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Série Conceituando: A Psique Autorreguladora e os Símbolos 

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A psicologia analítica é uma abordagem reconhecida pelo trabalho com os símbolos, que possuem um papel central na teoria e na prática junguiana justamente por serem a expressão dos processos de autorregulação da psique. Portanto, para compreender os símbolos e sua função, é fundamental que primeiro pensemos o processo de autorregulação psíquica. 

 A Psíque Autorreguladora

Jung(2000) compreende a psique como um sistema autorregulador; isto é, ela possui a capacidade de se reorientar, promovendo um equilíbrio energético e dinâmico entre a consciência e o inconsciente. Esse processo, por meio do símbolo,  visa a adaptação e a manutenção da vida, buscando meios que possibilitem o desenvolvimento do indivíduo e do grupo.

A autorregulação tem como ponto de referência a atitude e as ações da consciência, cuja atividade dirigida e voluntária produz, naturalmente, reações inconscientes compensatórias ou equilibradoras, como por exemplo nos sonhos. Contudo, devemos ressaltar que a autorregulação não é um processo ‘automático’, pois depende da consciência reconhecer e ajustar sua conduta à perspectiva do inconsciente, compreendendo suas reações e se ajustando. Ao ignorar a compensação inconsciente, a consciência compromete sua função reguladora, fazendo com que as respostas do inconsciente deixem de operar de modo simbólico e passem a expressar-se como sintomatologia..

Assim, no processo de autorregulação, manifesta-se a tendência natural da consciência e do inconsciente de passar de uma atitude unilateral para uma integrativa. Jung nomeou essa tendência de função transcendente, que promove uma transformação integradora das atitudes inconscientes e da consciência, dando origem aos símbolos .Deste modo, falar de função transcendente é falar de símbolos, vice-versa. A autorregulação por meio dos símbolos promove um estado de integração, no qual desenvolvimento e o processo de individuação se torna possível. 

Por outro lado, temos uma força psíquica complementar que se opõe à integração psíquica, favorecendo a diferenciação da consciência e sustentando a unilateralidade. Jung aponta que 

(…) não é apenas compreensível, mas até mesmo necessário que, em cada indivíduo, este processo seja tão estável e definido quanto possível, pois as exigências da vida o exigem. Mas estas qualidades trazem consigo também uma grande desvantagem: O fato de serem dirigidas para um fim encerra a inibição e ou o bloqueio de todos os elementos psíquicos que parecem ser, ou realmente são incompatíveis com ele, ou são capazes de mudar a direção preestabelecida e, assim, conduzir o processo a um fim não desejado.(…)

A unilateralidade é uma característica inevitável, porque necessária, do processo dirigido, pois direção implica unilateralidade. A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente, a não ser que se trate absolutamente de um caso ideal em que todas as componentes psíquicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma direção. (p.2-3)

A força psíquica que se contrapõe aos processos inconscientes, sustentando a unilateralidade e tornando a atividade consciente estável e dirigida, foi nomeada por Freud como defesas do ego (ou mecanismos de defesa do ego). Embora a escola junguiana clássica evite essa terminologia, as defesas psíquicas, que englobam as defesas do ego e as defesas arquetípicas, atuam de forma complementar e oposta aos processos integrativos e simbólicos da psique.

Defesas afastam, inibem e evitam. Símbolos, ao contrário, aproximam, abrem possibilidades e catalisam processos. Nesse sentido, as defesas configuram uma autorregulação negativa, enquanto os símbolos promovem uma autorregulação positiva, sendo ambas fundamentais e necessárias à dinâmica da psique.

Neste texto abordaremos os símbolos, no próximo abordaremos as defesas da psique.

Símbolos

Os símbolos constituem uma base fundamental da organização psíquica. É através do campo simbólico que a consciência representativa se organiza, ou seja, a nossa consciência é estruturada por meio dos símbolos, especialmente em sua relação com a linguagem. Assim, a compreensão do mundo e de nós mesmos se dá simbolicamente. Jung se referia aos símbolos como transformadores de energia, pois eles catalisam a passagem da energia psíquica entre as instâncias (inconsciente e consciência). Ao aglutinar e redistribuir essa energia na consciência, os símbolos possibilitam uma renovação psíquica e a consequente mudança de atitude do ego.

Para Jung (1991), o símbolo é a melhor expressão possível de algo relativamente desconhecido, isto é, através do processo simbólico, o inconsciente se torna acessível à consciência. Assim, o símbolo atua como uma ponte que integra realidades distintas – a consciência e o inconsciente – permitindo que conteúdos inconscientes se manifestem. Sendo importante ressaltar que 

Os símbolos, como os sonhos, são produtos da natureza, mas eles não aparecem só nos sonhos; podem surgir em qualquer forma de manifestação psíquica: existem pensamentos, sentimentos, ações e situações simbólicos, e muitas vezes parece que não só o inconsciente mas também objetos inanimados se arranjam de acordo com os modelos simbólicos (JUNG, 2000 , p. 214).

Entendemos que pode ser percebido como símbolo para uma pessoa, pode não ser para outra pessoa. No geral, utilizamos dos símbolos culturais como referência, por ter um significado relativamente fixo, contudo, no processo analítico buscamos sempre as referência pessoal, para entender se algo é simbólico para o paciente e qual a função que exerce para o mesmo. 

Os símbolos têm inúmeras possibilidades de manifestação e são naturalmente imprecisos; ou seja, não possuem um significado definido. São polissêmicos, pois comportam diferentes sentidos e possibilidades de interpretações, devido à sua natureza inconsciente. Assim, o símbolo possui uma complexidade maior do que aparenta, encerrando em si um significado oculto, um mistério que atrai e mobiliza o ego. Essa mobilização favorece a modificação da consciência que, por sua vez, conduz a uma atitude integrada, descrita como “vida simbólica” e, consequentemente, ao processo de individuação.

Na “vida simbólica”, o ego não toma um conteúdo mediante o lado racional da consciência, a fim de analisá-lo, isto é, decompô-Io e, dessa forma, digeri-lo, mas, em vez disso, a totalidade da psique se expõe ao efeito do símbolo e se deixa “co-mover” por ele. Essa permeabilidade afeta toda a psique e não unicamente a consciência. (Neumann, 1995, p.263)

Esse processo requer uma atitude apropriada do ego – abertura, interesse ou curiosidade acerca do símbolo. Caso contrário, a representação inconsciente será percebida apenas como um sinal. Isso significa que uma mesma representação pode ser um símbolo (representando mais do que aparenta) ou um sinal (que não vai além do aparente). Como exemplo, podemos pensar num paciente que chega à análise queixando de queimação no estômago. Para ele, esse incômodo é um sinal, revelando apenas uma desordem estomacal. Quando o analista questiona quando começou, o que ocorreu, qual imagem representaria essa queimação, se ele lembra de ter tido queimação em outro momento da vida e quais sentimentos lhe vêm ao pensar nisso, o paciente pode começar a perceber seu sintoma físico como um símbolo, que o leva para considerar sua vida para além da “queimação”. Essa atitude é fundamental, pois

(…)os símbolos gerados pelo inconsciente têm que ser “entendidos” pela consciência, isto é, têm que ser assimilados e integrados para se tornarem eficazes. Um sonho não compreendido não passa de um simples episódio, mas a sua compreensão faz dele uma vivência. (Jung,1999, p. 117)

Os símbolos surgem do inconsciente e podem estar relacionados tanto a elementos pessoais como a elementos coletivos. Os símbolos pessoais, assim, integram elementos da psique individual, como os complexos. Sua compreensão se baseia na história do paciente, pois, mesmo que paralelos arquetípicos sejam possíveis, o sentido está ancorado na esfera pessoal.

Os símbolos coletivos ou arquetípicos podem emergir e se manifestar na psique pessoal; nesses casos, nós os reconhecemos através de sua numinosidade ou carga energética diferenciada, de um aspecto compulsivo e de paralelos míticos evidentes. Os símbolos culturais possuem, da mesma forma, origem arquetípica, mas foram elaborados ao longo do tempo por meio das narrativas míticas religiosas, dos rituais e do sistema de crenças tornando-se conhecidos e acessíveis a um grupo ou comunidade.

Por meio do símbolo, o mundo dos arquétipos penetra, através do homem criador, na esfera da cultura e da consciência. O mundo das profundezas fecunda, transforma e amplia, dando à vida do coletivo e do indivíduo o fundo único que torna a existência plena de sentido. O significado da religião e da arte é positivo e sintético, não apenas para as culturas primitivas, mas também para a nossa cultura e para a nossa consciência superacentuadas, justamente porque elas oferecem um canal de saída para conteúdo e componentes emocionais cuja supressão foi demasiado rigorosa. (NEUMNANN, 1995, p.269)

A autorregulação da psique, mediada pelos símbolos, favorece um movimento integrativo entre consciente e inconsciente, possibilitando a emergência de uma nova atitude psíquica. Na clínica, esse processo se expressa pela ampliação da percepção, pelo aumento da flexibilidade e pela maior segurança interna que o paciente conquista ao permitir-se elaborar simbolicamente suas experiências.

Dessa forma, entender os símbolos é, sobretudo, compreender o processo psicodinâmico de formação e elaboração simbólica. Os significados contidos em símbolos culturais, presentes nos dicionários de símbolos, nos auxiliam a estabelecer referências e amplificações para a compreensão dos símbolos que emergem na vida do paciente. No entanto, é fundamental reconhecer que somente ele poderá apontar qual o sentido genuíno do símbolo para sua vida.

 Referências bibliográficas

,JUNG, C.G. A Vida Simbólica V.1, Petropolis: Vozes, 2000.
,JUNG, C.G. Tipos Psicológicos, Petrópolis: Vozes, 1991.
JUNG, C.G. A prática da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999
NEUMANN, E. História  da Origem da Consciência. São Paulo: Cultrix, 1995 

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257). Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. .

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