Borbulhas de Amor – Comédia romântica de Natal — ou como dois traumas relacionais se encontram no amor
Comédia romântica de Natal — ou como dois traumas relacionais se encontram no amor
Borbulhas de Amor se apresenta, à primeira vista, como aquilo que promete: uma comédia romântica natalina, ambientada em cenários europeus encantadores, atravessada por encontros inesperados, diálogos leves e a conhecida promessa de que o amor pode surgir quando menos se espera. É um filme que convida ao conforto, à distração e à fantasia de recomeço tão característica das narrativas de Natal.
No entanto, quando observado com atenção clínica, o filme revela algo mais profundo do que sua superfície sugere. Por trás do tom leve e da estética acolhedora, Borbulhas de Amor constrói uma narrativa sobre o encontro entre duas pessoas marcadas por traumas relacionais, cada uma defendendo-se da dor à sua maneira, e tentando amar a partir dessas defesas.
O mérito do filme está justamente em não transformar o trauma em espetáculo nem em discurso explícito. Ele não aparece em grandes cenas dramáticas ou em confissões extensas, mas se manifesta onde a clínica reconhece com facilidade: no ritmo do vínculo, na dificuldade de sustentar presença, no medo que surge quando o amor deixa de ser promessa e começa a exigir continuidade.
A protagonista feminina, interpretada por Minka Kelly, é apresentada como uma mulher funcional, competente e emocionalmente organizada. Ela trabalha, escolhe, decide, se movimenta pelo mundo com autonomia. Não há nela qualquer traço de fragilidade caricata. Ainda assim, algo se fecha quando o vínculo começa a ganhar densidade. O amor, para ela, não é apenas desejo; é risco. E esse risco não pertence apenas ao presente, mas à memória.
Seu modo de defesa é sofisticado e socialmente valorizado. Ela se protege através da autonomia, do controle emocional, da ironia sutil e da capacidade de sair antes que algo a atravesse profundamente. Não se trata de incapacidade de amar, mas de um medo antigo de se perder no vínculo, medo que costuma ter raízes em histórias precoces de instabilidade afetiva, abandono emocional ou experiências de amor que exigiram um preço alto demais.
O protagonista masculino, por sua vez, também carrega marcas importantes de trauma relacional, ainda que expressas de forma diferente. Ele não é o personagem inteiro que chega para salvar alguém ferido. Sua história é atravessada por perdas, frustrações e experiências em que amar significou investir mais do que recebeu. Ao contrário dela, sua defesa não é o afastamento, mas a insistência. Ele sustenta a esperança como forma de não entrar em contato com o medo de reviver abandonos anteriores. Amar, para ele, torna-se uma tentativa constante de reparação.
Essa diferença de estilos defensivos é um dos pontos mais interessantes do filme. Ela evita para não sofrer; ele insiste para não perder. Ambos estão respondendo à dor, não à ausência dela. E é justamente essa diferença que cria a tensão central da narrativa. O conflito não nasce de traições, vilanias ou obstáculos externos clássicos das comédias românticas, mas do encontro entre duas histórias psíquicas que se tocam em pontos sensíveis.
Do ponto de vista da psicologia analítica, compreendemos que os vínculos amorosos frequentemente constelam conteúdos inconscientes relacionados à história afetiva primária. O amor não surge apenas como escolha consciente, mas como campo simbólico onde antigas experiências buscam repetição, elaboração ou transformação. Como lembra Carl Gustav Jung, aquilo que não é tornado consciente tende a retornar na vida como destino — não como lembrança, mas como repetição relacional (paráfrase clínica a partir das Obras Completas, especialmente CW 9/2 e CW 16). Em Borbulhas de Amor, o encontro entre os protagonistas não é casual. Há um reconhecimento silencioso, uma familiaridade afetiva que não se explica apenas pelo presente, mas pela ressonância entre feridas semelhantes, ainda que expressas de formas opostas.
O filme também acerta ao utilizar o Natal não apenas como pano de fundo estético, mas como amplificador simbólico. O Natal, enquanto arquétipo cultural, representa pertencimento, casa, continuidade, memória e promessa de união. Para sujeitos marcados por falhas nesse campo, essa época do ano costuma intensificar tanto o desejo de vínculo quanto o medo profundo de perder. O amor, nesse contexto, aparece carregado de expectativas simbólicas que excedem o próprio relacionamento.
É nesse ponto que o título original do filme, Champagne Problems, ganha densidade simbólica. A expressão costuma ser usada para minimizar dores consideradas pequenas ou fúteis, típicas de quem, em tese, não teria motivos “reais” para sofrer. O filme, no entanto, desmonta essa ideia ao mostrar que o sofrimento emocional não se mede pela gravidade externa dos acontecimentos, mas pelo impacto psíquico que eles produzem. O que parece um bloqueio banal ou uma hesitação exagerada é, na verdade, a expressão de uma história que não encontrou ainda simbolização suficiente.
Quando o vínculo entre os protagonistas começa a se aprofundar, o filme mostra com delicadeza aquilo que a clínica conhece bem: pessoas traumatizadas não têm dificuldade com relações instáveis; têm dificuldade com relações possíveis. A disponibilidade do outro, em vez de oferecer apenas segurança, pode gerar angústia, pois exige a desmontagem de defesas antigas. Amar alguém que fica convoca responsabilidades emocionais que o trauma tenta evitar ou controlar. Como observa Donald Kalsched, o trauma não desaparece na vida adulta, mas organiza defesas internas que moldam a forma como o sujeito ama, confia e se vincula (Trauma and the Soul).
Não há, em Borbulhas de Amor, a fantasia de que o amor cura tudo. O filme se mantém honesto ao mostrar que o encontro amoroso pode aquecer, revelar e oferecer novas possibilidades, mas não substitui a elaboração psíquica. O amor não apaga o passado, nem garante que ele não se repita. O que ele pode fazer é criar um espaço onde a repetição deixa de ser automática e passa a ser questionada.
Do ponto de vista junguiano, poderíamos dizer que o filme apresenta um momento de possível conscientização. O vínculo amoroso constela conteúdos inconscientes que, se reconhecidos, podem ser integrados de forma menos destrutiva. No entanto, essa integração não acontece por decreto narrativo. Ela exige tempo, trabalho interno e, muitas vezes, ajuda externa. O cinema, ao encerrar o filme em 1h39, pode sugerir um final esperançoso, mas a clínica sabe que o verdadeiro trabalho começa justamente quando as borbulhas iniciais se dissipam.
Talvez o aspecto mais maduro de Borbulhas de Amor seja a ausência de vilões. Não há alguém errado, mau ou inadequado. Há apenas duas pessoas tentando amar com as ferramentas psíquicas que possuem. O conflito não é moral, mas histórico. Não se trata de falta de caráter, mas de excesso de defesa. Jung já observava que o encontro amoroso mobiliza conteúdos inconscientes profundos, pois “o relacionamento com o outro é sempre, em grande medida, um relacionamento consigo mesmo” (A prática da psicoterapia). Essa afirmação ecoa silenciosamente ao longo de todo o filme.
O filme, assim, pode ser visto como uma metáfora suave, porém precisa, do que acontece quando duas histórias feridas se encontram. O amor surge, mas não como solução mágica. Surge como possibilidade, como convite e, sobretudo, como espelho. Ele mostra o que ainda dói, o que ainda assusta e o que ainda precisa ser cuidado fora da fantasia de que o outro dará conta de tudo.
Em última instância, Borbulhas de Amor fala menos sobre finais felizes e mais sobre a chance de interromper repetições. O que permanece em aberto não é se o casal ficará junto, mas se cada um conseguirá sustentar o vínculo sem exigir que o outro repare aquilo que pertence à própria história. Essa é uma pergunta que o cinema não responde plenamente, mas que a clínica encontra todos os dias.
Talvez seja justamente aí que o filme se torne mais interessante do que aparenta. Ao invés de oferecer apenas conforto, ele deixa uma inquietação sutil, quase imperceptível, mas profundamente humana: amar é possível, mesmo quando se carrega dor, desde que o amor não seja convocado como cura, mas como espaço de consciência.
Suzana Martelo de Carvalho Ohlsen
Parabéns pela leitura e análise do filme. Ainda não assisti mas fiquei com vontade depois desse artigo.
Viviane Lahorgue
Suzana, eu adoro filmes de Natal. À parte do mote da mensagem de espírito de natal, temos sempre símbolos, arquétipos, uma riqueza junguiana profusa.




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