Série Conceituando:  A Persona 

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A Persona é um dos conceitos junguianos mais conhecidos. No entanto, sua popularidade não garante uma compreensão aprofundada. Apesar de ser um conceito multifacetado, dinâmico e de grande importância para o desenvolvimento e a clínica, ele é, frequentemente, reduzido apenas ao seu aspecto descritivo mais básico. 

Deste modo abordaremos a persona de forma ampla para situa-la melhor no contexto da teoria e da clínica junguiana. 

Jung possuía uma habilidade ímpar para nomear os fenômenos da psique, atribuindo nomes que permitiam um vislumbre de seu significado e complexidade. A Persona é um desses conceitos. O termo vem do latim, cujo significado é “máscara”, mais propriamente a máscara do ator utilizada no teatro, indicando o papel e a função de cada ator naquele microcosmo que é a peça teatral.

A máscara é a representação mais comum da persona, pois ela abriga os papéis sociais desempenhados pelo indivíduo, mas esta é apenas um aspecto secundário da persona. Whitmont a caracteriza como “uma imagem representacional do arquétipo de adaptação” (WHITMONT, 2002, p.140). Assim, o processo energético da persona dirige-se ao ambiente externo, sendo o principal meio de adaptação à realidade exterior.

A Persona atua no limiar da psique coletiva, conectando e mediando a relação do indivíduo com a sociedade e a cultura. Assim, seus conteúdos não refletem a história pessoal, mas sim a coletiva – os padrões socioculturais de adaptação. Sobre esse aspecto, Jung afirma:

Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual ela é no fundo coletiva. Deste modo surpreendemos “a pequena divindade humana” em sua origem, o Deus geral personificado pela psique coletiva.Por fim, com espanto, percebemos que a persona não é mais que a máscara da psique coletiva.1 [No fundo a persona nada tem de “real”. Ela é um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que “alguém parece ser”: nome, título, função e isto ou aquilo. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, apenas uma imagem de compromisso na qual os outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. (JUNG, 1999, 143).

Por ser uma ponte com a coletividade, a persona possui aspectos mais coletivos do que pessoais; contudo, ela é constituída num dado momento social, possuindo características de complexos, como é apontado por Jung.

A Persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico a individualidade. O complexo funcional da Persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos. (JUNG, 1991, p. 390)

A persona não aponta para o desenvolvimento interior e, por essa razão, não constituiu o foco principal dos estudos de Jung sobre os arquétipos e o inconsciente. Contudo, isso não anula sua extrema importância na clínica, justamente por não ser composta por elementos estritamente pessoais, mas por sustentar processos psicodinâmicos cruciais para o ego.

Persona e Psicodinâmica

A literatura junguiana clássica apresenta uma concepção descritiva da Persona, como indicamos, voltada para os papéis sociais, que, apesar de ser correta, limita a percepção psicodinâmica da Persona. As demais escolas falam muito pouco acerca da Persona. 

No processo de desenvolvimento, a Persona se constitui antes do Ego, sendo um importante deintegrado do Self. Ela se organiza ao longo do processo das relações objetais, manifestando-se inicialmente de forma indistinta dos processos defensivos precoces que mediam a interação do indivíduo com os objetos. 

Seu contorno é delimitado pelo amadurecimento e pela relação com a linguagem, mediada pelas figuras parentais. Através do aprendizado do que é permitido ou não, bem como a internalização das regras e limites,as funções básicas da Persona ganham características próprias ao processo de adaptação ao ambiente. Posteriormente, o aprendizado dos papéis sociais (como filho, irmão, colega de escola, etc.) dão a sua marca distintiva que a caracteriza como o complexo funcional de adaptação da criança ao mundo social.

Em situações favoráveis, a Persona protege o ego do excesso das exigências sociais e favorece o desenvolvimento da identidade e do sentimento de pertencimento aos grupos sociais, possibilitando uma melhor aderência à realidade exterior em detrimento das fantasias inconscientes. Contudo, podem ocorrer situações no desenvolvimento nas quais a Persona atua de forma defensiva, passando a ocultar e proteger o self ao invés de mediar a relação com a realidade exterior. Esse aspecto a torna similar ao Falso Self descrito por Winnicott.

Podemos observar a construção de uma Persona defensiva nas neurodivergências, por exemplo, nas quais visa esconder ou mascarar a dificuldade egoica em elaborar as demandas sociais, fenômeno conhecido como o masking, simulando ou camuflando uma adaptação social que, por fim, produz muito sofrimento psíquico para essas pessoas. 

Nas situações de trauma precoce ou infantil, a Persona se ajusta limitando ou mesmo eliminando a expressão pessoal, a fim de evitar o contato com o sofrimento interior ou novas situações dolorosas. Dessa forma, a criança sacrifica sua espontaneidade e capacidade de expressão criativa, abdicando do brincar simbólico. Quando a Persona se estabelece como estrutura defensiva funcional, a criança pode se tornar inexpressiva, desvitalizada, ajustando-se à expectativa dos adultos e se tornando a ‘criança boazinha’. 

Uma descrição importante do funcionamento anômalos da Persona foi feita Hall, segundo o mesmo

Três destacam-se: (1) desenvolvimento excessivo da Persona; (2) desenvolvimento inadequado da Persona; e (3) identificação com a Persona a tal ponto que o Ego se sente equivocadamente idêntico ao papel social primário.
O desenvolvimento excessivo da Persona pode produzir uma personalidade que preenche com precisão os papéis sociais, mas deixa a imprecisão de que não existe, “dentro”, uma pessoa real. O desenvolvimento insuficiente da Persona produz uma personalidade que é abertamente vulnerável à possibilidade de rejeição e dano, ou de ser arrebatada ou eliminada pelas pessoas com quem se relaciona. As formas usuais de psicoterapia individual ou de grupo são de grande ajuda nessas condições.
A identificação com a Persona é um problema que se reveste de maior gravidade, em que existe uma percepção insuficiente de que o Ego é separável do papel social é vivenciado como uma ameaça direta à integridade do próprio Ego. (HALL, 2001, p.24)

A relevância da Persona para a sustentação do ego manifesta-se no modo como ela atua, seja de forma adaptativa ou defensiva. As situações descritas de excesso, identificação ou insuficiência da Persona sinalizam uma fragilidade egóica, que se mostra incapaz de mediar satisfatoriamente as demandas da realidade externa. Nesses momentos, a Persona passa a funcionar como uma estrutura compensatória e defensiva, garantindo a vinculação do ego fragilizado com o mundo exterior. É crucial compreender seu papel nesses contextos, pois seu colapso representaria o risco de um recuo defensivo à fantasia e a consequente abertura de um processo psicótico.

Há também situações em que, devido à unilateralidade da consciência e à consequente identificação com valores coletivos, a Persona pode se tornar uma instância opressiva e crítica. Nesses casos, o indivíduo está socialmente ajustado, mas experimenta grande sofrimento interior. A Persona atua, então, de forma análoga ao superego severo da psicanálise.

Persona e Individuação

.A Persona é extremamente necessária ao processo de individuação. Sua análise e conscientização constituem uma etapa indispensável em qualquer jornada analítica. Isso se deve ao fato de ela auxiliar na ancoragem do ego na consciência, prevenindo que este seja capturado pela força atrativa das imagens do inconsciente.

Vale ressaltar que é comum observarmos o alinhamento da Persona com os complexos. Por exemplo, na identificação com o complexo materno, o Ego pode adotar uma postura excessivamente cuidadora ou, inversamente, infantilizada (com aspectos de puer ou puella). Em ambos os casos, a Persona manifesta-se de modo parcial e rígido, atuando conforme as características do complexo. Portanto, a análise dos complexos exige, em última análise, a restauração da flexibilidade e adaptabilidade da Persona. 

A compreensão da dinâmica Persona — seja no que tange ao seu aspecto adaptativo ou defensivo — permite que a transformação ganhe expressão externa e auxilie no redimensionamento das relações com os objetos e a realidade externa. Sua elaboração pode auxiliar no fortalecimento do Ego e na adaptação social mais adequada, constituindo um aspecto essencial para o processo de individuação. Jung ressalta que

O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro. Um não pode existir sem o outro, muito embora seja ora um, ora o outro desses aspectos que prevaleça (Jung, 1999, p. 101). 

Considerações Finais

A Persona é um conceito cuja complexidade é frequentemente subestimada. No entanto, a psicologia analítica é um campo em constante evolução, o que torna imperativo repensarmos os conceitos junguianos, buscando ir além de uma perspectiva meramente descritiva e integrando um olhar psicodinâmico essencial para a clínica.

 Aprofundar a compreensão da Persona, por exemplo, exige que a vejamos não apenas como uma “máscara social”, mas como um sistema complexo de adaptação e mediação entre o indivíduo e seu ambiente, que carrega as marcas da história pessoal e das demandas culturais. Essa visão a coloca no cerne da dinâmica do self e do processo de individuação, exigindo uma abordagem clínica que transcenda a simples identificação, focando na sua função, rigidez e nas projeções que ela sustenta.

Referências Bibliográficas

HALL, James, Jung e a Interpretação dos sonhos, São Paulo, Cultrix, 7 ed.2001.

JUNG, C.G Tipos Psicológicos, Vozes, Petrópolis, 1991

JUNG, C.G. Ab-reação Analise de Sonhos, Transferência, Petropolis:Vozes, 1999.

JUNG. C.G.. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 15ed. 2001

WHITMONT, Edward C., A Busca do Símbolo, São Paulo: Cultrix 5e. 2002

Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257). Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. .

2 comments

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Náthally Dias

Explodiu minha mente essa compreensão da persona a partir da psicodinâmica.

    comments user
    Fabricio Fonseca Moraes

    Que ótimo!!! Depois trocamos mais ideias.

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