequer teve a possibilidade de compreender sua sentença ou pedir ajuda. Tendo nascido amaldiçoado por sua beleza, esta se transformou em uma nova sentença punitiva por Nêmesis. Na prática clínica, a ‘beleza’ pode ser interpretada como qualquer atributo — físico, intelectual ou social — no qual o ego do paciente narcisista se identifica e se idealiza como forma de defesa contra ataques de um ambiente hostil. Assim, o paciente narcisista sofre e faz sofrer.

É importante ressaltar que no uso coloquial, especialmente nas redes sociais, há muita confusão entre narcisismo e psicopatia, em termos mitológicos, esta seria mais próxima a Tântalo que cometeu diversos crimes contra os deuses, como mentir, roubar a néctar e ambrosia dos deuses e dar a mortais, e o pior dos crimes matou o próprio filho Pélops, para servi-lo de banquete aos deuses, apenas para testar sua onisciência, sem qualquer remorso

Com isso, não pretendo minimizar o sofrimento causado por pessoas narcisistas; apenas indico que são indivíduos que também sofrem. Ao chegarem para psicoterapia—  com alguma frequência por dependência química, depressão ou ansiedade —, frequentemente manifestam um profundo sofrimento associado ao sentimento de injustiça e incompreensão.

O Feminino em Narciso

Um relevante no mito de Narciso é a representação do feminino em Ovídio, que aparece ferido, desprezado e destituído de corpo e voz própria. Essa dimensão é vivenciada de forma distorcida e oprimida, como ilustrado pela ninfa Liríope (mãe de Narciso), violentada pelo opressor deus-rio Céfiso, e pela ninfa Eco, reduzida a uma voz sem corpo — uma representação da capacidade reflexiva esvaziada, puramente mental e desconectada da corporeidade. Esse cenário aponta para uma perturbação profunda na função da anima, evidenciando a incapacidade de superar a dissociação na relação entre o ego e o Self.

Schwarz-Salant (1988) apresenta a versão de Pausânias sobre o mito

Há outra história sobre Narciso, ainda menos popular que a outra, mas nem por isso desprovida de fundamento. Diz-se que Narciso tinha uma irmã gêmea; tinham eles exatamente a mesma aparência: seus cabelos eram iguais, usavam as mesmas roupas e caçavam juntos. Diz a história que Narciso se apaixonou pela irmã e que, tendo esta morrido, ia ele à fonte, sabendo que via seu próprio reflexo, e obtinha, embora disso tivesse conhecimento, algum alívio no seu amor, ao imaginar que via, não seu próprio reflexo, mas a aparência de sua irmã. A flor narciso nasceu, na minha opinião, antes disso, se nos for dado julgar pelos versos do poeta Pamphos. Esse poeta nasceu muitos ·anos antes de Narciso, o téspio,·e diz ele que a Donzela, filha de Deméter, foi raptada quando folgava e colhia flores e que as flores por meio da qual fora ela levada ao sítio onde se deu o rapto não eram violetas, mas narcisos.(p.182)

A versão de Pausânias, embora menos conhecida, ressalta a importância do feminino perdido, personificado na figura da irmã gêmea de Narciso. Essa amplificação relaciona o mito de Narciso aos de Perséfone e Deméter, permitindo uma reflexão profunda sobre o feminino. Schwartz-Salant (1988) considera essa conexão fundamental para compreender a clínica e o tratamento do caráter narcisista

Considerações Finais

“O mito de Narciso, especialmente conforme o relato de Ovídio, auxilia-nos a compreender a psicodinâmica do caráter narcisista. Ele oferece elementos que nos permitem identificar um processo de trauma relacional, situando o caráter narcisista no espectro dos casos limítrofes. Embora o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) corresponda, via de regra, aos casos mais graves, a forma como compreendemos essa psicodinâmica permanece fundamental para o manejo clínico.

Nos próximos textos da série, abordaremos a psicodinâmica e possibilidades de manejo com o caráter narcisita. 

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico. V.2,  3. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. 

OVÍDIO, – . Metamorfoses. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2023. 

SCHWARTZ-SALANT, Nathan. Narcisismo e transformação do caráter. São Paulo: Editora Cultrix, 1982. 

SCHWARTZ-SALANT, N. A personalidade limítrofe: visão e cura. São Paulo: Cultrix: 1992.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257). Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. .

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